Cahier de Talamanca (1966)

Cioran tinha três pátrias: a da sua infância, a Romênia, a da sua língua, a França, e a da sua alma, a Espanha. Tornado por força de uma lucidez devastadora digno desse século das Luzes que ele amava tanto, ele permaneceu todavia sempre próximo do país cujos êxtases místicos e a noção de desengaño haviam embriagado a sua juventude: a Espanha. Uma paixão que, como a da música, impregna toda a sua obra desde o primeiro livro, Nos cumes do desespero, até os seus últimos ensaios.

“Um por um, eu amei e execrei inúmeros povos; jamais me veio à cabeça renegar o espanhol que eu gostaria de ser…”, escreve Cioran em Silogismos da amargura. A Espanha representa para ele, como confessa, “a emoção em estado puro” e, sobretudo, são os debates da Espanha com Deus que apaixonam esse filho de pope: “A Rússia e a Espanha: Duas nações grávidas de Deus. Outros países se contentam em conhecê-lo, mas não o carregam dentro de si.” Dentre os místicos espanhóis que ele frequenta como conhecedor, a que mais o atrai é certamente Teresa de Ávila, que aporta esse “ardor único da Espanha” e as tão deliciosas “impurezas da santidade feminina”, pois ela ousa “elevar até o céu a indiscrição do seu sexo” (Breviário de decomposição). Mas, ao lado dessa “aventura vertical” que é a mística, há uma outra chave de compreensão da alma espanhola que seduz Cioran: o desengaño, esse correlato barroco, rico em paradoxos, do désabusement do século XVIII francês. Numa entrevista com um jornalista espanhol em 1983, Cioran confessaria: “O que me atrai é o aspecto não europeu da Espanha, uma forma de melancolia permanente, […] Essa melancolia é um tipo de ennui refinado, o sentimento de um exílio irrevocável.” É em Valladolid, na Casa Cervantes, que Cioran teve a “revelação” dessa proeza nacional. “Uma senhora, de aparência insignificante, completava o retrato de Filipe III: ‘Um louco’, disse eu. Ela se virou para mim: ‘Foi com ele que começou a nossa decadência.'” Assim, então, pensava eu, a decadência na Espanha é um conceito corrente, nacional, um clichê, uma divisa oficial.” (A tentação de existir)

O apego de Cioran por este país, que suas numerosas viagens deviam reforçar, notadamente a Toledo, uma das suas cidades preferidas, era também literário. O sentimento trágico da vida, de Miguel de Unamuno, foi durante muito tempo o seu livro de cabeceira. E quando, em 1958, ele dirigiu de modo bastante efêmero uma coleção de ensaios na editora Plon, um dos primeiríssimos livros que fez publicar foi O espectador, de Ortega y Gasset, “farol e guia de toda uma geração”. Enfim, é após um encontro no Café de Flore com a filósofa e poetisa Maria Zambrano, “filha espiritual” de Ortega y Gasset, de quem ele traça um contundente retrato em Exercícios de admiração, e uma longa conversa com ela sobre a utopia e a idade de ouro, que Cioran escreveria, em 1960, História e utopia.

A mística e o desengaño constituem também os leitmotive do Cahier de Talamanca, assim como a paixão pela música. Este Cahier foi redigido ao longo do verão de 1966, em Talamanca, vilajero na ilha de Ibiza. É o testemunho de uma crise, crise de uma intensidade tal que os seus Cahiers posteriores farão alusão a ela como a “Noite de Talamanca”.

Verena von der Heyden-Rynsch

Cahier de Talamanca (excertos)

Ibiza, 31 de julho de 1966. Esta noite, acordei por volta das três da manhã. Impossível permanecer mais na cama. Fui caminhar à beira-mar, sob o impulso de pensamentos que não podiam ser mais sombrios. E se eu me jogasse do alto da falésia? Eu vim para cá por causa do sol, mas não posso suportar o sol. Todo mundo está bronzeado, mas eu permaneço branco, pálido. Enquanto eu fazia todo tipo de reflexões amargas, admirava esses pinheiros, esses rochedos, essas ondas “visitadas” pela lua, e senti de repente até que ponto estava preso a este universo maldito.

No Evangelho de Tomé, Jesus, a quem perguntam onde encontrar a salvação, responde: “Em qualquer parte onde não haja mulheres.” — resposta gnóstica dentre todas.

Ibiza, 1 de agosto. O ano passado, tendo F. me emprestado o seu toca-discos, escutei um disco que me encantou. Era um tango espanhol, tudo o que há de mais desolador. De retorno a Paris, tentei lembrar do ritmo e da melodia. Impossível. Um ano depois, encontro-me na mesma casa. No dia seguinte à minha chegada, na sesta, tive um sonho no qual escuto o tango. Ao me despertar, eu tinha reencontrado o meu tango.

Na ordem do espírito, toda produção feita sem necessidade é um pecado contra o espírito. O escritor enquanto tal se encontra em estado de pecado mortal.

Redenção: pelo conhecimento, pela ultrapassagem do conhecimento.

O carro, o avião e o transistor, do advento dessa trindade pode-se datar a desaparição dos últimos traços do Paraíso terrestre.
Todo homem que toca um motor é um condenado.

A Endura, o suicídio por inanição entre os cátaros; se eles se deixavam morrer de fome, era para precipitar a libertação da alma cativa da matéria.

CIORAN, E.M., Cahier de Talamanca. Ibiza (31 juillet-25 août 1966). Texte choisi et présenté par Verena von der Heyden-Rynsch. Paris: Mercure de France, 2000.

Tradução: Rodrigo Menezes