Cioran e as utopias

Publicado em jayroschmidt.com.br

Enquanto os homens não prescindirem do enganador
embelezamento do futuro, a história
continuará sendo uma fustigação difícil de entender.

Emil Cioran

Somente um pensador indignado poderia desautorizar as utopias com tanta propriedade como fez Cioran, e com o sentido intempestivo nietzscheano agindo em ídolos e em suas inumeráveis cópias.

Ler Cioran é sempre receber impactos sobre certezas que julgamos oportunas e necessárias, quando – o impacto mostra isso – somos os mais perfeitos imbecis porque nascidos, nos fizeram nascer, do temor patológico que tem muitos nomes.

Pensador como Cioran, canino, é um clínico da civilização, o “psicólogo sem igual” de que falava Nietzsche, ele mesmo em quiasmas e miasmas para a filosofia do futuro. Nietzsche dizia que nasceu póstumo: “alguns nascem póstumos”.

Ocasionalmente quando estava nas grandes cidades, Cioran surpreendia-se com a ausência de revoltas, carnificinas, massacres… Como em espaço tão comprimido, pergunta ele, “podem coexistir tantos homens sem destruir-se, sem odiar-se mortalmente?” Na realidade se odeiam, mas suas forças estão neutralizadas – impotência confundida com mediocridade. E Cioran surpreendeu-se muito mais com aqueles que pretenderam conceber uma sociedade melhor, elevada, a sociedade ideal, isenta de infelicidade.

Para comprovar “tanta ingenuidade” e “tanta loucura”, Cioran resolveu introduzir-se na literatura utópica, mas sem poder aplacar sua indignação diante de autores iludidos e ilusionistas ao oferecerem “a ideia de felicidade”, não a felicidade do agora, do aqui, proposição que redunda em “felicidade imaginada”. E nem se trata de uma felicidade da nova terra, como no Apocalipse, e sim da nova cidade, a quimera dos utopistas, homens degradados porque adulteraram a essência da parousia grega, a presença que a utopia fantasiou de “segunda vinda”, o fervor doentio dos cristãos.

Quanto mais miseráveis os homens, mais aspiram a outra vida. Pois as utopias surgiram graças à miséria, matéria de soluções que prometem outra história com um sistema que dela escapa. Cioran, entretanto, adverte “que utopia significa em parte alguma”.

Cioran adverte também que as descrições da vida futura são repugnantes, risíveis. Campanella prometia o homem solar, sem doenças e entregues ao trabalho. “Tolices similares se encontram em todas as obras do gênero, sobretudo de Cabet, Fourier ou Morris, todos desprovidos dessa gota de aspereza, tão necessária às obras, literárias ou outras”.

Somente a tolice poderia caracterizar as utopias, contrapondo a elas as utopias falsas que evocam, por divertimento, as Viagens de Gulliver, a vida mesma dos desenganados, sem esperanças.

Cabet foi tão débil que não percebeu o que separa ser de produzir. O trabalho nada mais é de que subsunção, alienação. A literatura utópica, então, é rica em autômatos, fantoches, marionetes. As crianças de Fourier são tão puras a ponto de perder a tentação de roubar. “Mas uma criança que não rouba não é uma criança”.

Cioran observa que o Falanstério é um vomitivo e a sociedade um acúmulo de monstros adormecidos.

Cioran nietzscheano: a utopia aboliu o irracional, o irreparável, o acaso e a contradição. Não mais o trágico da vida, “quintessência da história”.

“A utopia é uma mistura de racionalismo pueril e de angelismo secularizado”.

O predecessor das ilusões utópicas é Platão, agravadas por Thomas Morus, que regulamentou os comportamentos humanos com a mais descarada caridade. Assim surgiram as instituições filantrópicas com ataduras e esparadrapos da quimera.

“Nossos sonhos de futuro são doravante inseparáveis de nossos temores”.

As utopias, de alguma forma, aspiram a idade de ouro, um lugar fora do tempo, descrito por Hesíodo como um paraíso, onde nem a velhice chega aos mortais, semelhantes a deuses, que morriam “como se adormece, vencidos pelo sono”.

A idade de ouro, para os utopistas modernos, não estava no passado, estava no futuro. Assim pensava Saint-Simon, aliás um futuro muito próximo. Fourier: “Se anuncio com tanta segurança a harmonia universal como muito próxima, é que a organização do Estado societário não exige mais de dois anos…”

O “homem do subsolo”, de Dostoiévski, revolta-se contra a razão, sintetizando-a com o “dois e dois são quatro”.

Dostoiévski ironizou o palácio de cristal, cópia do Falanstério, contrariando suas tendências fourieristas da juventude apesar de ainda manter temas utópicos ligados à idade de ouro. Ressalta Cioran que a Dostoiévski não faltaram método e delírio, caracterizando-os em Shigalev, tão insano quanto Cabet, mas com a fúria e a obsessão que seu modelo utópico desconhecia.

Ao palácio de cristal o homem do subsolo nem sequer pode mostrar a língua às escondidas. Ele teme-o justamente por ser de cristal, edifício indestrutível. Se tivesse que se abrigar da chuva, um galinheiro serviria como poderia servir o palácio.

“Mas que fazer, se eu proprio meti na cabeça que não é apenas para isso que se vive e que, se se trata de viver, deve-se fazê-lo num palácio? É a minha vontade, o meu desejo. Somente o podereis desarraigar de dentro de mim quando transformardes os meus dezsejos. Bem, modificai-os, seduzi-me com algo diverso, dai-me outro ideal. Mas, por enquanto, não tomarei o galinheiro por um plácio. Suponhamos que o edifício de cristal seja uma invencionice e que, pelas leis da natureza, não se admita a sua existência, que eu o tenha inventado unicamente em virtude da minha própria estupidez e de alguns hábitos antigos, irracionais, de nossa geração. Mas que tenho eu com o fato de que não se admita a sua existência? Não dá no mesmo, se ele existe nos meus desejos ou, melhor dizendo, se existe enquanto existem os meus desejos?”

Ao atacar o progresso, Dostoiévski desvia-se de promessas futuras, deslocando seus personagens ao passado imemorial da idade de ouro: Stavroguine e Versilov.

Stavroguine sonhou com uma pintura de Claude Lorrain, “Acis e Galatéia”, do acervo do museu de Dresden, panaroma de um lugar paradisíaco na Grécia antiga, descrevendo-o como “berço da humanidade”. Versilov tem um sonho parecido, solar, não o sol do início, porém o do fim da “humanidade européia”.

Como poderiam “insípidos encantamentos” na pintura de Lorrain, pergunta Cioran, seduzir Dostoiévski? “Que abismo supõe uma predileção tão desconcertante!”

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Comentários gerais

Talvez não seja uma predileção de Dostoíévski por Claude Lorrain, somente um recurso literário para situar seus personagens no sonho utópico. Em Diário de um escritor, ele dá provas de discernimento em termos de pintura através de Ivan Ivanitch, personagem de “Bobok”, conto que trata com ironia o primeiro sanatório construído na França. Ivanitch: “Eles trancavam todos os seus imbecis numa casa especial para convencer os demais de que eles mesmos eram inteligentes”. Ivanitch é escritor que não chama a atenção e sua curiosidade extravagante faz com que “certas pessoas” queiram fazê-lo “passar por louco”. Ele, contudo, ouve um som estranho, a onomatopéia “bobok”, que se repete… E um pintor fez seu retrato não por sua “reputação literária, mas para pintar algo bastante raro: tenho duas manchas dispostas simetricamente sobre a testa. Desse ponto de vista sou um fenômeno e como os nossos pintores atuais não têm ideias, procuram as singularidades”. Dostoiévski, de fato, tinha duas manchas na testa.

Os principais artistas contemporâneos de Dostoiévski foram Repin, Surikov, Pasternak, Levitan, Korovin, Serov, Vasnetsov e Vrubel. Pintores de costumes, de singularidades culturais sob moldes acadêmicos, isto é, com finalidades descritivas de temas domésticos e pitorescos. Vrubel foi o único artista a ultrapassar este limite meramente chamado de realista, voltando-se para uma expressão de cunho imaginário, inventivo na elaboração das obras. È que ele havia sido tocado pela pintura moderna francesa, especificamente a de Cézanne, convertendo sua sólida formação figurativa em potencialidades imagísticas que incluíram, e isso é o mais significante, fontes literárias.

Dostoiévski, em nota introdutória a Memórias do subsolo, adverte o leitor: “Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários”.  A declaração, na década de 1860 em São Petersburgo, somente poderia ser tomada como blasfêmia, ainda mais porque o personagem, entre outras coisas, ataca o homem do solo e a razão positivista, por extensão um ataque sem precedentes contra Rousseau, seu homem natural, e Kant, seu belo e sublime, pensadores que faziam grande sucesso nos meios literários e intelectuais daquela época. Quem foi atacado de todos os flancos, então, foi Dostoiévski. As ideias que o homem do subsolo contesta em seu monólogo convulsivo são quase todas oriundas de jornais e de livros, se bem que ele, das particularidades, passou a problemas filosóficos mais amplos, incluindo as hierarquias radicais representadas pelo oficial superior e o tilintar de seu sabre.

Na segunda parte do livro de Dostoiévski, “a propósito da neve molhada”, o homem do subsolo constata que somente iguais com iguais podem se bater. Ao passar por uma taverna, certa noite, viu uma briga entre cavalheiros e alguém sendo lançado pela janela. Achou que poderia acontecer o mesmo com ele, entrando no recinto. “Quem sabe? Talvez eu brigue também e seja igualmente posto janela afora”. Interrompendo a passagem do oficial agressor, este tomou-o pelos ombros e o retirou dali, tratando-o como se fosse uma “mosca”.

De paradoxo em paradoxo, o homem do subsolo desautoriza teorias e sistemas vigentes por “capricho” e “imaginação”. Pensa que o homem não precisa de uma vontade normal, sensata. “O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar esta independência e leve aonde levar”.

Ao reportar-se a homens mais fortes que a sociedade, em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche menciona Dostoiévski: “O único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida, mais até do que a descoberta de Stendhal”.

Antes, em carta a Overbeck declarou após ter lido Memórias do subsolo: “A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

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Referências bibliográficas

CIORAN, Emil. História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. Trad. de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2000.
GRAY, Camilla. The great experiment: Russian art. Londres: Thames andHudsonLondon, 1962.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
TAPADO, Renato. O lugar do escritor. Florianópolis: Oficinas de Arte e Bernúncia Editora, 2007.

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Entrevista sobre Cioran com Vincent Piednoir

O jornal O Globo de 25/06/2011 traz o seu caderno Prosa & Verso dedicado a Cioran, que aparece estampado na capa com o título: “Festa para o pessimista”. O jornalista Bolívar Torres escreve sobre as homenagens preparadas na França para o centenário de nascimento de Emil Cioran. Uma exposição, livros de ensaios, um volume de correspondências trocadas com o poeta Armel Guerne e uma inédita continuação de “Breviário dos Vencidos” festejam o filósofo romeno, conta Bolívar, que entrevista ainda o pesquisador Vincent Piednoir, tradutor de Cioran.
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Entrevista sobre Cioran com Vincent Piednoir

Por Bolívar Torres – Especial para O GLOBO, de Paris (25/06/11) | Link
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Foi durante a Segunda Guerra, num contexto histórico complicadíssimo, que Cioran começou a escrever o “Breviário dos vencidos”. Exilado numa Paris ocupada, vivendo de bolsas e sem nenhuma perspectiva de vida, resolveu deixar de lado o manuscrito final, que considerava apenas um amontoado de “divagações juvenis”. O seu lançamento tardio, em 1993, jogou luz sobre um período menos conhecido do “pensador crepuscular”, em que ele ainda se mostrava profundamente influenciado pelas paixões que lhe conferiam a cultura alemã e romena. O que ninguém sabia, na época, é que o livro tinha uma série de capítulos não aproveitados, muito peculiares dentro de sua obra. Espécie de retalho do retalho, o livro sai do limbo pelas mãos dos tradutores Vincent Piednoir e Gina Puica, com o título de “Le bréviaire des vaincus II”, publicado pela L’Herne. Piednoir, que conversou por e-mail com o GLOBO, também é organizador da recém-lançada correspondência entre Cioran e o poeta suíço Armel Guerne, a mais completa dedicada até agora. Nas cartas trocadas entre 1961e 1978, aprende-se alguns segredos sobre a vida íntima do recluso autor, que surpreende por sua humanidade e compaixão.

“Breviário dos vencidos” é o último livro que Cioran escreveu em romeno. É possível notar alguma mudança no estilo de Cioran, como se ele se preparasse para adotar o francês?

VINCENT PIEDNOIR: Quando começou a escrever o “Breviário”, Cioran tinha a impressão, creio eu, que seu país nunca entraria para a História. Sua relação com a Romênia era de amor e ódio extremo. Na França, durante a guerra, sua pátria é o romeno. E é nessa língua que ele faz um painel repleto de amargura, pressintindo que alguma coisa em sua identidade fora rompida. A linguagem do “Breviário” continua muito próxima de seus livros anteriores: o estilo é muito instintivo, e segue o ritmo imposto pela inspiração e a necessidade vital de se expressar. Alimentado pela filosofia e a literatura alemã, o jovem Cioran sentia o mundo pelo prisma de um romantismo incendiário. Estava fascinado pela loucura, por aquilo que chamava, em seu primeiro livro, de “as fundações íntimas da vida”. Suas concepções eram puramente fatalistas, rejeitavam o recuo racional. A razão era associada ao declínio, à morte do espírito. Quando mais tarde passou a escrever em francês, assumiu uma distância enorme de tudo isso, assumindo, não sem dificuldades, o seu estatuto de consciência.

O que a segunda parte do “Breviário” acrescenta à primeira?

PIEDNOIR: Eu diria que Cioran continua a explorar suas obsessões. A continuação do “Breviário” é interessante naquilo que sublinha a sigularidade do escritor: a de que ele não é apenas um pensador ou um filosófo, mas também um ser disposto a acolher as revelações que gratificam a verdade. É um “pensador de ocasião”, alguém que só toma a palavra quando pode investir em sua intuição. Mas a segunda parte do “Breviário” acresenta à primeira o tema do amor, algo surpreendente em relação a toda a obra de Cioran. Isso dá a seu discurso um lado adolescente muito curioso. Ao contrário da primeira, que foi bastante retrabalhada, essa segunda parte foi escrita de uma só vez. Há uma espontaneidade na escrita que confere ao texto um frescor maravilhoso, mas que também o torna às vezes muito obscuro.

A correspondência com Armel Guerne dá pistas sobre as razões em adotar um outro idioma?

PIEDNOIR: Em determinada carta, ele diz a Guerne que faz meses que não lê em alemão. E explica que se arrepende de ter sido tão fascinado por esta língua. Para ele, falta ao alemão a retidão que Rivarol atribuía ao francês. Cioran mudou de língua porque, uma vez instalado na França, não poderia continuar a ecrever em um idioma que não ultrapassa as fronteiras da Romênia. Mas, ao mesmo tempo, é mais profundo do que isso. É uma mudança de identidade. Ele não quis traduzir para o francês o seu antigo Eu, mas sim repensar esse Eu e sua inscrição histórica pela transparência obrigatória do francês. Mesmo que a correspondência com Guerne não mostre exatamente as razões dessa mudança, podemos compreender em diversas passagens que Cioran encarava o romeno e o alemão como ameaças. Porque as duas línguas inspiravam nele um desejo profundo de se reintegrar à vida. Desejo com o qual lutava usando as armas do ceticismo, sem nunca, porém, reduzir a sua intensidade.

Guerne tem uma trajetória engajada, deixou momentaneamente a literatura para lutar na Resistência. Já Cioran, ao contrário, defende o ócio e a inação. Mesmo assim, mostram na correspondência uma profunda cumplicidade, como se fossem lados diferentes de uma mesma moeda…

PIEDNOIR: Cioran é um ser de pulsão; mesmo que ele defenda o ócio, não consegue se acostumar a ideia de não fazer nada. A raiva qualifica esta atitude no que ela guarda de violência, de descontinuidade, de capricho também. O assalto, na ideia de Guerne, é diferente da raiva no que tem de continuidade, certeza, de irremediavelmente voltado a um objetivo. Entre Cioran e Guerne há muitas diferenças. Um não sabe direito o que pensa de Deus, enquanto o outro carrega uma fé indestrutível. Mas, no fundo, ambos encarnam duas maneiras extremas de viver a condição humana.

Na correspondência, Cioran está sempre reclamando do seu próprio ócio. A inpressão que se tem é que sofria para manter a inatividade que tanto defendia. No fim das contas, não fazer nada pode ser ainda mais laborioso do que uma vida repleta de ações e projetos?

PIEDNOIR: Depois da guerra, Cioran não consegue mais justificar a agitação dos homens, mesmo sendo capaz de compreendê-la. Ele vê nela a fonte do mal — ancorada metafisicamente no pecado original. No entanto, é verdade que ele sofre para permanecer nesse estado de inatividade que considera “sábio”. Isso mostra que o autor estava dividido entre o seu desejo de retirar-se definitivamente do mundo da ação e a sua incapacidade de assumir plenamente esse desejo. Retirar-se da ação, é confrontar-se ao tempo imenso do retiro, é correr o risco de morrer de tédio. Cioran tinha consciência disso. Reprovava a agitação dos homens, mas não ignorava o perigo que é recusar qualquer projeto. A inação não é suficiente, e aceitar as consequências disso exige uma força sobre-humana, que é a de um sábio. Só que Cioran não era um sábio, e sim um ser humano impotente, embora forte e corajoso por assumir este desejo de ser sábio, contra tudo e contra todos. Pouco importa que não tenha alcançado plenamente o seu objetivo. O importante é que tenha agido para nós como um espião das coisas transcendentes — ao mesmo tempo em que permanecia humano, humano até demais…

Embora procurasse a sinceridade em seus textos, o personagem Cioran nem sempre correspondia ao escritor. Sua correspondência nos ajuda a identificar melhor as diferenças entre o homem íntimo e o mito?

PIEDNOIR: Com certeza! Cioran se revela muito diferente daquele personagem que uma leitura apressada de seus livros pode supor. É uma figura de surpreendente empatia com os seres e as coisas, preocupa-se permanentemente com Guerne. É o oposto de um misantropo, partindo do princípio que um misantropo é impermeável à piedade. Cioran, tão violento, às vezes, em relação ao homem, tão disposto a blasfemar e a desejar a destruição de tudo que é forma, se mostra atingido em seu ser pelo sofrimento que constata no indivíduo.

Entrevista com Simone Boué

A pintora catalã Maite Grau conversou com Simone Boué, a esposa de Cioran. O resultado foi uma agradável visão sobre particularidades da vida do pensador romeno.

Texto e tradução: Leandro Marcio
Publicado em Ugapress

Simone Boué (1919-1997) foi a fiel companheira de Cioran. Apesar disso, o nome dela não aparece em nenhum de seus livros: com exceção de singelos “nós” empregados em algumas de suas anotações, a figura de Simone raramente é lembrada quando se trata do pensador romeno. Mantiveram, porém, uma relação duradoura: mais de cinco décadas juntos, até a morte de Cioran em 1995. Simone morreu dois anos depois.

A conversa abaixo é uma tradução do original publicado no número 99 de El Malpensante, uma revista literária de Bogotá. Como eles mesmos dizem, “El Malpensante es una revista literaria, es decir preocupada por el buen estilo, por el enfoque no convencional, por el humor tirando a oscuro; que quiere meterse con toda suerte de temas con un enfoque inesperado”. Publicada desde 1996, a revista tem sido um importante veículo de discussão cultural na Colômbia. Agradecemos a Mario Jursich, um dos fundadores da revista, a gentileza de nos permitir a divulgação dessa tradução. Saludos!

 *    *    *

Como vocês se conheceram?

Eu o conheci em 1941. Fui estudar em Paris, graças a uma bolsa de estudos. Eu vinha do interior e me estabeleci em uma residência de estudantes no Boulevard Saint Michell. A residência tinha um restaurante universitário onde qualquer estudante podia ir comer e, por isso, sempre havia longas filas. Um dia Cioran apareceu tentando furar a fila, e foi assim que o conheci.

Uma das principais obsessões de Cioran era o idioma. Quando você o conheceu ele tinha chegado há pouco em Paris, e ainda escrevia em romeno. Como Cioran viveu essa mudança tão fundamental?

Cioran estava em Paris desde 1937, escreveu e publicou cinco livros em romeno, mas ele tinha consciência de sua limitada divulgação. Em 1947 ele fez um teste: tentou traduzir uns versos de Mallarmé para o romeno e essa experiência foi para ele uma revelação, percebeu a falta de sentido de continuar escrevendo em romeno; a partir de então decidiu romper com a sua língua materna e começou a escrever Breviário de decomposição, seu primeiro livro em francês.

Cioran disse que o reescreveu quatro vezes.

A mudança de idioma foi muito difícil para ele, dizia que era como vestir uma camisa de força. Quando ele escrevia em romeno era mais livre, seu estilo era mais visceral. Romeno é muito lírico, muito intenso e cheio de repetições. Isso não funciona em francês. Por isso escreveu uma e outra vez até conseguir que seu livro não soasse “meteco”.

Como era a influência francesa sobre Cioran?

Muitos dos romenos, além dos  intelectuais, que viviam em Bucareste falavam francês, mas Cioran vinha da Transilvânia, que era uma área completamente diferente, governada pelo Império Austro-Húngaro. A cidade natal de Cioran, Sibiu, era também parte da Hungria e possui parte da cultura romena.  Mas há também as culturas alemã e húngara, e o nome das ruas é escrito nos três idiomas. Assim, tanto o romeno quanto o húngaro eram línguas maternas para ele.

Alguma vez ele considerou voltar à Romênia?

Não, não podia. Seu irmão foi enviado para a prisão por sete anos e sua irmã passou quatro anos na construção de um canal, uma espécie de pena de trabalhos forçados, onde muitas pessoas morreram. Ela também era uma grande fumante, consumindo cerca de dez maços por dia. Morreu em 1966. Sua mãe morreu um mês antes. Cioran sempre dizia que sua família foi atacada por uma loucura. Eu me lembro que foi convidado pelo embaixador francês a visitar a Romênia para apresentar alguns dos seus livros, mas o convite o ofendeu muitíssimo. Ele disse: “Como se atreve a me convidar para o meu país?”. É claro que não aceitou. Depois da revolução na Romênia perguntei por que não ia, e sua resposta foi que não queria ir porque muitos de seus amigos ainda estavam vivos e não queria vê-los. O único lugar onde realmente gostaria de ter voltado era para seu povoado, em Sibiu.

Ele freqüentava os círculos intelectuais?

Não estava muito interessado em escritores, lhe interessava as pessoas comuns, mas não escritores. Claro que houve exceções, era amigo íntimo de Henri Michaux, inclusive escreveu sobre ele. Também gostava muito de Beckett, como autor e como pessoa.

Em seus textos, por vezes, Cioran enaltece aos mendigos. Ele tinha algum amigo mendigo?

Sim, tinha um grande amigo, um vagabundo, que vinha visitá-lo ocasionalmente, até que um dia ele desapareceu e então nunca mais tivemos notícias. Ele sempre dizia que esse homem era o único que ele tinha conhecido com uma cabeça verdadeiramente filosófica.

Quando escrevia ele se sentia sempre desesperado, escrevia para se livrar de sua angústia.
Eu tento me consolar pensando que não pude ser tão infeliz como quando ele diz:
‘Só escrevo quando quero me matar.’

Lia muito?

Sim, era um escape para ele. Quando Cioran esteve no hospital, poucos meses antes de sua morte, o diretor da Fundação Doucet – uma fundação que se dedica à preservação de manuscritos – me propôs cuidar dos manuscritos dele. Eu estava com medo que depois de sua morte todo mundo tentaria apropriar-se deles e pensei que nessa fundação estariam seguros. Ao coletar todo o material para entregar à Fundação, encontrei três cadernos em uma maleta. Nesses cadernos estava escrito na capa “para ser destruído”.

Decidi mantê-los comigo por um tempo antes de entregá-los à fundação. Quando eu os li, foi extraordinário, como se esses textos revelassem-se um segredo. Notei suas inseguranças e sua constante sensação de fracasso pessoal. Ele dizia coisas como “Eu não estou fazendo nada, eu não posso escrever…”. Também descrevia ali sua perpétua compulsão pela leitura, que para ele era uma forma de terapia, a única maneira de não perder tempo. Quando escrevia ele se sentia sempre desesperado, escrevia para se livrar de sua angústia. Eu tento me consolar pensando que não pude ser tão infeliz como quando ele diz “Só escrevo quando quero me matar.” Em seus cadernos de notas estão frases como: “foi uma noite terrível, eu não consegui dormir um minuto.” Utilizava esses cadernos como rascunhos de trabalho, por exemplo, para escrever aforismos. Nesses cadernos podemos ler três ou quatro versões de alguns aforismos, e em cada uma delas se observa um avanço no sentido da brevidade, da concisão.

Como era a biblioteca de Cioran?

Certamente teve seus livros, alguns cheios de anotações. Mas principalmente, pegava-os das bibliotecas. A princípio ia para a Sorbonne, mas logo encontrou um lugar que gostou mais, o Instituto Católico. É mais perto de casa e se dava muito bem com o bibliotecário. Cioran consultou muitos livros. Costumava dar cigarros aos empregados para que lhe atendessem bem e trouxessem os volumes estranhíssimos que às vezes necessitava com urgência. Ele era muito querido por alguns bibliotecários.

Cioran esteve sempre muito preocupado com a religião. Ele tinha alguma relação com pessoas crentes?

Foi muito amigo do filósofo católico Gabriel Marcel, que era uma pessoa extraordinária, de certa forma um pouco naïf. Adorava Cioran, embora horrorizava-se absolutamente com o que Cioran escrevia. Por um tempo, Marcel foi um crítico de teatro e tinha que assistir a muitas estréias para enviar críticas no dia seguinte. Freqüentemente convidava Cioran, e alguns minutos após o início da peça, Marcel, que já estava ficando velho, dormia e até mesmo roncava. Confiava muito em Cioran e sempre lhe pedia conselhos. Com seus conselhos, ele escreveu muitas de suas críticas. Suas opiniões sempre conseguiam tranquilizá-lo e o estimulavam a escrever.

Lembro-me de um dia que Cioran tinha saido, chegou Marcel desesperado, estava acontecendo a crise dos mísseis em Cuba e Marcel estava muito preocupado. “O que vai acontecer! Uma nova guerra… !” Eu não sabia o que dizer e, então, sugeri que ele fosse dormir. Marcel ficou encantado e disse-me: agradeço-lhe muito, senhora, agora mesmo vou chamar Raymond Aron, que também está muito angustiado. Surpreendentemente, o meu conselho funcionou e os dois foram dormir.

Em geral, Marcel foi muito simpático conosco. Lembro-me que tinham pedido a Cioran um prefácio para uma edição nos Estados Unidos da obra de Valéry. Pagariam uma boa quantia de dinheiro. Cioran sempre tinha dificuldades financeiras, sempre estava dependendo de bolsas de estudo, e por isso aceitou. Veio a Paris um representante da fundação responsável pelo pedido para falar com Cioran sobre isso. Era um homem encantador da Geórgia, com maneiras muito cavalheirescas e um inglês que não soava ofensivamente americano. Em todas as vezes que o vimos perguntava a Cioran se estava trabalhando no prólogo e ele espondia que ainda não tinha começado. Quando ele finalmente conseguiu terminar o prólogo saiu um texto totalmente contra Valery, apesar de muito admirá-lo. Ele enviou-o para o americano, que estava de volta aos Estados Unidos. Uma manhã – eu vou lembrar sempre – Cioran estava pálido, tremendo de raiva, com uma carta nas mãos. Seu texto tinha sido rejeitado. Cioran não acreditava que aquele sujeito tivesse a suficiente capacidade intelectual para rejeitar o seu texto. Estava indignado e começou a escrever cartas em resposta, todo os dias, todas as horas. Mostrava-me as cartas e eu lhe dizia: está ótima, envie-a amanhã de manhã. Mas a manhã vinha e ele não as enviava. Cioran não sabia o que fazer e, além disso, precisava do dinheiro. Então, pensou em mostrar o prólogo a Gabriel Marcel, para que desse uma opinião sobre sua qualidade. Marcel estava ficando cego, mal conseguia ler, e como Cioran estava ardendo de ira e muito nervoso, tive que lê-lo. Marcel escutou em silêncio e, no final, disse que o texto era admirável, e que ele iria escrever uma carta a outro editor. Finalmente, Cioran recebeu o dinheiro e o prólogo foi publicado na França. Então eu percebi que sempre que lhe encarregavam de escrever algo sobre um autor, não podia evitar de escrever algo contra esse autor, mesmo gostando muitíssimo dele. Somente com Beckett era moderado. Mas mesmo assim, quando foi publicada uma antologia de textos sobre Beckett, um editor optou por não incluir um texto de Cioran, talvez porque Cioran, quando falava de alguém, falava basicamente de si mesmo e sua visão de mundo.

Quais foram suas leituras habituais, seus livros de cabeceira?

Até o fim leu biografias ou memórias, dizia que a leitura de memórias o dispensava de não ter uma biografia interessante. Também lia muitos romances.

Os místicos o interessavam muito.

Sim, ele escreveu em um livro na Romênia sobre eles, Sobre lágrimas e santos, um livro que chocou seus pais. Quando o leram não conseguiram admitir aquilo, sua mãe escreveu-lhe dizendo que ele não deveria ter publicado semelhante livro enquanto eles vivessem. Eliade escreveu um artigo contra, mas também tinham opiniões favoráveis e que o contentaram. Por exemplo, uma que alegava que era o livro mais religioso que tinha sido publicado nos Balcãs …

É interessante como, desde o seu primeiro livro aos vinte anos, mantém-se praticamente os mesmos temas e as mesmas obsessões.

Sim, de fato, os temas são sempre os mesmos. O primeiro livro traduzido para o francês foi Sobre lágrimas e santos. Foi traduzido por uma mulher e Cioran não gostou nada da tradução. Ela era filha de um diplomata romeno que tinha sido educada nas melhores escolas privadas da França. Seu francês era perfeito, mas em sua tradução faltava a alma de Cioran, a acidez, o sarcasmo… Uma tarde, essa mulher chegou e começou a ler o que tinha traduzido. Cioran a interrompia o tempo todo, horrorizado, com as mãos na cabeça. Eu me sentia horrível. Cioran era muito educado, mas nas coisas que lhe diziam respeito diretamente podia ser agressivo; dizia “Oh não, não, corta, corta, não faz sentido.” Às vezes dizia: “Eu disse isso? É bobagem, não entra”. A coisa levou à reformulação do texto em que tanto a mulher quanto Cioran sofreram enormemente. Ela estava muito chateada, não conseguia entender por que ele queria eliminar parágrafos inteiros que ela gostava muito. Inclusive, mais tarde, escreveu um artigo sobre Cioran em que se referia a ele como “o podador”. Quando chegava pela manhã para trabalhar na tradução perguntava a ele: “O que você vai cortar hoje?”. Finalmente, a tradução foi reduzida a um terço do original.

Então eu percebi que os textos romenos de Cioran eram muito mais barrocos. Acho que o inglês e o alemão são as línguas mais propícias para o romeno de Cioran.

Cioran tinha uma idéia prévia e estruturada de um livro ou escrevia em instantes de arrebatamento?

Eu acho que Cioran era primariamente um articulista ou um escritor de textos curtos.

Os aforismos são um exemplo destas tendências que finalmente foram cruciais. Após a publicação de Breviário de decomposição, a Nouvelle Revue Française, que se baseava em Gallimard, ofereceu a ele a oportunidade de escrever uma série de artigos. Cioran não podia recusar depois que ele publicou seu primeiro livro em França. Estava desesperado com esses artigos porque custava muito terminar na data que lhe pediam. Da mesma forma que escreveu esses artigos, escreveu a maioria de seus livros em francês. Eram ensaios curtos, vinte ou trinta páginas. O editor da revista o encorajou muito para que escrevesse esses textos, e inclusive, um pouco mais para a frente, começou a pagar um salário mensal que lhe permitiu viver economicamente tranqüilo. Isso foi fundamental para Cioran, um homem sem renda fixa. Quando ele parou de fumar e beber café a todo o instante mudou radicalmente sua forma de escrever. Então começou a escrever exclusivamente aforismos. Dizia que não poderia nunca mais escrever artigos ou ensaios.

Para terminar, as críticas que você fazia o incomodavam?

Cioran gostava muito de fazer trabalhos manuais, costumava dizer que quando andava existia apenas graças ao movimento, e ao trabalhar com as mãos existia de forma mais intensa. Consertava todos os defeitos da casa, se tinha que chamar um técnico ficava o tempo todo olhando seu trabalho, tentando aprender. Devo dizer que todos os reparos feitos por ele eram muito fortes, para toda a vida, mas geralmente volumosos e feios, com muita fita ou corda. Quando eu fazia alguma crítica aos seus consertos, se irritava muito. Aceitava as críticas ao seu texto, mas não em seus trabalhos manuais…

Emil Cioran: pessimismo, contradições e apatia

Rodrigo GurgelMídia sem máscara, 20 de fevereiro de 2012

Talvez, um dia, venhamos a descobrir que Emil Cioran foi, na verdade, um agent provocateur financiado por certo clube de monomaníacos ou de excêntricos que, nas horas vagas, divertiam-se em ver como as intelligentsias podem ser seduzidas por qualquer truanice. Cioran almeja o caos, ama-o; está seduzido pela desordem e pelo desejo de sabotar a civilização. Exatamente por esse motivo devemos ler seus livrinhos, esgotados no Brasil desde a década de 1990, mas agora relançados pela Editora Rocco, e conhecer seus raciocínios contraditórios, agressivos e fúteis.

A grande meta que Cioran se propôs foi a de erigir algumas generalizações de impacto à categoria de pensamento filosófico – em suma, é um sofista. Vejamos alguns exemplos, todos risíveis: referindo-se a Ivã, o Terrível, afirma: “Tinha a paixão pelo crime” – e conclui: “Todos nós, enquanto existimos, também a experimentamos, seja atentando contra os outros ou contra nós mesmos”. Para ele, “todos os homens são mais ou menos invejosos; os políticos o são completamente” – afirmativa ainda mais infamante quando se lê a conclusão: “Se a inveja te abandona, és apenas um inseto, um nada, uma sombra”. Sem deixar de lado seu tema predileto, ele continua: “Uma sociedade que se quisesse perfeita deveria colocar na moda, ou tornar obrigatória, a camisa de força, pois o homem só se move para fazer o mal”. E insiste: “[…] O homem prefere apodrecer no medo do que enfrentar a angústia de ser ele mesmo”.

Frases que impressionam, claro, se visitadas antes dos dezoito anos. Mas, depois que entramos na vida adulta, deixamos de lado radicalizações, esquerdismos e simplificações; Nietzsche passa a ocupar uma posição secundária em nossa biblioteca; e desencantados com o niilismo panfletário, alegria dos anarquistas, podemos ler Cioran como ele merece: como literatura, nada mais.

Ao reler História e utopia, certa imagem se repetiu diante dos meus olhos: a da pantera de Rilke, presa em sua jaula no Jardin des Plantes: o olhar fatigado que só enxerga as grades; o “passo elástico e macio”, repetido “dentro do círculo menor”, urdindo, a cada volta, “uma dança de força”, em cujo centro “uma vontade maior se aturde” – para tudo se apagar no coração. Esse é o nosso escritor: ruge de maneira estrondosa, mas seu ceticismo não lhe permite arrebentar as grades da prisão. Ao contrário, depois de esbravejar, direta ou indiretamente, contra os fundamentos da civilização ocidental – a democracia, o direito romano, o cristianismo –, ele nos oferece uma lenga-lenga budista, propondo que o homem se mantenha numa “posição equidistante da vingança e do perdão, no centro de uma cólera e de uma generosidade igualmente fracas e vazias, destinadas a neutralizar-se uma à outra”. É o que ele chama de “meio-termo entre o cadáver e o alento”, ou seja, uma existência vegetativa, um marasmo que nos “reconcilie com o tédio”.

Cioran vocifera imerso até o pescoço no seu pântano de angústia e deseja nos convencer de que “um vazio que concede a plenitude contém mais realidade do que a história em seu conjunto” – ideia que não passa de um convite à ataraxia – e de que, para encontrarmos o paraíso escondido “no mais profundo do nosso ser”, devemos “ter recorrido a todos os paraísos, desaparecidos e possíveis, tê-los amado e detestado com a rudeza do fanatismo, tê-los escrutado e rejeitado depois com a competência da decepção” – exemplo de lirismo negativista.

Na opinião de Cioran, cada gesto humano só conspurca o universo “criado para a indiferença e a estagnação”. Vejam o que fala sobre os amigos: “Quando nos concedem alguns elogios, estes são acompanhados de tantos subentendidos e sutilezas, que a lisonja, de tão circunspecta, equivale a um insulto. O que eles desejam em segredo é nosso enfraquecimento, nossa humilhação e nossa ruína”. Pessimismo por pessimismo, é melhor ficar com Augusto dos Anjos, que disse o mesmo, mas meio século antes e sem a pretensão de fazer filosofia: “[…] O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja. // Se a alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!”.

Em “A Rússia e o vírus da liberdade”, Cioran acerta ao definir a utopia como “o grotesco cor-de-rosa” [grifo no original] ou “um conto de fadas monstruoso”. Mas não nos enganemos com sua retórica. Acima de tudo, nosso ficcionista é contraditório. Páginas antes, no capítulo “Sobre dois tipos de sociedade”, recrimina o mundo ocidental por não ter abraçado o comunismo (o texto é de 1957): “Quando teria sido seu dever pôr em prática o comunismo, ajustá-lo a suas tradições, humanizá-lo, liberalizá-lo e propô-lo depois ao mundo, deixou ao Oriente o privilégio de realizar o irrealizável e extrai assim poder e prestígio da mais bela ilusão moderna”. E mais à frente, em “Mecanismo da utopia”, enaltece as revoluções que despojam os homens de suas propriedades: “Para readquirir uma aparência humana, para recuperar sua ‘alma’, é preciso que o proprietário se veja arruinado e que consinta em sua ruína. A revolução o ajudará”. E insiste em seu demente projeto salvífico: “É, portanto, enquanto agente de destruição que [a revolução] se revela útil; ainda que fosse nefasta, uma coisa a redimiria sempre: só ela sabe que tipo de terror usar para sacudir esse mundo de proprietários, o mais atroz dos mundos possíveis”.

Da mesma forma, execra redentores e profetas, acusando-os de serem “possuídos por uma ambição sem limites” e por disfarçarem “seus objetivos sob preceitos enganosos”. Mas passadas poucas páginas, fala e se descreve como profeta, ao assegurar que o mundo moderno caminha para a tirania e concluir, sem falsa modéstia: “É uma certeza que participa tanto do calafrio como do axioma. E adiro a ela com o arrebatamento de um agitador e com a segurança de um geômetra”.

Pagão grandiloquente – segundo ele, Satã “mal se distingue de Deus, pois é apenas sua face visível” –, Cioran quer nos acorrentar a uma desilusão insuperável e nos convencer de que agir com bondade significa destruir tudo o que o homem tem de melhor: “Um pequeno vício é mais eficaz que uma grande virtude”. Pensador de bolso, desses que citamos nas festas para impressionar desavisados, parece falar de si mesmo ao se referir a “um deus febril, obcecado, sujeito a convulsões, embriagado de epilepsia”. Mas encerremos de forma cavalheiresca: é mais fácil escrever como Cioran do que filosofar.

Publicado na revista Dicta & Contradicta

Un hombre asombrado… y asombroso (El País, 30 de março de 2011)

En el centenario de Emil Cioran (1911-1995)

FERNANDO SAVATER — El País, 30 de marzo de 2011

SCIAMMARELLA

He tardado 16 años en visitar la tumba de Cioran en el cementerio de Montparnasse. Aunque soy pasablemente fetichista y no me disgustan los cementerios, siempre que sea para estancias breves, las tumbas por las que siento más afición son las de ilustres desconocidos: es decir, autores cuyas creaciones he frecuentado mucho pero a los que no conocí personalmente o apenas traté. En el camposanto de Montparnasse hay bastantes de ellos: Sartre y Simone de Beauvoir, Julio Cortázar y por encima de todos, Baudelaire. Pero en el caso de aquellos de quienes me he considerado amigo, soy más esquivo. Quizá por lo de que a los seres queridos uno los lleva enterrados dentro y todas esas cosas.

Cioran murió un 21 de junio, día de mi cumpleaños. Un par de años después desapareció también su maravillosa compañera Simone Boué, ahogada en la playa de Dieppe. Me es imposible decir a cuál de los dos recuerdo con mayor afecto. Ambos descansan bajo la lápida gris azulada de Montparnasse, de una sobriedad extrema, realmente minimalista. Mientras iba en su busca, sorteando mármoles, cruces y ofrendas florales por los vericuetos funerarios, a veces peligrosos para la verticalidad del paseante, recordaba sus consejos: “Vaya 20 minutos a un cementerio y verá que sus preocupaciones no desaparecen, desde luego, pero casi son superadas… Es mucho mejor que ir a un médico. Un paseo por el cementerio es una lección de sabiduría casi automática”. Luego soltaba una de sus breves carcajadas silenciosas y yo, en mi ingenuidad juvenil, me preguntaba si hablaba realmente en serio. He tardado en aprender que hablar sinceramente de ciertos temas demasiado serios implica el tono humorístico como único modo de evitar la solemne ridiculez…

Traté a Cioran durante más de 20 años. Nos escribíamos con frecuencia y yo le visitaba siempre que iba a París una o dos veces por año. Me dispensaba una enorme amabilidad y paciencia, supongo que incluso con cariñosa resignación. Se interesaba especialmente por todo lo que yo le contaba de España, tanto durante los últimos años del franquismo como en los primeros avatares de la democracia posterior. Por supuesto no creo ni por un momento que fuesen mis comentarios apasionados y entusiastas sobre nuestras peripecias políticas lo que le fascinaba, sino la referencia al país mismo, esa segunda patria espiritual que se había buscado, la tierra nativa del desengaño. “Uno tras otro, he adorado y execrado a muchos pueblos: nunca se me pasó por la cabeza renegar del español que hubiera querido ser”. Porque aunque se convirtió en gran escritor francés y se mantuvo apátrida, parece cierto que durante un tiempo pensó seriamente en hacerse español. La buena acogida que tuvieron sus libros traducidos en nuestro país le produjo una sorpresa tan grata como indudable. Creo que hubo un momento en que fue más popular -por inexacta que sea la palabra- en España que en Francia. Nunca le vi tan divertido como al contarle que en el concurso de televisión de mayor audiencia en aquella época (Un, dos, tres…) uno de los participantes citó su nombre tras el de Aristóteles cuando le preguntaron por filósofos célebres…

Emil Cioran, en París, en 1977. / CORDON PRESS

Apreciaba especialmente la paradoja de que tanto yo, su traductor, como la mayoría de los jóvenes españoles que se interesaban por él fuésemos gente de la izquierda antifranquista. Incluso le producía cierto asombro, porque para él la izquierda era un semillero de ilusiones vacuas y de un optimismo infundado -ese pleonasmo- de consecuencias potencialmente peligrosas, que había denunciado en Historia y utopía. Y sin embargo le halagaba tan inesperado reconocimiento. En realidad el asombro nos aproximaba, porque a mí me dejaba boquiabierto que alguien pudiera vivir y demostrar humor (Cioran y yo nos reíamos mucho cuando estábamos juntos) con tan implacable animadversión a cualquier creencia movilizadora y tan absoluto rechazo a las promesas del futuro. En cierta ocasión, tras haber demolido minuciosamente mi catálogo de candorosas esperanzas, me permití una tímida protesta: “Pero, Cioran, hay que creer en algo…”. Entonces se puso momentáneamente grave: “Si usted hubiera creído en algunas cosas en que yo pude creer no me diría eso”. Y acto seguido volvió a su cordial sonrisa habitual, ante mi desconcierto.

Como yo era tan ingenuo entonces que no quería por nada del mundo parecerlo, me empeñaba en tratar de convencerle de que mi pesimismo no era menor que el suyo. Cioran me refutaba con amable paciencia, insistiendo en demostrarme que yo era incapaz visceralmente de aceptar las consecuencias pesimistas de las premisas que asumía para ponerme a su altura, seducido por el vigor irresistible de sus fórmulas desencantadas. Confusamente, trataba de explicarle que mi pesimismo era activo: cuando no se espera la salvación de ninguna necesidad histórica ni de ninguna utopía consoladora terrenal o sobrenatural, solo queda la vocación activa y desconsolada de la propia voluntad que no se doblega. No siempre nos movemos atraídos por la luz: a veces es la sombra la que nos empuja… Más o menos disfrazadas, le repetía opiniones tomadas de Nietzsche, a quien también leía devotamente en aquella época. Solíamos dejar al fin nuestras discusiones en un amistoso empate. Pero es obvio que nunca logré convencerle… ni engañarle. Su último libro, Aveux et anathémes, me lo dedicó con estas palabras: “A F. S., agradeciéndole sus esfuerzos por ser pesimista”.

Con los años, ambos fuimos poco a poco sosegando la vivacidad de nuestros debates en una especie de familiaridad cómplice. Tras el asentamiento de la democracia en España, mis fervores fueron progresivamente renunciando a la truculencia y aceptaron cauces pragmáticos: se trataba de vivir mejor, no de alcanzar el paraíso. Los excesos pesimistas, lo mismo que las demasías del conformismo ilusionado, me parecieron -y me parecen- manifestaciones culpables de pereza que ceden el timón de la vida a rutinas fatales. Pero también Cioran en sus últimos años de lucidez, tras la caída de Ceaucescu, me daba la impresión de inclinarse por una especie de pragmatismo escéptico aunque sin embargo positivo. Por primera vez le vi celebrar acontecimientos históricos, desde luego sin arrebatos triunfales. A veces hasta me daba la impresión de estar parcialmente desengañado del desengaño mismo, la suprema prueba de su honradez intelectual…

Guardo especial recuerdo de una visita que le hice en el año 90 o 91, en su apartamento del 21 de la rue de l’Odeon. Fui acompañado de mi mujer y por primera vez en tantos años me encontré a Cioran solo en casa, porque Simone había salido con unas amigas. Para nuestra cena habitual había dejado unos filetes de carne convenientemente dispuestos en la cocina, listos para freír en la sartén. Queriendo evitarle tareas culinarias, le propuse que fuésemos los tres a cenar a cualquier restaurante próximo del barrio pero no consintió en ello: yo siempre había cenado en su casa y esa noche no podía ser una excepción. Su exigente y generosa norma de hospitalidad no lo permitía. De modo que todos nos desplazamos a la minúscula cocina y allí se hizo evidente que el manejo de los fogones desbordaba ampliamente las capacidades de Cioran. Entonces mi mujer tomó el control de las operaciones, nos hizo abandonar el estrecho recinto para evitar interferencias y guisó sin muchas dificultades la sobria cena que debíamos compartir. Desde el exterior, Cioran la veía operar con rendida admiración, mientras me daba una breve charla sobre las admirables disposiciones naturales de las mujeres vascas para el arte culinario… Es una de las imágenes más conmovedoramente tiernas que guardo de él, tan incurablemente escéptico en la teoría pero capaz a veces de un asombro casi infantil ante los misteriosos mecanismos eficaces del mundo y los milagros de la amistad.

Creo que esa capacidad de asombro era uno de los encantos de su trato personal, pero también una de las características notables de su talante intelectual. A veces los escépticos adoptan la arrogante superioridad y la suficiencia desdeñosa de los peores dogmáticos: están convencidos de que nada saben ni nada se puede saber con la misma altanería que otros muestran en afirmar su convicción de que saben cuanto puede saberse. En ambos casos lo malo no es ignorar o conocer, sino el estar tan radicalmente convencidos que ya nada puede asombrarles. Cioran permanecía en la tierra del asombro, perplejo incluso en sus negaciones y rechazos más viscerales. Nunca abrumaba con displicencia al creyente que balbuceaba frente a él, incluso parecía envidiarle a veces, aunque le cortaba decididamente el paso. Se asombraba sobre todo de que en la vida la maravilla coexistiese con el horror, como ya señaló Baudelaire: somos conscientes de la matanza general que nos rodea y del encanto de Bach. Sólo dos posibilidades permiten soportar los sinsabores de la existencia, ambas en permanente entredicho pero ambas también irrenunciables: la posibilidad del suicidio y la de la inmortalidad. Cioran permaneció siempre entre ambas, escéptico y atónito.

Cuando encontré su tumba en el cementerio de Montparnasse, al leer su nombre en la lápida junto al de Simone, me puse a llorar. No de pena, desde luego, aunque tanto echo de menos a ambos cada vez que vuelvo a París y recuerdo nuestras cenas en la calle del Odeon, las charlas interminables y las risas. ¿Cómo podría lamentarme por ellos, cuando tanto les admiré y tanto enriquecieron generosamente mi juventud? No, supongo que lloré de gratitud y sobre todo de asombro. El asombro porque los que aún estamos ya no estamos del todo y de que aún siguen estando los que ya no están.

Los zarpazos del “filósofo aullador”

Vida. “El hecho de que la vida no tenga ningún sentido es una razón para vivir, la única, en realidad”.

Humanidad. “Amar al prójimo es algo inconcebible. ¿Acaso se le pide a un virus que ame a otro virus?”.

Dios. “Una enfermedad de la que imaginamos estar curados porque nadie se muere de ella hoy en día”.

Muerte. “La naturaleza, buscando una fórmula para satisfacer a todo el mundo, escogió finalmente la muerte, la cual, como era de esperar, no ha satisfecho a nadie”.

Amistad. “Con la edad lo que más se teme es que los amigos nos sobrevivan”.

Literatura. “Toda literatura empieza con himnos y acaba con ejercicios”.

Relativismo. “¿Qué sería de nuestras tragedias si un insecto nos presentara las suyas?”.

– Filosofía. “Para poder vislumbrar lo esencial no debe ejercerse ningún oficio. Hay que permanecer tumbado todo el día, y gemir”.

Pueblo. “Un pueblo no representa tanto una acumulación de ideas y teorías como de obsesiones”.

Religiosidad. “Mientras más se alejan los hombres de Dios, más avanzan en el conocimiento de las religiones”.

Tiempo. “No hago nada, es cierto. Pero veo pasar las horas, lo cual vale más que tratar de llenarlas”.

Autodefinición. “Soy un filósofo aullador”.

Le problème de la transcendence chez Cioran

Written by Vasile Chira

 ,, Honnêtement ; on ne peut parler que de soi même et de Dieu”
(Cioran, Le Crépuscule des pensées, Humanitas, 1996, p. 181)

„ Dieu existe même s`ll n`existe pas”
(Cioran, De l’inconvenient d’être né, L’édition roumaine, Humanitas, 1995, p.200)

Résumé

1. Introduction

L`œuvre de Cioran a la réputation d’une absence d’articulation systématique malgré à ce caractère dû dans une large mesure à la préférence que Cioran a montrée pour le fragment, malgré à la forme aphoristique où il a exprimé ses obsessions, a pourtant quelques coordonnés unificatrice qui ont la valeur d`une constante métaphysique.
Donc, on peut parler de l`existence de quelques dominantes qui traversent la barrière entre la période des écritures roumains et celle de l`œuvre écrite en langue français : la Transcendance (la Divinité), la sainteté, l`extase mystique, la musique, l’éros, le temps, l’histoire, l’ennui, la maladie, la mort, l’absurde, le suicide, le néant, etc.
Exactement comme chez Heidegger, toutes les existentielles, étaient réductibles à l’existentielle nucléaire du soin, on soutient que toutes les existentielles (les dominantes) cioraniennes sont dérivées de l’existentielle fondamentale et profonde : la Transcendance.
La Divinité, chez Cioran, a la signification d`un « Deus otiosus » et d`un « Deus absconditus ».
Cela offre les palliatives de la tromperie de la lucidité (l’extase musicale ou érotique).
– Elle est responsable de l’absurde du monde (la maladie, la mort).
РChez Cioran, la Divinit̩ a une nature antinomique, Elle est profond̩ment contradictoire.
– Les temps et l’histoire sont des réflexes de la décision de l’Absolu d’être créateur.
– Toute la coupabilité de la corruption cosmique est attribuée non pas à une élection humaine originaire, erronée, mais à Dieu.
РChez Cioran, la sot̩riologie ne peut pas exister.

2. L’évolution du concept de transcendance dans l’histoire de la philosophie.

Le dernière fondement a été successivement dénommé :,,apeiron”; ”un”; „moteur prime”; „l’acte pur”; la substance”; l’identité absolue”; „l’indéterminnation”etc.
– Le caractère transcendance de l’Être ─ des controverses (on a offert des solutions qui s’excludaient réciproquement).
РLa d̩finition du terme de Transcendance.
– L’indication de certains moments majeurs dans l’évolution du concept de Transcendance, dans l’histoire de la métaphysique européenne Platon, Aristot, Kant, Hegel et Heidegger.
РPlaton met le probl̬me de la Transcendance en rapport avec le condition ontologique du Bien (le r̩gime du Bien rapport̩ aux intelligibles et aux sensibles).
– L’idée du Bien chez Platon est transcendance par rapport à l’intelligible, donc le Bien a un caractère supra intelligible.
– La distinction que Platon fait entre « nous » et « dianoia » (La Republiqe).
– Dans l’espace cognitif de l’intellect contemplatif, le doute ne peut pas être formulé.
– Cioran a un rapport altéré avec l’archétype du Bien (on est en présence d’une éclipse métaphysique du Bien).
– Aristot « regresus ad infinitum », Le Premier Moteur (La Métaphysique XII λ)
РIl y a un conflit m̩taphysique de principe entre la version platonicienne et celle aristotellienne de la transcendance.
– Kant rejette l’argument ontologique. Apres avoir fait la critique des contra-arguments kantiens, orientés envers l’argument ontologique, Hegel supprimera l’opposition entre l’essence et l’Être (dans l’indétermination, l’essence et l’Être ne sont pas extérieures une à l’autre).
– Hegel élimine aussi les affirmation et les négations de „l’Être pur” par cette opération spéculative en s’obtenant l’identité de l’Être et du néant dans leur pureté.
Le régime hégélien de la suppression de la transcendance par la mobilité spéculative du concept, a eu comme effet le déclenchement d’une crise du concept de transcendance. Heidegger se délimite autant par rapport au concept théologique de transcendance que par rapport à celui consacré par la métaphysique moderne.
Chez Heidegger, le phénomène de la transcendantion est identique au fait « d’Être dans le monde » (le monde est une structure transcendance du Dasein, donc la transcendantion n’a pas lieu en dehors du Dasein, mais dans la profondeur de celui – ci.
C’est le Dasein qui transcendance et celui vers lequel se fait la transcendantion c’est toujours le Desein, donc on n’a pas une transcendantion dans la direction d’une altérité transcendante, par exemple la Divinité (L’Être de Heidegger est limité). Apres „Kehre”, Heidegger pose à soi mémé la question sur l’absence et l’attente du Dieu.
L’idée d’une temporalité vidée de sens, du retrait de la Divinité du monde, survient fréquentement aussi dans les textes cioraniens.
Chez Cioran, cette référence à l’absconsion de la Divinité supposera une réhabilitation du concept théologique de transcendance.

3. Cioran et la réhabilition négative de la transcendance théologique.

L’angoisse découvre son fondament seulement au moment où elle est visée non pas la mort, mais le destin spirituel ultime qui transcendance la mort, parce que en fonction de cette position de l’homme face à l’Absolu, paraisse la validation ou l’infirmation ultime du sens du monde. Sans la possibilité d’un être qui ait l’infinité et les attributs dont la théologie a identifiés, il n’est possible ni l’attente de dernières niveaux de l’abis.
Heidegger, par exemple, ne peut pas expérimenter le néant dans une forme radicalle.
Il y a seulement celle forme de „rien” opposée à „tout”, qui soit radicale, mais opposée non pas à une totalité cosmologique, mais à une totalité théologique, absolument infinité. Donc, l’angoisse de Cioran devient possible seulement au moment où le concept théologique de transcendance est récupéré et seulement dans le contexte où on a la conscience qu’on vit dans un cosmos jeté de l’horizon éclaire d’une telle transcendance.
Sans l’idée de Dieu personnel, le nihilisme ne peut pas exister. Le nihilisme véritable est né seulement à condition de l’existence d’une mémoire paradisiaque qui amplifie le contraste entre notre condition cosmique et le territoire transcendant. On ne peut pas disputer, on ne peut donner dis gifles à une équation.

4. La position de Cioran face à l’antithétique de la transcendance.

L’origine du nihilisme cioranien pourraite être expliquée aussi dans la perspective d’une topographie métaphysique qui tiendrait du rapport entre l’intériorité et l’extériorité. Cioran se rapportait surtout à l’Être théologique qu’à celle phénoménologique dont la forme été indiquée par Heidegger. Cioran parle d’une création échouée.
Le schéma ontologique cioranien emprunte du christianisme l’idée de la chute. Chez Cioran, la chute n’a pas lieu d’une création parfaite dans une création ratée, mais d’un régime paramenidien dans l’un de la multiplicité.
Adam n’est pas coupables de la compromission de la créature ; c’est Dieu qui a choisi de se manifester dans un monde dissonant. La cosmogonie devient l’effet secondaire d’un « katharsis » divin. Cioran dit : „par notre existence nous avons sauvé l’Absolu de la gangrène”. (Des larme et des Saints la IV-ième édition, Humanitas, Bucarest, 2001).
Cioran est placé dans une position ambivalente par rapport à la Transcendance : on lui contestant son œuvre cosmogonique, Cioran semble mettre en discussion les attributs divins, leur régime infini donc, les perfections de Dieu. D’ailleurs, les expérience au caractère privilégié (nous avons en vue ici l’extase mystique et celle musicale) lui réveillent la conscience d’une réalité tant merveilleuse que dans cette séquence temporelle – là où celles – ci surviennent, les contradictions cosmologiques et existentielles, l’enthousiasme du nihiliste paraissent paralyser.
Cette proximité du nihilisme avec l’expérience extatique de l’ésorbtion dans l’Absolu nous renvoie a penser à une entière tradition des penseurs qui serait risquant de voir une similitude entre la manière dans laquelle Cioran concevoit le rapport entre la Divinité et le néant, et la manière dans laquelle Hegel formule son identité célèbre entre l’Être et le néant dans l’origine de leur pureté et de leur indétermination.

5. Les contre-faces de l’apophatisme cioranien.

L’apophatisme théologique classique (Dionisie l’Aréopagite) est lié au caractère de totalité du Dieu. De la Divinité, il faut affirmés tout ce que s’affirme de tout ce qui existe. Mais parce que les verbes affirmés sont des verbes seulement par analogie, de Dieu il faut à la fois nier tout ce qui existe.
Ce n’est pas le néant qui est désigné par la négation apophatique, mais c’est une affirmation au caractère infini, au fond une supra-affirmation, parce que Dieu est supérieur non seulement par rapport aux affirmation, mais aussi supérieur par rapport aux négations.
– L’apophatisme de Platon (voir le Dialogue Parmenide).
– L’apophatisme chez Meister, Eckart et Hegel.
– L’apophatisme de Heidegger (voir Que signifie la métaphysique ?).
Le besoin de Dieu, chez Cioran est rigoureusement equivalée avec besoin d’une absence de Dieu. Cioran reste sous la signe d’une infraction flagrante du principe de la non-contradiction, d’une fièvre mystique inversée, qui ne tient pas compte des principes logiques. („Car tout ce qui existe démente et confirme la Divinité” écrira Cioran dans ,,Des larme et des Saints’’ Édition citée, p.88).
Cioran est un apophatique, mais son apophatisme se constitue sur des antinomies d’un autre ordre que celles de l’apophatisme classique. L’apophatisme de Cioran vise plutôt une zone du retrait de Dieu du monde.
Influencé, par son esprit musical, par son hypersensibilité mystique qui lui faissaient des dissonances insupportables à son existence, Cioran emene et conteste simultanément la Transcendance des théologiens. Il se trâte d’un apophatisme inversé, un apophatisme d’un degré spécial, spécifique cioranien, qui consiste dans une conversion de la réduction apophatique, dans une guerre métaphysique portée avec la Divinité.

6. Le Dieu des théologiens et le Dieu des philosophes.

Le Dieu de la théologie de distingue de celui de la métaphysique par son caractère personnel.
La philosophie surprendre uniquement le caractère de substance de la Divinité et pas celui du sujet.
РLe caract̬re du sacr̩ chez Rudolf Otto.
РLa diff̩rence que Pascal fait entre le Dieu philosophes et le Dieu biblique.
– L’image de Dieu de la métaphysique par rapport à l’Absolu est-elle inexpressive?
La théologie dogmatique contient un corpus, des assertions métaphysique lorsqu’on caractérise l’Être de la Divinité. Dans ce point la théologie et la métaphysique coïncident, en arrivant à différer à peine au moment où se souleve la question du caractère hypostatique de cet Être.
Les conséquences qui découlent de l’anthropomorphisation de la Divinité, corrélées au problème de la théodicée et de l’absurd de l’histoire, lient Cioran à la théologie chrétienne, pendant que la nostalgie d’une pacification impersonnel soit dans l’unité d’une substance, soit dans le « vacuum » bouddhiste tenirait des tentatives de Cioran pour l’élibération dessous la pression terrible d’un Dieu personnel sacrifié et sacrificateur.
La révolte de Cioran envers la Divinité est entretenue par le contrast entre les attributs moraux avec lesquels la théologie caractérise Dieu et les évidences factuelles. Soutenir la bonté du Dieu dans un Univers plein de souffrance et dominé par la mort, devient une provocation métaphysique majeure, qui ne peut pas être résolue par un discours. Cela est au fond aussi la morale du livre Iov. Au discours correct théologique des amis de Iov on s’oppose une souffrance qui n’a pas besoin des apologies. Dieu infirme les discours des protecteurs. Le Dieu du livre Iov n’a pas besoin des avocats qui ne comprennent pas sa nature antinomique. Il n’est exclu que Dieu préfère le révolté Cioran dont les questions tiennent du vocabulaire de la souffrance.

(Comunicare susţinută la simpozionul internaţional Emil Cioran, Ediţia a XV-a Sibiu, mai 2005)

The puzzles of aphorism: reading Cioran

Author: Daria Lebedeva

Aphorism is a form and a style for philosophizing. Especcially it is a matter of the case for Emile Cioran.The style of writing – aphorism as the main form of the expression of the thought- fits the non-systematic way of philosophizing. It more than other means points the irrelevance to provide one or at least some meanings of one idea, definitions of one phenomenon, etc., the one strict meaning will never encompass the richness  and density of the world Cioran argues. Thus, he advocates the rightness of the non-systematic way of philosophizing: ‘ those who write under the spell of inspiration, for whom thought is an expression of their organic nervous disposition, do not concern themselves with unity and systems. … All what is form, system, category, frame, or plan tends to make things absolute and springs from a lack of inner energy, from a sterile spiritual life.’.

For Cioran the unsystematic type of thinking is an essential form of expressing thought typical for those thinkers who create under the auspices of emotional, organic impulses of life. It is a specific state of mind which directs flow of inner man\’s energy to the expression in the chaotic, non-connected pieces of thoughts which later on are packed into the form of non-systematic verses and passages. The not united set of thoughts is not mere a sign of inability to order it, it is the mirror of the essence of life as it is. The non-organized and consequently not subordinated thought is free, dynamic as life itself. This Cioran\’s passage is so to say an apology of the right to pronounce a thought in it primordial non restrained shape that is directly symbolizes the image of fluid life full of energy and uncontrolled impulses.

A key to the variety of interpretations lies in the aphoristic style of writing preferable by Cioran. Aphorism is a set, a piece of thought reflecting better than others means the essence of non-systematic way of philosophizing. Aphorism in the case of Cioran is not merely a form of expression thoughts, it is a way of thinking. Besides of this, it is a specific way of literary manner to encapsulate thoughts in the forms of concise pieces of expressions. In Elias\’s expression Cioran in aphorism is ‘almost mathematically precise’. No extra words, the chosen words unfold the Universe of the content. It is an acknowledged presence of the richness of beautiful metaphorical language but which has to be translated into the meagreness of the academic language. For instance, the choice of aphoristic – based philosophical writing in Dienstag\’s deep belief is not vainly preferred. Pessimism in forms of aphorisms rather a rule when the exception of it as the examples might suggest. Starting from Leopardi through Nietzsche to Cioran aphorism has been equally picked up, elaborated as a major means of writing.  The linkage between pessimism and aphorism proves that latter is logically determinated by the former, that style of writing originates from the so to say kind or type of philosophy   ‘their style or morals are deeply related to a unified philosophy’.

Aphorism is a fragment of style rendering potentiality to unmask the uncertainty of the ideas.  Fragment, a piece taken from the entity, but as such is a full entity, born as a part still is as a form. A form that is emancipated and self-sufficient, in Cioran\’s manner aphorism presents a resolution, Elias argues. ‘Aphorism which is not an aphorism, but ‘style in the breaking” . Richard Howard, a French translator of Cioran, applied to Francis Bacon\’s saying on aphorism. A wisdom broken, broken in a sense of in need to be repaired, reconstructed. In this genre more then ever reader\’s co-operation is obligatory condition. The meaning is present, but is hidden in the paradoxical scarcity of the words.  Howard goes on adding: aphorism – the very word has horizon within it, a dividing – line between sky and earth, a separation observed.

From the perception of the content, aphorism is an impasse, and the reader trying to touch the core of it is in cul-de-sac station. Author has already expressed what wanted to say, as a driver saw a blind alley as a sign where is no need – no opportunity – to go further. Reader has no opportunity to add anything to already said.

In accord to the intentions of the linguistic philosophy the suspicious attitude of the bearing true meaning is ascribed to the words. For Cioran words are ‘semblances of reality’ (p.3) Word describing the object and this object in reality are not identical. The search for definition is the negation of the object as such. Cioran asserts the obligation of defining the as a pseudo-scientific and totally misleading task never aiming the pure form – the definition that will never provoke any protestations and will be accepted by everyone as the axiom: ‘To define is one of the most inveterate of our madnesses, and it must have been born with the first word’.

Cioran gives an explanation of his preference of aphorism, as a means to express thought, in the context of accentuating the priority to use words with sense. So in order to avoid extra words- the some modern genres overwhelmed with in Cioran\’s vision, it is needed to cut off the unnecessary parts. After redaction the concise form of thought – piece of art – remains. This is aphorism. ‘Poem, novel, essay, play – everything seems to long. The writer – it is has function – always says more than he has to say: he swells his thought and swatches it with words ‘.

Article Source: http://www.articlesbase.com/quotes-articles/the-puzzles-of-aphorism-reading-cioran-4537557.html

About the Author

A person of cosmopolite views: born in Moldova, Ukrainian by blood, maried with Tajik man, studying in Poland, I am -as Emile Cioran once declared- enamoured with all capitals in the world. My interests are: religion, philosophy, cultural dialogue, tolerance, morality. I am doing PhD in pessimism in philsophy. Being an optimist I inquiry the roots of the world outlook I do not personally share.