O Drácula do ceticismo

Sérgio Augusto para O Estado de S.Paulo, 09 de abril de 2011

Misantropos e descrentes do mundo inteiro!, aproximem-se para celebrarmos juntos, com um dia de atraso, o centenário de Emil Cioran, o último agente provocador da filosofia, o mais desconcertante e divertido dos céticos, o mais fulgurante militante do pessimismo, o mais implacável profeta do niilismo, o mais desencantado e provocativo dos moralistas, o mais rigoroso, elegante e lacônico ironista do seu tempo. Se necessitam de provas, aqui lhes ofereço quase vinte:

Os homens vivem e morrem enganados.

A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

O espermatozoide é o bandido em estado puro.

Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo.

Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.

Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por um momento, a marcha da humanidade, será seu salvador.

Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.

Não é Deus, mas a Dor, quem desfruta das vantagens da ubiquidade.

Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, não envelhecerão jamais.

Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.

Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

Ao contrário dos outros séculos, que praticaram a tortura com negligência, este, mais exigente, introduz nela um desejo de purismo que honra a nossa crueldade.

A história se reduz a uma classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do gendarme que os homens criaram através dos tempos?

Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma religião.

Por não haver sabido celebrar o aborto ou legalizar o canibalismo, as sociedades modernas deverão resolver seus problemas através de procedimentos muito mais expeditivos.

Seis meses atrás, ao resenhar duas novas traduções e um ensaio sobre o filósofo romeno na New York Review of Books, Charles Simic perguntou-se: “Quem ainda lê E.M. Cioran hoje em dia?” Quase certamente não o leem com a mesma intensidade de 30 anos atrás, razão primeira da presente escassez de traduções brasileiras nas livrarias, quase todas com a chancela da Rocco e curadoria do prof. José Thomaz Brum (felizmente, a editora começa a relançá-los e ainda publicará um inédito, Do Inconveniente de Ter Nascido), mas não vai longe o tempo em que a sabedoria dark de Cioran deitava sua sombra (ou sua luz) no cinema de autores tão díspares como Woody Allen, Abbas Kiarostami, Rosemberg Cariry, e excitava o espírito de intelectuais tão inquietos como Milan Kundera, Fernando Savater e Ernesto Sabato, que do filósofo se tornaram amigos.

Aos olhos deste ignorante que vos fala, até a publicação daquelas reflexões sobre Cioran de Susan Sontag, em 1968, a cultura da Romênia se resumia a quatro referências apenas: Conde Drácula, Ionesco, Mircea Eliade e Paul Celan. Nem sequer de nome conhecia Camil Petrescu, tido como “o Proust romeno”, e só descobriria os filósofos Nae Ionescu (um naziexistencialista romeno) e Constantin Noica através de Cioran, não exatamente de sua obra, mas das leituras paralelas a que fui levado após me tornar um assíduo frequentador daquele que foi o mais distinto continuador, no pós-guerra, da tradição filosófica aforística, lírica e antissistemática de Lichtenberg, Kierkegaard, Nietzsche e Wittgenstein, concorde-se ou não com suas ideias, deleite-se ou não com a “ferocidade tétrica e jubilosa” do seu humorismo (as aspas são de Savater).

A Romênia não nos deu apenas o “teatro do absurdo” (via Ionesco), mas também a “filosofia do absurdo irônico”. E Cioran, ressalto, não ficou só nos epigramas.

Como Drácula, ele nasceu na Transilvânia e viveu em Bucareste até os 26 anos, quando, seguindo a rota de seus companheiros de boemia Ionesco e Eliade, foi ser dandy metafísico em Paris, “o único lugar onde ainda se torna agradável desesperar-se”, deixando para trás um passado comprometedor (foi simpatizante do nazismo), que desistiu de ocultar e abjurou publicamente, ao contrário de Eliade, que até bater as botas se fingiu de inocente com a maior cara de pau.

O Cioran que interessa e conta é o parisiense, o que passou a escrever em francês e, a partir de 1949, com Breviário de Decomposição, impôs-se como um dos pensadores mais originais, corajosos e intransigentes do século passado. Um Nietzsche com a verve de Oscar Wilde, um mestre da concisão que só tinha vontade de escrever num estado explosivo, “num estupor transformado em frenesi, num clima de ajustes de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes”. A única que levou a sério foi seu conflito com o mundo. Jamais se sentiu atraído pelo marxismo: demasiado sistemático, rígido, dogmático, otimista e alheio ao indivíduo e seus desejos e fraquezas.

Só os sortilégios soberanos da música (“o refúgio das almas feridas pela felicidade”) aproximaram a sua espiritualidade ateísta de alguma forma de enlevo religioso. Venerava Bach e Mozart, e no final da vida apascentava sua inquietude ouvindo o grupo pop espanhol Presuntos Implicados. Levou uma vida monástica, sustentado pela mulher e pelos amigos, entre os quais Henri Michaux (com quem adorava conversar sobre doenças) e Samuel Beckett (com quem costumava visitar os cemitérios de Paris). Morreu em 1995, com Alzheimer, purificadamente alheio ao mundo que tanto abominava.

Cioran no Vaticano

Emil Cioran, o ateu que crê (Cardeal Gianfranco Ravasi)

BOLONHA, quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, abriu em 12 de fevereiro, na Universidade de Bolonha, os encontros do Átrio dos Gentios, que promovem o diálogo entre crentes e não crentes, por sugestão de Bento XVI. O purpurado apresentou uma reflexão sobre Emil Cioran (1911-1995), escritor e filósofo romeno. Oferecemos um fragmento da redação original.

* * *

“Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo”. Este é, talvez, o lapidar e fulgurante documento de identidade de Emil Cioran, nascido há cem anos, em 8 de abril de 1911, em Rasinari, na Transilvânia romena. Este inclassificável escritor-pensador, em 1937, aos 26 anos, emigrou para Paris, onde viveu até a morte, em 1995. Foi estrangeiro para a sua própria pátria, cujo nome tinha suprimido de seu registro civil, abandonando inclusive seu idioma natal. Foi estrangeiro no país que o acolheu, por causa do seu constante isolamento: “Eliminava do meu vocabulário uma palavra após a outra. Acabado o massacre, só uma sobreviveu: solidão. Despertei satisfeito”. Estrangeiro, por último, para Deus, apesar de Cioran ser filho de um sacerdote ortodoxo. Tão estrangeiro que se inscreveu na “raça dos ateus”, mas viveu com a ânsia insone de seguir o mistério divino. “Sempre rondei a Deus como um delator: sem ser capaz de invocá-lo, eu o espionava”.

Eu gostaria de falar brevemente dele, sem a pretensão de superar o meu recinto de teólogo para me aventurar na análise crítica literária, que outros já farão neste centenário. Cioran ficou de tocaia em várias ocasiões para fazer uma emboscada contra Deus, obrigando-o a reagir e, portanto, a mostrar a cara. É emblemático o diálogo que ele travou à distância com o teólogo Petre Tutea. Tutea não tinha abandonado a sua terra, apesar de ter passado 13 anos nos cárceres de Ceaucescu, nem muito menos sua fé, a ponto de ter assim retrucado a Cioran: “Sem Deus, o homem não é mais do que um pobre animal, racional e falante, que não vem de lugar nenhum e não sabe para onde vai”. Na verdade, o seu interlocutor não era ateu nem agnóstico, pois tinha chegado a sugerir aos teólogos o seu particular caminho “estético” para demonstrar a existência de Deus. Aliás, ele escreveu em “De lágrimas e santos” (Tusquets Editores, 1988): “Quando ouvimos Bach, vemos Deus nascer… Depois de um oratório, de uma cantata, de uma paixão, Deus tem que existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias procurando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única!”.

Cioran acusa o Ocidente de um delito extremo, o de ter extenuado e dissecado a potência regeneradora do Evangelho: “Consumido até os ossos, o cristianismo deixou de ser uma fonte de maravilha e de escândalo, deixou de desencadear vícios e fecundar inteligências e amores”. Esse Qohélet moderno se transforma, então, numa espécie de “místico do Nada”, deixando entrever o calafrio das “noites da alma” de certos grandes místicos, como João da Cruz ou Angelus Silesius, remontando até o desconcertante cantor do nexo Deus-Nada, o famoso Mestre Eckhart da Idade Média. “Era ainda uma criança quando conheci o sentimento do nada, depois de uma iluminação que não conseguiria definir”. Uma epifania de luz escura, poderíamos dizer, utilizando um oxímoro de Jó.

“Há sempre alguém por cima de nós mesmos”, prosseguia. “Por cima do próprio Deus eleva-se o Nada”. Eis o paradoxo: “O panorama do coração é: o mundo, mais Deus, mais o Nada. Ou seja, tudo”. Esta é sua conclusão: “E se a existência fosse para nós um exílio e o Nada uma pátria?”. O Nada, sempre de acordo com este oxímoro, se transforma no nome de um Deus, bem diferente do Deus cristão, mas disposto, como Ele, a retirar o mal-estar existencial da humanidade. Cioran escreveu, evocando a psicostasia do antigo Egito, ou seja, o momento em que as almas dos defuntos eram pesadas para verificar-se a gravidade das suas culpas: “No dia do juízo, só as lágrimas serão pesadas”. No tempo do desespero, de fato, certas blasfêmias, declarava Cioran acompanhando Jó, são “orações negativas”, cuja virulência é mais acolhida por Deus que o compassado louvor teológico (a idéia já tinha sido formulada por Lutero).

Cioran é, portanto, um ateu-crente sui generis. Seu pessimismo, ou melhor, seu negacionismo, se deve mais à humanidade: “Se Noé tivesse recebido o dom de ler o futuro, não há dúvida de que ele mesmo teria afundando a arca!”. E aqui o Nada se transforma no mero nada, um vazio de aniquilamento: adorar a terra e dizer que nela está o fim e a esperança dos nossos afãs, e que seria inútil procurar algo melhor em que descansar e se dissolver. O homem faz com que o homem perca toda fé; é uma espécie de demonstração da não existência de Deus e, desta perspectiva, explica-se o pessimismo radical de Cioran, que já brilha nos títulos de seus livros: “Do inconveniente de ter nascido”, “A tentação de existir”, “Nos cimos do desespero”, “Dilaceramento”, “Silogismos da amargura”, etc. Muitas vezes é difícil não dar a ele a razão, ao se olhar não só para a história da humanidade, mas também para o vazio de tantos indivíduos que não têm nada do trágico Nada transcendente: “De muitas pessoas podemos dizer o que se diz de algumas pinturas: que a parte mais bela é a moldura”. Por sorte, no entanto (e esta é a grande contradição), também existe, como antes dissemos, Bach.

E.M. Cioran na revista Veja

Em 28 de junho de 1995, a Veja dedicava uma página inteira em homenagem a E.M. Cioran, a propósito do seu recente falecimento, o que reflete até que ponto chegou a repercussão de sua obra por aqui. Desde então, contudo, muito pouco foi publicado na grande mídia a seu respeito, o que mostra que ainda falta muito para que o seu nome e a sua obra sejam devidamente difundidos no Brasil. Vale lembrar que apenas 4 de seus livros estão publicados aqui, o Breviário, os Silogismos, História e Utopia, e Exercícios de Admiração, enquanto que nos países de língua espanhola é possível encontrar edições traduzidas de todos os seus livros (a grandemaioria delas provenientes da Espanha, ainda que seja possível encontrar edições locais de qualidade nem sempre confiável). Ficamos com a interrogação sobre o que aconteceu com o projeto  – aparentemente interrompido – do Prof. José Thomaz Brum da PUC-RIO (que conheceu Cioran pessoalmente e com ele se correspondeu), junto à editora Rocco, de traduzir a obra completa (ao menos os livros franceses).

E.M. Cioran e Ernesto Sábato: um encontro

Sobre estes e outros temas conversei longamente com Cioran, em uma tarde de 1989. Anos atrás me chegaram notícias do desejo que ele tinha de me conhecer; insistência que interpretei como mensagens crípticas, reiteradas em distintas oportunidades. Combinamos um encontro em sua casa da rua Odeón, a poucos passos do meu hotel no Boulevard Saint-Germain.

Custou-me dissuadi-lo do seu insistente oferecimiento de me esperar na entrada, por temor de que eu me perdesse; o que me corroborou mais uma vez o seu autêntico desejo de me ver. Depois de alguns minutos cheguei à sua casa, num daqueles velhos edifícios franceses; e logo depois de subir os seis andares a pé, me detive em frente à porta de madeira onde havia colocado, no lugar reservado para as chambres de bonnes, um cartaz que dizia Ici Cioran.

Contrariamente ao que muitos pressupõem e ao que eu mesmo pensava, aquele homem amável me surpreendeu, miúdo e abatido, predicador de um niilismo que não coincidia con ele. Era antes um grande pessimista, por momentos subjugado por um outro, cético e descrente. Mas sempre com um sorriso. Em nenhum momento um intratável indiferente, pelo contrário, um desses homens solidários com a “desventurada multidão”, como dissera Mallarmé, em busca de alguém que expresse sua inquietação e seu tormento. Talvez possamos referir a ele a frase de Strimberg: “Não detesto os homens, tenho medo deles”.

Conversamos fraternalmente durante mais de quatro horas, até  que tive de retirar-me porque meu amigo Severo Sarduy me esperava em um café não muito distante. Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e compartilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmitificar um racionalismo que só nos trouxe a miséria e os totalitarismos. Como também a imbecilidade dos que acreditam no progreso e no avanço da civilização. “Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como à desaparição da religião sobre a Terra.” Palavras de um filósofo cuja lucidez era produto de suas perplexidades e de seu tormento.

Tenho a convicção de que sua dor metafísica poderia ter-se aliviado caso tivesse escrito ficções, por seu caráter catártico, e porque os graves problemas da condição humana não são aptos para a coerência, mas unicamente acessíveis a essa expressão mitopoética, contraditória e paradoxal, como nossa existência.

“Na tristeza tudo se torna alma”, diz em um dos seus ensaios que tanto ajudaram a desmascarar a frivolidade e os sorrisos hipócritas destes tempos.

Ernesto Sábato, Antes del Fin.

A ética do sacrifício

Os escritos de juventude do pensador romeno E. M. Cioran, reunidos no volume Solitude et Destin, revelam muito da obra daquele que mais tarde seria definido como o esteta da desesperança e pessimista incondicional

Por Fernando Eichenberg

Artigo publicado na revista Primeira Leitura, no. 31, de setembro de 2004

Paris – “Como pude ser aquele que eu era?”, indagou o filósofo romeno E. M. Cioran (1911-1995), já transcorrida a maior parte de sua trajetória intelectual. A interrogação de tons shakespearianos inseria-se numa série de autocríticas aos seus antigos flertes com a organização fascista romena Guarda de Ferro e a escritos de juventude de matizes anti-semitas. “Meu eu atual não reconhece o autor”, dizia, ao manifestar uma tardia incompreensão e arrependimento públicos em relação a certas posturas juvenis adotadas nos primórdios da formação de seu singular pensamento filosófico. Entre amigos, Cioran costumava designar de “pré-história” o período de sua vida até a mudança definitiva para Paris, no fim dos anos 30, e a passagem de sua escrita para o idioma francês, a partir de 1947.

Não por acaso, os artigos políticos mais violentos e polêmicos (principalmente os produzidos entre 1933 e 1935, na Alemanha) foram excluídos pelo próprio autor, em 1990, da antologia que reúne seus textos publicados em jornais e revistas romenas entre 1931 e 1943, ou seja, dos 20 aos 32 anos de idade. Dito isso, traduzidas agora do romeno para o francês, as 434 páginas de Solitude et Destin (Solidão e Destino) revelam muito do que se tornaria o então jovem e provocador pensador, alguns livros mais tarde definido como esteta da desesperança, niilista desencantado, arauto da melancolia ou pessimista incondicional.

Aos seus 20 anos, já se notavam as raízes de seu estilo corrosivo e percuciente; o gosto pelo paradoxo, a ironia, os silogismos e aforismos; o sombrio romantismo e o ódio às ideologias; seu anticristianismo feroz, a afirmação da tragédia humana e a descrença na história. O jovem Cioran bebia na fonte da filosofia alemã, principalmente influenciado por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Mas, na maturidade, a idolatria seria relativizada por razões particulares, como afirmaria numa entrevista de 1983: “Nietzsche era o herói da minha juventude; mas já não o é mais hoje. Mesmo que genialmente mordaz, eu o considero muito pueril para mim, demasiado cândido”.

Nos quase 80 artigos da antologia, Cioran aborda variados temas da filosofia, literatura, música, arte. O leitor não se entediará com suas joviais impressões e digressões sobre Greta Garbo, Oskar Kokoschka, Auguste Rodin, Albrecht Dürer, Karl Jaspers, a agonia da cultura, a moral sexual, a sensibilidade mística, estados depressivos, o irracional na vida, a necessidade do radicalismo, niilismo e natureza, a perspectiva pessimista da história ou, como revela o título da obra, solidão e destino. “Quando nos damos conta de que tudo é vão, mas que, absurdamente, continuamos a amar a vida, é preciso se decidir a realizar um gesto, uma ação. Pois é melhor se destruir no frenesi do que na neutralidade. É quase impossível viver de forma neutra, de considerar como um espectador esta terra maldita e querida”, escreveu, aos 24 anos, iniciando seu percurso de ativo polemista. Os intelectuais, na sua opinião, não são feitos para preservar a “harmonia universal”, mas, ao contrário, para dar “brilho às discórdias” e “charme às incertezas”. Num elogio à profecia, seu discurso é arroubado: “Não compreendo como pode haver neste mundo pessoas indiferentes; como pode haver almas que não se atormentam, corações que não queimam, olhos que não choram. Declaremos falsas todas as verdades que não nos fazem mal e falsos  todos os princípios que não nos inflamam. Que nosso verbo lance raios e que nossos argumentos sejam flamas!”.

No fundo, todo problema da cultura e do espírito é o do homem e de seu destino, constata o jovem pensador, aos 21 anos. O sofrimento nos ajuda a compreender o mundo mais do que o entusiasmo, acrescentava, concluindo em embrionária lógica ciorana: “Os homens que meditam sobre a morte não podem ser resignados; aqueles que meditam sobre a vida não podem ser céticos”. Para o filósofo, não há outra ética a não ser aquela do sacrifício. Refinadamente irônico, já dizia aos 22 anos: “Indigno-me com a idéia de que ninguém até agora morreu de alegria. Mas, talvez, seja preciso ter sofrido muito parar morrer de alegria”. O sofrimento é a escola da tolerância, defendia, ao mesmo tempo em que atacava o moralismo excessivo das religiões, responsáveis “pela destruição da espontaneidade irracional e do ela indefinido da vida”. O Cristianismo, na sua opinião, queria revolucionar o homem”, mas, com sua visão de pecado, conseguiu foi “condená-lo na totalidade da escala da história”.

Leitor de O Declínio do Ocidente (1918), do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), o Cioran dos 20 anos – o mesmo que vaticinava “penso, não sem uma satisfação perversa, que nos dirigimos para uma época de barbárie” – se perguntava: como podemos falar de uma cultura do futuro, enquanto vivemos no decorrer da decadência do Ocidente? Ninguém, ou quase, tem dúvidas sobre o fracasso da cultura moderna, individualista e racionalista, dizia. “A atitude do homem de hoje em relação à vida é uma mistura de resignação, cinismo e contemplação. Outrora, a moral possuía uma consistência sustentada em critérios de validade unanimemente admitidos; nos nossos dias, ela perdeu, teórica e praticamente, o caráter divisório e rigoroso que distingue o bem do mal (…) Quem sabe se o bem não é o mal e o mal não é o bem?”, sustentava.

O jovem Cioran acreditava que sua época tinha por missão liquidar o otimismo. A hora histórica era a de renunciar às ilusões, apoderar-se do destino imanente do homem, ressuscitar a sensibilidade trágica e livrar o pessimismo de todo sentimentalismo. “O valor do cético na Antigüidade tinha por medida a tranqüilidade de sua alma e a igualdade de seu humor. Por que não criaríamos, nós que vivemos na agonia da modernidade, uma moral trágica, na qual a dúvida e a desesperança se casariam com a paixão, com uma chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”, questionava em 1933.

“Sempre vivi em contradição e nunca sofri por isso. Sempre encarei as contradições como elas vinham, tanto na minha vida privada como na intelectual”, confessou o filósofo, passados seus 70 anos. O pensador admitia não somente ter aceitado o caráter insolúvel das coisas, mas, inclusive, encontrado certa “voluptuosidade do insolúvel”. Como exemplo, evocava a possibilidade de se duvidar absolutamente de tudo, se definir como um niilista e, entretanto, se apaixonar como o maior dos idiotas. “Essa impossibilidade teórica da paixão, mas que a vida real não cessa de frustrar, faz com que a vida tenha um certo charme, incontestável, irresistível”, dizia, na proximidade do fim de seus dias. Já o jovem filósofo, que manifestava como única ambição se tornar um “pessimista pensador de bulevar”, escrevia, aos 26 anos: “Há na vida algo da histeria de uma primavera terminal. Um caixão suspenso nas estrelas, uma inocência em putrefação, um vício floral. Esta mistura de cemitério e de paraíso…”. Do puro Cioran.

Cioran: uma mente desconcertante

Conhecido como filósofo do nada, o romeno Emil Cioran produziu uma obra carregada de fina ironia e tiradas polêmicas

por Paulo Jonas de Lima Piva*

Muitas são as tentativas de definir o pensamento estilhaçado, iconoclástico e desconcertante do pensador romeno Emil Mihai Cioran. Rei dos pessimistas, o niilista por excelência do século XX, um Nietzsche contemporâneo, um cético a serviço de uma civilização em declínio, teórico do suicídio, especialista do problema da morte, um místico herético frustrado com o absoluto, cínico. O texto de Cioran parece imune a todas essas designações, em função, sobretudo, de sua aristocrática ironia. Ele deixou de acreditar nas palavras, embora tenha escrito muito. Quanto aos livros, considerava-os inúteis e não concebia razão alguma para multiplicá-los. Entendia a escrita como uma terapia, como um meio para se desintoxicar das reflexões que fermentavam em seu crânio. “Minha obra? Essa palavra me dá náusea. Nasceu de razoes médicas, terapêuticas”, explica o romeno, que é considerado, ao lado de Paul Valéry (1871-1945), um dos maiores estilistas da língua francesa.

Ocorre que Cioran sofria de devastadoras insônias, às quais ele atribuiu a fonte dos seus pensamentos mais lúcidos. Tal estado clarividente de consciência o fez ver a vida como um “mau gosto da matéria” e como “uma ocupação de inseto”, a metafísica e a poesia como “impertinências de piolho”, o amor como o “encontro de duas salivas”, Deus como um “fracassado do alto”, como um “Nada supremo” e, por fim, o suicídio como uma idéia que torna a vida suportável na medida em que nos dá a garantia de que podemos nos livrar dela quando quisermos.

Infelizmente, os cadernos de cultura da grande imprensa brasileira deixaram passar em branco os dez anos da morte de Cioran, provavelmente em virtude do afã de proporcionar o merecido destaque ao centenário do nascimento de Sartre, também ocorrido em 2005. Entretanto, o público brasileiro pode se deleitar com as traduções em português de algumas das mais expressivas obras do filósofo romeno, todas publicadas pela editora Rocco, dentre elas Breviário de Decomposição, Exercícios de admiração, História e utopia e Silogismos da amargura. José Thomaz Brum, responsável por essas traduções, teve o privilégio de discuti-las com o próprio Cioran, de quem acabou se tornando amigo e correspondente.

Mais recentemente, Rossano Pecoraro publicou em 2004, pela EdipucRS, Cioran: a filosofia em chamas, uma versão modificada de sua dissertação de mestrado defendida na PUC do Rio de Janeiro, em 2002. Trata-se sem dúvida da descoberta pelos nossos leitores e pela filosofia universitária brasileira da obra daquele que acreditava “na salvação da humanidade, no futuro do cianureto”.

Eterno estudante

Há dez anos, mais exatamente no dia 20 de junho de 1995, falecia em Paris, aos 84 anos, de mal de Alzheimer, o pensador romeno Emil Mihai Cioran. Nascido em Rasinari, um vilarejo na região da Transilvânia, Cioran graduou-se em filosofia na Universidade de Bucareste, onde apresentou como trabalho de conclusão de curso uma dissertação sobre as idéias do francês Henri Bergson (1859-1941).

Durante os anos de faculdade, no alvorecer de uma década de 1930 marcada pelo nazismo e pelo bolchevismo, o então jovem universitário Emil fez sua opção ideológica por um movimento romeno de extrema direita. Opção que, posteriormente, reconheceu como um equívoco juvenil e rechaçou por várias vezes em sua maturidade. Vale lembrar que equívocos dessa natureza também foram cometidos e reconhecidos por outras personalidades ilustres do universo da reflexão. É o caso, por exemplo, de Jean Paul Sartre (1905-1980) em sua defesa enfática do comunismo soviético do período stalinista. Ou de Michel Foucault (1926-1984) em seu apoio entusiasta à revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeiny. Poderíamos citar ainda como exemplo os vários intelectuais brasileiros que se engajaram na eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que acabaram assistindo atônitos aos escândalos que envolveram o PT.

Após uma proveitosa estadia de dois anos em Berlim como bolsista e de uma curta e malograda experiência de professor de filosofia no ensino médio romeno, Cioran foi contemplado com uma nova bolsa de estudos, dessa vez do Instituto Francês de Bucareste. Chegou a Paris com o compromisso de elaborar na Sorbonne uma tese sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sua paixão de juventude. Contudo, jamais a concluiu. Tampouco retornou ao seu país natal. Radicado em solo francês, mais precisamente numa mansarda do Quartier Latin, bem próxima ao Jardim de Luxemburgo, Cioran realizou a proeza de sobreviver como bolsista por quase uma década. Mesmo com o término das bolsas, ele manteve sua vida de eterno estudante. Fazia as refeições nos restaurantes universitários até os 40 anos, quando foi oficialmente desligado da Sorbonne. “Eu preferi levar uma vida de parasita a exercer uma profissão”, costumava justificar Cioran, em suas raras entrevistas, a liberdade e a independência garantidas por quase uma existência inteira marcada pelo ócio, a única, segundo ele, suportável.

Texto publicado na revista Discutindo Filosofia no. 2, ano 2005, páginas 24-27.

*Paulo Jonas de Lima Piva é doutor em filosofia pela USP, pós-doutorando em filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USJT)/Fapesp, professor da USJT e autor de O ateu virtuoso: materialismo e moral em Diderot (Discurso Editorial).