“Cioran ou la maladie de l’éternité” (Pierre Nepveu)

Pierre Nepveu “Cioran ou la maladie de l’éternité .” Études françaises 371 (2001), “La construction de l’éternité”: 11–21. DOI : 10.7202/008838ar [Pdf]

« Éternité: je me demande comment, sans en perdre la raison, j’ai pu articuler tant de fois ce mot. » Un homme revenu de tout, qui a presque atteint l’âge de 70 ans, se retourne étonné sur son passé et constate le pouvoir extrême qu’a eu sur lui un terme à la fois simple et grandiose, un concept fait pour les religieux, les saints, les mystiques, une notion sans contours qui, comme d’autres qui fraternisent avec elle, absolu, infini, immortalité, paraît propice aux pensées vagues et exaltées, aux fuites vers le pur silence de la contemplation. Éternité: pas même une phrase mais simplement un mot, une pure exclamation, comme dans la bouche enfantine de sainte Thérèse d’Avila qui « à six ans lisait des vies de martyrs en criant : “Éternité ! éternité !” » (O, 289).

Inséparable d’une profonde imprégnation dans la souffrance et d’une imminence de la déraison, la notion d’éternité paraît ainsi liée chez Cioran à une épreuve des mots, plus précisément à une expérience limite de la langue, là où celle-ci atteint une sorte de paroxysme de la précarité, là où, par trop d’intensité, elle risque de sombrer dans le nonsens. La forme de l’aphorisme, expression privilégiée du « classicisme »
de Cioran et de son moralisme pervers, aura toujours été inséparable chez lui de cette expérience panique de la langue : « Ne cultivent l’aphorisme que ceux qui ont connu la peur au milieu des mots, cette peur de crouler avec tous les mots» (O, 747). Malgré la tournure impersonnelle, on peut être sûr que l’homme qui énonce cette pensée a vécu le plus intensément possible cette peur, la proximité effrayante d’une catastrophe sémantique, d’une gigantesque et fatale déroute du langage… [+]

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“Tempo, eternidade e tédio em Cioran”, por Victória Monteiro de Lima

Victória Monteiro estuda Filosofia na Universidade São Judas Tadeu (USJT). Descobriu Cioran a partir de estudos sobre Ceticismo e Dogmatismo. Contribui regularmente para o blog Colunas Tortas.

“Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. ”

Fernando Pessoa em O livro do desassossego

Das angústias ambientadas nas ruas e nos estabelecimentos de Lisboa às angústias ambientadas nas ruas de Sibiu e numa mansarda em Paris: Emil Cioran expressou, em seus ensaios e textos aforismáticos, um descontentamento visceral em relação a todo o vigor da humanidade que, cega quanto às suas próprias dimensões, dispõe-se aos maiores empreendimentos quando a marcha da História se dá, em realidade, em um universo vazio de significação. Por meio de um pensamento lírico e “orgânico”, chegou a conclusões sobre a nulidade das ações – e das pretensões – humanas que culminaram no que se pode chamar de “negação absoluta”, assim descrita por Rossano Pecoraro:

“É dizer não aos truques da razão, às pretensões da Filosofia, às violências da verdade, às ilusões sobre o homem e a sua História, às utopias, às promessas de uma redenção, às esperanças, aos enganos do conhecimento, (…).” [1]

Cioran foi quem levou as indagações metafísicas às suas últimas consequências, despojando a vida dos adereços fantasiosos que a tornam tolerável frente ao Nada. A insônia, mal que o acompanharia durante muitos anos a partir de sua juventude em Sibiu, desvelaria a ciclicidade do tempo, o que traria ao jovem pensador uma percepção exclusiva àqueles desprovidos da ilusão de “recomeço” fornecida por uma noite de sono.

Em sua obra, a experiência do ennui, comumente traduzido como “tédio”, mas também possivelmente como “enfado”, “aborrecimento” ou “fastio”, deriva desta experiência contemplativa do tempo; do devir e sua digressão frente à eternidade, assim como de seu decorrente fato dilacerante: “tudo passa”.

Em Breviário de decomposição, Cioran alude a esta experiência como a de uma tarde de domingo interminável, já que nelas a ausência da ação nos revela o tempo em sua “nudez”.
E quando o tempo se lhe nos apresenta desta forma, nos mostrando a inanidade de qualquer ação (não apenas enclausurada em sua temporalidade, mas executada como mero pretexto de nos mantermos vivos), de onde poderá vir a disposição e o afinco que tornam possível cada uma de nossas empresas, desde tomar o café da manhã a dar cabo à História? Como poderíamos continuar agindo sem a sensação de sermos marionetes, presas às nossas ilusões?

“O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta ou inventa – a vida.” [2]

Só se pode viver com uma noção enganosa de nossa temporalidade, a qual compreendemos em termos de “dias”, “meses”, “anos”, mas não sendo esta se não uma compreensão limitada do tempo mesmo que, em seu curso irrefreável e eterno, tudo arrasta. Contemplá-lo é não poder viver no momento e, de certo modo, invejar os que podem, pois “a vida só tem sentido pela violação do tempo”. [3] Os acontecimentos humanos, por sua vez, não possuindo importância em si mesmos, parecem-nos um espetáculo cômico quando observados de fora.

O tédio é o resultado inevitável desta clarividência: a máxima “tudo passa” deixa de ser um clichê paliativo e cria raízes na consciência. Quando compreendido em seu fluir ininterrupto, o tempo torna insossas todas as possibilidades. O conhecimento de nossa situação no universo e, além disso, seu sentimento constante, nos deixa prostrados, e cria uma distinção entre aqueles que “vivem como se fossem eternos” e aqueles que “pensam continuamente sua eternidade e a negam em cada pensamento”. [4]

No entanto, Cioran não propõe objetivamente algum modo de libertação desta condição. Nem mesmo o suicídio é uma opção, embora seja uma obsessão subsequente, pois representaria a frustração de um otimista, mas não a resignação de um pessimista, indiferente à vida e à morte. Ao contrário, ele sugere que o mais sensato é levar esta lucidez, que nada mais é do que a consciência do que significa “existir”, às suas últimas consequências, esgotando-a por exaustão.

“Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podridão, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhará para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado que não pode mais viver. Seu ‘método’ o terá curado da vida e da morte.” [5]

Frente ao tédio, o próprio desespero converte-se em atividade legítima. O que mantém o niilista vivo, além de um imperativo biológico de autopreservação, é a possibilidade de encontrar novidade na angústia. Em Silogismos da Amargura, Cioran afirma que sua fonte de vida é a substituição de um desgosto por outro.

“À deriva no Vago, agarro-me ao menor desgosto como a uma tábua de salvação.” [6] e “O segredo de minha adapatção à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.” [7]

Em lugar da angústia, somente se vislumbra o êxtase ou o próprio tédio, este estado de apatia. O menos insensato seria encarar a vida em sua condição trivial, e encontrar-se em relação de frivolidade com o mundo; lançar-se na “busca do superficial”. Por isto destacam-se, em sua indiferença ou despretensão, os desocupados, os preguiçosos, os cínicos, os céticos, os estetas e as prostitutas. Todos aqueles que não se deixam levar pelas promessas da atualização e do conhecimento, exercitando-se no tempo sem que com isso sejam embaídos por ele.

[1] PECORARO, R., Cioran, a filosofia em chamas.Porto Alegre, EDIPUCRS, 2004, p.13
[2] CIORAN, Breviário de decomposição.Tradução: José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 27
[3] Ibidem, p. 48
[4] Ibidem, p. 23
[5] Ibidem, p. 25
[6] CIORAN, Silogismos da Amargura. Tradução: José Thomaz Brum. Rio de Janeiro, Rocco, 2011, p. 57
[7] Ibidem, p. 102