Savater, F.

Ensayo sobre Cioran

por Fernando Savater (Madrid: Espasa Calpe, 1992)

“Quem é E.M. Cioran? O último dos gnósticos que amaldiçoa a farsa de baba e de sangue em que vivemos, um moralista da estirpe de Chamfort, um budista ocidentalizado, um schopenhaueriano sem pedantismo, o pessimista que monta guarda numa Europa beatificada pela auto-complacência? É sem dúvida um grande escritor, um estilista de primeira classe, um humorista cujo sarcasmo nem sempre é evidente aos leitores apressados. Neste ensaio, recomendado pelo próprio Cioran como um dos melhores que já foram escritos sobre a sua obra, Fernando Savater – que traduziu e divulgou a sua obra na Espanha – destaca as chaves essenciais deste pensador multiforme e sublinha a sua independência, a sua radicalidade, a sua ferocidade tonificante.” (da contracapa do livro)
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Ao ser indagado certa vez, numa entrevista, sobre a sua opinião a respeito de se tornar objeto de estudos acadêmicos, Cioran respondeu: “Existem algumas teses sobre mim. Mas eu sou contra as teses, eu sou contra o gênero… E eu rompi totalmente com a universidade. Eu sou, na verdade, um inimigo da universidade. Considero-a um perigo, a morte do espírito.” Esse não parece ser o caso, contudo, em relação à tese de doutorado que o filósofo espanhol Fernando Savater faria sobre o “anti-filósofo” romeno, da qual resulta este “Ensaio sobre Cioran”. Significativa concessão feita a um filósofo acadêmico que Cioran provavelmente considerava apto a abordar o seu pensamento. Ademais, o póprio autor incentivou o jovem Savater a produzir a tese. Com este estudo, Savater (que, aliás, foi um grande amigo de Cioran e freqüentador assíduo de sua mansarda parisiense) firma-se como uma das maiores referências mundiais sobre o pensamento cioraniano. O seu livro é um dos mais importantes dentro da tradição de comentadores do pensamento de Cioran, e leitura obrigatória para todo estudante de filosofia que tenha Cioran como objeto de estudo. Savater é também o principal tradutor de Cioran na Espanha.

No prólogo, Savater conta como conheceu Cioran (primeiro a sua obra, e depois o próprio), explicando a origem e a motivação do seu livro. Ele se considera um daqueles que tiveram a felicidade de descobrir essa pérola marginal quando ainda era um jovem estudante, e apaixonar-se perdidamente a partir da sua primeira leitura, Le Mauvais Demiurge – que ele encontraria por acaso numa livraria pouco depois de ler, no Le Monde, uma resenha do filósofo cristão-existencialista francês (e amigo de Cioran), Gabriel Marcel, sobre o respectivo livro (1969). Conforme relata, o título do artigo exerce sobre ele um efeito perturbador e ao mesmo tempo estimulante: “Por acaso Cioran é o diabo?”. Ao ler Le Mauvais Demiurge, então, Savater conta que:

“Foi amor à primeira página. Encontrei um gnóstico contemporâneo, o arquimandrita desesperado e irônico da inviabilidade de nossa existência, nostálgico do decadentismo pagão, denunciador das legitimações que sustentam a boa consciência metafísica, obcecado pela pirueta definitiva do suicídio mas estilisticamente todo vivacidade, a negação mesma da debilidade: indo dos rigores transcendentais à suscetibilidade mais irritável do intranscendente cotidiano. Truculento e sagaz, irreconciliável, caprichoso, contundente, o menos parecido que se pode imaginar com a filosofia que se empenhavam em inculcar-me na faculdade que, por meus pecados, eu freqüentava todas as manhãs. Enamorei-me dele, digo mesmo, decidi que tinha que conseguir o mais rápido possível todos os seus livros, comecei a cioranizar nas minhas  horas livres, verbalmente e pela escrita, o elegi não como mestre, nem mesmo apenas como modelo, mas também como o meu dáimon, como o meu demônio interior… não no sentido cristão de Gabriel Marcel, é claro, mas no sentido socrático. A voz que põe o implacável “não” na boca e sobretudo na alma quando a tentação de assentir e de aceitar se nos torna demasiadamente forte. Já mencionei antes que eu tinha então pouco mais de vinte e três anos?”

Savater conta ainda diversas outras anedotas envolvendo a graciosa personalidade de Cioran e a relação, tanto profissional quanto pessoal, que ambos acabaram desenvolvendo. Por exemplo, a propósito do segundo livro do pensador romeno que seria traduzido por Savater e publicado na Espanha, pela renomada editorial Taurus: Le Mauvais Demiurge. “‘Mauvais?’ Depois de pensar muito, decidi traduzi-lo por ‘aciago’ [El Aciago Demiurgo é o título em espanhol]. Cioran, que lê e compreende bastante bem o espanhol, não estava muito convencido. Não seria uma palavra muito rebuscada, muito culta? ” Para acabar com a dúvida, perguntou a uma bonne [do fr., “empregada”] espanhola que vivia no seu prédio: você usaria a palavra ‘aciago’? Claro que sim, senhor, respondeu a empregada: para dizer, por exemplo, ‘un día aciago’. Cioran me escreveu de imediato para dar sua autorização à tradução”.

Outro causo engraçado relatado por Savater diz respeito à desconfiança com que algumas pessoas receberam os livros deste obscuro pensador romeno na Espanha da década de 70. Continua ele escrevendo que:

“Deste modo consegui que aparecessem em castelhano, e numa editora de primeira linha, várias obras do meu mentor. Ao descobri-lo, me descobri. Como naquela época eu gostava de imitá-lo descaradamente nos meus próprios escritos, os mais mal-intencionados rugiram: ‘Ah, então é daí que tira tudo!’ Outros, um pouco mais rebuscados e com mais senso de humor, lançaram a suspeita de que Cioran não existia e que se tratava apenas de um heterônimo que eu me havia inventado, a exemplo de Kierkegaard, Pessoa ou Antonio Machado. Queria eu! Escrevi a ele: ‘Cioran, por aqui dizem que você não existe’. Me respondeu: ‘Não os desminta!’ Mas, sempre compreensivo, aceitou escrever a carta-prefácio que inaugurava a minha tese (o leitor a encontrará mais adiante) para dissipar algumas dúvidas que poderiam comprometer a viabilidade do trabalho acadêmico que eu estava a ele dedicando.”

Carta-prefácio de E.M. Cioran
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Querido amigo, não é a mim que cabe emitir algum juízo sobre um livro do qual sou objeto. Saiba, contudo, que a sua tentativa de captar, desde o interior, a minha maneira de ver as coisas, lançou-me luzes sobre diversos detalhes, diversas ilusões surgidas do arrebatamento ou da negação, e que, desta maneira, me tornou um pouco mais exterior, um pouco mais estranho a mim mesmo, o que deveria ser a ambição de quem se compromete nessa aventura de espectador que é o conhecimento de si. Tem razão em deixar de lado as “influências”. Sofri muitas, pois, não tendo praticado nenhum ofício, pude, através dos anos, ler um número considerável de autores. Quais citar? Todos aqueles – e são legião – que, de Teógnis a Beckett, formularam suas reservas à legitimidade da existência.
Não são, contudo, as minhas leituras que me formaram, mas os acidentes e os encontros. Tudo o que descrevi é fruto de circunstâncias, azares, conversas, ruminações noturnas, crises de abatimento mais ou menos cotidianas, obsessões intoleráveis. Meu estado de saúde, felizmente comprometido, é em grande medida responsável pela direção, da cor, dos meus pensamentos. Comecei a ser “eu” graças à insônia, a essa catástrofe à qual devo tudo e que marcou tão profundamente a minha juventude. Se eu percebi certas coisas neste mundo, é porque tive a sorte de não poder dormir…
E, nisso tudo, o que há de filosofia? Você me pediu que lhe diga brevemente qual é a concepção exata que tenho dela. É muito evidente que não sou um filósofo, mas é justo dizer que o meu despertar à consciência coincidiu com o culto fanático à filosofia. Quando era estudante, eu só lia filosofia e só acreditava em sistemas. Depois, tudo o que eu pude experimentar ou pensar foi justamente uma luta contra toda forma de sistema, em qualquer domínio. Você poderia ter colocado como subtítulo à sua tese: ‘Do anti-sistema’.
Chegamos a um ponto da história em que é necessário, creio eu, ampliar a noção de filosofia. Quem é filósofo? O primeiro que chegue corroído por interrogações essenciais e contente de estar atormentado por um mal tão notável. Vou citar-lhe um exemplo, ou um caso, se preferir. Durante anos recebi a visita de um mendigo que vinha fazer perguntas sobre Deus, a matéria, o mal, etc., às quais, é claro, eu não podia responder. Carregava essas questões dentro de si, dada voltas ao redor delas de todas as maneiras, confundia-se com elas. Não conheci ninguém mais tomado, mais afligido pelo insolúvel e pelo inextricável. Um dia, num momento de desalento, me confessou que merecia sua condição, que era apenas um mendigo e nada mais, e que tanto o seu modo de existência quanto as suas obsessões lhe pareciam igualmente desprezíveis. Para levar-lhe o ânimo, disse de imediato: “Sabe, para mim você é o maior filósofo de Paris, neste momento”. Olhou para mim atônito e pensou que eu estava gozando dele. Mas havia nas minhas palavras um tom de sinceridade que não lhe escapou e que deve tê-lo impressionado. Depois, suas visitas tornaram-se menos freqüentes até cessarem por completo. Ainda vive? Morreu? Não sei. A vantagem de não ter residência é poder desaparecer sem deixar vestígios. Tal é o privilégio do mendigo.
Esse homem, na verdade, é, ou era, um filósofo. E talvez eu também seja um pouco, na medida em que, a favor dos meus fracassos, me atarefei em avançar sempre a um grau mais alto de insegurança.

Paris, 22 de outubro de 1973

Tradução do espanhol: Rodrigo Menezes

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