Cioran: ‚ÄúComo Pascal, busco raz√Ķes para n√£o crer‚ÄĚ (carta a George BńÉlan)

9788857541488_0_0_0_75Publicado em Avvenire.it, quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O pensador romeno confessa nesta carta a sua luta com o sagrado: ‚ÄúUma das coisas que mais bem entendo √© a prece e as raz√Ķes que levam a ela, o terr√≠vel dilaceramento do qual deriva.‚ÄĚ

A carta in√©dita que aqui √© extra√≠da do epistol√°rio entre Emil Cioran e o music√≥logo e te√≥logo romeno George BńÉlan, agora publicado por Edizioni Mimesis, da It√°lia, no volume Tra inquietudine e fede. Corrispondenza (1967-1992).

Paris, 6 de dezembro de 1967

Caro senhor BńÉlan,

Eu te agrade√ßo pela carta e pelas revistas. Conhe√ßo o seu artigo sobre Bayreuth porque recebo [a revista romena] Contemporanul. Se tivesse assistido ao festival, teria reagido como voc√™: √© inconceb√≠vel compartilhar o culto a um ‚Äúdeus‚ÄĚ t√£o prolixo e enfadonho. Creio que fez bem em manter a dist√Ęncia. Interessa-me o que voc√™ diz sobre a compatibilidade entre a f√© e a inquietude.

√Č justo que fique surpreso com todas as minhas reflex√Ķes em que sublinho a separa√ß√£o quase absoluta entre as duas atitudes. N√£o se esque√ßa, contudo, que toda minha vida foi uma busca fren√©tica, acrescida do medo de encontrar. Tal anomalia irrompe sobretudo em √Ęmbito religioso. Estou certo de ter buscado Deus, mas agora estou ainda mais certo de ter feito tudo para n√£o encontr√°-lo. Um amigo franc√™s me disse um dia que eu sou como um Pascal que inventa qualquer raz√£o para n√£o crer. Voc√™ poderia objetar: ‚ÄúEm tais condi√ß√Ķes, para que ler os m√≠sticos e discuti-los? Por que tratar do problema religioso?‚ÄĚ

Eu poderia dar-lhe muitas respostas, mas vou me referir a uma apenas, a principal, ao menos no que me concerne: n√£o foi por necessidade de certeza, nem por um impulso interior e tampouco por curiosidade metaf√≠sica que eu fui ao encontro de Deus; a origem de todos meus gritos a Ele, como tamb√©m de todo o sarcasmo com o qual eu o glorifiquei, deve ser buscada em um sentimento de total e opressiva solid√£o, ao cabo da qual Deus aparece, por assim dizer, automaticamente. Ele nunca teria aparecido na minha exist√™ncia se a minha solid√£o n√£o fosse maior do que eu. Mas como ela ia al√©m das minhas for√ßas, era necess√°rio que houvesse algu√©m para me ajudar a super√°-la. N√£o tem nada a ver com a f√©; √© o fruto passageiro de um daqueles momentos dif√≠ceis, quase insuport√°veis, que eu conheci e ainda conhe√ßo. Eis porque uma das coisas que entendo mais bem, at√© hoje, √© a prece ‚Äď vale dizer, as raz√Ķes que levam a ela, o terr√≠vel dilaceramento do qual ela deriva.

Com frequ√™ncia eu comparei os meus ataques de solid√£o √†queles experimentados por um assassino depois do homic√≠dio. Acho que j√° disse que uma das obras que eu mais li na juventude foi Macbeth. Interpretada perfeitamente, com a necess√°ria paix√£o e profundidade, uma obra como esta me conduziria literalmente √† loucura; creio que n√£o poderia nem mesmo sobreviver ao espet√°culo… Felizmente, para mim, os atores n√£o s√£o dignos do texto. Enviei o p√īster a Mircea Eliade, pois apareciam tamb√©m ele e o seu nome. Ele cair√° na ilus√£o: √© necess√°rio que eu o informe da proibi√ß√£o. Eu deveria ter feito isso desde o in√≠cio, pois era evidente que a coisa n√£o se realizaria. Se eu ainda acreditasse na Transfigura√ß√£o… deveria retornar √† p√°tria para ver o que fizeram com as minhas ‚Äúideias‚ÄĚ… Voc√™ sublinha justamente, com ironia, a minha situa√ß√£o: toda a minha hist√≥ria √© isso, e nada al√©m disso. Eu me iludi escrevendo, n√£o lembro em qual livro, sobre a ‚Äúsantidade e as caretas do absoluto‚ÄĚ. O termo ‚Äúcareta‚ÄĚ n√£o √© apropriado se n√£o respeito as considera√ß√Ķes hist√≥ricas, etc., etc. Fico contente que as coisas tenham andado bem na ocasi√£o da sua viagem √† Transilv√Ęnia.

Muito cordialmente,

Cioran

(tradução do italiano por Rodrigo Menezes)

An√ļncios

“O homem e sua inconsist√™ncia: tra√ßos de uma leitura antropol√≥gica na filosofia de Nicol√°s G√≥mez D√°vila” (Pablo Andr√©s Villegas Giraldo)

Nicolás Gómez Dávila

Sobre Nicolas Gómez Dávila (1913-1994): Wikipedia (Esp) | Wikipedia (Ing)

Sobre Pablo Andr√©s Villegas Giraldo:¬†Fil√≥sofo, ensa√≠sta e poeta, nascido em Santa Rosa de Risaralda, na Col√īmbia. Graduou-se em Filosofia pena Universidad Tecnol√≥gica de Pereira (UTP) e, desde 2010, pertence ao grupo de investiga√ß√£o ‚ÄúFilosofia e ceticismo‚ÄĚ da mesma institui√ß√£o. Participou de congressos nacionais e internacionais com confer√™ncias sobre est√©tica e teoria da arte. Publicou trabalhos sobre Nietzsche, Bataille, Oscar Wilde, Cioran e Nicol√°s G√°mez D√°vila. Sobre o pensador bogotano foi dedicada seu trabalho de conclus√£o de curso em Filosofia. √Č autor, entre outros trabalhos, de ‚ÄúNietzsche y la voluntad de poder como arte‚ÄĚ, publicado na colet√Ęnea Em torno a Cioran ‚Äď nuevos ensayos y perspectivas (Pereira, 2014). Em 2015 ser√£o publicados ‚ÄúEl Ruise√Īor y la Rosa de √ďscar Wilde y el sentido del sacrificio‚ÄĚ, na revista argentina Realidad y Ficciones, ‚ÄúLa educaci√≥n y el escepticismo:contrastes de un fil√≥sofo aut√©ntico‚ÄĚ, no volumen de memorias do V Congreso Colombiano de Filosofia, e ‚ÄúEl escepticismo y la fe en el pensamiento de G√≥mez D√°vila‚ÄĚ, nas Mem√≥rias do V Encuentro Internacional Emil Cioran. Trabalha como revisor em diversas revistas eletr√īnicas nacionais e internacionais e redige uma coluna para o jornal El Faro sobre temas como poesia, literatura, arte, teatro, realidade social e viol√™ncia de g√™nero enfocada desde a dignidade da mulher.

*   *   *

A filosofia do pensador colombiano Nicolas G√≥mez D√°vila parece estar em uma constante tens√£o entre o ceticismo e a f√©. Pode-se ver, ao longo de sua obra e em grande parte de suas anota√ß√Ķes, essa atitude descrente que provoca a d√ļvida filos√≥fica; do mesmo modo ratifica, em outros, sua total confian√ßa em Deus e na Igreja pr√©-conciliar,[1] vista n√£o apenas como exemplo de governo hier√°rquico perfeitamente organizado, mas tamb√©m como educadora: m√£e e mestra (mater et maestra). Tanto para defender seus pr√≥prios argumentos como para atacar e criticar seus advers√°rios, o autor colombiano se vale de sua f√© atrav√©s do descr√©dito nos ideais da raz√£o, da ci√™ncia, da t√©cnica, da democracia, da modernidade e do progresso, entre outros. Mas n√£o creia o leitor que o autor deste ensaio tenha a inten√ß√£o de reduzir o pensamento de Don Nicol√°s √† tens√£o expressada no come√ßo. N√£o, de modo algum, e seria um erro pretend√™-lo, j√° que a obra de G√≥mez D√°vila √© irredut√≠vel, tem mil matizes aqui e l√° que n√£o podem ser contidos todos em uma s√≥ linha de leitura, e que est√£o deste modo estruturados, enriquecendo seu pensamento.

N√£o obstante, se tiv√©ssemos que resgatar um tra√ßo, se fosse necess√°rio determinar: ‚Äúo que √© que unifica a filosof√≠a gomezdaviliana?‚ÄĚ, concluir√≠amos sem equ√≠voco que √© essa tens√£o entre o ceticismo e a f√©. Os inimigos de G√≥mez D√°vila s√£o os inimigos da f√© cat√≥lica que se al√ßam como estandarte na modernidade e que s√£o tomados como prot√≥tipo nos anos seguintes, entre outros: o progresso, a t√©cnica, a democracia, a moda, a raz√£o divinizada, o homem emancipado de Deus, etc. E para lutar contra esses inimigos, reveste seu pensamento de ceticismo, para atac√°-los com as armas da d√ļvida, da ironia, da indetermina√ß√£o, mas tamb√©m com a m√°xima, com a senten√ßa, com a conclus√£o irrefut√°vel, com a express√£o dogm√°tica amparada na tradi√ß√£o. Para este combate, G√≥mez D√°vila recorrer√° a um estilo arcaico no qual se contam os mais antigos e cl√°ssicos fragmentos assim como os mais recentes aforismos.

Don Colacho, como o chamavam carinhosamente seus amigos mais pr√≥ximos, prefere n√£o chamar suas anota√ß√Ķes de ‚Äúaforismos‚ÄĚ mas t√£o somente como esc√≥lios. O aforismo √© ‚Äď de acordo com a defini√ß√£o mais aceita ‚Äď uma senten√ßa breve e doutrinal que se prop√Ķe como regra em alguma ci√™ncia ou arte, e neste sentido as anota√ß√Ķes de G√≥mez D√°vila n√£o t√™m nada em comum com estas aspira√ß√Ķes, ainda que algumas de suas frases s√£o t√£o breves que cabem em seis ou sete palavras, enquanto outros ocupam v√°rias linhas; por outro lado, suas frases n√£o mostram nenhuma inten√ß√£o de doutrinar, sendo ocorr√™ncias que se acrisolam com o passar dos dias, que se alimentam com as leituras do autor e que finalmente caem sobre o papel como gotas de chuva, condensadas pela paci√™ncia e pela espera. De modo que suas anota√ß√Ķes n√£o passam disso: notas √† margem, ou seja, esc√≥lios. Talvez se possa tampouco reduzir a obra do pensador bogotano a uma forma espec√≠fica, de modo que tenhamos de nos contentar com analisar cada fragmento em si mesmo e/ou recorrendo a algumas rela√ß√Ķes com o resto de sua obra, mas sem chegar a definir de maneira estrita qual √© a forma ou o esstilo de sua escritura.

Por outro lado, um esc√≥lio √© uma nota marginal que se escreve sobre um texto. Trata-se de uma pr√°tica muito antiga que remonta aos copistas alexandrinos, e que foi amplamente praticada pelos monges medievais, que tinham a dif√≠cil tarefa de transcrever s√≠mbolo por s√≠mbolo, letra por letra, tratando de nada alterar nos textos cl√°ssicos, quer se tratem de obras filos√≥ficas ou liter√°rias. Esse exerc√≠cio que se pode comparar a uma dif√≠cil pintura foi o que permitiu que muitas obras antigas fossem conservadas at√© os nossos dias, anteriormente ao surgimento da imprensa. Al√©m disso, havia, entre esses amanuenses, homens mais dotados intelectualmente que, tendo compreendido o obscuro sentido de um texto, se aventuravam a coment√°-lo, √†s vezes de forma breve (esc√≥lio), √†s vezes extensa (glosa). Don Nicol√°s n√£o √© um amanuense mas pode ser considerado, isso sim, um escoliasta, de modo que o texto comentado √© o grande miolo da sua obra ‚Äď oculto entre suas linhas nos sai um Texto Impl√≠cito que alguns ousaram definir. Um texto impl√≠cito que pode ser sua obra, sua vida, sua biblioteca, a democracia, o reacionarismo, a tradi√ß√£o ocidental, o homem, Deus, entre muitos outros, um texto impl√≠cito que n√£o √© apenas um, mas o conjunto de todos os textos impl√≠citos que habitam o pensamento de Don Colacho. Pensamento que se estende desde Textos I e Notas at√© o √ļltimo de seus esc√≥lios. Tampouco se pode, e nisso √© preciso ser radical, reduzir o que este texto cont√©m, n√£o se pode determinar de maneira nenhuma o que o impl√≠cito em sua obra nem mesmo se ele nos contasse em meio a risadas. Porque, como fora dito, n√£o √© apenas um texto a ser comentado sen√£o muitos, todos e qualquer dos mundos que habitam sua biblioteca.

Sua obra √© compar√°vel a uma pintura, como ele mesmo diz, a um autorretrato. Suas frases, assim breves, ‚Äús√£o os toques crom√°ticos de uma composi√ß√£o pointiliste.‚ÄĚ[2] Este termo faz refer√™ncia ao estilo com que alguns artistas de finais do s√©culo XIX pintavam seus quadros, o procedimento desta¬† t√©cnica consistindo em p√īr pontos de cor pura sobre a tela em vez de pinceladas; disso resulta uma uma ‚Äúcombina√ß√£o‚ÄĚ de tons que deixa a sensa√ß√£o desejada ao serem contemplados a uma certa dist√Ęncia. O leitor da obra de G√≥mez D√°vila deve ter isso em mente para que saiba distanciar-se ou aproximar-se em busca da combina√ß√£o harm√īnica de que resulta o retrato pintado pelo pensador bogotano: ‚ÄúFilosofia pointilliste: pede-se ao leitor que gentilmente fa√ßa a fus√£o dos tons puros.‚ÄĚ[3] Pode-se afirmar sem d√ļvida de que da obra gomezdaviliana brota o retrato do homem, desse homem que √©, no fundo, o sentido de toda investiga√ß√£o filos√≥fica e que, em G√≥mez D√°vila, √© o sentido e o fim do seu reacionarismo, pois, mais que um reacionarismo pol√≠tico ou religioso, o fil√≥sofo bogotano √© um reacion√°rio moralista. Isto se pode afirmar com base no fato de que seu prop√≥sito, como fora afirmado par√°grafos acima, √© descrever o homem que vive entre fragmentos, seu ceticismo antropol√≥gico ainda que soe um jogo de palavras n√£o √© mais do que uma antropologia¬† reacion√°ria.

Esta posi√ß√£o parte de deixar claro que no se trata pensar um homem idealizado, irreal, ou, neste caso, irrealiz√°vel, sen√£o um homem fr√°gil, que avan√ßa a p√© ‚Äď como dir√≠amos coloquialmente ‚Äď, esse homem que nasce rebelde, inapreens√≠vel, esquivo, cuja natureza repugna,[4] cuja condi√ß√£o deplor√°vel se quis embelezar com uma ideia falsa de dignidade humana baseada na diviniza√ß√£o da raz√£o. Mas este homem tornado Deus n√£o √© o homem real, n√£o √© o homem concreto, √© um ideal inalcan√ß√°vel produzido por sua mentalidade confundida pela n√£o aceita√ß√£o da condi√ß√£o humana tal como ela se manifesta na cotidianidade. Alguns fragmentos extra√≠dos da obra do bogotano mostram isso que foi dito: ‚ÄúO homem afirma que a vida o envilece, para esconder que ela o revela‚ÄĚ[5]; O amor que t√™m pelo homem futuro est√° constitu√≠do pelo seu √≥dio ao homem de carne e osso.‚ÄĚ[6] O primeiro se refere ao n√£o acatamento¬† da condi√ß√£o humana, a essa tend√™ncia a embelezar e deslumbrar a partir de uma ‚Äúraz√£o triunfante‚ÄĚ, do engano que revela Pascal quando afirma que o homem n√£o √© mais do que mentira, falsidade, capaz de ocultar-se a si mesmo; na verdade √© a vida que desmascara o homem e permite v√™-lo como √© na realidade, n√£o como o homem embelezado e ‚Äúmistificado‚ÄĚ, mas como um homem de carne e osso. Desse homem sem m√°scara diria Miguel de Unamuno: ‚Äúeste homem concreto, de carne e osso, √© o sujeito e ao mesmo tempo o supremo objeto de toda filosofia, queiram ou n√£o certos falsos fil√≥sofos,‚ÄĚ[7] este homem concreto √© o que pretende pintar Don Nicol√°s, √© aquele que podemos ver quando juntamos os tons puros de sua composi√ß√£o.

O retorno ao homem √© uma solicitude permanente na obra gomezdaviliana.[8] Para al√©m da cr√≠tica do autor √† m√°quina moderna e toda sua parafern√°lia progressista, o pensador dos Andes prop√Ķe voltar a mirada ao homem e apart√°-la da m√°quina; por exemplo, pensa que o moderno deveria humanizar a r t√©cnica antes de tecnicizar o homem ‚Äď e esta preocupa√ß√£o se deve ao fato de que cresce cada vez mais a aus√™ncia de humanidade no homem, de que o homem se torna cada vez mais fr√°gil, mais perdido em meio a um mundo tecnicizado, de que quanto mais elemental e n√©scio √© o homem, mais a m√°quina parece tornar-se mais complexa a cada dia. Tamb√©m descobre que o homem moderno parece n√£o se importa com sua decad√™ncia, ao ponto de n√£o prestar aten√ß√£o ao pr√≥prio conhecimento, de abandonar-se √† pr√≥pria sorte em meio √† sua ignor√Ęncia, chegando ao ponto de conhecer mais o mundo do que a si mesmo.

Aqui s√≥ se mostra uma maneira de ler esse retorno ao homem que parece a Don Colacho n√£o apenas urgente, como necess√°rio. Desde que tra√ßou seu itiner√°rio em Notas (seu primeiro livro publicado), se questionou sobre uma solu√ß√£o frente √† barb√°rie da exist√™ncia: ‚ÄúMe √© imposs√≠vel viver sem lucidez, imposs√≠vel renunciar √† plena consci√™ncia da minha vida‚ÄĚ,[9] em refer√™ncia ao princ√≠pio socr√°tico segundo o qual uma vida sem reflex√£o n√£o merece ser vivida. Neste prop√≥sito que se assume Don Colacho, e que ele tenta cumprir at√© o √ļltimo dia da sua vida, pode-se ver o princ√≠pio d√©lfico antigo gn√≥thi seaut√≥n (conhece-te a ti mesmo) que deriva nas t√©cnicas do cuidado de si. Nesta ordem de ideias, viver uma vida l√ļcida implica estar consciente de si mesmo, dos limites de sua condi√ß√£o, de sua incapacidade; mas tamb√©m de seu alcance e sobretudo de estar disposto a cuidar de sua alma. Noutras palavras, e se estendermos esta confiss√£o do pensador bogotano, √© imposs√≠vel que o homem viva realmente se n√£o fazendo-se consci√™ncia de sua condi√ß√£o de criatura: fr√°gil, fragmentado e, de fato, inconsistente, pois, pela perspectiva c√©tica de G√≥mez D√°vila, s√≥ h√° duas maneiras pelas quais o homem pode assumir sua condi√ß√£o, ou vive a si mesmo como ang√ļstia[10] ou o faz como criatura.[11]

A alternativa proposta por G√≤mez D√°vila ante o sem-sentido da vida √©, por um lado, a religi√£o, por outro, a arte. Tanto as express√Ķes art√≠sticas quanto o esp√≠rito religioso s√£o insubstitu√≠veis, inevit√°veis, e, de fato, fundamentais para se compreender essa terr√≠vel trag√©dia que √© a exist√™ncia mesma do homem, essa manifesta√ß√£o da alma humana atrav√©s dos sentidos: nas cores, nas superf√≠cies, nos sons, etc.; por outro lado, a religi√£o abre o horizonte ao homem que finalmente compreende que sua vida n√£o termina com a morte e que ao dar esse √ļltimo passo na exist√™ncia outro futuro o aguarda. Tanto o esp√≠rito religioso quanto a arte brindam essa confian√ßa de transcend√™ncia ao ser humano, essa possibilidade de prolongar-se indefinidamente. Posto que a religi√£o, assim como a arte, reponde a esse car√°ter humano de fascina√ß√£o pelo ef√™mero em que se d√£o de maneira simult√Ęnea o presente e o passado, o presente como esse fluir que se nos esvai como √°gua entre os dedos, o passado como essa possibilidade de prolongar-nos, de conservar e reter o fugidio, e √© a arte, enquanto esfor√ßo criativo, que nos permite permanecer, que perpetua os instantes atrav√©s de sua linguagem. Assim mesmo o esp√≠rito religioso busca prolongar os instantes, servindo de ind√≠cio ao crente de sua transitoriedade quando se deixa fascinar, quando se deixa atrair por sua linguagem misteriosa y simb√≥lica, quando compreende que tamb√©m compartilha a mesma condi√ß√£o fr√°gil, vacilante, inquieta, etc., e que atrav√©s dela (a religi√£o) ele pode ser transfigurado.

E, n√£o obstante, isso n√£o significa que o homem encontre as respostas a suas inquietudes na religi√£o, antes o contr√°rio: encontrar√° na religi√£o outro edif√≠cio de problemas, por ser essencialmente humana. A religi√£o cat√≥lica ‚Äď voltando ao nosso autor ‚Äď n√£o √© solu√ß√£o porque a raz√£o de ser do cristianismo √© servir de caminho,[12] de ser uma ponte entre o homem e Deus. √Č neste que o homem encontra todas as respostas e onde sua vida adquire sentido: √† medida que Nicol√°s G√≥mez D√°vila nos mostra o Criador pr√≥ximo de sua criatura, sempre que o homem saiba busc√°-lo com humildade. Deus brinda-o com sua prote√ß√£o a pesar de sua debilidade, acolhe-o apesar de sua soberba, se ‚Äď e apenas se ‚Äď o homem esteja disposto a reconhec√™-lo como seu criador. Pois, √† medida que o homem se sente criatura, Deus o faz sentir misteriosamente albergado, protegido, nunca abandonado. O Criador faz com que o homem n√£o seja mais um instrumento vazio levado pelas √°guas do progresso e da t√©cnica, que n√£o seja apenas uma pe√ßa mec√Ęnica de toda a engrenagem moderna,[13] mas que, apesar de tudo, o homem siga sendo um fim em si mesmo: ‚ÄúA Igreja [como Vic√°ria de Deus no mundo], com efeito, n√£o v√™ o homem como pe√ßa inerte sobre o tabuleiro do destino, mas como um agente insubmisso de des√≠gnios que o tem como fim.‚ÄĚ[14]

Apenas a f√©, na filosofia gomezdaviliana, aproxima o homem do seu pr√≥prio conhecimento,[15] para que tenha consci√™ncia de sua condi√ß√£o, e apenas a f√© o salva da ang√ļstia, apenas ela ‚Äď como vimos no par√°grafo anterior ‚Äď resgata-o de ser apenas um instrumento e um meio, e o revela, tal como √©, como um fim em si mesmo. Essa religi√£o filos√≥fica √© regida por dois princ√≠pios que vivem em total cumplicidade: o ceticismo e a f√©,[16] sem os quais n√£o se poderia pensar, pois apenas o ceticismo nos empurra para uma total incredulidade, a um agnosticismo, √† irresolu√ß√£o; apenas a f√© nos submete a um fide√≠smo irracional, a uma teologia sincr√©tica e absurda. Para que estes princ√≠pios convivam √© necess√°rio que se assente como base filos√≥fica do Credo in Deum a tese que ditara o pensador bogotano com o esc√≥lio: ‚ÄúDo importante n√£o h√° provas, apenas testemunhos.‚ÄĚ[17]
(Nota:¬†agrade√ßo o convite de¬†Rodrigo In√°cio Ribeiro para publicar¬†este humilde texto.¬†Escrevi-0¬†sem mais pretens√Ķes¬†que corresponder √† sua sincera amizade filos√≥fica.)

Alguns aforismos de Nicolás Gómez Dávila:

“S√≥ vive a sua vida aquele que a observa, a pensa e a diz; os demais s√£o vividos por sua vida.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“Entre poucas palavras √© t√£o¬†dif√≠cil¬†esconder-se como entre poucas √°rvores.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“As almas que n√£o s√£o teatro de conflitos s√£o palcos vazios.” (Escolios a un texto implicito)

“O mist√©rio √© o √ļnico infinito que n√£o parece pris√£o.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“O¬†cristianismo n√£o inventou a no√ß√£o de pecado,¬†mas a de perd√£o.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“S√≥ h√° epifanias no sil√™ncio dos bosques. Ou no sil√™ncio da alma.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“O fragmento inclui mais que o sistema.”¬†(Escolios a un texto implicito)

“N√£o perten√ßo¬†a um¬†mundo que perece.¬†Prolongo e¬†transmito uma verdade que n√£o morre.” (Escolios a un texto implicito)

“Entre o¬†ceticismo e a f√©¬†n√£o h√° conflito, mas pacto contra a impostura.” (Nuevos Escolios a un texto impl√≠cito)

“O moderno conhece cada dia mais o mundo e menos o homem.” (Sucesivos Escolios a un texto impl√≠cito)

“O¬†fragmento √© o¬†meio de¬†express√£o daquele que aprendeu que o homem vive entre fragmentos.” (Nuevos Escolios a un texto impl√≠cito)

“O mais¬†not√≥rio¬†das conquistas do homem √©¬†sua¬†trivialidade.” (Sucesivos Escolios a un texto impl√≠cito)

Tradução do espanhol: Rodrigo Menezes

Notas:

[1]¬†¬†¬†¬† Catolicismo pr√©-conciliar faz refer√™ncia aqui √† s√©rie de mudan√ßas na Igreja que come√ßaram a gestar-se do s√©culo XIII em diante, a abertura ao mundo universit√°rio, a chegada dos Conciliaristas (que afirmavam que o Papa devia submeter-se ao que era decidido pelos Conc√≠lios), eventos que abriam uma brecha com repercuss√Ķes importantes nos Conc√≠lios Vaticano I e II. Come√ßa uma dessacraliza√ß√£o da Igreja devido √†¬†descristianiza√ß√£o da ci√™ncia e o apogeu da Escol√°stica que introduz ideias muito question√°veis e at√© her√©ticas baseadas no pensamento de Guilherme de Occam. E o que G√≥mez D√°vila vai mais combater √© a cristianiza√ß√£o dos princ√≠pios aristot√©licos empreendida por Tom√°s de Aquino, esse ato do Aquinate desembocaria ‚Äď como n√£o h√° d√ļvida ‚Äď nas futuras Reformas e nas novas heresias da Igreja que n√£o poder√£o ser enfrentadas como antes e que v√£o deteriorar tanto sua estrutura s√≥cio-pol√≠tica quanto espiritual. O claro reflexo dessa crise da Igreja chega a um ato conclusivo e lament√°vel que conhecemos como Conc√≠lio Vaticano II, convocado po J√Ķao XXIII e conclu√≠do por Paulo VI, e cuja aplica√ß√£o permanece em nossos dias.

[2]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo I, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 15.

[3]     Gómez Dávila, Nicolás, Notas 2a ed, Bogotá, edición digital autorizada por Villegas editores, 2007, p. 401.

[4]¬†¬†¬†¬† O it√°lico pertence ao fragmento: ‚ÄúO homem nasce rebelde. Sua natureza o repugna.‚ÄĚ G√≥mez D√°vila, Nicol√°s,Textos I,¬†Bogot√°, edici√≥n digital autorizada por Villegas editores, p. 2.

[5]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo II, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 102.

[6]     Gómez Dávila, Notas, óp. Cit., p.75.

[7]     Unamuno, Miguel de, Del sentimiento trágico de la vida, Edición digital publicada por Medellín ciudad digital, p. 1.

[8]¬†¬†¬†¬† Leia-se, por exemplo, o esc√≥lio: ‚ÄúA filosof√≠a precisa retornar ao homem a cada tantos s√©culos.‚ÄĚ G√≥mez D√°vila, Nicol√°s, Nuevos escolios a un texto impl√≠cito, Tomo II, Bogot√°, Villegas editores, 2005, p. 111.

[9]     Notas, p. 39.

[10]¬†¬† O te√≥logo alem√£o Hans Urs Von Balthasar afirma, logo depois de fazer una extensa refer√™ncia ao problema da ang√ļstia em Kierkegaard, que a ang√ļstia n√£o debe ser considerada um problema do homem moderno, mas que sempre existiu no homem de todas as √©pocas; acontece que a modernidade possui certas caracter√≠sticas que fizeram com que essa ang√ļstia ‚Äď pr√≥pria da natureza do homem ‚Äď aumentasse: ‚Äú(…) um mundo mecanizado, cuyo mecanismo inaudito absorve inexoravelmente o mole corpo e a alma do homem, transformando-o numa roda do mecanismo ‚Äď de um mecanismo que, absorvendo tudo, chega a n√£o ter sentido ‚Äď : a ang√ļstia do homem numa civiliza√ß√£o que faz saltar a medida humana e cujos esp√≠ritos ele n√£o pode voltar a sujeitar.‚ÄĚ Von Balthasar, Hans Urs,¬†El cristiano y la angustia, Madrid, Ediciones Guadarrama, 1964, p. 27-28.

[11]¬†¬† ‚ÄúO homem vive a si mesmo como ang√ļstia ou como criatura.‚ÄĚ G√≥mez D√°vila,¬†√≥p. Cit.¬†Escolios‚Ķ Tomo I, p. 138.

[12]   Isto se vê de maneira excepcional no cristianismo primitivo e original; com efeito, antes de se chamarem cristãos, eran chamados de Discípulos do Camino aos Seguidos de Cristo. O esclarecimento se deve ao fato de que ese cristianismo se degenerou, sobretudo no Ocidente, ao longo dos séculos, convertendo-se no sincretismo religioso de que somos testemunhas na atualidade, e que tanto critica, com firmeza, Don Colacho em sua obra.

[13]   Infra nota de rodapé 9.

[14]  Textos, p. 87.

[15] ‚ÄúEntre o ceticismo e a f√© h√° certas coniv√™ncias: ambos minam a presun√ß√£o humana‚ÄĚ. G√≥mez D√°vila, Nicol√°s, Sucesivos escolios a un texto impl√≠cito, Bogot√°, Villegas editores, 2005, p. 36.

[16] Talvez se possam encontrar raz√Ķes para esta certeza na leitura que G√≥mez D√°vila faz de Pascal, j√° que o fil√≥sofo franc√™s afirmara: ‚Äú√Č necess√°rio, para que uma religi√£o seja verdadeira, que tenha conhecido nossa natureza. Ela deve ter conhecido a grandeza e a pequenez, e a raz√£o de uma e de outra. Quem as conheceu, sen√£o a religi√£o crist√£?‚ÄĚ Pascal, Blaise,Pensamientos II,¬†edici√≥n digital de El Aleph, 2001, p. 13, ¬ß 433.

[17]   Gómez Dávila, óp. Cit., Nuevos…, Tomo I, p. 50.

Lettres √† Cioran – p√®re Molini√©

http://planetcioran.blogspot.com.br/2006/10/lettres-cioran-pre-molini.html

13.6.44

“Dieu nous d√©livre des apolog√®tes !” (De Monl√©on)

Mon Cher Cioran,

Tu m’as dit l’autre jour : toute objection contre la religion tombe le jour o√Ļ l’on a pu concevoir l’amour de Dieu ; et je t’ai confirm√© ce point, posant que toute objection revient √† dire : je ne con√ßois pas l’amour de Dieu.

Ta lettre a suscit√© en moi des r√©actions vari√©es et des r√©flexions nombreuses. Elle traduisait une sympathie tellement sinc√®re que cela me fait de la peine de ne pouvoir abandonner le couvent pour te plaire. Mais qu’y puis-je, si j’ai connu “l’amour de Dieu pour nous” ! “Si tu savais le don de Dieu”, disait le Christ √† la Samaritaine.. si tu le savais, tu viendrais au couvent avec moi, non pour accentuer ta solitude au sein du monde, mais pour en sortir enfin.

Beaucoup d’id√©es m’ont assailli en lisant ta lettre, mais si peu sont n√©cessaires.. Je ne puis que r√©p√©ter : je fuis le monde pour fuir la solitude, car seul l’amour d√©livre de la solitude, et seul Dieu nous a aim√©s. Je ne viens pas chercher l’extase, mais le silence et la paix de Dieu, “qui surpasse tout sentiment”.

Tous ces mots me g√™nent √† dire, car je vois que nous ne parlons plus la m√™me langue. Mais c’est un peu voulu, pour que tu voies au moins que nous ne parlons plus la m√™me langue, que tu arrives trop tard, que le geste anarchiste est d√©j√† consomm√©. Je pourrais discuter ta position, relever des contradictions, des impasses √† mon sens.. mais √† quoi bon ? On ne discute pas avec un croyant, et je r√©p√®te que tu es un croyant, que rien ne pourra √©branler tes actes de foi: un croyant √† l’envers, mais un croyant. Tu ne crois pas √† la vie, mais tu crois √† la mort ; tu ne crois pas √† l’amour, mais √† la haine; au sens du monde, mais √† son absurdit√©. Et tu y crois au sens fort du mot, presque avec fanatisme – ce fanatisme latent et mena√ßant contre lequel tu te d√©fends par ta prudence de serpent, ton refus des solutions extr√™mes, et ton attachement profond √† des valeurs que tu renies cependant : la vie, l’esprit (et ses √©l√©gances..), etc.

Enfin, excuse-moi de r√©pondre √† un portrait par un portrait. Excuse-moi surtout d’entrer au couvent et de tenter quand m√™me l’aventure de l’esp√©rance. Enfin, de gr√Ęce, laisse tomber les trait√©s d’apolog√©tique.

Et crois-moi ton ami, autant que la solitude du monde nous permet cette sympathie

A.Molinié

Merci de ton invitation, que mes obligations de fils et de postulant m’obligent √† d√©cliner pour le moment.

Juillet – Ao√Ľt 44

Mon Cher Cioran,

La journ√©e que nous avons pass√©e ensemble, j’esp√®re qu’elle t’a laiss√© bon souvenir.. comme √† moi. Malgr√© tout, je m’en veux un peu de ne pas savoir mieux dire pourquoi je ne peux plus, me semble-t-il, quitter le couvent, et je voudrais m’y essayer dans cette lettre.

J’ai toujours eu soif dans ma vie, soif de quelque chose qui me rende ivre, quelque chose de fort et de violent dont on n’est jamais rassasi√©, parce qu’il vous envo√Ľte comme un charme et que bient√īt l’on ne peut plus se passer de lui : quelque chose qui me tienne et ne me l√Ęche plus ; dont je sois poss√©d√© plus que je ne le poss√®de. Une r√©alit√© donc, pas un mythe de mon imagination, car un mythe ne nous est pas ext√©rieur, il ne peut nous poss√©der.

Il me semble que tous les h√©ros de Dosto√Įevski sont ainsi : il leur faut trouver un vin qui √©tourdisse et captive leur soif de vie intense, il leur faut d√©passer les limites de l’homme, aller jusqu’aux confins, se br√Ľler les ailes √† un poison quelconque, pourvu qu’il soit plus fort que l’homme : ange ou d√©mon, qu’importe ! Ils √©touffent dans la carcasse que la nature leur a donn√©e, il leur faut trouver autre chose.

Je note tout de suite qu’en un sens il ne peuvent √™tre dupes d’une illusion dans leur recherche. L’exp√©rience sur ce point ne peut nous tromper: on est d√©pass√© ou on ne l’est pas – on a affaire √† quelque chose de plus fort que nous, ou non : √ßa se sent, √ßa se sait sans erreur possible. Il faut qu’on puisse augmenter la dose ind√©finiment sans jamais √©puiser le fond. Il faut que notre soif infinie se sente et se sache d√©pass√©e, noy√©e dans l’alcool dont elle s’enivre, si bien que, √† l’inverse de ce que nous constatons habituellement, elle ne puisse jamais se dilater √† la mesure du rassasiement offert par l’objet entrevu.

Il est clair que cet objet ne peut √™tre que spirituel. Et c’est lui que cherchent les h√©ros de Dosto√Įevski: infini dans l’orgueil ou infini dans l’amour. L’orgueil et l’amour sont en effet les deux seuls gouffres o√Ļ notre soif puisse plonger sans les √©puiser. Et le choix est libre, et il faudra bien que tout homme le fasse un jour. Les volupt√©s sensibles sont mesquines et vite lassantes, si folles soient-elles ou si d√©licates, √† c√īt√© de la volupt√© de l’orgueil et celle de l’amour. Ces deux volupt√©s-l√† sont vraiment in√©puisables, parce que l’une et l’autre visent Dieu – pour l’an√©antir, ou s’an√©antir en lui.

J’ai donc choisi, gr√Ęce √† Dieu, l’amour. Mais comme tu risques de le confondre avec l’amour sensible, et ainsi de n’en pas soup√ßonner l’intensit√© objective, qui nous mord et ne nous l√Ęche plus, je dirai plut√īt que j’ai d√©couvert le silence… car au fond c’est la m√™me chose.

Le silence est une r√©alit√©, ce ne peut √™tre une illusion ; seulement, √† l’inverse des nourritures terrestres, ce n’est pas une r√©alit√© attirante de loin et vaine de pr√®s. Par d√©finition, son appel est trop doux et discret pour qu’on le remarque au milieu des excitations journali√®res. Pour le d√©sirer, il faut y go√Ľter d’abord ; mais plus on y go√Ľte, plus on en a soif, et plus on en a soif plus on s’en rassasie : car il est clair que nous n’√©puiserons jamais tout le silence possible, il est plus vaste que notre d√©sir.

Ainsi d√©sormais je suis captif, il me faudra inlassablement puiser aux fontaines du silence, qui versent au coeur cette eau vive que J√©sus promettait √† la Samaritaine. Ici je parle de r√©alit√©s irr√©futables, dont l’exp√©rience ne peut √™tre soup√ßonn√©e de r√™ve. Si je parle de Dieu, tu peux penser que je m’illusionne, que ma soi-disant exp√©rience n’est pas valable, et que je projette dans le r√©el l’objet de mon d√©sir. De m√™me si je parle de l’amour. Mais je ne veux parler que du silence : je t’assure que je ne le d√©sirais pas, du moins consciemment, en entrant au couvent. Aujourd’hui que j’en ai fait l’exp√©rience, une tr√®s petite et fragile exp√©rience encore, je ne donnerais pas les ivresses les plus folles de la vie pour lui. Il est vraiment (j’entends le silence de l’amour, le silence de la foi) la perle pr√©cieuse pour laquelle il faut vendre tout le reste. Relis tous les passages de l’A.T. qui font l’√©loge de la Sagesse (en particulier le d√©but du livre de ce nom) en y substituant le mot silence, et tu comprendras ce que je veux dire. “Je l’ai pr√©f√©r√© aux sceptres et aux tr√īnes, et aupr√®s de lui j’ai regard√© les richesses comme rien. Je l’ai aim√© plus que la sant√© et la beaut√©; ses chemins sont des chemins de d√©lices, et tous ses sentiers, des sentiers de paix ; il est un arbre de vie pour ceux qui s’y attachent, et ceux qui le tiennent sont rendus heureux” (Proverbes, III, 17).

Ah ! si tu savais.. Mais pour savoir il faut go√Ľter, et pour go√Ľter il faut se taire. C’est pourquoi j’aimerais tant que tu viennes passer 8 jours ici, simplement pour te taire le plus possible, √©couter la voix du silence, faire cette exp√©rience au moins une fois s√©rieusement. Elle n’a rien √† voir d’ailleurs avec l’extase, qui r√©sulte au contraire d’une d√©faillance nerveuse et physique (m√™me chez les saints), et n’est pas l’essentiel de l’exp√©rience mystique – au contraire, les saints qui parviennent au mariage spirituel n’ont plus d’extases, parce que leur corps est habitu√© √† ce r√©gime (terrifiant pour lui) de la pr√©sence consumante de Dieu dans l’√Ęme, qui de soi est pacifiante.

Lorsque tu es devant ta table, ce n’est pas ton temp√©rament qui fait qu’elle est l√†, et qu’elle est table : cette r√©alit√© est objective, tu peux faire fond sur elle quelle que soit ton √Ęme et ta psychologie. De m√™me pour ce que je te dis l√†. Le silence n’est pas d√©pendant du temp√©rament ou du d√©sir : j’avais horreur du silence dans le si√®cle, et maintenant encore ma nature y r√©pugne. Il est, et c’est lui qui me tient, et je ne peux plus m’en passer.

Ton fidèle Fr.Molinié O.P.

Déc.44

Tu n’as pas connu ma M√®re, mais tu m’es un ami trop profond pour ne pas te tenir au courant de ma souffrance. La mort est une r√©alit√© √©crasante, absolue: en face d’elle rien ne peut r√©sister, que la foi.

J’ai bien re√ßu ton petit envoi : mais ton appel silencieux vers une m√©taphysique du d√©senchantement lucide et de l’√©vasion, tombait assez mal.. Devant la mort, on ne peut plus croire aux apparences : il faut choisir entre le n√©ant (non plus rel√©gu√© en fond de tableau, dans la philosophie, mais au premier plan, en pleine lumi√®re, hallucinant)… et Dieu. Heureusement j’avais d√©j√† choisi – ou plut√īt Dieu m’avait choisi.

Comment peut-on oublier la mort ! Chacun en parle comme s’il √©tait immortel : la mort, c’est toujours celle des autres. Je suis effar√© de voir les gens avoir piti√© de Maman comme les riches ont piti√© des pauvres, en se sentant √† l’abri. Ah ! les insens√©s qui, lorsqu’on les presse et les accule, se font gloire de l’√™tre, afin de ne pas voir, √† aucun prix ! et moi tout le premier !

Ton ami

Le 5 mars 1945

Mon Cher Cioran,

Inadh√©sion compr√©hensive.. C’est bien un peu cela, en effet, quoique pas tout √† fait. Je croirais pour ma part que tu comprends le christianisme un peu moins que tu ne le supposes, et que tu y adh√®res aussi davantage qu’il n’y para√ģt. Ce besoin d’un objet entre autres.. Si seulement tu ne niais pas a priori la signification du besoin et du d√©sir, m√™me tromp√© – on ne peut mourir de soif sans avoir soif de quelque chose, et sans que cette eau vive existe quelque part.

Lorsque Saint Thomas se demande quelle est la source du mal, il r√©pond: ce ne peut √™tre que le bien. Toute d√©ficience s’appuie sur une pl√©nitude: ton instinct de d√©molisseur s’appuie sur ta nature, qui tend √† l’√™tre de tout son fond. Ton √Ęme tourne en rond faute d’objet, et elle en souffre, parce qu’elle est elle-m√™me de l’√™tre, et que ton vouloir tend vers l’√™tre malgr√© lui en quelque sorte. Tout cela, d’ailleurs, tu le sais bien. Le plus fort, m√™me, c’est que tu as refus√© de construire, et pr√©f√©r√© d√©molir, par d√©go√Ľt des constructions m√©diocres auxquelles tu as cru vou√©e l’humanit√©, c’est-√†-dire encore par amour de l’√™tre et de la perfection. Ta faiblesse et ton abdication ne sont donc pas dans ton refus, puisque ce refus est encore quelque chose, √©nergie tendue par essence vers la beaut√© et l’existence, mais dans l’acceptation de la faillite de l’homme √† l’√©gard de l’id√©al qui te presse.

Et que de fait l’homme soit impuissant, d’accord. Mais de l’√©prouver suppose l’id√©e au moins de la grandeur – qui ne saurait venir de l’impuissance comme telle, mais de l’Etre absolument pur dissimul√© dans un myst√®re inaccessible. D’o√Ļ nous n’avons pas √† construire, et je ne construis pas, mais √† chercher par la contemplation l’Acte ultime pos√© hors de nous. Et c’est, malgr√© toi, ce que tu fais √† travers tes destructions po√©tiques.

Qu’apporte alors le Christ ? Un message tout √† fait fou de la part de l’Acte pur, et bien digne de sa transcendance, parce que c’est inexplicable (et le christianisme ne l’explique pas, il souligne m√™me que c’est incompr√©hensible): Dieu nous aime, l’Acte pur vient √† nous, il n’y a plus √† le chercher nous-m√™mes, mais √† le laisser faire, √† le laisser engloutir notre √Ęme en Lui.

Et voilà.

Ton fr. M.D.Molinié

P.S : Je ne bouge plus d’ici. Viens quand tu voudras, le jeudi ou le dimanche, de pr√©f√©rence apr√®s P√Ęques (21 avril). Si tu veux, je puis te faire assister √† l’office de nuit avant P√Ęques. Me pr√©venir.

S.Jacques 16.4.45

“Converte nos, Deus salutaris noster”

Il n’y a rien dans ton malheur que je ne poss√®de dans mon bonheur. Tu d√©finis la vie par un retard savant de s’√©couler en Dieu. Mais tu assimiles Dieu au N√©ant, alors qu’il est la Vie, et que rien de positif ne se trouve dans le monde, ni dans ton malheur m√™me, qui ne se trouve ineffablement en Lui. La vie spirituelle est bien en effet un √©coulement indicible de notre √Ęme dans l’Amour infini du Cr√©ateur et du Christ Sauveur: on n’est plus soi, on se perd, on se noie en Dieu. Et tu as raison de voir dans “la vie” un refus de cet √©coulement : car il suppose une d√©chirure des barri√®res par lesquelles nous nous appartenons, nous nous poss√©dons, donc une v√©ritable mort √† notre ind√©pendance (“Qui veut sauver sa vie la perdra”).

Tu aimes ton malheur dans la mesure o√Ļ tu pr√©f√®res perdre ta vie que la donner. Dieu ne t’√ītera jamais le privil√®ge de refuser et de t’enfermer dans ta solitude : mais c’est l’enfer. Le don, au contraire, c’est la mort de notre ind√©pendance, et nous y r√©pugnons tous dans notre nature d√©chue. Par contre, √† peine y avons-nous consenti, c’est la r√©surrection √† une vie nouvelle, le paradis sur terre, “joie, joie, pleurs de joie”, comme dit Rimbaud (ou Pascal ?).

Il me semble que cela, tu n’es pas loin de le comprendre, quitte √† refuser quand m√™me de te dissoudre dans le sang du Christ, afin de garder l’orgueil de ton malheur. Tout le reste, tu le retrouveras au centuple, mais ton orgueil devra mourir, et tu devras consentir √† n’√™tre que ce que tu es: “un homme parmi les hommes” (Dosto√Įevski), c’est-√†-dire rien en face de Dieu.

J’ai eu tort de te conseiller de prier “un peu”. La pri√®re exigerait de toi une conversion totale, un retournement, un an√©antissement de tout ton √™tre, elle exigerait que tu fondes enfin dans les larmes… Depuis combien de temps n’as tu pas pleur√© ? n’y a t-il pas au fond de toi un durcissement inhumain contre les r√©actions les plus simples et les plus saines de l’homme? Il y a dans les larmes une v√©rit√©, par cons√©quent une lib√©ration, qu’aucune th√©orie ne pourra d√©truire : les larmes humaines sont bien cette eau qui nous lave du p√©ch√© originel et nous restitue √† l’innocence invincible des petits enfants. Relis, relis dans les Karamazov l’√©pisode de l’assassin qui se confesse d’abord au starets, puis publiquement…

Peut-√™tre n’es-tu pas loin de comprendre que tu es dans son cas, comme tout homme qui vit loin de Dieu. Tu te raidis contre tout sentiment de justice et d’amour, donc contre le Christ. Tu cherches √† demeurer indiff√©rent devant l’injustice, mais heureusement tu n’y parviens pas, et tu ne voudrais m√™me pas, je l’esp√®re, parvenir √† l’indiff√©rence affreuse de ceux qui commettent froidement l’injustice. Mais si tu consentais √† te convertir, au sens propre, √† suivre la pente naturelle et saine de la Vie qui coule en toi, si tu consentais √† cette dissolution intime de ton √™tre dans un Autre qui te d√©passe, √† l’instant m√™me (il me semble que tu ne peux l’ignorer) ce serait, comme pour l’assassin, le paradis sur terre, une joie indicible, surhumaine, “la paix du Christ qui d√©passe tout sentiment”.

Je sais bien qu’il ne suffit pas de le comprendre pour le faire. Il faut accepter de mourir. Au fond, ce que J√©sus te demande, c’est de renoncer √† ton malheur, comme d’autres renoncent au bonheur humain, aux joies, aux certitudes, √† la libert√©, √† la vie enfin, pour Le suivre. Et c’est un d√©chirement, pour tous; mais ce d√©chirement est lib√©rateur, il rompt les digues qui durcissent notre coeur et l’emp√™chent de retourner √† notre P√®re des cieux comme les fleuves √† la mer dont ils d√©rivent. Renoncer au malheur, et √† la po√©sie du malheur, ce serait pour toi une agonie v√©ritable et profonde, je le vois bien. Mais pour nous tous une telle agonie est la condition de la vie et de la joie d’aimer, qui d√©passe toute euphorie.

Je voudrais que tu viennes √† ma profession, et, quand tu me verras en prostration, essaie de comprendre que c’est le geste d’un assassin qui se d√©nonce et celui que je te demande, car c’est le seul absolument vrai que puisse faire l’homme, le seul qui nous r√©accorde avec notre exigence la plus intime, qui est d’aimer (ce que tu ne peux nier, toi qui cherches √† fuir ta solitude, et dont le “malheur” m√™me prend sa source dans cette exigence inassouvie).

Mais en voil√† assez, et je te dis au 2 juillet, quoique mon √Ęme ne te quitte pas

Ton frère Marie-Dominique Molinié

Le 5 mai 1945

Mon Cher Cioran,

Il y a une chose √† laquelle nous ne croyons plus, au XX√®me si√®cle, et dont la r√©alit√© cr√®ve cependant les yeux, c’est l’efficacit√© du temps : on ne croit qu’√† l’instantan√©, on ne veut pas √™tre patient. A ce point de vue nous partageons, toi et moi, la m√™me erreur, et il m’a fallu des √©preuves p√©nibles au noviciat pour apprendre bon gr√© mal gr√© la patience intellectuelle, et accepter de comprendre peu √† peu ce que je ne comprenais pas imm√©diatement. C’est ainsi qu’en 10 mois a pu se former en moi l’√©bauche d’une notion juste de la doctrine chr√©tienne, tant cette doctrine est √† la fois riche, profonde et simple.

Je fais donc appel en toi √† la m√™me patience, et tu verras d’ailleurs que cette attitude, seule forme vraiment honn√™te de l’agnosticisme, est d√©j√† grosse de cons√©quences : elle consiste essentiellement √† admettre que tu saisiras peut-√™tre plus tard telle v√©rit√© ou telle r√©alit√© que tu ne saisis pas aujourd’hui. C’est tout simple, amplement justifi√© par l’exp√©rience, et l’essence m√™me de la vie intellectuelle : pourtant c’est d√©j√† de l’humilit√© et de l’esp√©rance…

Cette bonne volont√© admise de ta part, je voudrais te livrer peu √† peu ce que j’ai acquis peu √† peu: la notion d’attitude chr√©tienne, ou de vie surnaturelle, ou d’humilit√© (tout cela se tient). J’ai eu tort dans ma derni√®re lettre de te le pr√©senter comme instantan√©, et tes objections sont fort justes : mais elles ne portent que sur la pr√©sentation, non sur le fond.

La vie surnaturelle est une vie, et comme telle comporte naissance et d√©veloppement dans le temps. “Le royaume des cieux (= vie surnaturelle) est semblable √† un grain de s√©nev√© qu’un homme a pris et sem√© dans son champ. C’est la plus petite de toutes les semences ; mais lorsqu’il a pouss√©, il est plus grand que toutes les plantes, et devient un arbre, de sorte que les oiseaux du ciel viennent s’abriter dans ses rameaux… Le royaume des cieux est semblable au levain qu’une femme prend et m√™le dans trois mesures de farine, pour faire lever toute la p√Ęte.” (Matthieu, ch. VIII). Si la farine √©tait consciente, et du XX√®me si√®cle, elle ne voudrait jamais croire qu’elle puisse lever : elle objecterait la “nulle et immense r√©alit√©” de sa p√Ęte, destin√©e √† retomber mollement dans une chute √©ternelle, √† tout souiller de son impuissance radicale √† se relever.

Le pire est que cette impuissance est r√©elle : tant que le levain n’a pas tout envahi, il reste dans la p√Ęte une impuret√© fonci√®re, un principe de chute ; mais cette impuret√© va s’√©vanouissant dans une purification constante, et c’est l√† toute la vie de l’Eglise ici-bas, pauvre p√Ęte humaine, aussi nulle et mis√©rable que tu voudras l’imaginer, et plus encore, mais travaill√©e par un levain, par une vie qui n’est pas de l’homme, et qui soul√®ve tout, quoique lentement et d’une fa√ßon presque toujours cach√©e : “c’est la plus petite de toues les graines”. Mais les saints sont l√†, r√©alit√©s irr√©fragables eux aussi.

Je te propose de faire le Car√™me avec moi : temps o√Ļ je meurs un peu plus dans le silence pour vivre un peu plus dans le Christ. Et de lire pour cela deux ouvrages tr√®s diff√©rents, que tu peux trouver sans doute √† Ste Genevi√®ve. Le premier est la Vie de N.S. J√©sus-Christ, par Catherine Emmerich: c’est une stigmatis√©e du XIX√®me si√®cle, qui a eu la vision de la vie du Christ jour par jour pendant 3 ans. Ca fait 6 volumes et c’est tr√®s extraordinaire : il faut lire l’Avant-propos, qui est assez remarquable. Le second est d’un autre genre : l’Histoire Sainte de Daniel-Rops, auteur que tu connais sans doute. C’est bien √©crit et fort intelligent : il n’accorde au christianisme que ce qu’honn√™tement on ne peut lui refuser, et trace une histoire profonde du peuple juif.

Et puis tu peux lire aussi Pascal et St Paul. Je sais que tu te mets en dehors de cette √©conomie du salut qui d√©passe (et donc conna√ģt) les ab√ģmes les plus insondables du d√©sespoir – soit que vraiment tu te sentes impuissant, soit plut√īt qu’obscur√©ment tu ne veuilles pas te mettre en qu√™te d’une beaut√© plus belle encore que le r√™ve humain le plus fou. Pourtant c’est d’abord pour toi que le Christ est venu : “Je suis venu sauver ce qui √©tait perdu” – et : “ceux qui ont soif, qu’ils viennent √† moi et qu’ils boivent”. Et je sais que tu as soif: si tu n’avais pas soif, tu ne serais pas si malheureux.

Et je suis s√Ľr que quelque part dans le monde une petite fille aime et souffre et prie qui m√©ritera ton salut…

Ton fère Marie-Dominique Molinié

2.7.45

Mon Cher Cioran,

Un seul mot, pour te remercier du tien : j’ai beau “avoir raison”, mon geste n’est pas humain. Il faut, pour me maintenir ici, une force surnaturelle. Ce n’est pas le froid ou l’ob√©issance qui sont dures, c’est la foi, et cette foi je ne peux la puiser en moi, mais en Dieu m√™me en qui j’ai foi. Il faut donc prier avant m√™me de croire et d’esp√©rer. Dieu m’a attir√© au couvent par des motifs tr√®s humains qui n’auraient pas suffi √† m’y garder si entre temps je n’avais pri√©, et re√ßu la foi.

Nous sommes tous radicalement impuissants √† aimer, croire et esp√©rer. Mais nous ne sommes pas impuissants √† prier ; et le Christ est venu justement “sauver ce qui √©tait perdu”. Le christianisme ne nous offre pas le salut, mais un Sauveur, qui a exist√© dans le temps, et a promis de secourir √©ternellement les malheureux qui l’invoqueraient : 2.000 ans de saintet√© miraculeuse (si l’on songe √† ce qu’est la nature humaine) ont prouv√© qu’il ne mentait pas. Moi-m√™me je puis d√©j√† t√©moigner qu’Il est vivant : sans un appui surhumain que je Lui demande chaque jour, je ne pourrais pas rester 24 heures dans cette vie qui me donne cependant le bonheur, et qui est, nous en sommes convaincus toi et moi, la seule solide.

Pour obtenir cet appui et cette foi, il suffit de les demander, d’√™tre par cons√©quent un malheureux, incapable, radicalement incapable, d’aimer, de croire et d’esp√©rer, et cependant rong√© par on ne sait quel appel vers l’absolu, ce qui √©tait bien notre cas, et demeure encore le tien, je crois : tu fuis l’absolu, mais Lui te poursuit sans rel√Ęche, d’o√Ļ ton malheur. Le seul obstacle s√©rieux est l’orgueil, qui t’emp√™chera de faire cette pri√®re : et pourtant l’orgueil est une erreur patente, car il est vrai que nous sommes poussi√®re et vent.

Le Christ disait √† St.Paul dans une apparition : “Il t’est dur de regimber sous l’aiguillon” (sous-entendu, “de mon appel”). N’est-ce pas un peu l’histoire de ta vie ? L’impuissance qui fait ton malheur, ce n’est pas l’impuissance de trouver l’absolu, l’esp√©rance et l’amour, c’est celle de les fuir. Bon gr√© mal gr√©, tu es “tomb√© entre les mains du Dieu vivant” (cela ne d√©pend pas de toi mais de Lui), et ta vie est un effort d√©sesp√©r√© pour “te mettre volontairement” hors de Lui, pour te maintenir dans un √©quilibre relatif o√Ļ tu √©touffes.

L’obstination que tu y mets me fait trembler pour toi, et m’explique l’atmosph√®re de damnation dans laquelle tu vis. N’auras-tu jamais piti√© de cette √Ęme qui a soif en toi de l’absolu que tu lui refuses cruellement ? Tout ceci est tr√®s grave. Tu sais, √† n’en pas douter, que Dieu r√īde autour de toi, tu sais au fond qu’Il existe : rentre en toi-m√™me, et tu verras que √ßa explique tout. Il y a un myst√®re dans ta vie : pourquoi le confort et les plaisirs ne te suffisent-ils pas ? Pourquoi ce d√©sespoir latent ? Il n’y a qu’une explication : tu es la proie de Dieu, dont l’amour te poursuit et vient d√©ranger ton confort : c’est fini, tu ne seras plus jamais tranquille.

Et tu le sais bien, c’est pourquoi tu as voulu ha√Įr les saints: tentation perp√©tuelle chez toi. Relis dans la Gen√®se le combat de Jacob avec Dieu. Et jette un coup d’oeil sur ta pauvre vie, semblable √† la mienne : d√©chir√©e, d√©chiquet√©e, harcel√©e, morcel√©e, sans but, sans signification.. ah ! oui, “c’est une chose terrible que de tomber entre les mains du Dieu vivant”. Et tant que tu ne voudras pas abdiquer ton ind√©pendance et tomber aux pieds de Celui qui te poursuit de Son amour, il en sera ainsi, et tu seras ton propre bourreau, le bourreau de ton √Ęme.

Il faut bien que je m’arr√™te, je voudrais tant te convaincre que ce n’est pas de la litt√©rature ce que je dis, mais la v√©rit√© ! Et aussi je voudrais supplier ton orgueil d’abdiquer : un bout de pri√®re tous les soirs, dans l’aveu de ta mis√®re et de ton n√©ant, et ce serait le salut, j’en suis s√Ľr.

En tout cas je prie, moi, pour toi, et Genevi√®ve aussi. Ca para√ģtra peut-√™tre ridicule √† ton orgueil, mais enfin, c’est la v√©rit√©. La derni√®re illusion √† perdre, c’est que nous soyions intelligents : nous sommes tous des imb√©ciles, puisque nous ne comprenons rien au monde, ni √† nous-m√™mes.

Si par hasard cette lettre jetait le trouble en toi, demande √† me voir en disant qu’il s’agit d’une raison s√©rieuse et religieuse. Si elle t’irrite ou t’ennuie, pardonne √† un ami qui veut le rester en d√©pit de tout. Si elle t'”int√©resse” seulement, d√©truis-la.

Fidèlement à toi

Fr.M.D. Molinié

1945

Mon Cher Cioran,

Les promesses du Christ sont des paradoxes pour la logique humaine, et il est d’autant plus singulier de les voir fid√®lement tenues. Ainsi a-t-il promis le centuple, d√®s ce monde, en fr√®res, amis, champs et maisons, √† ceux qui quitteraient tout pour lui. De fait nous avons ici ce que les plus riches poursuivent en vain toute leur vie : la lib√©ration totale des soucis √©conomiques. Quant aux amis, j’admire que notre amiti√©, dont tu craignais la perte par mon d√©part, commence peut-√™tre seulement √† na√ģtre dans toute sa profondeur : la sympathie, voire la solidarit√© que tu sens avec ma vie, nous unissent davantage que n’auraient jamais pu faire les appareils √©lectriques du Boul’Mich’ – et notre √©change de lettres espac√©es plus que tous nos assauts d’ironie philosophique..

Je voulais te dire beaucoup de choses, beaucoup d’arguments, mais √† quoi bon ? La V√©rit√© est l√†, et il n’y en a pas deux: ou le mot V√©rit√© n’a aucun sens (et il est clair qu’il en a un), ou il y a une V√©rit√©, une seule, car c’est dans son essence… mais pour te convaincre il faudrait d’abord te convertir, et non l’inverse.

Je comprends ta pr√©f√©rence pour Ivan Karamazov, je l’ai assez longtemps partag√©e moi-m√™me.. Ce qui fait sa profondeur et son attrait, c’est cette soif de la Vie si grande que le monde ne peut l’√©tancher, et qui alors se tourne en d√©go√Ľt du r√©el, en r√©volte et en d√©sespoir : d√©doublement par lequel, se jetant sur toutes les joies et poss√©dant l’univers, on ne trouve qu’amertume et on ne poss√®de rien, qu’un peu d’√©cume qui ne trompe m√™me plus.

Le chr√©tien retient tout ce qu’il y a de profond l√†-dedans, et adopte en v√©rit√© la m√™me attitude, mais en retournant la vapeur. Ivan trouve les t√©n√®bres au sein de la lumi√®re, la mort au sein de la vie la plus riche, la tristesse au sein de la joie, le n√©ant au sein de la surabondance. Et St.Paul: “Car Dieu qui a dit : Que la lumi√®re brille du sein des t√©n√®bres, c’est lui qui a fait luire sa clart√© dans nos coeurs… Mais nous portons ce tr√©sor dans des vases de terre, afin qu’il paraisse que cette souveraine puissance de l’Evangile vient de Dieu et non pas de nous. Nous sommes opprim√©s de toute mani√®re, mais non √©cras√©s ; dans la d√©tresse, mais non dans le d√©sespoir ; pers√©cut√©s, mais non d√©laiss√©s ; abattus, mais non perdus ; portant toujours dans notre corps la mort de J√©sus, afin que la vie de J√©sus soit aussi manifest√©e dans notre corps. Car nous qui vivons, nous sommes sans cesse livr√©s √† la mort √† cause de J√©sus, afin que la vie de J√©sus soit aussi manifest√©e dans notre chair mortelle. Ainsi la mort agit en nous, et la vie en nous…. Trait√©s d’imposteurs, et pourtant v√©ridiques ; d’inconnus, et pourtant bien connus ; regard√©s comme mourants, et voici que nous vivons ; comme ch√Ęti√©s, et nous ne sommes pas mis √† mort ; comme attrist√©s, nous qui sommes toujours joyeux ; comme pauvres, nous qui en enrichissons un grand nombre ; et comme n’ayant rien, nous qui avons tout”.

Le Christ te s√©duit par son √©chec : √† juste titre, car un succ√®s humain, un succ√®s visible, n’est que poussi√®re, et sur ce plan, humain et visible, la V√©rit√© doit √©chouer. Mais derri√®re cet √©chec, et sans l’abolir, il y a un succ√®s, non plus humain mais divin, et visible aux seuls yeux de l’√Ęme, d’un ordre tel qu’il ne peut, comme ce qui est humain, nous d√©cevoir, dont l’Eglise est la preuve et St.Paul l’expression.

J√©sus est venu apporter l’Esp√©rance et la V√©rit√© : on le met sur la Croix – mais cette Croix couvre le monde, et en triomphe invisiblement. Le monde a tu√© J√©sus-Christ, donnant ainsi naissance aux saints, qui sont la vie invisible du Christ : il y l√† une √©conomie grandiose, une r√©alit√© √©crasante qui, au rebours des constructions humaines, grandit au fur et √† mesure qu’on s’en approche et qu’on s’en rassasie. Ce n’est qu’une once de levain, qui bient√īt soul√®ve tout. Le christianisme nous offre une r√©alit√© qui nous heurte d’abord, justement parce qu’elle est plus belle que nos r√™ves humains de beaut√©; de m√™me les saints d√©passent de beaucoup l’attrait d’Ivan, mais il faut s’en approcher et se laisser √©duquer pour pouvoir go√Ľter cet attrait.

Ce qui nous trompe le plus, c’est qu’ils sont en paix, et comme la paix que donne le monde est en de√ßa de l’inqui√©tude et du d√©sespoir, nous ne comprenons pas que la leur est au del√†, qu’elle va encore plus loin que le d√©sespoir, pour manifester √† tout oeil impartial ce que peut un tel levain sur la p√Ęte humaine..

Je ne ferai donc pas difficult√© pour avouer mes impuret√©s, et tout ce qu’il y a eu, tout ce qu’il y a encore, de pi√®trement humain dans ma soif et dans ma vie : j’en souffre assez. Mais √† c√īt√© de tout cela, il y a en moi une semence pure, parce qu’elle ne vient pas de moi, quoiqu’elle soit en moi ce qu’il y a de plus profond.

Nous trouvons ici une r√©ponse √† ton objection la plus s√©rieuse. “Si je savais, dis-tu, que Dieu est, et que c’est Lui qui me veut, ou si je pouvais l’aimer sans mon √Ęme (ins√©parable d’une chute √©ternelle), alors j’admettrais que dans ta voie il n’y a rien d’illusoire et rien d’humain”. Or je l’aime avec mon √Ęme (ins√©parable d’une chute √©ternelle), et de ce fait il y a dans “ma” voie beaucoup d’humain, beaucoup de mis√®re ; mais il n’y a d’illusion – ni dans ma vie (puisque je sais que ma mis√®re est un ab√ģme “immense et nul”), ni dans mon espoir : car c’est quand m√™me Dieu qui me veut, et avec son Amour que je L’aime.

Nous sommes ici au myst√®re le plus profond du christianisme, le myst√®re du Saint-Esprit, par lequel Dieu se rend plus intime √† notre √Ęme que notre √Ęme m√™me. Ainsi c’est Lui seul qui vient vers nous, et pourtant c’est nous et notre impuret√© qui venons vers Lui, parce que sa gr√Ęce nous fait justement venir vers Lui. Si le levain fait lever la p√Ęte, c’est pour s’√™tre assimil√© ce qu’il y a de plus intime en elle, son essence m√™me : le reste peut bien alors rester lourd et souill√©, la conversion rester m√™l√©e de motifs impurs, le fond invisible est sauv√©, et il l’est en un instant, comme te le repr√©sentaient mes exhortations.

Ce qui prend du temps, c’est l’envahissement de notre nature ingrate et molle par la vie de Dieu. Le danger de rechute demeure jusqu’√† la mort : tout peut toujours, pour un chr√©tien, √™tre perdu ou sauv√©. Mais lentement, par une suite de mutations que pr√©pare, comme chez les plantes, une p√©riode d’immobilit√© apparente, le germe envahit tout : et ce sont les saints, explosion de vie divine au milieu d’un monde damn√©.

La doctrine que je t’expose ici (encore obscur√©ment) rend seule un compte parfait de tout le r√©el, mis√®re de l’homme et splendeur des saints. Tu as le sentiment profond que, si tu te convertis, c’est toi qui iras vers Dieu, avec ta mis√®re qui souille tout ce qu’elle touche : et ce sera vrai. Mais, derri√®re toi-m√™me, plus profond√©ment encore, et invisiblement, ce sera Dieu : c’est le myst√®re de la pr√©destination. Je cesserai de discuter avec toi le jour o√Ļ tu pr√©senteras ton impuissance “radicale” dans ces termes : “Je n’ai pas la gr√Ęce”. Car cela n’exclura plus la possibilit√© de l’avoir (et de la demander) un jour : je ne te demande en fin de compte que de limiter l’affirmation de ton impuissance au pr√©sent, ce qui est la seule attitude honn√™te. Mais il faudrait que cela d√©passe la port√©e d’une affirmation verbale, il faudrait que tu ailles √† la campagne voir comment une chenille devient papillon – ce qui n’est pas moins extraordinaire que la r√©g√©n√©ration de l’homme – et te convainques que la vie est une puissance de changement, que le dernier mot n’en est jamais dit… que l’espoir, en un mot, est toujours fond√©.

Ton frère Marie-D. Molinié

Le 13 Oct. 46

Mon Cher Cioran,

Voil√† bien longtemps que nous ne nous sommes pas revus, et que tu attends ma r√©ponse √† ta lettre. J’esp√®re que tu ne d√©p√©ris pas trop dans ce monde hostile, et que tu ne souffres pas trop du manque d’objet dont tu te plaignais. Si tu pouvais venir me voir avant l’hiver, ce serait bien, et je saurais mieux m’expliquer peut-√™tre que par lettre.

Evidemment il y a un malentendu radical entre nous, et j’admire qu’apr√®s avoir lu tant de saints tu ne puisses encore comprendre – tant cela est inintelligible sans la foi – que je ne suis pas seul dans mon aventure, et le suis si peu que je n’ai pas l’initiative. Tu te fais de moi une image qui conviendrait peut-√™tre √† un Aristote, un Platon, ou mieux un Svedenborg ou un R√Ęmakrishn√Ę. Alors il est facile de m’opposer la transcendance de Dieu, notre impuissance √† l’atteindre ou m√™me √† l’approcher. Tu me vois semblable √† Faust scrutant le myst√®re de l’Absolu, et voulant lui arracher son secret. Or ce n’est pas √ßa du tout. Les saints n’ont pas cette attitude. Ils savent trop bien qu’ils ne peuvent rien faire pour s’approcher de Dieu, rien. Alors que font-ils ? Ils se laissent faire. Cela suppose, bien entendu, que l’on croie que Dieu, lui, agit, et op√®re ce qu’il est impossible √† l’homme de tenter seulement. Tu n’as pas la foi, c’est bien.. ou plut√īt c’est douloureux. Mais il ne faut pas oublier pour cela que je l’ai. Ai-je de bonnes raisons pour croire, l√† est le vrai probl√®me de ma vie actuelle, mais c’est aussi sur ce point que j’attends encore une objection s√©rieuse de ta part.

Un homme est venu dans le monde nous affirmer qu’il √©tait le Fils de Dieu et que Dieu nous aime, et il a donn√© de tels signes de sa divinit√© qu’il est tout √† fait raisonnable d’y croire. D√®s lors, il n’y a plus besoin de s’√©puiser en efforts asc√©tiques ou mystiques pour se rapprocher d’une divinit√© inaccessible, ou de se livrer √† des pratiques √©sot√©riques pour sentir passer le frisson de l’Esprit (encore que ces efforts, pour st√©riles qu’ils fussent en partie, nous livreraient malgr√© tout des lueurs suffisantes √† √©clipser les satisfactions quotidiennes) : il s’agit simplement de se laisser aimer et conduire par le Christ o√Ļ il Lui pla√ģt. Il y a ici des fr√®res qui voudraient bien s’en aller, des artistes et des dilettantes qui n’ont aucun go√Ľt pour le couvent, je t’assure. Eh bien, ils ne peuvent pas partir : Quelqu’un les retient. Ce ne sont pas eux qui cherchent Dieu, c’est Dieu qui les cherche et ne sollicite qu’un pur consentement impossible √† refuser.

Ce n’est pas du tout une question de “r√©solution” ni de “fermet√©”. Notre psychologie n’est pas celle des gens forts, des h√©ros ou des sages. Elle ressemble plut√īt √† la tienne en face du silence: Dieu nous fait peur, et nous n’avons pas envie, en surface, de consentir. Cependant ce n’est pas malgr√© nous que nous consentons, car il y a ce miracle: plus profonde que toutes nos faiblesses et notre peur et notre fatigue de l’Absolu, une certitude invincible demeure en notre √Ęme que cet Absolu nous aime – alors il n’y a rien √† craindre √† se jeter dans l’Amour qu’il nous offre. Non pas donc une psychologie de conqu√©rants mais d’aim√©s, ouvrant leur coeur √† Celui d’un Etre qui les d√©passe infiniment, et qui par cons√©quent les fera beaucoup souffrir, mais en fin de compte leur fera conna√ģtre une Vie dont l’homme ne peut se faire aucune id√©e, m√™me dans ses extases.

J’en arrive √† St Thomas. Mais l√† encore, comment me faire comprendre ? C’est √† d√©sesp√©rer. Crois-tu donc que si je sentais avec certitude qu’une seule de mes intuitions profondes, ou des tiennes, ou de celles de quiconque, d√Ľt √©touffer dans la tradition thomiste, je consentirais √† lui faire confiance ? Je voudrais que tu constates ici, par toi-m√™me (car je vois bien que tu n’y croiras jamais et me croiras toujours entour√© d’imb√©ciles) la libert√© intellectuelle extraordinaire, unique, qui y r√®gne. On a le droit de tout dire et de tout penser – sauf des sottises, car elles sont vite par terre.

Mais alors, le thomisme, diras-tu ? Eh bien, le thomisme, on y croit parce qu’on a vu ses grands principes, et qu’on ne peut pas renoncer √† ce qu’on a vu. D’ailleurs, le thomisme n’est pas un syst√®me : il reste ouvert √† toutes les intuitions – pourvu qu’on ne se ferme pas aux siennes. Et si nous combattons les syst√®mes, c’est justement parce que tout syst√®me se ferme, par d√©finition, √† telle ou telle intuition majeure, et qu’il oppose une fin de non-recevoir √† tout examen honn√™te du probl√®me. J’attends encore pour ma part qu’on me signale une seule v√©rit√© que le thomisme ne puisse accueillir.

Tu me dis qu’on ne peut y voir qu’un chapitre dans l’histoire de la philosophie. Mais qu’entends-tu par histoire de la philosophie ? Si c’est l’histoire de la conqu√™te (jamais finie et pourtant r√©elle) de la v√©rit√© par les hommes, oui, le thomisme est un chapitre de cette histoire – mais un chapitre d√©cisif, dont les principes fondamentaux sont acquis une fois pour toutes comme base des recherches ult√©rieures que les hommes ont pu faire. Ceux qui ont rejet√© ces bases ont err√© dans la mesure pr√©cise o√Ļ ils ont ferm√© les yeux √† leur lumi√®re. Seulement, au fond, pour toi, l’histoire de la philosophie est celle des erreurs de l’humanit√© : tu ne crois pas √† la v√©rit√©. Mais c’est une position qui t’est personnelle, et ne s’impose pas avec √©vidence.

Tu voudrais retrouver le sceptique “passionn√©” que j’√©tais. Mais je le suis plus que jamais ! Au del√† du scepticisme qui nie la v√©rit√©, il y a celui qui ne pr√©tend m√™me pas la nier, et ne refuse pas √† l’homme le pouvoir d’atteindre une v√©rit√© imparfaite, mais r√©elle. P√®se bien ces deux mots: l’audace du thomisme est de n’en vouloir perdre aucun, ce qui en fait pour moi, sans paradoxe, le comble du scepticisme. Le thomiste est sceptique par √©minence. Car le sceptique qui se ferme radicalement √† l’id√©e de v√©rit√© pr√©tend au moins (ou alors il se tait) que son attitude est parfaitement ad√©quate √† la condition humaine – pr√©tention que n’aura pas un thomiste, par aucune de ses attitudes, du moins avec une telle duret√©.

Reste √† savoir si les √©tudes que je fais permettront √† mon silence d’√™tre “pur”. Cette question est insoluble pour qui n’en a pas l’exp√©rience et je ne peux m’en expliquer par √©crit. Un seul point : ce silence n’est pas le fruit de notre asc√®se et de nos efforts, c’est un don de Celui qui nous appelle de loin ; la contemplation d’une paysanne (Bernadette de Lourdes par ex.), d’une bourgeoise cultiv√©e, d’une noble comme Th√©r√®se d’Avila… et d’un St.Thomas, sont substantiellement identiques, et ne diff√®rent que psychologiquement ou par les charismes, c’est-√†-dire en surface.

Dieu n’a pas besoin d’√™tre ignorant pour d√©passer l’√©rudition, et c’est lui qui agit dans la contemplation, ce n’est pas nous. Pascal le disait d√©j√†: la vraie philosophie se moque de la philosophie, elle n’alt√®re donc pas la puret√© du silence. Nous ne sommes pas des √©rudits, nous sommes des mendiants de la R√©v√©lation, bien d√©pouill√©s et bien nus par cons√©quent, du moins si nous sommes fid√®les √† notre vocation.

Mais il faudrait que je te voie !…

Ton sceptique passionn√© qui n’a pas tant chang√© que tu le crois, et beaucoup plus que tu ne le soup√ßonnes, en restant ton fid√®le ami

A.Molinié

Le 12.1.47

Mon Cher Cioran,

Il faut tout de m√™me t’avouer que sans Genevi√®ve, je ne serais peut-√™tre jamais sorti de mon cloaque. J’avais bien compris que je serais seul, toujours – mais il me restait le “jeu” de voir la volont√© d’un de ces √™tres falots que sont les femmes devenir soudain, en un instant, par une conversion brutale et une d√©faite absolue, ma chose sur qui, par l’amour qu’elle me vouait, j’aurais un pouvoir infini. Sans int√©r√™t avant ce don, sans int√©r√™t apr√®s lui et bonne √† rejeter comme une peau d’orange (je le savais √† l’avance), la femme devenait, √† ce moment-l√†, quelque chose de si path√©tique et de si d√©chirant, que pour contempler la chute d’une √Ęme dans une autre (chute qui d’ailleurs me rendrait la m√™me femme odieuse l’instant d’apr√®s), cela valait un peu la peine de vivre. Et au fond telle √©tait ma seule raison de vivre : quelques instants de contemplation intense puis√©s dans l’amour, dans l’art, dans le jeu sous toutes ses formes.

Pourtant, au fond de moi, sommeillait un √™tre qui cherchait encore la v√©rit√©, moins (comme dit Proust de Swann √† la recherche d’Odette) “parce qu’il esp√©rait encore la trouver que parce qu’il lui √©tait trop dur d’y renoncer”. Je sentais obscur√©ment que le prix des ces √©clairs fugitifs √©tait de laisser entrevoir quelque chose d’une r√©alit√© myst√©rieuse cach√©e derri√®re le train habituel de la vie et le visage quotidien du monde, r√©alit√© que mon esprit aventureux √©tait secr√®tement pr√™t √† poursuivre, elle, dans son objectivit√©, sit√īt qu’une voie s√©rieuse serait ouverte pour me conduire, non plus √† des moments de gr√Ęce o√Ļ l’on sent passer quelque chose – mais √† cette chose m√™me. Un √™tre enfin qui souffrait atrocement d’√™tre seul et r√™vait encore, comme malgr√© lui, “d’aimer et d’√™tre aim√©”, tout en sachant bien qu’il cherchait dans les √™tres humains, plus que des √™tres humains, ce “quelque chose” entrevu √† la lueur des situations √† haute tension et des musiques profondes.

Il fallait donc accepter d’√™tre seul, ou renoncer √† ce quelque chose qui seul assouvirait ma soif. Officiellement, j’avais choisi d’√™tre seul : ma d√©cision semblait prise, comme la tienne, quoiqu’avec une note diff√©rente. Je sentais vraiment, derri√®re cette boue, un myst√®re r√©el (du moins par moments, car je m’attendais assez bien au n√©ant apr√®s la mort) – et c’est ce myst√®re, m√™me inaccessible, m√™me illusoire peut-√™tre, qui me retenait sur terre (et non pas, comme toi, la pure perspective de me ronger moi-m√™me) : je demeurais inexplicablement convaincu que la vie √©tait une splendeur, une extase sans nom. Ce qui me d√©go√Ľtait c’√©tait moi, moi et les hommes, mais pas la vie, pas le r√©el : pas le myst√®re.

Le monde √©tait √† vomir, et moi avec, mais le myst√®re du monde, ah ! le myst√®re du monde, quel gouffre ! quel attrait ! Chaque √™tre, chaque homme en particulier, me donnait la naus√©e, mais le myst√®re de cet homme ! le myst√®re de sa nature et de son destin, cela me semblait infiniment beau, infiniment infini.. Comment exprimer cela ? J’aimais l’art comme le filtre qui, √©liminant la banalit√© limit√©e des choses, n’en retenait que le myst√®re. Ce myst√®re √©tait comme une lumi√®re qui baignait toutes choses : les choses √©taient viles, mais point cette lumi√®re que je cherchais en elles.

Bien s√Ľr, tout √ßa, je ne le savais pas clairement comme aujourd’hui : je ne comprenais pas moi-m√™me mes r√©actions profondes. Mais c’√©tait √† peu pr√®s ainsi. Ma solitude n’√©tait pas pur isolement, mais solitude-en-face-du-myst√®re: aussi je la ch√©rissais profond√©ment. Les hommes, le monde, la vie sociale, √©taient pour moi des pions dont je jouais pour rester en pr√©sence du myst√®re… pour jouer aussi avec lui, mais d’un jeu s√©rieux et passionn√© celui-l√†.

C’est alors qu’arriva Genevi√®ve : ce fut elle qui d√©traqua mon syst√®me. Voici pourquoi. Elle sentit tr√®s vite ce que je voulais d’elle : cette chute apr√®s laquelle elle ne m’int√©resserait plus. Mais elle √©tait orgueilleuse, √† sa mani√®re : elle n’y consentit jamais. Je me serais content√© pourtant d’un aveu, d’un don purement spirituel, apr√®s lequel je lui aurais bien volontiers, dans l’exaltation d’un sacrifice commun, accord√© sa libert√©. Mais cela m√™me elle refusa de me le donner clairement, malgr√© sa soif d’un don absolu, ou √† cause de cette soif. Alors je me mis √† souffrir comme un damn√©, √† la lettre : car je compris que son refus venait de ce qu’en r√©alit√© je ne l’aimais pas. Que devant un amour vrai elle aurait √©t√© vaincue. Je fus alors d√©vor√© par quelque chose de cette soif impuissante d’aimer que l’on doit √©prouver en enfer : je puis te dire que c’est abominable. Car l’aimer pour de bon, c’√©tait renoncer √† elle, pour sa paix : et c’est cela que je ne parvenais pas √† faire.

Cela a dur√© un an de souffrances r√©ciproques. Jusqu’au jour o√Ļ j’ai vu que ma vraie soif portait au del√† de Genevi√®ve, que ce myst√®re de l’absolu je ne pouvais plus jouer avec lui : j’√©tais pris au pi√®ge, j’avais besoin de Lui √† tout prix, je ne pouvais plus me passer d’aimer pour de vrai : et un tel Amour porte sur Dieu.

Autrement dit : deux choses m’int√©ressaient depuis toujours, le myst√®re du monde, et le myst√®re de l’amour. L’un et l’autre conduisent √† Dieu, mais √† condition de s’engager avec eux, et je ne le voulais pas : je voulais jouer avec le myst√®re et avec l’amour ; non pas aimer, mais regarder l’amour, jouer l’amour avec une curiosit√© passionn√©e.

Seulement √† ce jeu j’ai √©t√© pris : Genevi√®ve m’a r√©v√©l√© ce que c’√©tait que de ne pas pouvoir aimer, et du m√™me coup la profondeur terrible de la soif d’aimer qui est au fond de nous – et qui est la soif m√™me de Dieu. Pour que mon jeu r√©ussisse en effet, il fallait que Genevi√®ve m’aim√Ęt. Et pour qu’elle m’aime, je compris rapidement qu’il fallait que je l’aime aussi. J’√©tais tomb√© sur un √™tre trop lucide et trop simple pour se laisser s√©duire par autre chose que l’amour vrai. Or cet amour vrai, je compris aussi que j’en √©tais incapable, et en m√™me temps je compris concr√®tement, atrocement, que la seule b√©atitude est d’aimer, que la seule vie est d’aimer, et que le reste, intelligence, g√©nie, po√©sie, femmes conquises, beaut√© m√™me, est de la boue si l’amour vrai, l’amour qui se donne, n’y est pas.

Le myst√®re de l’homme, c’est de se d√©passer, et c’est pourquoi ce myst√®re est si beau alors que l’homme est si moche. Et ce d√©passement, c’est l’amour. Comprendre cela, le sentir dans sa chair, et se voir en m√™me temps radicalement incapable d’une seule goutte de pur amour, il faut avoir pass√© par l√† pour deviner ce que peut √™tre la damnation. Voir qu’un √™tre vous √©chappe parce qu’on ne l’aime pas, que cet √™tre est fait pour l’amour, et nous pour l’orgueil impuissant.. non, je ne peux pas dire ce que c’est.

Et pourtant, c’√©tait d√©j√† le salut, car c’√©tait la soif positive d’aimer. Je ne pouvais plus accepter de ne pas aimer, je ne pouvais plus me r√©signer √† l’√©go√Įsme. Je vivais en enfer, mais je pr√©f√©rais mon enfer √† mon ironie pass√©e. En cela m√™me j’√©tais d√©j√† sauv√©, car j’√©tais d√©j√† sorti de l’aboulie consciente. Je voulais, d’un vouloir radicalement impuissant (d’o√Ļ cet impression d’enfer), mais enfin je voulais (et je fis des efforts positifs pour cela) aimer.

Ces seuls efforts suffirent √† m’attacher Genevi√®ve, en proie √† sa fa√ßon aux m√™mes tourments, et nous men√Ęmes une vie extraordinaire, un jeu d’orgueil et d’amour successivement triomphants, jusqu’au jour o√Ļ nous d√©couvr√ģmes ensemble le couvent. Prier ensemble √©tait la seule solution : mais ici nous cess√Ęmes d’y voir clair. Un grand vent nous emporta tous les deux, et c’est seulement aujourd’hui que je sais pourquoi il en fut ainsi : Dieu est le seul terme possible d’un amour pur et absolu, parce que seul il en est digne..

Mais assez bavard√© aujourd’hui. Tout cela bien mauvais, j’aimerais mieux t’en parler. Viens me voir.. ce ne sera pas beaucoup plus fatigant qu’un d√ģner en ville, et comme je serais heureux de parler de tout √ßa avec toi!

Ton fidèle

Molinié

P.S : Je me suis permis de lire ta lettre √† un fr√®re d’ici, qui m’a simplement dit : “ce type-l√† est sauv√©”.

ASSOCIATION D’ETUDES DE THEOLOGIE THERESIENNE
Lettres à Cioran

Une interview du Molini√© parue sur Famille Chr√©tienne…
Du d√©sespoir √† l’adoration

Ce pessimiste convaincu, fr√®re‚Äďami de Cioran, s‚Äôinterdit aujourd‚Äôhui de d√©sesp√©rer, par ob√©issance au Saint Esprit : ¬ę Ce n‚Äôest jamais que de mani√®re surnaturelle que j‚Äôai confiance ¬Ľ. Peut-il oublier la pri√®re de sa m√®re qui se pr√©cipita devant une statue de la Vierge alors qu‚Äôil √©tait √† un pas du suicide ? et s‚Äôexclama : ¬ę Que je le perde ! Que je le perde ! Mais qu‚Äôil soit sauv√© ! ¬Ľ

“F√© e raz√£o”: entrevista com o cardeal Gianfranco Ravasi

Os agn√≥sticos que buscam respostas muitas vezes est√£o mais pr√≥ximos de Deus do que aqueles para os quais a f√© √© simplesmente um h√°bito mec√Ęnico‚ÄĚ. Entrevista com Gianfranco Ravasi.

Lisa Palmieri Billig O ‚Äú√Ātrio dos Gentios‚ÄĚ, express√£o que se refere ao espa√ßo aberto do antigo Templo de Jerusal√©m reservado aos n√£o crentes e separados por um muro dos judeus que participavam dos encontros de ora√ß√£o, tornou-se o marco de uma campanha da Igreja Cat√≥lica para a abertura ao di√°logo com aqueles que n√£o concebem a transcend√™ncia e que possuem fortes convic√ß√Ķes √©ticas. O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontif√≠cio para a Cultura e diretor desse projeto, √© um incans√°vel criador de eventos. O √ļltimo ‚Äú√Ātrio‚ÄĚ ocorreu h√° em Palermo. Intitulado Cultura da legalidade e sociedade multirreligiosa, ele transmitiu uma forte mensagem de condena√ß√£o √† m√°fia. Como em todos os ‚Äú√Ātrios‚ÄĚ que ocorreram anteriormente em diversas cidades do mundo, o cardeal Ravasi se serviu abundante e eficazmente de m√ļsica, dan√ßa, testemunhos pessoais e, nesse caso, da participa√ß√£o das crian√ßas. Entre os sonhos do cardeal, nos projetos futuros h√° a ideia de um evento em Jerusal√©m, do qual participariam as personalidades que representam a cultura judaica, crist√£ e mu√ßulmana. Apesar das dificuldades, ele acredita que os tempos poder√£o estar maduros para tal encontro. A seguir, est√£o os ponto de destaque de um di√°logo realizado com Sua Emin√™ncia, que capta as reflex√Ķes sobre os principais pressupostos do ‚Äú√Ātrio dos Gentios‚ÄĚ e sobre as suas caracter√≠sticas particulares e espec√≠ficas de dial√≥gicas. O cardeal √© famoso pelo seu profundo conhecimento da B√≠blia, pelo seu intenso interesse pelas artes e pelas ci√™ncias, mas tamb√©m pelas suas atividades di√°rias no Twitter (@CardRavasi ), em que se ocupa de aforismos b√≠blicos e liter√°rios, para a alegria dos seus receptivos leitores. ‚ÄúA ideia foi lan√ßada por Bento XVI durante seu discurso de Natal em 2010 √† C√ļria e aos diplomatas internacionais credenciados junto √† Santa S√©. O objetivo dos eventos do √Ātrio‚ÄĚ, conta o cardeal Ravasi, ‚Äú√© de se comprometer no di√°logo com todos os n√£o crentes, vinculados por ideais √©ticos, mas incapazes de conceber a transcend√™ncia, que buscam as respostas √†s perguntas existenciais fundamentais dos nossos tempos. Os agn√≥sticos que buscam respostas‚ÄĚ, afirmam, ‚Äúmuitas vezes est√£o mais pr√≥ximos de Deus do que aqueles para os quais a f√© √© simplesmente um h√°bito mec√Ęnico‚ÄĚ. ‚ÄúEstamos particularmente interessados no discurso cient√≠fico e sociocultural. Para o catolicismo, o sobrenatural n√£o aniquila a ordem natural. A f√© n√£o exclui a raz√£o. A √©tica religiosa (que constitui a √©tica moral) est√° enraizada na √©tica natural, mas √© mais comprometedora, como por exemplo no √Ęmbito sexual‚ÄĚ. ‚ÄúEncontramo-nos em campos neutros de di√°logo, n√£o nos da teologia cat√≥lica. Os n√£o crentes podem ser definidos como agn√≥sticos, humanistas, secularistas, at√© ateus‚ÄĚ, afirma Ravasi, ‚Äúmas n√≥s insistimos no respeito rec√≠proco. A linguagem agressiva, ofensiva, sarc√°stica utilizada por alguns ateus militantes n√£o pode produzir ‚Äėdi√°logo‚Äô, que, do grego, significa ‚Äėatravessar‚Äô um t√≥pico para se trocar ideias‚ÄĚ. Os eventos dos ‚Äú√Ātrios‚ÄĚ foram realizadas em diversas cidades europeias, de Bucareste a Tirana, passando por Barcelona, Floren√ßa, Bolonha, Roma e Paris. O √ļltimo debate ocorreu nos dias 29 e 30 de mar√ßo em Palermo, intitulado Cultura da legalidade e sociedade multicultural, do qual participaram o procurador antim√°fia Piero Grasso,Nando Dalla Chiesa, Remi Bague, Gian Enrico Rusconi e Giuliano Amato. O cardeal Ravasi recorda com carinho especial o evento de Bucareste(Hungria) sobre o tema Em que cr√™ um n√£o crente?. ‚ÄúVieram 2.000 estudantes‚ÄĚ, afirmou. Uma mulher que havia se declarado ateia antes que eu falasse depois me revelou: ‚ÄėEu acho que n√£o posso mais me considerar ateia‚Äô‚ÄĚ. Eis a entrevista. Voc√™s ainda n√£o organizaram um evento no Oriente M√©dio. O senhor n√£o acredita que o di√°logo intercultural nessa √°rea pode refor√ßar as perspectivas de um maior respeito pelos direitos humanos e pelo desenvolvimento de novas democracias? Envolveria Israel no di√°logo? Eu acredito que a maior parte dos pa√≠ses dessa √°rea ainda n√£o est√£o prontos para o debate cultural. Mas, sim,Jerusal√©m seria um ponto de partida ideal. Eu convidei o embaixador israelense junto √† Santa S√© para participar de um encontro regional dos embaixadores asi√°ticos, mas infelizmente ele n√£o p√īde intervir. Eu tamb√©m convidei escritores como Amos Oz, David Grossman, Abraham Yehoshuah para outros, mas de uma forma ou de outra ainda n√£o conseguimos tornar isso poss√≠vel. Eu ficaria muito feliz de organizar em Jerusal√©m um encontro com intelectuais e artistas judeus, crist√£os e mu√ßulmanos. O povo judeu ainda pode estar c√©tico com rela√ß√£o √†s verdadeiras inten√ß√Ķes da Igreja. Um pouco por causa dos s√©culos de‚ÄĚ controv√©rsias‚ÄĚ teol√≥gicas vinculantes, cujo objetivo principal era a convers√£o dos judeus, e um pouco por causa das milhares de convers√Ķes for√ßadas, os israelenses poderiam temer o proselitismo‚Ķ O nosso objetivo √© propor, n√£o impor. Os judeus, por outro lado, assim como os cat√≥licos, acreditam que a sua √© a Verdadeira f√©. Os judeus e os cat√≥licos compartilham muitos valores comuns relativos ao campo da moral, ao conceito de Deus e de transcend√™ncia, ao simbolismo, possuem um texto comum etc. No que se refere √† √©tica sexual, compartilhamos a mesma vis√£o sobre a homossexualidade e sobre o aborto etc. Existem muitas afinidades, e o di√°logo com os judeus √© mais simples do que com os protestantes. As nossas vis√Ķes n√£o s√£o realmente id√™nticas. Existem rabinos judeus e homossexuais, e o aborto √© permitido durante os primeiros tr√™s meses de gravidez se a vida ou a sa√ļde da m√£e est√£o em grave perigo. Um feto √© considerado um ser humano s√≥ depois do seu nascimento‚Ķ Existem diversas opini√Ķes nos diversos ramos do juda√≠smo: juda√≠smo ortodoxo, conservador, reformista, liberal, reconstrucionista, e humanista e secular. Talvez estejamos mais pr√≥ximos do juda√≠smo ortodoxo. No entanto, mesmo aqueles que se definem como judeus ‚Äún√£o crentes‚ÄĚ ou ‚Äúateus‚ÄĚ t√™m um senso de identidade religiosa mais forte do que os crist√£os, gra√ßas ao seu conceito de pertencimento ao povo. Quase toda a literatura americana judaica foi produzida por judeus ateus. Estamos muito interessados em empreender um di√°logo cultural, antropol√≥gico com os judeus seculares israelenses e em compreender de que modo um rabino e um crente consideram um judeu ateu como Woody Allen! O di√°logo com os n√£o crentes se tornou uma prioridade para a Igreja Cat√≥lica. No 25¬ļ anivers√°rio do primeiro Dia Mundial de Ora√ß√£o Inter-Religiosa em Assis, em outubro passado, a ‚Äúhumanista‚ÄĚ francesa Julia Kristeva foi uma das principais oradoras. Ela √© uma pensadora excepcional. Eu li muitas de suas obras. O seu di√°logo com Jean Vanier em Il loro sguardo buca le nostre ombre sobre os deficientes √© repleto de humanidade, de calor materno, com introspec√ß√Ķes psicol√≥gicas e racionalis. O seu discurso e o do rabino David Rosen foram os mais significativos da jornada. Ambos se concentraram na pessoa humana, na sua dignidade, nobreza e nos seus limites. O senhor revelou que lamenta o fato de n√£o ter tido a sorte de dialogar com o ateu brit√Ęnico Cristopher Hitchens antes da sua morte. Sim, tenho certeza de que ele reconheceria uma s√©rie de valores que n√£o podem ser reduzidos simplesmente a uma quest√£o de c√©lulas. Ele expressava uma espiritualidade. N√£o acredito que ele negaria a exist√™ncia da alma. Muitas vezes, o senhor cita as piadas daqueles que se definem como n√£o crentes. Voc√™ se refere a declara√ß√Ķes como a de Bu√Īuel: ‚ÄúSou um ateu gra√ßas a Deus‚ÄĚ, ou de Ionesco: ‚ÄúTodas as vezes que o telefone toca, eu corro na esperan√ßa de que pode ser Deus me telefonando, ou pelo menos um dos Seus anjos secret√°rios‚ÄĚ, ou do escritor romeno Emil Cioran que escreveu: ‚ÄúQuando voc√™ ouve Bach, voc√™ v√™ Deus nascer‚ÄĚ, ou de Woody Allen: ‚ÄúEu n√£o sei se Deus existe, mas, se existe, espero que ele tenha uma boa desculpa‚Ä̂Ķ Em sua opini√£o, qual a principal preocupa√ß√£o religiosa compartilhada por crist√£os e judeus hoje? Eu diria a exponencial seculariza√ß√£o da sociedade. O fato de Deus existir ou n√£o √© irrelevante para muitos. Charles Taylor expressou esse aspecto com um aforismo em Uma era secular (Ed. Unisinos, 2010): ‚ÄúSe Deus viesse hoje para uma das nossas cidades, a √ļnica coisa que aconteceria √© que lhe pediriam os documentos‚ÄĚ.