O silêncio do dândi romeno

por LEDA TENÓRIO DA MOTTA / Especial para a Folha de São Paulo, Caderno Mais! — 17 de fevereiro de 1995

Com pudor inusual e ironia perfeita, Emil Michel Cioran renuncia à literatura em 1987, no exato momento em que está saindo de um longo anonimato para alcançar o que a muitos só teria aconselhado a continuar: reconhecimento da crítica, prêmios, que invariavelmente recusa, e sucesso de público.

Editados em  poche, os  Silogismos da Amargura, de 1952, tinham se tornado um best seller. E 30 mil exemplares de seu último livro,  Confissões e Anátemas, são vendidos nesse ano de 87, quando o escritor, agora um mestre notório da desesperação, que já começa a fazer escola, o que resulta suspeito em se tratando de desespero, concebe frear a engrenagem ultrafrancesa da produção contínua dos ilustres, e faz silêncio para se pôr a ouvir música —aliás Bach.
A percepção do sucesso como  humilhante —a palavra é do próprio Cioran e a humilhação inverte outra humilhação: viver meio século em Paris miseravelmente, publicar livros de aforística elegância, à moda dos moralistas antigos, e passar nos lugares pelo amigo desconhecido dos dramaturgos Samuel Beckett e Eugène Ionesco —condiz absolutamente com a lucidez depressiva, até o exagero, segundo ainda o próprio Cioran, desse grande autor estrangeiro de expressão francesa, como os dois amigos.

O que leva o escritor a trabalhar, não obstante se incline, desde a primeira crise, que é religiosa, a só ver inanidade, quando não vaidade, em tudo o que se escreve —é a mesma coisa que o leva a parar. É a mesma coisa que o leva a criticar também, diga-se de passagem, os romances de Mircea Eliade, o compatriota que, juntamente com Ionesco e ele mesmo, representa a inteligência romena do século na Europa ocidental.

Trata-se de uma visão irresistível da gratuidade dos homens e de suas palavras. Não é de admirar que a música seja para o autor do  Breviário de Decomposição (1949), que ao sair foi confundido, pelo título, com uma obra de química, a única linguagem que não faz um barulho desagradável, ou não produz estridência, uma vez que é sem palavras, e assim sem intenções.

Cioran não resiste, de fato, ao seu elã negativo, à sua propensão para o abismo, direção na qual se sente confirmando um excesso caracteristicamente balcânico, origem da figura do eterno estudante e do poeta sem obra. E a obra, no caso, corresponde à lógica suicidária das literaturas que referem a sua própria inanidade e giram em torno de sua autoliquidação. Nesse sentido, ele não é apenas profundamente balcânico, mas inevitavelmente moderno, e o que é justamente interessante é que o paradoxo moderno de escrever sobre a pane de escrita, já tão exaurido e sem alma, surge com ele animado pela alma de um país.

Não há como entender Cioran fora da cultura do Leste, da Transilvânia, dos Cárpatos, do primitivo religioso, muito perto da presença sombria da literatura russa. Esse é um mundo fechado que, quando se abre, se parte, é o chão que cede e dá o sentido da esterilidade, ou o não-sentido. Há uma sequência de crises na vida romena do escritor, tão logo começa a amadurecer.

Filho de padre ortodoxo, muito cedo, falta-lhe a fé.  Há dois mil anos, Jesus de Nazaré desconta em nós o fato de não ter morrido num sofá, escrever ele mais tarde, lapidar e blasfematoriamente, resumindo-se a respeito dos valores do pai. Estudante de filosofia, escapa-lhe a finalidade dos sistemas de pensamento, esses  pequenos universos inverossímeis de pura criação verbal de conceitos.

Leitor dos poetas, torna-se sensível aos idiotas, no sentido dostoievskiano, tanto mais líricos quanto nulos ou ridículos. E acrescente-se que, aos 20 anos, como uma espécie de Proust dos Balcãs, foge-lhe por completo o sono. Não só a obra, quase toda escrita em francês, como a de Beckett, mas a vida de Cioran, quase toda vivida na França, em exílio voluntário, são devedoras desses desastres.

Ora, o que fazer quando não se acredita em absolutamente nada, nem em Deus, nem nos homens, nem nos regimes políticos, nem na filosofia, nem na maioria dos poetas? Como continuar vivendo quando não se alimenta ilusão alguma a respeito do que quer que seja, quando se acha a vida absurda, se foi até as últimas consequências na negação de tudo, se negou a própria terra e a própria língua de origem, se chegou ao vazio, à força de negação e, ainda por cima, por obra de uma insônia crônica, não se dorme?

Até o dia em que resolve parar de escrever, depois de ter aproveitado sabiamente as suas muitas noites em claro para se dar conta de que o vazio total pode ser encarado com distância, e assim prescindir do suicídio —Cioran, a título de resposta a essa situação que ele próprio reputa insuportável, produz textos, abundantemente. Como ele diz, quem não tem razão nenhuma para viver, por que teria uma para morrer?

Os escritos assim produzidos, em nome de uma busca sem objeto, hoje compõem uma apreciável obra completa, de 16 títulos, acerca do nada —o  néant, termo para o qual Cioran apela frequentemente, e que ele prefere a  abismo porque o abismo dá vertigens, quando o nada não dá nada. Mas para se alcançar verdadeiramente o refinado cultor de fórmulas sintéticas e agônicas que ele é, consciente de que toda forma de conhecimento é uma forma de demolição, é forçoso atentar também para os efeitos da passagem para Paris, no início dos anos 40, e mais precisamente para o impacto do rigor francês sobre os excessos balcânicos do imigrado.

Inúmeras outras fontes podem nos aproximar de uma interpretação de Cioran. A cultura dominantemente alemã da região romena em que ele nasce e se forma e, através dela, a instigação do pessimismo schopenhaueriano, via Nietzsche, por exemplo. Ou a leitura, decisiva, dos místicos espanhóis. A biblioteca particular do escritor o mostra ainda atento ao tédio baudelairiano, tédio sendo outra palavra de enorme circulação em seus escritos, a Shakespeare, a Valéry, ao poeta Henri Michaux, ao próprio Beckett, a Borges, que ele chama  o último dos delicados e que o faz perguntar: como um espírito tão refinado pode suscitar aprovação tão geral?

Mas o ponto em que se origina o que alguns chamam um segundo nascimento, até porque ele coincide com a adoção da expressão francesa —em 1949, quando publica, com 38 anos, o  Breviário de Decomposição, reescrito inúmeras vezes para limpar as marcas do romeno— é o encontro com os moralistas franceses e com seus descendentes diretos, os filósofos-escritores do século 18. Mais que filosofar poeticamente, estes lhe ensinam as exigências de limpidez e sutileza da língua de Voltaire.

O que ocorre nesse momento é que é a exaltação lírica, a efusão com que se verte o desespero, os superlativos do Cioran, que começou escrevendo sobre  Santos e Lágrimas (1937) ganham comedimento, distanciamento, ironia. Aqui, ele se passa a limpo. Aqui ele que é amante da música conquista um tom, um estilo, mais que de pensamento, de escritor. Os aforismos, os silogismos, os breviários, os manuais vêm daí. E a palavra  decomposição, inscrita no título do primeiro livro em francês, indica exatamente isto: o fim da antiga tonalidade. O talento para a negação vira talento para a formulação. A neurastenia se torna elegante, como já se disse.

O escritor, qual um verdadeiro dândi da misantropia, como também já se disse, está agora pronto a dirigir-se ao julgamento final com uma flor na lapela. Cioran desesperado é uma lição de maestria formulativa.

Pena que, sóbrio até as últimas consequências, essa sua elegância já não se exerça mais, devorada que foi pela discrição final do silêncio.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA é crítica literária e professora de literatura francesa da Unesp (Universidade Estadual Paulista)
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“O pensador da amargura” (Caderno Mais!, 1995)

Emil Cioran, o filósofo do desespero e do não-sentido da existência, fala sobre sua trajetoria intelectual em entrevista a sair este ano na França.

 

Em 17 de fevereiro de 1995, o caderno Mais! da Folha de São Paulo faria um dossiê sobre Cioran, pouco antes de seu falecimento. A matéria saiu a título do lançamento do volume Entretiens (Gallimard), publicado na França no mesmo ano com entrevistas do autor ao longo de sua vida. O artigo principal do dossiê é o trecho de uma das entrevistas contidas no livro, concedida a Michael Jakob e reproduzida abaixo. Outros textos que integram o dossiê são “O silêncio do dândi”, de Leda Tenório da Motta, e “Cioran é herdeiro dos céticos, de Nietzsche e Dostoiévski”, de Cássio Starling Carlos.

A insônia da razão

O pensador romeno Emil Cioran conta como suas noites de vigília o fizeram perder a confiança na filosofia e descobrir um mundo feito de desespero e vazio, em um de suas raras entrevistas, que o “Mais!” publicada em tradução da crítica literária Leda Tenório da Motta.

por MICHAEL JAKOB

Pergunta – Quando se lê o que o sr. escreve, tem-se a impressão de que não acredita no diálogo. O sr. diz também que todo encontro marcado lhe parece uma espécie de crucifixão… Tenho consciência da dificuldade que pode representar uma entrevista consigo, mas estou aqui para tentar, apesar de tudo. Se começássemos pela sua infância na Romênia? O sr. a tem ainda bem presente?

Cioran – Sim, extraordinariamente presente. Nasci em Rasinari, uma aldeia nos Cárpatos, na montanha, a 12 km de Sibiu-Hermanstad. Eu amava muito essa aldeia; tinha dez anos quando a deixei para entrar no colégio em Sibiu, e não vou esquecer nunca o dia, ou melhor a hora, em que meu pai me levou para lá. Tínhamos alugado uma carroça e eu chorei, chorei o tempo todo porque tinha o pressentimento de que o paraíso estava perdido. Essa aldeia na montanha tinha para a criança que eu era uma vantagem enorme: depois do café da manhã, eu podia desaparecer até o meio-dia; voltava para casa e, uma hora depois, desaparecia de novo nas montanhas. Isso durou até os dez anos.
Depois, veio uma outra  vantagem, a de morar lá em cima: durante a guerra de 14, meus pais, por serem romenos, foram deportados pelos húngaros, e meu irmão, minha irmã e eu ficamos com minha avó, ficamos totalmente livres, em suma! Era a época ideal! Eu gostava muito dos camponeses e mais ainda, dos pastores: tinha uma espécie de culto por eles. Quando tive que abandonar esse mundo, tive o pressentimento de que para mim alguma coisa se partia para sempre. Não parava de chorar e não esquecerei nunca disso.

Pergunta – Pelo que o sr. diz, foi literalmente arrancado do solo natal.

Cioran – Da terra e desse mundo primitivo de que tanto gostava, e do sentimento de liberdade a ele relacionado. Foi assim que me vi em Sibiu, uma cidade muito importante do Império Áustro-Húngaro, uma espécie de cidade-fronteira com muitos militares. Três etnias coabitavam ali: os alemães, os romenos e os húngaros. Pode ser curioso, mas isso me marcou para o resto da vida: não posso viver numa cidade onde só se fala uma língua, me aborreço imediatamente. Eu apreciava justamente a diversidade dessas três culturas, a verdadeira cultura, bem entendido, sendo a alemã; os húngaros e os romenos eram uma espécie de escravos que tentavam se alforriar. Havia nessa cidade de Sibiu uma biblioteca alemã que era muito importante para mim.
Em todo caso, depois da minha aldeia natal e de Paris, Sibiu (Sibiu-Hermanstad ou Nagyszeben, em húngaro) é a cidade que mais amo no mundo. Se a palavra nostalgia tem um sentido, é o pesar de ter tido que deixar uma cidade como essa e o de ter deixado minha aldeia. No fundo, o único mundo verdadeiro é o mundo primitivo onde tudo é possível e nada está atualizado.

Pergunta – O sr., na verdade, desterrou-se várias vezes?

Cioran – Sim, várias vezes. Primeiro, pelo fato de ter abandonado minha infância. E depois minha vida em Sibiu. Por que Sibiu foi uma cidade importante para mim? Porque foi lá que vivi o grande drama da minha vida, um drama que durou anos e que me marcou pelo resto dos meus dias. Tudo o que já escrevi, tudo o que pensei, tudo o que elaborei, todas as minhas divagações têm origem neste drama: por volta dos 20 anos, perdi o sono. Lembro-me de ficar passeando durante horas em plena cidade —Sibiu é uma bela cidade, uma cidade alemã que data da Idade Média.
Eu saía por volta da meia-noite e simplesmente passeava pelas ruas, só havia algumas prostitutas e eu numa cidade vazia, o silêncio total, a província. Perambulava horas nas ruas, como um fantasma, e tudo o que escrevi mais tarde foi elaborado durante essas noites. Meu primeiro livro,  Pe Culmile Disparàrii (No Cume do Desespero) é dessa época. É um livro que escrevi com 22 anos, uma espécie de testamento porque eu pensava que ia me suicidar. Mas sobrevivi. É que não tinha ofício algum, e isso foi muito importante. No fundo, como não dormia de noite e passeava pela cidade, não prestava para nada durante o dia, não poderia praticar um ofício.
Tinha uma licença, havia terminado meus estudos de filosofia em Bucareste etc, mas não podia ser professor porque não é possível, depois de passar toda a noite em vigília, ir bancar o engraçado na frente dos alunos, falar de coisas que não interessam. Essas noites de Sibiu estão portanto na origem de minha visão do mundo.

Pergunta – Mas essas noites também lhe permitiram descobrir todo um espaço extraordinário, logo alguma coisa de aberto, de fascinante…

Cioran – É verdade. Mas havia antecedentes no meu caso para a minha visão das coisas. Já tinha essa visão das coisas muito antes, mas foi a partir dos 20 anos que a compreendi de maneira sistemática. Devo precisar antes de mais nada que meu pai era padre ortodoxo, mas minha mãe era incrédula.
Curiosamente, ou por por causa disso mesmo, ela era muito mais independente de espírito que meu pai. Eu estava pois com 20 anos e um dia —eram duas horas da tarde, lembro-me perfeitamente— na frente da minha mãe, me joguei no sofá e disse:  Não aguento mais. Minha mãe me respondeu:  Se eu soubesse teria feito um aborto. Isso me causou uma impressão extraordinária, mas de modo algum negativa. Em vez de me revoltar, esbocei, eu me lembro, uma espécie de sorriso, e foi como uma revelação; ser o fruto do acaso, sem nenhuma necessidade, isso foi de certa maneira uma libertação. Mas me marcou pelo resto da vida.
Minha mãe, curiosamente, depois de ler as coisas que eu tinha escrito em romeno (ela não sabia francês), mais ou menos as aceitou. Meu pai, em compensação, ficou muito triste; ele cria e, sem ser fanático, sua profissão era a de padre; evidentemente, tudo o que eu escrevia o incomodava e ele não sabia como reagir. Só minha mãe me entendia.
E é muito curioso porque, no começo, eu a desprezava, mas um dia ela me disse:  Para mim, só existe Bach. A partir desse momento, compreendi que me parecia com ela e, efetivamente, herdei vários dos seus defeitos, e também algumas qualidades. Essas são revelações que marcam uma vida. E então aconteceu uma coisa, sabe, escrevi um livro —meu segundo ou terceiro livro, que se chama  Lágrimas e Santos.
É um livro que foi editado na Romênia em 1937. Ele foi extremamente mal recebido; primeiro, o editor, quando o livro estava quase pronto —ele estava em Bucareste e eu, nessa época, em Brasov— me telefonou para me dizer que não ia publicá-lo. Na verdade, não o tinha lido e, no momento da publicação, lhe disseram :  Você leu esse livro? Então ele leu e me disse:  Fiz a minha vida com a ajuda de Deus e não posso publicar o seu livro. (Risos) Isso é balcânico. Eu disse a ele:  Mas é um livro profundamente religioso. Ele respondeu:  Pode ser, mas não quero o seu livro.
Foi no ano em que eu vim para a França. Eu lhe disse:  Eu tenho que deixar o país, tenho que ir para Paris por um mês.  Pode ser, mas não quero o seu livro. Foi tudo o que respondeu! Fui até um café, estava desesperado, dizia para mim mesmo: o que vou fazer? Eu gostava bastante desse livro porque ele era o resultado de uma crise religiosa e finalmente encontrei um editor ou melhor um tipógrafo, um impressor que me disse:  Eu vou publicá-lo para você. Então, saí da Romênia e vim para a França.
O livro saiu na minha ausência, em 1937, e meus pais se viram numa situação bem delicada; minha mãe me escreveu:  Eu compreendo o seu livro etc, mas você não devia tê-lo publicado com seus pais vivos porque coloca o seu pai numa situação muito difícil e a mim também que sou presidente das mulheres ortodoxas… todos riem de mim na cidade.
Mas minha mãe, apesar de tudo, compreendeu esse livro, ela me disse:  Vê-se que há uma ruptura interior em você, de um lado o blasfemo, de outro a nostalgia. Esse livro é o resultado de uma crise feita de vigílias. É por isso que sempre desprezei as pessoas que conseguem dormir, o que é mais ou menos um absurdo porque só tinha um desejo: dormir. Mas compreendi uma coisa: as noites em claro são de uma importância capital!

Pergunta – É nas noites em claro que se produz…

Cioran – Não somente isso, mas se compreende principalmente. Veja, a vida é muito simples: as pessoas se levantam, passam o dia, trabalham, se cansam, depois se deitam, acordam, começam outro dia. O extraordinário fenômeno da insônia faz com que não haja descontinuidade. O sono interrompe um processo. Mas a pessoa que tem insônia está lúcida no meio da noite, a qualquer momento, para ela não há diferença entre o dia e a noite. É uma espécie de tempo interminável.

Pergunta – O insone vive numa outra temporalidade?

Cioran – Sim, absolutamente. É um outro tempo e um outro mundo pois a vida só é suportável por causa da descontinuidade. No fundo, por que se dorme? Não é tanto para se descansar, mas para esquecer. O tipo que se levanta de manhã depois de uma noite de sono tem a ilusão de começar alguma coisa.
Mas se você passa a noite toda acordado, você não começa nada. Às oito horas da manhã, você está no mesmo estado em que estava às oito horas da noite e toda a perspectiva das coisas muda necessariamente. Eu acho que se nunca acreditei no progresso, se nunca fui logrado por esse logro foi também por causa disso.

Pergunta РSeria um tempo em que se v̻ o mundo no negativo?

Cioran – No negativo ou no positivo, como quiser, mas se tem um outro sentimento do tempo. Não é o tempo que passa, é o tempo que não passa. E isso muda a sua vida. É por isso que eu considero que as noites em claro são a maior experiência que se pode fazer na vida, elas marcam pelo resto da vida. Dá para compreender por que, no passado, a tortura consistia em impedir os acusados de dormir: ao cabo de algumas noites, eles confessavam tudo! O segredo do homem, o segredo da vida é o sono. É isso que torna a vida possível.
Estou absolutamente convicto de que se impedissem a humanidade de dormir, haveria massacres sem precedentes, a história terminaria. Esse fenômeno me abriu os olhos para sempre, por assim dizer. Minha visão das coisas é o resultado dessas vigílias,  vigílias do espírito, ousaria dizer, é pretensioso, mas enfim, é um pouco isso. E, fenômeno muito curioso, minha adoração pela filosofia, pela linguagem filosófica —eu era louco pela terminologia filosófica— pois muito bem, essa superstição, porque se trata de superstição, foi varrida pelas vigílias. Porque eu vi que isso não podia me ajudar, me fazia suportar a vida, mas de maneira nenhuma as noites. Foi assim que perdi a fé na filosofia.

Pergunta – Mas encontrou muitos amigos nas letras …

Cioran – Sim, perfeitamente. Isso aconteceu no momento em que vi que a filosofia não podia me ajudar, que os filósofos nada têm a me dizer. De todo modo, são os escritores que eu prefiro. Para mim, Dostoiévski é o maior dos gênios, o maior dos romancistas, tudo o que se quiser dizer, todos os superlativos. Eu li enormemente os russos, Tchekov, naturalmente.

Pergunta РQuando come̤ou a ler Dostoi̩vski?

Cioran – Desde sempre. Mas só o compreendi mais tarde. Foi no período das noites em claro que compreendi  Os Possessos. Mas, na verdade, só gostava dos grandes doentes e, para mim, um escritor que não é doente é quase automaticamente um tipo de segunda ordem.

Pergunta – O seu livro sobre  As Lágrimas e os Santos é muito dostoievskiano, com aquela concepção da mulher ao mesmo tempo como prostituta e santa…

Cioran – De fato. Vou dizer-lhe porque esse livro teve uma certa importância em minha vida. Estava em Brasov e foi no único ano de minha vida em que cheguei a trabalhar… Era professor de filosofia num colégio, mas esse trabalho logo se revelou impossível para mim, eu só pensava numa coisa: largar tudo e ir para a França para escapar dessa situação. Minha passagem pelo liceu de Brasov foi realmente catastrófica, tive problemas com meus alunos, com os professores, com o diretor… em suma, com todo mundo. Consegui enfim ir para Paris mas —como lhe disse antes— quando saiu meu livro sobre os santos todo mundo se voltou contra mim. Com a exceção de uma jovem americana de 17 anos que me escreveu uma carta impressionante.
Foi portanto um desastre que me fez compreender definitivamente que, embora tivesse inquietação religiosa, nem por isso teria nunca fé. No fundo, perdi uma ilusão capital… Reli os místicos, mas o que me agradava neles era o lado excessivo e principalmente o fato de falarem com Deus de homem para homem, se assim posso dizer… Quanto a mim, por mais que me atormentasse, nem por isso a fé me era menos impossível. Mesmo hoje não posso dizer que seja um espírito perfeitamente a-religioso, o que constato é a impossibilidade de crer. A crença é um dom. Por certo, há muita gente que alimenta uma série de equívocos a respeito, mas para mim é impossível.

Pergunta – Então, já nesse momento os filósofos místicos eram para o sr. mais importantes que um Hegel ou um Kant…

Cioran – Infinitamente mais importantes. Santa Teresa de Ávila teve um papel muito grande em minha vida, fiquei transtornado com a leitura da biografia de Edith Stein… Sabe como ela se converteu? Um dia, ela chegou na casa de uma amiga filósofa e, como a amiga tinha lhe deixado um bilhete dizendo que chegaria mais tarde, Edith Stein se deparou, enquanto esperava, com a vida de Santa Teresa de Ávila, e ficou completamente tomada… É a origem de sua conversão.
Ora, em todos os artigos sobre Edith Stein os autores se admiram disso e acham o fato muito curioso, mas o ponto não é esse: Teresa de Ávila tem um tom que transtorna realmente. Evidentemente, eu não me converti porque não tinha vocação religiosa, mas Santa Teresa me ensinou muito, transtornou-me  literariamente, mas o fato é que para ter fé é preciso nascer com ela… Eu posso passar por todas as crises menos pela fé, que é igualmente uma crise, mas uma forma de crise que não é a minha. Quer dizer que posso conhecer a crise, mas não conhecer a fé.

Pergunta – E os poetas?

Cioran – Os poetas me apaixonaram, claro. Mas existe também este fenômeno muito balcânico: o  raté, quer dizer, o tipo muito dotado que não se realiza, que promete tudo e não cumpre as suas promessas. Meus grandes amigos na Romênia não eram de modo algum escritores, mas  ratés.
Um deles principalmente me influenciou muito, um tipo que tinha feito estudos de teologia e que ia ser padre, mas precisava se casar para isso. No domingo do casamento, todo mundo esperava por ele, ele disse a si mesmo que era uma loucura e desapareceu. Esperaram por ele o dia inteiro na igreja e não foi mais encontrado durante meses.
Ele me influenciou muito. Não tinha dom nenhum, não conseguia escrever e lia muito pouco, mas seu conhecimento da natureza humana, sua psicologia inata eram simplesmente extraordinários. Nunca o vi enganar-se sobre coisa nenhuma. Era de uma lucidez absoluta, criminal e agressiva. Não digo que lhe devo diretamente muita coisa, mas ele era, em todo caso, um interlocutor muito importante para mim porque foi com ele que compreendi até onde é possível se ir. Na negação, ele foi realmente até o limite.
O que era muito curioso é que era um tipo enorme, que dava a impressão de ser muito próspero e sereno. Ele não era mau, não era um salafrário, mas era incapaz de alimentar a menor ilusão a respeito do que quer que fosse. Isso representa também uma forma de conhecimento porque, no fundo, o que é o conhecimento senão a demolição de alguma coisa?

Pergunta РO conhecimento malṣo?

Cioran – Não só o conhecimento malsão, qualquer conhecimento levado às últimas consequências é perigoso e malsão pois —eu estou falando da própria vida e não dos conhecimentos ditos filosóficos— a vida só é suportável porque não se vai às últimas consequências. Uma empresa só é possível se se tiver um mínimo de ilusão, senão não é possível. A lucidez completa é o nada.
Vou lhe dar um exemplo para mostrar o lado demoníaco do meu amigo. Um dia, tinha me apaixonado por uma mulher. Ele viu que estava muito seduzido e me disse:  É completamente insensato. Eu acabava de conhecê-la, era amor à primeira vista, ele sabia, mas continuou:  Você viu a nuca? Eu respondi que não havia começado por aí.  Olhe bem, ele me disse. Achei isso tudo uma besteira total, de uma inaudita mesquinharia, mas olhei assim mesmo, e descobri uma espinha na nuca. Ele tinha estragado tudo! Isso me impressionou demais, esse demônio dentro dele.

Pergunta РEsse tipo ̩ um puro produto do mundo balc̢nico?

Cioran – Evidentemente, dada a sua falta de medida. Nós vamos longe demais. O Ocidente, a civilização francesa, toda a idéia de polidez —o que é? São limites que se aceitam pela reflexão. Não se pode ir mais adiante— não vale a pena —é de mau gosto.
Mas não se pode falar de civilização nos Balcãs, não há critérios. Somos impelidos ao excesso e o mundo russo, a literatura russa é mais ou menos isso. Por exemplo, eu sou muito sensível ao fenômeno do tédio. Toda a minha vida me entediei —e a literatura russa gira em torno do tédio, é o nada contínuo. Eu pessoalmente, vivi o fenômeno do tédio de maneira patológica talvez, mas fiz isso porque queria me entediar. O problema é que quando a gente se entedia com tudo, está tudo perdido, não é?

Pergunta – O tédio nesse sentido faz parte dessa categoria da temporalidade que é  outra, diferente?

Cioran – Sim, exatamente, porque o tédio está finalmente baseado no tempo, no horror do tempo, no medo do tempo, na revelação do tempo, na consciência do tempo. Os que não têm consciência do tempo não se entediam; a vida só é suportável se não houver consciência de cada momento que passa, se não for assim está tudo perdido. A experiência do tédio é a consciência do tempo exasperado.

Pergunta – O sr. acaba de dizer algo que mostra até que ponto todo escrito esconde uma voz subterrânea…

Cioran – Todos os nossos atos têm subterrâneos, e é isso que é psicologicamente interessante, nós só conhecemos a superfície, o lado superficial. Acedemos ao que é formulado, mas o importante é o que não é formulado, o que está implícito, o segredo de uma atitude ou de uma proposição. É por isso que todos os nossos juízos sobre os outros, mas também sobre nós são parcialmente falsos. O lado mesquinho fica camuflado. Ora, o lado mesquinho é profundo, eu diria mesmo que é o que há de mais profundo nos seres, e é aquele a que menos temos acesso.
Os grandes escritores são precisamente aqueles que têm o sentimento desses  baixos, Dostoiévski principalmente. Ele revela tudo o que é profundo e aparentemente mesquinho, mas é mais que mesquinho, é trágico; são esses os verdadeiros psicólogos. Eu conheço muita gente que escreveu romances e fracassou —mesmo Mircea Eliade escreveu muitos romances e fracassou, por quê? Porque eles só traduzem os fenômenos de superfície e não a origem dos sentimentos. A origem de um sentimento é muito difícil de captar, mas é isso que é importante e isso é válido para qualquer fenômeno: para a fé religiosa etc. Como começou? Por que continuou? É esse o desafio e só quem tem a divinação é capaz de enxergar de onde vem isso. E isso não vem da razão.

Pergunta – Também nas suas leituras o sr. está atrás dessa  origem?

Cioran – Estou, e na minha vida também. O que é formulado é só uma parte do pensamento. É por isso que há poucos romancistas verdadeiros. Todo mundo pode escrever um romance mas não se trata apenas de escrevê-lo. Dostoiévski, para mim, é o único que foi até as origens dos atos; vê-se muito bem porque suas personagens fizeram isto ou aquilo, mas não se vê de imediato. Minha atitude não tem nada a ver com a psicanálise, nada, pois ela quer curar; não é isso que é interessante. É o demônio que habita os seres que importa —mas como captá-lo?

Pergunta РE como o sr. l̻ a poesia? Partindo desse tipo de premissas?

Cioran – Certamente. Por que um tipo é bom poeta e outro não? Quando o outro é mais sutil? Por que sua poesia não resiste? Porque o que faz a origem dos atos, o que é profundo, não passa; é brilhante, é notável, é poético, mas é só isso. Por que será que outro que tem menos talento é maior poeta? Por que será que um tipo é um gênio, quer dizer, mais que um talento? Porque conseguiu transpor alguma coisa que nos escapa, e que escapa a ele próprio.
Portanto é um fenômeno misterioso. Nos dias de hoje, há muita gente que escreve aforismos, isso se tornou uma espécie de moda na França. Se você lê, não é tão ruim assim, mas é algo que se esgota em fórmulas, que não tem prolongamento. Não há nada a fazer, é uma confissão sem segredos. É algo que não esconde nada, embora tudo seja bem formulado, tudo tenha um sentido, não tem futuro nenhum. O que constitui o segredo de um ser, é o que não se sabe. E é esse também o interesse da vida, do comércio entre os seres. Se não for assim, acaba-se num diálogo de fantoches.

Pergunta РMas isso fica mais complicado no seu caso, dada a sua lucidez. Como escrever, como dizer alguma coisa para ṇo diz̻-lo?

Cioran – Sempre dizemos só uma parte do que queremos dizer. É o tom que é muito importante. Temos um tom, não somente como músicos, mas em geral, em tudo o que fazemos. Muito frequentemente, há uma falta de tom, ou não há tom nenhum. E isso, na verdade, é muito misterioso, pois não podemos defini-lo, só podemos senti-lo. Você abre um livro, por exemplo, e lê uma página que é notável, por que ela não lhe diz nada? Não que seja nula, mas não se sentem os prolongamentos.
Não sabemos de onde emana esse tom tão misterioso; temos aí uma espécie de irrealidade, em tudo o que é literatura. É o que se chama falta de necessidade —mas por que essa falta de necessidade? No comércio cotidiano com os seres, é a mesma coisa. Você encontra alguém que não vê há muito tempo, fala durante horas, mas é o nada. Você encontra outra pessoa e volta para casa transtornado. É essa a verdadeira originalidade dos seres —o que eles escondem e passa apesar de tudo o que dizem.

Pergunta – É como a música?

Cioran – É absolutamente como a música. E, para mim, as pessoas que dizem:  Para mim a música não significa nada —considero que está liquidado, não preciso prosseguir, é algo de extremamente grave porque a música toca justamente naquilo que é o mais íntimo em cada um. Com quem não sente a música não tenho ponto nenhum em comum, é de uma gravidade inominável e uma espécie de maldição de que o tipo não tem consciência.

Pergunta – Falando em música, é preciso pensar imediatamente em Bach, que o sr. já evocou…

Cioran – Bach é um deus para mim. Acho inconcebível pensar que há pessoas que não compreendem Bach, e no entanto isso existe. Acho que a música é verdadeiramente a única arte capaz de criar uma cumplicidade profunda entre dois seres. Não é a poesia, é só a música.
Alguém que não é sensível à música sofre de uma enfermidade enorme. Acho inconcebível que alguém possa não ser sensível a Schumann ou a Bach, embora admita muito bem que alguém possa afirmar que não aprecia a poesia. Mas no caso da música é outra coisa, é algo de muito grave.

Pergunta РQuando o sr. ouve m̼sica?

Cioran – O tempo todo, principalmente agora que não escrevo mais. Eu parei de escrever, considero que não vale a pena continuar, mas essa secura é preenchida pela música. A vida sem a música é, na verdade, um absurdo para mim. Não precisamos escrever, uma vez que não é possível transcrever com palavras o que é de ordem musical. Nada do que faz sentido em música passa via escritura. Por que escrever nessas condições?
E, de todo modo, porque escrever de maneira geral? Por que multiplicar os livros, porque querer a qualquer preço ser escritor? Todo mundo escreve demais —é esse o drama faz muito tempo, essa superprodução inútil e absurda, principalmente em Paris. E por quê? Mesmo eu, pensei que não fosse escrever ou que fosse escrever muito pouco, mas acabamos entrando no jogo.
Agora, compreendi que não queria mais continuar com essa comédia. Antes, não era uma comédia, por que o fato de escrever correspondia, apesar de tudo, a uma espécie de necessidade, era uma maneira de me desembaraçar de mim mesmo. É preciso dizer que exprimir-se é a melhor maneira de simplificar tudo. Basta escrever alguma coisa e ela perde imediatamente o mistério, está perdido; você mata a coisa e você mesmo. Isso preencheu uma função para mim; agora não preenche mais.
Notei que as pessoas que não escrevem têm mais recursos do que as que se exprimem, porque elas guardam tudo nelas. Mas escrever é expulsar de si tudo o que havia de importante. Portanto, quem escreve é alguém que se esvazia. E, ao cabo de uma vida, é o nada. É por isso que os escritores são tão pouco interessantes. Eu penso isso seriamente, eles se esvaziaram de si mesmos, são fantoches. São seres muito brilhantes, que não têm mais ser.

Pergunta – O sr. tomou a decisão, ao chegar na França, de não trabalhar nesse país também?

Cioran – Tomei, foi de maneira ultralúcida que compreendi que é preciso aceitar qualquer humilhação ou sofrimento para não exercer um ofício, fazer coisas de que não se gosta e de que não se pode gostar, exercer um trabalho impessoal. Eu só teria aceito um trabalho físico. Só teria aceito varrer as ruas, qualquer coisa, mas escrever, ser jornalista, não! Eu tinha que fazer tudo para  não ganhar a vida.
Para ser livre é preciso suportar qualquer humilhação e era quase o programa da minha vida, esse. Eu tinha organizado muito bem minha vida em Paris, mas as coisas não funcionaram como o previsto. Eu estive matriculado na Sorbonne até a idade de 40 anos, comia na universidade como estudante. Infelizmente, quando eu fiz 40 anos, me convocaram para me dizer:  Sr., agora chega, há um limite de idade, ele é de 27 anos. De repente, todos os meus projetos de liberdade foram por água abaixo.
Eu me lembro que morava num hotel bem perto daqui, numa velha mansarda de que gostava muito, e que falei para mim mesmo: agora a situação ficou muito grave. Até ali, o problema tinha sido resolvido automaticamente: tudo de que precisava era de uma matrícula na Sorbonne para comer por quase nada nas residências universitárias. O que fazer? Não tinha meios para comer nos restaurantes nem para levar uma vida normal.
Isso não foi um marco na minha vida mas foi uma extraordinária preocupação. Agora, como eu estava disposto a aceitar tudo menos fazer o que não queria, isso complicava demais a minha vida. Felizmente ainda tinha o quarto no hotel, que pagava por mês e que não custava quase nada. Eu adorava, de verdade, essa velha e deliciosa mansarda, aqui pertinho, na rua Monsieur le Prince. E, de uma hora para a outra, vi que estavam pondo para fora todos os mensalistas, menos eu.
Eu conhecia o gerente e ele não ousou, mas eu pensei: uma hora dessas vai acontecer, é preciso de qualquer modo encontrar outra coisa. Foi em 1960, eu tinha publicado “História e Utopia” e conhecia uma senhora que trabalhava com apartamentos. Mandei-lhe meu livro, ela prometeu me ajudar e, três dias depois, consegui este apartamento por um preço decididamente insignificante, é um aluguel antigo. Eles não podem aumentar o aluguel e eu, que tenho horror da velhice, tiro um certo proveito disso, mesmo achando que não é muito justo com o proprietário.
Foi assim que consegui resolver o meu problema e tudo isso foi necessário para viver sem exercer uma profissão. Mas tudo isso acabou, os moços, hoje, não têm mais essa possibilidade. Tem moços que vêm me visitar e que me dizem que gostariam de viver como eu. Mas é tarde demais. Tudo isso desapareceu, está acabado agora.

Pergunta – Mas o sr. continuou a trabalhar, a escrever ainda assim, o sr. publica bastante na  Nouvelle Revue Française.

Cioran – É verdade. Não se pode viver totalmente no paraíso —quer dizer, na parasitagem. Eu compreendi que era preciso escrever e isso certamente correspondia a uma necessidade. Assim, publiquei meu primeiro livro em francês,  Précis de Décomposition (Breviário de Decomposição).
Depois disso, tinha algumas vagas intenções e já me perguntava na época por que multiplicar livros. Por quê? De todo modo, das pessoas só restam algumas frases, não é? Mas é preciso dizer ainda que os dias são longos demais, e depois havia certamente também uma forma de vitalidade em jogo, uma necessidade de manifestação. Fui totalmente desconhecido por 30 anos, meus livros não tinham a menor saída. Eu aceitei muito bem essa condição e ela correspondia também à minha visão das coisas, até o momento em que vieram os livros de bolso. Acho que essa é a única maneira de tocar de verdade os leitores que se interessam por você.
E depois é o mecanismo de toda carreira literária; mas os únicos anos importantes são os de anonimato. Ser desconhecido é uma volúpia; tem lados amargos às vezes, mas é um estado extraordinário. Durante anos, fui apresentado nos salões —porque teve um tempo em que gostava de beber uísque e, como não podia comprar, ia às recepções— como o amigo de Ionesco e de Beckett. Aceitava muito bem essa condição. Por que não? Por que ser conhecido?

Pergunta РPor que resolveu de repente escrever em franc̻s?

Cioran – Eu tinha tomado a decisão de não voltar mais para a Romênia. Para mim, estava acabado, tudo isso, na verdade, me parecia fazer parte do passado, no sentido absoluto do termo. Eu estava num lugar perto de Dieppe, no litoral, em 1936, e tentava traduzir Mallarmé para o romeno. E, de repente, disse para mim mesmo:  Não tenho o menor dom para isso, e foi subitamente que tomei a decisão de escrever em francês.
Até então, curiosamente, eu tinha negligenciado o francês, enquanto que estudava bastante o inglês, cheguei até a seguir o curso para a  agrégation na Sorbonne. A decisão de escrever em francês —decisão tomada num minuto— revelou-se muito mais difícil de realizar do que eu pensava. Foi realmente um suplício. Escrevi quatro vezes meu primeiro livro, o que me deu até enjôo de escrever. Depois de escrever o  Breviário de Decomposição, me dizia portanto que não valia a pena continuar a me atormentar. Publiquei os  Silogismos da Amargura por cansaço. Não vale a pena fazer frases etc.
Depois, o processo continuou, apesar de tudo, e é preciso dizer também que Jean Paulhan me pedia o tempo todo para colaborar na  Nouvelle Revue Française. Eu prometia, para depois me arrepender, depois queria cumprir minha promessa e foi assim que entrei numa espécie de engrenagem. Aceitava perfeitamente ficar na periferia.
Era totalmente desconhecido, mas isso não tem nada de desagradável, no fim das contas. São esses os anos de vida de um escritor, o escritor sem leitor —que conhece algumas pessoas e mais nada; isso tem lados desagradáveis no plano prático, mas é a época da verdadeira escritura, porque você tem a impressão de escrever para você mesmo.

Pergunta – Houve também uma motivação política que o levou a se desligar do romeno, da Romênia?

Cioran – O que é que eu vou fazer com o meu romeno em Paris? Eu tinha rompido com a Romênia: ela não existia mais para mim. Eu tinha prometido, na Romênia, que faria uma tese —coisa que nunca fiz. De todo modo, a Romênia para mim só representava o passado. Então para que escrever em romeno? E para quem?
E depois, o que eu escrevia nunca teria sido aceito pelo regime. Hoje eles aceitam os meus escritos e publicam o tempo todo meus artigos nas revistas.

Pergunta – É verdade que o sr. foi aberta e fanaticamente antidemocrata no fim dos anos 40?

Cioran – Sabe, a democracia na Romênia não era uma verdadeira democracia. Eu era antidemocrata porque a democracia não sabia se defender. Ataquei a democracia por causa da sua debilidade. Era um regime que não tinha instinto de conservação. E eu ataquei alguém por quem tinha a maior estima, Juliu Maniu, o chefe dos democratas romanos. Escrevi um artigo em que dizia que Maniu, que é o maior democrata do mundo, devia ter sido chefe de partido na Suécia, no país dos nórdicos. Mas não num país como a Romênia.
A democracia tem que se defender com todos os métodos e dar provas de vitalidade. Mas Maniu só lutava com conceitos puros e esses conceitos não têm nenhuma chance nos Balcãs. A democracia foi realmente deficiente na Romênia, não esteve à altura da situação histórica. Não se pode seguir gente assim, é a utopia encarnada nos Balcãs, não é possível. Houve democracia na Romênia, o partido liberal de Maniu, mas nas situações difíceis esse tipo de partido não aguenta, eles foram completamente ultrapassados pela história.

Pergunta – E a democracia ocidental?

Cioran – Há um certo automatismo no Ocidente, seja como for, porque a democracia nasceu aqui, ela pode sobreviver a si mesma. Mas pode desmoronar, nunca se sabe. O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos graves eles estão perdidos! Já se viu isso. A carreira de Hitler é o resultado da fraqueza democrática. A sua história é muito simples.

Pergunta – Qual é a ponte no seu pensamento entre o indivíduo e a história?

Cioran – Ela se fixa muito mal, pelo mal-estar. Não há ponte e o mal-estar se torna a solução. Temos que ser lúcidos como indivíduos sabendo, ao mesmo tempo, que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida só é suportável se não formos às últimas consequências.

Pergunta – Isso é o pensamento indiano que penetrou, para dizer assim, a sua obra? É o sr., de que o sr. fala sempre? Isso marca uma renúncia com relação à lucidez e à nostalgia de uma filosofia adormecida?

Cioran – Eu estou além disso também, mas o budismo desempenhou, realmente, há uns dez anos, um papel muito importante para mim. Eu sempre fui um pouco budista, se é possível ser um pouco. Para lhe dizer a verdade: se tivesse escolha, se pudesse optar por uma religião entre todas, seria budista. Deixando de lado alguns pontos, o budismo me parece aceitável e até confortável.

Pergunta – Mas é possível escolher lucidamente uma religião?

Cioran – É por afinidade secreta, apesar de tudo, que essa escolha é feita; há pontos muito precisos como a visão do sofrimento, que eu aceito; mas a transmigração ou outros aspectos do budismo, como aceitá-los?
É preciso pertencer a uma tradição para poder subscrever esse tipo de coisa, é preciso partilhar de um certo tipo de pensamento, de concepção do mundo. Como acreditar na metempsicose, nas etapas da vida, por exemplo? Os dogmas não são aceitáveis, mas o espírito é, perfeitamente. Tudo o que o budismo constata sobre o sofrimento, sobre a morte etc., é aceitável, o lado negativo. E foi esse lado que levou Buda a deixar o mundo.
E depois disso, é a religião que demanda menos fé. O cristianismo e o judaísmo exigem coisas muito precisas e se você se recusa a acreditar nelas está perdido, acabou; o budismo não, aceita compromissos. As razões que levaram Buda a deixar o mundo, podemos aceitá-las sem dificuldade, com a condição de ter a coragem de ir às últimas consequências. O budismo não lhe pede nenhum voto, nenhum reconhecimento, e é por isso que ele está a ponto de ultrapassar o cristianismo.

Pergunta – O sr. ainda passeia muito?

Cioran – Sim, claro.

Pergunta РE vai sempre aos cemit̩rios?

Cioran – Não só aos cemitérios. Eu tenho, é verdade, um fraco por cemitérios; mas hoje em dia os cemitérios não são mais bonitos, estão sobrecarregados. Quando vejo amigos, mas também desconhecidos passarem por momentos de abatimento, de desespero, só tenho um conselho a dar:  Passe 20 minutos num cemitério, vai ver que a sua tristeza não vai desaparecer, mas vai ser quase superada.
Outro dia, encontrei uma moça que eu conheço, desesperada por causa de um problema amoroso, e lhe disse:  Você não está muito longe de Montparnasse, vá lá, passe por ali meia hora, vai ver que a sua tristeza lhe parecer tolerável.
É muito melhor do que ir no médico. Um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática. Eu mesmo sempre pratiquei esse tipo de método; não parece muito sério, mas é relativamente eficaz. O que é que você vai dizer a alguém que está num desespero profundo? Nada ou mais ou menos nada. A única maneira de suportar realmente esse tipo de vazio é ter consciência do nada. Sem isso, a vida não é suportável.
Se você tem consciência do nada, tudo o que lhe acontece é de proporção normal e não assume as proporções dementes que caracterizam o exagero do desespero.

Pergunta – E uma espécie de solução catártica que o sr. está recomendando?

Cioran – Certamente. Precisamos ver o que somos. Eu conheci, por exemplo, muitos jovens escritores que queriam se suicidar por não ter sucesso, o que eu compreendo, a rigor. Mas é muito difícil acalmar alguém que chegou nesse ponto. O que é terrível na vida é o fracasso, e isso acontece com todo mundo…
Pergunta – Mas se tira alguma coisa do fracasso? Quando se sobrevive… Cioran – – É uma lição extraordinária; mas tem muita gente que não a suporta, e isso em todos os níveis, empregados e gente  importante. No fim das contas, a experiência da vida é o fracasso.
São principalmente os ambiciosos, os que fazem um plano de vida que ficam tocados, os que pensam no futuro. É por isso que eu mando as pessoas para o cemitério. É a única maneira de minimizar uma situação trágica.

Pergunta РO sr. disse que agora ṇo escreve mais. Acha que isso vai durar?

Cioran – Eu não sei de nada, mas é muito possível que não escreva mais. Tenho horror de ver todos esses livros que saem… esses autores que publicam pelo menos um livro por ano… é doentio. Eu acho que não se deve escrever mais, que é preciso saber renunciar.
Hoje isso já não me diverte mais, num certo sentido. É preciso um mínimo de entusiasmo, é preciso que haja uma expectativa. E depois eu me digo que já chega de imprecar contra o mundo e contra Deus, não vale a pena…

Pergunta – Mas, em pensamento, o sr. continua a imprecar?

Cioran – Forçosamente. Há uma espécie de resignação que é o fruto da idade e o cansaço é agora um estado muito real que é preciso levar em conta. Podemos sempre escrever e dizer tudo, mas se esse ato não corresponde mais a uma necessidade interior, não passa de literatura.
E isso é o que eu não quero, talvez porque sempre acreditei —é o meu lado ingênuo— no que escrevia. Isso não é bom, vai mesmo contra a minha visão das coisas, mas tanto pior! É evidente que, se temos consciência do nada, é absurdo escrever um livro, é até ridículo. Por que escrever e para quem? Mas há necessidades interiores que escapam a essa visão, elas são de outra natureza, mais íntimas e mais misteriosas, irracionais; levada ao extremo, a consciência do nada não é compatível com coisa nenhuma, com gesto algum; a idéia de fidelidade, de autenticidade etc, tudo desaparece.
Mas, ainda assim, existe essa vitalidade misteriosa que o leva a fazer alguma coisa. E talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos coisas às quais aderimos sem acreditar —é, é mais ou menos isso…

Tradução de LEDA TENÓRIO DA MOTA

Esta entrevista com Cioran foi publicada pela primeira vez no livro de Michael Jakob “Aussichten des Denkens” (editora Wilhelm Fink Verlag, de Munique), no ano passado, quando também apareceu pela primeira vez em francês, na revista “Magazine Littéraire”. Ela será publicada este ano pela editora francesa Gallimard em um volume de entrevistas com o filósofo.

Dossiê Cioran na Magazine Littéraire (maio de 2011)

“Cioran – desespero, instruções de uso”
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A francesa Magazine Littéraire dedicou o seu mensário de maio de 2011 para homenagear Emil Cioran (1911-1995) no ano de centenário do seu nascimento. O dossiê, organizado por Maxime Rovere e intitulado Cioran – désespoir, mode d’emploi (“Cioran – desespero, instruções de uso”), apresenta diversos artigos sobre o filósofo romeno radicado na França. Entre os autores relacionados, estão Patrice Bollon (Cioran, l’heretique, 1997), Peter Sloterdijk, Nicolas Cavaillès (Cioran, le corrupteur corrompu, 2005), Simona Modreanu (Le Dieu Paradoxal de Cioran, 2003), entre muitos outros. Trata-se, aliás, do segundo dossiê produzido pela Magazine Littéraire sobre Cioran; o primeiro deles saiu em dezembro de 1994, com o título: Cioran, aristocrate du doute (“Cioran, aristocrata da dúvida”). Abaixo, o texto introdutório do dossiê, escrito pelo seu organizador, Maxime Rovere.

Cioran, cent ans de finitude (“Cioran, cem anos de finitude”)

por Maxime Rovere

Enquanto os vendedores de felicidade invadem as livrarias, a obra de Cioran, nascido faz agora um século, confunde-nos e revela-se uma excepção: ensina-nos que o desespero, a angústia e a desordem valem bem mais do que a insaciável e aborrecida demanda da felicidade. O século XX mostrou-o bem: entre a inocência e o totalitarismo, entre o fanatismo e a atitude angélica, os entusiasmos de todos os tipos fizeram os humanos correr os maiores riscos logo que estes se convenceram de terem soluções e procuram impor normas de comportamento. A fim de nos precaver, Cio­ran passou a vida a explorar, com a minúcia de um geómetra, as zonas de sombra e as fendas: é aí que se encontram, mais modestas, mais humanas, mas não sem capacidade para fugir, para voar, aquilo a que chama «as ideias negras». Marcado pelos horrores e pelas errâncias do seu século, aos quais por um curto tempo aderiu num impulso que considerou o seu «pecado de juventude», Cioran tornou-se assim uma espécie de explorador às avessas: invertendo o caminho inventado por Platão, incarna a figura de um pensador conscientemente regressado à caverna, cuja voz, por vezes mordaz, outras vezes exaltante, nos chega das profundezas.

Por este motivo, ele é o primeiro e o único dentro do seu género. De fato, como já Susan Sontag e Peter Sloterdijk recordaram, a sua escrita está para além de uma certa maneira de filosofar: não se trata de articular ideias num sistema, nem de produzir conceitos. Pensar, para Cioran, significa antes definir uma certa posição (uma atitude, se quisermos) que testemunha menos a afirmação de um espírito do que as contradições de um ser singular diante da existência. É aqui que ele se reconcilia, de uma só vez, com uma tradição antiga da qual é, em determinado sentido, o derradeiro representante. Que o pensamento se torne principalmente prático, estilo de vida, projectado para além da ondulante fronteira colocada entre o público e o privado, esse foi um caminho percorrido desde Sócrates até Plotino que se esgotara no final da Antiguidade. Até mesmo na escolha da pobreza, na forma como procurou conservar-se à margem de qualquer profissão (mesmo a de escritor), encontramos em Cioran uma imagem moderna de Diógenes, reconhecível mas «adaptada», como nos filmes, à época contemporânea. A velha pipa abandonada na rua pode transformar-se numa bela mansarda.

No entanto, os Antigos procuravam a perfeição humana, o que Cioran jamais deseja: constrangido pela História, mostrou sempre sede de tudo, salvo de absoluto. Com mais confiança nos problemas do que na sua resolução, fez da escrita um outro terreno das suas experiências – o espelho no qual foi possível contemplar, corrigir e confirmar, por assim dizer, os contornos da sua atitude perante a vida. Na precisão do seu léxico, no timbre da sua sintaxe, na originalidade das suas «boas palavras», podemos erradamente encontrar um fascínio pelo «estilo», mas a verdade é que Cioran atravessou a época de todos os formalismos sem jamais renunciar a inscrever a literatura numa realidade existencial. Entre a escrita e a existência, porém, o decalque não é imediato: os livros de Cioran fornecem os meios de apreender a força das palavras de uma maneira nova, como um jogo que contém ao mesmo tempo o exercício mental e a experiência verbal. O suicídio, por exemplo, é nele, simultaneamente, um motivo literário e uma hipótese que ajuda a viver. Longe de indiciar um temperamento mórbido, esta escrita aponta para uma certa forma de verdade no interior da qual, tal como Nietzsche já tinha previsto, compete a cada um definir a sua própria medida.

Sumário de artigos do dossiê:

Le labyrinthe et le palais, por Patrice Bollon
Chronologie, por Maxime Rovere
– «Fanatique jusqu’au ridicule», por Vincent Piednoir
Le prieur de la Sainte Folle Témérité, por Peter Sloterdijk
Le penseur de l’ombre, por Ingrid Astier
À quoi bon lire ?, por Nicolas Cavaillès
Triste avec méthode, por Constantin Zaharia
– «Disciple des saints», por Simona Modreanu
Les montagnes magiques, por Eugène Van Itterbeek
РLa passion des pr̩jug̩s, por Ger Groot
Les mots doux : Cioran épistolier, por Vincent Piednoir
– Texte inédit de Cioran: “Progrès de l’ironie”
– Texte inédit de Cioran: “Le sentiment que tout va mal”
L’énergie du désespoir, por Ingrid Astier
L’apostat du verbe, por Aurélien Demars
L’histrion contrarié, por Virgil Tanase
Cahiers à spirale, por Sylvia Massias
En voie de recomposition, por Pierre Assouline
Bibliographie sélective, por Patrice Bollon

Festa para o pessimista (O Globo, 25/06/11)

O jornal O Globo de 25/06/2011 traz o seu caderno Prosa & Verso dedicado a Cioran, que aparece estampado na capa com o título: “Festa para o pessimista”. O jornalista Bolívar Torres escreve sobre as homenagens preparadas na França para o centenário de nascimento de Emil Cioran. Uma exposição, livros de ensaios, um volume de correspondências trocadas com o poeta Armel Guerne e uma inédita continuação de “Breviário dos Vencidos” festejam o filósofo romeno, conta Bolívar, que entrevista ainda o pesquisador Vincent Piednoir, tradutor de Cioran.
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Festa para o pessimista Cioran

Por  Bolívar Torres – Especial para O GLOBO, de Paris (25/06/2011) link

Ele ficou conhecido como “antiprofeta”, “dândi metafísico”, “aristocrata dos vândalos”… Pobre e discreto, fazia questão de permanecer longe dos holofotes, recusando todos os prêmios e honras que insistiam em lhe atribuir. Dezesseis anos depois de sua morte, porém, a obra do ensaísta francês de origem romena Emil Cioran saiu definitivamente do porão. No ano do seu centenário, o mais low-profile dos autores malditos volta a fazer barulho na França, com direito a exposição, livros de ensaios, um volume de correspondência com o poeta Armel Guerne, além de uma inédita continuação de seu clássico “Breviário dos vencidos”. Por mais contraditório que possa parecer, chegou a hora de celebrar com todo alarde o nascimento do autor de… “Do inconveniente de ter nascido”.

— É preciso celebrar tudo que se recusa a ser celebrado — defende o jornalista e editor Stéphane Barsacq, autor de “Cioran. Éjaculations mystiques” (“Cioran. Ejaculações místicas”, Seuil) recém-lançado livro de ensaios sobre o autor. — Celebrar Cioran é, de fato, bastante curioso. Mas, se por ocasião do centenário, leitores ingênuos descobrirem a obra de um escritor tão valoroso em tornar o mundo menos inocente, já será uma vitória. Basta um único leitor. Talvez a Humanidade perca o seu futuro carrasco.

Já faz alguns anos que Cioran vem saindo do relativo esquecimento em que se metera. O centenário confirmou a nova popularidade de sua obra, que no Brasil começou a ser reeditada há pouco pela Rocco — ainda esse ano a editora lançará “Do inconveniente de ter nascido” e “O livro dos logros”, ainda inéditos no Brasil. Em março, a prefeitura do 6 arrondissement, bairro em que o autor se sentia particularmente à vontade, dedicou-lhe a exposição “Juventude crepuscular”, repleta de arquivos, cartas e fotografias pessoais. O Salão do Livro de 2011 também se rendeu ao filósofo com a grande exposição “Pessimismo jubilatório”.

Cioran via biografias como uma ameaça (“É incrível como a perspectiva de uma biografia nunca tenha provocado alguém a renunciar à sua vida”, disse certa vez), e esforçava-se em esconder diversos aspectos de sua intimidade. Mesmo assim, pululam publicações em torno de seu nome. Em “Ejaculações místicas”, Stéphane Barsacq resgata a juventude do autor na Romênia e suas relações conflituosas com a religião. Já o ensaio “Cioran malgré lui” (“Cioran apesar de si mesmo”), de Nicolas Cavaillès, disseca os paradoxos do escritor a partir de um de seus livros mais marcantes, “Breviário da decomposição”. O mesmo Cavaillès, aliás, coordenou este ano a transferência de suas obras para a prestigiosa coleção da Pléiade — para muitos, a honraria máxima concedida a um autor de língua francesa.

— Biografias de Cioran são capitais — afirma Barsacq. — Ele diz tudo em seus livros, mas de maneira alusiva. Conhecer sua vida, contudo, não rebaixa sua obra. Pelo contrário! É um homem que falava das coisas que conhecia. Acredito que sua vontade em destruir ilusões tem uma relação com sua própria biografia. Foram suas próprias ilusões que ele quis reduzir a pó.

O renascimento de Cioran não acontece por acaso. Distanciando-se de qualquer ideal revelador, o autor de “História e utopia” temia a fúria das indignações, aquilo que chamava de “pausa mental da Humanidade”. Seu pensamento é externo à ação, defende a sabedoria da ociosidade, uma greve permanente da vida. Fruto da desilusão do pós-guerra, o distanciamento apaixonado e descrente tem tudo para seduzir a geração do “meu partido é o coração partido”, do mundo pós-muro de Berlim e da falência das ideologias.

— A obra de Cioran é universal, e continua atualíssima — avalia Laurence Tacou, editora da L’herne, que dedicou recentemente seus famosos “Cahiers” ao romeno. — A falta de perspectiva das gerações atuais e suas descrenças na política, sem dúvida ajudaram a popularizá-la. As pessoas não querem mais acreditar em políticos. Preferem ouvir a sinceridade e a autenticidade de um escritor que escrevia com as tripas.
Há, porém, um período sombrio da vida de Cioran, que começa lentamente a ganhar luz. Antes de abraçar a língua francesa e, com ela, o niilismo, o ensaísta foi capaz de assumir posições apaixonadas — de causas bastante duvidosas, vale ressaltar. Nos anos 30, antes do exílio parisiense, simpatizou com movimentos fascistas na Romênia. “Eu sou como essas mulheres que têm um passado”, confessou certa vez.

Passado que diversas publicações inéditas podem desenterrar. Em 2009, a editora L’Herne já havia lançado dois livros nunca antes publicados na França, e que ofereciam pistas preciosas sobre a primeira fase do autor (“Transfigurations de la Roumanie”, um panfleto improvável defendendo os fascistas da Guarda de Ferro; e “De la France”, belíssimo ensaio sobre o apodrecimento da cultura francesa, que ajuda a explicar a adoção do idioma por Cioran).

Cadernos encontrados no lixo aguardam publicação

O número de inéditos pode aumentar em breve, se a justiça permitir a exploração comercial dos 37 cadernos repletos de rasuras e correções encontrados em 2005 por uma catadora de lixo. Enquanto isso, os leitores poderão se contentar com uma continuação até então desconhecida do “Breviário dos vencidos” (última obra de Cioran escrita em romeno), que acaba de sair pela editora L’Herne.

— Ainda há muitos textos romenos de Cioran que podem ser recuperados — lembra Laurence. — Há também alguns cadernos e correspondência. Espero um dia poder publicar as cartas que trocou com o irmão, e que mostram como Cioran não era apenas um moralista de língua francesa. Ele nunca renegou suas origens balcânicas. Nas cartas, falava da Romênia como se fosse um paraíso que lhe fora arrancado.

Cioran, filósofo romeno, é tema de documentário

Publicado no caderno Você do jornal Diário do Pará – Quinta-feira, 09/06/2011

Como comemorar o centenário de nascimento de um escritor que preferiu viver sempre na clandestinidade, que fez da indiferença sua trincheira? Que recusou todo tipo de títulos e honrarias, escolhendo passar necessidades a negociar suas ideias? Como comemorar aquele que fez de sua vida um ferrenho combate a qualquer tipo de adoração – adoração segundo ele responsável por todos os nossos crimes? Como homenagear sem faltar com aquele que acreditava ter a sorte de ser desconhecido, de merecer permanecer na sombra, no imperceptível, tão inapreensível e impopular quanto a nuança, que acreditava ser a consagração a pior das punições?

Tarefa difícil homenagear Emil Cioran sem renunciá-lo. Filosofo e escritor romeno, nasceu em Sibiu, Transilvânia, em 08 de abril de 1911. Até hoje é, sem dúvida, o estilo mais fértil e apurado do pensamento pessimista desde Schopenhauer e Nietzsche. Aos 17 anos ingressou na Universidade de Bucareste. De família ligada à Igreja Ortodoxa – seu pai era padre -, tornou-se um agnóstico, circulando na juventude com os futuros filósofos e escritores Eugène Ionesco, Mircea Eliade, Constantin Noica e Petre Tutea.

Cioran graduou-se com uma tese sobre Henri Bergson. Foi um leitor compulsivo de autores, desde os pré-socráticos até Borges, de Teógnis a Beckett. Um estudioso de Emmanuel Kant, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, George Simmel, Max Stiner, Ludwig Klages, Martin Heidegger e Lev Shestov.

Mas o próprio filósofo fazia a ressalva: “Não são, todavia, minhas leituras que me formaram, mas os acidentes e os encontros. Tudo o que escrevi é fruto de circunstâncias, azares, conversações, ruminações noturnas, crises de abatimento mais ou menos cotidianas, obsessões intoleráveis. Meu estado de saúde, afortunadamente mau, é, em grande parte, responsável pela direção, pela cor, dos meus pensamentos. Comecei a ser ‘eu’ graças à insônia, essa catástrofe à qual devo tudo o que marcou profundamente minha juventude. Se percebi certas coisas neste mundo, é porque tive a sorte de não poder dormir”.

Mas o sábio não se dizia um filósofo. Lembra que na juventude foi um fanático pela filosofia. “Depois, tudo que pude experimentar ou pensar não foi nada mais que uma luta contra toda forma de sistema, em qualquer domínio”. Enquanto Nietzsche se intitulava “um martelo” por sua filosofia iconoclasta, Cioran é uma britadeira destruidora de sistema. Um nômade do pensamento, um pensar migratório que muito sondou para não ficar refém de ninguém e fez da dúvida seu combustível: “O estrangeiro se tornara meu Deus. Daí esta sede de peregrinar através das literaturas e das filosofias, de devorá-las com ardor doentio”.

Em 1933 ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Berlim. Em 1937 foi morar em Paris, após ganhar uma bolsa para fazer uma tese sobre Nietzsche que nunca será acabada. Jamais retorna a seu país de origem. Seu primeiro livro, “Nos Cumes do Desespero”, publicado aos 20 anos, ainda na Romênia, foi a base de sua obra posterior. Escreveu ainda em romeno “Das Lágrimas e dos Santos”. Seu primeiro livro em francês foi o premiado “Breviário da Decomposição”, de 1947, que fez Saint-John Perse afirmar que Cioran era o maior prosador da língua francesa desde Valéry. Essa obra de 1947 só foi editada no Brasil em 1989, traduzida primorosamente por José Thomaz Brum, que também traduziu “Silogismos da Amargura”, lançada em 1991.

Cioran é veneno. Cioran é a cicuta que matou Sócrates. É todos os seus descendentes que criam na filosofia como saída. Cioran lembra cianureto, veneno letal que, se apreciado como antídoto, como remédio à propensão à crença na verdade, no poder e na adoração, sem dúvida nos propiciará uma vida menos pesada e uma morte mais tranquila.

Cioran nos deixou em 20 de junho de 1995. Em seu “Breviário da Decomposição” registrou seu epitáfio: “Teve o orgulho de jamais mandar, de não dispor de nada e de ninguém. Sem subalternos, sem amos, não deu nem recebeu ordens. Excluído do império das leis, e como se fosse anterior ao bem e ao mal, nunca fez ninguém padecer…”.

(Nonato Cardoso, editor da revista Polichinello, Especial para o Caderno Você/ Diário do Pará)

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O projeto Cinepensamento exibe o documentário “Cioran, sua vida, seu trabalho”, de Patrice Bollon e Bernard Jourdain (França, 1991). Amanhã, dia 10, às 19h, no Instituto de Artes do Pará (IAP), seguido de comentários de Edilson Pantoja (Iesam), Marcelo Azevedo e Nonato Cardoso (revista Polichinello). O IAP fica em Nazaré, ao lado da Basílica. Entrada franca.

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Duas doses de Cioran, por Marco Lucchesi

Breviário de decomposição e História e utopia, de E. M. Cioran. Tradução de José Thomaz Brum. Editora Rocco, 224 páginas e 128 páginas. Preço a definir.

Por Marco Lucchesi* – Publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo (16/04/11)

Uma noite fria no Café Kapsa em Bucareste. O escritor Marin Mincu desenha suas ideias para o centenário de nascimento de Cioran, com algumas cartas do filósofo nas mãos. Um copo de tsúica e Mincu insiste na matriz romena de Cioran e do diálogo deste com Ionescu e Eliade. Mas também Constantin Noica, das “Seis doenças do espírito contemporâneo”, Alexandru Dragomir, discípulo dileto de Heidegger, e do profundo e incontornável Lucian Blaga. Parecia fundamental atingir os fantasmas romenos que habitam as ruínas de Cioran, cuja obra está ganhando reedição, com dois títulos chegando às livrarias na próxima semana: “Breviário de decomposição” e “História e utopia”.

Nascido em abril de 1911 em Rasinari, no sul da Transilvânia, Cioran alcança uma sólida formação literária e filosófica em Bucareste e na Alemanha. Segue depois para a França, em cuja língua passa a escrever desde então (esse idioma emprestado, com suas palavras sutis, carregadas de fadiga e pudor) deixando atrás de si uma importante bibliografia em língua romena.

Não se enganava Marin Mincu: há em Cioran um cerrado confronto metafísico na esfera do trágico, em seu diálogo com Eliade e Botta, uma espessa dialética vizinha ao pensamento de Blaga. E certamente Nietzsche, Schopenhauer, Dostoievski. A educação filosófica de Cioran, além de longitudinal, revela-se altamente articulada. Cosmopolita e de raiz. No fim da vida, reconhece uma herança de fundo gnóstico e de velha cepa, que remonta à cultura dos Balcãs: “por mais que desejasse libertar-me de minhas origens não consegui. Ninguém alcança libertar-se de si mesmo.”

Na história das formas breves, que dominaram o século XX, Cioran ocupa lugar de destaque. Disse de si mesmo que era um homem do aforismo. Seus fragmentos — como os cristais das “Banalidades”, de Dragomir, ou os grumos do “Tractatus”, de Wittgenstein — respiram uma condensada história da filosofia. Não passam de esplêndidas ruínas, náufragas de sua perdida glória — arrancadas de extensas passagens reflexivas, mediante o martelo filosófico de Nietzsche: ruínas sempre, cheias de um brilho feroz, varadas pela sinergia das coisas incompletas e, por causa disso, fortemente potenciais.

Cioran não espera o socorro de um horizonte conceitual devastado, através de uma possível solução totalizadora, nem clama por um anjo capaz de preencher lacunas, ou de soprar, com sua trompa dourada, a melodia de um todo esquecido. Ao contrário, o filósofo ilumina a tensão de um pensamento propositadamente aerado ou disperso e advoga, como ninguém, a volúpia do insolúvel: “nunca tentei aplainar, reunir ou conciliar o irreconciliável”. Uma poderosa nuvem de fragmentos, portadora de uma tensão efervescente, jamais um sistema pronto e acabado. Daí sua inclinação pelas cartas de Nietzsche, onde brilha um discurso impreciso e tateante, fora do profético ou do absoluto de Zaratustra, diante de quem Cioran já não vibrava como outrora.

O programa desse não-programa surge com o ensaio “Uma forma especial de ceticismo”, quando o jovem filósofo romeno dos anos 1930 aposta no excesso da dúvida: “o valor do cético na antiguidade media-se a partir da tranquilidade da alma. Porque não deveríamos criar, nós, que vivemos a agonia da modernidade, um ethos trágico, onde a dúvida e o desespero se confundissem com a paixão, com a chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”.

Para alguns estudiosos, aquele paradoxo levou o filósofo a atingir as afecções e as tonalidades emotivas da alma, assumindo um lirismo mitigado e uma inquietação irreversível, isenta de paz, sob uma ótica lúcida, diante do paroxismo das coisas que nos cercam. Não havendo salvação no plano da história ou da metafísica.

Nesse vasto percurso, como em “Silogismos da amargura” ou “História e utopia”, a dimensão do devir e a reserva de esperança deixam de fazer sentido na filosofia da história, nos modelos de Hegel ou Marx, para não falar das teologias da história, igualmente anódinas e ilusórias. “Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que atribuem um sentido à história”. Cioran foge das grandes $ínteses em que o sujeito se afoga nos mares perigosos da abstração.

Nada se pode esperar. Nada se pode oferecer aos altares vazios da história e da utopia. Acabou o tempo em que os faraós inscreviam seu nome nas rochas do tempo. Para Cioran os ciganos são o verdadeiro povo eleito: “triunfaram do mundo por sua vontade de não fundar nada nele.”

Aqui está todo um sentimento. Mais que um programa ou sistema. Cioran vive. Porque não reúne ou aplaina. Não organiza ou completa. Dissolve. Apenas dissolve. E não corre poucos riscos aquele que dissolve. Como quando afirma que “as únicas utopias legíveis são as falsas, as que escritas por jogo, diversão ou misantropia, prefiguram ou evocam as ‘Viagens de Gulliver’, bíblia do homem desenganado, quintessência de visões não quiméricas, utopia sem esperança. Através de seus sarcasmos, Swift varreu a estupidez de um gênero até quase anulá-lo”. O que nos resta fazer, afinal, senão dissolver a tessitura da utopia, desfibrar-lhe os pontos de sua trama, purificá-la dos últimos resíduos de moralina? A utopia e o Apocalipse formam como que a dupla face dos tempos que correm. Ambos se contaminam mutuamente, criando, assim, um modo novo e terrível, capaz de bem traduzir o nosso inferno, ao qual havemos de responder com um sim, correto e desprovido de ilusão. Irrepreensíveis diante da fatalidade.

Cabe ressaltar ainda a boa tradução de José Thomaz Brum do pensamento de Cioran, com quem se correspondia em 1991, quando lhe publicou o primeiro livro no Brasil — “Silogismos da amargura” — alterando inclusive trechos do original, a pedido do próprio autor. Dentre outros estudos de Brum, sublinho “O pessimismo e suas vontades: Schopenhauer e Nietzsche” — tese de doutorado defendida em Nice e orientada por Clément Rosset. O que nos diz da forte ligação do tradutor com a sagrada família a que de algum modo pertence, sem de todo pertencer, o inclassificável Cioran.

Tiro de “Breviário de decomposição” o seguinte fragmento: “Uma caverna infinitesimal boceja em cada célula… meu sangue se desintegra quando os brotos se abrem, quando o pássaro floresce. Invejo os loucos sem remédio, os invernos do urso, a secura do sábio, trocaria por seu torpor minha agitação de assassino difuso que sonha crimes além do sangue.”

Um assassino difuso para conter a febre das utopias e o delírio da história. Eis a tarefa de Cioran, que não hesitaria subscrever o poema “Autorretrato”, do romeno Nichita Stanescu sobre o precário da humana condição: “Sou apenas uma mancha de sangue que fala”.

*MARCO LUCCHESI é poeta e ensaísta, autor de “O dom do crime”, entre outros

O Drácula do ceticismo

Sérgio Augusto para O Estado de S.Paulo, 09 de abril de 2011

Misantropos e descrentes do mundo inteiro!, aproximem-se para celebrarmos juntos, com um dia de atraso, o centenário de Emil Cioran, o último agente provocador da filosofia, o mais desconcertante e divertido dos céticos, o mais fulgurante militante do pessimismo, o mais implacável profeta do niilismo, o mais desencantado e provocativo dos moralistas, o mais rigoroso, elegante e lacônico ironista do seu tempo. Se necessitam de provas, aqui lhes ofereço quase vinte:

Os homens vivem e morrem enganados.

A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

O espermatozoide é o bandido em estado puro.

Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo.

Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.

Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por um momento, a marcha da humanidade, será seu salvador.

Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.

Não é Deus, mas a Dor, quem desfruta das vantagens da ubiquidade.

Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, não envelhecerão jamais.

Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.

Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

Ao contrário dos outros séculos, que praticaram a tortura com negligência, este, mais exigente, introduz nela um desejo de purismo que honra a nossa crueldade.

A história se reduz a uma classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do gendarme que os homens criaram através dos tempos?

Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma religião.

Por não haver sabido celebrar o aborto ou legalizar o canibalismo, as sociedades modernas deverão resolver seus problemas através de procedimentos muito mais expeditivos.

Seis meses atrás, ao resenhar duas novas traduções e um ensaio sobre o filósofo romeno na New York Review of Books, Charles Simic perguntou-se: “Quem ainda lê E.M. Cioran hoje em dia?” Quase certamente não o leem com a mesma intensidade de 30 anos atrás, razão primeira da presente escassez de traduções brasileiras nas livrarias, quase todas com a chancela da Rocco e curadoria do prof. José Thomaz Brum (felizmente, a editora começa a relançá-los e ainda publicará um inédito, Do Inconveniente de Ter Nascido), mas não vai longe o tempo em que a sabedoria dark de Cioran deitava sua sombra (ou sua luz) no cinema de autores tão díspares como Woody Allen, Abbas Kiarostami, Rosemberg Cariry, e excitava o espírito de intelectuais tão inquietos como Milan Kundera, Fernando Savater e Ernesto Sabato, que do filósofo se tornaram amigos.

Aos olhos deste ignorante que vos fala, até a publicação daquelas reflexões sobre Cioran de Susan Sontag, em 1968, a cultura da Romênia se resumia a quatro referências apenas: Conde Drácula, Ionesco, Mircea Eliade e Paul Celan. Nem sequer de nome conhecia Camil Petrescu, tido como “o Proust romeno”, e só descobriria os filósofos Nae Ionescu (um naziexistencialista romeno) e Constantin Noica através de Cioran, não exatamente de sua obra, mas das leituras paralelas a que fui levado após me tornar um assíduo frequentador daquele que foi o mais distinto continuador, no pós-guerra, da tradição filosófica aforística, lírica e antissistemática de Lichtenberg, Kierkegaard, Nietzsche e Wittgenstein, concorde-se ou não com suas ideias, deleite-se ou não com a “ferocidade tétrica e jubilosa” do seu humorismo (as aspas são de Savater).

A Romênia não nos deu apenas o “teatro do absurdo” (via Ionesco), mas também a “filosofia do absurdo irônico”. E Cioran, ressalto, não ficou só nos epigramas.

Como Drácula, ele nasceu na Transilvânia e viveu em Bucareste até os 26 anos, quando, seguindo a rota de seus companheiros de boemia Ionesco e Eliade, foi ser dandy metafísico em Paris, “o único lugar onde ainda se torna agradável desesperar-se”, deixando para trás um passado comprometedor (foi simpatizante do nazismo), que desistiu de ocultar e abjurou publicamente, ao contrário de Eliade, que até bater as botas se fingiu de inocente com a maior cara de pau.

O Cioran que interessa e conta é o parisiense, o que passou a escrever em francês e, a partir de 1949, com Breviário de Decomposição, impôs-se como um dos pensadores mais originais, corajosos e intransigentes do século passado. Um Nietzsche com a verve de Oscar Wilde, um mestre da concisão que só tinha vontade de escrever num estado explosivo, “num estupor transformado em frenesi, num clima de ajustes de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes”. A única que levou a sério foi seu conflito com o mundo. Jamais se sentiu atraído pelo marxismo: demasiado sistemático, rígido, dogmático, otimista e alheio ao indivíduo e seus desejos e fraquezas.

Só os sortilégios soberanos da música (“o refúgio das almas feridas pela felicidade”) aproximaram a sua espiritualidade ateísta de alguma forma de enlevo religioso. Venerava Bach e Mozart, e no final da vida apascentava sua inquietude ouvindo o grupo pop espanhol Presuntos Implicados. Levou uma vida monástica, sustentado pela mulher e pelos amigos, entre os quais Henri Michaux (com quem adorava conversar sobre doenças) e Samuel Beckett (com quem costumava visitar os cemitérios de Paris). Morreu em 1995, com Alzheimer, purificadamente alheio ao mundo que tanto abominava.