Entrevista com Matéi Visniec: “Em Cioran há o prazer de pensar”

O dramaturgo romeno Matéi Visniec diz que o pensamento de Emil Cioran, o mais famoso filósofo romeno, é um pensamento que dá vertigem. Instigado, porém, pela maneira elegante e eloquente de Cioran refletir e escrever sobre o vazio – ou os vazios – Visniec dedicou ao pensador niilista uma de suas peças: Os desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte, no Brasil publicada pela É Realizações. Com exclusividade para a Fausto, quando em visita ao país, Matéi Visniec fala um pouco mais desse guia espiritual de almas inquietas, mestre tão perturbador quanto irresistível – diga-se já, uma das pedras fundamentais dessa revista. Deleite-se! [+]

Publicado em Faustomag. Tradução: Flavio Deroo.

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“A liquidação tecnológica da palavra está em marcha”: Matéi Visniec no Brasil

Autor romeno naturalizado francês realizará palestras neste domingo em Porto Alegre dentro do 9º Festival de Inverno

Por Fábio Prikladnicki – Porto Alegre, Zero Hora, 27/07/2017

Se a tarefa de um dramaturgo é responder às grandes questões de seu tempo, o romeno naturalizado francês Matéi Visniec pode se dar por satisfeito. Sua mais recente peça publicada no Brasil, Migraaaantes, é inspirada na muito atual tragédia dos refugiados. Seus textos reescrevem a história e recuperam grandes personagens da cultura e da intelectualidade em uma chave não realista que muitos identificam com o teatro do absurdo. Visniec estará em Porto Alegre para realizar a palestra Teatro e Jornalismo: Tentativas de Compreender o Mundo, na qual abordará a relação entre sua vivência na imprensa e a criação teatral. Será neste domingo (30/7), às 15h, na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307), com entrada franca, dentro da programação do 9º Festival de Inverno, que vai até quarta-feira (veja detalhes no roteiro da página 8). Leia, a seguir, a entrevista concedida pelo autor a Zero Hora por e-mail.

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Migraaaantes trata de um tema bastante atual. Poderia comentar quais foram suas inspirações para escrevê-la? E você acredita que o dramaturgo tem o compromisso de abordar as grandes questões de seu tempo?
A Europa está sacudida neste momento pelo fenômeno da imigração. Trata-se de um movimento massivo de populações que batem às portas da Europa para escapar da guerra, dos massacres, das perseguições de todo tipo, do subdesenvolvimento, da miséria material (e por vezes cultural e sexual), da fome, das mudanças climáticas catastróficas. As migrações tornaram-se um fenômeno duradouro. Nada poderá parar essas milhões de pessoas em busca de dignidade e de uma vida melhor. Isso é fato, é uma constatação de todos os especialistas e da mídia. A questão agora está ligada às mudanças políticas, culturais, identitárias, sociais e de outras naturezas que esses movimentos vão gerar. O debate é rico, suscita polêmicas, engendra reações de fechamento e de medo. Uma coisa é certa: nada será como antes. As migrações são sinais de um mundo em mudança. Creio que o olhar do artista é importante na compreensão do que está ocorrendo. Todo mundo deve participar desse debate, deve esforçar-se para compreender o que está acontecendo à humanidade: os políticos, os sociólogos, os historiadores, os jornalistas, os especialistas em geopolítica, os pesquisadores, os cientistas, os climatólogos, os economistas. Nesse contexto de brainstorming, a voz dos artistas é importante, ela é mesmo peculiar. O teatro pode também participar desse debate, pois atrás do fenômeno das migrações se escondem dramas individuais e coletivos assustadores, tráficos de todos os tipos e redes de explorações infernais, escolhas políticas discutíveis do lado das grandes potências e formas de indiferença condenáveis… (leia a entrevista na íntegra aqui)

Le Monde: “Cioran et la chute de l’homme dans le temps”

mondeCe vendredi 8 avril a lieu la commémoration de son centième anniversaire (soit 15 ans après qu’Emil Cioran a rejoint les anges).

Par Pierre Assouline

LE MONDE DES LIVRES | 07.04.2011 à 10h39 [source]

Inutile de se précipiter sur le souple pavé “Quarto” réunissant ses oeuvres complètes, ni sur l’épais “Cahier” que l’Herne lui a consacré, pour y chercher une ou deux maximes juste assez désespérées, de nature à coller avec la commémoration de son centième anniversaire, ce vendredi 8 avril (soit 15 ans après qu’Emil Cioran a rejoint les anges). Tout ce qui est sorti de sa plume ne parle que de cela : la chute de l’homme dans le temps.

Les cioranologues, cioranophiles et cioranolâtres ont pu néanmoins lui souhaiter de vive voix un bon anniversaire. Non pas devant sa tombe au cimetière Montparnasse : c’est là qu’on a le plus de chances de le trouver absent. Plutôt ailleurs, précisément. Ces derniers jours, on pouvait saluer son spectre mélancolique dans la salle byzantine du Palais de Béhague. L’ambassade de Roumanie avait pris des allures de ciorangerie pour la circonstance : Alain Lecucq et sa compagnie y jouaient Mansarde à Paris, une pièce de Matei Visniec, histoire d’un philosophe franco-roumain qui, en quittant les bureaux de son éditeur, oublie l’itinéraire menant de la rue Sébastien-Bottin au carrefour de l’Odéon et se perd en Europe. Si la ville avait songé à apposer une plaque commémorative sur la façade du 21 de la rue de l’Odéon, rappelant qu’ici vécut un maître en syllogismes de l’amertume, sûr qu’il serait arrivé à bon port. Ce geste commémoratif fut d’ailleurs solennellement exigé lors d’un brillant colloque consacré au pessimiste jubilatoire au Salon du livre. Il y fut question de la fécondité de ses contradictions, du sens de son incohérence et du salut par l’oxymoron. La moindre des choses pour un paradoxe fait homme. Incidemment, on apprit que sa bibliothèque même était bancale ; il est vrai qu’il avait cru bon se faire menuisier pour l’occasion.

A Paris toujours, mais cette fois du côté de l’Hôtel Drouot, on s’apprête à célébrer un centenaire plus sonnant et trébuchant. Simone Baulez, l’opiniâtre brocanteuse qui sauva une trentaine de cahiers, dont le journal inédit du moraliste et plusieurs versions dépressives du fameux De l’inconvénient d’être né, en débarrassant sa cave, s’est vue confirmée dans ses droits par la cour d’appel à l’issue de plusieurs années de procédure. Encore faut-il qu’elle récupère son bien. Or la chambre nationale des commissaires-priseurs, adoptant une attitude kafkaïenne qui eût certainement inspiré l’Emil, refuse de lever le séquestre sur les documents tant qu’une décision de justice ne le lui ordonne pas expressément. On en est là, en attendant qu’une juridiction soit saisie par son avocat, Me Rappaport. Mais la brocanteuse, qui s’est engagée à tout céder en bloc, n’est pas pressée ; à ce jour, outre l’ambassade de Roumanie, le Musée des Lettres et Manuscrits a manifesté son intérêt.

Cioran à l’encan

En attendant, incroyable coïncidence, jeudi 7 avril, soit quelques heures avant que les saints en larmes ne soufflent ses bougies d’anniversaire, Cioran se retrouve à l’encan à Drouot sous le marteau de Binoche & Giquello, dans l’espoir que la vente atteigne des cimes. Discrétion oblige, on en ignore la provenance mais on peut la supposer familiale ; en effet, outre des textes manuscrits autographes et des notes de lecture, ces archives (122 numéros) valent surtout par l’importante correspondance intime de Cioran échangée entre 1933 et 1983 avec ses parents et son frère Aurel, ainsi que par des documents aussi personnels que ses diplômes, passeports, cartes d’identité, cartes d’admission à la Bibliothèque nationale, cartes de chemin de fer, etc. Toute dispersion est un serrement de coeur car elle est dispersion. N’empêche qu’à lui seul, le catalogue est déjà un document excitant pour les biographes, généticiens et historiens de la littérature. Tout ce que déteste Milan Kundera, si l’on en juge par l’édition non critique de ses “Pléiade” parues sous son contrôle. Tant pis pour lui : pour ses 100 ans, Prague ne pavoisera pas, alors que pour ceux de Cioran, Bucarest est en fête. Normal, puisqu’il disait penser en roumain avant d’écrire en français.

Stanislas Pierret, le directeur de l’Institut français de Bucarest, a proposé à Dan Perjovschi de “donner à voir” la pensée de Cioran dans les rues de la capitale. Celui-ci appose donc une trentaine d’affiches, à compter du 8 avril et durant un mois, partout où existent des noeuds de communication. Pour chacune d’elles, un fragment chu de l’oeuvre du moraliste et un dessin au feutre marqueur qui se veut tout sauf son illustration. Un aphorisme visuel en regard d’un aphorisme philosophique. L’un et l’autre enfants de Sibiu,ils se retrouvent à la rue sur les murs de Bucarest. On y lira peut-être ces lignes échappées de Bréviaire des vaincus III (L’Herne) : “Le devoir de celui qui écrit n’est-il pas de se trancher les veines sur la page blanche, de faire ainsi cesser le supplice des mondes informulés ?” Allez, joyeux anniversaire quand même !

Pierre Assouline

Teatro: Mansarde à Paris (Papierthêatre)

Mise-en-scène da peça de Matéi Visniec (Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte) pela companhia francesa Papierthêatre.

Direção: Alain Lecucq

Resumo: Saindo da Editions Gallimard um dia, o filósofo Emil Cioran se dá conta de que esqueceu o caminho para sua casa. É o ponto de partida desta peça, que segua a errância de um grande filósofo romeno de expressão francesa a partir do momento em que ele começa a perder a memória. Durante vários dias, Emil Cioran perambula por Paris, vai à Gare de l’Est para esperar o Expresso Oriente, à prefeitura para que carimbem seu documento de apátrida, encontra diversos personagens insólitos como a Dama das migalhas ou o Cego do telescópio. Ele, o filósofo que cultivou sua lucidez e o niilismo, que demoliu em seus livros todas as ideias suscetíveis de salvar o Homem, ele, o teórico do suicídio como único horizonte que torna a vida suportável, se dirige em direção à morte aspirado pela perda de sua memória (do site da companhia)

Resenha do livro: “Quando a memória sai de cena”

“Uma homenagem subjetiva…” (Matéi Visniec)

Quando a memória sai de cena: Cioran por Matéi Visniec

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Resenha:
Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte (de Matéi Visniec, É Realizações, 2012)

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

Um passeio por Cioran

Diz-se que certo dia, no início da década de 90, Cioran saiu da editora Gallimard e, pretendendo voltar parar casa, se esqueceu de onde morava. Era o Alzheimer que chegava para precipitar seu crepúsculo em direção ao fim – ele morreria meia década mais tarde, num hospital em Paris. Eis o ponto de partida de Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte, peça teatral escrita por Matéi Visniec, dramaturgo romeno nascido em 1956 e exilado em Paris em 1987, onde vive até hoje.

Desvãos… é uma “homenagem subjetiva” a este pensador da dúvida e do desengano conhecido por seu pessimismo corrosivo e por sua ironia implacável. Marcado por uma atmosfera onírica que beira o surreal, a peça é um conjunto de cenas-fragmentos que passeiam através de momentos e situações entre a vida parisiense de Cioran e seus anos iniciais na Romênia. Dos personagens aos lugares emblemáticos em que se passam as situações, a estória é perpassada de elementos simbólicos cuja função é colocar em cena diversos aspectos do pensamento e da vida do nosso protagonista. O espaço exterior, no qual se desenrolam os acontecimentos (os encontros, os desencontros, as caminhadas, os devaneios), parece ser uma figuração concreta do universo simbólico de Cioran, um mundo labiríntico onde coabitam memórias do passado, fantasmas do presente e diversos elementos que tecem a relação entre a trajetória biográfica do autor e o seu pensamento.

Em busca da memória perdida

Na primeira cena, um Cioran perdido, com sintomas de senilidade já avançada, pede informações a um cego com um telescópio no meio de uma praça em Paris: o romeno se esforça para se lembrar do local e do horário exatos em que deve encontrar Ionesco e Eliade, com os quais será fotografado (trata-se de uma foto famosa, em preto e branco, em que os três aparecem, de pé, conversando). A impressão é de que, nos diálogos com este e outros personagens (há um segundo cego), o romeno está o tempo todo dialogando consigo mesmo, como se locutor e interlocutores fossem as personificações das diversas vozes que compõem a polifonia do pensamento cioraniano. Digno de nota é o personagem da “mulher que faz migalhas”: recurso poético com o objetivo de dar corpo à memória do protagonista, com a qual ele conversa enquanto ela alimenta os pombos no Jardim do Luxemburgo. A projeção exterior da memória como forma de simbolizar a perda progressiva da mesma, até que ela o abandone por completo para tornar-se uma completa estranha. “Está claro, minha memória, que começo a me perder da senhora… mas o estranho é que é na desordem que essa perda se dá. E esse jardim, lhe agrada? […] (Enquanto continuam a falar sem se mexer, as duas personagens começam a se afundar devagarzinho na terra. É como se estivessem sendo engolidas, de uma maneira extremamente lenta, por uma areia movediça.)”

Em outra cena, Cioran irrompe – perdido, como sempre – numa sala da Sorbonne onde um professor de filosofia cego está dando uma aula sobre ele.  “(A porta se abre. Um vento forte invade a cena e derruba uma cadeira; dezenas de páginas voam no ar. Humilde, olhar vago, Cioran entra) – Bom dia, desculpe, não quero incomodar… Procuro o restaurante, o restaurante universitário…”, o mesmo onde ele comeria de graça até os quarenta anos quando belo dia um funcionário poria fim a sua mordomia. Ao final da aula, em que é feito um resumo inspirado, mas não pouco caricatural, do pensamento de Cioran, o professor cego saca um revólver e mira contra a própria cabeça. Crítica ou ironia direcionada a um pensador que, com frequência, é acusado de ser um niilista suicida? Fica em aberto a questão.

Sempre se mata cedo ou tarde demais

A propósito, o tema do suicídio, questão central do pensamento cioraniano, entra no enredo por meio de um jovem que invade, no meio da noite, o quarto de Cioran, em sua mansarda na Rue l’Odeon, para pedir-lhe autorização para se matar. Uma alusão aos leitores que lhe escreviam para agradecer pelo fato de que seus livros lhes deram força para atravessar momentos de extremo sofrimento, muitas vezes dissuadindo-os, por um aparente paradoxo, de consumar o ato capital, quando a isto estavam pré-dispostos. Aplicando sua psicologia do desengano no caso do jovem suicida, o Cioran da peça nos faz lembrar de um aforismo dos Silogismos da amargura: “Só se suicidam os otimistas. Os pessimistas, não tendo razões para viver, por que as teria para morrer?” Partindo da premissa de que pessimismo e lucidez andam juntos, Cioran descobre que trata-se de um jovem (estudante de Letras) cujo otimismo perante a vida fora abalado por alguma amarga decepção. E recusa-lhe a autorização para o derradeiro ato: “Você não é lúcido o suficiente para morrer”, diz ele ao rapaz, que responde:

Senhor Cioran, lúcido ou não, exijo que o senhor me dê permissão para eu me suicidar. Li todos os seus livros. Sei todos de cor, estudei durante dez anos o seu pensamento, fiz um doutorado sobre o senhor. E agora, acabou, exijo do senhor um último gesto. Mê dê permissão para eu me suicidar!

Uma paixão impossível

É no escritório aonde vai para renovar sua papelada de estrangeiro que Cioran encontra novamente a “mulher das migalhas”, desta vez interpretando a balconista do serviço de imigração. Visniec aí faz o romeno confessar sua paixão secreta por Friedgard Thoma, alemã que ele teria conhecido através de correspondências, e com a qual teria supostamente vivido um amor platônico. Tema delicado, uma vez que o romeno sempre se recusou a falar de sua vida conjugal. A confissão é singela, beirando o patético:

A senhora sabe que estou apaixonado? Apaixonado há dez anos? Apaixonado por uma alemã que vi na Alemanha? E que telefono para ela todos os dias, escondido, de uma cabine telefônica? Que eu sofro como o mais puro dos adolescentes cheio de espinhas na cara? […] Apaixonar-se na minha idade… Ter fantasias eróticas, na minha idade… Hoje de manhã, quis telefonar, mas me dei conta de que tinha esquecido seu nome… E, no entanto, eu a amo… eu a amo… […] Mas ela me magoou… A senhora sabe o que ela me disse, numa carta, há dez anos? Ela me disse que nossa relação não poderia ser de ordem física

O mesmo escritório do serviço a estrangeiros torna-se um tribunal digno de um romance kafkiano, onde o nosso personagem se depara com um verdadeiro julgamento sobre seu passado. Para sua surpresa, o chefe do serviço a estrangeiros apresenta-lhe um dossiê contendo todos os comentários depreciativos que fizera, quando jovem, sobre seu próprio povo e país. Acusado de “traidor da pátria” e daí para baixo, o romeno é intimado a prestar contas de tudo o que dissera e escrevera no passado.

Cioran passou seus últimos dias na ala geriátrica do hospital Broca, em Paris. Ali ele faleceria em 20 de junho de 1995, tendo perdido completamente a memória e a consciência de si. Mas antes de desaparecer para sempre no esquecimento, ele ainda resgata algumas memórias que, por aquilo que possuem de original (no sentido da origem), não poderiam deixar de figurar também como destino, como o ponto final de uma existência tão empenhada em romper com suas origens, mas que acabou a elas retornando (e ficando mais preso ainda) ao cabo de toda uma vida.

Quanto a isso, Ion Vartic, em seu Cioran, naif și sentimental, diz que o pensamento de Cioran se caracteriza por uma espécie de “metafísica da regressão” que apontaria para o passado (para a beatitude pré-consciente da vida primitiva, anterior à corrupção), e não para o futuro, como telos por excelência do ser temporal e finito que é o homem.

Regressões

Em seu esforço para não desaparecer, a memória refaz seu trajeto de vida do presente ao passado. O déjà-vu dá o tom das cenas, em que os mesmos personagens reaparecem interpretando diferentes pessoas que Cioran conheceu e com as quais conviveu ao longo da vida. Dentre elas, como não poderia deixar de ser, Simone Boué, a professora de liceu que lhe faria companhia até o fim de sua vida. A cena em que os dois se encontram talvez seja a mais comovente de toda a peça: o velho Cioran cruza, enquanto caminha pela praia de Dieppe (onde costumava passar o verão com Simone), com uma jovem desconhecida saída do mar. Ele pergunta: “Menina, me diga a verdade… Você faz parte de minha memória fragmentada? É o mar que brinca com minha memória e que me remete a alguns vislumbres do passado?” Antes de voltar para o mar, a jovem beija-o na boca e diz: “Vivemos cinquenta anos juntos. E, nas suas cadernetas, meu nome não aparece nem mesmo uma só vez.”

Viajamos no tempo e no espaço em direção a Sibiu, segunda cidade em que viveu Cioran, e onde ele começou a sofrer o grande drama de sua vida: a insônia. O velho Cioran, cada vez mais próximo do completo esquecimento, visita a si mesmo enquanto ainda é um jovem estudante de filosofia e um intelectual apaixonado, exaltado, cheio de aspirações. Ao mesmo tempo em que o autor já conhecido, na França e fora dela, por livros como Écartèlement (“Esquartejamento”) e Exercícios de admiração, regressa à sua juventude, é como se descobrisse, por detrás da névoa do esquecimento cada vez mais espessa, a presença indelével do jovem Emil Cioran sempre presente, até o final de sua vida. Todo um conflito que atravessa a trajetória biográfica do escritor romeno, marcando-a com uma ruptura radical simbolizada pelo exílio em Paris e pela adoção do francês como língua de expressão, é aqui representado de modo especialmente dramático, a ideia da divisão sendo reforçada pelo encontro cara a cara, e pelo acerto de contas, entre um jovem e um velho Cioran.

De Sibiu a Rasinari, seu vilarejo natal: eis o ponto final da estória, no qual se despede de nós a memória de Cioran. Chegado no seu destino de origem, Cioran se dá conta de que viveu quase sua vida inteira sem uma sombra. No rodapé das colinas de Coasta Boacii, onde nascera e vivera os primeiros anos de sua vida, ele reencontra seu “paraíso terrestre” da infância. Sua avó o espera de braços abertos (ela, que fora a única adulta responsável por Emil e seus irmãos, enquanto seus pais haviam sido deportados durante a I Guerra). O velho Cioran pergunta à avó, que é ao mesmo tempo uma carpideira, por quem ela chora. Ela chora por um senhor que morreu no estrangeiro.

A julgar por um pensador que, arrogando-se uma lucidez desesperada, sempre exaltou a inconsciência como o paraíso, a salvação (“a consciência é um exílio; a inconsciência, uma pátria”), não deixa de ser pertinente perguntar-se sobre a relação entre a morte de Cioran (suas causas e circunstâncias) e o modo como a questão da morte foi por ele tratada em seus escritos. Segundo Gabriel Liiceanu, a questão pressupõe que “entre o exercício do pensamento da morte e a morte em si mesma estabelecer-se-ia um vínculo, e que a morte deveria levar a marca da forma com que ele não cessou de falar dela.” (Itinéraires d’une vie: E.M. Cioran).

Cioran não poderia ter tido uma morte mais coerente com seu pensamento sobre a morte. Para o homem, animal angustiado com o absurdo da existência, atormentado pelo fundo irracional da vida e pelo nada que a habita, a memória, a consciência, o espírito, tudo isso é um fardo, potências antagônicas à vida mesma. Só os animais e as plantas conhecem o repouso, só eles estão à salvos do tremor do ser que se descobre sendo em direção ao nada. Àquele que sempre amaldiçoou a consciência, foi reservada uma morte inconsciente, esquecida. Sua tão estimada lucidez há tempos lhe havia abandonado quando ele finalmente se dissipou, demente, com o suspiro do esquecimento final. Bênção ou castigo? Não sabemos e provavelmente nem Cioran pôde ter esta certeza. Sua morte foi o único acontecimento importante em que não lhe fora possível ser o espectador de si mesmo. O exilado metafisico reencontrou enfim sua pátria.

Uma homenagem subjetiva… (Matéi Visniec)

Não conheci Cioran pessoalmente. Aliás, nem mesmo tentei, já que sua obra me parecia suficiente para que eu pudesse me comunicar e dialogar com ele tendo toda liberdade e da maneira mais cordial.

Mas, por curiosidade, fui ouvir Cioran, que devia se apresentar num colóquio sobre Benjamin Fondane. Foi em 1988, creio. Escutei a intervenção de Cioran em francês e fiquei bastante tocado pelo fato de que naquele que era considerado pela crítica um mestre incontestável da língua francesa ainda transparecia um leve sotaque romeno.

Alguns anos mais tarde, na saída de um recital de piano dado por um artista romeno na Sorbonne, alguém me apresentou a Cioran. Demos um aperto de mão mas não trocamos uma só palavra.

Então gostaria de precisar que minha peça, que tem como personagem principal Cioran, é um encontro subjetivo e imaginário do autor Matéi Visniec com o filósofo Emil Cioran. Depois de sua morte, Emil Cioran se tornou para mim um personagem disponível. Quando era vivo, Cioran soube construir para si uma mansarda sobre o teto daquele edifício tão requerido, chamado de patrimônio cultural da humanidade.

Como personagem, ele continua a habitar em sua mansarda imortal e continua a nos intrigar e a nos incitar a pôr em questão todas as ideias recebidas.

Consequentemente, todas as personagens dessa peça (com uma nuance no que diz respeito a Cioran) são fictícias. Toda eventual semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, será inteiramente fruto do acaso c do jogo de puras coincidências.

Esta peça se quer uma homenagem subjetiva a Cioran, não obstante ela extraia sua matéria-prima do pensa-mento e das ideias do grande filosofo. As alusões não podem ser colocadas entre aspas, mas os conhecedores identificarão rapidamente, nesta peça, as fontes cioranianas de certas falas. Para os que não conhecem em profundidade a obra de Cioran, esclareço que minha peça está impregnada de numerosas ideias desenvolvidas por ele sobre unia grande diversidade de temas, começando pelo suicídio e acabando no destino do povo romeno. Entretanto, no meu trabalho de escrita, durante a construção das minhas réplicas, evitei empregar “palavra por palavra” as frases de Cioran. E, quando a lógica da peça me obriga de todo modo a utilizar as palavras dele, estas foram colocadas entre aspas, e as personagens especificam que se trata de verdadeiras citações.

Fora a obra de Cioran e suas entrevistas, vários artigos e livros sobre Cioran me foram de grande utilidade c, por isso, vou citá-los aqui. Testemunhos interessantes e reflexões sutis sobre o homem Cioran, conto, por exemplo, os assinados por Gabriel Liiceanu, Simona Modreanu, Marta Petreu, Mihai Sora, lon Vartic ou Simone Boué, me ajudaram a construir a situação dramática e a “colorir” a personagem.

Estes são os livros que permaneceram na minha mesa de trabalho durante o período em que escrevi a peça:

— Lectures de Cioran. Textos reunidos por Norbert Dodille c Gabriel Liiceanu. Paris, Éditions L’Harrnattan, 1997.

— Déclarations d’Amour, de Gabriel Liiceanu. Bucarest, Editions Humanitas, 2001.

— Cioran Naif et Sentimental, de Ion Vartic. Cluj, Editions Biblioteca Apostrof, 2000.

Este conjunto de fontes, que se encontra na minha sala, deve ser completado pelas revelações ligadas ao grande amor de outono de Cioran: Friedgard Thoma. A revista Seine et Danube, editada em Paris e que dedicou seu primeiro número a Cioran, me trouxe inúmeras informações sobre esse assunto, mais especialmente graças ao artigo assinado por Dieter Schlesak com o titulo de Je m’Ennuie de Toi — Les Lettres d’Amour de Cioran à une Allemande (Tenho Saudades de Você — As Cartas de Amor de Cioran a uma Alemã).

Matéi Visniec, Os Desvãos Cioran – Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte, tradução de Luiza Jatobá, São Paulo: É Realizações, 2012.

Cioran e um professor de filosofia cego (Matéi Visniec)

Os Desvãos Cioran ou Mansarda em ParisProjeção no telão: imagens da Sorbonne.

As imagens se esfacelam e desaparecem, mas o anfiteatro permanece como cenário: um estrado, uma cadeira sobre estrado, um quadro negro, etc.

Com seu bastão na mão, o cego do telescópio entra. Com o telescópio debaixo de um braço, o tripé debaixo do outro, ele arrasta também com ele uma velha pasta de professor universitário. Com a ajuda da bengala branca, ele tateia, de uma maneira bem confusa o chão e os objetos qeue se encontram diante dele.

Caminhando em direção à cadeira, ele a derruba, quase cai várias vezes, deixa cair o telescópio no chão, etc.

Enfim, ao chegar atrás da cadeira, abre sua pasta e tira dela vários livros. Fixa o tripé e monta o telescópio, que aponta para os espectadores.

O cego do telescópio se torna o professor de filosofia cego.

O PROFESSOR DE FILOSOFIA CEGO: Bom dia a todos. Começamos hoje, então, nosso curso de filosofia contemporânea. E vamos durante 3 meses tratar de Cioran.

(Val ao quadro-negro, procura o giz, escreve no quadro o nome “Cioran”. Tenta colocar o giz na borda do quadro, mas o giz cai no chão.)

Bem, o que eu proponho é utilizar um termo que tem mais a ver com a geografia, quer dizer, o termo “precipício”, para melhor entender o método filosófico de Cioran. “Precipício — depressão natural muito profunda com escarpas muito íngremes.” Isso é o sentido próprio da palavra. Mas a palavra “precipício” também tem um sentido figurado que quer dizer “perigo”, “desastre”.

Vejam vocês então o que representa o pensamento de Cioran, no sentido próprio e no sentido figurado, na paisagem da filosofia contemporânea. É um pensamento que dá vertigem. Se vocês ainda não experimentaram a sensação de vertigem, subam ao último andar da torre Montparnasse, saiam no terraço, subam no parapeito, fiquem de pé no parapeito e olhem a rua embaixo. Vocês então passarão a compreender a verdadeira natureza do pensamento de Cioran. Isso lhes dará uma percepção física da profundidade do espirito do senhor Cioran.

Portanto, o pensamento de Cioran se apresenta como um vasto abismo espiritual. Um abismo sem fim, um verdadeiro buraco negro que, há meio século, detona e devasta tudo, todas as ideias do Ocidente e do Oriente, todas as verdades e inverdades, todos os preceitos morais e todos os marcos axiológicos… Tudo passa pela peneira do senhor Cioran… As utopias, as religiões, as tradições, as mentalidades, as doutrinas, as ideologias… Escutem um pouco este tipo de assobio que aumenta de intensidade cada vez que a gente emite uma ideia nesse anfiteatro… Vocês o escutam? (Escuta-se mesmo um assobio. Parece que um vento forte abriu a janela, e as cortinas são levadas para fora.) Isso é o pensamento de Cioran, é o abismo do método crítico de Cioran que está nos levando e nos destruindo a todos, neste momento.

(Ele procura a garrafa de agua, enche o copo, dá um gole. Coloca o copo na mesa, mas ele vira. Coloca a garrafa na mesa, mas ela vira. A água derramada molha os livros. Tenta salvá-los, mas eles já estão molhados.)

Mesmo a palavra “sistema” lhe dava ânsia de vômito… É por isso, aliás, que ele tomou o cuidado de dinamitar as contradições insuportáveis do seu próprio pensamento. Toda a sua reflexão é um campo minado. Quer dizer que ele se diverte dizendo uma coisa e, dez ou quinze páginas depois, ou dois ou três anos mais tarde, diz o contrário. Assim é Cioran. Diz sempre o contrário de tudo, mas com um método diabólico, para nos impedir de apreender o essencial de seu pensamento. Na verdade, ele zomba de nós, mas com tamanha graça, meu Deus, com que graça!

(Irritado de constatar que os livros estavam irremediavelmente estragados, ele os joga no lixo.)

(A porta se abre. Um vento forte invade a cena e derruba uma cadeira; dezenas de páginas voam no ar. Humilde, olhar vago, Cioran entra.)

CIORAN: Bom dia, desculpe, não quero incomodar… Procuro o restaurante, o restaurante universitário…

(Matéi VISNIEC, Os Desvãos – Cioran ou a Mansarda em Paris com Vista para a Morte)Os Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris