“A liquida√ß√£o tecnol√≥gica da palavra est√° em marcha”: Mat√©i Visniec no Brasil

Autor romeno naturalizado franc√™s realizar√° palestras neste domingo em Porto Alegre dentro do 9¬ļ Festival de Inverno

Por F√°bio Prikladnicki – Porto Alegre, Zero Hora, 27/07/2017

Se a tarefa de um dramaturgo √© responder √†s grandes quest√Ķes de seu tempo, o romeno naturalizado franc√™s Mat√©i Visniec pode se dar por satisfeito. Sua mais recente pe√ßa publicada no Brasil,¬†Migraaaantes, √© inspirada na muito atual trag√©dia dos refugiados. Seus textos reescrevem a hist√≥ria e recuperam grandes personagens da cultura e da intelectualidade em uma chave n√£o realista que muitos identificam com o teatro do absurdo. Visniec estar√° em Porto Alegre para realizar a palestra Teatro e Jornalismo: Tentativas de Compreender o Mundo, na qual abordar√° a rela√ß√£o entre sua viv√™ncia na imprensa e a cria√ß√£o teatral. Ser√° neste domingo (30/7), √†s 15h, na Sala √Ālvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307), com entrada franca, dentro da programa√ß√£o do 9¬ļ Festival de Inverno, que vai at√© quarta-feira (veja detalhes no roteiro da p√°gina 8). Leia, a seguir, a entrevista concedida pelo autor a Zero Hora por e-mail.

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Migraaaantes¬†trata de um tema bastante atual. Poderia comentar quais foram suas inspira√ß√Ķes para escrev√™-la? E voc√™ acredita que o dramaturgo tem o compromisso de abordar as grandes quest√Ķes de seu tempo?
A Europa est√° sacudida neste momento pelo fen√īmeno da imigra√ß√£o. Trata-se de um movimento massivo de popula√ß√Ķes que batem √†s portas da Europa para escapar da guerra, dos massacres, das persegui√ß√Ķes de todo tipo, do subdesenvolvimento, da mis√©ria material (e por vezes cultural e sexual), da fome, das mudan√ßas clim√°ticas catastr√≥ficas. As migra√ß√Ķes tornaram-se um fen√īmeno duradouro. Nada poder√° parar essas milh√Ķes de pessoas em busca de dignidade e de uma vida melhor. Isso √© fato, √© uma constata√ß√£o de todos os especialistas e da m√≠dia. A quest√£o agora est√° ligada √†s mudan√ßas pol√≠ticas, culturais, identit√°rias, sociais e de outras naturezas que esses movimentos v√£o gerar. O debate √© rico, suscita pol√™micas, engendra rea√ß√Ķes de fechamento e de medo. Uma coisa √© certa: nada ser√° como antes. As migra√ß√Ķes s√£o sinais de um mundo em mudan√ßa. Creio que o olhar do artista √© importante na compreens√£o do que est√° ocorrendo. Todo mundo deve participar desse debate, deve esfor√ßar-se para compreender o que est√° acontecendo √† humanidade: os pol√≠ticos, os soci√≥logos, os historiadores, os jornalistas, os especialistas em geopol√≠tica, os pesquisadores, os cientistas, os climat√≥logos, os economistas. Nesse contexto de brainstorming, a voz dos artistas √© importante, ela √© mesmo peculiar. O teatro pode tamb√©m participar desse debate, pois atr√°s do fen√īmeno das migra√ß√Ķes se escondem dramas individuais e coletivos assustadores, tr√°ficos de todos os tipos e redes de explora√ß√Ķes infernais, escolhas pol√≠ticas discut√≠veis do lado das grandes pot√™ncias e formas de indiferen√ßa conden√°veis… (leia a entrevista na √≠ntegra aqui)

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Jean-Luc Godard sobre Cioran

“Ler, ent√£o viver”, entrevista de Jean-Luc Godard a Pierre Assouline, publicada no caderno Mais! da Folha de S. Paulo, 27 de julho de 1997

Desde sempre os livros s√£o seus amigos. E a literatura, sua boa fada, lhe deu “uma consci√™ncia moral”. O cineasta m√≠stico da Nouvelle Vague recebeu a “Lire” √†s margens do lago L√©man, na Su√≠√ßa, onde mora, para falar de Gide, Cioran e Val√©ry.

Pergunta РA literatura vinha mais do lado Godard da família ou do lado Monod?

Godard – Do lado Monod. Minha m√£e lia muito. Mas o gosto pelo romantismo alem√£o me foi passado por meu pai, que era m√©dico. Entre os 18 e os 20 anos, gra√ßas a ele, devorei Musil, Broch, Thomas Mann. Meu av√ī tamb√©m me marcou muito. Ele era banqueiro em Paribas. Era amigo de Paul Val√©ry e tinha todos os livros dele. Cham√°vamos sua biblioteca de “o valerianum”. Nos anivers√°rios de seu casamento eu tinha que recitar “O Cemit√©rio Marinho”. Eu tamb√©m gostava de seu “Tel Quel”. Era menos selvagem que Cioran, mas a √©poca era diferente. Ele tamb√©m repetia belas frases de Val√©ry.

“Na literatura h√° muito passado e pouco futuro, mas n√£o h√° presente” (Jean-Luc Godard)

Pergunta – Foi a leitura de Cioran que o tornou mais s√°bio?

Godard – Ela corresponde a minha queda pelos aforismos, a s√≠ntese, os prov√©rbios. Talvez esse gosto meu tenha origem nas f√≥rmulas cient√≠ficas. O aforismo resume alguma coisa mas, ao mesmo tempo, permite outros desenvolvimentos. Como um n√≥: poderia ter sido feito em outro sentido, mas, mesmo assim, quando est√° dado, o sapato fica preso no p√© do mesmo jeito. N√£o se trata de um pensamento, mas do tra√ßo de um pensamento. Leio Cioran a toda hora, em todos os sentidos. √Č muito bem escrito. Com ele, o esp√≠rito transforma a mat√©ria. Cioran me oferece uma mat√©ria da qual o esp√≠rito se nutre.

Pergunta РMas o que é que tanto o seduz nos aforismos?

Godard – Seu aspecto de central de triagem. A gente entra, sai, retorna. Quando encontramos um bom pensamento, podemos nos demorar nele por muito tempo, e depois carreg√°-lo conosco. N√£o √© preciso ler tudo. Gosto muito de Fernando Pessoa, mas ele √© muito sombrio, enquanto Cioran nos ajuda a viver. √Č uma forma de pensamento diferente daquele pensamento com come√ßo, meio e fim. N√£o √© uma hist√≥ria que se conta, mas um momento da hist√≥ria.

Pergunta – Percebe-se que o sr. assinalou trechos das “Obras Completas”, de Cioran -√© verdade?

Godard – Coisas como “cada pensamento deveria lembrar a decad√™ncia de um sorriso”, “somos todos farsantes, sobrevivemos a nossos problemas”, “todo problema profana um mist√©rio, e este, por sua vez, √© profanado por sua solu√ß√£o”, “a palidez nos mostra at√© onde o corpo √© capaz de compreender a alma”, “cedo ou tarde, cada desejo deve encontrar seu esgotamento, sua verdade”… Sem falar neste, que me agrada especialmente: “Obje√ß√£o a fazer √† ci√™ncia: o mundo n√£o merece ser conhecido”. √Č muito diferente das idiotices de Georges Charpak. Os cientistas que se permitem escrever, sem saber escrever -isso n√£o! “La Logique du Vivant”, de Fran√ßois Jacob, estava escrito. Prefiro Buffon: o estilo √© o pr√≥prio homem. Levinas tinha id√©ias bonitas, mas era incapaz de transmiti-las devido ao problema da l√≠ngua. A mesma coisa aconteceu com Popper e Einstein. H√° um esgotamento do saber escrever. J√° Cioran… Eu havia esquecido o seguinte: “No contato com os homens, perdi o frescor de minhas neuroses”.

[Entrevista completa]

Entretien avec Aurel Cioran (1914-1997), par Claudio Mutti

Emil-si-Aurel-CioranParu dans VOXNR.Com, dimanche, 2 f√©vrier 2003. Propos recueillis √† Sibiu le 3 ao√Ľt 1995 par Claudio Mutti et parus dans la revue Origini, n¬į 13/f√©vrier 1996.

Q.: Dans la nouvelle nomenclature des rues de Bucarest, on trouve aujourd’hui le nom de Mircea Eliade, mais √† Sibiu, il n’y a pas encore de rue portant le nom d’Emil Cioran. Que repr√©sente Cioran pour ses concitoyens de Sibiu √† l’heure actuelle?

AC: Donner un nom √† une rue ou √† une place d√©pend des autorit√©s municipales. Normalement, il faut qu’un peu de temps passe apr√®s la mort d’une personnalit√© pour que son nom entre dans la toponymie. Quant √† ce qui concerne les habitants de Sibiu et en particulier les intellectuels locaux, ils ne seront pas en mesure de donner une r√©ponse pr√©cise √† votre question.

Q.: Je vais vous la formuler autrement. Dans une ville o√Ļ il y a une facult√© de th√©ologie, comment est accueilli un penseur aussi n√©gativiste (du moins en apparence…) que votre fr√®re?

AC: Vous avez bien fait d’ajouter en apparence. Dans un passage o√Ļ il parle de lui-m√™me √† la troisi√®me personne et qui a √©t√© publi√© pour la premi√®re fois dans les Ňíuvres compl√®tes de Gallimard, mon fr√®re parle tr√®s exactement du ¬≥paradoxe d’une pens√©e en apparence n√©gative. Il √©crit: “Nous sommes en pr√©sence d’une Ňďuvre √† la fois religieuse et antireligieuse o√Ļ s’exprime une sensibilit√© mystique”. En effet, je consid√®re qu’il est tout √† fait absurde de coller l’√©tiquette d’ath√©e sur le dos de mon fr√®re, comme on l’a fait depuis tant d’ann√©es. Mon fr√®re parle de Dieu sur chacune des pages qu’il a √©crites, avec les accents d’un v√©ritable mystique original. C’est justement sur ce th√®me que je suis intervenu lors d’un symposium qui a eu lieu ici √† Sibiu. Je vais vous citer un autre passage qui remonte √† 1990 et qui a √©t√© publi√© en roumain dans la revue Agor√†: “Personnellement, je crois que la religion va beaucoup plus en profondeur que toute autre forme de r√©flexion √©manant de l’esprit humain et que la vraie vision de la vie est la vision religieuse. L’homme qui n’est pas pass√© par le filtre de la religion et qui n’a jamais connu la tentation religieuse est un homme vide. Pour moi, l’histoire universelle √©quivaut au d√©ploiement du p√©ch√© originel et c’est de ce c√īt√©-l√† que je me sens le plus proche de la religion”… [+]

Cioran: conversaci√≥n con Fernando Savater

“Creo que la filosof√≠a no es posible m√°s que como fragmento. En forma de explosi√≥n. Ya no es posible ponerse a elaborar capitulo tras capitulo, en forma de tratado. En este sentido, Nietzsche fue sumamente liberador. Fue el quien sabote√≥ el estilo de la filosof√≠a acad√©mica, quien atent√≥¬†contra la idea de sistema. Ha sido liberador porque tras √©l puede decirse cualquier cosa… Ahora todos somos fragmentistas, incluso cuando escribimos libros de apariencia coordinada. Va tambi√©n con nuestro estilo de civilizaci√≥n.”

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Aparecida bajo el t√≠tulo ¬ęEscribir para despertar¬Ľ en el diaro El Pais del d√≠a 23 de octubre de 1977.

Extraído de CIORAN, E. M., Conversaciones.  Trad. de Carlos Manzano. Barcelona, Tusquets (Marginales 146), 1997, ps. 17-26.

Si les comprendo bien, me preguntan ustedes por qu√© no he elegido rotundamente el silencio, en lugar de merodear en tomo a √©l, y me reprochan explayarme en lamentos en lugar de callarme. Para empezar, no todo el mundo tiene la suerte de morir joven. Mi primer libro lo escrib√≠ en rumano a los veinti√ļn anos, prometi√©ndome no volver a escribir nada m√°s. Luego escrib√≠ otro, seguido de la misma promesa. La comedia se ha repetido durante m√°s de cuarenta a√Īos. Por qu√©? Porque escribir, por poco que sea, me ha ayudado a pasar los anos, pues las obsesiones expresadas quedan debilitadas y superadas a medias. Estoy seguro de que si no hubiese emborronado papel, me hubiera matado hace mucho. Escribir es un alivio extraordinario. Y publicar tambi√©n. Esto les parecer√° rid√≠culo y, sin embargo, es muy cierto. Pues un libro es vuestra vida, o una parte de ella, que se os hace exterior. Se desprende uno de todo lo que ama y sobre todo de todo lo que detesta en uno mismo. Ir√© m√°s lejos, si no hubiese escrito, hubiera podido convertirme en un asesino. La expresi√≥n es una liberaci√≥n. Les aconsejo que hagan el ejercicio siguiente: cuando odien a alguien y sientan ganas de liquidarle, cojan un trozo de papel y escriban que Fulano es un puerco, un bandido, un cr√°pula, un monstruo. En seguida advertir√°n que ya le odian menos. Es precisamente lo mismo que yo he hecho respecto a m√≠ mismo. He escrito para injuriar a la vida y para injuriarme. .Resultado? Me he soportado mejor y he soportado mejor la vida.

Cioran, ¬Ņqu√© podr√≠a usted a√Īadir a esto?

¬°Realmente no podr√≠a a√Īadir nada m√°s…! ¬°o quiz√° decir cualquier cosa! En realidad es una cuesti√≥n de vitalidad. Para que entienda esto debo hablarle de mi origen. Hay mucho de campesino en m√≠, mi padre era un cura ortodoxo rural y yo nac√≠ entre monta√Īas, en los C√°rpatos, en un ambiente muy primitivo. Era un pueblo realmente b√°rbaro, en el que los campesinos trabajaban tremendamente toda la semana para luego gastarse la paga en una noche, emborrach√°ndose como cubas. Yo era un chico bastante robusto: !todo lo que tengo ahora de achacoso lo ten√≠a entonces de fuerte! Le interesara a usted saber que mi mayor ambici√≥n por entonces era ser el primero jugando a los bolos: a los doce o trece a√Īos jugaba con los campesinos, por dinero o por cerveza. Me pasaba el domingo jugando contra ellos y frecuentemente lograba ganarles, aunque ellos fuesen m√°s fuertes que yo, porque como no ten√≠a otra cosa que hacer me pasaba la semana practicando…

Rumania

¬ŅFue la suya una infancia feliz?

Esto es muy importante: no conozco caso de una infancia tan feliz como la m√≠a. Viv√≠a junto a los C√°rpatos, jugando libremente en el campo y en la monta√Īa, sin obligaciones ni deberes. Fue una infancia inauditamente feliz, despu√©s, hablando con la gente, nunca he encontrado nada equivalente. Yo no quer√≠a salir nunca de aquel pueblo, no olvidare jam√°s el d√≠a en que mis padres me hicieron coger un coche para llevarme al liceo en la ciudad. Fue el final de mi sue√Īo, la ruina de mi mundo.

¬ŅQue recuerda usted ante todo de Rumania?

Lo que ante todo me gusto de Rumania fue su faceta extremadamente primitiva. Hab√≠a naturalmente gente civilizada, pero lo que yo prefer√≠a eran los iletrados, los analfabetos… Hasta los veinte a√Īos nada me gustaba tanto como irme de Sibiu a las monta√Īas y hablar con los pastores, con los campesinos completamente iletrados. Pasaba el tiempo charlando y bebiendo con ellos. Creo que un espa√Īol puede entender esta faceta primitiva, muy primitiva. Habl√°bamos de cualquier cosa y yo lograba un contacto casi inmediato con ellos.

¬ŅQu√© recuerdos guarda de la situaci√≥n hist√≥rica de su pa√≠s durante su juventud?

Bueno, Europa oriental era entonces el Imperio austroh√ļngaro. Sibiu estaba enclavada en Transilvania, pertenec√≠a al Imperio: nuestra capital so√Īada era Viena. Siempre me sent√≠ de alg√ļn modo vinculado al Imperio… !en el que, sin embargo, los rumanos √©ramos esclavos! Durante la guerra del 14, mis padres fueron deportados por los h√ļngaros… Me siento muy af√≠n, psicol√≥gicamente, a los h√ļngaros, a sus gustos y costumbres. La m√ļsica h√ļngara, gitana, me emociona profunda, muy profundamente. Soy una mezcla de h√ļngaro y rumano. Es curioso, el pueblo rumano es el pueblo m√°s fatalista del mundo. Cuando yo era joven, eso me indignaba, el manejo de conceptos metaf√≠sicos dudosos ‚ÄĒcomo destino, fatalidad‚ÄĒ para explicar el mundo. Pues bien: cuanto m√°s avanzo en edad, m√°s cerca voy sinti√©ndome de mis or√≠genes. Ahora deber√≠a sentirme europeo, occidental, pero no es as√≠ en absoluto. Tras una existencia en que he conocido bastantes pa√≠ses y le√≠do muchos libros, he llegado a la conclusi√≥n de que era el campesino rumano quien ten√≠a raz√≥n. Ese campesino que no cree en nada, que piensa que el hombre est√° perdido, que no hay nada que hacer, que se siente aplastado por la historia. Esa ideolog√≠a de v√≠ctima es tambi√©n mi concepci√≥n actual, mi filosof√≠a de la historia. Realmente, toda mi formaci√≥n intelectual no me ha servido de nada.

Un libro es una herida

Usted ha escrito: ¬ęUn libro debe hurgar en las heridas, provocarlas, incluso. Un libro debe ser un peligro¬Ľ ¬ŅEn qu√© sentido son peligrosos sus libros?

Bueno, mire usted: me han dicho muchas veces que lo que yo escribo en mis libros no debe decirse. Cuando saque el Pr√©cis, el cr√≠tico de Le Monde me mand√≥ una carta de reconvenci√≥n. ¬ęUsted no se da cuenta, ese libro podr√≠a caer en manos de j√≥venes!¬Ľ Eso es absurdo. .Para que van a servir los libros? Para aprender? Eso no tiene ning√ļn inter√©s, para eso no hay m√°s que ir a clase. No, yo creo que un libro debe ser realmente una herida, debe trastornar la vida del lector de un modo u otro. Mi idea al escribir un libro es despertar a alguien, azotarle. Puesto que los libros que he escrito han surgido de mis malestares, por no decir de mis sufrimientos, es preciso que en cierto modo transmitan esto mismo al lector. No, no me gustan los libros que se leen como quien lee el peri√≥dico, un libro debe conmoverlo todo, ponerlo todo en cuesti√≥n. .Para qu√©? Bueno, no me preocupa demasiado la utilidad de lo que escribo, porque no pienso realmente nunca en el lector; escribo para m√≠, para librarme de mis obsesiones, de mis tensiones, nada m√°s. Una se√Īora escrib√≠a hace poco sobre m√≠ en Le Quotidien de Paris: ¬ęCioran escribe las cosas que cada uno se repite en voz baja¬Ľ. No escribo proponi√©ndome fabricar ¬ęun libro¬Ľ, para que alguien lo lea. No, escribo para aliviarme. Ahora bien, despu√©s, meditando sobre la funci√≥n de mis libros, es cuando pienso que debieran ser algo as√≠ como una herida. Un libro que deja a su lector igual que antes de leerlo es un libro fallido.

En todos sus libros, junto a un aspecto que podr√≠amos llamar pesimista, negro, brilla una extra√Īa alegr√≠a, un gozo inexplicable pero reconfortante y hasta vivificador.

Es curioso esto que usted me dice; me lo han dicho muchos. Vera, yo no tengo demasiados lectores, pero podr√≠a citarle casos y casos de personas que han confesado a alg√ļn conocido m√≠o: ¬ęYo me habr√≠a suicidado si no hubiera le√≠do a Cioran¬Ľ. As√≠, pues, creo que tiene usted mucha raz√≥n. Creo que la causa de esto es la pasi√≥n: yo no soy pesimista, sino violento… Esto es lo que hace vivificante a mi negaci√≥n. En realidad, cuando antes habl√°bamos de heridas, yo no entend√≠a eso de un modo negativo: !herir a alguien no equivale en modo alguno a paralizarle! Mis libros no son depresivos ni deprimentes, de igual forma que un l√°tigo no es deprimente. Los escribo con furor y pasi√≥n. Si mis libros pudiesen ser escritos en frio, eso ser√≠a peligroso. Pero yo no puedo escribir en frio, soy como un enfermo que se sobrepone febrilmente en cada caso a su enfermedad. La primera persona que ley√≥ el Breviario de podredumbre, aun en manuscrito, fue el poeta Jules de Supervielle. Era un hombre ya muy mayor, profundamente sujeto a depresiones, y me dijo: ¬ęEs incre√≠ble lo mucho que me ha estimulado su libro¬Ľ. En ese sentido, si quiere usted, soy como el diablo, que es un tipo ¬†activo, un negador que hace marchar las cosas…

Aunque usted mismo se ha encargado de deslindar su obra de la filosof√≠a propiamente dicha (verbi gratia, la carta-prologo que precede a mi Ensayo sobre Cioran), no es en modo alguno arbitrario encuadrarle dentro de esas actividades diversas, autocriticas, que ocupan el lugar vacante de la filosof√≠a tras el final de los grandes sistemas decimon√≥nicos. ¬ŅQu√© sentido tiene a√ļn la filosof√≠a, Cioran?

Creo que la filosof√≠a no es posible m√°s que como fragmento. En forma de explosi√≥n. Ya no es posible ponerse a elaborar capitulo tras capitulo, en forma de tratado. En este sentido, Nietzsche fue sumamente liberador. Fue el quien saboteo el estilo de la filosof√≠a acad√©mica, quien atento contra la idea de sistema. Ha sido liberador porque tras √©l puede decirse cualquier cosa… Ahora todos somos fragmentistas, incluso cuando escribimos libros de apariencia coordinada. Va tambi√©n con nuestro estilo de civilizaci√≥n.

Tambi√©n va en ello nuestra honradez. Nietzsche dec√≠a que en la ambici√≥n sistem√°tica hay una falta de honradez…

Sobre eso de la honradez voy a decirle algo. Cuando uno emprende un ensayo de cuarenta p√°ginas sobre lo que sea, comienza por ciertas afirmaciones previas y queda prisionero de ellas. Cierta idea de la honradez le obliga a continuar respet√°ndolas hasta el final, a no contradecirse. Sin embargo, seg√ļn va avanzando el texto, le van ofreciendo otras tentaciones, que hay que rechazar porque apartan del camino trazado. Uno est√° encerrado en un c√≠rculo trazado por uno mismo. De este modo uno se hace honorable y cae en la falsedad y en la falta de veracidad. Si esto pasa en un ensayo de cuarenta p√°ginas, ! qu√© no ocurrir√° en un sistema! Este es el drama de todo pensamiento estructurado, el no permitir la contradicci√≥n. As√≠ se cae en lo falso, se miente para resguardar la coherencia. En cambio, si uno hace fragmentos, en el curso de un mismo d√≠a puede uno decir una cosa y la contraria. .Por que? Porque surge cada fragmento de una experiencia diferente y esas experiencias s√≠ que son verdaderas: son lo m√°s importante. Se dir√° que esto es irresponsable, pero si lo es, lo ser√° en el mismo sentido en que la vida es irresponsable. Un pensamiento fragmentario refleja todos los aspectos de vuestra experiencia: un pensamiento sistem√°tico refleja solo un aspecto, el aspecto controlado, luego empobrecido. En Nietzsche, en Dostoievski, hablan todos los tipos de humanidad posibles, todas las experiencias. En el sistema solo habla el controlador, el jefe. El sistema es siempre la voz del jefe: por eso todo sistema es totalitario, mientras que el pensamiento fragmentario permanece libre.

¬ŅCu√°l fue su formaci√≥n filos√≥fica? ¬ŅQu√© fil√≥sofos le han interesado m√°s?

Bueno, en mi juventud lei mucho a Leon Chestov, que era muy conocido entonces en Rumania. Pero quien m√°s me intereso, a quien m√°s ame, esa es la palabra, fue a Georg Simmel. Ya s√© que Simmel es bastante conocido en Espa√Īa, gracias al inter√©s de Ortega por √©l, mientras que es completamente ignorado en Francia. Simmel era un escritor maravilloso, un magnifico filosofo-ensayista. Fue amigo √≠ntimo de Lukacs y Bloch, en los que influyo y que luego renegaron de √©l, lo que me parece absolutamente deshonesto. Hoy Simmel est√° completamente olvidado en Alemania, silenciado incluso, pero en su √©poca tuvo la admiraci√≥n de figuras como Thomas Mann o Rilke. Simmel tambi√©n fue un pensador fragmentario, lo mejor de su obra son fragmentos. Tambi√©n influyeron mucho en mi los pensadores alemanes de la llamada ¬ęfilosof√≠a de la vida¬Ľ, como Dilthey, etc√©tera. Por supuesto, tambi√©n lei mucho a Kierkegaard entonces, cuando a√ļn no era moda. En general, lo que m√°s me ha interesado siempre es la filosof√≠a-confesi√≥n. Lo mismo en filosof√≠a que en literatura lo que me interesa son los casos, aquellos autores de quienes puede decirse que son ¬ęcasos¬Ľ en el sentido casi cl√≠nico de la expresi√≥n. Me interesan todos aquellos que van a la cat√°strofe y tambi√©n los que lograron situarse m√°s all√° de la cat√°strofe. No puedo admirar m√°s que a aquel que ha estado a punto de derrumbarse. Por eso ame a Nietzsche o a Otto Weininger. O tambi√©n autores rusos como Rozanov, escritores religiosos que rozan constantemente la herej√≠a, tipo Dostoievski. No me marcaron los autores que son solamente una experiencia intelectual, como Husserl. De Heidegger me intereso su vertiente kierkegaardiana, no la husserliana. Pero, ante todo, busco el caso: en pensamiento o literatura tengo inter√©s ante todo por lo fr√°gil, lo precario, lo que se derrumba y tambi√©n por lo que resiste la tentaci√≥n de derrumbarse pero deja constancia de la amenaza…

¬ŅQu√© opina usted de la ¬ęnueva filosof√≠a¬Ľ francesa, brote pol√©mico del d√≠a?

Bueno, no puedo decir que los conozca a fondo, pero en general creo que se trata de gente que comienza a despertar de su sue√Īo dogm√°tico…

Usted ha escrito uno de sus mejores libros sobre el tema de la utopía.

Recuerdo muy bien el comienzo de mi inter√©s, durante una conversaci√≥n en un caf√© de Paris con Mar√≠a Zambrano, all√° por los a√Īos cincuenta. Entonces decid√≠ escribir algo sobre la utop√≠a. Me puse a leer directamente a los utopistas: Moro, Fourier, Cabet, Campanella… Al principio, con exaltaci√≥n fascinada; luego, con cansancio; finalmente, con mortal aburrimiento. Es incre√≠ble la fascinaci√≥n que ejercieron los utopistas sobre grandes esp√≠ritus: Dostoievski, por ejemplo, le√≠a a Cabet con admiraci√≥n. ¬°Cabet, que era un perfecto imb√©cil, un sub-Fourier! Todos cre√≠an que el milenio estaba por llegar: un par de a√Īos, una d√©cada a lo sumo… Tambi√©n era deprimente su optimismo, la pintura excesivamente rosa, esas mujeres de Fourier cantando mientras trabajaban en los talleres… Este optimismo ut√≥pico es frecuentemente despiadado. Recuerdo, por ejemplo, un encuentro que tuve con Teilhard de Chardin; el hombre peroraba entusi√°sticamente sobre la evoluci√≥n del cosmos hacia Cristo, el punto Omega, etc√©tera… y entonces le pregunte que pensaba del dolor humano: ¬ęEl dolor y el sufrimiento¬Ľ, me dijo ¬ęson un simple accidente de la evoluci√≥n¬Ľ. Me fui indignado, neg√°ndome a discutir con aquel d√©bil mental. Creo que la utop√≠a y los utopistas han tenido un aspecto positivo, en el siglo XIX, el de llamar la atenci√≥n sobre la desigualdad de la sociedad y urgir a remediarla. No olvidemos que el socialismo es a fin de cuentas hijo de los utopistas. Pero se basan en una idea err√≥nea, la de la perfectibilidad indefinida del hombre. Creo m√°s acertada la teor√≠a del pecado original, aunque priv√°ndola de sus connotaciones religiosas, puramente como antropolog√≠a. Ha habido una ca√≠da irremediable, una perdida que nada puede colmar. En realidad, creo que lo que me ha alejado finalmente de la tentaci√≥n utopista es mi gusto por la historia, pues la historia es el ant√≠doto de la utop√≠a. Pero, aunque la pr√°ctica de la historia sea esencialmente antiut√≥pica, es cierto que la utop√≠a hace marchar la historia, la estimula. No actuamos m√°s que bajo la fascinaci√≥n de lo imposible: lo que equivale a decir que una sociedad incapaz de dar a luz una utop√≠a y de entregarse a ella est√° amenazada por la esclerosis y la ruina. La utop√≠a, la construcci√≥n de sistemas sociales perfectos, es una debilidad muy francesa: lo que al franc√©s le falta de imaginaci√≥n metaf√≠sica, le sobra de imaginaci√≥n pol√≠tica. Fabrica impecables sistemas sociales, pero sin tener en cuenta la realidad. Es un vicio nacional: mayo del 68, por ejemplo, fue una producci√≥n constante de sistemas de todo tipo, mas ingeniosos e irrealizables unos que otros.

El poder es el mal 

La utop√≠a es, por as√≠ decirlo, el problema de un poder inmanente y no trascendente a la sociedad. ¬ŅQu√© es el poder, Cioran?

Creo que el poder es malo, muy malo. Soy resignado y fatalista frente al hecho de su existencia, pero creo que es una calamidad. Mire usted, he conocido a gente que ha llegado a tener poder y es algo terrible. ¬°Algo tan malo como un escritor que llega a hacerse celebre! Es lo mismo que llevar un uniforme; cuando se lleva uniforme ya no se es el mismo: bien, pues alcanzar el poder es llevar un uniforme invisible de forma permanente. Me pregunto: .por que un hombre normal, o aparentemente normal, acepta el poder, vivir preocupado de la ma√Īana a la noche, etc√©tera? Sin duda, porque dominar es un placer, un vicio. Por eso no hay pr√°cticamente ning√ļn caso de dictador o jefe absoluto que abandone el poder de buen grado: el caso de Sila es el √ļnico que recuerdo. El poder es diab√≥lico: el diablo no fue m√°s que un √°ngel con ambici√≥n de poder, luego ni un √°ngel puede disponer de poder impunemente. Desear el poder es la gran maldici√≥n de la humanidad.

Volviendo a la utop√≠a…

El ansia de utop√≠a es un ansia religiosa, un deseo de absoluto. La utop√≠a es la gran fragilidad de la historia, pero tambi√©n su gran fuerza. En cierto sentido, la utop√≠a es lo que rescata la historia. Ah√≠ tiene usted la campana electoral en Francia, por ejemplo: si no fuera por su componente ut√≥pico, ser√≠a una querella entre tenderos… Mire usted, yo no podr√≠a ser pol√≠tico porque creo en la cat√°strofe. Por mi parte, estoy seguro de que la historia no es el camino del para√≠so. Bueno, si soy un verdadero esc√©ptico no puedo estar seguro ni de la cat√°strofe…, !digamos que estoy casi seguro! Por eso me siento desapegado de cualquier pa√≠s, de cualquier grupo. Soy un ap√°trida metaf√≠sico, algo as√≠ como aquellos estoicos de fines del Imperio romano, que se sent√≠an ¬ęciudadanos del mundo¬Ľ, lo que es una forma de decir que no eran ciudadanos de ninguna parte.

Usted no solo ha desertado de su patria, sino tambi√©n, lo que es a√ļn m√°s importante, de su lengua.

Ese es el mayor acontecimiento que puede ocurrirle a un escritor, el m√°s dram√°tico. ¬°Las cat√°strofes hist√≥ricas no son nada al lado de esto! Yo escrib√≠ en rumano hasta el a√Īo 47. Ese a√Īo yo me encontraba en una casita cerca de Dieppe y traduc√≠a a Mallarm√© al rumano. De pronto me dije: ¬ę!Que absurdo! ¬ŅPara qu√© traducir a Mallarme a una lengua que nadie conoce?¬Ľ. Y entonces renuncie a mi lengua. Me puse a escribir en franc√©s y fue muy dif√≠cil, porque por temperamento la lengua francesa no me conviene, me hace falta una lengua salvaje, una lengua de borracho. El franc√©s fue como una camisa de fuerza para m√≠. Escribir en otra lengua es una experiencia asombrosa. Se reflexiona sobre las palabras, sobre la escritura. Cuando escrib√≠a en rumano, yo no me daba cuenta de que escrib√≠a, simplemente escrib√≠a. Las palabras no eran entonces independientes de m√≠. En cuanto me puse a escribir en franc√©s todas las palabras se hicieron conscientes, las ten√≠a delante, fuera de m√≠, en sus celdillas y las iba cogiendo: ¬ęAhora t√ļ, y ahora tu¬Ľ. Es una experiencia parecida a otra que tuve cuando llegue a Paris. Me aloje en un hotelito del Barrio Latino, y el primer d√≠a, cuando baje a telefonear a conserjer√≠a, me encontr√© al encargado del hotel, su mujer y un hijo preparando el men√ļ de comida: ¬°lo preparaban como si fuese un plan de batalla! Me qued√© asombrado: en Rumania yo hab√≠a comido siempre como un animal, bien, pero inconscientemente, sin advertir lo que significa comer. En Paris me di cuenta de que comer es un ritual, un acto de civilizaci√≥n, casi una toma de posici√≥n filos√≥fica… Del mismo modo, escribir en franc√©s dejo de ser un acto instintivo, como era cuando escrib√≠a en rumano, y adquiri√≥ una dimensi√≥n deliberada, tal como deje tambi√©n de comer inocentemente… Al cambiar de lengua, liquid√© inmediatamente el pasado, cambie totalmente la vida. Aun hoy, sin embargo, me parece que escribo una lengua que no casa con nada, sin ra√≠ces, una lengua de invernadero.

Cioran, usted ha hablado frecuentemente del hast√≠o. ¬ŅQu√© papel ha desempe√Īado en su vida el hast√≠o, el tedio?

Puedo decirle que mi vida ha estado dominada por la experiencia del tedio. He conocido ese sentimiento desde mi infancia. No se trata de ese aburrimiento que puede combatirse por medio de diversiones, con la conversaci√≥n o con los placeres, sino de un hast√≠o, por decirlo as√≠, fundamental y que consiste en esto: m√°s o menos s√ļbitamente en casa o de visita o ante el paisaje m√°s bello, todo se vac√≠a de contenido y de sentido. El vac√≠o esta en uno y fuera de uno. Todo el Universo queda aquejado de nulidad. Ya nada resulta interesante, nada merece que se apegue uno a ello. El hast√≠o es un v√©rtigo, pero un v√©rtigo tranquilo, mon√≥tono; es la revelaci√≥n de la insignificancia universal, es la certidumbre llevada hasta el estupor o hasta la suprema clarividencia de que no se puede, de que no se debe hacer nada en este mundo ni en el otro, que no existe ning√ļn mundo que pueda convenirnos y satisfacernos. A causa de esta experiencia ‚ÄĒno constante, sino recurrente, pues el hast√≠o viene por acceso, pero dura mucho m√°s que una fiebre‚ÄĒ no he podido hacer nada serio en la vida. A decir verdad, he vivido intensamente, pero sin poder integrarme en la existencia. Mi marginalidad no es accidental, sino esencial. Si Dios se aburriese, seguir√≠a siendo Dios, pero un Dios marginal. Dejemos a Dios en paz. Desde siempre, mi sue√Īo ha sido ser in√ļtil e inutilizable. Pues bien, gracias al hast√≠o he realizado ese sue√Īo. Se impone una precisi√≥n: la experiencia que acabo de describir no es necesariamente deprimente, pues a veces se ve seguida de una exaltaci√≥n que transforma el vac√≠o en incendio, en un infierno deseable…

Y mientras me dispongo a salir, doran insiste:

No olvide decirles que solo soy un marginal, un marginal que escribe para hacer despertar. Repítaselo: mis libros pueden hacer despertar.

Entrevista de Paulo Borges ao fil√≥sofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

Fonte: Todo o mundo entre ninguém Р21 de março de 2012

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais ‚Äď muito diversas entre si ‚Äď √© indispens√°vel para conhecer melhor a pr√≥pria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, s√£o fruto da mesma matriz lingu√≠stica e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes √†s do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz lingu√≠stica e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais op√ß√Ķes que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civiliza√ß√£o dela surgida. N√£o √© poss√≠vel compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chin√™s, como hoje mostra Fran√ßois Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz lingu√≠stica, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generaliza√ß√Ķes sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experi√™ncia directa e pr√©-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fen√≥menos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Plat√£o e Arist√≥teles, optou pela determina√ß√£o conceptual do mundo com fins pol√≠tico-cient√≠ficos. Outra grande diferen√ßa √© o antropocentrismo do pensamento ocidental p√≥s-socr√°tico – raiz da actual crise ecol√≥gica e da devasta√ß√£o da Terra e dos seres vivos – perante a tendencial empatia c√≥smica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradi√ß√Ķes s√£o sempre muito mais interligadas do que as hist√≥rias da filosofia nos levam a crer. N√£o h√° culturas, mas sim entre-culturas… [+]

Entrevista: “¬ŅQu√© pasa con este pueblo?: Emil Cior√°n”

TRAS LA COLA DE LA RATA publicar√° en tres entregas la √ļltima entrevista a Emil Cior√°n realizada por Vasile Andru (2). Traducida, comentada y adaptada ¬†del ¬†rumano al espa√Īol por Miguel √Āngel ¬†G√≥mez ¬†Mendoza*.

*Profesor  titular  de  la  Facultad  de  Ciencias  de  la Educación РUniversidad Tecnológica de Pereira (Colombia)

‚ÄúCe‚ÄďicupoporulńÉsta?‚ÄĚ √ļltima interview a Emil Cioran En: http://convorbiri-literare.ro/?p=4461 Consulta 31-10-2015) En: Revista Convorbiri literare, nr 5/ 15 de junio ¬†de 2015. Entrevista con Vasile Andru. Emil¬†Cioran muri√≥ en Paris el 20 de junio ¬†de 1995.

*

Me encuentro en la vivienda del filósofo, en París, en la Calle Odeon. Tuve la dirección gracias a Monica Lovinescu (3). Es septiembre de 1991.

Le ¬†digo al maestro que en ¬†Rumania es el ‚ÄúA√Īo Emil ¬†Cioran‚ÄĚ, el ¬†a√Īo de la recuperaci√≥n de sus libros, de su prestigio. Se sorprende. No se entusiasma mucho.

Le comento: el mi√©rcoles me encontr√© con Virgil ¬†Ierunca (4). Hablamos sobre la inexistencia de la literatura rumana en Occidente. ¬°Alguna vez nos arm√°bamos de¬†valor diciendo que los pa√≠ses peque√Īos apuntan por la oportunidad cultural! Y no por aquella econ√≥mica, y tampoco por la pol√≠tica, pero pueden tenerla por la del esp√≠ritu. ¬†¬°C√≥mo si esto ¬†fuera ¬†simple! ¬†Somos an√≥nimos del ¬†planeta. Los escritores del exilio no son conocidos. Constataci√≥n triste, ¬†realista. Petru Dumitru (5) ‚Äďc‚Äôest fini. VintilńÉ ¬†Horia (6) ‚Äďolvidado despu√©s de su momento de ¬†gloria. Paul Goma (7) public√≥ once libros en Francia, ¬†pero no es conocido por¬† los franceses. Le pregunt√© a Virgil Ierunca: ¬ŅPor ¬†qu√© ¬†sucede as√≠? Virgiel ¬†Ierunca me ¬†respondi√≥ ‚ÄúEl ¬†√ļnico ¬†escritor rumano contempor√°neo conocido en ¬†el ¬†mundo es Emil ¬†Cioran. Es¬† popular, es cl√°sico, aparece citado hasta en las revistas de moda, ¬°quiere decir que lleg√≥ a este estadio de recepci√≥n p√ļblica! ¬†Es el escritor ¬†rumano que tuvo √©xito.

*

Emil¬† Cioran: ¬ŅTuve ¬†√©xito? ¬†(Silencio, sonrisas) Escrib√≠ ¬†poco. No me ¬†involucr√© en pol√≠tica. Ni en pol√≠tica ¬†literaria. ¬†La pol√≠tica es un asunto de temperamento. Viv√≠ por fuera. No me involucr√© en nada, en grupos, en nada… [+]

Segunda parte

Tercera parte

Entrevista: Fernando Klabin e a tradu√ß√£o do romeno

EMCioranbr ‚Äď Voc√™ √© um brasileiro fluente em romeno, tradutor juramentado e tudo mais. Isso n√£o √© muito comum. Permita-me perguntar: como ‚Äúchegou‚ÄĚ √† Rom√™nia, √† l√≠ngua romena. Como se deu esse encontro?

FK ‚Äď Na verdade, mais correto seria dizer que a Rom√™nia ‚Äúchegou‚ÄĚ at√© mim, abra√ßando-me numa esp√©cie de acidente de percurso. Devido a minhas pr√≥prias ra√≠zes, sempre tive uma curiosidade acentuada pelo Leste Europeu, mas jamais imaginei que um dia despencaria e, mais, permaneceria na Rom√™nia ‚Äď pa√≠s que, at√© minha primeira visita em 1996, s√≥ conhecia atrav√©s da minha cole√ß√£o de selos. Em seguida, devido a um de certa forma misterioso ‚Äúparentesco‚ÄĚ dif√≠cil de explicar entre as mentalidades brasileira e romena, absorver a l√≠ngua e adentrar na cultura local foi e tem sido um processo t√£o prazeroso quanto irreprim√≠vel.

EMCioranbr ‚Äď Quanto a Cioran, especificamente, como surgiu a ideia de traduzir ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ? Foi sua a iniciativa? Voc√™ tem algum trabalho voltado especificamente √† obra de Cioran?

FK ‚Äď Ainda em S√£o Paulo, minha primeira leitura de Cioran ‚Äď o ‚ÄúBrevi√°rio de Decomposi√ß√£o‚ÄĚ, traduzido pelo fil√≥sofo Jos√© Thomaz Brum e publicado pela Rocco ‚Äď impressionou-me profundamente. De modo que, t√£o logo me vi em sua terra natal, apressei-me em ler, no ano 2000, no original romeno, seu primeiro livro, ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ. Meu interesse pelo fil√≥sofo aumentou e, √† medida em que o conhecimento da l√≠ngua me permitia, passei √† leitura do resto de suas obras escritas em romeno, almejando um dia poder traduzi-las para o portugu√™s, tendo em vista ademais que, no Brasil, s√≥ suas obras francesas t√™m sido promovidas. Foi h√° pouco tempo que encontrei na editora Hedra acolhida generosa para publicar ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ, aonde quase literalmente chegamos durante uma dif√≠c√≠lima negocia√ß√£o relacionada aos direitos de autor. Tenho muita vontade de traduzir as outras obras romenas de Cioran, embora n√£o haja ainda um sinal concreto de qualquer editora interessada.

EMCioranbr ‚Äď Paulo Bezerra, que traduziu Dostoievski, disse que o of√≠cio do tradutor envolve muita inventividade, tanto quanto para criar. Voc√™ traduziu As seis doen√ßas do esp√≠rito contempor√Ęneo, do fil√≥sofo e amigo de Cioran, Constantin Noica. ‚ÄúNos cumes…‚ÄĚ parece um livro muito diferente, em forma e conte√ļdo, daquele de Noica. Como foi traduzir Cioran do romeno para o portugu√™s? O estilo, o tom, o ritmo, tudo isso √© dif√≠cil de ser preservado no nosso idioma?

FK ‚Äď A tradu√ß√£o √© sempre, mais ou menos, uma doce trai√ß√£o. E, desde o in√≠cio, √© necess√°rio assumir uma determinada abordagem, que inevitavelmente vai sempre favorecer algo em detrimento de outra coisa. A minha abordagem, no caso de textos filos√≥ficos, √© a de procurar interferir o m√≠nimo poss√≠vel. Quero acreditar que as surpreendentes semelhan√ßas entre o romeno e o portugu√™s permitam, at√© certo ponto, essa transposi√ß√£o quase direta em certos trechos. Noica me parece mais apol√≠neo diante do dionis√≠aco Cioran, traduzi-los foram experi√™ncias muito diferentes entre si, mesmo porque meu dom√≠nio da l√≠ngua e da cultura romenas se aprofundaram nos mais de 10 anos que separam ambas as tradu√ß√Ķes. Acredito que manter o fraseado e o estilo de Cioran quase que por meio de uma transposi√ß√£o, como se¬† um espelho brasileiro refletisse o livro romeno, favore√ßa a manuten√ß√£o das id√©ias do autor, ajudando o leitor a apreend√™-las ‚Äď talvez mais cruas e r√≠gidas, por√©m mais aut√™nticas.

EMCioranbr ‚Äď O que haveria de especificamente romeno, em termos de linguagem (estilo, constru√ß√Ķes sem√Ęnticas, etc.), em ‚ÄúNos Cumes…‚ÄĚ, em contraste com a escritura francesa de Cioran?

FK ‚Äď O franc√™s √© uma l√≠ngua de eleg√Ęncia e sonoridade tais, que at√© as impreca√ß√Ķes soam como um elogio. Ao meu ver, Cioran fez extremo bom uso da plasticidade da l√≠ngua francesa, nela revestindo, com ainda mais charme e sedu√ß√£o, sua torrente de id√©ias. √Č necess√°rio lembrar que justamente suas primeiras obras foram escritas em romeno e que, mesmo que Cioran continuasse filosofando em romeno, haveria um inevit√°vel contraste entre sua escrita de juventude e sua escrita madura. Suas obras juvenis, de qualquer modo, chamam a aten√ß√£o, para al√©m dos temas incandescentemente abordados, pelo estilo distinto que a l√≠ngua romena imprime ao discurso e pela identifica√ß√£o das id√©ias embrion√°rias que, mais tarde, Cioran revisitar√° e desenvolver√°, com reconhecida maestria, favorecido pela dimens√£o art√≠stica e mesmo histri√īnica do idioma franc√™s.

EMCioranbr: Por mais que o livro n√£o permita adivinhar por si s√≥, pelo seu teor introspectivo, ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ √© contempor√Ęneo de um drama coletivo e pol√≠tico, a saber, a agonia de uma Rom√™nia entre guerras lutando por sua independ√™ncia. Mais ou menos na mesma √©poca, o autor de ‚ÄúNos Cumes…‚ÄĚ publicaria um libelo pol√≠tico, Schimbarea la faŇ£«é a Rom√Ęniei (‚ÄúTransfigura√ß√£o da Rom√™nia‚ÄĚ), que se tornaria, para a posteridade, o registro ingl√≥rio dos excessos e del√≠rios totalit√°rios de um jovem Cioran. √Č poss√≠vel tra√ßar paralelos entre Pe Culmile Disper«érii e Schimbarea la faŇ£«é a Rom√Ęniei?

FK ‚Äď Acredito que o pr√≥prio Cioran possa nos oferecer elementos para uma resposta. Num breve pref√°cio de 1990 √† edi√ß√£o romena de ‚ÄúA Transfigura√ß√£o da Rom√™nia‚ÄĚ, o autor diz ter escrito ‚Äúestas divaga√ß√Ķes em 1935-36, aos 24 anos, com paix√£o e orgulho. De tudo o que publiquei em romeno e franc√™s, este texto √© talvez o mais apaixonado e ao mesmo tempo o que me √© mais alheio. N√£o me reencontro nele, embora pare√ßa-me evidente a presen√ßa da minha histeria de ent√£o. Julguei ser minha obriga√ß√£o suprimir algumas p√°ginas pretensiosas e est√ļpidas.‚ÄĚ Num pref√°cio √† edi√ß√£o francesa de ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ, Cioran confessa ter escapado do suic√≠dio ao escrever aquele livro durante suas noites insones. Pode-se dizer que, embora abordem temas diferentes, ambas as obras se valem do mesmo motor: aquela rebeldia, aquele excesso juvenis que, com o tempo, Cioran contemporiza na eleg√Ęncia da l√≠ngua francesa e na lucidez de uma ironia impossivelmente √°cida ‚Äď onde a mera provoca√ß√£o transcende para acusar Deus e a humanidade de uma culpa da qual n√£o conseguimos nos livrar.

EMCioranbr ‚Äď ¬†Uma anota√ß√£o extra√≠da dos Cahiers traz uma lembran√ßa de voc√°bulos romenos que teriam guardado, para Cioran, depois de anos, um significado pessoal profundo. Diz ele: ‚ÄúDo meu pa√≠s eu herdei o niilismo inato, seu tra√ßo fundamental, sua √ļnica originalidade. ZńÉdńÉrnicie, nimicnicie ‚Äď essas palavras extraordin√°rias, n√£o, essas n√£o s√£o palavras, s√£o a realidade do nosso sangue, do meu sangue.‚ÄĚ Cioran costuma se referir aos romenos como um povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, c√©tico em rela√ß√£o ao destino… Poderia nos dizer o que significam zńÉdńÉrnicie e nimicnicie? Qual √©, de fato, a relev√Ęncia destes termos no imagin√°rio coletivo romeno? De resto, em que medida essa representa√ß√£o que Cioran faz dos romenos n√£o √© uma idealiza√ß√£o subjetiva e caricatural que revela mais sobre ele que sobre os romenos de modo geral?

FK ‚Äď Quero acreditar que, ao evocar esses dois termos, de certo modo eruditos no idioma romeno, e que significam vaidade ‚Äď no sentido do Eclesiastes ‚Äď e ¬†insignific√Ęncia, Cioran faz men√ß√£o a uma profunda sabedoria que o povo romeno desenvolveu ao longo dos s√©culos, e que o transformou, como bem diz, num povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, c√©tico em rela√ß√£o ao destino. Essa experi√™ncia secular foi a de ser invadido ou subjugado pelos mais variados povos. E a rea√ß√£o romena foi resumida num prov√©rbio freq√ľentemente repetido: cabe√ßa baixa, espada n√£o corta.

EMCioranbr ‚Äď Por fim, podemos esperar, no futuro, novas tradu√ß√Ķes de livros romenos de Cioran?

FK ‚Äď A depender dos meus esfor√ßos, sem d√ļvida que sim. E espero que um mais aprofundado conhecimento de Cioran por parte do leitor brasileiro abra as portas na dire√ß√£o de outros autores romenos t√£o importantes quanto ele, mas que n√£o gozaram da mesma proje√ß√£o internacional, sobretudo por terem permanecido na Rom√™nia.