Syllogismes (1952)

Syllogismes de l’amertume (“Silogismos da Amargura”, 1952)

1ª edição brasileira: Rocco, Rio de Janeiro, 1991 (tradução de José Thomaz Brum)

“Só cultivam o aforismo os que conheceram o medo no meio das palavras, esse medo de desmoronar com todas as palavras.” (Cioran, Silogismos da Amargura)

Dividido em dez partes, a obra é um conjunto de aforismos sobre diversos temas como o Ocidente, religião, amor, história e, claro, a asfixia que a vida cotidiana imprime ao ser humano, este eterno atormentado.

Uma das obras mais traduzidas e mais apreciadas do filósofo, Silogismos da amargura não obteve grande sucesso quando foi lançado originalmente, há décadas. O livro vende apenas quinhentos exemplares, e fracassa ao ponto de a editora mandar cancelar a impressão. Seria apenas na década de 70 que, reeditado em versão de bolso, viria a ser descoberto pela juventude estudantil pós-Maio de 68. Com o passar do tempo, foi sendo cada vez mais apreciado, por sucessivas gerações de jovens que o elegeram como uma espécie de guia para quem acredita que a vida é uma tragicomédia que se toca por distração ou vício.

A obra apóia-se sobre dois temas básicos: a noção do mal, teológica, e a decadência da civilização ocidental, histórica. E com suas brilhantes alfinetadas na poesia, no amor e na intelectualidade justifica amplamente a atração permanente que exerce.

Abaixo, alguns aforismos dos Silogismos da Amargura:

Formados na escola dos veleidosos, idólatras do fragmento e do estigma, pertencemos a um tempo clínico em que só importam os casos. Só nos interessa o que um escritor calou, o que poderia ter dito, suas profundidades mudas. Se deixa uma obra, se explica, assegura no esquecimento.
Magia do artista irrealizado…, de um vencido que desperdiça suas decepções, que não sabe faze-las frutificar.

§

Não queremos mais suportar os pesos das “verdades”, continuar sendo suas vítimas ou seus cúmplices. Sonho com um mundo em que se morreria por uma vírgula.

§

Com certezas, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras — sombras de realidade —, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação.

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A história das idéias é a história do rancor dos solitários.

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Shakespeare: encontro de uma rosa com um machado…

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Só os espíritos superficiais abordam as idéias com delicadeza.

§

É fácil ser “profundo”; basta deixar-se invadir por suas próprias taras.

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Modelos de estilo: a praga, o telegrama e o epitáfio.

§

Todo ocidental atormentado faz pensar em um herói de Dostoievski que tivesse uma conta no banco.

§

Se Nietzsche, Proust, Baudelaire e Rimbaud sobrevivem às flutuações da moda, devem isso à gratuidade de sua crueldade, à sua cirurgia demoníaca, à generosidade de seu fel. O que faz durar uma obra, o que a impede de envelhecer é sua ferocidade. Afirmação gratuita? Considere o prestígio do Evangelho, livro agressivo, livro venenoso entre todos.

§

O pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do “sentido” da vida.

§

A busca do signo em detrimento da coisa significada; a linguagem considerada como um fim em si, como rival da “realidade”; a mania verbal, mesmo nos filósofos; a necessidade de renovar-se a nível das aparências; características de uma civilização na qual a sintaxe prevalece sobre o absoluto e o gramático sobre o sábio.

§

Fraude do estilo: dar às tristezas habituais um aspecto insólito, enfeitar as pequenas desgraças, vestir o vazio, existir pela palavra, pela fraseologia do suspiro ou do sarcasmo.

§

Neste “grande dormitório”, como um texto taoísta chama o universo, o pesadelo é a única forma de lucidez.

§

Ser moderno é remendar no Incurável.

§

Essa espécie de mal-estar quando tentamos imaginar a vida cotidiana dos grandes homens… Por volta das duas da tarde, o que fazia Sócrates?

§

Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que foram concebidas por mamíferos.

§

Uma moda filosófica se impõe como uma moda gastronômica: refuta-se igualmente uma idéia e um molho.

§

A Vida, combinação de química e estupor… Acabaremos nos refugiando no equilíbrio do mineral? Atravessaremos, retrocedendo, o reino que nos separa dele para imitar a pedra normal?

§

Neste universo provisório, nossos axiomas só tem um valor de notícias do dia.

§

Objeção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido.

§

Que haja ou não uma solução para os problemas, isso só preocupa uma minoria; que os sentimentos não tenham nenhuma saída, que não venham dar em nada, que se percam neles mesmos, eis o drama inconsciente de todos, o insolúvel afetivo que cada um sofre sem pensar nele.

§

Haver conhecido a fascinação dos extremos e haver parado em algum lugar entre o diletantismo e a dinamite!

§

Na época em que, por inexperiência, se toma gosto pela filosofia, decidi, como todo mundo, fazer uma tese. Que tema escolher? Queria um ao mesmo tempo batido e insólito. Quando pensei havê-lo encontrado, corri para comunica-lo a meu orientador:
— O que o senhor acha de uma Teoria Geral das Lágrimas?
— É possível — me disse —, mas vai ser difícil encontrar bibliografia.
—Se é por isso, não há problema. A História inteira me respaldará com sua autoridade — respondi-lhe com um tom de impertinência e de triunfo.
Mas como, impaciente, me olhava com desdém, decidi imediatamente matar o discípulo que havia em mim.

§

“Sou como um marionete quebrada cujos olhos tivessem caído para dentro.”
Estas palavras de um doente mental valem mais do que o conjunto das obras de introspecção.

§

Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar.

§

Só podemos agir em função de um tempo limitado: um dia, uma semana, um mês, um ano, dez anos ou uma vida. Porque se por desgraça relacionamos nossos atos ao Tempo, tempo e atos se evaporam; e é então a aventura no Nada, a gênese do Não.

§

Consciência do tempo: atentado contra o tempo…

§

Entediar-se é mascar tempo.

§

Ter dedicado à idéia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido… Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dos mendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente.

§

Diariamente converso em particular com meu esqueleto, e isso minha carne nunca me perdoará.

§

O que arruína a alegria é sua falta de rigor; contemple, por outro lado, a lógica do fel…

§

Mal meditamos em pé, ainda menos andando. Foi nosso empenho em conversar a posição vertical que originou a Ação; por isso, para protestar contra seus danos, deveríamos imitar a postura dos cadáveres.

§

Escutem os alemães e os espanhóis explicar-se: farão ressoar em seus ouvidos sempre a mesma cantilena: trágico, trágico… É sua maneira de fazer-nos compreender suas calamidades ou suas estagnações, sua forma de triunfar…
Virem-se para os Balcãs; ouvirão constantemente: destino, destino… Os povos demasiado próximos de suas origens dissimulam assim suas tristezas inoperantes. É a discrição dos trogloditas.

§

Um após o outro, adorei e execrei inúmeros povos; jamais me ocorreu renegar o espanhol que gostaria de ter sido…

§

Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por um momento, a marcha da humanidade, será seu salvador.

§

 Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a idéia do suicídio já teria me matado há muito tempo.

§

O que irrita no desespero é sua legitimidade, sua evidência, sua “documentação”: é pura reportagem. Observe, ao contrário, a esperança, sua generosidade no erro, sua mania de fantasiar, sua repulsa ao acontecimento: uma aberração, uma ficção. E é nessa aberração que reside a vida e dessa ficção que ela se alimenta.

§

Se tivesse que renunciar a meu diletantismo, me especializaria no uivo.

§

Na minha infância, meus amigos e eu nos divertíamos vendo o coveiro trabalhar. Às vezes ele nos deixava um crânio com o qual jogávamos futebol. Esse era para nós um prazer que nenhum pensamento fúnebre empanava.
Durante muitos anos vivi em um ambiente de párocos que haviam ministrado milhares de extrema-unções; apesar disso, não conheci nenhum a quem a Morte intrigasse. Mais tarde compreendi que o único cadáver do qual se pode tirar algum
proveito é o que se prepara em nós.

§

Bem no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia…, minha modéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada a aprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão extraordinária descoberta.

§

Mais que uma reação de defesa, a timidez é uma técnica, aperfeiçoada sem cessar pela megalomania dos incompreendidos.

§

Pode-se falar honestamente de outra coisa além de Deus ou de si mesmo?

§

Que inquietude quando não estamos seguros de nossas dúvidas e perguntamos: são verdadeiramente dúvidas?

§

Nenhuma ação, nenhum êxito é possível sem uma atenção total às causas secundárias. A “ vida” é uma ocupação de inseto.

§

O que me dá a ilusão de jamais ter sido um iludido é que nunca amei nada sem ao mesmo tempo odiá-lo.

§

A vida, esse mau gosto da matéria.

§

Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?

§

Se acreditasse em Deus, minha fatuidade não teria limites; passearia nu pelas ruas…

§

Nos momentos cruciais da vida, a ajuda do cigarro é mais eficaz que a dos Evangelhos.

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A Criação foi o primeiro ato de sabotagem.

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Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

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A possibilidade de renovar-se através da heresia confere ao crente uma nítida superioridade sobre o ateu.

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Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.

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 A sexualidade: desregramento dos corpos, cirurgia e cinzas, bestialidade de um ex-santo, estrondo de um risível e inesquecível desmoronamento…

§

 Se os impotentes soubessem como a natureza foi maternal com eles, abençoariam o sono de suas glândulas e o louvariam nas esquinas das ruas.

 §

Apesar de tudo, continuamos amando; e esse “apesar de tudo” cobre um infinito.

§

Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido o paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases.

§

Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus.

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A hora do crime não soa para todos os povos ao mesmo tempo. Assim se explica a permanência a história.

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Dizer: prefiro tal regime a tal outro, é flutuar no indefinido; seria mais exato afirmar: prefiro tal polícia a tal outra. Pois a história na realidade, se reduz a uma classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do
gendarme que os homens criaram através dos tempos?

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Admiro esses povos de astrônomos: caldeus, assírios, pré-colombianos, que, por causa de seu gosto pelo céu, fracassaram na história.

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Povo autenticamente eleito, os Ciganos não são responsáveis por nenhum acontecimento, por nenhuma instituição. Triunfaram do mundo por sua vontade de não fundar nada nele.

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Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que atribuem um “sentido” à história.

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Acredito na salvação da humanidade, no futuro do cianureto…

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A insônia é a única forma de heroísmo compatível com a cama.

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A Verdade? Encontra-se em Shakespeare; um filósofo não poderia apropriar-se dela sem explodir com seu sistema.

§

Acesso involuntário a nós mesmos, a doença nos obriga à “profundidade”, nos condena a ela. O doente? Um metafísico involuntário.

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