Écartèlement (1983)

Écartèlement, de E.M. Cioran

Resenha de Rodrigo Menezes

“Os jardins do Ocidente estão na hora de fechar” (Cyril Connolly). É com esta epígrafe que Cioran inicia Écartèlement, algo como “Esquartejamento”, “Desmembramento”, designando o modo de tortura em que o mesmo é feito à vítima, cujos membros são amarrados a cavalos — seu antipenúltimo livro, escrito em 1983. A reação de Cioran face à crescente notoriedade é peculiar; em carta escrita ao irmão, ele revela: “Eis que este livro, que não é tão bom quanto os outros, todo mundo se pôs a falar dele. Fenômeno inexplicável e… deprimente. Pedi ao meu editor para interromper toda publicidade, e te garanto, se estive ao meu alcance eu retiraria esse pobre Écartèlement do comércio […]”.

Para quem deseja conhecer um Cioran mais ensaístico, mais “discursivo” (como em História e Utopia, La Tentation d’Éxister, La Chute dans le Temps, Exercícios de Admiração) e menos lacônico, menos conciso (como nos Silogismos da Amargura, em L’Inconvenient d’Être Né, Aveux et Anathèmes), este é um livro no qual o autor elabora algumas ideias de modo mais extensivo, mais aprofundado, revelando os caminhos dos seus raciocínios, os argumentos que levam às suas – muitas vezes, simplesmente postas – conclusões. Neste sentido, Michel Jarrety diz que os livros mencionados mais acima em referência à faceta mais ensaística de Cioran constituem um “massivo interior separado: não apenas do ponto de vista formal, pois, se eles apresentam uma forma breve, excedem a medida e também a ambição do fragmento, ao qual às vezes se reduz abusivamente a escritura de Cioran, mas sobretudo porque se descobre aí o desenvolvimento de um percurso que o resto de sua obra não manifesta, de um começo a um fim” (JARRETY, 1999).

Na verdade, Écartèlement é um híbrido de ensaísmo e de escritura aforística. Os quatro primeiros capítulos, “As duas verdades”, “O aficionado de Memórias”, Depois da história” e “Urgência do Pior” são constituídos de ensaios mais ou menos breves dedicados a refletir sobre temas como a história, os povos e as civilizações (seu nascimento, apogeu, extinção), as invasões bárbaras do passado e as massas migratórias da atualidade; o homem e sua frágil existência histórica, a liberdade no tempo, a necessidade humana de absoluto que lança o homem para além do mundo; e especificamente o século XVIII francês (“O aficionado de Memórias”), período pelo qual Cioran tinha especial paixão e do qual organizaria uma coletânea de retratos literários (Antologia do Retrato: de Saint-Simon a Tocqueville). O capítulo “Depois da história” se dedica a refletir sobre o “final da história”, o que segundo Cioran é lícito esperar, uma vez que “o final da história está escrito em seus começos, pois a história – o homem sujeito ao tempo – carrega os estigmas que definem a uma só vez o tempo e o homem […] Assim como os teólogos falam com fundamento de uma época pós-cristã, também se falará algum dia da sorte e da desgraça de viver em plena pós-história.” Em “Urgência do pior”, um aprofundamento da reflexão sobre o final da história, no qual Cioran lança um anátema à marcha desenfreada da humanidade em nome do progresso e rumo ao futuro. O tema da civilização prometeica abordado em História e Utopia é retomado aqui por outra perspectiva, visto de uma perspectiva epigonal, isto é, dos últimos tempos: “É preciso incluir o desaparecimento do silêncio entre os indícios anunciadores do fim. Hoje, a Grande Babilônia já não merece desmoronar por sua impudícia e por seu desenfreio, mas por causa de seu estrondo e de seu barulho, da estridência de sua sucata e dos desajustados que não conseguem saciar-se com ele.” O último capítulo, “Esboços de vertigem”, é composto de breves aforismos no estilo dos Silogismos da Amargura, cujos temas vão desde o ato de escrever, o significado dos livros, a dialética escritor-leitor, a linguagem, ao budismo, o gnosticismo, a mística, a morte, a eternidade, Sócrates, a bendita insconsciência dos animais, a oposição saúde-doença, Deus, entre muitos outros.

Trechos do livro:
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Segundo uma lenda de inspiração gnóstica, no céu se travou uma luta entre anjos em que os partidários de Miguel venceram os partidários do Dragão. Os anjos que, indecisos, se conformaram a observar, foram relegados àqui abaixo com o fim de realizar a escolha que não se atreveram a fazer lá em cima, escolha tanto mais penosa quanto menos conservaram o recordo do combate e menos ainda o de sua atitude equívoca.
Deste modo, o começo da história teria por causa uma vacilação e o homem seria o resultado de uma dúvida original, da incapacidade de tomar partido que experimentava antes do seu desterro. Lançado à Terra para aprender a optar, será condenado ao ato, a la aventura, coisa para que só estará preparado na medida em que tenha suffocado nele o espectador. Apenas o céu permitia até certo ponto a neutralidade; a história, pelo contrário, surgirá como o castigo de quem, antes de encarnar, não encontrava nenhuma razão para aderir a um lado ou a outro. Entende-se assim porque os humanos se mostram tão aptos a abraçar uma causa, a aglutinar-se, a reunir-se em torno de uma verdade. Mas, em torno de que espécie de verdade?
No budismo tardio, especialmente na escola de Madhyamika, é enfatizada a radical oposição entre a verdade verdadeira, ou paramarta, patrimônio do liberado, e a verdade corrente ou samvriti, verdade “oculta”, mais precisamente “verdade de erro”, privilégio ou maldição do não-liberado.
A verdade verdadeira, que assume todos os riscos, incluído o da negação de toda verdade e da ideia mesma de verdade, é a prerrogativa daquele que não age, daquele que deliberadamente se situa fora da esfera dos atos e para o qual conta unicamenrte a apreensão (brusca ou metódica, não importa) da insubstancialidade, apreensão que não vai acompanhada de nenhum sentimento de frustração, mas o contrário, já que a abertura à não-realidade implica um misterioso enriquecimento. Para ele, a história será um pesadelo, à qual se resignará uma vez que ninguém está disposto a tornar realidade esses pesadelos que ele desejaria.
Para captar a essência do processo histórico, ou antes sua carência de essência, não há outro remédio que não render-se à evidência de que todas as verdades que comporta são verdades de erro, que o são por atribuírem uma natureza própria ao que não poderia possuir uma. A teoria da dupla verdade permite discernir o lugar que ocupa, na escala das irrealidades, a história, paraíso dos sonâmbulos, obnubilação ambulante. Para dizer a verdade, sua falta de essência não é absoluta, pois é essência do engano, chave de tudo o que cega, de tudo o que ajuda a viver no tempo. (“Les deux verités”, in: Écartèlement)

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Uma noite, no metrô, comecei a olhar atentamente ao redor: todos nós vínhamos de outro lugar… No entanto, vi duas ou três caras daqui, silhuetas abatidas que pareciam pedir perdão por encontrar-se naquele lugar. O mesmo espetáculo em Londres.
Hoje, as migrações já não se fazem mediante deslocamentos compactos, mas através de infiltrações sucessivas: vai-se insinuando pouco a pouco entre os “indígenas”, demasiado desanimados e distintos para ousar seguir tendo uma ideia de “território”. Após mil anos de vigilância, as portas se abrem. Se pensamos nas longas rivalidades entre franceses e ingleses, e entre franceses e alemães, diríamos que todos eles, ao debilitar-se reciprocamente, só tinham por missão acelerar a hora da derrota comum com o fim de que outros espécimes humanos viessem a dominar o relevo. Assim como a antiga, a nova Völkerwanderung suscitará uma confusão ética cujas fases não se pode prever com nitidez. Ante semblantes tão díspares, a ideia de uma comunidade minimamente homogênea é inconcebível. A própria possibilidade de uma multidão tão heterogênea sugere que no espaço que ocupa já não existia, entre os autóctones, o desejo de salvaguardar nem o vislumbre de uma identidade. Em Roma, no século III de nossa era, de cada milhão de habitantes, parece que só sessenta mil eram latinos de pura cepa. Quando um povo tiver levado a cabo a ideia história que tinha a missão de encarnar, já não lhe resta nenhum motivo para preservar sua distinção, para velar por sua segurança, para salvaguardar seus traços em meio a um caos de rostos.
Após haver dominado os dois hemisférios, os ocidentais estão em vias de converter-se no faz-me-rir de ambos; espectros sutis, restos de raças no sentido literal do termo, destinados a uma condição de párias ou de escravos desfalecentes e flácidos da qual talvez se livrem os russos, esses últimos brancos. Porque ainda lhes resta o orgulho, esse motor, não essa causa da história. Quando uma nação carece dele e deixa de considerar-se a razão ou a desculpa do universo, exclui-se a si mesma do devir. Compreendeu – para sua felicidade ou desgraça, conforme se olhe.Se desespera o ambicioso, por outro lado fascina o pensativo e ligeiramente depravado. Só as nações perigosamente desenvolvidas merecem interesse, sobretudo quando mantêm relações duvidosas com o Tempo e quando e quando dão voltas ao redor de Clio por necessidade de castigar-se, de flagelar-se. É precisamente essa necessidade que impulsiona as empreitadas, tanto as grandes como as insignificantes. Cada um denós trabalha contra seus interesses: não somos conscientes disso enquanto agimos, mas examinemos uma época qualquer de perto e veremos que quase sempre nos agitamos e nos sacrificamos por um inimigo virtual ou declarado: os homens da Revolução por Bonaparte, Bonarparte pelos Bourbon, os Bourbon pelos Orléans… Não será que a história só inspira gozação e carece de meta? Não, possui mais de uma meta, aliás tem muitas, mas as alcança ao contrário. Pode-se verificar o fenômeno universalmente. Fazemos o contrário do que perseguimos, avançamos contra a bonita mentira que nos propusemos: de onde o interesse pelas biografias, sem dúvida o menos entediante dos gêneros duvidosos. A vontade nunca prestou um bom serviço a ninguém: as coisas mais discutíveis que produzimos são as que mais nos importavam, aquelas pelas quais nos impusemos as maiores privações. E isso vale tanto para um escritor como para um conquistador, ou para qualquer pessoa. O final de qualquer um de nós convida a fazer tantas reflexões quanto o final de um império, ou o do próprio homem, tão orgulhoso de ter conquistado a postura ereta e tão preocupado em perdê-la, em retornar a sua aparência primitiva, em suma, em acabar sua carreira como a havia começado: encurvado e peludo. Sobre cada ser pesa a ameaça de retroceder até seu ponto de partida (para ilustrar a inutilidade de seu percurso, de qualquer percurso) e quem consegue substrair-se a essa ameaça dá a impressão de que está ocultando um dever, de que se recusa a entrar no jogo inventando-se um modo de decadência excessivamente paradóxico. (“Les deux verités”, in: Écartèlement)

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“Se pudéssemos ensinar geografia ao pombo-correio, seu vôo insconsciente, que vai direto ao objetivo, seria imediatamente impossível” (Carl Gustav Carus).
O escritor que muda de língua se encontra na situação deste sábio e desamparado pombo.

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Querer facilitar a tarefa do leitor é um erro. Este não se sentirá nada agradecido. Não gosta de entender, gosta de estancar-se, atolar, gosta de ser castigado. De onde o prestígio dos autores confusos, de onde a perenidade da confusão.

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Os filósofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores.

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O que não pode ser traduzido em termos de mística não merece ser vivido.

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O que é a dor? Uma sensação que não quer apagar-se, uma sensação ambiciosa.

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Existsir é um plágio.

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Segundo a Cabala, todo ser, desde o momento de sua concepção, carrega, enquanto está no seio de sua mãe, um sinal luminoso que se extingue com seu nascimento…

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Não queria viver num mundo esvaziado de sentimento religioso. Não penso na fé mas nessa vibração interior que, independentemente do tipo de crença, nos projeta em Deus, e às vezes inclusive mais acima.

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A verdadeira elegância moral consiste na arte de disfarçar as vitórias de derrotas.

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A morte é um estado de perfeição, o único ao alcance de um mortal.

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Vocês me davam a entender que eu não valia nada quando afirmava que só demonstrava minhas melhores capacidades ao duvidar.
Mas não sou um incrédulo, sou um idólatra da dúvida, um incrédulo em ebulição, um incrédulo em transe, um fanático sem credo, um herói da flutuação.

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A maior das loucuras é acreditar que caminhamos sobre algo sólido. Quando a história se insinua, nos persuadimos do contrário. Nossos passos pareciam aderir ao solo e descobrimos bruscamente que não há nada que se assemelhe ao solo, que também não há nada que se assemelhe aos passos.

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Enquanto preparavam a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma melodia de flauta. “Para que te servirá?”, perguntam. “Para saber esta melodia antes de morrer.”
Se me atrevo a recordar uma resposta trivializada pelos manuais, é porque me parece a única justificação séria de qualquer vontade de conhecer, exerça-se esta no umbral mesmo da morte ou em qualquer outro momento.

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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