Escritos de juventude: “O teísmo como solução ao problema cosmológico” (Cioran)

Estudante de filosofia na Universidade de Bucareste, o jovem Cioran apresenta esta  dissertação (sem data determinada) sobre um problema filosófico que ecoará através de toda a sua obra posterior: a existência do mal no mundo tendo em vista a tese universalmente aceita do bem como elemento fundador e norteador do ser. Como conciliar a existência de um Deus todo-poderoso e bondoso com a existência do mal? Seria o teísmo, na ampla definição que lhe confere Cioran, uma tese convincente para explicar o mundo e o devir histórico? Não seria a possibilidade humana mesma de desesperar-se um argumento contra a perfeição da ordem do mundo, e do que quer que o tenha originado? Trata-se da velha controvérsia, teológica e metafísica, da teodicéia. São estas as questões norteadores que levarão o autor do Breviário de decomposição e História e utopia, a concluir ainda jovem: “A vida, que segue o ritmo de um dinamismo contínuo, é uma das formas de uma tragédia universal. Ela está condenada a destruir-se a si mesma.”

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

God2-Sistine_Chapel

CIORAN, Emil. “Le théisme comme solution au problème cosmologique” (Teismul ca soluţie a problemei cosmologice), trad. par Alain Paruit. In: TACOU, Laurence ; PIEDNOIR, Vincent (org.), Cahier L’Herne Cioran. Paris : L’Herne, 2009, p. 131-133.

*

O teísmo é uma das soluções metafisicas do problema cosmológico. Ele parte da realidade transcendente de um ser superior, de natureza perfeita, que criou o mundo.

Ao longo do tempo, os homens não se contentaram com uma solução concreta, proveniente do quadro palpável do real, para explicar a origem e a realidade do mundo. A experiência cotidiana não lhes fornecia os dados para uma compreensão geral dos problemas; ela os encerrava em esquemas demasiado estreitos. Ademais, os dados empíricos não satisfaziam a sua necessidade de explicar a criação do mundo. Eles deviam ultrapassar o concreto para aceitar uma realidade transcendente. A imagem de um criador imperfeito, criando o mundo por pura espontaneidade, sem estar constrangido a ele por nada fora de si, se impunha a espíritos torturados pelo mistério do mundo.

Sócrates é o fundador do teísmo na filosofia grega. O mundo foi criado por um ser todo-poderoso. Ele só visou, por suas criações, o bem. O bem é o elemento capital que Sócrates considera como o fundamento do mundo. Também um discípulo de Sócrates, Platão, identificou a ideia suprema do bem com a divindade. No teísmo grego, o elemento dominante que caracteriza o ser supremo é, portanto, o bem. Isto me incita a pensar que, na concepção teísta, o ser supremo era postulado mais sob impulso de uma ideia m oral, de uma necessidade ética, do que de uma necessidade de explicação cosmológica.

É interessante ver qual é a forma tomada pela ideia de Deus no neoplatonismo, que é considerado como um panteísmo. Deus é aí uma realidade imanente ao mundo, Essa interpretação não é absolutamente verdadeira. Muito embora o mundo não seja uma emanação da divindade, para o neoplatonismo a divindade não se identifica com a multiplicidade caótica e incoerente dos fenômenos concretos. O neoplatonismo faz a síntese entre o teísmo e o panteísmo (síntese tentada pela filosofia moderna mediante o panenteísmo de Krause). Nós não integrados o neoplatonismo no teísmo; mas esta observação deveria ser formulada, pois essa corrente filosófica de natureza mística uma solução específica. O mundo emana de Deus e, ao mesmo tempo, Deus não é imanente à fenomenalidade cósmica.

É no judaísmo que o teísmo triunfa enquanto concepção precisa. Como já o sublinharam inúmeros pesquisadores, a metafísica religiosa do judaísmo implica a realidade de uma divindade transcendente. Deus é uma pessoa espiritual, infinita e todo-poderosa. Em sua imutável eternidade, ele dirige toda a complexidade dos fenômenos. Ele criou um mundo a partir do nada, por pura onipotência pessoal. O judaísmo não deve ser assimilado ao panteísmo cabalístico. Ao meu ver, a Cabala é um livro que não é específico do espírito no qual se desenvolve o judaísmo. Ela é uma síntese de crenças oriundas do Oriente. Foi escrita, de resto, numa época em que primavam as influências místicas de proveniência oriental.

O judaísmo é eminentemente personalista. (A opinião de Otto Weininger segundo a qual o panteísmo seria específico do judaísmo, é falsa e infundada. A tese de Sombart sobre o individualismo judaico é muito mais aceitável.)

O cristianismo não difere em nada do judaísmo, exceto pelos atributos conferidos a Deus. Ele não é o déspota implacável da concepção judaica; é, ao contrário, a bondade absoluta. Há entre ele e o homem uma comunhão estreita, e não a distância radical vista pelo judaísmo. Neste último, a revelação de Deus é histórica, ele é conhecido pela tradição da nação; no cristianismo, ele se revela cada um na medida em que se vive a fé com ardor. No judaísmo, Deus só é acessível ao homem, ao indivíduo, se ele se integrar à nação; no cristianismo, o inverso.

Passemos pelas crenças particulares que eclodiram no cristianismo. O seu teísmo acentua notadamente a natureza da relação entre o homem e Deus. Eis um problema que pertence à ética mais do que à cosmologia. A fatalidade da graça segundo Santo Agostinho não concerne à questão cosmológica, mas pode lançar luzes e soluções à questão moral da felicidade. A escolástica medieval concebia um Deus transcendente. Mas nós não caímos na confusão que consistiria em afirmar que todos os sistemas religiosos e filosóficos da escolástica sustentavam o teísmo: nós apenas afirmamos que o teísmo é uma característica da escolástica. São Tomás de Aquino tentou uma adaptação do aristotelismo ao cristianismo. Sua síntese repousa sobre a fusão, numa unidade independente desses elementos disparatados, entre a concepção aristotélica do primeiro motor e a concepção cristã do Deus criador. O tomismo é precisado na Summa Theologiae.

Passemos por Duns Scotus e a concepção franciscana de Deus, mais petista que metafísica. O Renascimento é eminentemente panteísta. Tirando Deus da sua solidão extrafenomênica, ele o faz baixar ao mundo e o identifica à toda a complexidade dos fenômenos.

O teísmo moderno é de origem cartesiana. Descartes não apresenta uma concepção teísta muito precisa. Muito embora não reduza Deus à pura impulsão do movimento inicial, ele não indica claramente se Deus intervém como uma força independente no mecanismo concreto do mundo. O teísmo moderno não é menos cartesiano em sua origem. O ateísmo de Malebranche e dos ocasionalistas reunidos ao seu redor tem sua fonte no cartesianismo. Descartes não podia conciliar numa explicação aceitável as relações do espírito e da matéria, duas substâncias distintas cujas características especificas não se podem combinar, cada uma delas representando uma unidade independente. É possível uma relação entre o espírito e a matéria, entre o pensamento, subtraído à espacialidade, e a extensão, realizada exclusivamente num quadro espacial? Para Descartes, um contato se realiza entre os dois na glândula pineal. Seus sucessores resolveram a questão afirmando que a divindade regulava suas relações. Segundo o ocasionalismo de Malebranche, Deus intervém com este propósito. Ele é transcendente, mas não radicalmente separado do mundo; sem sua intervenção, seria impossível regulá-las. O teísmo de Malebranche se caracteriza pela afirmação desse lado ativo de Deus; muito embora transcendente, ele participa na regulação de certos fenômenos.

O teísmo é finalista. O mundo foi criado para um determinado fim; sua razão superior de ser é a realização de condições de existências tão aceitáveis quanto possível. Essa finalidade aparece claramente se se afirma que o homem é a expressão suprema da vida em geral, a expressão mais sublime das formas de que ela se reveste em seu permanente devir. Todos os outros seres foram criados para facilitar a vida do homem, para lhe servir de instrumentos para a sua felicidade. Vejamos primeiramente se existe uma finalidade a natureza, e então se o teísmo tem uma justificação racional.

Na natureza, tudo é dinamismo. Integrada a essa natureza, da qual ela é uma simples modalidade, a vida é um combate incessante. Mas não um combate desprovido do trágico, não um combate provocado por um divertimento dos seres, entretendo um ativismo ininterrupto. A vida, que segue o ritmo de um dinamismo contínuo, é uma das formas de uma tragédia universal. Ela está condenada a destruir-se a si mesma. Quem poderia encontrar o signo de uma harmonia na destruição recíproca dos seres, na competição vital de que fala Charles Darwin? Para o teísmo, harmonias inefáveis ressoam no mundo, como num templo no qual os fiéis cantam hinos à glória da divindade. A vida pode ser comparada, ao contrário, a um abatedouro no qual os seres se destroem uns aos outros. Onde está a finalidade nessa imensa tragédia? A concepção teísta de Deus, bom e perfeito, não pode explicar a existência do mal no mundo. Nosso conhecimento concreto dessa tragédia não nos permite justificar ou afirmar a realidade desse Deus bom que o teísmo concebe.

Leibniz fala dos acidentes da criação. Pode Deus enganar-se se ele é perfeito? Não, evidentemente. Então, se Deus não pode eliminar o mal no mundo, é porque ele é imperfeito. O mal – cujo campo de manifestação no mundo é, em todo caso, muito mais vasto que o do bem – não é o único argumento contra a tese da divindade como ser perfeito. Há um outro, que enfraquece a onipotência de Deus e que é apresentado por um teísta, Paul Janet, em Causa finais. Por que Deus criou o mundo? Quer dizer que ele não podia viver em sua solidão inicial? Mas então, se ele sentiu a necessidade de algo fora dele, é porque não é um ser perfeito, pois um ser perfeito não conhece nem necessidade nem determinação. O problema é insolúvel, observa Janet, eis o fato mesmo da criação. Por que Deus criou o mundo? E Janet se resigna a afirmar que apenas Deus poderia esclarecer esse mistério. Triste resignação! Neste mundo em que a vida segue ao ritmo de uma tragédia universal, onde os homens se desesperam, torturados pela impossibilidade de aceder a uma satisfação concreta e imediata, não pode existir ser supremo, e menos ainda um ser supremo considerado bom.

Schopenhauer observou que a existência do mal no mundo é a principal objeção que se pode fazer à tese de um criador bom e perfeito. O mal é imanente ao mundo e não se pode conceber um ser absolutamente bom que seja incapaz de suprimi-lo. O teísmo não encontra, portanto, nenhuma justificação nos dados concretos da realidade.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

Anúncios

“Um aliado na contracorrente”, por Gabriel Marcel

gmarcelExtraído de TACOU, L.; PIEDNOIR, V. (orgs.). Cahier L’Herne Cioran, Paris: Éditions de L’Herne, 2009, pgs. 222-3. Originalmente em Le Monde, 28 de junho de 1969. Tradução: Rodrigo Menezes

Como eu aceitaria ficar de fora quando uma homenagem como esta é feita a um dos homens cujo espírito e caráter eu mais aprecio? Mas devo acrescentar que a voz que eu gostaria de fazer ouvir aqui correrá o risco de parecer discordante a alguns de seus admiradores, digamos mesmo de seus turiferários. Pois me é preciso, sob pena de faltar com a mais elementar probidade, formular a seguinte afirmação paradoxal: a obra escrita deste homem, que eu admiro e amo a ponto de me confessar às vezes com ele, amiúde me repugna, e isto é particularmente verdadeiro a propósito do livro que acaba de sair com o título: Le mauvais démiurge [O funesto demiurgo]. Por conseguinte, sinto-me obrigado a comprometer-me com uma espécie de difícil altercação com ele e comigo mesmo.

Evidentemente, existiria uma maneira cômoda de resolver, em aparência, a contradição: consistiria em dizer, por exemplo – o que em si seria exato –, que admiro o estilo de E.M. Cioran, e que o desacordo recai sobre o conteúdo. É absolutamente verdadeiro que pela firmeza, pelo rigor da escritura, o autor do Breviário de decomposição nos faz pensar frequentemente no mais sardônico Nietzsche, aquele de Humano, demasiado humano ou de O Viajante e sua sombra – um Nietzsche que teria sido marcado por Dostoiévski, muito mais do que poderia tê-lo sido o Nietzsche histórico. Mas esta distinção entre a forma e o fundo me parece dever, como quase sempre, ser aqui recusada. Com E.M. Cioran, estamos na presença de um dos testemunhos de acusação dos mais resolutos, dos mais veementes já surgidos ao longo do processo interminável que se inaugurou entre o homem e o mundo, ou Deus, a partir do momento em que surgiu essa anomalia ímpar chamada reflexão. E o que não pode ser contestado é, para empregar um termo do qual se tem abusado, a autenticidade deste depoimento. Não há dúvida, aliás, que este se dirige não apenas contra o outro, contra o acusado, quem quer que ele seja, mas dirige-se não menos contra aquele que a formula. É por vezes como o grito incoercível da consciência ulcerada. Sim, eu digo ulcerada: esta palavra me parece traduzir exatamente a impressão que tenho ao ler Le mauvais démiurge, e em particular o texto intitulado: Rencontres avec le suicide [Encontros com o suicídio]. Eu evoquei mais acima Dostoiévski: como não encontraria eu, em algumas páginas, o rastro de Kiríllov? Mas parece-me que fomos aqui mais longe, muito mais longe por um caminho que desce em direção ao desespero inapelável.

Mas esse escrúpulo, que não me surpreende, pois conheço o autor pessoalmente e a generosidade de que ele tantas vezes deu prova, permanece inteligível no mundo não apenas absurdo, mas fundamentalmente criminal, do qual ele parece ter tomado para si a tarefa de fazer o inventário. O caso de E.M. Cioran aparece aqui infinitamente mais perturbador e mais complicado que o de um Albert Camus. Nós assistimos juntos, recordo-me, ao ensaio geral de Os justos, e ao final ele me disse: “Evoque por um instante Os demônios, e dar-se-á conta de que não sobra nada do que acabamos de ver.” Eu devia mais tarde me lembrar deste comentário, quando Albert Camus apresentou sua bela adaptação de Os demônios.

Se digo que o caso de Cioran é infinitamente mais grave, é que ele jamais se satisfaria com a espécie de meio-termo com o qual o autor de A queda parece quase ter ficado satisfeito a partir de O homem revoltado.  Cioran, por sua vez, permanece irredutível, e eu diria, da minha parte, que essa irredutibilidade, que amiúde me repugna, repito-o, porque ela se traduz em afirmações frequentemente temerárias na difamação de tudo e de si mesmo, não está menos estreitamente ligada ao que eu admiro em um dos homens mais incorruptíveis que tive a chance de encontrar.  Poder-se-ia aqui tentar enumerar as formas que assume a corrupção no mundo que nos rodeia. Todas, ou quase todas, estão ligadas à preocupação consigo. Mas esta preocupação é absolutamente estranha ao autor de A tentação de existir ou de História e utopia. A palavra pureza é daquelas que se hesitaria talvez a aplicar-lhe, uma vez que ela suscita quase inevitavelmente imagens de brancura ou de ingenuidade que, aqui, não correspondem a nada. Mas não haveria outra pureza que não pertence senão ao fogo e à incandescência? É, se podemos dizê-lo, a pureza como ato; como ela não queimaria?

E na linha destas simples considerações, seríamos conduzidos, parece-me, a nos interrogar ansiosamente sobre a relação, talvez demasiado misteriosa para ele mesmo, que vincula aqui o autor a seus escritos. Em parte alguma, penso, a questão da finalidade própria ao ato de escrever se coloca de maneira tão irritante para o espírito, que este ato não esteja voltado a um pequeno número, a um “happy few”, eu já o dissera, e esta é a evidência mesma. Mas eis que isto não nos esclarece ainda sobre a natureza da libertação ou da catarse que é visada aqui. Uma coisa é certa: trata-se aqui de uma verdadeira operação, não de uma pose ou de uma máscara. Mas, ao mesmo tempo, como não sentir, ao menos confusamente, que o autor, sendo absolutamente sincero, não coincide, em sua profundeza última, com o requisitório que parece visar a devastar os espíritos e os corações? Não se passaria tudo como se a intenção mais profunda, mas também a mais inconfessa, fosse, do contrário, fazer surgir do fundo inviolável das almas o silencioso protesto que viria restabelecer, para além do tumulto dos sarcasmos e das blasfêmias, a consciência indefinhável de uma ordem e de uma plenitude?

Por mais estranha e paradoxal que seja esta conjectura, é a única que pode dar conta, aos meus olhos, do divórcio dolorosamente sentido entre a consideração indefectível para o homem, para o amigo, e a recusa de um pensamento ao qual eu não poderia subscrever sem renegar todas minhas razões de viver.

*

imarceg001p1Sobre o autor: Gabriel Marcel, dramaturgo e filósofo (Paris, 1889-1973) existencialista cristão, escreveu uma obra tão numerosa e nada sistemática. Trata-se de um filósofo-escritor e não de um filósofo-professor. Seu pensamento de estilo meditativo e reflexivo investiga a condição humana no contexto deste século. Merecem destaque os temas da relação com o Outro, o da liberdade, da morte, da fé, da fidelidade, da experiência e transcendência de Deus. Não há nele a preocupação de elaborar um sistema, ao contrário, seu modo livre e original de pensar permite-lhe desenvolver os conceitos de ser e ter, problema e mistério, fé e amor, entre outros, dentro de uma visão peculiar. In: ZILLES, Urbano. Gabriel Marcel e o existencialismo. Porto Alegre: Acadêmia/PUC, 1988 (da orelha de capa).

Cioran ou de l’inconvénient d’être célébré

Pierre Assouline — Le Monde, 24 avril 2011

Inutile de se précipiter sur le souple pavé Quarto réunissant ces œuvres complètes, ni sur l’épais Cahier de l’Herne à lui consacré, pour y chercher une ou deux maximes juste assez désespérées, de nature à coller avec la commémoration de son centième anniversaire le 8 avril, bien qu’Emil Cioran ait rejoint les anges en 1995. Tout ce qui est sorti de sa plume ne parle que de cela : la chute de l’homme dans le temps. Les cioranologues, cioranophiles et cioranolâtres (vu d’Amérique, ce n’est pas triste non plus, si l’on en croit l’article de Benjamin Ivry, car son passé y est plus souvent mis en cause que chez nous) ont pu néanmoins lui souhaiter de vive voix un bon anniversaire. Non pas devant sa tombe au cimetière Montparnasse : c’est là qu’on a le plus de chances de le trouver absent. Plutôt ailleurs, précisément. Ces derniers jours, on pouvait saluer son spectre mélancolique dans la salle byzantine du Palais de Béhague. L’ambassade de Roumanie avait pris des allures de ciorangerie pour la circonstance : Alain Lecucq et sa compagnie y jouaient Mansarde à Paris, une pièce de Matei Visniec, histoire d’un philosophe franco-roumain qui, en quittant les bureaux de son éditeur, oublie l’itinéraire menant de la rue Sébastien-Bottin au carrefour de l’Odéon et se perd en Europe… Si la Ville avait songé à apposer une plaque commémorative sur la façade du 21 rue de l’Odéon, rappelant qu’ici vécut un maître en syllogismes de l’amertume, sûr qu’il serait arrivé à bon port. Ce geste commémoratif fut d’ailleurs solennellement exigé lors d’un brillant colloque consacré au pessimiste jubilatoire au Salon du livre. Il y fut question de la fécondité de ses contradictions, du sens de son incohérence et du salut par l’oxymoron. La moindre des choses pour un paradoxe fait homme. Incidemment, on apprit que sa bibliothèque même étaitbancale ; il est vrai qu’il avait cru bon se faire menuisier pour l’occasion. A Paris toujours, mais cette fois du côté de l’hôtel Drouot, on a célébré un centenaire plus sonnant et trébuchant. Simone Baulez , l’opiniâtre brocanteuse qui sauva une trentaine de cahiers, dont le journal inédit du moraliste et plusieurs états dépressifs du fameux De l’inconvénient d’être né, en débarrassant sa cave, s’est vue confirmée dans ses droits par la cour d’appel à l’issue de plusieurs années de procédure. Encore faut-il qu’elle récupère son bien. Or la chambre nationale des commissaires-priseurs, adoptant une attitude kafkaïenne qui eut certainement inspiré l’Emil, refuse de lever le séquestre sur les documents tant qu’une décision de justice ne le lui ordonne pas expressément. On en est là, en attendant qu’une juridiction soit saisie par son avocat Me Rappaport. Mais la brocanteuse, qui s’est engagée à tout céder en bloc, n’est pas pressée ; à ce jour, outre l’ambassade de Roumanie, le Musée des lettres et manuscrits a manifesté son intérêt (mais il ne s’agit que de la propriété matérielle du support de l’oeuvre, non celle des droits d’auteur). En attendant, incroyable coïncidence, le 7 avril, soit quelques heures avant que les saints en larmes ne souffle ses bougies d’anniversaire, Cioran s’est retrouvé à l’encan à Drouot sous le marteau de Binoche & Giquello dans l’espoir que la vente atteigne des cimes. Discrétion oblige, on en ignore la provenance mais on peut la supposer familiale ; en effet, outre des textes manuscrits autographes et des notes de lecture, ces archives (cent vingt-deux numéros) valent surtout par l’importante correspondance intime de Cioran échangée entre 1933 et 1983 avec ses parents et son frère Aurel, ainsi que par des documents aussi personnels que ses diplômes, passeports, cartes d’identité, cartes d’admission à la Bibliothèque Nationale, cartes de chemin de fer… Toute dispersion est un serrement de cœur car elle est dispersion. N’empêche qu’à lui seul, le catalogue est déjà un document excitant pour les biographes, généticiens et historiens de la littérature. Il est vrai que la recherche cioranienne est un constant work in progress, dût-elle ne pas aller toujours dans le sens des cioranolâtres. Ainsi Jacques de Decker a-t-il récemment fait état dans Le Soir (merci à Benoît Franck de me l’avoir signaléé) de la parution de Über Deutschland – Aufsätze aus den Jahren 1931–1937 , recueil d’articles de jeunesse dans lesquels Emil Cioran exprimait son admiration pour le système qui se mettait alors en place en Allemagne et pour l’homme qui le conduisait :“Tout le monde ne mérite pas d’être libre, le préjugé de la liberté pour tous est une honte’ etc. Ce qui n’empêchera pas les nombreux amateurs du nihilisme de Cioran de le lire aujourd’hui, et Bucarest de le célébrer. Normal puisqu’il disait penser en roumain avant d’écrire en français. Stanislas Pierret, le directeur de l’Institut Français de Bucarest, a donc proposé à Dan Perjovschi de« donner à voir » la pensée de Cioran dans les rues de la capitale. Celui-ci appose donc une trentaine d’affiches, durant un mois, partout où se forment des nœuds de communication (gares, stations de métro, arrêts de bus…). Pour chacune d’elles, un fragment chu de l’oeuvre du moraliste et un dessin au Feutre marqueur qui se veut tout sauf son illustration. Un aphorisme visuel en regard d’un aphorisme philosophique. L’un et l’autre enfants de Sibiu, ils se retrouvent à la rue sur les murs de Bucarest. On y lira peut-être ces lignes échappées de Bréviaire de vaincus III(L’Herne) : « Le devoir de celui qui écrit n’est-il pas de se trancher les veines sur la page blanche, de faire ainsi cesser le supplice des mondes informulés ? » Allez, joyeux anniversaire quand même !

(Illustrations Dan Perjovschi)

Dois textos inéditos de Emil Cioran revelam fase obscura do escritor

Bolívar Torres, Jornal do Brasil (29/08/2009)

RIO DE JANEIRO – Tomarei contra minha alma o partido da desesperança e me tornarei o inimigo de mim mesmo . Como bem indica esta epígrafe de O breviário de decomposição, um de seus livros mais famosos, o escritor romeno de língua francesa Emil Cioran, morto em 1995 aos 84 anos, é lembrado na história da literatura principalmente por seu distanciamento desapaixonado, sua desconfiança por qualquer filosofia reveladora. Durante um curto período de sua juventude, porém, o pensador outsider e independente, famoso por seu ceticismo, abraçou com ardor os ascendentes movimentos fascistas europeus.

Recém-lançados na França, país onde viveu a maior parte de sua vida, dois textos inéditos do autor recuperam um período obscuro, que contradiz o resto de sua obra ao mesmo tempo que a ilumina. Escritos respectivamente em 1936 e 1941, Transfiguration de la Roumanie e De la France pertencem à fase romena de Cioran. O primeiro anuncia o exílio de sua terra natal e denuncia sua simpatia pelos ideais nazistas, os quais mais tarde iria renegar; o segundo explica sua adoção do idioma francês.

Depois de sua morte, Cioran ficou numa espécie de purgatório, muito em função de suas posições políticas do passado, que o perseguiram durante toda a vida diz Laurence Tacou, diretora da L’Herne, editora prestigiada pelo trabalho com autores desconhecidos ou malditos, e responsável pelo lançamento dos livros. Na França, a associação com o nazismo manchou para sempre alguns artistas. O assunto tornou-se tabu e o debate foi confiscado: havia aqueles do lado bom da história e aqueles do lado ruim. Agora, porém, acredito que se possa ler os textos com mais lucidez. Fiquei feliz com a maneira como a imprensa recebeu os livros. Os artigos dos jornais mostraram uma análise complexa, abordando a questão com mais nuances.

Os leitores de Cioran, acostumados ao ceticismo de livros como La tentation d’ exister (A tentação de existir) e De l’inconvénient d’être né (A inconveniência de nascer), com certeza irão se supreender. La transfiguration de la Roumanie mostra um escritor irreconhecível, que troca o niilismo pela exaltação fascista, disposta a limpar o mundo. O estilo seco e desencarnado dá lugar a uma vibração formal que deve mais à sensualidade da língua balcânica do que ao enfado francês.

As ideias radicais do livro causam ainda mais estranheza se levarmos em consideração que, até 1933, num momento em que a juventude romena buscava respostas à esquerda ou à direita, Cioran recusou-se a tomar partido. Naquele ano, porém, viveu uma conversão fulminante, que o transformou num defensor do regime nazista e da Guarda de Ferro, um movimento nacionalista formado por um bando de desesperados no coração dos Bálcãs . Muitos o acusaram de ter camuflado esta associação, definida pelo autor como pecados de juventude . Mas o fato é que, em 1990, o próprio Cioran resolveu republicar o livro em sua terra natal, com algumas poucas alterações.

A conversão representou para ele algo como acabou o pensamento, vamos passar à ação avalia Laurence. Mais tarde, teve vergonha dessas ideias, que lhe vieram de forma muito rápida e violenta.

Escrito cinco anos mais tarde, De la France surge como uma espécie de antídoto aos excessos anteriores. Vacinado contra a sedução das ideologias, doutrinas e farsas sangrentas , Cioran busca a neutralidade no cansaço da cultura francesa, que considera decadente. É nesta nação de marivaudages infinitas, onde as ideias se diluem na superficialidade da forma, do detalhe e do ornamento, que o autor encontrará o abrigo perfeito para sua nova filosofia: recusar as verdades irrespiráveis em favor da beleza e ilusão da arte. Com isso, aniquila qualquer esforço grandiloquente ou monumental ( As civilizações começam em epopéias e terminam em elegias ).

Repleto de aforismos deliciosos ( O universo é uma farsa do espírito , ou ainda: A decadência não é outra coisa do que a incapacidade de continuar criando em um círculo de valores que nos define ) trata-se de um tratado livre, bem ao estilo do Cioran que conhecemos: nenhuma preocupação com método ou consistência filosófica (o próprio escritor se dizia um piadista mais do que um filósofo). Não por acaso, seu estilo também se transforma. A sintaxe é simplificada, como se ele quisesse adaptá-la aos poucos aos caprichos da língua francesa, que em breve iria adotar.

O apodrecimento lento da cultura francesa o fascinava diz Laurence. Na Romênia, um país que nunca teve auge nem decadência, ele partiu para a ação e se arrependeu. A França, por outro lado, é o lugar do tédio, onde tudo já foi criado e tudo é conhecido, e onde a ação não pode mais acontecer. Essa morte lenta e refinada do país cabia muito bem na sua filosofia.

Entrevista sobre Cioran com Vincent Piednoir

O jornal O Globo de 25/06/2011 traz o seu caderno Prosa & Verso dedicado a Cioran, que aparece estampado na capa com o título: “Festa para o pessimista”. O jornalista Bolívar Torres escreve sobre as homenagens preparadas na França para o centenário de nascimento de Emil Cioran. Uma exposição, livros de ensaios, um volume de correspondências trocadas com o poeta Armel Guerne e uma inédita continuação de “Breviário dos Vencidos” festejam o filósofo romeno, conta Bolívar, que entrevista ainda o pesquisador Vincent Piednoir, tradutor de Cioran.
.

Entrevista sobre Cioran com Vincent Piednoir

Por Bolívar Torres – Especial para O GLOBO, de Paris (25/06/11) | Link
.

Foi durante a Segunda Guerra, num contexto histórico complicadíssimo, que Cioran começou a escrever o “Breviário dos vencidos”. Exilado numa Paris ocupada, vivendo de bolsas e sem nenhuma perspectiva de vida, resolveu deixar de lado o manuscrito final, que considerava apenas um amontoado de “divagações juvenis”. O seu lançamento tardio, em 1993, jogou luz sobre um período menos conhecido do “pensador crepuscular”, em que ele ainda se mostrava profundamente influenciado pelas paixões que lhe conferiam a cultura alemã e romena. O que ninguém sabia, na época, é que o livro tinha uma série de capítulos não aproveitados, muito peculiares dentro de sua obra. Espécie de retalho do retalho, o livro sai do limbo pelas mãos dos tradutores Vincent Piednoir e Gina Puica, com o título de “Le bréviaire des vaincus II”, publicado pela L’Herne. Piednoir, que conversou por e-mail com o GLOBO, também é organizador da recém-lançada correspondência entre Cioran e o poeta suíço Armel Guerne, a mais completa dedicada até agora. Nas cartas trocadas entre 1961e 1978, aprende-se alguns segredos sobre a vida íntima do recluso autor, que surpreende por sua humanidade e compaixão.

“Breviário dos vencidos” é o último livro que Cioran escreveu em romeno. É possível notar alguma mudança no estilo de Cioran, como se ele se preparasse para adotar o francês?

VINCENT PIEDNOIR: Quando começou a escrever o “Breviário”, Cioran tinha a impressão, creio eu, que seu país nunca entraria para a História. Sua relação com a Romênia era de amor e ódio extremo. Na França, durante a guerra, sua pátria é o romeno. E é nessa língua que ele faz um painel repleto de amargura, pressintindo que alguma coisa em sua identidade fora rompida. A linguagem do “Breviário” continua muito próxima de seus livros anteriores: o estilo é muito instintivo, e segue o ritmo imposto pela inspiração e a necessidade vital de se expressar. Alimentado pela filosofia e a literatura alemã, o jovem Cioran sentia o mundo pelo prisma de um romantismo incendiário. Estava fascinado pela loucura, por aquilo que chamava, em seu primeiro livro, de “as fundações íntimas da vida”. Suas concepções eram puramente fatalistas, rejeitavam o recuo racional. A razão era associada ao declínio, à morte do espírito. Quando mais tarde passou a escrever em francês, assumiu uma distância enorme de tudo isso, assumindo, não sem dificuldades, o seu estatuto de consciência.

O que a segunda parte do “Breviário” acrescenta à primeira?

PIEDNOIR: Eu diria que Cioran continua a explorar suas obsessões. A continuação do “Breviário” é interessante naquilo que sublinha a sigularidade do escritor: a de que ele não é apenas um pensador ou um filosófo, mas também um ser disposto a acolher as revelações que gratificam a verdade. É um “pensador de ocasião”, alguém que só toma a palavra quando pode investir em sua intuição. Mas a segunda parte do “Breviário” acresenta à primeira o tema do amor, algo surpreendente em relação a toda a obra de Cioran. Isso dá a seu discurso um lado adolescente muito curioso. Ao contrário da primeira, que foi bastante retrabalhada, essa segunda parte foi escrita de uma só vez. Há uma espontaneidade na escrita que confere ao texto um frescor maravilhoso, mas que também o torna às vezes muito obscuro.

A correspondência com Armel Guerne dá pistas sobre as razões em adotar um outro idioma?

PIEDNOIR: Em determinada carta, ele diz a Guerne que faz meses que não lê em alemão. E explica que se arrepende de ter sido tão fascinado por esta língua. Para ele, falta ao alemão a retidão que Rivarol atribuía ao francês. Cioran mudou de língua porque, uma vez instalado na França, não poderia continuar a ecrever em um idioma que não ultrapassa as fronteiras da Romênia. Mas, ao mesmo tempo, é mais profundo do que isso. É uma mudança de identidade. Ele não quis traduzir para o francês o seu antigo Eu, mas sim repensar esse Eu e sua inscrição histórica pela transparência obrigatória do francês. Mesmo que a correspondência com Guerne não mostre exatamente as razões dessa mudança, podemos compreender em diversas passagens que Cioran encarava o romeno e o alemão como ameaças. Porque as duas línguas inspiravam nele um desejo profundo de se reintegrar à vida. Desejo com o qual lutava usando as armas do ceticismo, sem nunca, porém, reduzir a sua intensidade.

Guerne tem uma trajetória engajada, deixou momentaneamente a literatura para lutar na Resistência. Já Cioran, ao contrário, defende o ócio e a inação. Mesmo assim, mostram na correspondência uma profunda cumplicidade, como se fossem lados diferentes de uma mesma moeda…

PIEDNOIR: Cioran é um ser de pulsão; mesmo que ele defenda o ócio, não consegue se acostumar a ideia de não fazer nada. A raiva qualifica esta atitude no que ela guarda de violência, de descontinuidade, de capricho também. O assalto, na ideia de Guerne, é diferente da raiva no que tem de continuidade, certeza, de irremediavelmente voltado a um objetivo. Entre Cioran e Guerne há muitas diferenças. Um não sabe direito o que pensa de Deus, enquanto o outro carrega uma fé indestrutível. Mas, no fundo, ambos encarnam duas maneiras extremas de viver a condição humana.

Na correspondência, Cioran está sempre reclamando do seu próprio ócio. A inpressão que se tem é que sofria para manter a inatividade que tanto defendia. No fim das contas, não fazer nada pode ser ainda mais laborioso do que uma vida repleta de ações e projetos?

PIEDNOIR: Depois da guerra, Cioran não consegue mais justificar a agitação dos homens, mesmo sendo capaz de compreendê-la. Ele vê nela a fonte do mal — ancorada metafisicamente no pecado original. No entanto, é verdade que ele sofre para permanecer nesse estado de inatividade que considera “sábio”. Isso mostra que o autor estava dividido entre o seu desejo de retirar-se definitivamente do mundo da ação e a sua incapacidade de assumir plenamente esse desejo. Retirar-se da ação, é confrontar-se ao tempo imenso do retiro, é correr o risco de morrer de tédio. Cioran tinha consciência disso. Reprovava a agitação dos homens, mas não ignorava o perigo que é recusar qualquer projeto. A inação não é suficiente, e aceitar as consequências disso exige uma força sobre-humana, que é a de um sábio. Só que Cioran não era um sábio, e sim um ser humano impotente, embora forte e corajoso por assumir este desejo de ser sábio, contra tudo e contra todos. Pouco importa que não tenha alcançado plenamente o seu objetivo. O importante é que tenha agido para nós como um espião das coisas transcendentes — ao mesmo tempo em que permanecia humano, humano até demais…

Embora procurasse a sinceridade em seus textos, o personagem Cioran nem sempre correspondia ao escritor. Sua correspondência nos ajuda a identificar melhor as diferenças entre o homem íntimo e o mito?

PIEDNOIR: Com certeza! Cioran se revela muito diferente daquele personagem que uma leitura apressada de seus livros pode supor. É uma figura de surpreendente empatia com os seres e as coisas, preocupa-se permanentemente com Guerne. É o oposto de um misantropo, partindo do princípio que um misantropo é impermeável à piedade. Cioran, tão violento, às vezes, em relação ao homem, tão disposto a blasfemar e a desejar a destruição de tudo que é forma, se mostra atingido em seu ser pelo sofrimento que constata no indivíduo.

Festa para o pessimista (O Globo, 25/06/11)

O jornal O Globo de 25/06/2011 traz o seu caderno Prosa & Verso dedicado a Cioran, que aparece estampado na capa com o título: “Festa para o pessimista”. O jornalista Bolívar Torres escreve sobre as homenagens preparadas na França para o centenário de nascimento de Emil Cioran. Uma exposição, livros de ensaios, um volume de correspondências trocadas com o poeta Armel Guerne e uma inédita continuação de “Breviário dos Vencidos” festejam o filósofo romeno, conta Bolívar, que entrevista ainda o pesquisador Vincent Piednoir, tradutor de Cioran.
.

Festa para o pessimista Cioran

Por  Bolívar Torres – Especial para O GLOBO, de Paris (25/06/2011) link

Ele ficou conhecido como “antiprofeta”, “dândi metafísico”, “aristocrata dos vândalos”… Pobre e discreto, fazia questão de permanecer longe dos holofotes, recusando todos os prêmios e honras que insistiam em lhe atribuir. Dezesseis anos depois de sua morte, porém, a obra do ensaísta francês de origem romena Emil Cioran saiu definitivamente do porão. No ano do seu centenário, o mais low-profile dos autores malditos volta a fazer barulho na França, com direito a exposição, livros de ensaios, um volume de correspondência com o poeta Armel Guerne, além de uma inédita continuação de seu clássico “Breviário dos vencidos”. Por mais contraditório que possa parecer, chegou a hora de celebrar com todo alarde o nascimento do autor de… “Do inconveniente de ter nascido”.

— É preciso celebrar tudo que se recusa a ser celebrado — defende o jornalista e editor Stéphane Barsacq, autor de “Cioran. Éjaculations mystiques” (“Cioran. Ejaculações místicas”, Seuil) recém-lançado livro de ensaios sobre o autor. — Celebrar Cioran é, de fato, bastante curioso. Mas, se por ocasião do centenário, leitores ingênuos descobrirem a obra de um escritor tão valoroso em tornar o mundo menos inocente, já será uma vitória. Basta um único leitor. Talvez a Humanidade perca o seu futuro carrasco.

Já faz alguns anos que Cioran vem saindo do relativo esquecimento em que se metera. O centenário confirmou a nova popularidade de sua obra, que no Brasil começou a ser reeditada há pouco pela Rocco — ainda esse ano a editora lançará “Do inconveniente de ter nascido” e “O livro dos logros”, ainda inéditos no Brasil. Em março, a prefeitura do 6 arrondissement, bairro em que o autor se sentia particularmente à vontade, dedicou-lhe a exposição “Juventude crepuscular”, repleta de arquivos, cartas e fotografias pessoais. O Salão do Livro de 2011 também se rendeu ao filósofo com a grande exposição “Pessimismo jubilatório”.

Cioran via biografias como uma ameaça (“É incrível como a perspectiva de uma biografia nunca tenha provocado alguém a renunciar à sua vida”, disse certa vez), e esforçava-se em esconder diversos aspectos de sua intimidade. Mesmo assim, pululam publicações em torno de seu nome. Em “Ejaculações místicas”, Stéphane Barsacq resgata a juventude do autor na Romênia e suas relações conflituosas com a religião. Já o ensaio “Cioran malgré lui” (“Cioran apesar de si mesmo”), de Nicolas Cavaillès, disseca os paradoxos do escritor a partir de um de seus livros mais marcantes, “Breviário da decomposição”. O mesmo Cavaillès, aliás, coordenou este ano a transferência de suas obras para a prestigiosa coleção da Pléiade — para muitos, a honraria máxima concedida a um autor de língua francesa.

— Biografias de Cioran são capitais — afirma Barsacq. — Ele diz tudo em seus livros, mas de maneira alusiva. Conhecer sua vida, contudo, não rebaixa sua obra. Pelo contrário! É um homem que falava das coisas que conhecia. Acredito que sua vontade em destruir ilusões tem uma relação com sua própria biografia. Foram suas próprias ilusões que ele quis reduzir a pó.

O renascimento de Cioran não acontece por acaso. Distanciando-se de qualquer ideal revelador, o autor de “História e utopia” temia a fúria das indignações, aquilo que chamava de “pausa mental da Humanidade”. Seu pensamento é externo à ação, defende a sabedoria da ociosidade, uma greve permanente da vida. Fruto da desilusão do pós-guerra, o distanciamento apaixonado e descrente tem tudo para seduzir a geração do “meu partido é o coração partido”, do mundo pós-muro de Berlim e da falência das ideologias.

— A obra de Cioran é universal, e continua atualíssima — avalia Laurence Tacou, editora da L’herne, que dedicou recentemente seus famosos “Cahiers” ao romeno. — A falta de perspectiva das gerações atuais e suas descrenças na política, sem dúvida ajudaram a popularizá-la. As pessoas não querem mais acreditar em políticos. Preferem ouvir a sinceridade e a autenticidade de um escritor que escrevia com as tripas.
Há, porém, um período sombrio da vida de Cioran, que começa lentamente a ganhar luz. Antes de abraçar a língua francesa e, com ela, o niilismo, o ensaísta foi capaz de assumir posições apaixonadas — de causas bastante duvidosas, vale ressaltar. Nos anos 30, antes do exílio parisiense, simpatizou com movimentos fascistas na Romênia. “Eu sou como essas mulheres que têm um passado”, confessou certa vez.

Passado que diversas publicações inéditas podem desenterrar. Em 2009, a editora L’Herne já havia lançado dois livros nunca antes publicados na França, e que ofereciam pistas preciosas sobre a primeira fase do autor (“Transfigurations de la Roumanie”, um panfleto improvável defendendo os fascistas da Guarda de Ferro; e “De la France”, belíssimo ensaio sobre o apodrecimento da cultura francesa, que ajuda a explicar a adoção do idioma por Cioran).

Cadernos encontrados no lixo aguardam publicação

O número de inéditos pode aumentar em breve, se a justiça permitir a exploração comercial dos 37 cadernos repletos de rasuras e correções encontrados em 2005 por uma catadora de lixo. Enquanto isso, os leitores poderão se contentar com uma continuação até então desconhecida do “Breviário dos vencidos” (última obra de Cioran escrita em romeno), que acaba de sair pela editora L’Herne.

— Ainda há muitos textos romenos de Cioran que podem ser recuperados — lembra Laurence. — Há também alguns cadernos e correspondência. Espero um dia poder publicar as cartas que trocou com o irmão, e que mostram como Cioran não era apenas um moralista de língua francesa. Ele nunca renegou suas origens balcânicas. Nas cartas, falava da Romênia como se fosse um paraíso que lhe fora arrancado.