Précis (1949)

Précis de Décomposition (“Breviário de Decomposição”, 1949)

“Breviário de Decomposição” é um divisor de águas no conjunto da obra de Cioran: livro com que inaugura sua fase francesa, ele marca a conversão lingüística efetuada pelo autor quando desiste de continuar escrevendo no idioma natal (anos após ter-se mudado para a França, em 1937). É a partir do Breviário que passará a assinar E.M. Cioran, sigla que escolhe, supostamente inspirado no escritor britânico E.M. Foster, para designar a sua nova persona (no final da vida, porém, elimina a sigla “E.M.” e passa a assinar apenas “Cioran”). Vale lembrar que o “M” do meio não corresponde a nenhum nome ou sobrenome de batismo, como é de se supor (Mihai, Michel, etc.)

Antes de ser intitulado Précis de Décomposition, o livro teve outro título provisório: Exercises Négatifs (“Exercícios Negativos”). Os rascunhos e esboços do texto final (sua versão inacabada) acabariam sendo publicados postumamente na França, no mesmo ano de sua morte, com o título de Exercises Négatifs: En Marge du Précis de Décomposition (Gallimard/Les inedits de Doucet, 2005). É interessante saber que Cioran reescreveu integralmente o livro quatro vezes, motivado pelo comentário de um amigo a quem pediu a opinião sobre o seu desempenho no novo idioma: “ça fait méteque (algo como “soa meteco/estrangeiro”), foi a resposta nada animadora.

Ainda em 1947, Cioran envia os manuscritos do Breviário para a Gallimard, que se interessa pelo texto e decide publicá-lo. Contudo, por motivos diversos, a publicação é adiada inúmeras vezes, vindo a acontecer somente dois anos depois, com uma tiragem modesta de apenas dois mil exemplares. Ainda que não seja um sucesso de vendas, o livro é muito bem acolhido pela crítica, recebendo menções bastante favoráveis em diversos jornais. O primeiro de todos os artigos sobre Cioran na imprensa francesa, a propósito da publicação do Breviário, é de Maurice Nadeau, no jornal Combat (comandado por Albert Camus) de 29 de setembro de 1949, em que o jornalista exalta Cioran como “o profeta de nossa era”:

“Ele chegou, ele por quem esperávamos, o profeta da nossa era dos campos de concentração e do suicídio coletivo, aquele cuja chegada foi preparada por todos os filósofos do vazio e do absurdo, o arauto das más novas por excelência. Saudemo-lo e observemo-lo de perto: ele dará testemunho de nossa época” (Maurice Nadeau, “Un penseur Crépusculaire”, in: Le Combat, 29 de setembro de 1949).

O Breviário lhe rendeu também elogios no L’Ópera (14 de dezembro de 1949) e no Table Ronde (janeiro de 1950). No primeiro, o jornalista André Maurois se refere a Cioran como “o novo moralista ou imoralista”, e, no segundo, Claude Mauriac o saúda como o detentor de uma linguagem magistral: “Eis aí o tom e a língua de um mestre! Todas as proporções guardadas, nós estamos mais próximos de Pascal do que de Vigny”. Até então um perfeito desconhecido em Paris, Cioran escreve para a sua família em 9 de outubro de 1949, contente: “Fui finalmente admitido nos meios parisienses mais interessantes, grandes escritores, etc… eu lhes enviei o livro, não sei se receberam. Até agora, a crítica tem-me sido extremamente favorável […] enviarei um artigo publicado em um dos maiores jornais daqui, com minha foto”.

Em 1950, então, Cioran é agraciado pelo Précis com seu primeiro prêmio literário, o único que aceitaria em toda a sua vida (muitos outros viriam a ser oferecidos; todos recusados): trata-se do Prêmio Rivarol para escritores estrangeiros, no qual se encontra, entre os jurados, o escritor André Gide.

Breviário de Decomposição (Rocco, 1989)

O Breviário foi o segundo livro de Cioran a ser publicado no Brasil, em 1989, pela Rocco, com primorosa tradução do filósofo e professor (PUC-RJ) José Thomaz Brum, (o primeiro foi Exercícios de Admiração). Infelizmente, é um dos poucos títulos de Cioran publicados no Brasil até o momento, além dos Silogismos da Amargura, História e Utopia, Exercícios de Admiração e Antologia do Retrato: de Saint-Simon a Tocqueville (sendo este não um texto do próprio autor, mas uma coletânea de perfis literários, por ele organizada, de figuras ilustres da França dos séculos XVIII e XIX).

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