E.M. Cioran na revista Veja

Em 28 de junho de 1995, a Veja dedicava uma página inteira em homenagem a E.M. Cioran, a propósito do seu recente falecimento, o que reflete até que ponto chegou a repercussão de sua obra por aqui. Desde então, contudo, muito pouco foi publicado na grande mídia a seu respeito, o que mostra que ainda falta muito para que o seu nome e a sua obra sejam devidamente difundidos no Brasil. Vale lembrar que apenas 4 de seus livros estão publicados aqui, o Breviário, os Silogismos, História e Utopia, e Exercícios de Admiração, enquanto que nos países de língua espanhola é possível encontrar edições traduzidas de todos os seus livros (a grandemaioria delas provenientes da Espanha, ainda que seja possível encontrar edições locais de qualidade nem sempre confiável). Ficamos com a interrogação sobre o que aconteceu com o projeto  – aparentemente interrompido – do Prof. José Thomaz Brum da PUC-RIO (que conheceu Cioran pessoalmente e com ele se correspondeu), junto à editora Rocco, de traduzir a obra completa (ao menos os livros franceses).

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E.M. Cioran e Ernesto Sábato: um encontro

Sobre estes e outros temas conversei longamente com Cioran, em uma tarde de 1989. Anos atrás me chegaram notícias do desejo que ele tinha de me conhecer; insistência que interpretei como mensagens crípticas, reiteradas em distintas oportunidades. Combinamos um encontro em sua casa da rua Odeón, a poucos passos do meu hotel no Boulevard Saint-Germain.

Custou-me dissuadi-lo do seu insistente oferecimiento de me esperar na entrada, por temor de que eu me perdesse; o que me corroborou mais uma vez o seu autêntico desejo de me ver. Depois de alguns minutos cheguei à sua casa, num daqueles velhos edifícios franceses; e logo depois de subir os seis andares a pé, me detive em frente à porta de madeira onde havia colocado, no lugar reservado para as chambres de bonnes, um cartaz que dizia Ici Cioran.

Contrariamente ao que muitos pressupõem e ao que eu mesmo pensava, aquele homem amável me surpreendeu, miúdo e abatido, predicador de um niilismo que não coincidia con ele. Era antes um grande pessimista, por momentos subjugado por um outro, cético e descrente. Mas sempre com um sorriso. Em nenhum momento um intratável indiferente, pelo contrário, um desses homens solidários com a “desventurada multidão”, como dissera Mallarmé, em busca de alguém que expresse sua inquietação e seu tormento. Talvez possamos referir a ele a frase de Strimberg: “Não detesto os homens, tenho medo deles”.

Conversamos fraternalmente durante mais de quatro horas, até  que tive de retirar-me porque meu amigo Severo Sarduy me esperava em um café não muito distante. Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e compartilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmitificar um racionalismo que só nos trouxe a miséria e os totalitarismos. Como também a imbecilidade dos que acreditam no progreso e no avanço da civilização. “Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como à desaparição da religião sobre a Terra.” Palavras de um filósofo cuja lucidez era produto de suas perplexidades e de seu tormento.

Tenho a convicção de que sua dor metafísica poderia ter-se aliviado caso tivesse escrito ficções, por seu caráter catártico, e porque os graves problemas da condição humana não são aptos para a coerência, mas unicamente acessíveis a essa expressão mitopoética, contraditória e paradoxal, como nossa existência.

“Na tristeza tudo se torna alma”, diz em um dos seus ensaios que tanto ajudaram a desmascarar a frivolidade e os sorrisos hipócritas destes tempos.

Ernesto Sábato, Antes del Fin.

A ética do sacrifício

Os escritos de juventude do pensador romeno E. M. Cioran, reunidos no volume Solitude et Destin, revelam muito da obra daquele que mais tarde seria definido como o esteta da desesperança e pessimista incondicional

Por Fernando Eichenberg

Artigo publicado na revista Primeira Leitura, no. 31, de setembro de 2004

Paris – “Como pude ser aquele que eu era?”, indagou o filósofo romeno E. M. Cioran (1911-1995), já transcorrida a maior parte de sua trajetória intelectual. A interrogação de tons shakespearianos inseria-se numa série de autocríticas aos seus antigos flertes com a organização fascista romena Guarda de Ferro e a escritos de juventude de matizes anti-semitas. “Meu eu atual não reconhece o autor”, dizia, ao manifestar uma tardia incompreensão e arrependimento públicos em relação a certas posturas juvenis adotadas nos primórdios da formação de seu singular pensamento filosófico. Entre amigos, Cioran costumava designar de “pré-história” o período de sua vida até a mudança definitiva para Paris, no fim dos anos 30, e a passagem de sua escrita para o idioma francês, a partir de 1947.

Não por acaso, os artigos políticos mais violentos e polêmicos (principalmente os produzidos entre 1933 e 1935, na Alemanha) foram excluídos pelo próprio autor, em 1990, da antologia que reúne seus textos publicados em jornais e revistas romenas entre 1931 e 1943, ou seja, dos 20 aos 32 anos de idade. Dito isso, traduzidas agora do romeno para o francês, as 434 páginas de Solitude et Destin (Solidão e Destino) revelam muito do que se tornaria o então jovem e provocador pensador, alguns livros mais tarde definido como esteta da desesperança, niilista desencantado, arauto da melancolia ou pessimista incondicional.

Aos seus 20 anos, já se notavam as raízes de seu estilo corrosivo e percuciente; o gosto pelo paradoxo, a ironia, os silogismos e aforismos; o sombrio romantismo e o ódio às ideologias; seu anticristianismo feroz, a afirmação da tragédia humana e a descrença na história. O jovem Cioran bebia na fonte da filosofia alemã, principalmente influenciado por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Mas, na maturidade, a idolatria seria relativizada por razões particulares, como afirmaria numa entrevista de 1983: “Nietzsche era o herói da minha juventude; mas já não o é mais hoje. Mesmo que genialmente mordaz, eu o considero muito pueril para mim, demasiado cândido”.

Nos quase 80 artigos da antologia, Cioran aborda variados temas da filosofia, literatura, música, arte. O leitor não se entediará com suas joviais impressões e digressões sobre Greta Garbo, Oskar Kokoschka, Auguste Rodin, Albrecht Dürer, Karl Jaspers, a agonia da cultura, a moral sexual, a sensibilidade mística, estados depressivos, o irracional na vida, a necessidade do radicalismo, niilismo e natureza, a perspectiva pessimista da história ou, como revela o título da obra, solidão e destino. “Quando nos damos conta de que tudo é vão, mas que, absurdamente, continuamos a amar a vida, é preciso se decidir a realizar um gesto, uma ação. Pois é melhor se destruir no frenesi do que na neutralidade. É quase impossível viver de forma neutra, de considerar como um espectador esta terra maldita e querida”, escreveu, aos 24 anos, iniciando seu percurso de ativo polemista. Os intelectuais, na sua opinião, não são feitos para preservar a “harmonia universal”, mas, ao contrário, para dar “brilho às discórdias” e “charme às incertezas”. Num elogio à profecia, seu discurso é arroubado: “Não compreendo como pode haver neste mundo pessoas indiferentes; como pode haver almas que não se atormentam, corações que não queimam, olhos que não choram. Declaremos falsas todas as verdades que não nos fazem mal e falsos  todos os princípios que não nos inflamam. Que nosso verbo lance raios e que nossos argumentos sejam flamas!”.

No fundo, todo problema da cultura e do espírito é o do homem e de seu destino, constata o jovem pensador, aos 21 anos. O sofrimento nos ajuda a compreender o mundo mais do que o entusiasmo, acrescentava, concluindo em embrionária lógica ciorana: “Os homens que meditam sobre a morte não podem ser resignados; aqueles que meditam sobre a vida não podem ser céticos”. Para o filósofo, não há outra ética a não ser aquela do sacrifício. Refinadamente irônico, já dizia aos 22 anos: “Indigno-me com a idéia de que ninguém até agora morreu de alegria. Mas, talvez, seja preciso ter sofrido muito parar morrer de alegria”. O sofrimento é a escola da tolerância, defendia, ao mesmo tempo em que atacava o moralismo excessivo das religiões, responsáveis “pela destruição da espontaneidade irracional e do ela indefinido da vida”. O Cristianismo, na sua opinião, queria revolucionar o homem”, mas, com sua visão de pecado, conseguiu foi “condená-lo na totalidade da escala da história”.

Leitor de O Declínio do Ocidente (1918), do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), o Cioran dos 20 anos – o mesmo que vaticinava “penso, não sem uma satisfação perversa, que nos dirigimos para uma época de barbárie” – se perguntava: como podemos falar de uma cultura do futuro, enquanto vivemos no decorrer da decadência do Ocidente? Ninguém, ou quase, tem dúvidas sobre o fracasso da cultura moderna, individualista e racionalista, dizia. “A atitude do homem de hoje em relação à vida é uma mistura de resignação, cinismo e contemplação. Outrora, a moral possuía uma consistência sustentada em critérios de validade unanimemente admitidos; nos nossos dias, ela perdeu, teórica e praticamente, o caráter divisório e rigoroso que distingue o bem do mal (…) Quem sabe se o bem não é o mal e o mal não é o bem?”, sustentava.

O jovem Cioran acreditava que sua época tinha por missão liquidar o otimismo. A hora histórica era a de renunciar às ilusões, apoderar-se do destino imanente do homem, ressuscitar a sensibilidade trágica e livrar o pessimismo de todo sentimentalismo. “O valor do cético na Antigüidade tinha por medida a tranqüilidade de sua alma e a igualdade de seu humor. Por que não criaríamos, nós que vivemos na agonia da modernidade, uma moral trágica, na qual a dúvida e a desesperança se casariam com a paixão, com uma chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”, questionava em 1933.

“Sempre vivi em contradição e nunca sofri por isso. Sempre encarei as contradições como elas vinham, tanto na minha vida privada como na intelectual”, confessou o filósofo, passados seus 70 anos. O pensador admitia não somente ter aceitado o caráter insolúvel das coisas, mas, inclusive, encontrado certa “voluptuosidade do insolúvel”. Como exemplo, evocava a possibilidade de se duvidar absolutamente de tudo, se definir como um niilista e, entretanto, se apaixonar como o maior dos idiotas. “Essa impossibilidade teórica da paixão, mas que a vida real não cessa de frustrar, faz com que a vida tenha um certo charme, incontestável, irresistível”, dizia, na proximidade do fim de seus dias. Já o jovem filósofo, que manifestava como única ambição se tornar um “pessimista pensador de bulevar”, escrevia, aos 26 anos: “Há na vida algo da histeria de uma primavera terminal. Um caixão suspenso nas estrelas, uma inocência em putrefação, um vício floral. Esta mistura de cemitério e de paraíso…”. Do puro Cioran.

Cioran: uma mente desconcertante

Conhecido como filósofo do nada, o romeno Emil Cioran produziu uma obra carregada de fina ironia e tiradas polêmicas

por Paulo Jonas de Lima Piva*

Muitas são as tentativas de definir o pensamento estilhaçado, iconoclástico e desconcertante do pensador romeno Emil Mihai Cioran. Rei dos pessimistas, o niilista por excelência do século XX, um Nietzsche contemporâneo, um cético a serviço de uma civilização em declínio, teórico do suicídio, especialista do problema da morte, um místico herético frustrado com o absoluto, cínico. O texto de Cioran parece imune a todas essas designações, em função, sobretudo, de sua aristocrática ironia. Ele deixou de acreditar nas palavras, embora tenha escrito muito. Quanto aos livros, considerava-os inúteis e não concebia razão alguma para multiplicá-los. Entendia a escrita como uma terapia, como um meio para se desintoxicar das reflexões que fermentavam em seu crânio. “Minha obra? Essa palavra me dá náusea. Nasceu de razoes médicas, terapêuticas”, explica o romeno, que é considerado, ao lado de Paul Valéry (1871-1945), um dos maiores estilistas da língua francesa.

Ocorre que Cioran sofria de devastadoras insônias, às quais ele atribuiu a fonte dos seus pensamentos mais lúcidos. Tal estado clarividente de consciência o fez ver a vida como um “mau gosto da matéria” e como “uma ocupação de inseto”, a metafísica e a poesia como “impertinências de piolho”, o amor como o “encontro de duas salivas”, Deus como um “fracassado do alto”, como um “Nada supremo” e, por fim, o suicídio como uma idéia que torna a vida suportável na medida em que nos dá a garantia de que podemos nos livrar dela quando quisermos.

Infelizmente, os cadernos de cultura da grande imprensa brasileira deixaram passar em branco os dez anos da morte de Cioran, provavelmente em virtude do afã de proporcionar o merecido destaque ao centenário do nascimento de Sartre, também ocorrido em 2005. Entretanto, o público brasileiro pode se deleitar com as traduções em português de algumas das mais expressivas obras do filósofo romeno, todas publicadas pela editora Rocco, dentre elas Breviário de Decomposição, Exercícios de admiração, História e utopia e Silogismos da amargura. José Thomaz Brum, responsável por essas traduções, teve o privilégio de discuti-las com o próprio Cioran, de quem acabou se tornando amigo e correspondente.

Mais recentemente, Rossano Pecoraro publicou em 2004, pela EdipucRS, Cioran: a filosofia em chamas, uma versão modificada de sua dissertação de mestrado defendida na PUC do Rio de Janeiro, em 2002. Trata-se sem dúvida da descoberta pelos nossos leitores e pela filosofia universitária brasileira da obra daquele que acreditava “na salvação da humanidade, no futuro do cianureto”.

Eterno estudante

Há dez anos, mais exatamente no dia 20 de junho de 1995, falecia em Paris, aos 84 anos, de mal de Alzheimer, o pensador romeno Emil Mihai Cioran. Nascido em Rasinari, um vilarejo na região da Transilvânia, Cioran graduou-se em filosofia na Universidade de Bucareste, onde apresentou como trabalho de conclusão de curso uma dissertação sobre as idéias do francês Henri Bergson (1859-1941).

Durante os anos de faculdade, no alvorecer de uma década de 1930 marcada pelo nazismo e pelo bolchevismo, o então jovem universitário Emil fez sua opção ideológica por um movimento romeno de extrema direita. Opção que, posteriormente, reconheceu como um equívoco juvenil e rechaçou por várias vezes em sua maturidade. Vale lembrar que equívocos dessa natureza também foram cometidos e reconhecidos por outras personalidades ilustres do universo da reflexão. É o caso, por exemplo, de Jean Paul Sartre (1905-1980) em sua defesa enfática do comunismo soviético do período stalinista. Ou de Michel Foucault (1926-1984) em seu apoio entusiasta à revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeiny. Poderíamos citar ainda como exemplo os vários intelectuais brasileiros que se engajaram na eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que acabaram assistindo atônitos aos escândalos que envolveram o PT.

Após uma proveitosa estadia de dois anos em Berlim como bolsista e de uma curta e malograda experiência de professor de filosofia no ensino médio romeno, Cioran foi contemplado com uma nova bolsa de estudos, dessa vez do Instituto Francês de Bucareste. Chegou a Paris com o compromisso de elaborar na Sorbonne uma tese sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sua paixão de juventude. Contudo, jamais a concluiu. Tampouco retornou ao seu país natal. Radicado em solo francês, mais precisamente numa mansarda do Quartier Latin, bem próxima ao Jardim de Luxemburgo, Cioran realizou a proeza de sobreviver como bolsista por quase uma década. Mesmo com o término das bolsas, ele manteve sua vida de eterno estudante. Fazia as refeições nos restaurantes universitários até os 40 anos, quando foi oficialmente desligado da Sorbonne. “Eu preferi levar uma vida de parasita a exercer uma profissão”, costumava justificar Cioran, em suas raras entrevistas, a liberdade e a independência garantidas por quase uma existência inteira marcada pelo ócio, a única, segundo ele, suportável.

Texto publicado na revista Discutindo Filosofia no. 2, ano 2005, páginas 24-27.

*Paulo Jonas de Lima Piva é doutor em filosofia pela USP, pós-doutorando em filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USJT)/Fapesp, professor da USJT e autor de O ateu virtuoso: materialismo e moral em Diderot (Discurso Editorial).