Démiurge (1969)

Le mauvais démiurge (“O mau demiurgo”, 1969)

Antes de tudo, é o mal o objeto desse livro. Em ação por toda parte, derruba os deuses e inspira a idéia de uma improvável libertação. Essa reflexão conduz Cioran a afirmar princípios gnósticos subentendidos no seu pensamento.

O texto introdutório expõe rapidamente as visões de um dualismo radical que reconhece a existência de um princípio do mal na origem da criação. Esta, minada pelo nada, é fruto de um erro, de uma anomalia, e injuria a pureza do não-ser: “A bondade não cria”, “saímos das mãos de um deus infeliz e mau, de um deus maldito”.

Se, em toda lucidez, admitimos esse ponto negro que é a criação, somos devorados pela sensação de nossa insignificância e pela incapacidade de coincidir com seja o que for; em resumo, somos ineptos à felicidade. Aquele para quem foi revelada a existência do mau demiurgo, se quer buscar a salvação, só tem uma solução, forçar a lucidez ao extremo e fazer dela o “equivalente negativo do êxtase”.

Em seguida, no capítulo Os novos deuses, Cioran incursiona pelas origens do cristianismo para estudar a renovação inevitável das religiões à luz do princípio do mal, fonte de dinamismo de qualquer manifestação. Submetido às leis da existência, os deuses desgastam-se e morrem assim que introduzem um germe de tolerância entre os seus fiéis. Os deuses pagãos que engendraram uma civilização refinada e lúcida tiveram de ceder à força do monoteísmo cristão confiante; este, por sua vez, perdeu seu vigor quando aceitou as demais confissões: “Ninguém mais crê num deus que dilapidou seu capital de crueldade, nem o respeita”.

Quando se mantém os olhos abertos, como ignorar o princípio do mal? É ele que controla a putrefação da carne e submete tudo o que vive segundo a mesma lei da precariedade. O texto intitulado Paleontologia convida a adotar o espírito de um “coveiro tocado pela metafísica” confrontado à mais flagrante irrealidade: “Tudo parece existir e nada existe”. “Visto de fora, cada ser é um acidente”, tanto que “só é verdadeiro o nosso triunfo sobre as coisas”. Assim, “a meditação sobre o horrível” prepara para duas atitudes: o suicídio físico ou o suicídio moral.

Em Encontros com o suicída são consideradas todas as conseqüências do “nada é” enunciado acima: “Quando se compreendeu que nada é (…) se está salvo e infeliz para sempre”. A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver nem morrer e cuja atenção nunca se afasta dessa supla impossibilidade. “Dado que nada é, todos os instantes são perfeitos e nulos e é indiferente gozar ou não.”

O budismo é a melhor escola para conduzir a essa indiferenca salvadora. Todo o capítulo O não libertado define a noção chave dessa doutrina: a vacuidade; esse “nada transfigurado” pelo qual o indivíduo liberta-se entregando-se ao suicídio do seu ego.

O livro termina com uma série de aforismos reunidos sob o título Pensamento estrangulados, que retomam até a vertigem as interrogações suscitadas pela visão de um dualismo irreconciliável que nos condena ao “horror e ao êxtase da vida experimentados simultaneamente, no mesmo instante, em cada instante”.

Sylvie Jaudeau