“El verí Cioran” (Xavier Pla)

El Temps, 12 de setembre de 2017, núm. 1735

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Encara que Jordi Llovet escrigui que va ser a través de Fernando Savater i de les traduccions espanyoles que es va poder accedir al pensament de Cioran (això deu ser el seu cas personal, ben respectable), són molts els lectors catalanoparlants que, des de fa dècades, llegeixen i segueixen el gran filòsof romanès directament en llengua francesa, la llengua literària que va adoptar l’estiu de 1945, uns anys després de la seva arribada a París. I són molts, també, els qui no acabaven d’entendre que cap editor no es decidís a traduir-lo al català.

En una nota del seu enorme dietari, En aquesta part del món (Acontravent, 2016), del 27 de març de 1991, el mallorquí Guillem Simó ja es queixava severament que “Cioran, absolutament i fatalment inèdit en català, és adoptat i assimilat per la cultura espanyola gestada a Catalunya.” Si vol deixar de ser una cultura “satèl·lit”, com recordava Lluís V. Aracil en un llibre mític, Dir la realitat (1982), la cultura catalana no tan sols ha de poder relacionar-se directament amb la resta de cultures del món, sinó que sobretot ha de superar l’obsessió per preservar la llengua, lligant-la a les necessitats més reals, materials i concretes de la seva existència; i afrontar directament les grans preocupacions de la cultura i del pensament universals.

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És per això que aquesta primera traducció al català d’un llibre d’Emil Cioran(1911-1995), El crepuscle dels pensaments, és un notícia cultural de primera magnitud. Per ser justos, val la pena recordar l’assaig del professor Joan M. Marín Torres E. M. Cioran, l’escriptura de la llum i el desencant, publicat per l’editorial valenciana 7iMig l’any 1999, que contenia també una breu antologia de textos de Cioran. Però, per a un país on els moralistes han estat tan ben llegits, gràcies en part a Pla i a Fuster, i on la tradició aforística i diarística no para de créixer, és un resultat ben escàs… [+]

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“Le mal et le pire : de Schopenhauer à Cioran” (Joan M. Marín Torres)

Le mal et le pire. De Schopenhauer à Cioran

(The Bad and The Worst. From Schopenhauer to Cioran)

Source: Repositori Universitat Jaume I

Abstract: This study aims to question the wrongness, more precisely what we emotionally experience and intellectually categorize as wrong, beginning with the works of Cioran and Schopenhauer. It is true that these two authors …

Subject: Philosophy | Existence | Wrongness | Liberty | Good and evil | Schopenhauer, Arthur, 1788-1860– Criticism and interpretation | Cioran, E. M. (Emile M.), 1911-1995– Criticism and interpretation | Bé i mal | Schopenhauer, Arthur, 1788-1860– Crítica i interpretació | Cioran, E. M. (Emile M.), 1911-1995– Crítica i interpretació

Source: Alkemie (1843-9012), no. 4 (déc. 2009) p. 9-17

Abstract  : This study aims to question the wrongness, more precisely what we emotionally experience and intellectually categorize as wrong, beginning with the works of Cioran and Schopenhauer. It is true that these two authors agree with the diagnostic of the human condition (its wrongness and its unhappiness are intolerable because unjustifiable, on the theological level too), and also with its traits (sufferance, vainness, injustice, cruelty) and consequences (human liberty), but they have opposite views when wondering if the renunciation to the will of living may suffice or not in order to save the man from his tragic existence.

Key words : philosophy, existence, wrongness, liberty.

Dans les écrits de Cioran il n’y a que peu de références directes à l’œuvre de
Schopenhauer. Mais on peut lire dans De l’inconvénient d’être né :

« Maudit soit celui qui, dans les futures réimpressions des mes ouvrages, y aura changé sciemmen!t quoi que ce soit, une phrase, ou seulement un mot, une syllabe, une lettre, un signe de ponctuation ! »
Est-ce le philosophe, est-ce l’écrivain qui fit parler ainsi Schopenhauer ? Les deux à la fois, et cette conjonction (que l’on songe au style effarant de n’importe quel ouvrage philosophique) est très rare. Ce n’est pas un Hegel qui aurait proféré malédiction semblable. Ni aucun autre philosophe de première grandeur, Platon excepté. (De l’inconvénient d’être né, 1322)

Il s’agit d’une juste appréciation de la maîtrise littéraire de Schopenhauer. Avec la même exactitude, Cioran aurait pu proférer ces paroles sur sa propre œuvre. Cependant, la manière avec laquelle ces deux auteurs s’affrontent à la réalité est très distincte. Le Roumain est un auteur d’aphorismes expérimenté  ; l’Allemand, bien qu’il cultive avec talent, lui aussi, l’art aphoristique, est l’un des derniers grands philosophes systématiques. Mais – et c’est une chose peu habituelle dans le monde philosophique – les deux partagent une même passion pour l’expression précise et la maîtrise du style littéraire ; et, surtout, ils ont en commun la lucidité avec laquelle ils découvrent les paysages de la fatalité qu’habite l’être humain. [Texte intégral] [Pdf]

VI Encontro Internacional Emil Cioran

Pereira, Colômbia, outubro/novembro de 2013

Entre 31 de outubro e 5 de novembro de 2013, aconteceu, na cidade colombiana de Pereira, a 6ª edição do Encuentro Internacional Emil Cioran, um dos mais importantes eventos mundiais dedicados aos estudos sobre o homônimo pensador romeno radicado na França. O congresso, organizado pela filósofa M. Liliana Herrera e vinculado ao departamento de Filosofia da Universidade Tecnológica de Pereira (UTP), onde Herrera leciona filosofia, contou com a presença de acadêmicos nacionais e internacionais que se dedicam a estudar e a divulgar a obra de Cioran.

VI Encuentro Internacional Emil Cioran (Pereira, Colômbia)
VI Encuentro Internacional Emil Cioran (Pereira, Colômbia)

Foram no total 4 dias de conferências sobre os mais variados temas que compõem o pensamento caleidoscópico de Cioran, de um intenso e envolvente debate em torno de sua obra e vida. Comentarei aqui apenas algumas das conferências ocorridas nos dois primeiros dias.

VI Encuentro Internacional Emil Cioran em Pereira, Colômbia (divulgação)
VI Encuentro Internacional Emil Cioran em Pereira, Colômbia (divulgação)

Coube à Profa. M. Liliana Herrera as honras de dar boas-vindas aos participantes, abrindo oficialmente o congresso. A abertura também contou com a performance da pianista romena Viktoria Gumennaia, residente na Colômbia, que nos agraciou com uma amostra daquela que seria a “paisagem musical” da Romênia. Gumennaia tocou ao piano alguns temas tradicionais da cultura musical romena, estimulando nossos sentidos para a essência do espírito romeno através da forma de arte que Cioran mais amava.

Joan M. Marín Torres (Valencia, Espanha)
Joan M. Marín Torres (Universitat Jaume I, Castelló de la Plana, Espanha)

Abrindo os trabalhos no primeiro dia, Joan Manuel Marín Torres (autor de Cioran o el laberinto de la fatalidad) falou sobre a paixão de Cioran pela Espanha em conferência intitulada “Cioran: ensoñaciones de España”. Marín problematizou e esclareceu a imagem cioraniana da Espanha, os motivos e as circunstâncias de seu interesse pelo país de Miguel de Cervantes. Mencionou o fato de que, antes de ir à Alemanha, Cioran contemplava a Espanha como destino de estudo, onde pretendia seguir os cursos de José Ortega y Gasset. O romeno teria visitado a Espanha 8 vezes no total, incluindo sua estadia na praia de Talamanca (Ibiza) da qual resultaria o pouco conhecido Cahiers de Talamanca. Mencionou também o primeiro encontro que Cioran teve, ainda jovem, com um espanhol (supostamente um discípulo do filósofo Miguel de Unamuno), que lhe teria dito: “me gusta la muerte y el sublime” (sic). A atração do romeno pelos místicos espanhóis não poderia passar em branco. “Cioran tinha três nacionalidades: a romena, a francesa e a romena; demasiado para um intelectual que se pretendia apátrida”, brincou.

Mihaela-Genţiana Stanișor (Universidade Lucian Blaga, Sibiu)
Mihaela-Genţiana Stanișor (Universidade Lucian Blaga, Sibiu)

Mihaela-GenÅ£iana Stanișor, por sua vez, tratou da questão da “romenidade”, ou seja, daquela que seria a identidade romena em sua especificidade cultural, tendo como referências três grandes nomes da cultura de seu país: Mihai Eminescu, Lucian Blaga e Constantin Noica. Eminescu teria sido o primeiro a promover a ideia de uma “consciência da romenidade”, notadamente em seu poema intitulado “A oração de um dácio”. Mencionou o mito da MioriÅ£a, que seria tão significativo para os romenos quanto o é Dom Quixote para os espanhóis. Stanișor apresentou e explicou algumas entidades linguísticas mais distintivas da cultura romena, e que seriam, por assim dizer, distintivas do espírito romeno. Como as palavras dor (pronuncia-se “dór” correspondendo à nossa saudade, ou nostalgia) e bocete, que designa, por sua vez, uma espécie de elegia, um canto fúnebre bastante típico. Outra contribuição linguístico-cultural da filóloga romena oriunda de Sibiu, na Transilvânia, diz respeito à preposição întru (tão difícil de ser traduzida quanto compreendida em sua amplitude semântica), que seria bastante elucidativa a respeito do espaço vital romeno. Esta preposição seria, segundo Stanisor, especialmente significativa no sentido de ilustrar aquela que seria a “virtude polivalente” do espírito romeno, ou seja, a qualidade especial de certa dinâmica vital graças à qual os romenos seriam um povo tão espiritualmente rico.  Întru denota, ao mesmo tempo, as noções de posição e de direção, isto é, ao mesmo tempo um “estar” (ou ser) e um “em direção a” (a caminho de…, no sentido de…), o que seria muito significativo, no plano abstrato da linguagem, no que diz respeito ao fundo trágico do espírito romeno – verticalidade e horizontalidade em permanente tensão. Um dos dizeres mais populares na Romênia, e que seria bastante revelador da alma do seu povo, é: “N-a fost sǎ fie” (Não era para ser; it wasn’t meant to be, em inglês).

Roch Little (Universidad Nacional de Bogotá)
Roch Little (Universidad Nacional de Bogotá)

Muito interessante foi a conferência de Roch Little, historiador e filósofo canadense estabelecido na Colômbia, onde leciona na Universidade Nacional de Bogotá. Ele se dispôs a analisar aqueles que seriam os “motivos cínicos” a animar a obra cioraniana. Sua conferência teve como ponto de partida o verbete “pessimismo” redigido por Michel Onfray em seu “dicionário hedonista” (Abrégé Hédoniste), no qual o filósofo francês inclui Cioran, junto a Schopenhauer e Leopardi, como um representante da respectiva categoria. Onfray parece veementemente crítico, em particular, a respeito do maior filósofo alemão pessimista: segundo ele, um poseur. Pessimistas como Schopenhauer seriam como que farsantes, impostores, pensadores incoerentes que vivem em permanente contradição com aquilo que pregam com suas palavras. A tese central de Little é que, muito embora inclua a Cioran no hall dos pessimistas chorões do qual Schopenhauer seria o mais ilustre exemplar, Onfray se mostra reticente em relação ao romeno, o que levaria a inferir que possivelmente reconhece em Cioran uma qualidade que dificilmente enxerga no autor de O mundo como vontade e como representação. Cioran se distinguiria de Schopenhauer justamente pelo fator poseur, impostor, farsante, que Onfray tanto critica em Schopenhauer, mas que no caso do pensador romeno seria uma atitude ironicamente assumida, em nenhuma contradição com aquilo que pensa e escreve. Sua sempiterna distância em relação à academia, sua marginalidade conquistada, o desejo de anonimato, a recusa de honrarias e prêmios, dos quais aceitou apenas o primeiro (por uma razão bastante compreensível de uma perspectiva cínica: necessitava do dinheiro para sobreviver em Paris) – eis a diferença fundamental que, segundo Little, seria decisiva para o silêncio de Onfray em relação a Cioran. Por fim, o canadense estabelecido na Colômbia identificou alguns motivos cínicos no pensamento de Cioran, como a ascese cínica (o ideal de uma vida simples sem trabalhar no circuito da civilização), o “realismo cru” da parrhesia, isto é, a sinceridade nua e crua, o dizer-a-verdade-doa-a-quem-doer, a bufonaria à la Diógenes, entre outros.

Francia Elena Goenaga, da Universidad de los Andes, abordou a “noção de paraíso nos Cahiers de Cioran”. Recorrendo a referências como Mary Shelley, René Char, Starobinski, entre outras, examinou o binômio criatura-criador no quadro de um uma reflexão sobre a nostalgia do paraíso (“a grande responsabilidade do criador é fazer com que a criatura seja feliz”), a imagem da “queda” como figura para dar sentido à condição humana tragicamente consciente de sua finitude e mortalidade (Char), a melancolia como sentimento fundamental produzido pela “queda no tempo”, intimamente ligado à nostalgia do paraíso perdido (Starobinski).

Hugo Peláez (Sevilla, Villa de Cauca)
Hugo Peláez (Sevilla, Villa de Cauca)

Hugo Peláez, de Sevilla, Villa de Cauca (Colômbia), brindou o público com uma conferência sobre o “Emil Cioran e o feitiço musical”. Citando a filósofa espanhola María Zambrano (“El lugar donde la esperanza se há refugiado de manera más confiada es la utopía”), que inspirou Cioran, a partir de uma conversa que tiveram no Café de Flore, em Paris, ao final da década de 50, Peláez desenvolveu a tese de que o pessimismo de Cioran assinala o fracasso da utopia, que, no entanto, o pensador romeno reencontrará na música, a “arte do absoluto”. “Só agimos sob a fascinação do impossível: isto significa que uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e de consagrar-se a ela está ameaçada de esclerose e de ruína”, cita Peláez uma passagem do ensaio “Mecanismos da Utopia”, do livro História e Utopia (1960). Segundo o intelectual sevillano, só teve uma única certeza: a música, “arte do consolo por excelência.” Ademais, Peláez comentou a paixão especial de Cioran por Bach e as afinidades entre os pensamentos do romeno e da espanhola no que concerne ao tema da utopia, concebido em sentido latu muito além do sentido histórico. A civilização tem muito mais a ver com a música do que com a arquitetura e com as instituições políticas e sociais, diriam ambos.

Rodrigo Menezes (PUC-SP)
Rodrigo Menezes (PUC-SP)

Rodrigo Menezes, doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) com uma tese sobre “niilismo, escritura e existência” em Cioran, foi o último conferencista do primeiro dia, com uma comunicação sobre o dogmatismo negativo e o niilismo em Cioran. O brasileiro problematizou o ceticismo do pensador romeno confrontando-o com o pessimismo niilista que subsiste mesmo em seus livros franceses, apesar do ceticismo reivindicado por Cioran a partir do momento em que adota o francês como idioma oficial. Nas antípodas da música, que seria como que o limite positivo da dúvida, o fenômeno do mal é outro tema sobre o qual o discurso cioraniano assume a forma de um logos dogmático negativo. Conforme escreve Sylvie Jaudeau, “Cioran não encontrou Deus, mas o mal. […] Tenta comunicar-nos o seu saber funesto lançando diante de nossos olhos essa parte de trevas que predomina e se perpetua até no vestígio material de sua escritura… […] A obra de Cioran, animada por uma vitalidade autônoma, é, em si mesma, uma figuração do mal”. Como pensa Cioran, só podemos escolher entre a ilusão e o desespero. O ceticismo é um exercício de tolerância mediante a disciplina da desfascinação (sendo que toda fascinação, para Cioran, possui um fundo egocêntrico), mas não é uma saída, uma resposta, uma solução, pois não pode oferecer nada nem de positivo de ne negativo. Seguimos então em um mundo em que é impossível duvidar do mal, e onde inclusive a certeza da dúvida é um mal.

O segundo dia de trabalhos foi inaugurado com outra conferência de Roch Little, desta vez sobre “a história no pensamento de Cioran”. Little se concentrou em dois livros de Cioran, História e Utopia (1960) e A Queda no Tempo (1964), aproximando o pessimismo histórico e a crítica de Cioran à modernidade da reflexão baudrillardiana sobre a hipermodernidade. Cioran ataca a essência mesma do pensamento, que postula uma finalidade, um sentido, um propósito para a história. O filósofo e historiador contrapôs a noção de queda em Cioran àquela de Kant e também ao pensamento de Rousseau (Sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens).

Em seguida, mais uma conferência de Joan M. Marín. Sua segunda comunicação abordou o tema de “Epicuro e Cioran como terapeutas”. Um pensamento diurno, por um lado (Epicuro), e um pensamento noturno, por outro (Cioran); duas disposições de espírito e duas atitudes filosóficas opostas, mas cujos escritos têm em comum o sentido de certa terapêutica do espírito. Enquanto que a terapêutica de Epicuro buscaria curar os espíritos preconizando a moderação, a felicidade simples e arrazoada, aqui e agora, a terapêutica cioraniana preconizaria a contradição e o conflito, um estado de lucidez que purga as ilusões mas não oferece, em contrapartida, nenhum remédio, nenhuma cura positiva para o mal de existir.

M. Liliana Herrera (Universidad Tecnológica de Pereira, Colômbia)
M. Liliana Herrera (Universidad Tecnológica de Pereira, Colômbia)

Ainda no segundo dia, outra palestra de Mihaela-Genţiana Stanișor: “A escritura como posta em cena do pensamento desassossegado”. Este que foi um dos mais intensos e ricos dias de trabalhos do encontro internacional ocorrido em Pereira foi coroado com as últimas conferências do professor Alfredo Abad Torres e da professora María Liliana Herrera, ambos da Universidad Tecnológica de Pereira; respectivamente, uma reflexão a partir do diálogo entre Cioran (notadamente o capítulo “Odisseia do Rancor” de História e Utopia) e Dostoievski de Memórias do Subsolo, e uma reflexão sobre “a sulfúrica transfiguração” de Cioran, conferência que abordou de maneira ampla e aprofundada a questão do passado político de Cioran tendo como horizonte hermenêutico a filosofia da história de Oswald Spengler.

Entrevista a José Ignacio Nájera: “El universo malogrado de Cioran”

“Cioran construyó un arte literario muy estimable […] un estilo con el que celebrar el funeral de nuestra civilización.”

Entrevista a José Ignacio Nájera, autor de El Universo Malogrado – carta a Cioran (Tres Fronteras Ediciones, Murcia, 2008)

jinajeraJosé Ignacio Nájera (Xauen, Marruecos) vive en Murcia desde 1979, donde es profesor de filosofía en el Instituto Alfonso X el Sabio. Además del libro El universo malogrado – carta a Cioran, ha publicado las novelas Olvídate de Alcibíades, Hermanos mayores y El enfermo epistemológico. En el 2005 ganó el premio de ensayo Miguel Espinosa con la obra Caminos de otoño. Colabora en diversas revistas con artículos, reseñas y narrativas cortas.

Nueva imagen (1)EMCioranBR: Estimado Sr. Nájera, en nombre del Portal E.M. Cioran/BR y de sus visitantes-lectores de Cioran, le agradezco por esa entrevista. ¿Puede contarnos cómo y cuándo ha conocido a Cioran, y qué es lo que le ha atraído en sus libros? Además, ¿podría hablarnos (a nosotros, lectores brasileños que todavía no conocemos a su libro) un poco del contenido de la carta El universo malogrado (cuyo título es tan apropiado en lo que respecta al pensamiento de Ciorán)? ¿Qué es lo que quiso decirle en su epístola a ese gnóstico moderno, a ese místico sin fe ni Dios al que Cioran parece encarnar de vez en cuando?

J.I.N.: Conocí la obra de Cioran cuando tenía 22 años y estaba cursando cuarto curso de Filosofía en la Universidad Complutense de Madrid. Esto era allá por 1972. Primero, tuve una noticia suya a través de una reseña que Fernando Savater escribió para Triunfo. Triunfo era una brillante revista que aglutinaba a la intelligentsia izquierdista y antifranquista. Dicha reseña me llevó a adquirir el libro que allí se presentaba: Breviario de podredumbre. Su lectura fue para mí una revelación. Una revelación en el sentido siguiente: otro pensaba tan trágicamente como yo. Así fue mi encuentro con Cioran, o mejor dicho con el Cioran francés. Otra cosa sería el posterior conocimiento del llamado Cioran rumano, que fue bastante después. De hecho el impacto de Cioran fue tan grande para mí que mi tesina de licenciatura la hice sobre él, en 1975. Y es que había quedado cioranizado.
Con respecto a mi libro (El universo malogrado), diré que es el resultado de una relación de lectura y relectura de su obra a lo largo de más de tres décadas. Siempre he tenido sus libros muy cerca, y he solido escribir sobre él. Por eso decidí que El universo malogrado tuviera forma de una larga epístola al escritor rumano. Él ya no estaba, había fallecido en 1995, y yo quería escribirle, quería hablarle desde dentro de su influencia y desde la empatía que sentía por él. Yo quería hacer una entrañable rendición de cuentas —no exenta de importantes recriminaciones— y transmitir mi complicidad con su visión de las cosas. Y así lo hice. Yo también tengo algo de ese misticismo sin Dios que tanto lo caracterizó y por eso me he identificado tanto con él.

EMCioranBR: Usted es doctor en filosofía y profesor de la misma materia. ¿Tiene algún proyecto de pesquisa sobre Cioran? ¿Pretende publicar algo más sobre él?

J.I.N.: Actualmente no tengo nada en proyecto sobre Cioran, ahora estoy embarcado en otras cosas (narrativa y pintura). Quizá pueda escribir algún artículo; de hecho, su portal acaba de publicar mi última composición sobre Cioran (Cioran y el fascismo). En contradicción con esto que le digo de vez en cuando acaricio la idea de escribir algo más largo sobre la génesis de Breviario de podredumbre.
Dicho esto, tengo que señalar que la obra de Cioran da para muchos trabajos de investigación, dada su riqueza temática —no hay asunto que no toque. Cioran no es un pensador de primera fila, no es uno de los grandes del siglo XX, pero tiene la virtud de ser muy accesible para el público. Por eso, cada vez menudean más los libros sobre Cioran. Va aumentado la bibliografía, asunto que a él le sorprendería.

EMCioranBR: España es uno de los países con mayor resonancia internacional respecto a los estudios y a las lecturas sobre Cioran. Se suele decir que Fernando Savater, quien conoció a Cioran personalmente, fue el responsable por la introducción de Cioran en España, al fin de la dictadura franquista. ¿Cómo ve usted la presente repercusión de la obra de Cioran en España, no solo en los círculos académicos e intelectuales, sino también entre la gente común? ¿Hay nuevos estudios destacados y libros que merecen recomendación?

J.I.N.: Sí, en efecto, ya lo he señalado. Savater fue su introductor. Él tradujo sus primeros libros franceses. Además, su tesis doctoral fue sobre Cioran: Ensayo sobre Cioran. Una tesis que le costó que fuera aceptada por algunos miembros del tribunal, y por eso sufrió algún retraso en ser defendida. Hay que recordar que todavía existía el franquismo, hablo de los años 73-74. Cioran no caía nada bien al establishment académico de por entonces. Yo mismo, cuando defendí mi tesina sobre Cioran, tuve que aguantar alguna falta de modales por parte del tribunal.
El conocimiento de la obra de Cioran tuvo pues un arranque no académico, la universidad no se ocupó de él —incluso alguien insinuó que era un autor que se había inventado Savater. Fue más bien un escritor que se difundió por el boca a boca, y casi más en ambientes literarios que puramente filosóficos. Podías oír hablar de él tanto a un poeta como a un banquero que había estado entre rejas y que en ese periodo había leído a Cioran con provecho.
En cuanto a estudios sobre Cioran, creo que Francia es la que se lleva la palma. En Italia también abundan los estudios. Y en diversos países de Latinoamérica. Con respecto a escritos en español, le citaré algunos.  Hay una tesis doctoral de Natalia López Izquierdo muy interesante y original en la que se estudia la obra de Cioran al contraluz de la de Levinas. Cioran o el laberinto de la fatalidad, de J. Marín. Las obras y artículos de la doctora María Liliana Herrera, aunque no sea española, están muy bien. La filosofía pesimista en la obra de Cioran, que es una tesis doctoral de José Luis Ibáñez Sierra. También me gustaría citar el blog, que posiblemente conozca, de Guillermo da Costa, http://emilmcioran.blogspot.com.es/; la pena es que el autor ya lo cerró, aunque se puede seguir visitando.
Con respecto a las obras de Cioran traducidas al español, quiero hacer una precisión. Falta por traducir  una obra muy especial: Schimbarea la fata a României. Se traduciría como La transfiguración de Rumanía. No sé a qué se debe ese falso respeto hacia la imagen de Cioran. Por cierto, en Francia también han tardado en traducirla, al menos de un modo completo.
Y por referirme al libro de Vartic, he de decir que es muy bueno porque nos habla con mucho detalle y gracia del joven Cioran, la pega es que no se detiene en analizar sus veleidades fascistas. En este sentido, es muy piadoso.

EMCioranBR: Cioran tenía un cariño especial por España, país que visitó más de una vez. El Cuaderno de Talamanca fue escrito por él, en 1966, en dicha playa, ubicada al norte de Ibiza. A Emil y Simone Boué les gustaba viajar a España en bicicleta, pero desistieron de hacerlo tan pronto las autovías se llenaron de automóviles a toda velocidad. ¿En su opinión, qué es lo que le atrae a Cioran a España? ¿Usted encuentra algo de español en Cioran? Por fin, ¿a usted le parece que la pasión de Ciorán por España ha sido correspondida, es decir, que se ha convertido en su reconocimiento en España, en que los españoles se hayan familiarizados con este autor rumano?

J.I.N.: Sí, es ya un tópico hablar de la predilección de Cioran por España. También estimaba mucho a Rusia. Y su actitud con respecto a Francia es muy peculiar y compleja, su librito Sobre Francia es una delicia estilística y analítica.
Cioran, que era muy adicto a lo pasional y a lo instintivo, se agarró muy bien a esa imagen universal de lo español que aparece como lugar común. España, la España que él conoció a través de la literatura, no se ha caracterizado por el equilibrio, la racionalidad o la filosofía. Quizá por eso congenió bien con nuestra idiosincrasia. Cervantes, Quevedo, los místicos, Unamuno… eran constantes motivos para su admiración (y con razón). De hecho, cuando a Cioran le pintaron mal las cosas en Rumanía quiso venirse a España, incluso empezó a arreglar los papeles. Finalmente, lo disuadió el inicio de la Guerra Civil y al final recaló en Francia. A veces pienso en qué hubiera sido de Cioran y qué tipo de obra hubiera escrito si se hubiese refugiado en la España franquista. Más de un conmilitón rumano acabó refugiado en España.
En cuanto a lo de la pasión correspondida entre Cioran y el público español, habría que matizar. Es cierto, sus libros se venden y suelen estar en casi todas las librerías, pero no es un autor de masas ni mucho menos. Además, ya sabemos de qué tipo de escritura se trata, y esta no puede competir con la narrativa, por ejemplo, ni con la literatura de autoayuda, ni los best sellers. Cioran es un satisfactorio escritor de culto que ya ha salido de la sección de raros, pero nada más. Yo mismo he experimentado que mi predilección por él sonaba un tanto extraña entre los que sabían de ella.

EMCioranBR: Suele decir que los libros de Cioran tuvieran una buena recepción entre la gente de izquierda durante la dictadura de Franco en España. Lo que es curioso, puesto que Ciorán se enamoró del fascismo rumano en su juventud y, pese a que se alejó de sus antiguas convicciones políticas, nunca se acercó del comunismo en términos de pensamiento. Quizá su anarquismo espiritual y su iconoclasia herética fueron un inconveniente a la ortodoxia del régimen, lo que podría ser visto con buenos ojos por la izquierda anti Franco. ¿Es verdad que sus libros fueron censurados por el régimen franquista? En su modo de ver, ¿qué es lo que hace de Cioran un autor capaz de cautivar lectores de los más distintos horizontes intelectuales y atraer tanto conservadores como gente de izquierda?

J.I.N.: Es que el Cioran que se empezó a conocer en España (y en Europa occidental) en principio fue el de Breviario de podredumbre. Este libro ya fue escrito en París, ¡y en francés!, y publicado en 1949; además, es la obra en la que abjura de su pasado. Bueno, abjura de todas las ideologías, y, entre ellas, la fascista. Hasta bastante después no nos enteramos de que Cioran arrastraba un pasado rumano fascista. Por eso es por lo que entonces no cayó mal en la izquierda española, aunque habría que precisar que se trataba de una izquierda ilustrada y no afiliadista. Cioran gustaba porque era demoledor de un orden en el que también se podía incluir el nacional-catolicismo de aquí, de España; si se censuró la salida de El aciago demiurgo yo creo que fue un poco por motivos religiosos. Por otro lado, había una anarquía en su “contra todo y contra Todo” que favorecía su asimilación. Y también, todo hay que decirlo, al ser avalado por Savater, se suponía que había que estar atentos a este pensador. Además, el Cioran posterior a Breviario de podredumbre no haría sino aumentar esa imagen de escéptico permanente y de nihilista sin compromiso.
En Francia le había sucedido casi lo mismo. Y digo casi porque allí se habían refugiado muchos rumanos (tanto fascistas como liberales) y no era tan fácil que no se supiera de qué pasado había venido Cioran. Al principio estas cosas no eran del dominio común, sino que permanecían en pequeños círculos. Pero, claro, luego llegó el tiempo en que la historia tendría que completarse. Y se completó, vaya que sí.
A Cioran —un Cioran ya senil, hablo de mediados los 80— le apeteció reeditar su obra rumana, de cuando estaba en Bucarest, de cuando se identificó con Codreanu y el fascismo rumano, de cuando admiró a Hitler y todo aquello… En pocos años se tradujeron sus obras al francés (y al poco al español), luego salieron colecciones de artículos políticos del pasado, después la famosa La transfiguración de Rumanía ¡expurgada!, y se armó el escándalo público. Ya no solo eran los enterados, ya lo supo todo el mundo. Para entonces ya había muerto. Él no lo contempló, pero el pasado fascista que quiso disimular acabó dañándolo. Salvando las distancias, le ocurrió un poco lo que a Heidegger con su pasado nazi. Post festum los dos trataron de minimizarlo y no hicieron otra cosa que empeorarlo con medias verdades y medias mentiras. Es lo que suele suceder.
¿Por qué gusta tanto a gentes de izquierda como de derechas? Pues yo diría que por la misma razón que gusta el Eclesiastés, el libro de Job, Shakespeare y tantos otros. Lo importante de Cioran es la lucidez con que interpreta la vida y nuestra finitud. Cuando lo lees ves en él una sabiduría que puede ser válida para todos. Sucede también con el conservador y católico Gómez Dávila. Al leerlos te olvidas de su ubicación, quizá porque te llevan a un territorio más auténtico, si esto puede decirse, que el de la izquierda o la derecha, el territorio de nadie.

No recuerdo en qué libro suyo leí una advertencia muy curiosa, y no sé si amargamente verdadera. Creo que a lo mejor era en su carta a Constantin Noica, puede ser. Le decía Cioran, contestando a una lamentación de Noica, a modo de consuelo, que siempre estábamos solos, en los países demoliberales por individual, y en los países comunistas en grupo. Bueno, él eligió lo individual, que le permitió haraganear tanto.

EMCioranBR: ¿Cuál es la importancia para la actualidad – si hay alguna – de un pensador que se definía como “un escéptico a servicio de un mundo agonizante”? ¿Qué podemos extraer de Cioran? ¿Qué tiene a ofrecer más allá de su escepticismo corrosivo y destruidor?

J.I.N.: Soy escéptico con respecto a la importancia que pueda tener un pensador de cara a la actualidad. No sé si es el mundo, pero si es Occidente el que está tocado, y más en concreto Europa. En este sentido, Cioran es un autor crepuscular, muy a propósito para este ocaso que estamos viviendo. Él ya se dio cuenta hace varias décadas y desde entonces se dedicó a acelerar nuestra melancolía. Aunque sea volver a citar algo que ya he dicho: solo creyó cuando esperaba cosas del fascismo. Fue lo único que lo puso tenso y eufórico. Luego, quedó tan desfascinado que puso toda su energía en cultivar la decepción, casi hizo una ontología de la decepción. Y aquí viene algo importante, construyó un arte literario muy estimable. Creo que es lo mejor que ha quedado de él: un estilo con el que celebrar el funeral de nuestra civilización.

EMCioranBR: ¿Tiene usted algún (o algunos) libro(s) favorito(s) de Cioran?

J.I.N.: De Cioran me gusta todo, y cuando digo todo incluyo también La transfiguración de Rumanía. Se puede ser fascista y escribir excelentemente desde el punto de vista estético. De hecho, La transfiguración… está muy bien escrita.
Pero mi libro favorito es sin duda Breviario de podredumbre. Por ser la revelación y por provocar que aquel joven que yo fui se quedara a vivir en Cioran por muchos años. La tentación de existir me mantuvo en la vivienda con igual intensidad, así como El aciago demiurgo. Silogismos de la amargura fue una obra que Cioran no apreciaba mucho, pero a mí sí que me gustó, tiene unos aforismos muy incisivos y muy desarmantes.
Luego, cuando leí sus primeras obras, las del periodo rumano, las encontré demasiado líricas y apasionadas —pero es que yo venía de leer primero al Cioran maduro. Es curiosa la lectura de Cioran que en general hemos hecho las gentes de mi edad: empezamos por el segundo Cioran para acabar en el primero. Ahora ya es posible leerlo cronológicamente de un tirón de principio a fin. Tal vez ahora cambie la visión con esta nueva —y natural— perspectiva.

EMCioranBR: ¿Podría compartir con nosotros algunos de los aforismos cioranianos que sabe usted de memoria, algunos de los que le resultan inolvidables?

JIN: En esto Cioran es un océano infinito. Es el aforista que más me gusta junto con Gómez Dávila. Los aforismos, ya se sabe, son muy peligrosos; tanto como lucidos. Pero rara vez resisten la paradoja autorreferencial. Por otro lado, hoy día ya se le llama a todo “aforismo”. Apenas se distingue entre sentencia, refrán, apotegma, proverbio, máxima, adagio…
Un trabajo un tanto quisquilloso, pero interesante, sería hacer una especie de catalogación comentada de los diferentes modos de expresión cioranianos. Sin duda, algún día alguien lo hará. Pero, bueno, volviendo a los llamados aforismos, aquí van algunos:

– “La meteorología decreta el color de mis pensamientos.”

– “El insomnio es la única forma de heroísmo compatible con la cama.”

– “Un espermatozoide es un bandido en estado puro.”

– “La Creación fue el primer acto de sabotaje.”

– “Desde siempre, Dios ha escogido todo por nosotros, hasta nuestras corbatas.”

– “Ganamos en conciencia lo que perdemos en existencia.”

EMCioranBR: ¿Le gustaría agregar algo más al lector que se adentra en la obra de este obscuro y no obstante jovial pensador?

J.I.N.: Al hipotético lector de Cioran le diría que no lo defraudará, que sus libros no se le caerán de las manos, como muchas veces sucede con eso que se denomina filosofía. Y más aun, que la lectura de Cioran es como morder la manzana del Paríso; que lo acercará al conocimiento, y por eso lo hará más grave, más lúcido, más irónico y quizá —hablando en términos de rentabilidad— más felizmente infeliz, ya que no cabe otra allí donde hay un poco de conciencia. Ah, y para los posibles suicidas: Cioran es un seguro de vida.

EMCioranBR: Sr. Nájera, le agradezco una vez más por brindarnos esa enriquecedora entrevista. Sin duda, tiene un valor inestimable para nosotros lectores e interesados en profundizar nuestros conocimientos sobre Ciorán.

São Paulo/Murcia, abril 2013