Zarifopol, I.

Searching for Cioran, de Ilinca Zarifopol-Johnston

Indiana University Press, Indiana, 2009

Prefácio do editor
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Antes morrer aos 52 anos de idade, em janeiro de 2005, minha esposa – a autora deste livro – havia quase completado uma biografia crítica do seu compatriota romeno, o ensaísta filosófico e existencialista E. M. Cioran. O objetivo de Ilinca era escrever uma biografia sobre a vida romena de Cioran, desde seu nascimento em 1911 até quando ele deixaria a Romênia em direção à França em 1937 – uma partida que se tornou permanente a partir de 1941. Ela tinha completado mais que 2/3 do projeto, que consiste na primeira parte do presente volume, The Romanian Life of Emil Cioran: capítulos 1-3 e 5-7 conforme impressos aqui, além de sua introdução, “Cioran’s Revenge”. Eu desenvolvi os capítulos 4 e 8 (Berlim e Paris) a partir de seus rascunhos, anotações de leitura, arquivos de computador e comentários marginais contidos em suas cópias da obra de Cioran. O capítulo 9, “The Lyrical Virtues of Totalitarianism”, é um dos estudos analíticos sobre Cioran que Ilinca estava conduzindo paralelamente ao seu trabalho biográfico; anexei este estudo aqui para oferecer uma espécie de conclusão àquilo que deve necessariamente permanecer um todo incompleto.

Durante este projeto, Ilinca envolveu-se num outro, um relato autobiográfico de suas experiências ao escrever a biografia de Cioran. Este ela completou pouco antes de sua morte, como Searching for Cioran, Myself: Memoirs of a Publishing Scoundrel [Memórias de uma sem-vergonha editorial], incluído aqui como sendo a segunda parte: Memoirs of a Publishing Scoundrel. Conforme a primeira parte do seu título original sugere, ela descobriu coisas sobre seu próprio passado no processo de descobrir o passado romeno de Cioran. (Ela inclusive tinha começado uma autobiografia, intitulada The Escape Artist.) [O Artista da Fuga] Cioran não é assunto fácil de tratar biograficamente, não apenas porque havia coisas sobre seu passado sobre as quais ele era extremamente reticente, sobretudo seus escritos fascistas, como ele era uma espécie de não-pessoa, e uma persona non grata, na Romênia comunista, visto como um escritor ocidental “decadente”. Ilinca nunca viu ou leu nada dele ou sobre ele durante sua vida na Romênia (1952-77). O passado de Cioran parecia ter desaparecido duas vezes para Ilinca; uma vez em direção à França, e depois para o esquecimento.

Mas depois que ele morreu em 1995, começaria outro drama, no qual Ilinca acabou se enredando, casualmente, e cuja essência é comunicada pelo subtítulo de sua memória. Simone Boué, a companheira de Cioran a partir da década de 40, era a testamenteira literária do seu patrimônio e, depois de sua morte, ela teve de lidar não apenas com responsabilidades editoriais mas, também, com uma vasta gama de “oportunidades” editoriais, propostas por escritores de todas as estirpes, que viam na vida e obra de Cioran uma fonte de enorme interesse, e de lucro. Ilinca estava enredada neste drama, conforme ela conta.

Em sua introdução, Ilinca explica como ela veio a se envolver com Cioran pessoalmente, e não apenas enquanto sua biógrafa. Em suma: por uma sugestão casual de um amigo e colega, Matei Calinescu, Ilinca havia concordado em traduzir alguns dos cinco livros romenos de Cioran, praticamente desconhecidos no Ocidente. Dois deles saíram: “Nos cumes do desespero” (1933: 1992) e “Lágrimas e Santos” (1936: 1995).

Logo depois que começou a trabalhar nessas traduções, Ilinca conheceu Cioran em Paris e fez amizade com ele e com Simone Boué. Eu e nosso filho Teddy também o encontramos frequentemente em seu apartamento  na Rue de l’Odeon perto dos jardins do Luxemburgo, onde nossa relação tornou-se amizade, quase como três gerações de uma mesma família. Conforme andava e conversava com Cioran (ela era uma das únicas pessoas com quem ele falava em romeno, língua que ele tinha abjurado no ato radical de transformar-se num escritor francês, ainda que eles conversassem a maior parte do tempo em francês), ela começou a enxergar no seu exílio voluntário da Romênia (circa 1940) um reflexo e uma antecipação do seu próprio. Assim, ela decidiu que tinha de ser sua biógrafa, pois não existe nenhuma verdadeira biografia de Cioran – ainda – e todas as abordagens da sua vida – vidas, a romena ou a francesa – são altamente enviesadas e predeterminadas pelo ponto de vista, pró ou contra, em relação à aliança de Cioran com o movimento fascista  próprio da Romênia, a Legião do Arcanjo Miguel (os Legionários) e seu braço político, a Guarda de Ferro.

Editei os manuscritos de Ilinca para produzir a narrativa mais completa, coerente e contínua possível, consciente de que sua versão final – caso ela tivesse vivido para fazê-la – teria se beneficiado de suas próprias revisões e correções, não apenas em matéria de estilo e concepção como também em questões mais mundanas de referências e fontes, , que pude  recompor apenas em certa medida. Sua memória (Sem-vergonha) está completa do jeito que está, ainda que eu tenha removido partes que repetem substancialmente partes de sua biografia sobre Cioran. Todos os textos romenos e franceses foram traduzidos para o inglês por Ilinca, a não ser quando devidamente indicado, muito embora eu acredite que ela baseou-se frequentemente nas traduções excelentes de Richard Howard dos livros franceses de Cioran. Similarmente, o “I” contido em ambas as partes do livro se referem a ela; para não haver possibilidade de confusão, distingui sua pessoa da minha utilizando nossas respectivas iniciais, IZJ ou KRJ.

Ilinca queria escrever uma biografia para leitores comuns, não apenas para especialistas acadêmicos e/ou filosóficos. Mas ela também queria ser escrupulosamente justa e honesta, seguindo os melhores padrões acadêmicos. Essas duas motivações algo diferentes refletem-se não apenas nas duas partes do livro como também no interior de cada parte: a primeira não é completamente “objetiva”, e muito embora a parte 2 seja “subjetiva”, contém muitos detalhes e fatos que se projetam em direção à parte 1 como uma forma de comentário retrospectivo. Ademais, seu método é uma combinação de estudo acadêmico e reportagem. Ela conhecia a “literatura” sobre Cioran, mas também conhecia Cioran e Simone muito bem pessoalmente, ainda que ao final de suas vidas. Assim, sua abordagem é uma combinação de estudo acadêmico e ensaio pessoal. Em determinado momento, cogitei subtitular o livro “Uma história pessoal”, mas conclui que isso poderia soar como a visão de Cioran sobre sua própria história – e, como Ilinca deixa abundantemente claro, gerenciar e massagear o próprio passado constitui uma grande parte da presença autoral de Cioran.

Editar os manuscritos de Ilinca foi necessariamente um trabalho solitário, mas estive acompanhado e fui ajudado ao longo do trajeto por alguns bons amigos e colegas. Sou especialmente grato a Janet Rabinowitch, diretora da Indiana University Press, por apostar num projeto incompleto. Agradeço aos revisores anônimos da editora, não apenas por sua aprovação, mas também por seus comentários detalhados, críticas e sugestões. Matei Calinescu fez mais do que escrever um prefácio para o livro. Amigo e colega, ele é um poeta e crítico aclamado tanto na sua Romênia natal quanto em seu país de adoção, autor de Five Faces to Modernity e Rereading (entre outros), e Professor Emérito de Literatura Comparada na Universidade de Indiana.  Ele respondeu a inúmeras questões minhas sobre tudo, desde pronúncia e ortografia romena, a detalhes recônditos sobre a complicada história cultural da Romênia entre guerras. Também sou grato a Breon Mitchell, diretor da Lilly Library (Rare Books and Manuscripts) da Universidade de Indiana. A mãe de Ilinca, Maria Economu, e sua irmã, Christina Zarifopol-Illias, ofereceram generosa informação sempre que solicitadas. Finalmente, agradeço a Nick Bashall de Londres por abandonar sua prática habitual do retratismo e concordar em fazer, a partir de uma fotografia, o desenho em carvão que estampa a capa do livro.

Apenas uma última nota editorial: não sou um especialista em Cioran, existencialismo, ou na política europeia entre guerras. Leio e falo romeno com dificuldade (lá vivi em 1974-1975, quando conheci Ilinca), e o meu francês não é tão melhor. Sou um especialista acadêmico em literatura romântica inglesa, especialmente Wordsworth. Há referências ao romantismo inglês ocasionalmente neste livro, que alguns autores podem pensar que vêm da minha mão editorial. Um ou dois, sim, mas a maioria é de Ilinca – e de Cioran. Cioran era um homem incrivelmente erudito, lia inglês facilmente – e às vezes desejava ter-se “exilado”  em Londres em vez de Paris. Ele tinha um apreço – e insight – particular pela de Percy Bysshe Shelley e Emily Dickinson. Quanto às referências de Ilinca a Wordsworthe o romantismo inglês: fiquei surpreso ao vê-los quando comecei a editar seus manuscritos, mas fiquei tocado por estas evidências textuais ocultas da maneira como meu trabalho influenciou o dela – e o dela agora influencia o meu.

Kenneth R. Johnston
Bloomington, Indiana
Dezembro de 2007

Tradução do inglês: Rodrigo Menezes

Resenha do livro (Ing)

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