Marín T., Joan

Cioran o el laberinto de la fatalidad (“Cioran ou o labirinto da fatalidade”)

de Joan M. Marín, Institució Alfons el Magnànim, 2001 (Valência, Espanha)

Introdução

É difícil encontrar em Cioran características comuns ao resto dos pensadores contemporâneos. Distanciado das instituições acadêmicas e dos denominados circuitos culturais, à margem de qualquer escola filosófica ou movimento intelectual definido, desenvolveu um pensamento radical alheio às eventuais circunstâncias e conjunturas. Sua imagem de pensador solitário, independente, quase privado, contrasta com o afã de tantos intelectuais coetâneos interessados na institucionalização da cultura e em impor sua presença nos meios de comunicão de massa. Alguns de seus comentadores tentaram agarrar o talante atípico de Cioran evocando os modelos do boêmio, do romântico e do dândi. Indiscutivelmente, Cioran guarda traços específicos de cada uma dessas figuras emblemáticas do final do século XIX. Assim, à margem da boemia transcorreu sua pouco convencional biografia; a paixão de seus sentimentos remete a um romantismo exacerbado, e respira dandismo sua propensão a assenhorar-se à beira do abismo. Mas ainda mais revelador é o fato – ademais comum a estes arquétipos – de que, à exceção de um único curso como professor de filosofia, jamais exerceu profissionalmente nenhum trabalho.

Esta peculiaridade adquire uma importância sintomática e diferenciadora se temos em mente que a filosofia, desde o século XVIII, se converte preferencialmente em uma profissão. A partir de Kant, os manuais estão repletos de professores de filosofia. O ofício do filósofo perde paulatinamente suas diferenças em relação às demais profissões liberais que desenvolvem sua atividade em um espaço determinado – como o escritório ou a sala de aula – durante um horário estabelecido, ainda que, assim como no resto das profissões liberais, com a possibilidade de levar o trabalho – de pensar – para casa. Nas antípodas do filósofo-professor-profissional, Cioran remete ao pensador vocacional que viveu seu pensamento, mas não viveu do que pensou.

A obra de Cioran carece de sistema. Seu pensamento, muito embora amadurecido penosamente ao longo de sua vida, é de “momentos únicos”, produto da lucidez e de inspirações geniais. Os amantes de reflexões minuciosas e detalhadas se sentirão desorientados e decepcionados ante uma forma de expressão que frequentemente só oferece a conclusão, o fruto já amadurecido de dias – talvez anos – de meditação ou, simplesmente, de um instante iluminado. Cioran conserva um espírito aforístico inclusive em suas criações mais extensas, limitando-se a monstrar tão-somente o resultado – concentrado e refinado até o limite – de sua reflexão. Sob o impacto de suas corrosivas revelaciones – caricaturas subversivas, deboche de opiniões acriticamente aceitas, perspectivas insuspeitas que nos mostram o caráter problemático do óbvio – cabe ao leitor buscar as premissas implícitas, reconstruir o itinerário. Seus texttos inquietam frequentemente ao injetar em nossas consciências o estimulante da dúvida, às vezes paralisam devido à destruição dos referenciais, com frequência seduzem por sua beleza literária e sempre fazem pensar.

O pensamento de Cioran é labiríntico, pois oculta a gênese de sua clarividência. Este livro pretende orientar o leitor através do labirinto de fatalidades que encerra sua obra, percorrer cada uma de suas estâncias, encontrar os passadiços que lhes comunicam, enlaçar como Ariadne uma argumentação que nos conduza por seus intrincados passadiços. Este percurso não esconde uma tentativa oculta de sistematização, mas a intenção de estabelecer com o autor um diálogo direto através de seus textos. Há muitas formas de percorrer o labirinto, ainda que nem todas encontrem a saída; a princípio, nada impede a existência de ter várias ou nenhuma sequer. Definitivamente, ao adentrar o pensamento de Cioran, tratei de elaborar um discurso entre uma pluralidade de possíveis, adotando como metodologia ideal a prescrição de Nietzsche para enfrentar o aforismo: exercitar-se na arte da leitura lenta e aprender a ruminar.

Sobre o autor: Joan Manuel Marín trabalhou preferencialmente no âmbito do pensamento trágico e da filosofia “não-institucional”, de onde seus ensaios Agnosticismo y estética: estudios schopenhauerianos (Valencia, Nau, 1985). Antígona a debat (Castelló, Diputació, 1993) e E. M. Cioran, l’escriptura de la llum i el desencant (Valencia, 7 i mig, 1999). Interessou-se igualmente por temas relacionados à estética, ao desenho e à publicidade. Atualmente, é professor de Filosofia no IES (Institut d’Educació Secundària) de Benicàssim e de Estética na Universitat Jaume I de Castelló. (da orelha do livro)

Tradução do espanhol: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

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