Emil Cioran comme prophète de la vraie sainteté (à propos de Mircea Vulcanescu) (Isabela Vasiliu-Scraba)

Fonte: IsabelaVS-Cioran-Vulcanescu-fr

En tant qu’étudiant, Emil Cioran pensait que la crise des valeurs culturelles signifiait l’abandon du domaine de l’esprit à faveur du domaine de l’âme. A cette époque-là, il était fasciné par l’esprit incorporé dans la pensée kantienne. Il avait choisi Kant pour son mémoire de licence (1) sous la direction du fameux Nae Ionescu. Dans son enthousiasme, il avait décrété la philosophie de Kant et les mathématiques des excellents remèdes contre sa tristesse congénitale. Tout cela jusqu’au début du complot contre le « philosophe mystique » Nae Ionescu, duquel les philosophes rationalistes ont essayé de se débarrasser (2). Sans aucune sensibilité religieuse, ils étaient jaloux du succès des conférences de Nae Ionescu, suivies non pas par des étudiants en philosophie, mais aussi par des étudiants en Théologie, Droit ou même en Sciences.

Grand admirateur, tout comme Mircea Vulcanescu et Mircea Eliade, de l’esprit du renommé professeur de métaphysique, Emil Cioran a eu probablement la révélation que le monde contemporain était devenu «incapable d’irrationalité» et que l’homme moderne avait été confisqué, «jusqu’à la malédiction», par le rationalisme (3). Cioran a renoncé à son projet de mémoire sur Kant, en faveur des «indiscrétions métaphysiques du christianisme». Il a lutté, dans ses articles, contre «l’ordre oppressif» du relativisme moderne, scientifique(4) et contre l’historicisme privé de transcendance (De   l’historicisme à la métaphysique, 1932), qu’il voyait comme l’expression de la stérilité intérieure. Il a écrit sur l’homme moderne, qui avait renoncé à la poursuite de la perfection, après avoir abandonné la nostalgie du Paradis. Il a fini ses études de philosophie en écrivant un mémoire de licence sur Bergson. Il garde, quand même, de Kant, une vision dualiste du monde. A cela, il ajoute la technique kirkegaardienne de préserver les contraires dans leurs tension irréconciliable… [+]

Entrevista com Mihaela-GenÅ£iana StăniÅŸor: “Há uma poética da desnaturação em Cioran”

Mihaela-GenÅ£iana StăniÅŸor é uma filóloga romena, com especialização nos idiomas romeno e francês. Obteve seu doutorado em 2005 com uma tese sobre os Cahiers de Cioran. Atualmente, é professora na Universidade Lucian Blaga, em Sibiu (cidade marcante para Cioran). É autora de diversos livros, dentre os quais se destacam Os Cahiers de Cioran: o exílio do ser e da obra, e Perspectivas críticas sobre a literatura francesa do século XVII. Publicou também o artigo “Del inconveniente de la identidad”, na coletânea Cioran: ensayos críticos, organizada por M. Liliana Herrera e Alfredo A. Abad T. (Universidad Tecnologica de Pereira, Colómbia, 2008) Além disso, GenÅ£iana é diretora da revista romena de literatura e filosofia Alkemie, em cujo site é possível encontrar vários de seus artigos (em francês).

GenÅ£iana concedeu ao Portal EMCioranBR uma entrevista exclusiva onde fala sobre sua trajetória acadêmica envolvendo os estudos sobre Emil Cioran, e faz considerações importantes sobre os Cahiers do autor — seu objeto de estudo privilegiado. Ela também fala um pouco sobre o lugar de Cioran na cultura romena contemporânea, em contraste com os anos que precederam à revolução que pôs fim ao regime comunista de CeauÈ™escu, e como se deu seu primeiro encontro com a obra deste “exilado metafísico”.

Rodrigo Menezes — Prezada GenÅ£iana, em nome do Portal EMCioranBR e de seus visitantes, leitores de Cioran, eu agradeço enormemente a oportunidade de fazer essa entrevista com você. Você é filóloga e fez uma tese de doutorado sobre Cioran, intitulada Les « Cahiers » de Cioran, l’exil de l’être et de l’œuvre. La dimension ontique et la dimension poïétique, publicada pela editora da Universidade Lucian Blaga, em 2005. Poderia nos dizer a razão de ter escolhido os Cahiers como objeto de análise? Poderia nos dizer algo sobre sua tese?

Mihaela-GenÅ£iana StăniÅŸor — Comecei a estudar a obra de Cioran de uma maneira mais rigorosa ao fim dos meus estudos universitários (entre 1997-1998). Os Cahiers tinham acabado de ser publicados. Após sua leitura, eu me propus a analisar a relação que eles mantinham com a obra de Cioran propriamente dita.  Sua dimensão de laboratório de criação, de “documento poiético”, me fascinava. Tive a chance de conhecer Irina Mavrodin, personalidade marcante da cultura romena, à ocasião do Colóquio Internacional Emil Cioran que acontecia todo ano em Sibiu. De imediato, ela achou meu tema interessante e aceitou orientar meu doutorado. Uma boa parte de minha tese é dedicada ao estudo comparativo dos Cahiers e dos escritos cioranianos, a partir do conceito de escritura fragmentária como modus vivendi e fabricação poética. O estudo comparativo me permitiu constatar melhor as funções do fragmentário, como princípio ontológico e como princípio estrutural. Há sempre, em Cioran, um inconveniente da identidade (que conduz a um princípio ontológico da escritura, a uma ceno-grafia do eu), assim como há um inconveniente da escritura (que conduz a sua fragmentação e a sua metaforização, ao atalho, à ambiguidade, ao vago), a uma imagem incompleta, ou, antes, a eus [moi] contrastantes.

R.M. — Quando e como você teve seu primeiro contato com a obra de Cioran?

M.-G.S. — Eu li Cioran pela primeira vez quando estava no liceu, pouco depois da queda de CeauÅŸescu (em 1990). Pude constatar que, em cada um de seus livros, não é tanto um mundo que se abre, mas um inferno que se fecha. Eis o efeito que o primeiro livro que li na minha adolescência, De l’inconvénient d’être né, teve sobre mim. Eu percorri, intrigada, as palavras do título e aquilo me bastou para decidir ler o livro inteiro. O impacto que a maneira de Cioran de pensar e de sentir teve sobre mim foi, desde o início, decisiva e perturbadora, pois, por um lado, ela respondia a sentimentos e obsessões que eu acreditava serem inexprimíveis; por outro lado, ele difundia em mim um sentimento ambíguo e estranhamente reconfortante, apesar da amargura que me provocava. Era o sentimento da vaidade de toda ação, à exceção da leitura, que eu considerava salvadora, graças à frente comum que eu podia fazer com o autor. Em poucos dias, eu havia me tornado solidária de Cioran, com esse “eu” [je] impiedoso que explodia linguisticamente e me tornava presa da fascinação. Mais tarde, tendo lido toda sua obra, a fraternização com o autor se acentuou. Eu me daria conta, vivendo em uníssono com Cioran, graças às impressões que eu compartilhava com ele e que o sentimento da identidade (ou da alteridade?) tornava mais fortes, que seus livros me ofereciam um modelo de escritura. Pouco a pouco, o que ele dizia se tornava secundário para mim, pois ele me havia iniciado na expressão do dizer. Eu via como seu texto se tornava cada vez mais condensado e contraditório, a mise en suite (“posta em sequência”) de palavras cada vez mais inusitada e espetacular, e sua expulsão cada vez mais significativa. O lirismo se evaporava (como efeito da passagem do tempo e do culto à língua francesa), de modo que as paixões que turbaram sua juventude, que inflamaram seu pensamento e tentaram seu discurso nos livros romenos, se racionalizaram. A tentação de exprimir foi substituída pela assiduidade de expiar.

R.M. — Como Cioran é considerado na Romênia? Ele é lido e conhecido pelos romenos em geral? Ou seria mais conhecido nos meios acadêmico e intelectual?  Estava ele presente na vida literária romena anterior a 1990? Seus livros franceses eram publicados na Romênia?

M.-G.S. — Antes da revolução de dezembro de 1989, Cioran estava proibido na Romênia. Não se podia encontrar seus livros nas livrarias ou nas bibliotecas, não se podia nem mesmo pronunciar seu nome para não chamar a atenção da Securitate [polícia secreta romena do regime comunista]. Poucas pessoas possuíam seus livros, obtidos diretamente na França. Mas os verdadeiros intelectuais seguiam sua vida e sua criação, apesar do terror comunista. Após a revolução, os escritos de Cioran foram editados e reeditados, uma boa parte deles inédita (as edições Humanitas, dirigidas pelo filósofo Gabriel Liiceanu, se ocuparam da publicação integral de Cioran). Cioran vende bem na Romênia, e eu penso que não são apenas os intelectuais que o leem, mas também outras pessoas que apreciam seu humor e seu jogo saboroso com as palavras. A expressão curta, aforística, fácil de reter, ganha muitos adeptos.

R.M. — “Regra de ouro: deixar uma imagem incompleta de si”, escreveu Cioran em De l’inconvenient d’être né. Geralmente, as pessoas vêm a conhecê-lo através de sua obra francesa, ao menos no Brasil. Certamente há leitores que não sabem que Cioran é romeno, ou que sabem muito pouco a respeito de sua vida. Eis uma questão que me persegue: o que permanece de romeno no “Cioran francês”? Tenho a impressão de que ele esconde muito sobre si mesmo, que ele falsifica sua “romenidade” e a desnatura. Não seria a concepção de Cioran sobre os romenos um preconceito? “Povo de céticos, frívolos, superficiais, trágicos, etc., etc.”…

M.-G.S. — Você certamente conhece essa formidável citação de Cioran que eu cito de memória: “Não se habita um país, habita-se uma língua.” Isso já diz tudo. Para um escritor, é a língua que constitui seu ser. Ele respira e pensa na e pela língua. Do período romeno, permanecem sem dúvida suas obsessões, seus temas preferidos (o ser, o tempo, a morte, o destino…). Mas aquele que muda de idioma também muda de ser. A língua o transforma em um ser acurralado. E ele descreve tão sugestivamente essa transformação em sua “Carta a um amigo longínquo” [primeiro capítulo de História e Utopia], ao amigo, que permaneceu na Romênia, o filósofo Constantin Noica. Se ele falsifica sua “romenidade”, é porque ele falsifica tudo, é porque a escritura é o repositório perfeito de desnaturações. Há toda uma poética da desnaturação em Cioran. Como em todo escritor autêntico, eu diria. Sua visão do povo romeno encontra-se também em outros autores romenos. Mircea Vulcănescu, da mesma geração de 1930, fala do sentimento trágico da existência; o grande filósofo romeno, Lucian Blaga, exprime sistematicamente esse “sentimento melancólico do destino”, que define o romeno. Há, certamente, nesse povo, um ceticismo inato, uma sensação de fatalidade que o perturba por toda sua vida. De resto, a concepção que Cioran  tem dos romenos é alimentada pelo mesmo princípio que lhe é caro: o exagero, o rechaço às margens da… normalidade. Ir além para criar o choque, para chegar a esse deslumbrante: “Como se pode ser romeno?”.

R.M. — Os Cahiers poderiam ser vistos como uma profunda fonte de conhecimento sobre Cioran, para além de seus livros, como uma espécie de laboratório secreto e íntimo em que ele escrevia coisas que jamais teria a coragem de publicar? Não esqueçamos que ele havia escrito na capa dos cadernos: “A destruir”. Eu me pergunto: Quem devia destruí-los ? Cioran tinha mesmo o desejo de que seus cadernos fossem destruídos, por Simone ou qualquer outra pessoa (e Simone, publicando-os, teria traído Cioran)?

M.-G.S. — Não, eu não acho que se deva buscar o homem de carne e osso nos cadernos de Cioran. Também aí trata-se da consciência autoral que fala e que se vê falar. Esse jogo duplo também funciona aí. Em todo lugar há o pacto com a escritura, o prazer do texto, da palavra. E Cioran sacrifica tudo a esse prazer. Sobretudo seu próprio eu biográfico. Há aí, contudo, uma dimensão biográfica mais intensa da escritura. Os Cahiers são também o diário de um ser que é presa de seus eus [moi]. Entre biografia e ficção, não o esqueçamos, é só um passo.

Acredito que Cioran não tinha a intenção de destruir seus cadernos. Nem de publicá-los desta forma. Mas uma coisa permanece importante, apesar de tudo: sua aparição é essencial para compreender, in nuce, a maneira de Cioran de refletir, de agir (escrituralmente) e de (re)escrever. Do ponto de vista da genética dos textos cioranianos, sua existência é capital. Simone Boué, sem dúvida, deu-se conta disso. E para todo pesquisador aplicado, os Cahiers são uma mina de ouro.

R.M. — Um livro preferido de Cioran?

M.-G.S. — Aveux et anathèmes (“Confissões e anátemas”). Ultimamente, constato que tenho uma preferência por seus livros aforísticos pois isso me incita o espírito a novas descobertas a cada releitura. Cada aforismo é um livro. A ser imaginado, a ser reescrito.

R.M. — Um aforismo preferido? Ou mais de um…

M.-G.S. — Ah, mas quase todo dia eu tenho no espírito um aforismo cioraniano. Isso me ajuda a começar o dia de uma maneira (ir)razoável.  Vou lhe dar três:

 « Minha missão  é sofrer por todos aqueles que sofrem sem sabê-lo. Devo pagar por eles, expiar sua inconsciência, a chance que eles têm de ignorar até que ponto são infelizes. » (De l’inconvénient d’être né).

« Buscar o ser com palavras! – Tal é nosso quixotismo, tal é o delírio de nossa empreitada essencial. » (Cahiers)

« Afinal, eu não perdi meu tempo, eu também me agitei, como todo mundo, nesse universo aberrante. » (Aveux et anathèmes).

R.M. — Prezada GenÅ£iana, muito obrigado pela disposição em nos oferecer essa entrevista. Agradeço em nome do Portal EMCioranBR e de todos seus visitantes.