Cioran, filósofo romeno, é tema de documentário

Publicado no caderno Você do jornal Diário do Pará – Quinta-feira, 09/06/2011

Como comemorar o centenário de nascimento de um escritor que preferiu viver sempre na clandestinidade, que fez da indiferença sua trincheira? Que recusou todo tipo de títulos e honrarias, escolhendo passar necessidades a negociar suas ideias? Como comemorar aquele que fez de sua vida um ferrenho combate a qualquer tipo de adoração – adoração segundo ele responsável por todos os nossos crimes? Como homenagear sem faltar com aquele que acreditava ter a sorte de ser desconhecido, de merecer permanecer na sombra, no imperceptível, tão inapreensível e impopular quanto a nuança, que acreditava ser a consagração a pior das punições?

Tarefa difícil homenagear Emil Cioran sem renunciá-lo. Filosofo e escritor romeno, nasceu em Sibiu, Transilvânia, em 08 de abril de 1911. Até hoje é, sem dúvida, o estilo mais fértil e apurado do pensamento pessimista desde Schopenhauer e Nietzsche. Aos 17 anos ingressou na Universidade de Bucareste. De família ligada à Igreja Ortodoxa – seu pai era padre -, tornou-se um agnóstico, circulando na juventude com os futuros filósofos e escritores Eugène Ionesco, Mircea Eliade, Constantin Noica e Petre Tutea.

Cioran graduou-se com uma tese sobre Henri Bergson. Foi um leitor compulsivo de autores, desde os pré-socráticos até Borges, de Teógnis a Beckett. Um estudioso de Emmanuel Kant, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, George Simmel, Max Stiner, Ludwig Klages, Martin Heidegger e Lev Shestov.

Mas o próprio filósofo fazia a ressalva: “Não são, todavia, minhas leituras que me formaram, mas os acidentes e os encontros. Tudo o que escrevi é fruto de circunstâncias, azares, conversações, ruminações noturnas, crises de abatimento mais ou menos cotidianas, obsessões intoleráveis. Meu estado de saúde, afortunadamente mau, é, em grande parte, responsável pela direção, pela cor, dos meus pensamentos. Comecei a ser ‘eu’ graças à insônia, essa catástrofe à qual devo tudo o que marcou profundamente minha juventude. Se percebi certas coisas neste mundo, é porque tive a sorte de não poder dormir”.

Mas o sábio não se dizia um filósofo. Lembra que na juventude foi um fanático pela filosofia. “Depois, tudo que pude experimentar ou pensar não foi nada mais que uma luta contra toda forma de sistema, em qualquer domínio”. Enquanto Nietzsche se intitulava “um martelo” por sua filosofia iconoclasta, Cioran é uma britadeira destruidora de sistema. Um nômade do pensamento, um pensar migratório que muito sondou para não ficar refém de ninguém e fez da dúvida seu combustível: “O estrangeiro se tornara meu Deus. Daí esta sede de peregrinar através das literaturas e das filosofias, de devorá-las com ardor doentio”.

Em 1933 ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Berlim. Em 1937 foi morar em Paris, após ganhar uma bolsa para fazer uma tese sobre Nietzsche que nunca será acabada. Jamais retorna a seu país de origem. Seu primeiro livro, “Nos Cumes do Desespero”, publicado aos 20 anos, ainda na Romênia, foi a base de sua obra posterior. Escreveu ainda em romeno “Das Lágrimas e dos Santos”. Seu primeiro livro em francês foi o premiado “Breviário da Decomposição”, de 1947, que fez Saint-John Perse afirmar que Cioran era o maior prosador da língua francesa desde Valéry. Essa obra de 1947 só foi editada no Brasil em 1989, traduzida primorosamente por José Thomaz Brum, que também traduziu “Silogismos da Amargura”, lançada em 1991.

Cioran é veneno. Cioran é a cicuta que matou Sócrates. É todos os seus descendentes que criam na filosofia como saída. Cioran lembra cianureto, veneno letal que, se apreciado como antídoto, como remédio à propensão à crença na verdade, no poder e na adoração, sem dúvida nos propiciará uma vida menos pesada e uma morte mais tranquila.

Cioran nos deixou em 20 de junho de 1995. Em seu “Breviário da Decomposição” registrou seu epitáfio: “Teve o orgulho de jamais mandar, de não dispor de nada e de ninguém. Sem subalternos, sem amos, não deu nem recebeu ordens. Excluído do império das leis, e como se fosse anterior ao bem e ao mal, nunca fez ninguém padecer…”.

(Nonato Cardoso, editor da revista Polichinello, Especial para o Caderno Você/ Diário do Pará)

PARTICIPE

O projeto Cinepensamento exibe o documentário “Cioran, sua vida, seu trabalho”, de Patrice Bollon e Bernard Jourdain (França, 1991). Amanhã, dia 10, às 19h, no Instituto de Artes do Pará (IAP), seguido de comentários de Edilson Pantoja (Iesam), Marcelo Azevedo e Nonato Cardoso (revista Polichinello). O IAP fica em Nazaré, ao lado da Basílica. Entrada franca.

NA INTERNET

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Duas doses de Cioran, por Marco Lucchesi

Breviário de decomposição e História e utopia, de E. M. Cioran. Tradução de José Thomaz Brum. Editora Rocco, 224 páginas e 128 páginas. Preço a definir.

Por Marco Lucchesi* – Publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo (16/04/11)

Uma noite fria no Café Kapsa em Bucareste. O escritor Marin Mincu desenha suas ideias para o centenário de nascimento de Cioran, com algumas cartas do filósofo nas mãos. Um copo de tsúica e Mincu insiste na matriz romena de Cioran e do diálogo deste com Ionescu e Eliade. Mas também Constantin Noica, das “Seis doenças do espírito contemporâneo”, Alexandru Dragomir, discípulo dileto de Heidegger, e do profundo e incontornável Lucian Blaga. Parecia fundamental atingir os fantasmas romenos que habitam as ruínas de Cioran, cuja obra está ganhando reedição, com dois títulos chegando às livrarias na próxima semana: “Breviário de decomposição” e “História e utopia”.

Nascido em abril de 1911 em Rasinari, no sul da Transilvânia, Cioran alcança uma sólida formação literária e filosófica em Bucareste e na Alemanha. Segue depois para a França, em cuja língua passa a escrever desde então (esse idioma emprestado, com suas palavras sutis, carregadas de fadiga e pudor) deixando atrás de si uma importante bibliografia em língua romena.

Não se enganava Marin Mincu: há em Cioran um cerrado confronto metafísico na esfera do trágico, em seu diálogo com Eliade e Botta, uma espessa dialética vizinha ao pensamento de Blaga. E certamente Nietzsche, Schopenhauer, Dostoievski. A educação filosófica de Cioran, além de longitudinal, revela-se altamente articulada. Cosmopolita e de raiz. No fim da vida, reconhece uma herança de fundo gnóstico e de velha cepa, que remonta à cultura dos Balcãs: “por mais que desejasse libertar-me de minhas origens não consegui. Ninguém alcança libertar-se de si mesmo.”

Na história das formas breves, que dominaram o século XX, Cioran ocupa lugar de destaque. Disse de si mesmo que era um homem do aforismo. Seus fragmentos — como os cristais das “Banalidades”, de Dragomir, ou os grumos do “Tractatus”, de Wittgenstein — respiram uma condensada história da filosofia. Não passam de esplêndidas ruínas, náufragas de sua perdida glória — arrancadas de extensas passagens reflexivas, mediante o martelo filosófico de Nietzsche: ruínas sempre, cheias de um brilho feroz, varadas pela sinergia das coisas incompletas e, por causa disso, fortemente potenciais.

Cioran não espera o socorro de um horizonte conceitual devastado, através de uma possível solução totalizadora, nem clama por um anjo capaz de preencher lacunas, ou de soprar, com sua trompa dourada, a melodia de um todo esquecido. Ao contrário, o filósofo ilumina a tensão de um pensamento propositadamente aerado ou disperso e advoga, como ninguém, a volúpia do insolúvel: “nunca tentei aplainar, reunir ou conciliar o irreconciliável”. Uma poderosa nuvem de fragmentos, portadora de uma tensão efervescente, jamais um sistema pronto e acabado. Daí sua inclinação pelas cartas de Nietzsche, onde brilha um discurso impreciso e tateante, fora do profético ou do absoluto de Zaratustra, diante de quem Cioran já não vibrava como outrora.

O programa desse não-programa surge com o ensaio “Uma forma especial de ceticismo”, quando o jovem filósofo romeno dos anos 1930 aposta no excesso da dúvida: “o valor do cético na antiguidade media-se a partir da tranquilidade da alma. Porque não deveríamos criar, nós, que vivemos a agonia da modernidade, um ethos trágico, onde a dúvida e o desespero se confundissem com a paixão, com a chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”.

Para alguns estudiosos, aquele paradoxo levou o filósofo a atingir as afecções e as tonalidades emotivas da alma, assumindo um lirismo mitigado e uma inquietação irreversível, isenta de paz, sob uma ótica lúcida, diante do paroxismo das coisas que nos cercam. Não havendo salvação no plano da história ou da metafísica.

Nesse vasto percurso, como em “Silogismos da amargura” ou “História e utopia”, a dimensão do devir e a reserva de esperança deixam de fazer sentido na filosofia da história, nos modelos de Hegel ou Marx, para não falar das teologias da história, igualmente anódinas e ilusórias. “Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que atribuem um sentido à história”. Cioran foge das grandes $ínteses em que o sujeito se afoga nos mares perigosos da abstração.

Nada se pode esperar. Nada se pode oferecer aos altares vazios da história e da utopia. Acabou o tempo em que os faraós inscreviam seu nome nas rochas do tempo. Para Cioran os ciganos são o verdadeiro povo eleito: “triunfaram do mundo por sua vontade de não fundar nada nele.”

Aqui está todo um sentimento. Mais que um programa ou sistema. Cioran vive. Porque não reúne ou aplaina. Não organiza ou completa. Dissolve. Apenas dissolve. E não corre poucos riscos aquele que dissolve. Como quando afirma que “as únicas utopias legíveis são as falsas, as que escritas por jogo, diversão ou misantropia, prefiguram ou evocam as ‘Viagens de Gulliver’, bíblia do homem desenganado, quintessência de visões não quiméricas, utopia sem esperança. Através de seus sarcasmos, Swift varreu a estupidez de um gênero até quase anulá-lo”. O que nos resta fazer, afinal, senão dissolver a tessitura da utopia, desfibrar-lhe os pontos de sua trama, purificá-la dos últimos resíduos de moralina? A utopia e o Apocalipse formam como que a dupla face dos tempos que correm. Ambos se contaminam mutuamente, criando, assim, um modo novo e terrível, capaz de bem traduzir o nosso inferno, ao qual havemos de responder com um sim, correto e desprovido de ilusão. Irrepreensíveis diante da fatalidade.

Cabe ressaltar ainda a boa tradução de José Thomaz Brum do pensamento de Cioran, com quem se correspondia em 1991, quando lhe publicou o primeiro livro no Brasil — “Silogismos da amargura” — alterando inclusive trechos do original, a pedido do próprio autor. Dentre outros estudos de Brum, sublinho “O pessimismo e suas vontades: Schopenhauer e Nietzsche” — tese de doutorado defendida em Nice e orientada por Clément Rosset. O que nos diz da forte ligação do tradutor com a sagrada família a que de algum modo pertence, sem de todo pertencer, o inclassificável Cioran.

Tiro de “Breviário de decomposição” o seguinte fragmento: “Uma caverna infinitesimal boceja em cada célula… meu sangue se desintegra quando os brotos se abrem, quando o pássaro floresce. Invejo os loucos sem remédio, os invernos do urso, a secura do sábio, trocaria por seu torpor minha agitação de assassino difuso que sonha crimes além do sangue.”

Um assassino difuso para conter a febre das utopias e o delírio da história. Eis a tarefa de Cioran, que não hesitaria subscrever o poema “Autorretrato”, do romeno Nichita Stanescu sobre o precário da humana condição: “Sou apenas uma mancha de sangue que fala”.

*MARCO LUCCHESI é poeta e ensaísta, autor de “O dom do crime”, entre outros

O Drácula do ceticismo

Sérgio Augusto para O Estado de S.Paulo, 09 de abril de 2011

Misantropos e descrentes do mundo inteiro!, aproximem-se para celebrarmos juntos, com um dia de atraso, o centenário de Emil Cioran, o último agente provocador da filosofia, o mais desconcertante e divertido dos céticos, o mais fulgurante militante do pessimismo, o mais implacável profeta do niilismo, o mais desencantado e provocativo dos moralistas, o mais rigoroso, elegante e lacônico ironista do seu tempo. Se necessitam de provas, aqui lhes ofereço quase vinte:

Os homens vivem e morrem enganados.

A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

O espermatozoide é o bandido em estado puro.

Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo.

Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.

Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por um momento, a marcha da humanidade, será seu salvador.

Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.

Não é Deus, mas a Dor, quem desfruta das vantagens da ubiquidade.

Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, não envelhecerão jamais.

Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.

Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

Ao contrário dos outros séculos, que praticaram a tortura com negligência, este, mais exigente, introduz nela um desejo de purismo que honra a nossa crueldade.

A história se reduz a uma classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do gendarme que os homens criaram através dos tempos?

Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma religião.

Por não haver sabido celebrar o aborto ou legalizar o canibalismo, as sociedades modernas deverão resolver seus problemas através de procedimentos muito mais expeditivos.

Seis meses atrás, ao resenhar duas novas traduções e um ensaio sobre o filósofo romeno na New York Review of Books, Charles Simic perguntou-se: “Quem ainda lê E.M. Cioran hoje em dia?” Quase certamente não o leem com a mesma intensidade de 30 anos atrás, razão primeira da presente escassez de traduções brasileiras nas livrarias, quase todas com a chancela da Rocco e curadoria do prof. José Thomaz Brum (felizmente, a editora começa a relançá-los e ainda publicará um inédito, Do Inconveniente de Ter Nascido), mas não vai longe o tempo em que a sabedoria dark de Cioran deitava sua sombra (ou sua luz) no cinema de autores tão díspares como Woody Allen, Abbas Kiarostami, Rosemberg Cariry, e excitava o espírito de intelectuais tão inquietos como Milan Kundera, Fernando Savater e Ernesto Sabato, que do filósofo se tornaram amigos.

Aos olhos deste ignorante que vos fala, até a publicação daquelas reflexões sobre Cioran de Susan Sontag, em 1968, a cultura da Romênia se resumia a quatro referências apenas: Conde Drácula, Ionesco, Mircea Eliade e Paul Celan. Nem sequer de nome conhecia Camil Petrescu, tido como “o Proust romeno”, e só descobriria os filósofos Nae Ionescu (um naziexistencialista romeno) e Constantin Noica através de Cioran, não exatamente de sua obra, mas das leituras paralelas a que fui levado após me tornar um assíduo frequentador daquele que foi o mais distinto continuador, no pós-guerra, da tradição filosófica aforística, lírica e antissistemática de Lichtenberg, Kierkegaard, Nietzsche e Wittgenstein, concorde-se ou não com suas ideias, deleite-se ou não com a “ferocidade tétrica e jubilosa” do seu humorismo (as aspas são de Savater).

A Romênia não nos deu apenas o “teatro do absurdo” (via Ionesco), mas também a “filosofia do absurdo irônico”. E Cioran, ressalto, não ficou só nos epigramas.

Como Drácula, ele nasceu na Transilvânia e viveu em Bucareste até os 26 anos, quando, seguindo a rota de seus companheiros de boemia Ionesco e Eliade, foi ser dandy metafísico em Paris, “o único lugar onde ainda se torna agradável desesperar-se”, deixando para trás um passado comprometedor (foi simpatizante do nazismo), que desistiu de ocultar e abjurou publicamente, ao contrário de Eliade, que até bater as botas se fingiu de inocente com a maior cara de pau.

O Cioran que interessa e conta é o parisiense, o que passou a escrever em francês e, a partir de 1949, com Breviário de Decomposição, impôs-se como um dos pensadores mais originais, corajosos e intransigentes do século passado. Um Nietzsche com a verve de Oscar Wilde, um mestre da concisão que só tinha vontade de escrever num estado explosivo, “num estupor transformado em frenesi, num clima de ajustes de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes”. A única que levou a sério foi seu conflito com o mundo. Jamais se sentiu atraído pelo marxismo: demasiado sistemático, rígido, dogmático, otimista e alheio ao indivíduo e seus desejos e fraquezas.

Só os sortilégios soberanos da música (“o refúgio das almas feridas pela felicidade”) aproximaram a sua espiritualidade ateísta de alguma forma de enlevo religioso. Venerava Bach e Mozart, e no final da vida apascentava sua inquietude ouvindo o grupo pop espanhol Presuntos Implicados. Levou uma vida monástica, sustentado pela mulher e pelos amigos, entre os quais Henri Michaux (com quem adorava conversar sobre doenças) e Samuel Beckett (com quem costumava visitar os cemitérios de Paris). Morreu em 1995, com Alzheimer, purificadamente alheio ao mundo que tanto abominava.

Cioran no Vaticano

Emil Cioran, o ateu que crê (Cardeal Gianfranco Ravasi)

BOLONHA, quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, abriu em 12 de fevereiro, na Universidade de Bolonha, os encontros do Átrio dos Gentios, que promovem o diálogo entre crentes e não crentes, por sugestão de Bento XVI. O purpurado apresentou uma reflexão sobre Emil Cioran (1911-1995), escritor e filósofo romeno. Oferecemos um fragmento da redação original.

* * *

“Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo”. Este é, talvez, o lapidar e fulgurante documento de identidade de Emil Cioran, nascido há cem anos, em 8 de abril de 1911, em Rasinari, na Transilvânia romena. Este inclassificável escritor-pensador, em 1937, aos 26 anos, emigrou para Paris, onde viveu até a morte, em 1995. Foi estrangeiro para a sua própria pátria, cujo nome tinha suprimido de seu registro civil, abandonando inclusive seu idioma natal. Foi estrangeiro no país que o acolheu, por causa do seu constante isolamento: “Eliminava do meu vocabulário uma palavra após a outra. Acabado o massacre, só uma sobreviveu: solidão. Despertei satisfeito”. Estrangeiro, por último, para Deus, apesar de Cioran ser filho de um sacerdote ortodoxo. Tão estrangeiro que se inscreveu na “raça dos ateus”, mas viveu com a ânsia insone de seguir o mistério divino. “Sempre rondei a Deus como um delator: sem ser capaz de invocá-lo, eu o espionava”.

Eu gostaria de falar brevemente dele, sem a pretensão de superar o meu recinto de teólogo para me aventurar na análise crítica literária, que outros já farão neste centenário. Cioran ficou de tocaia em várias ocasiões para fazer uma emboscada contra Deus, obrigando-o a reagir e, portanto, a mostrar a cara. É emblemático o diálogo que ele travou à distância com o teólogo Petre Tutea. Tutea não tinha abandonado a sua terra, apesar de ter passado 13 anos nos cárceres de Ceaucescu, nem muito menos sua fé, a ponto de ter assim retrucado a Cioran: “Sem Deus, o homem não é mais do que um pobre animal, racional e falante, que não vem de lugar nenhum e não sabe para onde vai”. Na verdade, o seu interlocutor não era ateu nem agnóstico, pois tinha chegado a sugerir aos teólogos o seu particular caminho “estético” para demonstrar a existência de Deus. Aliás, ele escreveu em “De lágrimas e santos” (Tusquets Editores, 1988): “Quando ouvimos Bach, vemos Deus nascer… Depois de um oratório, de uma cantata, de uma paixão, Deus tem que existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias procurando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única!”.

Cioran acusa o Ocidente de um delito extremo, o de ter extenuado e dissecado a potência regeneradora do Evangelho: “Consumido até os ossos, o cristianismo deixou de ser uma fonte de maravilha e de escândalo, deixou de desencadear vícios e fecundar inteligências e amores”. Esse Qohélet moderno se transforma, então, numa espécie de “místico do Nada”, deixando entrever o calafrio das “noites da alma” de certos grandes místicos, como João da Cruz ou Angelus Silesius, remontando até o desconcertante cantor do nexo Deus-Nada, o famoso Mestre Eckhart da Idade Média. “Era ainda uma criança quando conheci o sentimento do nada, depois de uma iluminação que não conseguiria definir”. Uma epifania de luz escura, poderíamos dizer, utilizando um oxímoro de Jó.

“Há sempre alguém por cima de nós mesmos”, prosseguia. “Por cima do próprio Deus eleva-se o Nada”. Eis o paradoxo: “O panorama do coração é: o mundo, mais Deus, mais o Nada. Ou seja, tudo”. Esta é sua conclusão: “E se a existência fosse para nós um exílio e o Nada uma pátria?”. O Nada, sempre de acordo com este oxímoro, se transforma no nome de um Deus, bem diferente do Deus cristão, mas disposto, como Ele, a retirar o mal-estar existencial da humanidade. Cioran escreveu, evocando a psicostasia do antigo Egito, ou seja, o momento em que as almas dos defuntos eram pesadas para verificar-se a gravidade das suas culpas: “No dia do juízo, só as lágrimas serão pesadas”. No tempo do desespero, de fato, certas blasfêmias, declarava Cioran acompanhando Jó, são “orações negativas”, cuja virulência é mais acolhida por Deus que o compassado louvor teológico (a idéia já tinha sido formulada por Lutero).

Cioran é, portanto, um ateu-crente sui generis. Seu pessimismo, ou melhor, seu negacionismo, se deve mais à humanidade: “Se Noé tivesse recebido o dom de ler o futuro, não há dúvida de que ele mesmo teria afundando a arca!”. E aqui o Nada se transforma no mero nada, um vazio de aniquilamento: adorar a terra e dizer que nela está o fim e a esperança dos nossos afãs, e que seria inútil procurar algo melhor em que descansar e se dissolver. O homem faz com que o homem perca toda fé; é uma espécie de demonstração da não existência de Deus e, desta perspectiva, explica-se o pessimismo radical de Cioran, que já brilha nos títulos de seus livros: “Do inconveniente de ter nascido”, “A tentação de existir”, “Nos cimos do desespero”, “Dilaceramento”, “Silogismos da amargura”, etc. Muitas vezes é difícil não dar a ele a razão, ao se olhar não só para a história da humanidade, mas também para o vazio de tantos indivíduos que não têm nada do trágico Nada transcendente: “De muitas pessoas podemos dizer o que se diz de algumas pinturas: que a parte mais bela é a moldura”. Por sorte, no entanto (e esta é a grande contradição), também existe, como antes dissemos, Bach.

E.M. Cioran na revista Veja

Em 28 de junho de 1995, a Veja dedicava uma página inteira em homenagem a E.M. Cioran, a propósito do seu recente falecimento, o que reflete até que ponto chegou a repercussão de sua obra por aqui. Desde então, contudo, muito pouco foi publicado na grande mídia a seu respeito, o que mostra que ainda falta muito para que o seu nome e a sua obra sejam devidamente difundidos no Brasil. Vale lembrar que apenas 4 de seus livros estão publicados aqui, o Breviário, os Silogismos, História e Utopia, e Exercícios de Admiração, enquanto que nos países de língua espanhola é possível encontrar edições traduzidas de todos os seus livros (a grandemaioria delas provenientes da Espanha, ainda que seja possível encontrar edições locais de qualidade nem sempre confiável). Ficamos com a interrogação sobre o que aconteceu com o projeto  – aparentemente interrompido – do Prof. José Thomaz Brum da PUC-RIO (que conheceu Cioran pessoalmente e com ele se correspondeu), junto à editora Rocco, de traduzir a obra completa (ao menos os livros franceses).

E.M. Cioran e Ernesto Sábato: um encontro

Sobre estes e outros temas conversei longamente com Cioran, em uma tarde de 1989. Anos atrás me chegaram notícias do desejo que ele tinha de me conhecer; insistência que interpretei como mensagens crípticas, reiteradas em distintas oportunidades. Combinamos um encontro em sua casa da rua Odeón, a poucos passos do meu hotel no Boulevard Saint-Germain.

Custou-me dissuadi-lo do seu insistente oferecimiento de me esperar na entrada, por temor de que eu me perdesse; o que me corroborou mais uma vez o seu autêntico desejo de me ver. Depois de alguns minutos cheguei à sua casa, num daqueles velhos edifícios franceses; e logo depois de subir os seis andares a pé, me detive em frente à porta de madeira onde havia colocado, no lugar reservado para as chambres de bonnes, um cartaz que dizia Ici Cioran.

Contrariamente ao que muitos pressupõem e ao que eu mesmo pensava, aquele homem amável me surpreendeu, miúdo e abatido, predicador de um niilismo que não coincidia con ele. Era antes um grande pessimista, por momentos subjugado por um outro, cético e descrente. Mas sempre com um sorriso. Em nenhum momento um intratável indiferente, pelo contrário, um desses homens solidários com a “desventurada multidão”, como dissera Mallarmé, em busca de alguém que expresse sua inquietação e seu tormento. Talvez possamos referir a ele a frase de Strimberg: “Não detesto os homens, tenho medo deles”.

Conversamos fraternalmente durante mais de quatro horas, até  que tive de retirar-me porque meu amigo Severo Sarduy me esperava em um café não muito distante. Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e compartilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmitificar um racionalismo que só nos trouxe a miséria e os totalitarismos. Como também a imbecilidade dos que acreditam no progreso e no avanço da civilização. “Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como à desaparição da religião sobre a Terra.” Palavras de um filósofo cuja lucidez era produto de suas perplexidades e de seu tormento.

Tenho a convicção de que sua dor metafísica poderia ter-se aliviado caso tivesse escrito ficções, por seu caráter catártico, e porque os graves problemas da condição humana não são aptos para a coerência, mas unicamente acessíveis a essa expressão mitopoética, contraditória e paradoxal, como nossa existência.

“Na tristeza tudo se torna alma”, diz em um dos seus ensaios que tanto ajudaram a desmascarar a frivolidade e os sorrisos hipócritas destes tempos.

Ernesto Sábato, Antes del Fin.

A ética do sacrifício

Os escritos de juventude do pensador romeno E. M. Cioran, reunidos no volume Solitude et Destin, revelam muito da obra daquele que mais tarde seria definido como o esteta da desesperança e pessimista incondicional

Por Fernando Eichenberg

Artigo publicado na revista Primeira Leitura, no. 31, de setembro de 2004

Paris – “Como pude ser aquele que eu era?”, indagou o filósofo romeno E. M. Cioran (1911-1995), já transcorrida a maior parte de sua trajetória intelectual. A interrogação de tons shakespearianos inseria-se numa série de autocríticas aos seus antigos flertes com a organização fascista romena Guarda de Ferro e a escritos de juventude de matizes anti-semitas. “Meu eu atual não reconhece o autor”, dizia, ao manifestar uma tardia incompreensão e arrependimento públicos em relação a certas posturas juvenis adotadas nos primórdios da formação de seu singular pensamento filosófico. Entre amigos, Cioran costumava designar de “pré-história” o período de sua vida até a mudança definitiva para Paris, no fim dos anos 30, e a passagem de sua escrita para o idioma francês, a partir de 1947.

Não por acaso, os artigos políticos mais violentos e polêmicos (principalmente os produzidos entre 1933 e 1935, na Alemanha) foram excluídos pelo próprio autor, em 1990, da antologia que reúne seus textos publicados em jornais e revistas romenas entre 1931 e 1943, ou seja, dos 20 aos 32 anos de idade. Dito isso, traduzidas agora do romeno para o francês, as 434 páginas de Solitude et Destin (Solidão e Destino) revelam muito do que se tornaria o então jovem e provocador pensador, alguns livros mais tarde definido como esteta da desesperança, niilista desencantado, arauto da melancolia ou pessimista incondicional.

Aos seus 20 anos, já se notavam as raízes de seu estilo corrosivo e percuciente; o gosto pelo paradoxo, a ironia, os silogismos e aforismos; o sombrio romantismo e o ódio às ideologias; seu anticristianismo feroz, a afirmação da tragédia humana e a descrença na história. O jovem Cioran bebia na fonte da filosofia alemã, principalmente influenciado por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Mas, na maturidade, a idolatria seria relativizada por razões particulares, como afirmaria numa entrevista de 1983: “Nietzsche era o herói da minha juventude; mas já não o é mais hoje. Mesmo que genialmente mordaz, eu o considero muito pueril para mim, demasiado cândido”.

Nos quase 80 artigos da antologia, Cioran aborda variados temas da filosofia, literatura, música, arte. O leitor não se entediará com suas joviais impressões e digressões sobre Greta Garbo, Oskar Kokoschka, Auguste Rodin, Albrecht Dürer, Karl Jaspers, a agonia da cultura, a moral sexual, a sensibilidade mística, estados depressivos, o irracional na vida, a necessidade do radicalismo, niilismo e natureza, a perspectiva pessimista da história ou, como revela o título da obra, solidão e destino. “Quando nos damos conta de que tudo é vão, mas que, absurdamente, continuamos a amar a vida, é preciso se decidir a realizar um gesto, uma ação. Pois é melhor se destruir no frenesi do que na neutralidade. É quase impossível viver de forma neutra, de considerar como um espectador esta terra maldita e querida”, escreveu, aos 24 anos, iniciando seu percurso de ativo polemista. Os intelectuais, na sua opinião, não são feitos para preservar a “harmonia universal”, mas, ao contrário, para dar “brilho às discórdias” e “charme às incertezas”. Num elogio à profecia, seu discurso é arroubado: “Não compreendo como pode haver neste mundo pessoas indiferentes; como pode haver almas que não se atormentam, corações que não queimam, olhos que não choram. Declaremos falsas todas as verdades que não nos fazem mal e falsos  todos os princípios que não nos inflamam. Que nosso verbo lance raios e que nossos argumentos sejam flamas!”.

No fundo, todo problema da cultura e do espírito é o do homem e de seu destino, constata o jovem pensador, aos 21 anos. O sofrimento nos ajuda a compreender o mundo mais do que o entusiasmo, acrescentava, concluindo em embrionária lógica ciorana: “Os homens que meditam sobre a morte não podem ser resignados; aqueles que meditam sobre a vida não podem ser céticos”. Para o filósofo, não há outra ética a não ser aquela do sacrifício. Refinadamente irônico, já dizia aos 22 anos: “Indigno-me com a idéia de que ninguém até agora morreu de alegria. Mas, talvez, seja preciso ter sofrido muito parar morrer de alegria”. O sofrimento é a escola da tolerância, defendia, ao mesmo tempo em que atacava o moralismo excessivo das religiões, responsáveis “pela destruição da espontaneidade irracional e do ela indefinido da vida”. O Cristianismo, na sua opinião, queria revolucionar o homem”, mas, com sua visão de pecado, conseguiu foi “condená-lo na totalidade da escala da história”.

Leitor de O Declínio do Ocidente (1918), do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), o Cioran dos 20 anos – o mesmo que vaticinava “penso, não sem uma satisfação perversa, que nos dirigimos para uma época de barbárie” – se perguntava: como podemos falar de uma cultura do futuro, enquanto vivemos no decorrer da decadência do Ocidente? Ninguém, ou quase, tem dúvidas sobre o fracasso da cultura moderna, individualista e racionalista, dizia. “A atitude do homem de hoje em relação à vida é uma mistura de resignação, cinismo e contemplação. Outrora, a moral possuía uma consistência sustentada em critérios de validade unanimemente admitidos; nos nossos dias, ela perdeu, teórica e praticamente, o caráter divisório e rigoroso que distingue o bem do mal (…) Quem sabe se o bem não é o mal e o mal não é o bem?”, sustentava.

O jovem Cioran acreditava que sua época tinha por missão liquidar o otimismo. A hora histórica era a de renunciar às ilusões, apoderar-se do destino imanente do homem, ressuscitar a sensibilidade trágica e livrar o pessimismo de todo sentimentalismo. “O valor do cético na Antigüidade tinha por medida a tranqüilidade de sua alma e a igualdade de seu humor. Por que não criaríamos, nós que vivemos na agonia da modernidade, uma moral trágica, na qual a dúvida e a desesperança se casariam com a paixão, com uma chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”, questionava em 1933.

“Sempre vivi em contradição e nunca sofri por isso. Sempre encarei as contradições como elas vinham, tanto na minha vida privada como na intelectual”, confessou o filósofo, passados seus 70 anos. O pensador admitia não somente ter aceitado o caráter insolúvel das coisas, mas, inclusive, encontrado certa “voluptuosidade do insolúvel”. Como exemplo, evocava a possibilidade de se duvidar absolutamente de tudo, se definir como um niilista e, entretanto, se apaixonar como o maior dos idiotas. “Essa impossibilidade teórica da paixão, mas que a vida real não cessa de frustrar, faz com que a vida tenha um certo charme, incontestável, irresistível”, dizia, na proximidade do fim de seus dias. Já o jovem filósofo, que manifestava como única ambição se tornar um “pessimista pensador de bulevar”, escrevia, aos 26 anos: “Há na vida algo da histeria de uma primavera terminal. Um caixão suspenso nas estrelas, uma inocência em putrefação, um vício floral. Esta mistura de cemitério e de paraíso…”. Do puro Cioran.