JARRETY, Michel

La moral dans l´écriture: Camus, Char, Cioran, de Michel Jarrety

Presses Universitaires de France (PUF), Paris, 1999

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Saímos agora de uma época em que a disjunção radical do autor e da obra conduzia a enxergar a relação do autor com o mundo, no que concerne ao essencial, apenas sob a forma de um engajamento que, justamente, o desligava em grande medida daquilo que o havia feito escritor, e que o estabelecia entre os intelectuais. O prestígio que seus livros lhe proporcionavam poderia sem dúvida fundar a autoridade que se lhe reconhecia: ela se dissociava, contudo, em grande medida, daquilo que ele pôde ter escrito e procedia menos do autor em si mesmo que da figura pública que fora construída a partir dele. Assim socializado, rebaixado à vertente da história cultural e do político, a presença do autor no mundo encontrava-se, por um lado, desvinculada dos valores que precisamente os seus livros colocam em ação, e dos quais só se retinha, no melhor dos casos, princípios abstratos, isto é, separados a uma só vez da experiência privada que os forjara e da forma que lhes conferia sua força. Quanto às proposições que sua palavra pública formulava, a eficácia exigia fatalmente que elas não fossem apenas a sua.

Pois bem, essas posições coletivas de escritor engajado, preocupados em colocar ao serviço da comunidade o reconhecimento que seus livros lhe proporcionam, não seria possível confundi-las com os valores singulares que, por sua vez, trabalham uma obra, e que, por outro lado, a definem ao mesmo tempo que se descobre nela a ética do escritor. Confusão que o termo de moralista certamente facilita, se ele supõe que o escritor se volta a outrem, entendido como leitor, tudo junto, e como o objeto de estudo ou de interesse. Num primeiro sentido, tão logo a saliência de uma palavra um pouco sentenciosa demais ou bem prescritiva permita que o escritor que a prefere seja qualificado de moralista, e às vezes independentemente do que sua obra realmente afirma: é, por um lado, a ambiguidade, de Camus. Em um segundo sentido, tão logo uma leitura demasiado apressada dos textos justifique que também seja designado como tal o escritor cujos livros, por uma temática de aparência pessimista ou uma forma de aparência fragmentária, parecem se inscrever na continuidade da era clássica: elude-se então de bom gado a questão de saber se essa obra responde a uma exigência pessoal que a separa das outras – eis um traço da modernidade – ou se ela se volta, contrariamente, em direção a uma comunidade suscetível de compartilhar aquilo que ela afirma.

Falar de moral na escritura seria então analisar as flutuações desses dois sentidos e as incertezas propriamente literárias que eles supõem, e repensar, por esta perspectiva, o que é que liga moralmente um Sujeito à sua obra e ao mundo. Não que se tratasse de retornar a um biografismo qualquer, nem de reduzir a diferença entre o ser empírico e a instância da escritura, e sim de buscar como uma experiência existencial informa, por um lado, a obra que não a exprime como tal – ela a põe em distância e, no entanto, a mantém – e define, para alguns escritores, a preocupação ética de não eludir, durante o ato mesmo de escrever, os valores que essa preocupação supõe, e que a escritura mesma permite formular. Uma preocupação de verdade procede dela, cujo outro nome, e talvez melhor pois desvinculado de toda tentação de absoluto, é autenticidade, que não separa o escritor do sujeito que ele permanece sendo: não pelo que ele afirma no século, mesmo se sua obra for lida, mas pelo que Yves Bonnefoy denomina a verdade da palavra. A análise não cessará de reforçar aqui, portanto, a distinção necessária entre uma moral recebida como código de prescrições coletivas que remete fatalmente a imperativos derivados de valores absolutos e às vezes transcendentes, e uma ética definida, por outro lado, como essas regras de vida individuais e imanentes, relativas à felicidade de quem as escolhe por si mesmo. Destarte, uma vez que não se tratará de enxergar a maneira pela qual uma moral compartilhada se exprime numa obra, nem como esta poderia reafirmar aquela, ou, do contrário, contestá-la, e sim a maneira pela qual valores singulares são construídos para governar, por um mesmo movimento, tanto uma existência quanto uma obra, fica evidente que este livro teria sido mais justamente intitulado Éthique et écriture. Mas se a ética se tornou, hoje em dia, uma apelação eufemística, pusilânime e, enfim, mundana, de uma moral que não se confessa de medo de que seja recusa sua medida necessariamente prescritiva, enquanto que por detrás dela, porém, é na realidade a moral que avança mascarada para conjurar justamente o perigo de toda ordem moral – e o termo ética arriscava prestar-se a mal-entendidos, de modo que me pareceu, por fim, mais eficaz optar por La morale dans l´écriture, cujo benefício é, por outro lado, o de manter mais claramente a referência aos moralistas.

Referência frágil, pois o escritor moderno se aprofunda em diferenças sensíveis em relação a eles. Ele não é mais o depositário de valores que compartilharia a comunidade social ou religiosa à qual ele se encontra integrado, e porque o romantismo fez do indivíduo um Sujeito, contra uma moral comum, senão verdadeiramente universal, cada vem a ser insensivelmente o fundador de uma ética singular. A entrada de força da História abre então uma segunda diferença: desde o final do século XVIII, o pensamento do mundo se historiciza, sob a forma de um progresso possível ou na desilusão que se segue. Diversas obras contemporâneas o testemunham, e certamente aquelas que são escritas na virada da Segunda Guerra mundial. A situação do escritor, a solidariedade com o presente da História e com a comunidade que ele encarna, se encontram perturbadas, estremecidas às vezes – e confirmam frequentemente o exilo que rebaixa o sujeito sobre ele mesmo, se for verdade, para retomar uma fórmula de Gracq, que o sentimento do não predomina nele sobre o sentimento do sim. Porque, enfim, essa evolução é acompanhada daquilo que se nomeia comodamente a Morte de Deus, acontecimento este que é ele mesmo histórico no pensamento ocidental, os valores comuns se encontram tanto mais corroídos quanto a passagem a uma moral pós-kantiana fundada sobre a responsabilidade própria ao Sujeito, muito mais que sobre a submissão a um corpo de valores compartilhados, encontra sua verdadeira medida no comportamento próprio de cada um. O sentido do termo de moralista encontra-se, por isso, radicalmente alterado – ao ponto de nos fazer duvidar da possibilidade de ainda recorrer a ele sem demasiada confusão.

De tais questões, pareceu-me que poderia haver alguma pertinência em mostrar como elas trabalham as obras de Camus, de Char e de Cioran, por aquilo que os distingue com evidência – sua escritura antes de mais nada, a aceitação ou a recusa de uma forma de engajamento, uma presença no mundo contestada de modos diversos, valores orientados à comunidade ou, pelo contrário, separados dela – mas igualmente aquilo que os aproxima suficientemente para que os estudos a serem lidos não sejam destituídos de coerência. Pode ter acontecido, com efeito, que cada um deles tenha sido qualificado como moralista, e por razões de tal maneira diferentes que tentarei mostrar que elas não são nunca totalmente convincentes: o primeiro, pela preocupação com que se prestou a fundar uma moral, e o vigor com que se pôs a defender publicamente valores que ele alçava de bom grado ao universal; os dois outros pelo parentesco que alguns de seus fragmentos, reunidos sobre uma proposição de tonalidade às vezes geral, citados frequentemente de maneira ornamental, poderiam ter com a cunhagem da máxima. Essa qualidade de moralista tinha, evidentemente, muito a ver com o vigor de afirmações que desmascaram de bom grado, e à amarga lucidez que suas obras testemunham: não é indiferente, portanto, que estes três escritores tenham conhecido as provações – e as desilusões – próprias à mesma geração. O que se descobre neles de pessimismo, eles lhe opõem, não obstante, uma contestação potente no desejo, segundo a bela fórmula de Char, de se forjar uma santidade da infelicidade. Esta falha aberta entre o que se pode viver como felicidade e pensar como infelicidade é, então, essencial, ainda que ela seja marcada em cada um deles de maneira diferente: pela harmonia com o mundo sensível segundo Camus ou mesmo Char, pela confissão, em Cioran, de um amor pela vida sua obra desmente mas que, não obstante, deixa entrever na jubilação da escritura.

A mesma recusa da ordem presente se manifesta em todos os três, mas ela toma uma forma diferente para cada um, abrindo à revolta, mas ao cuidado do outro, em Camus, a uma vontade de ruptura pessoal em René Char, e ao sofrimento, em Cioran, de estar implicado na aventura humana entendida ao mesmo tempo como experiência da História e do ser: uma radical recusa da comunidade o acompanha e, a propósito do outro [enquanto alteridade, outrem], uma distância que não suprime a detestação, e que o distingue tanto de Camus quanto de Char. Estes não perdem a desesperança de endereçar-se ao homem: Cioran, pelo contrário, o abandona à sua queda. Resta, porém, para cada um deles – e isso pode ser talvez o essencial daquilo que faz sua modernidade e que foi até agora insuficientemente sublinhado – a nostalgia mais ou menos manifesta de uma anterioridade perdida, e, ao mesmo tempo, a preocupação, que será necessário avaliar em sua justa medida, por uma forma de transcendência que é também, talvez, uma forma de nostalgia. Com a permissão dada ao sentido que o cristianismo teria podido impor e que cada um deles recusa, na recusa mantida de uma espera simplesmente carregada de esperança, todos os três preservam, assim, em sua relação com o mundo, a preocupação essencial com uma plenitude diferentemente esperada, e de uma soberania essencial que se trata de conquistar, no enfrentamento, para Char, daquilo que lhe parece condenável ou mesmo desprezível, no desejo, para Camus, de uma ação compartilhada, capaz de abrir a uma harmonia mais justa, e totalmente ao inverso, em Cioran, na recusa de se submeter a uma má História em que o desastre humano não pode senão aumentar. Pensamentos do presente, em todo caso, que, rompendo com as ideologias confortáveis do progresso, desfaz constantemente a ilusão de um futuro projetado como melhor, ou seja, separado, e só se apegam a uma maneira de melhor viver em uma lucidez constantemente reconquistada que é precisamente o que abre, em cada um deles, a tensão essencial entre o mais sombrio pensamento do real e, não obstante, a aceitação do que é.

Quanto aos valores forjados por esses três escritores, o essencial não será, portanto, estuda-los no prolongamento que eles puderam ter no exterior, mas no embasamento interior, isto sim, que eles constituíram para suas obras. Do lado exterior, com efeito, cada um deles, face a seu tempo, escolheu uma posição diferente: Char combateu com as armas e Camus com a pluma; quanto a Cioran, após a complicação dos anos romenos e o infeliz apoio à Guarda de Ferro fascistizante, ele se recusou ariscamente a assumir toda posição pública, preferindo se estabelecer em uma solidão essencial e não se responsabilizar pelas consequências daquilo que ele escreve. Do interior, porém, a dimensão plenamente ética de sua obra se descobre identicamente na recusa radical, formulada com frequência de maneira univitelina, a expressar o que quer que seja que não tenha sido intimamente experimentado – na experiência justamente daquilo que permanece uma maneira de drama pessoal: de onde o aval concedido por todos os três a toda proposição abstrata, ou seja, separada do mundo, como a todo pensamento desvinculado daquele que o enuncia. A questão da recepção se coloca, portanto, em termos distintos a cada vez pois, se Camus direciona sua obra de bom grado aos leitores suscetíveis de se reconhecerem nela, René Char o distancia mais – é particularmente o que se denomina seu hermetismo –, e Cioran deliberadamente a rebaixa em nome da irrealização pessoal que a funda. Ler essas obras na maior proximidade com aquilo que elas significam não é trair essa diferença em que se afirma particularmente a tensão entre a moral e a ética, a difícil partilha entre uma e outra que, ademais – e é isso precisamente que me reterá aqui –, governa o sentido que pode haver, afinal de contas, em escrever.

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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