“Os novos deuses”, de Emil Cioran (extrato)

CIORAN, « Les nouveaux dieux », Le mauvais démiurge, in Œuvres. Paris: Quarto/Gallimard, 1995.

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O politeísmo corresponde melhor à diversidade das nossas tendências e dos nossos impulsos, aos quais oferece a possibilidade de se exercerem, de se manifestarem, cada qual livre para pender, segundo sua natureza, ao deus que mais lhe convém no momento. Mas, que fazer com um só deus? Como encará-lo, como utilizá-lo? Com ele presente, vive-se sempre sob pressão. O monoteísmo sufoca nossa sensibilidade: nos aprofunda comprimindo-nos; sistema de restrições que nos confere uma dimensão interior em detrimento do desabrochar de nossas forças, constitui uma barreira, impede nossa expansão, perturba-nos. Certamente, com diversos deuses, nós éramos mais normais do que o somos com apenas um. Se a saúde é um critério, que retrocesso o monoteísmo!

Sob o regime de diversos deuses, o fervor é dividido; quando se dirige a um só, se concentra e se exaspera, terminando por se converter em agressividade, em . A energia já não é dispersa, ela é direcionada inteiramente em uma mesma direção. O que era notável no paganismo é que não se fazia uma distinção radical entre crer e não crer, ter ou não ter a fé. A fé, aliás, é uma invenção cristã; supõe um mesmo desequilíbrio no homem e em Deus, movidos por um diálogo tão dramático quanto delirante. De onde o caráter furibundo da nova religião. A antiga, muito mais humana, concedia a liberdade de escolher o deus que se quisesse; como não impunha nenhum, cabia a cada um inclinar-se a este ou aquele. Quanto mais caprichoso se era, mais se tinha a necessidade de trocá-los, de passar de um a outro, estando certo de poder amá-los todos ao longo de uma existência. De quebra, eram modestos, não exigiam senão o respeito: eram saudados, não se ajoelhava diante deles. Convinham idealmente àqueles cujas contradições não eram resolvidas, nem podiam sê-lo, ao espírito aturdido e inquieto: que sorte tinham, em seu desarranjo itinerante, de poder experimentá-los todos e estar quase seguros de topar precisamente com aquele de que tinha mais necessidade no momento! Após o triunfo do cristianismo, a liberdade de evoluir entre eles, e de escolher um à vontade, tornou-se inconcebível. Sua coabitação, sua admirável promiscuidade estava terminada. Teria tal esteta, cansado do paganismo, mas ainda não enojado dele, aderido à nova religião se tivesse adivinhado que ela se estenderia por tantos séculos? Teria ele trocado a fantasia própria ao regime dos ídolos intercambiáveis por um culto cujo deus desfrutaria de tão aterradora longevidade?

Aparentemente, o homem inventou deuses para si por necessidade de estar protegido, resguardado; na verdade, por avidez de sofrimento. Enquanto acreditava que havia uma multidão deles, outorgava-se certa liberdade de jogo, escapatórias; limitando-se em seguida a um só, infligir-se-ia um suplemento de entraves e de tormentos. Não passa de um animal que se ama e se odeia até o vício, que podia se oferecer o luxo de uma tão pesada servidão. Que crueldade contra nós mesmos, ligar-nos ao grande Espectro e atrelar nossa sorte à dele! O deus único torna a vida irrespirável.

O cristianismo se serviu do rigor jurídico dos romanos e da acrobacia filosófica dos gregos não para libertar o espírito, mas para aprisioná-lo. Aprisionando-o, ele o obrigou a se aprofundar, a descer em si mesmo. Os dogmas o aprisionam, fixam-lhe limites exteriores que ele não deve ultrapassar em hipótese alguma; ao mesmo tempo, deixam-no livre para percorrer seu universo próprio, para explorar suas próprias vertigens, e, escapando à tirania das certezas doutrinais, buscar o ser – ou seu equivalente negativo – ao ponto extremo de toda sensação. Aventura do espírito amarrado, o êxtase é necessariamente mais frequente numa religião autoritária que numa religião liberal; é que ele é um pulo na intimidade, o recurso às profundidades, a fuga em direção a si.

Sem ter tido, durante tanto tempo, nenhum outro refúgio além de Deus, nós mergulhamos tão fundo nele quanto em nós (esse mergulho representa a única proeza real que realizamos em dois mil anos), sondamos seus abismos e os nossos, arruinamos seus segredos um a um, extenuamos e comprometemos sua substância pela dupla agressão do saber e da prece. Os antigos não sobrecarregavam seus deuses; eles tinham elegância demais para assediá-los ou para fazer deles um objeto de estudo. Como a passagem funesta da mitologia à teologia não havia ainda sido realizada, ignoravam essa tensão perpétua, presente tanto nos acentos dos grandes místicos quanto nas banalidades do catecismo. Quando este mundo aqui embaixo e o impraticável são sinônimos, e nós sentimos desfazer-se fisicamente o contato que nos une a ele, o remédio não reside nem na fé nem na negação da fé (expressões, tanto uma quanto a outra, de uma mesma enfermidade), mas no diletantismo pagão, mais exatamente na ideia que nós nos fazemos dele.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

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