Anathèmes (1987)

Aveux et Anathèmes (1987)
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“Confissões e anátemas”, cujo título alude ao combate da Igreja contra os heréticos, é o último livro de E.M. Cioran, que a esta altura assina apenas “Cioran”, sem as iniciais que cunhou para si mesmo a partir do Précis de decomposition. Quando Aveux et Anathèmes é publicado pela Gallimard, ele já desfruta de uma notoriedade considerável, sobretudo na França, mas  também fora dela, graças ao sucesso de crítica e de vendas de seus dois últimos livros: Écartèlement (1983) e — sobretudo — o penúltimo da carreira, Exercícios de admiração (1986, editado no Brasil pela Rocco), que consagra Cioran como um grande ensaísta e prosador da língua francesa.

Este é um livro de aforismos breves, no estilo dos Silogismos da amargura e De l’inconvenient d’être né, sem incluir ensaios mais dissertativos como é o caso de La tentation d’éxister e História e utopia. Está dividido em seis seções (“À margem da existência”, “Taras”, “Magia da decepção”, “Frente aos instantes”, “Exasperações”, “Essa nefasta clarividência”), nas quais se agrupam aforismos sobre a religião (o cristianismo, o budismo) e o problema do mal, a doença (a insônia figurando como uma) e suas virtudes, a a vaidade da filosofia, música e misticismo, a psicanálise, entre muitos outros que constituem seus temas prediletos. Aliás, as temáticas religiosas são abundantes e atravessam todo o livro, a começar pelo título (que, depois de “Lágrimas e santos”, “A queda no tempo”, “O mau demiurgo”, traz outra referência da mesma natureza): Deus e o Diabo, o pecado original, a Criação fracassada, o antigo gnosticismo e inclusive a mística judaica. Abaixo, alguns aforismos de Aveux et Anathèmes:

Quando o Cristo desceu aos infernos, os justos da antiga lei, Abel, Enoque, Noé, desconfiaram de seus ensinamentos e não responderam a sua chamada. Creram que era um emissário do Tentador, cujas armadilhas temiam. Só Caim e os de sua espécie aderiram a sua doutrina ou fingiram fazê-lo, só eles o seguiram e abandonaram com ele os infernos – Isto é o que ensinava Marcion.
“A felicidade do malvado”, essa velha obsessão contra a ideia de um Criador misericordioso ou pelo menos honrável, quem a consolidou melhor que aquele heresiarca? Quem, além dele, percebeu com semelhante agudeza o que tem de invencível?

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O nada, para o budismo (em verdade, para o Oriente de modo geral), não implica o significado sinistro que lhe damos. Confunde-se, pelo contrário, com uma experiência extrema da luz, ou, se se prefere, com um estado de eterna ausência luminosa, de vazio radiante; é o ser que superou todas suas propriedades, ou antes, um não-ser extremamente positivo que dispensa uma felicidade sem matéria, sem substratyo, sem base em mundo algum.

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A filosofia hindu busca a liberação; a grega, à exceção de Pirro, Epicuro e alguns inclassificáveis, é decepcionante: não busca mais que a… verdade.

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O homem é livre, salvo naquilo que tem de mais profundo. Na superfície, faz o que quer; em suas camadas mais obscuras, “vontade” é um vocábulo carente de sentido.

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Sobre o Cristo ainda. Segundo um relato gnóstico, ascendeu aos céus por ódio do fatum, para impedir, alterando a disposição das esferas, que se pudesse ler os astros. Em semelhante ofego, que pode ter acontecido a minha pobre estrela?

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Kant teve de chegar à velhice para dar-se conta dos lados sombrios da existência e assinalar “o fracasso de toda teodicéia racional”.
… Outros, mais afortunados, se deram conta disso antes mesmo de começar a filosofar.

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“Sou um covarde, não posso suportar o sofrimento de ser feliz.”
Para calar alguém, para conhecê-lo realmente, basta-me ver como reage a estas palavras de Keats. Se não compreende imediatamente, inútil continuar.

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Quem prescinde totalmente do Pecado original apenas me interessa. Quanto a mim, recorro a ele em toda circunstância e não vejo como poderia evitar sem ele uma consternação ininterrupta.

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Esta manhã, após ouvir um astrônomo falar de milhares de milhões de sóis, renunciei a assear-me: para seguir lavando-se?

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É impossível passar noites em vela e exercer um ofício: se, na minha juventude, meus pais não tivessem financiado minha insônia, eu teria seguramente me liquidado.

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Sendo o gosto pelo mal nato, não temos nenhuma necessidade de fatigar-nos para adquiri-lo. Com que habilidade a criança exerce desde cedo seus maus instintos, com que competência, com que fúria!
Uma pedagogia digna deste nome deveria prever aulas de camisa de força. Seria preciso talvez estender, para além da infância, esta medida a todas as idades para o bem da comunidade.

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Parmênides. Não vejo em parte alguma o ser que exalta e me imagino mal em sua esfera que não possui nenhuma fratura, nenhum lugar para mim.

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As religiões, assim como as ideologias, que herdaram seus vícios, não passam, no fundo, de cruzadas contra o humor.

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