Mécontentement

Post-Scriptum: O descontentamento de Cioran
(« Le mécontentement de Cioran »)
Clément Rosset

– Nada tens a declarar?
– Sim, senhor, tenho a declarar… que estou longe de estar satisfeito!
Christophe, A ideia fixa do sábio Cosimus

O que chamo de o descontentamento de Cioran, na falta de um vocábulo melhor que poderia ser “in-contentamento”, se tal palavra existisse, é alheio a qualquer ressentimento, a qualquer razão de querer mal a alguma pessoa ou ser particulares. Ele tem por objeto a existência em geral e designa uma dificuldade aparentemente insuperável em aclimatar-se a ela – em filiar-se a ela, captar seu tom, sua dobra, para retomar os termos do próprio Cioran, cuja escritura sabiamente colorida diz sempre e necessariamente mais dela, no vivo dos pontos sensíveis, do que uma análise abstrata pode relatar. Definirei sumariamente esse descontentamento como o sentimento da insignificância, o pensamento permanente – pensamento que se esquece às vezes, mas que nunca se expulsa nunca, pois ele volta, invariavelmente, a se insinuar para a consciência no momento em que se estaria tentado a se deixar conquistar por urna alegria do mundo – da igual e morna insignificância de qualquer coisa. Considerando-a filosoficamente, qualquer coisa que venha a existir é, grosseiramente falando, duplamente insignificante: por ela mesma (insignificância “intrínseca”) e por sua relação com as outras coisas (insignificância “extrínseca”). Insignificância intrínseca: a existência é agregado, encontro, fruto do acaso; ela não apresenta sentido na medida em que não pode se autorizar de necessidade alguma (aqui Cioran está de acordo com Lucrécio e com Pascal). Insignificância extrínseca: a existência é derrisória pela situação que ela ocupa, imperceptível, nas séries do espaço e do tempo (aqui Cioran está de acordo com Pascal e Kierkegaard). Convém precisar de maneira breve a natureza dessa situação derrisória onde reside toda coisa existente. Situação simplesmente “insustentável”, como ensinam quase todos os filósofos desde Parmênides e Platão, por não pertencer nem ao registro do que é (pois a existência não tem privilégio nenhum dos privilégios do ser, sendo este não-gerado, imperecível, eterno), nem ao registro do que não é (pois a existência também não tem o privilégio do nada). A coisa que existe aqui e agora, comparada com tudo o que existiu, existe e existirá aqui como noutra parte, é, se posso dizer, infinitamente pequena demais para pretender a uma consideração qualquer; mas, no entanto, essa coisa existe. O paradoxo da existência – Cioran acrescentaria, não sem alguma razão, seu horror – é, pois, de uma só vez, de ser alguma coisa e de não contar para nada. Sendo demais para ser considerado nada, mas pouco demais para ser levada em conta, a existência se apresenta apenas em estado de traço que não pode ser dosado, como dizem os químicos, quando estabelecem que um elemento está presente na solução que analisam, mas numa quantidade pequena demais para ser apreciável. É o que  acontece com toda coisa existente: inapreciável porque pequena demais, tal qual uma sombra que não se conformasse com corpo algum. A ordem do tempo e da morte, que faz de toda realidade uma realidade nata-morta e de todo presente um tempo já póstumo, é o aspecto mais imediatamente vistoso e doloroso dessa incurável pobreza da existência, de sua incomensurável “pequenez”. – Porém, nem a sujeição ao tempo, nem o pertencimento antecipado à morte, temas sobre os quais Cioran volta – sem descanso, não bastam talvez para descrever completamente o derrisório da existência, tal como o concebe e ressente Cioran. Antes de ir adiante, abro um parêntese para fazer observar a virtude crítica inerente a tal disposição de espírito, sombria dentre todas. É que o conhecimento do desastre não incita muito à complacência. Para quem está a par da extensão dos danos, qualquer apresentação de ideias, notadamente novas, oscila geralmente entre o frívolo e o indecente. E de fato, diante das principais trivialidades filosóficas deste século, Cioran é um dos raros pensadores a ler conservado completamente o espírito claro e a cabeça fria. Ele é assim um dos únicos filósofos de nossa época, se não o único, que não pode ser suspeito de religiosidade; precisamente por ter percebido a dose de religiosidade que se esconde na maioria das ideologias modernas, as quais reintroduzem a  religião que pretendem combater sob as espécies novas do sentido da história ou da cientificidade. No Précis de décomposition e La téntation d’exister, Cioran juntou justamente estas formas modernas da crença, mais do que nunca detestáveis e nocivas, à sua sempiterna origem: a incapacidade de saber o que se sabe, de assumir seu próprio saber. Toda crença se nutre apenas de um horror acerca de sua própria lucidez, sustenta-se apenas de um combate incessante contra a evidência – combate que seu caráter desesperado, a mais ou menos longo prazo, contribui para tornar lamentável e mesmo heroico. As forças vivas estão, aqui, do lado daqueles designados de bom grado como submissos e oprimidos, quando são os verdadeiros agentes e opressores; pois neste combate o Estado, a Igreja, a policia têm apenas um papel secundário, como observa Cioran: não provocadores, mas recepcionistas da vindicta geral, simples organizadores do ódio. É esse o papel funesto e ativo do que Cioran chama de “o intelectual cansado” em La tentation d’exister: “Declinando a honra de assumir suas próprias ansiedades, ele se engajará em empreendimentos dos quais tirará sensações que não poderia extrair de si mesmo, de modo que os excessos de sua fadiga fortalecerão as tiranias. Igrejas, ideologias, policias, procurem a origem delas no horror que ele nutre por sua própria lucidez, mais do que na estupidez das massas. Este aborto se transforma, em nome de uma utopia de joão-ninguém, em coveiro do intelecto, e, persuadido de fazer obra útil, prostitui o “bestialize-se’, divisa trágica de um solitário.”

Voltando agora a questão mais cruel, que constitui, a meu ver, o ponto sensível do descontentamento de Cioran it direi o seguinte: que a consequência mais dura da mesquinhez de toda existência em relação ao infinito e a interdição que se segue de constituir o que e quem quer que seja em objeto de amor ou de interesse, quaisquer que possam ser, aliás, os títulos de um e de outro. Que o que há de mais belo no mundo, e tomo ‘belo” nos sentidos mais variados do termo, não possa ser amado sem reserva, já que esse belo é apenas um existente dentre outros, é a fonte do mais profundo desespero que talvez haja (se foi nesse sentido que ele escreveu “a arte é o que desespera”, Valéry terá escrito ao menos uma coisa profunda). A mesquinhez da existência, atacando-se a tudo, mina também o melhor dela, reduz qualquer coisa à condição derrisória e humilhante de não ser senão essa coisa e nada mais. Nada de lugar reservado na mixórdia da existência: a sina de nada ser de apreciável ‘é a mesma para todos. O dom da existência é um presente envenenado, já que acompanhando-se, automaticamente, de uma impiedosa intimação para a pequenez na ordem do infinito; por isso Cioran professa que a existência é uma vergonha, uma humilhação sem possibilidade de recurso ou de resgate,  uma minoração  paradoxal para o homem que troca, ao nascer, um potencial infinito pela “fragilidade imunda” da existência. O inconveniente de ter nascido, tí-tulo de uma célebre coletânea de Cioran, confunde-se com o inconveniente geral de existir, de ser um isso para sempre desprezível na infinidade de todo aquilo. Os espanhóis dizem, de uma pessoa que teve fortuna e seu nível social declinados, que ela “veio a menos” (ha venido a menos). Cioran diria o mesmo de todo nascimento. Vir à existência é realmente venir a menos; melhor, é dever, definitivamente, reprimi-la de toda pretensão. Mais ainda do que o pensamento do efêmero e da morte, a consciência daquilo que Cioran chama de “presença ínfima” condena o princípio mesmo de toda existência. Se essa consciência não briga com ela até a morte, por meio do suicídio, proíbe, ao menos, qualquer participação ativa nela. “Esta manhã, depois de ter ouvido um astrônomo falar de milhares de sóis, desisti de me arrumar: para que continuar a se lavar?” Do mesmo modo, em De l’inconvenient d’être né: “Dentro de cinco mil anos a Inglaterra será, parece, inteiramente recoberta pela água. Se eu fosse inglês, deporia, antes de tudo, as armas”. Esse sofrimento ocasionado pelo sentimento lancinante da presença ínfima e de outra ordem, e mais cruel, do que qualquer humor cético ou pessimista. Montaigne ou Schopenhauer, por exemplo, que conhecem, no entanto, tão bem quanto Cioran, o assunto do derrisório, conformam-se bastante bem, e mesmo de modo bem alegre, no caso de Montaigne, com a existência. Talvez apenas Pascal, dentre os filósofos, sofreu essa angústia: do pensamento que não há relação alguma concebível entre o finito e o infinito.

Seria necessário precisar que o ponto nevrálgico desse descontentamento, ia dizer seu ponto forte, é que ele exclui de si mesmo e de saída toda ideia de apaziguamento? Não há “arranjo com o Impossível”, retomando uma palavra de Cioran em os Syllogismes de l’amertume. Também nada ha para esperar da verdade: “todas as verdades são contra nós”, “fora o Irremediável, tudo é falso” (Précis de décomposition). A verdade sendo aqui intratável, qualquer tentativa de negociação com ela seria arruinadora. Nada de outro remédio, pois, além daquele que consiste em ir em frente e em pensar noutra coisa; assim mesmo isso não é um remédio, nus um simples calmante que ameniza por um instante a dor, sem, no entanto, agir sobre o mal. Mais uma vez, nada de remédio verdadeiro: aqui não se pode contar com nada nem com ninguém; e, acrescentarei, sequer com Deus. Pois a teologia, o recurso a Deus, não ajudam, no caso, em nada. Este é um ponto notável, embora, que eu saiba, muito pouco notado: que nem o Deus no qual Pascal crê, nem aquele em quem Cioran se recusa a acreditar, não teriam como satisfazer, mesmo na hipótese da existência deles, as exigências de ambos. Sem dúvida, Deus como autor razoável da criação, tomará minha existência mais necessária; mas com isso a tomaria menos fútil? Em que ele melhorará meu estado no mundo, aumentará meu lugar no tempo e no espaço? E, aliás, o que eu ganharia em ver este aumentado? Como repete Pascal, o mais e o menos são indiscerníveis no infinito. Mas, objetariam, Deus não se contenta em me aumentar: ele me tira da ordem do espaço e do tempo, promete-me a vida eterna. Sim, mas, essa vida eterna, ele a promete também a uma infinidade de outros. Em que então minha sina se encontraria modificada? Há apenas uma mudança de escala, não uma mudança na proporção. O que haveria de mais reluzente para mim em ser eterno entre os eternos, mais do que mortal entre os mortais? Qualquer que seja o caso parecerei sempre lastimável. – O mesmo argumento valeria, aliás, igualmente contra a hipótese de um outro mundo; por isso todo apelo a mudança e a outro lugar, como às vezes e ironicamente Cioran formula, depois de Baudelaire (“Que me ofereçam outro universo – ou sucumbo”), é tão vão e inútil quanto o apelo a Deus.

Há, certamente, uma maneira, e só uma, de escapar à sina da existência ínfima: a que consiste em não existir de modo algum. Pois, se é impossível ao homem passar do pouco ao tudo, lhe é permitido, em compensação, pondo voluntariamente um termo a seus dias, passar do pouco ao nada. Ora, não há outra maneira de evitar ser pouco: é o privilégio do suicídio ser aqui a única via de salvação razoável e crível. A obra de Cioran é naturalmente obcecada por essa lógica suicida, que considera o nada um estado mais invejável, e mais digno de honra para o amor-próprio, do que o quase nada outorgado a existência. Resta, porém, uma última hipótese: a de uma satisfação total no seio do próprio íntimo, semelhante ao júbilo amoroso tal como o descreve La Fontaine numa fábula célebre (“Considere-se tudo, conte para nada o resto”). Hipótese absurda e indefensável, repete incansavelmente Cioran. Mas está justamente aí o próprio da alegria de viver, e direi, seu privilégio, sentir-se como perfeitamente absurda e indefensável: permanecer alegre em pleno conhecimento de causa, em completa possessão das verdades que mais a contrariam. Privilégio, é verdade, exorbitante, aos olhos de Cioran, que o recusaria de saída, declarando que tal gosto de viver compõe, necessariamente, com a ilusão ou o esquecimento. De todas as questões que a filosofia tem para conhecer, a que coloca Cioran é sem dúvida a mais grave e a mais séria: há uma aliança possível entre a lucidez e a alegria? É certo que tal aliança é possível, já que acontece de existir nos fatos, como testemunha todo gáudio que associa uma inextirpável alegria ao sentimento sempre presente da absoluta futilidade de toda coisa; e não faltam exemplos de tal associação (invocarei aqui, ao acaso e fora da ordem, a gaia ciência de Nietzsche, o humor espanhol, o júbilo mozartiano). Mas é igualmente certo que essa associação da alegria e da lucidez é impossível em teoria, pois contrária a qualquer razão; não ha mesmo julgamento algum que pleiteie a seu desfavor, como Cioran justamente insiste: “existir equivale a um protesto contra a verdade”. Nada para ser redito a tal veredicto: a causa da existência é efetivamente indefensável. Por isso tudo o que se pode dizer de sensato a seu favor se resume sempre em alguma palavra insensata, tal qual o adágio medieval de Martinus von Biberach:

Venho não sei de onde,
Sou não sei quem.
Morro não sei quando,
Vou não sei onde,
Espanto-me de ser tão alegre.

Extraído de ROSSET, Clément, Alegria: a força maior. Tradução Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2000.

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