PARFAIT, Nicole

Cioran ou le dĂ©fi de l’ĂȘtre, de Nicole Parfait
Éditions Desjonquùres, Paris, 2001

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PrefĂĄcio
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Pensador sem complacĂȘncia em perpĂ©tua busca de si mesmo, cĂ©tico por natureza e por recusa de falsas evidĂȘncias e outras verdades elaboradas com o fim Ășnico de justificar a esperança, grande desprezador das ideologias que governaram seu sĂ©culo, Emil Cioran, morto em 1995, conhece apĂłs vinte anos uma notoriedade que nem o niilismo de seu pensamento, nem a feitura de seus escritos teria permitido prever. Se a publicação em 1997 de seus cadernos Ă­ntimos redigidos de 1957 a 1972 relançou a polĂȘmica sobre o sentido de uma obra que ele considerava acabada hĂĄ muito tempo, razĂ”es outras que filolĂłgicas ou biogrĂĄficas explicam esse recente sucesso.

Nessa Ă©poca de crise generalizada dos valores – crise da histĂłria apĂłs o naufrĂĄgio do impĂ©rio soviĂ©tico e o renascimento de nacionalismos que se acreditavam ultrapassados, crise dos sistemas econĂŽmicos que multiplicam injustiças e exclusĂ”es, crise do pensamento que proclama a morte da filosofia, crise da moral reduzida a regras de deontologia -, a critica implacĂĄvel a que Cioran submete todos os sistemas, criaçÔes subjetivas e ilusĂłrias ao serviço de utopias que negam a natureza da vida humana, Ă© de uma incontestĂĄvel atualidade. Esse ateu impertinente admirador do Tao, esse zelador da preguiça hĂĄ muito fascinado pelo suicĂ­dio, esse demolidor do progresso a pregar um desprendimento do mundo seria o moralista que esperava nossos tempos de incertezas. Esse pensamento que domina com brio o paradoxo e joga com a contradição para exprimir uma verdade existencial rebelde aos raciocĂ­nios do intelecto, brilha como uma explosĂŁo tĂŽnica em nosso universo intelectual desesperadamente consensual. A beleza de um estilo que alia as suntuosidades do barroco ao mais puro classicismo, em um tempo em que a escritura se degrada em instrumento de transmissĂŁo de conteĂșdos superficiais, nĂŁo deixa de encantar em nosso paĂ­s – o Ășnico, segundo Cioran, em que a lĂ­ngua sempre desfrutou de um carĂĄter sagrado. Enfim a recente exumação de seus posicionamentos polĂ­ticos nos anos 30, de seu engajamento ao lado da Guarda de Ferro em uma RomĂȘnia tomada por um delĂ­rio de potĂȘncia, lançou uma horrĂ­vel suspeita sobre sua obra, a exemplo daquela que envolveu, alguns anos antes, a obra de Heidegger apĂłs a redescoberta de textos polĂ­ticos escritos em 1933 e 1934. De fato, Cioran chegou a fazer declaraçÔes pro-hitleristas e antissemitas em inĂșmeros artigos publicados nestes mesmos anos na imprensa romena de extrema direita, exaltando tambĂ©m um messianismo nacionalista em Schimbarea la faÆ«a a RomĂąniei (“Transfiguração da RomĂȘnia”), publicado em 1936 com o objetivo de arrancara a alma romena da “tragĂ©dia das pequenas culturas”, de a elevar, enfim, Ă  altura de um destino. Mas, diferentemente de Heidegger, ele condenou, diversas vezes, sua “loucura” de entĂŁo, e toda sua obra ulterior Ă© uma tentativa incansĂĄvel de circunscrever as razĂ”es de seus erros e extrair deles suas conclusĂ”es. O Ăłdio visceral de todos os alĂ©ns que sustenta seu pensamento nasce dessa experiĂȘncia dramĂĄtica.

Se esses diferentes traços constituem propriamente aspectos do pensamento de Cioran, eles nĂŁo bastam para fornecer uma chave que dĂȘ acesso Ă  unidade profunda de sua obra. Entretanto o prĂłprio pensador afirma que todos seus livros, tanto os romenos quanto os franceses, “procedem de uma mesma visĂŁo, de um mesmo sentimento do ser”, acrescentando: “essa visĂŁo nunca me abandonou. O que mudou foi a maneira de traduzi-la.”

Na ausĂȘncia de uma tal chave, recorreu-se frequentemente Ă  biografia e Ă s entrevistas concedidas pelo escritor para explicar escritos percebidos como inclassificĂĄveis. Justificou-se este mĂ©todo, a priori suspeito para os pensadores, recordando que o prĂłprio Cioran nĂŁo parava de fazer pontes entre seus escritos e suas experiĂȘncias. Seu pensamento, contraditĂłrio, fragmentĂĄrio e aporĂ©tico, seria a tradução, com fins terapĂȘuticos ou literĂĄrios, de uma vivĂȘncia complexa da qual Ă© preciso compreender as propriedades para apreciar seus efeitos, inclusive os ensinamentos nos textos. Essa moldura biogrĂĄfica permitiu trazer Ă  luz numerosos pontos do pensamento do autor, como a estreita correlação entre a experiĂȘncia dolorosa da insĂŽnia e a defesa do suicĂ­dio como possibilidade essencial da existĂȘncia, ou ainda aquele entre seu conhecimento aprofundado da filosofia alemĂŁ e tambĂ©m dos espiritualistas russos e sua condenação inapelĂĄvel da racionalidade.

Na ausĂȘncia de uma tal chave, recorreu-se frequentemente Ă  biografia e Ă s entrevistas concedidas pelo escritor para explicar escritos percebidos como inclassificĂĄveis. Justificou-se este mĂ©todo, a priori suspeito para os pensadores, recordando que o prĂłprio Cioran nĂŁo parava de fazer pontes entre seus escritos e suas experiĂȘncias. Seu pensamento, contraditĂłrio, fragmentĂĄrio e aporĂ©tico, seria a tradução, com fins terapĂȘuticos ou literĂĄrios, de uma vivĂȘncia complexa da qual Ă© preciso compreender as propriedades para apreciar seus efeitos, inclusive os ensinamentos nos textos. Essa moldura biogrĂĄfica permitiu trazer Ă  luz numerosos pontos do pensamento do autor, como a estreita correlação entre a experiĂȘncia dolorosa da insĂŽnia e a defesa do suicĂ­dio como possibilidade essencial da existĂȘncia, ou ainda aquele entre seu conhecimento aprofundado da filosofia alemĂŁ e tambĂ©m dos espiritualistas russos e sua condenação inapelĂĄvel da racionalidade.

O mĂ©todo no entanto tem seus limites. O eu que o autor nĂŁo cessa de auscultar nĂŁo Ă© o mesmo nas entrevistas e nos escritos. O primeiro, elaborado e colocado em cena atravĂ©s de relatos repetitivos e quase obsessivos de acontecimentos que teriam estruturado sua personalidade – como a saĂ­da de Rasinari, a negação materna ou a descoberta da necessidade de escrever em francĂȘs apĂłs uma tentativa de traduzir MallarmĂ© ao romeno –, respondem a fins narcĂ­sicos complexos, nĂŁo isentos de uma afetação que se compraz em desprezar o papel do pensamento. O segundo eu transparece nos livros: por vezes explĂ­cito, ele Ă© mais frequentemente presente como pano de fundo. Trata-se de uma espĂ©cie de estado de exaltação em que se entretĂ©m Cioran, exaltando obsessĂ”es, paixĂ”es, sofrimentos. A raiva que nasce dessa exacerbação dos humores dĂĄ ao autor a força e a vontade de produzir uma obra que revela, a partir dessa experiĂȘncia de uma vivĂȘncia excessiva, a essĂȘncia da condição humana. Essa vida dilacerada, que deliberadamente confere aos textos uma ressonĂąncia paradoxal e trĂĄgica, Ă© ela mesma mais o efeito de um projeto estĂ©tico e metafĂ­sico, partĂ­cipe do sentido da obra, que um simples dado existencial a alimentar a obra quanto mais a confina na formulação de uma vivĂȘncia singular, rica, porĂ©m limitada.

Diferentemente dos mestres do pensamento que viram na existĂȘncia a instĂąncia do Ser e, portanto, da histĂłria, a existĂȘncia para Cioran Ă© o lugar de uma ruptura original do Ser. Nada poderia corrigi-la, na ausĂȘncia de um Deus salvador como em Kierkegaard ou de alguma transcendĂȘncia fundadora de um sentido, tal como o Ser em Heidegger. Essa ruptura, contemporĂąnea da consciĂȘncia, determina em Cioran um dualismo radical, ligado Ă  experiĂȘncia de estrangeirismo irredutĂ­vel do corpo ferido e Ă  obsessĂŁo da morte, bem como testemunha ao nĂŁo sentido do mundo o sofrimento dos homens e mais ainda aquele das crianças, que nada pode justificar.

Essa concepção dualista do Ser revela um autĂȘntico metafĂ­sico. Mas este aqui recusa os subterfĂșgios inventados pela razĂŁo para construir uma teoria que transgrede o princĂ­pio da existĂȘncia. “NĂŁo hĂĄ salvação pelo pensamento”, declara Cioran, pois “nenhum pensamento jamais suprimiu a dor e nenhuma ideia afugentou o medo da morte.” Fonte de um desespero sem remĂ©dio, o sem-sentido da existĂȘncia pode apenas suscitar o anĂĄtema, expressĂŁo de um espĂ­rito livre que nĂŁo recua diante de nenhuma audĂĄcia, principalmente a negação de si. Longe de ser o signo de uma incapacidade do pensamento de se abstrair Ă  existĂȘncia, o paradoxo, assim como a contradição que Cioran usa com frequĂȘncia, Ă© a expressĂŁo de uma dialĂ©tica essencial inscrita no coração da existĂȘncia humana, em que, segundo “uma lĂłgica inflexĂ­vel”, a simultaneidade dos sentimentos e dos pensamentos encerra o homem em impasses dos quais ele Ă© tanto o instigador quanto a vĂ­tima. O paradoxo nĂŁo Ă© apenas deficiĂȘncia do pensamento, escapatĂłria de moralista ou subterfĂșgio de esteta carente de filosofia. É a expressĂŁo da dualidade fundamental do ser que Ă© e quer ser, vive e pensa, experimenta e deseja.

Por tudo isso, esse espĂ­rito subversivo, esse “desertor de todas as causas”, nĂŁo Ă© um niilista questionĂĄvel. A negação tem um limite: a liberdade. Face ao nada da existĂȘncia, ela abre ao homem uma alternativa: a recusa pela escolha da morte ou o desafio. Se a primeira opção, “resolvendo tudo, […] nĂŁo resolve nada”, a segunda Ă© o Ășltimo perigo, pois ela implica, para alĂ©m do homem, o Ser em sua inteireza. Na ausĂȘncia de todo fundamento, de toda verdade absoluta, Ă© preciso, para poder continuar vivendo sem trair o Ășnico instinto positivo que nos resta – o orgulho –, vir a compor-se um rosto, uma identidade.

A tentação do demonĂ­aco Ă  qual sucumbiram os poetas malditos, caros a Cioran, foi tambĂ©m para este a forma primĂĄria do desafio, como o revelam os livros escritos durante sua juventude romena, nos quais a desmesura se torna a medida da verdadeira vida. Em Cartea amăgirilor (“O livro dos enganos”), publicado em 1936, ele exorta, numa explosĂŁo fanĂĄtica, o indivĂ­duo a lançar-se, do coração do seu ser, Ă s profundezas demasiado grandiosas para serem exploradas, num feixe de ferocidade que extrai da energia obscura uma clareza durĂĄvel – tal qual Deus fazendo surgir a luz das trevas. Liberado de seu intelecto, o homem doravante Ă© apenas “ebulição, obsessĂ”es e loucura.” Seu frenesi deve transformar seu verbo numa flama devoradora, a pureza de suas palavras deve presentar a limpidez fulgurante das lĂĄgrimas, exalta-se ele. Libertado entĂŁo de todo medo, o ser, tomado de uma “demonismo” sem limites, deve, por sua atividade, fazer tudo estremecer em um “apocalipse interior e dramĂĄtico”.

Mas querer agir pressupĂ”e a crença de se que pode mudar o mundo. Como o mal aĂ­ reina triunfante, nenhum bom sentimento, apenas um frenesi demonĂ­aco poderia superĂĄ-lo. Contra a dor, declara ele, apenas os “mĂ©todos brutais” fazem algum efeito; em todo caso, Ă© preciso que sua radicalidade seja levada ao nĂ­vel da “bestialidade”: com essa amarga lição, atĂ© o presente, o mundo se recusou a concordar. Louca tentação do demonĂ­aco que, somando-se a um amor desesperado por seu paĂ­s, levou Cioran a tomar partido da extrema-direita na RomĂȘnia dos anos trinta.

DestruĂ­da a ilusĂŁo da histĂłria, a da teoria desmascarada, permanece outro desafio: a escritura. A decisĂŁo de escrever numa lĂ­ngua estrangeira – o francĂȘs e nĂŁo o alemĂŁo que no entanto ele dominava muito mais – nĂŁo Ă© meramente fortuita, como ele gosta de repetir para apagar as pistas e desvalorizar o trabalho do esteta. Ela corresponde Ă  vontade de se apropriar do estrangeiro para melhor circunscrever e dominar sua prĂłpria natureza. Esse desafio, anĂĄlogo Ă quele graças ao qual, segundo Hölderlin, os gregos teriam adquirido sua identidade e sua grandeza, nĂŁo Ă© outro que nĂŁo o gesto trĂĄgico pelo qual, desde a aurora da civilização ocidental, o homem confere Ă  sua vida a dimensĂŁo de um destino. Vontade de autodomĂ­nio que implica um perigo: o esquecimento da prĂłpria natureza e a desmesura. Mas “lĂĄ onde cresce o perigo, cresce tambĂ©m o que salva”, diz ainda Hölderlin. Apenas a passagem ao estrangeiro pode permitir descobrir aquilo que nos Ă© mais Ă­ntimo e que, porque Ă© natural, passa despercebido, coincidindo com a maneira imediata de viver. Em Cioran, essa passagem ao estrangeiro nĂŁo implica o esquecimento. Ela permite, ao contrĂĄrio, compreender melhor as instĂąncias de angĂșstias e de frenesi que o habitam e traduzem o desamparo do homem abandonado em um mundo que ele nĂŁo escolheu, sem outro recurso que nĂŁo uma consciĂȘncia a lhe revelar, com a inelutabilidade da morte, a vaidade da esperança e portanto da ação. Resultado de uma luta titĂąnica contra si para vencer a opacidade das sensaçÔes e dos sentimentos, para dominar os tumultos de sua alma, o estilo, quintessĂȘncia desse “estrangeiro” que Ă© a lĂ­ngua francesa, permite transcender o nada: mantendo o eu Ă  distĂąncia, ele suspende o tempo onde reina o mal e permite aceder a um “ponto de vista absoluto” sobre a existĂȘncia, desvelando sua essĂȘncia negativa.

Tradução do francĂȘs: Rodrigo Menezes