Jean-Luc Godard sobre Cioran

“Ler, então viver”, entrevista de Jean-Luc Godard a Pierre Assouline, publicada no caderno Mais! da Folha de S. Paulo, 27 de julho de 1997

Desde sempre os livros são seus amigos. E a literatura, sua boa fada, lhe deu “uma consciência moral”. O cineasta místico da Nouvelle Vague recebeu a “Lire” às margens do lago Léman, na Suíça, onde mora, para falar de Gide, Cioran e Valéry.

Pergunta – A literatura vinha mais do lado Godard da família ou do lado Monod?

Godard – Do lado Monod. Minha mãe lia muito. Mas o gosto pelo romantismo alemão me foi passado por meu pai, que era médico. Entre os 18 e os 20 anos, graças a ele, devorei Musil, Broch, Thomas Mann. Meu avô também me marcou muito. Ele era banqueiro em Paribas. Era amigo de Paul Valéry e tinha todos os livros dele. Chamávamos sua biblioteca de “o valerianum”. Nos aniversários de seu casamento eu tinha que recitar “O Cemitério Marinho”. Eu também gostava de seu “Tel Quel”. Era menos selvagem que Cioran, mas a época era diferente. Ele também repetia belas frases de Valéry.

“Na literatura há muito passado e pouco futuro, mas não há presente” (Jean-Luc Godard)

Pergunta – Foi a leitura de Cioran que o tornou mais sábio?

Godard – Ela corresponde a minha queda pelos aforismos, a síntese, os provérbios. Talvez esse gosto meu tenha origem nas fórmulas científicas. O aforismo resume alguma coisa mas, ao mesmo tempo, permite outros desenvolvimentos. Como um nó: poderia ter sido feito em outro sentido, mas, mesmo assim, quando está dado, o sapato fica preso no pé do mesmo jeito. Não se trata de um pensamento, mas do traço de um pensamento. Leio Cioran a toda hora, em todos os sentidos. É muito bem escrito. Com ele, o espírito transforma a matéria. Cioran me oferece uma matéria da qual o espírito se nutre.

Pergunta – Mas o que é que tanto o seduz nos aforismos?

Godard – Seu aspecto de central de triagem. A gente entra, sai, retorna. Quando encontramos um bom pensamento, podemos nos demorar nele por muito tempo, e depois carregá-lo conosco. Não é preciso ler tudo. Gosto muito de Fernando Pessoa, mas ele é muito sombrio, enquanto Cioran nos ajuda a viver. É uma forma de pensamento diferente daquele pensamento com começo, meio e fim. Não é uma história que se conta, mas um momento da história.

Pergunta – Percebe-se que o sr. assinalou trechos das “Obras Completas”, de Cioran -é verdade?

Godard – Coisas como “cada pensamento deveria lembrar a decadência de um sorriso”, “somos todos farsantes, sobrevivemos a nossos problemas”, “todo problema profana um mistério, e este, por sua vez, é profanado por sua solução”, “a palidez nos mostra até onde o corpo é capaz de compreender a alma”, “cedo ou tarde, cada desejo deve encontrar seu esgotamento, sua verdade”… Sem falar neste, que me agrada especialmente: “Objeção a fazer à ciência: o mundo não merece ser conhecido”. É muito diferente das idiotices de Georges Charpak. Os cientistas que se permitem escrever, sem saber escrever -isso não! “La Logique du Vivant”, de François Jacob, estava escrito. Prefiro Buffon: o estilo é o próprio homem. Levinas tinha idéias bonitas, mas era incapaz de transmiti-las devido ao problema da língua. A mesma coisa aconteceu com Popper e Einstein. Há um esgotamento do saber escrever. Já Cioran… Eu havia esquecido o seguinte: “No contato com os homens, perdi o frescor de minhas neuroses”.

[Entrevista completa]