Amurgul (1940)

Amurgul Gîndurilor (“O Crepúsculo do Pensamento”, 1940)

O que há ao final do niilismo? A morte? A regeneração? Talvez simplesmente o refinamento da vontade de nada. É preciso ler Cioran para descobrir até onde pode ir a cultura do desespero e como o suicídio pode se erigir em arte do cotidiano. Poeta do infortúnio, o pensador romeno não reivindica nada. Ele testemunha e faz explodir o derrisório da vida através de uma chuva de aforismos ácidos e de imagens mordazes. Pensar? “Todo pensamento lembra os gemidos de um verme que pisotearia os anjos.” Contentar-se de viver? Mas só existe vida no crepúsculo: “Os olhos extintos só se reacendem no desejo nostálgico da m orte”. Refugiar-se na arte? Mas a verdadeira música é silêncio. O amor? “Todos nos agarramos à mulher por horror do tédio.” Só há uma questão, aquela de sofrer com os olhos abertos: “A lucidez é uma vacina contra a vida”. Com Cioran, o cinismo de Diógenes alcança a ferocidade de um cão enfurecido. Fúria que torna a existência solitária: “Sou um Jó sem amigos, sem Deus e sem lepra.” Fúria que faz da vida um mal incurável: “A vida e eu: duas linhas paralelas que se reencontram na morte.”

Após entregar ao seu editor em Bucareste o manuscrito de Lágrimas e Santos, en 1937, Cioran se muda, antes da publicação do livro, para Paris, graças a uma bolsa do Instituto Francês de Bucareste. O período de sua vida que vai do ano que em chega na França até o final da guerra são muito obscuros, poucos são os registros sobre onde está, aonde vai e o que faz Cioran durante os anos de guerra. Supõe-se que teria retornado algumas vezes à Romênia, no péríodo entre 1940 e 1944, e a  publicação na Romênia de Amurgul Gîndurilor em 1940 parece confirmar esta hipótese. Devido às circunstâncias em que apareceu, o livro passou desapercebido e sobre ele nada mais se soube até que Cioran autorizasse a sua versão francesa, em 1991.

Não obstante, Amurgul Gîndurilor é um livro importante na trajetória do pensamento de Cioran, já que, junto com Îndreptar pătimaş, encerra o que se poderia chamar de “a etapa romena”, pois, a partir de então, começa a escrever em francês e, segundo ele mesmo reconhece em 1974, em carta a um amigo, “ao mudar de idioma, rompi com toda uma parte de mim mesmo, em todo caso, com toda uma época da minha vida”. Ainda impregnado das revelações que lhe brindou a leitura dos místicos, do estado místico que ele mesmo definiu como “essa sensualidade transcendente”, mas já bastante próximo da implacável lucidez que caracterizam os seus amargos silogismos, Cioran escreve em Amurgul Gîndurilor:

«O esfriamento das paixões, a moderação dos instintos e a dissolução da alma moderna fizeram com que perdêssemos o costume de sentir o consolo da fúria, debilitaram a vitalidade do nosso pensamento, de onde emana a arte de maldizer (…) A isto nos conduziram séculos de educação e de impertinências eruditas! Em outros tempos, os mortais gritavam, hoje se entediam. A explosão cósmica da consciência foi substituída pela intimidade. Agüenta e rebenta! Eis a divisa que distingue o homem moderno».

Mas em outra parte, afirma:

«O papel do pensador é retorcer a vida por todos os lados, (…) remoer incessantemente por todos os seus interstícios, percorrer de cima abaixo os seus caminhos, dar mil voltas sobre o mesmo aspecto dela, descobrir o n ovo apenas naquilo que não se viu com claridade, passar os mesmos temas por todos os membros, fazendo que os pensamentos se mesclem com o corpo, e assim fazer a vida em fiapos pensando nela até o final».

Amurgul Gîndurilor é o quinto livro de Cioran e o penúltimo escrito em romeno. Foi publicado pela primeira vez em Bucareste, em 1940. A edição francesa viria em 1991, pelas Éditions de L’Herne, com o título: Le Crepuscule des pensées. A editora espanhola Tusquets publicou El ocaso del pensamiento em 2006.