VIIIe Colloque International Emil Cioran (compte rendu)

VIIIe Colloque International Emil Cioran organisé par l’université Technologique de Pereira (Colombie) du 15 au 22 octobre 2015. In: DEMARS, A.; STĂNIŞOR, M.-G (orgs.). Cioran, Archives Paradoxales – Nouvelles Approches Critiques (tome III). Paris: Classiques Garnier, 2017.

Du 15 au 22 octobre 2015, a eu lieu à Pereira, en Colombie, la huitième édition du Colloque International Emil Cioran, organisé par le département de philosophie de l’université Technologique de Pereira (UTP). L’organisatrice de ce colloque, Liliana Herrera, a souligné le fait que cet événement se définit comme une rencontre, tout en étant un pro- jet culturel de portée régionale, et se caractérisant par une dynamique itinérante. Pour cette raison, il ne concerne pas seulement l’œuvre et la vie d’Emil Cioran, mais il est également ouvert au dialogue sur la littérature, la sociologie, les arts et d’autres disciplines, et vise un large public, non seulement académique, mais intéressé par les thématiques liées à ces disciplines.

Parmi les participants de cette année : Răzvan Enache (université « Lucian Blaga » de Sibiu, Roumanie), qui a présenté des conférences sur Cioran, « Une anthologie de l’autoportrait», José Saramago, « L’Évangile selon Jésus », ou des communications, à l’invitation de la Faculté de Sciences de l’Environnement de l’UTP, sur Niklas Luhmann et Gregory Bateson ; Luiz Cláudio Gonçalves (professeur de philosophie à l’Universidade Estatal do Sudoeste da Bahia, Brésil), Rodrigo Menezes (doctorant en philosophie à la Pontifícia Católica Universidade de São Paulo, Brésil) et Rodrigo Adriano Machado (étudiant en master en philosophie de la même université brésilienne) ; l’historien canadien Roch Little (établi à Bogotá, où il vit et enseigne), qui a parlé de l’exil chez Cioran en tant que stimulant de la pensée. De fait, l’exil a été l’axe thématique de plusieurs conférences. Par exemple, Rodrigo Menezes a parlé des rapports entre l’existence, la métaphysique et l’idée de destin à partir de la réflexion cioranienne sur l’exil, et Andrés Duque, biologiste et professeur à l’UTP, a analysé les notions d’exil intérieur et d’ambivalence existentielle chez l’écrivain cubain, suicidé en 1990, Reinaldo Arenas. Outre une réflexion sur la notion de lucidité chez Cioran, Luiz Cláudio Gonçalves a présenté au public colombien l’œuvre du poète brésilien Augusto dos Anjos (1884-1914), symboliste et parnassien, influencé par le pessimisme de Schopenhauer. Rodrigo Menezes a été invité par la « Casa de Cultura de Sevilla », petite ville dans les montagnes, près de Pereira, pour proposer aux « sevillanos » une réflexion sur les rapports entre la philosophie et la littérature (la même conférence a été réalisée à l’université du Quindío, dans la ville d’Armenia). Le troisième parti- cipant brésilien, Rodrigo Adriano Machado, a parlé de quelques aspects du travail cioranien de l’écriture : « De l’écriture : sang, sincérité et flammes chez Cioran ».

Parmi les participants colombiens, Alexander Aldana Piñeros et Edgar Javier Garzón P., tous deux de l’université Catholique de Colombie à Bogotá, ont abordé le sujet du sentiment de la mort en tant que limite existentielle chez Cioran ; Alfredo A. Abad, professeur de philosophie à l’UTP et l’un des participants pionniers du Colloque de Pereira, a tenu une conférence sur la figure du paradoxe chez l’auteur roumain d’expression française ; Cristian Cárdenas, professeur de l’université Coopérative de Colombie, a proposé un dialogue entre Cioran et Montaigne : « Cioran sur le chemin de Montaigne : l’essai comme forme d’admiration »; Liliana Herrera, organisatrice du colloque et enseignante de philo- sophie à l’UTP, a fait une très intéressante réflexion sur ce que serait « l’idée de la femme chez Cioran ». Il y a eu aussi une rencontre-débat sur l’importance de l’apprentissage des langues étrangères, organisée par Patrick Petit, professeur à l’UTP.

Comme à son habitude, le Colloque International Emil Cioran de Pereira s’est étendu au-delà de l’espace académique, sur d’autres terri- toires de production du savoir : cercles culturels, cafés, conservatoires musicaux, etc. Les invités ont ainsi pu partager leurs recherches à un public nombreux et divers.

Rodrigo MENEZES

Anúncios

“Um aliado na contracorrente”, por Gabriel Marcel

gmarcelExtraído de TACOU, L.; PIEDNOIR, V. (orgs.). Cahier L’Herne Cioran, Paris: Éditions de L’Herne, 2009, pgs. 222-3. Originalmente em Le Monde, 28 de junho de 1969. Tradução: Rodrigo Menezes

Como eu aceitaria ficar de fora quando uma homenagem como esta é feita a um dos homens cujo espírito e caráter eu mais aprecio? Mas devo acrescentar que a voz que eu gostaria de fazer ouvir aqui correrá o risco de parecer discordante a alguns de seus admiradores, digamos mesmo de seus turiferários. Pois me é preciso, sob pena de faltar com a mais elementar probidade, formular a seguinte afirmação paradoxal: a obra escrita deste homem, que eu admiro e amo a ponto de me confessar às vezes com ele, amiúde me repugna, e isto é particularmente verdadeiro a propósito do livro que acaba de sair com o título: Le mauvais démiurge [O funesto demiurgo]. Por conseguinte, sinto-me obrigado a comprometer-me com uma espécie de difícil altercação com ele e comigo mesmo.

Evidentemente, existiria uma maneira cômoda de resolver, em aparência, a contradição: consistiria em dizer, por exemplo – o que em si seria exato –, que admiro o estilo de E.M. Cioran, e que o desacordo recai sobre o conteúdo. É absolutamente verdadeiro que pela firmeza, pelo rigor da escritura, o autor do Breviário de decomposição nos faz pensar frequentemente no mais sardônico Nietzsche, aquele de Humano, demasiado humano ou de O Viajante e sua sombra – um Nietzsche que teria sido marcado por Dostoiévski, muito mais do que poderia tê-lo sido o Nietzsche histórico. Mas esta distinção entre a forma e o fundo me parece dever, como quase sempre, ser aqui recusada. Com E.M. Cioran, estamos na presença de um dos testemunhos de acusação dos mais resolutos, dos mais veementes já surgidos ao longo do processo interminável que se inaugurou entre o homem e o mundo, ou Deus, a partir do momento em que surgiu essa anomalia ímpar chamada reflexão. E o que não pode ser contestado é, para empregar um termo do qual se tem abusado, a autenticidade deste depoimento. Não há dúvida, aliás, que este se dirige não apenas contra o outro, contra o acusado, quem quer que ele seja, mas dirige-se não menos contra aquele que a formula. É por vezes como o grito incoercível da consciência ulcerada. Sim, eu digo ulcerada: esta palavra me parece traduzir exatamente a impressão que tenho ao ler Le mauvais démiurge, e em particular o texto intitulado: Rencontres avec le suicide [Encontros com o suicídio]. Eu evoquei mais acima Dostoiévski: como não encontraria eu, em algumas páginas, o rastro de Kiríllov? Mas parece-me que fomos aqui mais longe, muito mais longe por um caminho que desce em direção ao desespero inapelável.

Mas esse escrúpulo, que não me surpreende, pois conheço o autor pessoalmente e a generosidade de que ele tantas vezes deu prova, permanece inteligível no mundo não apenas absurdo, mas fundamentalmente criminal, do qual ele parece ter tomado para si a tarefa de fazer o inventário. O caso de E.M. Cioran aparece aqui infinitamente mais perturbador e mais complicado que o de um Albert Camus. Nós assistimos juntos, recordo-me, ao ensaio geral de Os justos, e ao final ele me disse: “Evoque por um instante Os demônios, e dar-se-á conta de que não sobra nada do que acabamos de ver.” Eu devia mais tarde me lembrar deste comentário, quando Albert Camus apresentou sua bela adaptação de Os demônios.

Se digo que o caso de Cioran é infinitamente mais grave, é que ele jamais se satisfaria com a espécie de meio-termo com o qual o autor de A queda parece quase ter ficado satisfeito a partir de O homem revoltado.  Cioran, por sua vez, permanece irredutível, e eu diria, da minha parte, que essa irredutibilidade, que amiúde me repugna, repito-o, porque ela se traduz em afirmações frequentemente temerárias na difamação de tudo e de si mesmo, não está menos estreitamente ligada ao que eu admiro em um dos homens mais incorruptíveis que tive a chance de encontrar.  Poder-se-ia aqui tentar enumerar as formas que assume a corrupção no mundo que nos rodeia. Todas, ou quase todas, estão ligadas à preocupação consigo. Mas esta preocupação é absolutamente estranha ao autor de A tentação de existir ou de História e utopia. A palavra pureza é daquelas que se hesitaria talvez a aplicar-lhe, uma vez que ela suscita quase inevitavelmente imagens de brancura ou de ingenuidade que, aqui, não correspondem a nada. Mas não haveria outra pureza que não pertence senão ao fogo e à incandescência? É, se podemos dizê-lo, a pureza como ato; como ela não queimaria?

E na linha destas simples considerações, seríamos conduzidos, parece-me, a nos interrogar ansiosamente sobre a relação, talvez demasiado misteriosa para ele mesmo, que vincula aqui o autor a seus escritos. Em parte alguma, penso, a questão da finalidade própria ao ato de escrever se coloca de maneira tão irritante para o espírito, que este ato não esteja voltado a um pequeno número, a um “happy few”, eu já o dissera, e esta é a evidência mesma. Mas eis que isto não nos esclarece ainda sobre a natureza da libertação ou da catarse que é visada aqui. Uma coisa é certa: trata-se aqui de uma verdadeira operação, não de uma pose ou de uma máscara. Mas, ao mesmo tempo, como não sentir, ao menos confusamente, que o autor, sendo absolutamente sincero, não coincide, em sua profundeza última, com o requisitório que parece visar a devastar os espíritos e os corações? Não se passaria tudo como se a intenção mais profunda, mas também a mais inconfessa, fosse, do contrário, fazer surgir do fundo inviolável das almas o silencioso protesto que viria restabelecer, para além do tumulto dos sarcasmos e das blasfêmias, a consciência indefinhável de uma ordem e de uma plenitude?

Por mais estranha e paradoxal que seja esta conjectura, é a única que pode dar conta, aos meus olhos, do divórcio dolorosamente sentido entre a consideração indefectível para o homem, para o amigo, e a recusa de um pensamento ao qual eu não poderia subscrever sem renegar todas minhas razões de viver.

*

imarceg001p1Sobre o autor: Gabriel Marcel, dramaturgo e filósofo (Paris, 1889-1973) existencialista cristão, escreveu uma obra tão numerosa e nada sistemática. Trata-se de um filósofo-escritor e não de um filósofo-professor. Seu pensamento de estilo meditativo e reflexivo investiga a condição humana no contexto deste século. Merecem destaque os temas da relação com o Outro, o da liberdade, da morte, da fé, da fidelidade, da experiência e transcendência de Deus. Não há nele a preocupação de elaborar um sistema, ao contrário, seu modo livre e original de pensar permite-lhe desenvolver os conceitos de ser e ter, problema e mistério, fé e amor, entre outros, dentro de uma visão peculiar. In: ZILLES, Urbano. Gabriel Marcel e o existencialismo. Porto Alegre: Acadêmia/PUC, 1988 (da orelha de capa).

Textos relacionados: “Fe y escepticismo. La correspondencia entre E.M. Cioran & Marie-Dominique Molinié” [Esp], por Sergio García Guillem