Inconvenient (1973)

L’inconvenient d’être né (“O inconveniente de ter nascido”), publicado em 1973, é mais um livro de Cioran caracterizado pela escrita breve e fragmentária dos aforismos, no estilo dos Silogismos da Amargura. Em carta ao irmão Aurel escrita em 10 de novembro do mesmo ano, ele comenta sobre o livro: “Nem bom nem mau […] é um apanhado de reflexões e de anedotas, de um gênero ao mesmo tempo fútil e fúnebre”. Se nos livros anteriores — desde o primeiro no qual Cioran se definiu como um “especialista do problema da morte” — era sobre a morte que recaía a desgraça humana, agora é o nascimento que ocupará, em vez daquela, o lugar central enquanto acontecimento funesto, o “inconveniente” por excelência. As reflexões deste livro vão de encontro ao tempo que se dilata infinitamente entre esses dois nadas que são o nascimento e a morte.

L’inconvenient d’être né é um livro cujos aforismos retomam temáticas habituais do escopo cioraniano de pensamento — ideias presentes em livros como o Breviário, História e Utopia, La chute dans le temps, Le mauvais demiurge — por diferentes perspectivas. Trata-se, com efeito, de olhares descontínuos e intermitentes sobre as velhas questões que inquietam e animam Cioran; são como variações sobre os mesmos temas: a morte, o tempo, a história, a civilização, o homem, a religião, Deus e a eternidade, a consciência, o sofrimento e o mal, a saúde e a doença, o escândalo da existência, o ato de escrever, entre outros. Um detalhe interessante: o título do livro, De l’inconvenient d’être né, é inspirado nos versos do poeta lírico Teógnis de Megara, que escreveu que, “de todas as coisas, a melhor para os homens é não ter nascido nem ter visto os raios do penetrante sol. E, uma vez nascido, transpor depressa as portas do Hades e jazer coberto com muita terra”. (por Rodrigo Menezes)

Trechos do livro:
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Não corremos em direção à morte; fugimos da catástrofe do nascimento. Debatemo-nos como sobreviventes que tratam de esquecê-la. O medo da morte não passa da projeção no futuro de outro medo que remonta ao nosso primeiro momento.
Nos repugna, é verdade, considerar o nascimento uma calamidade: por acaso não nos foi inculcado que se trata do bem supremo e que o pior se situa ao final, não ao princípio, de nossa carreira? Entretanto, o mal, o verdadeiro mal, está atrás, e não diante de nós. O que escapou ao Crissto, Buda compreendeu: «Se três coisas não existissem no mundo, ó discípulos, o Perfeito não apareceria no mundo…» E antes que a velhice e a morte, situa o nascimento, fonte de todas as desgraças e de todos os desastres.

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A impossibilidade de encontrar um só povo, uma só tribo em que o nascimento provoque dor e lamentação, prova até que ponto a humanidade se encontra em processo de regressão.

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Necessidade física de desonra. Queria ter sido filho de carrasco.

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Que miserável é a sensação! Inclusive o êxtase seja, talvez, apenas mais uma.

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Ter cometido todos os crimes, salvo aquele de ser pai.

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No mais profundo de si mesmo, aspirar a ser tão destituído, a ser tão lamentável como Deus.

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O que sei aos sessenta anos, já sabia aos vinte. Quarenta anos de um longo, supérfluo trabalho de verificação.

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Se a muerte só tivesse aspectos negativos, morrer seria um ato impraticável.

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Gostaria de ser livre, inimaginavelmente livre. Livre como um ser abortado.

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A obsessão do nascimento, ao transportar-nos mais aquém do nosso passado, nos faz perder o gosto pelo futuro, pelo presente e até mesmo pelo passado.

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Quando se esgota o interesse que se tinha pela morte, e dá por concluído o assunto, retrocede-se até o nascimento, e se dispõe a enfrentar outro abismo, também inesgotável…

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Quando se rechaça o lirismo, preencher uma página se converte em um infortúnio: que sentido tem escrever para dizer exatamente o que se tinha a dizer?

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É impossível aceitar ser jugado por alguém que sofreu menos que nós. E como cada um se crê um Jó irreconhecido…

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Não gostaria que fossem justos comigo: eu poderia prescindir de tudo, menos do tônico da injustiça.

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Quando passeava, tarde, pelo caminho rodeado de árvores, uma castanha caiu aos meus pés. O ruído que fez ao estalar, o eco que suscitou em mim, e um tremor desproporcionado a respeito desse ínfimo incidente, me submergiram no milagre, na embriaguez do definitivo, como se não houvesse mais perguntas, apenas respostas. Sentia-me ébrio de mil evidências inesperadas com as quais não sabia o que fazer…
Foi assim que estive a ponto de alcançar o meu momento supremo. Mas achei melhor continuar o passeio.

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O não-saber é o fundamento de tudo, cria tudo mediante um ato que se repete a cada instante, engendra este mundo e qualquer outro, pois não cessa de tomar pelo real aquilo que não é. O não-saber é o grande equívoco que serve de base para todas as nossas verdades; o não-saber é mais antigo e mais poderoso que todos os deuses juntos.

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Nisto se reconhece quem tem disposições para a busca interior: porá o fracasso por cima de qualquer êxito, inclusive buscará esse fracasso – inconscientemente, é claro. É que o fracasso, sempre essencial, nos desmascara, nos permite ver-nos como Deus nos vê, enquanto que o êxito nos distancia daquilo que há de mais íntimo em nós como em tudo.

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Houve um tempo em que o tempo não existia… O rechaço do nascimento não é outra coisa que a nostalgia desse tempo anterior ao tempo.

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É impossível sentir que houve um tempo em que não se existia. Daí o apego ao personagem que se era antes de nascer.

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Há no fato de nascer uma ausência tal de necessidade, que quando se pensa nele com um pouco mais de atenção, sem saber como reacionar, fica-se de boca aberta.

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Tracios e Bogomilos: não posso esquecer que frequentei as mesmas paragens que eles, nem que uns choravam pelos recém-nascidos e os outros, para absolver a Deus, responsabilizavam Satanás pela infâmia da Criação.

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Durante as longas noites das cavernas, um sem-número de Hamlets deveriam monologar continuamente, já que cabe supor que o apogeu do tormento metafísico se situa muito antes dessa insipidez universal que se segue ao advento da Filosofia.

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Se é verdade que Deus detesta tomar partido, eu não me sentiria nada incomodado em sua presença, tal seria meu prazer de imitá-lo em tudo, de ser, como Ele, um sem-opinião.

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É muito mais fácil avançar com vícios que com virtudes. Os vícios, acomodaticios por natureza, se ajudam, são generosos uns com os outros; as virtudes, por sua vez, invejosas, se combatem e se anulam, mostrando em tudo sua incompatibilidade e sua intolerância.

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