“Deixe-se estar com nada, uma não-prática” (Mooji)

 

Legendas em português

O pensamento é, ele também, preconceito e entrave. Só liberta no início, quando nos permite romper com certos apegos; depois, tudo o que ele consegue é absorver a nossa energia e paralisar as nossas veleidades de libertação. Que não possa nos ajudar de maneira nenhuma, isso é provado pela felicidade que sentimos quando o suspendemos. Como o desejo, ao qual se assemelha, ele ama manifestar-se, multiplicar-se; pode, na melhor das hipóteses, tender à verdade, mas o que o define é o alvoroço: nós pensamos pelo gosto do pensamento, como desejamos pelo gosto do desejo. Num e noutro caso, uma febre em meio a ficções, uma sobrecarga de trabalho no interior no não-saber. Aquele que sabe retorna de todas as fábulas engendradas pelo desejo e pelo pensamento, sai da corrente, já não consente com o engano. Pensar participa da inesgotável ilusão que procria e se devora, ávida de se perpetuar e de se destruir, pensar é competir com o delírio. Em tanta febre, a única coisa de sensato são as pausas em que respiramos, os momentos de parada quando nos damos conta do nosso ofego: a experiencia do vazio – que se confunde com a totalidade dessas pausas, desses intervalos do delírio – implica a supressão momentânea do desejo, pois é ele, o desejo, que nos submerge no não-saber, faz-nos divagar e nos estimula a projetar o ser por toda parte ao redor de nós.

O vazio nos permite arruinar a ideia de ser; mas ele mesmo não se deixa implicar nessa ruína; sobrevive a um ataque que seria destrutivo a qualquer outra ideia. É verdade que não se trata de uma ideia, mas do que nos ajuda a desfazer-nos de toda ideia. Cada ideia representa um vínculo a mais; é preciso desembaraçar o espírito delas, assim como é preciso desembaraçar-nos de toda crença, obstáculo à desistência. Só chegaremos a isso nos elevando acima das operações do pensamento: enquanto se exerce, enquanto faz estragos, o pensamento nos impede de aclarar as profundezas do vazio, perceptíveis somente quando diminui a febre do espírito e do desejo.

Sendo todas as nossas crenças intrinsecamente superficiais, não exercendo efeito senão sobre aparências, segue-se que umas e outras estão no mesmo nível, no mesmo grau de irrealidade. Somos constituídos para viver com elas, às quais estamos obrigados: formam os elementos da nossa maldição ordinária, cotidiana. Eis porque tão logo chegamos a desmascará-las e a varrê-las, nós adentramos o inaudito, numa dilatação ao lado da qual tudo parece pálido, episódico, inclusive aquela maldição. As nossas fronteiras recuam, se é que ainda as possuímos. O vazio – eu sem eu – é a liquidação da aventura do “eu”, é o ser sem nenhum traço de ser, um feliz afundamento, um desastre incomparável.

(O perigo é de converter o vazio em substituto do ser, desviando-o assim da sua função essencial, que é de perturbar o mecanismo do apego. Mas se ele mesmo se torna objeto de apego, não nos valeria mais ater-nos ao ser e ao cortejo de ilusões que o segue? Para vencermos os nossos pegos, nós devemos aprender a não aderir mais a nada, apenas ao nada da liberdade.)

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Atenhamo-nos ao concreto e ao vazio, prescrevamos tudo o que se coloca entre os dois: “cultura”, “civilização”, “progresso”, ruminemos a melhor fórmula que se encontrou aqui embaixo: o trabalho manual em um convento… Nenhuma verdade senão no esgotamento físico e na contemplação; o resto é acidental, inútil, malsão. A santidade consiste no exercício e na vacuidade, nos músculos e na meditação; em hipótese alguma no pensamento. Meditar é absorver-se em uma ideia e perder-se nela, enquanto que pensar é saltar de uma ideia a outra, comprazer-se na quantidade, acumular ninharias, perseguir conceito após conceito, meta após meta. Meditar e pensar são duas atividades divergentes, dir-se-ia incompatíveis.

Limitar-se ao vazio não é igualmente uma forma de busca? Sem dúvida, mas é perseguir a ausência de busca, visar a uma meta que descarta de início todas as outras. Nós vivemos na inquietude porque nenhuma meta saberia satisfazer-nos, porque sobre todos os nossos desejos e, com maior razão ainda, sobre o ser enquanto ser paira uma fatalidade que afeta forçosamente esses acidentes que são os indivíduos. Nada que se atualiza escapa ao declínio. O vazio – salto para fora dessa fatalidade – é, como todo produto do quietismo, de essência antitrágica. Graças a ele, deveríamos aprender a nos reencontrar remontando às nossas origens, à nossa eterna virtualidade. Não põe ele um fim a todos os nossos desejos? E estes, que são eles no seu conjunto, próximos a um instante em que não os perseguimos, em que não experimentamos nenhum deles! A felicidade não reside no desejo, mas na ausência de desejo, mais exatamente no entusiasmo por essa ausência – na qual se desejaria revolver, se abismar, desaparecer, exclamar

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Limpemos a consciência de tudo aquilo que ela engloba, de todos os universos que ela arrasta, purguemo-la e ao mesmo a percepção, confinemo-nos ao branco, esqueçamos todas as cores, salvo aquela que as nega. Que paz quando se anula a diversidade, quando se furta ao calvário do matiz e se precipita no unitário! A consciência como forma pura, e depois a ausência inclusive de consciência.

Para nos evadir do intolerável, busquemos um derivativo, uma fuga, uma região onde nenhuma sensação ousa assumir um nome, onde nenhum apetite ousa encarnar-se, recobremos o repouso inicial, façamos abolir, com o passado, a odiosa memória e sobretudo a consciência, nossa inimiga de sempre, e cuja missão é nos diminuir, nos desgastar. A inconsciência, ao contrário, é nutritiva, ela fortifica, faz-nos participar dos nossos começos, da nossa integridade primitiva, e nos faz mergulhar novamente no caos benfeitor anterior à ferida da individuação.

CIORAN, E. M., Le mauvais démiurge (1969)