Lacrimi (1937)

 Lacrimi și Sfinți (1937)

Desde a juventude, a insônia, que teria sido responsável por “Nos cumes…”, continua atormentando Cioran. Agora, assoma-se às suas nuits blanches uma crise religiosa profunda, ainda que muito peculiar. Segundo o próprio Cioran, “uma crise religiosa sem fé”, uma crise religiosa “dominada pela negação” (Entretiens). Nessa época, lê com avidez a Vida dos Santos (Hagiografia), os relatos dos místicos espanhóis como Teresa de Ávila e João da Cruz, além de Meister Eckhart e outros mestres da espiritualidade cristã. Em 1937, então, publica Lacrimi şi Sfinţi (“Lágrimas e Santos”), livro que, no conjunto de sua obra, destaca-se pelo fato de ser, mais do que qualquer outro, o fruto de uma profunda crise religiosa. Considerando que “tudo o que eu escrevi tem origem na minha experiência da insônia”, “Lágrimas e Santos” poderia perfeitamente ser considerado como uma continuação das obsessões de “Nos Cumes…”.

Não obstante o resultado de uma autêntica, e profunda, crise religiosa, o livro escandaliza, dado o seu caráter blasfematório, herético. A santa é aproximada da prostituta, o santo do assassino; Deus é interpelado de igual para igual, sem nenhum prurido de modéstia. Destarte, o livro encontra resistência por parte do editor, que se recusa a publicá-lo sob o argumento de que “eu fiz minha fortuna com a ajuda de Deus, e aí você me vem com todas essas blasfêmias pavorosas.” (Entretiens) Ademais, é alvejado por críticas vindas de todos os lados, de sua mãe ao amigo Mircea Eliade. Em carta enviada ao filho-problema, quando este já reside em Paris, Elvira Cioran escreve: “Eu compreendo o seu livro, etc. Mas você não deveria tê-lo publicado enquanto nós ainda estamos em vida, pois assim seu pai fica em uma situação muito difícil, e eu mesma, que sou presidenta das mulheres ortodoxas… na cidade, todos zombam de mim” (Entretiens). Eliade, por sua vez, é “quem escreveu as coisas mais duras… muito violento. Ele se perguntava como poderíamos continuar amigos depois daquilo.” (Entretiens)