JAUDEAU, Sylvie

Cioran ou le dernier homme, de Sylvie Jaudeau

José Corti/Les Essais, Paris, 1990

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O pessimismo da obra de Cioran só aparece para aqueles que não penetraram o seu senso último. Essa fúria contra si não passa de uma maneira de ir até o limite de si mesmo, em que percebemos todas as etapas de um autêntico caminho espíritual que, de ruína em ruína, revela finalmente o homem último corroído pela lucidez. Mais do que um homem sem fé, é um homem decepcionado que, à exemplo dos budistas, vê nesse desencantamento a via real em direção à consciência suprema do nada. Contudo, Cioran se sente uma familiaridade mais profunda com os gnósticos cristãos. Ele professa, como eles, que o único saber ao qual o homem pode aspirar é que este mundo é o produto de uma queda. O homem mergulhado no tempo não deseja outra coisa senão evadir-se do tempo mesmo e reintegrar o estado edênico originário. Não se trata de ignorar esse mal, mas de liberar-se dele, de exorcizá-lo, de mantê-lo à distância mediante as palavras. Assim, o desesperado pela salvação torna-se esteta. A beleza do estilo cura-o do seu mal de ser. Mas, assim purgado desse mal, ele encontra-se igualmente curado de si mesmo. O último homem é um homem vazio. É o sábio dos tempos modernos.

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