“E.M Cioran: To Infinity And Beyond” (Stephen Mitchelmore)

Spike Magazine, November 1, 1997

Stephen Mitchelmore explains why the writing of E.M. Cioran refuses explanation

“Nothing is more irritating than those works which ‘co-ordinate’ the luxuriant products of a mind that has focused on just about everything except a system.”

What is there to know about Emile Cioran? He was born in Romania, in 1911, the son of a Greek Orthodox priest. In adolescence, he lost his childhood in the country and was moved to the city. He also lost his religion. For years he didn’t sleep – until he took up cycling. He passed sleepless nights wandering the dodgy streets of an obscure Romanian city. In 1937 he moved to Paris and wrote, producing what are generally classified as ‘aphorisms’, collected together under such titles as The Temptation To Exist, A Short History Of Decay and The Trouble With Being Born. He knew Samuel Beckett, who eventually lost sympathy with his pessimism. Late in life he gave up writing, not wanting to “slander the universe” anymore, and died a few years later after an encounter with an over-excited dog.
I hope none of this helps… [+]

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“Un refugiado en casa: desaparece el gran teórico del escepticismo” (Félix de Azúa)

Félix de Azúa, El País, 21 de junio de 1995

Nada de lo que he ido leyendo de Cioran me ha ilustrado tanto sobre la compleja y delicada trama de su espíritu como aquella visita, hace más de 20 años, en compañía de Fernando Savater. Fuimos a verle a su buhardilla del Barrio Latino -una chambre de bonne de un ascetismo parejo al de Dreyer, pintada de blanco hasta por el suelo y con una estufa de hierro colado en medio de la habitación, cierta tarde de febrero o marzo, ya no recuerdo, con un frío que pelaba. La estufa, que parecía una deidad primitiva y malévola en aquel refugio evidentemente santo, estaba apagada.Savater andaba por entonces traduciendo a Cioran para aquella editorial Taurus dirigida por quien no había alcanzado todavía a ennoblecer su sangre, y nadie conocía al rumano. Recuerdo que en aquellas fechas no muy alejadas de 1970 se había producido una tremenda huelga de basureros en París y la ciudad estaba cubierta de basura. Las ratas se cruzaban por entre las piernas de los paseantes y un humo excrementicio manaba de las montañas de materia descompuesta. Cada día, mientras duró la huelga, Beckett llamó por teléfono a Cioran para dar un paseíto juntos. “Nunca París ha estado más hermoso”, comentaba Beckett con exaltación juvenil.

Cioran nos recibió con una cortesía dieciochesca. Era un caballero entrado en años (es decir, mi actual edad), de mediana estatura y mirada inquisitiva. Nos sentamos a conversar, y Fernando me presentó como un español que vivía provisionalmente en París. Cioran ya no atendió a nada más. Me miró intensamente y comenzó a interesarse por mí. “¿Come usted con regularidad?”me preguntó. “¡Los inviernos de París son temibles, pero aún lo son más sus prirnaveras!”. Me observó de arriba abajo, deteniéndose con interés en los zapatos, y añadió: “¡El frío húmedo y pegajoso del Sena produce más muertes que la sífilis!”. Se levantó presuroso y nos conminó a seguirle… [+]

A insônia da razão (Caderno Mais! – 12/02/1995)

Cioran: o pensador da amargura (Mais! - 12/02/1995)
Cioran: o pensador da amargura (caderno Mais! – 12/02/1995)

“Ser desconhecido é uma volúpia” (entrevista publicada no extinto suplemento cultural Mais!, da Folha de São Paulo, 12/02/1995) — Fonte original

Foi assim que consegui resolver o meu problema e tudo isso foi necessário para viver sem exercer uma profissão. Mas tudo isso acabou, os moços, hoje, não têm mais essa possibilidade. Tem moços que vêm me visitar e que me dizem que gostariam de viver como eu. Mas é tarde demais. Tudo isso desapareceu, está acabado agora.
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Pergunta РMas o sr. continuou a trabalhar, a escrever ainda assim, o sr. publica bastante na Nouvelle Revue Fran̤aise.

Cioran – É verdade. Não se pode viver totalmente no paraíso — quer dizer, na parasitagem. Eu compreendi que era preciso escrever e isso certamente correspondia a uma necessidade. Assim, publiquei meu primeiro livro em francês, Précis de Décomposition (Breviário de Decomposição).

Depois disso, tinha algumas vagas intenções e já me perguntava na época por que multiplicar livros. Por quê? De todo modo, das pessoas só restam algumas frases, não é? Mas é preciso dizer ainda que os dias são longos demais, e depois havia certamente também uma forma de vitalidade em jogo, uma necessidade de manifestação. Fui totalmente desconhecido por 30 anos, meus livros não tinham a menor saída. Eu aceitei muito bem essa condição e ela correspondia também à minha visão das coisas, até o momento em que vieram os livros de bolso. Acho que essa é a única maneira de tocar de verdade os leitores que se interessam por você.

E depois é o mecanismo de toda carreira literária; mas os únicos anos importantes são os de anonimato. Ser desconhecido é uma volúpia; tem lados amargos às vezes, mas é um estado extraordinário. Durante anos, fui apresentado nos salões —porque teve um tempo em que gostava de beber uísque e, como não podia comprar, ia às recepções— como o amigo de Ionesco e de Beckett. Aceitava muito bem essa condição. Por que não? Por que ser conhecido?

cadernomais01Pergunta РPor que resolveu de repente escrever em franc̻s?

Cioran РEu tinha tomado a deciṣo de ṇo voltar mais para a Rom̻nia. Para mim, estava acabado, tudo isso, na verdade, me parecia fazer parte do passado, no sentido absoluto do termo. Eu estava num lugar perto de Dieppe, no litoral, em 1936, e tentava traduzir Mallarm̩ para o romeno. E, de repente, disse para mim mesmo: Ṇo tenho o menor dom para isso, e foi subitamente que tomei a deciṣo de escrever em franc̻s.

Até então, curiosamente, eu tinha negligenciado o francês, enquanto que estudava bastante o inglês, cheguei até a seguir o curso para a agrégation na Sorbonne. A decisão de escrever em francês —decisão tomada num minuto— revelou-se muito mais difícil de realizar do que eu pensava. Foi realmente um suplício. Escrevi quatro vezes meu primeiro livro, o que me deu até enjôo de escrever. Depois de escrever o Breviário de Decomposição, me dizia portanto que não valia a pena continuar a me atormentar. Publiquei os Silogismos da Amargura por cansaço. Não vale a pena fazer frases etc.

Depois, o processo continuou, apesar de tudo, e é preciso dizer também que Jean Paulhan me pedia o tempo todo para colaborar na Nouvelle Revue Française. Eu prometia, para depois me arrepender, depois queria cumprir minha promessa e foi assim que entrei numa espécie de engrenagem. Aceitava perfeitamente ficar na periferia.

Era totalmente desconhecido, mas isso não tem nada de desagradável, no fim das contas. São esses os anos de vida de um escritor, o escritor sem leitor —que conhece algumas pessoas e mais nada; isso tem lados desagradáveis no plano prático, mas é a época da verdadeira escritura, porque você tem a impressão de escrever para você mesmo.

Pergunta – Houve também uma motivação política que o levou a se desligar do romeno, da Romênia?

Cioran – O que é que eu vou fazer com o meu romeno em Paris? Eu tinha rompido com a Romênia: ela não existia mais para mim. Eu tinha prometido, na Romênia, que faria uma tese —coisa que nunca fiz. De todo modo, a Romênia para mim só representava o passado. Então para que escrever em romeno? E para quem?

E depois, o que eu escrevia nunca teria sido aceito pelo regime. Hoje eles aceitam os meus escritos e publicam o tempo todo meus artigos nas revistas.

Pergunta – É verdade que o sr. foi aberta e fanaticamente antidemocrata no fim dos anos 40?

Cioran – Sabe, a democracia na Romênia não era uma verdadeira democracia. Eu era antidemocrata porque a democracia não sabia se defender. Ataquei a democracia por causa da sua debilidade. Era um regime que não tinha instinto de conservação. E eu ataquei alguém por quem tinha a maior estima, Juliu Maniu, o chefe dos democratas romanos. Escrevi um artigo em que dizia que Maniu, que é o maior democrata do mundo, devia ter sido chefe de partido na Suécia, no país dos nórdicos. Mas não num país como a Romênia.
A democracia tem que se defender com todos os métodos e dar provas de vitalidade. Mas Maniu só lutava com conceitos puros e esses conceitos não têm nenhuma chance nos Balcãs. A democracia foi realmente deficiente na Romênia, não esteve à altura da situação histórica. Não se pode seguir gente assim, é a utopia encarnada nos Balcãs, não é possível. Houve democracia na Romênia, o partido liberal de Maniu, mas nas situações difíceis esse tipo de partido não aguenta, eles foram completamente ultrapassados pela história.

Pergunta – E a democracia ocidental?

Cioran – Há um certo automatismo no Ocidente, seja como for, porque a democracia nasceu aqui, ela pode sobreviver a si mesma. Mas pode desmoronar, nunca se sabe. O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos graves eles estão perdidos! Já se viu isso. A carreira de Hitler é o resultado da fraqueza democrática. A sua história é muito simples.

Pergunta – Qual é a ponte no seu pensamento entre o indivíduo e a história?

Cioran – Ela se fixa muito mal, pelo mal-estar. Não há ponte e o mal-estar se torna a solução. Temos que ser lúcidos como indivíduos sabendo, ao mesmo tempo, que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida só é suportável se não formos às últimas consequências.

Pergunta – Isso é o pensamento indiano que penetrou, para dizer assim, a sua obra? É o sr., de que o sr. fala sempre? Isso marca uma renúncia com relação à lucidez e à nostalgia de uma filosofia adormecida?

Cioran – Eu estou além disso também, mas o budismo desempenhou, realmente, há uns dez anos, um papel muito importante para mim. Eu sempre fui um pouco budista, se é possível ser um pouco. Para lhe dizer a verdade: se tivesse escolha, se pudesse optar por uma religião entre todas, seria budista. Deixando de lado alguns pontos, o budismo me parece aceitável e até confortável.

Pergunta – Mas é possível escolher lucidamente uma religião?

Cioran – É por afinidade secreta, apesar de tudo, que essa escolha é feita; há pontos muito precisos como a visão do sofrimento, que eu aceito; mas a transmigração ou outros aspectos do budismo, como aceitá-los?

É preciso pertencer a uma tradição para poder subscrever esse tipo de coisa, é preciso partilhar de um certo tipo de pensamento, de concepção do mundo. Como acreditar na metempsicose, nas etapas da vida, por exemplo? Os dogmas não são aceitáveis, mas o espírito é, perfeitamente. Tudo o que o budismo constata sobre o sofrimento, sobre a morte etc., é aceitável, o lado negativo. E foi esse lado que levou Buda a deixar o mundo.
E depois disso, é a religião que demanda menos fé. O cristianismo e o judaísmo exigem coisas muito precisas e se você se recusa a acreditar nelas está perdido, acabou; o budismo não, aceita compromissos. As razões que levaram Buda a deixar o mundo, podemos aceitá-las sem dificuldade, com a condição de ter a coragem de ir às últimas consequências. O budismo não lhe pede nenhum voto, nenhum reconhecimento, e é por isso que ele está a ponto de ultrapassar o cristianismo.

Pergunta – O sr. ainda passeia muito?

Cioran – Sim, claro.

Pergunta РE vai sempre aos cemit̩rios?

Cioran – Não só aos cemitérios. Eu tenho, é verdade, um fraco por cemitérios; mas hoje em dia os cemitérios não são mais bonitos, estão sobrecarregados. Quando vejo amigos, mas também desconhecidos passarem por momentos de abatimento, de desespero, só tenho um conselho a dar: Passe 20 minutos num cemitério, vai ver que a sua tristeza não vai desaparecer, mas vai ser quase superada.

Outro dia, encontrei uma moça que eu conheço, desesperada por causa de um problema amoroso, e lhe disse: Você não está muito longe de Montparnasse, vá lá, passe por ali meia hora, vai ver que a sua tristeza lhe parecer tolerável.

É muito melhor do que ir no médico. Um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática. Eu mesmo sempre pratiquei esse tipo de método; não parece muito sério, mas é relativamente eficaz. O que é que você vai dizer a alguém que está num desespero profundo? Nada ou mais ou menos nada. A única maneira de suportar realmente esse tipo de vazio é ter consciência do nada. Sem isso, a vida não é suportável.
Se você tem consciência do nada, tudo o que lhe acontece é de proporção normal e não assume as proporções dementes que caracterizam o exagero do desespero.

Pergunta – É uma espécie de solução catártica que o sr. está recomendando?

Cioran – Certamente. Precisamos ver o que somos. Eu conheci, por exemplo, muitos jovens escritores que queriam se suicidar por não ter sucesso, o que eu compreendo, a rigor. Mas é muito difícil acalmar alguém que chegou nesse ponto. O que é terrível na vida é o fracasso, e isso acontece com todo mundo…

Pergunta – Mas se tira alguma coisa do fracasso? Quando se sobrevive…

Cioran – – É uma lição extraordinária; mas tem muita gente que não a suporta, e isso em todos os níveis, empregados e gente importante. No fim das contas, a experiência da vida é o fracasso.

São principalmente os ambiciosos, os que fazem um plano de vida que ficam tocados, os que pensam no futuro. É por isso que eu mando as pessoas para o cemitério. É a única maneira de minimizar uma situação trágica.

Pergunta РO sr. disse que agora ṇo escreve mais. Acha que isso vai durar?

Cioran – Eu não sei de nada, mas é muito possível que não escreva mais. Tenho horror de ver todos esses livros que saem… esses autores que publicam pelo menos um livro por ano… é doentio. Eu acho que não se deve escrever mais, que é preciso saber renunciar.
Hoje isso já não me diverte mais, num certo sentido. É preciso um mínimo de entusiasmo, é preciso que haja uma expectativa. E depois eu me digo que já chega de imprecar contra o mundo e contra Deus, não vale a pena…

Pergunta – Mas, em pensamento, o sr. continua a imprecar?

Cioran – Forçosamente. Há uma espécie de resignação que é o fruto da idade e o cansaço é agora um estado muito real que é preciso levar em conta. Podemos sempre escrever e dizer tudo, mas se esse ato não corresponde mais a uma necessidade interior, não passa de literatura.

E isso é o que eu não quero, talvez porque sempre acreditei —é o meu lado ingênuo— no que escrevia. Isso não é bom, vai mesmo contra a minha visão das coisas, mas tanto pior! É evidente que, se temos consciência do nada, é absurdo escrever um livro, é até ridículo. Por que escrever e para quem? Mas há necessidades interiores que escapam a essa visão, elas são de outra natureza, mais íntimas e mais misteriosas, irracionais; levada ao extremo, a consciência do nada não é compatível com coisa nenhuma, com gesto algum; a idéia de fidelidade, de autenticidade etc, tudo desaparece.

Mas, ainda assim, existe essa vitalidade misteriosa que o leva a fazer alguma coisa. E talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos coisas às quais aderimos sem acreditar —é, é mais ou menos isso…

Tradução de LEDA TENÓRIO DA MOTA

Film (by Samuel Beckett)

Film é um filme escrito por Samuel Beckett, seu único roteiro de cinema. Ele foi encomendado por Barney Rosset da Grove Press. O roteiro começou a ser escrito em 5 de abril de 1963, com um primeiro esboço concluído em 4 dias. Um segundo esboço foi produzido até o dia 22 do mesmo mês e um roteiro de 40 páginas seguiu-se logo depois. As filmagens ocorreram em Nova Iorque, em julho de 1964.

Historia y nostalgia en Cioran

Ernesto Parra – El País, 30 de Agosto de 1978

Los textos de Cioran han encartado siempre una gran dosis de escepticismo, instrumento engendrado desde su crítica lucidez y exquisito sentido de la ironía. Su capacidad de sugerencia es innegable: la duda y el desaprendizaje sirven de método de abordaje a cuestiones tan inasibles y ambiguas como la historia, la nostalgia, el tiempo o la libertad, tan esquematizadas, reducidas, y de hecho ridiculizadas en los sumarios existencialistas y marxistas, en los que el pensamiento negativo resulta un «devenir» del retrógrado: «Realizarse es abocarse a la embriaguez de lo múltiple.» De la fatiga del tiempo resulta acomodaticia la caída del hombre en el pajar de la historia, en la que los signos, como agujas, resultan difíciles de encontrar e interpretar, porque «el tiempo no está hecho para ser conocido, sino para ser vivido». Cuando Nietzsche expone su visión de conciencia y advierte la pluralidad (e intensidad) de fuerzas que se combinan en el individuo, los valores sistemáticos y racionalistas de Freud, y sobre todo Marx, en las normativas tocantes a la moral, yo, verdad, producción (en el sentido marxista), quedarán consolidadas en un abstracto puding (en sentido repostero). «Estamos -dice Cioran- entregados a una falsificación de infinito, a un absoluto sin dimensión metafísica.» De lo contrario, como paralíticos al volante de su respectivo papagayismo, sólo estaremos escondiéndonos de nosotros mismos.

Cioran propala el cultivo de la locura, dadas las características que ofrece la vida como estado de no-suicidio y, por otra parte, también antídoto ante un universo explicado. Hay que reconvenir en la simetría que Cioran sugiere entre escepticismo y caída: el misterio se abre, entonces, a la ceremonia de las máscaras y las apariencias, donde nada existe en función de los segundos. Es el ritotrágico que practicara Artaud, y que, según Rosset (y Cioran), supone haber recuperado la noción del absurdo que nos remite a un sentido primigenio de las cosas que ha habido o debía haber, de tal manera que la idea de azar excluye hasta la nostalgia por un sentido perdido.

Sarcasmo y afán destructor para negar todos los sistemas filosóficos; su escritura no es la de un filósofo de masas, sino de conciencias; su táctica se despliega entre la anécdota y el mito; su admiración reposajunto al suicida, su fobia junto a Teilhard de Chardin, su lectura exige una previa desintoxicación filosófica: «Me aparté de la filosofía en el momento en que se me hizo imposible descubrir en Kant ninguna debilidad humana, ni en Kant ni en ninguno de los demás filósofos.» Cioran es impunemente filósofo, o acaso elaborador de horas neutras tras su caída en el tiempo, en uno u otro caso, un oficio sin destino.

Emile M. Cioran, nacido rumano, y que ha escrito en francés todas sus obras (fija su sancta sanctorum en París desde 1937), podía ser considerado, como tantos otros desarraigados: Becket, Nabukov… un « extraterritorial » -en el argot de Steiner- o, concretani ente, uncondenado selecto, artesano de ficciones, agente de universos caducos y acólito del tiempo, que ha sabido desde su lucidez encontrar en la literatura una forma de crueldad.

Cioran, como Nietzsche, Baudelaire o Dostoievski, es un maestro en el arte de pensar contra sí mismo, que admite y advierte la necesidad de dejarse llevar por la soberanía de la ausencia (al igual que Lezama o Mallarmé). Y que sabe, hacer de su «pereza» un auténtico liberado, en definitiva con los mismos atributos que Rimbaud.

«¿Nuestro mal? Siglos de atención al tiempo, de idolatría del futuro». que dice este aciago demiurgo.

Cioran posee los dos venenos (ajenos a cualquier metodología racionalista o reductiva): la sabiduría y la rebelión.

“Thinking Against Oneself”: Reflections on Cioran (S. Sontag)

“What is the good of passing from one untenable position to another, of seeking fustification always on the same plane?”

SAMUEL BECKETT

“Every now and then it is possible to have absolutely nothing; the possibility of nothing.”

JOHN CAGE

Ours is a time in which every intellectual or artistic or moral event is absorbed by a predatory embrace of consciousness: historicizing. Any statement or act can be assessed as a necessarily transient “development” or, on a lower level, belittled as mere “fashion.” The human mind possesses now, almost as second nature, a perspective on its own achievements that fatally undermines their value and their claim to truth. For over a century, this historicizing perspective has occupied the very heart of our ability to understand anything at all. Perhaps once a marginal tic of consciousness, it’s now a gigantic, un-controllable gesture—the gesture whereby man indefatigably patronizes himself… [+]

Beckett y Cioran, cuando la imposibilidad de vivir es un gesto possible (en el centenario del nacimiento de Beckett 1906-1989)

Por Jorge Jiménez

Artículo publicado en la Revista de Filosofía Universidade de Costa Rica, XLV (114), 117-120, Enero-Abril 2007. | PDF

Abstract: This paper is about the philosophical and existential interlocution between Beckett and Cioran. I criticize the idea of a “French culture” and I proceed to rethink topics like nihilism o irrationalism. Key Words: Beckett, Cioran, nihilism, aesthetic politic criticismo

Resumen: Reflexiono en torno a la interlocución filosófica y existencial entre Beckett y Cioran. Parto de una visión crítica de la “cultura francesa” y procedo a reconsiderar tópicos como el nihiliismo o el irracionalismo. Palabras clave: Beckett, Cioran, nihilismo, crítica estético política.

Paradójicamente, estos dos profetas del desencanto de vivir vivieron más de ochenta años, quien sabe si para felicidad de ellos pero posiblemente para una cierta fascinación de los que les han sucedido, es decir, de nosotros los insepultos.

Ninguno de los dos cometieron suicidio, al menos suicidio exitoso -pese a que en la obra de ambos se frecuenta el tema. Cioran ya había elaborado toda una terapéutica al respecto. Decía que cuando alguien que quería suicidarse venía (para Ligia en el Cielo con Diamantes) a verle le decía que el suicidio es una idea positiva, que lo podía hacer cuando quisiera ya que la vida no tiene sentido puesto que se vive para morir. Para él es muy importante que sepamos que podemos matamos en cualquier momento, ese, y solo ese horizonte de libertad permite postergar el suicidio todo lo que se quiera. Así, la legitimación de la idea del suicidio permite que no nos matemos.

Beckett lo dice al final de Esperando a Godot cuando Estragón pregunta a Vladimiro que si se ahorcan y este, aunque admite como válida la idea, repara en un detalle intrascendente pero determinante: no tienen una cuerda que pueda hacer posible un suicidio a cuatro manos. Por ello deciden dejarlo para mañana, cuando puedan volver con una cuerda adecuada. Los dos pensadores, validando la idea del suicidio la postergan indefinidamente.

Ambos autores, contemporáneos y emigrantes, uno de Irlanda y el otro de Rumania vivieron en la Francia a partir de los años 30 y adoptaron la lengua francesa para escribir lo más significativo de sus respectivas obras. Creo que se negarían a ser considerados parte de la “cultura y las letras francesas”, como abusivamente se acostumbra a hacerlo. Los dos son apátridas y renunciaron a su lengua materna y en algún sentido se les puede considerar como refugiados existenciales en Francia. Cioran explica que escribir en una lengua que no era la suya le permitía ser consciente de que estaba usando un lenguaje extraño y difícil, por lo que para él representó más una ascesis, una disciplina de escritura -una camisa de fuerza, como solía decir. Algo similar había sucedido con otros dos conspicuos emigrantes: Ionescu, rumano como Cioran, y Camus, de Argelia, en ese entonces colonia francesa.

Durante la primera parte del siglo XX, la llamada “cultura francesa” fue reventada por fuera y por dentro. Los inmigrantes mencionados hicieron lo primero y las vanguardias, tales como dadá y el surrealismo, así como los situacionistas, hicieron lo segundo. Ya lo habían hecho en el siglo anterior, Baudelaire, Lautreamont, Rimbaud y Verlaine. Para todos ellos la cultura francesa no era más que un cadáver que había que profanar, un cadáver exquisito, como solían decir los surrealistas.

Cioran decía que en mucho sentidos me considero un filósofo de la calle. ¿Una filosofía oficial? ¿Una carrera de filósofo? ¡Eso sí que no! Toda mi vida me he rebelado y aún hoy me rebelo contra eso. En un mismo sentido se puede interpretar la negativa de Beckett para asistir a la entrega del premio nobel, cuya adjudicación consideró como un error.

En Beckett y Cioran se puede encontrar una estrecha relación entre lo pensado, la forma de expresado y la manera en como asumieron la vida. Por un tiempo tuvieron una cierta amistad pero luego Beckett se alejó del rumano por considerar que su pesimismo era exagerado.

Cioran dice de Beckett que ahora nos vemos mucho menos, pero Beckett es un hombre que siempre está perfectamente lúcido y que no reacciona como escritor. Ese problema no se plantea en él -lo que resulta muy hermoso en su caso-, porque nunca ha reaccionado como escritor. He observado que las personas que han producido demasiado en cualquier terreno son monigotes, al cabo de cierto tiempo. Y por eso las grandes presencias son con mucha frecuencia gente que no ha producido nada, gente que lo ha acumulado todo.

Los dos pensadores tienen una auténtica visión pesimista de la historia y del origen humano. Domina la idea contraria a la Ilustración, del origen como derrota, como pérdida y caída paradójicamente similar a la del cristianismo que confrontaron, sin embargo se trata de una suerte de pecado original irredento y nihilista.

Beckett, al inicio de la obra citada, escribe lo siguiente:

VLADIMIRO.¿Y si nos arrepintiéramos?

ESTRAGÓN.¿Y de qué?

VLADIMIRO.Pues… (titubeando) No hace falta entrar en detalles.

ESTRAGÓN.¿De haber nacido?

Cioran, lo expresa en varias partes. Leamos alguna: No me perdono el haber nacido. Es como si, al insinuarme en este mundo, hubiese profanado un misterio, traicionado algún compromiso de gran envergadura, cometido alguna falta de gravedad sin nombre. Sin embargo, a veces soy menos tajante: nacer me parece entonces una calamidad que me afligiría no haber conocido. En otro lugar dice: Si es verdad que al morir volvemos a ser lo que éramos antes de nacer, ¿no hubiera sido preferible mantenerse en la pura posibilidad, no salir de ella? ¿De qué sirve este paréntesis cuando podríamos haber permanecido para siempre en la plenitud irrealizada?

En Malone muere, Beckett escribe: Vivir. Digo vivir y ni siquiera conozco su significado. Lo intenté sin saber qué intentaba. A pesar de todo, quizá haya vivido sin saberlo.

Cioran lo vuelve a decir, En el comienzo del hombre algo se desmoronó. Desde los comienzos algo no salió bien, no podía salir bien, pues no es posible la pureza de la criatura. Por tanto, el hombre está herido desde su nacimiento.

El pesimismo existencial se resuelve en la ataraxia y el culto a la inacción. En varias partes de sus textos, Beckett hace una llamada constante al quietismo. Ante la pregunta reiterada de Vladimiro que interroga qué hacer, Estragón responde no hagamos nada.

De la misma forma, nos dice Cioran que la inacción es divina. Y, no obstante, el hombre se reveló contra ella. El único ser incapaz en la naturaleza, de soportar la monotonía, quiere a toda costa que algo suceda, cualquier cosa. Con ello se muestra indigno de su ancestro: la necesidad de novedad es lo propio de un gorila descarriado.

Este no hacer nada deviene en la asunción del tedio y el hastío como un estado de gracia. Así dice Cioran, a ese amigo que me dice que se aburre porque no puede trabajar, le contesto que el tedio es un estado superior, y que se le degrada al relacionarlo con la idea de trabajo.

En Beckett, el hastío y el tedio forman un lenguaje articulador tanto de su dramaturgia como de su prosa. En algunas de sus obras cortas, la propuesta minimalista -consecuente con su deseo de suspender la escritura-, incorpora el silencio, el sinsentido de la cháchara cotidiana y la espera vacua para provocar un auténtico sentido del hastío y el desespero. Y este es un aporte propio de las vanguardias estéticas cuyas innovaciones formales y de contenido permitieron legitimar aspectos de la obra de arte que anteriormente no eran valoradas como propios de un lenguaje estético. De tal modo, al igual que dadaístas, surrealistas y expresionistas sancionaron lo feo, lo grotesco, lo monstruoso, lo chocante, lo ridículo, autores como Beckett, Ionescu o Artaud, hicieron lo propio con el hastío, el tedio, la crueldad, el absurdo o el sinsentido.

En lo formal, sin embargo, los dos escritores presentan ciertas diferencias. Cioran cultivó exclusivamente el aforismo, la sentencia, el parágrafo y la reflexión corta. En eso se guió por maestros tales como Diógenes el cínico, La Rochefoucauld, Schopenhauer o Nietzsche. Como escritor aforístico pulía y engastaba la expresión filosófica y lingüística con maestría. Y recurrió a este género de escritura porque consideraba inútil todo intento de demostrar o explicar un pensamiento. Beckett, además del ensayo, como bien se sabe, cultivó la prosa y el teatro. Su sintaxis es densa y en ocasiones críptica. Pero, al igual que Cioran, su pensamiento se expresa de manera fragmentaria. Beckett elabora un texto tensionado por el tedio y el sinsentido, en el que incorpora pensamientos aislados que en su conjunto dan con ciertas producciones de sentido – grosso modo, el sentido del absurdo, para usar un oxímoron. Cioran cultiva y defiende el pensamiento fragmentario porque confiesa que le permite contradecirse sin los problemas que le impondría la construcción de un sistema filosófico -de hecho recrimina a Aristóteles, Santo Tomás o Hegel la elaboración de un pensamiento sistemático como un rasgo de un pensar totalitario y que, pese a los esfuerzos por evitada, siempre termina en la contradicción.

Ahora bien, ¿qué mueve a estos pensadores a expresar su pensamiento en forma fragmentaria? El vanguardista chileno Vicente Huidobro acostumbraba repetir una idea de un poeta aimará que decía el poeta es un dios; no cantes a la lluvia, poeta, haz llover. De este modo, gran parte del sentido de la vanguardia ha estado en convertir la obra de arte en la expresión genuina de las contradicciones sociales y no simplemente en su mención o mímesis. La obra de arte es igual de contradictoria, compleja y revulsiva, ya que ésta también es realidad y contradicción social. Es la aspiración vanguardista de identificar vida y arte, de hacerlas un solo gesto y fundidas como aspiración a transformar profundamente la existencia- el cambiar la vida de Rimbaud o cambiar el mundo de Marx. Para Cioran, la forma fragmentaria es un estilo genuino de nuestra civilización, puesto que reproduce el conflicto en su densidad. Para Beckett, es la forma en que se expresa la realidad humana y existencial contemporánea, es la sintaxis propia del absurdo y el sinsentido que trama lo real. El fragmento para Cioran, surge de las diversas experiencias vitales, por eso pueden ser contradictorios, tal y como es la vida.

Por ello, no conviene aceptar de plano la fórmula que reduce a estos autores a un irracionalismo ramplón. Se trata, por el contrario, de una racionalidad densa con un fuerte acento estético (en ambos escritores), que pretende resignificar ámbitos de la existencia tales como la angustia, la fragmentación y aniquilación de la subjetividad contemporánea, desde adentro, es decir asumiéndose estética y filosóficamente como un texto angustiado, fragmentado y aniquilado. Es una tarea similar a la hecha por Marx, Darwin o Freud, los cuales buscaron que lo social, lo natural o el inconsciente se reconceptualizaran por medio de una racionalidad crítica, compleja y contradictoria, de tal modo que los sueños o la locura-para mencionar un ejemplo- nosiguieran siendo el objeto exclusivo del discurso esotérico vulgar o patologizante de la psquiatría, sino que, a través del psicoanálisis se posibilitara una comprensión más rica y fértil de la mente y la conducta humana. Pero, lo hecho por Beckett y Cioran es idéntico a lo hecho por Nietzsche y Kafka: cuando la miseria de la razón positivista se proclamaba, desde Descartes, rectora de la modernidad, de su seno surgirá como una suerte de alien, la irracionalidad en su forma más brutal, como guerra genocida, con sus campos de exterminio y tortura y con la articulación de la vida cotidiana en los términos de la razón instrumental y cosificante, esa que exacerbada en nuestros días reduce la condición humana a la condición de cliente, consumidor, televidente o espectador y que lo manipula como una mercancía corporal, cuerpo torturable y desaparecible, crecientemente virtualizado y difuso.

De este modo, cuando frecuentamos la obra de Beckett y Cioran, podemos intuir que su escritura tiene como trasfondo la vida efectivamente vivida, la vida cotidiana en su compleja maraña de callejones sin salida, simulacros, ilusiones y desencantos. Pese a las diferencias formales, los dos, sin embargo, escriben no por una pose social o un prurito académico. Escriben porque en eso les va la vida. Cioran admite que sin la escritura se hubiera suicidado muy joven, justo cuando el insomnio empezó a corroer su existencia y lo puso al borde de la desesperación. Beckett, más parco en sus confesiones personales, sugiere que la escritura le permitió lidiar con depresiones profundas, desencuentros y grietas insalvables con los otros y con la sociedad de su tiempo. Todo lo que tengo que decir lo he dicho en mi obra, dice Beckett. Los horrores de la segunda Guerra Mundial, las miserias y opresiones que vivieron en tiempos de la consolidación de la razón instrumental, se expresan estéticamente en esas obras exasperadas, desesperanzadas, no complacientes, políticamente erróneas, nihilistas y derrotadas que estos angustiados inmigrantes escribieron.

Posiblemente la sensibilidad de los dos autores se puede expresar con el siguiente pensamiento de Cioran aspiro a las noches del idiota, a sus sufrimientos minerales, a la dicha de gemir con indiferencia, como si fueran los gemidos de otro, a un calvario donde se es extraño a uno mismo, donde los gritos propios vienen de otra parte, a un infierno anónimo donde se baila y se ríe mientras se destruye uno. Vivir y morir en tercera persona … exiliarme de mi mismo, disociarme de mi nombre, distraído por siempre del que fui … , alcanzar, finalmente -puesto que la vida sólo es tolerable a ese precio-, la sabiduría de la demencia …

Bibliografía

Beckett. S. (2006). Teatro reunido: Eleutheria; Esperando a Godot; Fin de partida; Pavesas; Film. Barcelona: Tusquets.

Cioran, E. M. (1977). Breviario de podredumbre. (Trad. Fernando Savater). Madrid: Taurus.

_____ (1983). Contra la historia. (trad. Esther Seligson). Barcelona: Tusquets.

_____ (1989). El aciago demiurgo. (Trad. Fernando Savater). Madrid: Taurus.

_____ (1996). Conversaciones. (trad. Carlos Manzano). Barcelona: Tusquets.

_____ (2000). La tentación de existir. (Trad. Fernando Savater). Madrid: Taurus.

_____ (2000). Historia y utopía. (trad. Esther Seligson). Barcelona: Tusquets.

_____ (2001). Breviario de los vencidos. (Trad. Joaquín Garrigós). Barcelona: Tusquets.