“A liquidação tecnológica da palavra está em marcha”: Matéi Visniec no Brasil

Autor romeno naturalizado francês realizará palestras neste domingo em Porto Alegre dentro do 9º Festival de Inverno

Por Fábio Prikladnicki – Porto Alegre, Zero Hora, 27/07/2017

Se a tarefa de um dramaturgo é responder às grandes questões de seu tempo, o romeno naturalizado francês Matéi Visniec pode se dar por satisfeito. Sua mais recente peça publicada no Brasil, Migraaaantes, é inspirada na muito atual tragédia dos refugiados. Seus textos reescrevem a história e recuperam grandes personagens da cultura e da intelectualidade em uma chave não realista que muitos identificam com o teatro do absurdo. Visniec estará em Porto Alegre para realizar a palestra Teatro e Jornalismo: Tentativas de Compreender o Mundo, na qual abordará a relação entre sua vivência na imprensa e a criação teatral. Será neste domingo (30/7), às 15h, na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307), com entrada franca, dentro da programação do 9º Festival de Inverno, que vai até quarta-feira (veja detalhes no roteiro da página 8). Leia, a seguir, a entrevista concedida pelo autor a Zero Hora por e-mail.

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Migraaaantes trata de um tema bastante atual. Poderia comentar quais foram suas inspirações para escrevê-la? E você acredita que o dramaturgo tem o compromisso de abordar as grandes questões de seu tempo?
A Europa está sacudida neste momento pelo fenômeno da imigração. Trata-se de um movimento massivo de populações que batem às portas da Europa para escapar da guerra, dos massacres, das perseguições de todo tipo, do subdesenvolvimento, da miséria material (e por vezes cultural e sexual), da fome, das mudanças climáticas catastróficas. As migrações tornaram-se um fenômeno duradouro. Nada poderá parar essas milhões de pessoas em busca de dignidade e de uma vida melhor. Isso é fato, é uma constatação de todos os especialistas e da mídia. A questão agora está ligada às mudanças políticas, culturais, identitárias, sociais e de outras naturezas que esses movimentos vão gerar. O debate é rico, suscita polêmicas, engendra reações de fechamento e de medo. Uma coisa é certa: nada será como antes. As migrações são sinais de um mundo em mudança. Creio que o olhar do artista é importante na compreensão do que está ocorrendo. Todo mundo deve participar desse debate, deve esforçar-se para compreender o que está acontecendo à humanidade: os políticos, os sociólogos, os historiadores, os jornalistas, os especialistas em geopolítica, os pesquisadores, os cientistas, os climatólogos, os economistas. Nesse contexto de brainstorming, a voz dos artistas é importante, ela é mesmo peculiar. O teatro pode também participar desse debate, pois atrás do fenômeno das migrações se escondem dramas individuais e coletivos assustadores, tráficos de todos os tipos e redes de explorações infernais, escolhas políticas discutíveis do lado das grandes potências e formas de indiferença condenáveis… (leia a entrevista na íntegra aqui)

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Teatro: Mansarde à Paris (Papierthêatre)

Mise-en-scène da peça de Matéi Visniec (Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte) pela companhia francesa Papierthêatre.

Direção: Alain Lecucq

Resumo: Saindo da Editions Gallimard um dia, o filósofo Emil Cioran se dá conta de que esqueceu o caminho para sua casa. É o ponto de partida desta peça, que segua a errância de um grande filósofo romeno de expressão francesa a partir do momento em que ele começa a perder a memória. Durante vários dias, Emil Cioran perambula por Paris, vai à Gare de l’Est para esperar o Expresso Oriente, à prefeitura para que carimbem seu documento de apátrida, encontra diversos personagens insólitos como a Dama das migalhas ou o Cego do telescópio. Ele, o filósofo que cultivou sua lucidez e o niilismo, que demoliu em seus livros todas as ideias suscetíveis de salvar o Homem, ele, o teórico do suicídio como único horizonte que torna a vida suportável, se dirige em direção à morte aspirado pela perda de sua memória (do site da companhia)

Resenha do livro: “Quando a memória sai de cena”

“Uma homenagem subjetiva…” (Matéi Visniec)

Entrevista com Henrique Zanoni: “Música perfeita para o suicídio”, espetáculo teatral inspirado na obra de Cioran

Ao longo de mais uma madrugada insone, o jovem filósofo Emil Cioran embarca numa viagem vertiginosa, mas repleta de um humor ácido, se embrenhando por temas como a lucidez, o amor, a arte, a morte e a vida.

A peça “Música perfeita para o suicídio”, que integra o repertório teatral da Cia. dos Infames, criada a partir dos escritos de Cioran, entrou em cartaz no dia 24 de maio de 2016, no Teatro Cemitério de Automóveis, na capital paulista.

 

Contemplada no 2º Prêmio Zé Renato de Teatro da Secretária Municipal de Cultura, tem direção de Cristiano Burlan e atuação de Henrique Zanoni. Este é o segundo projeto da Cia. dos Infames – a estreia se deu com “A Vida dos Homens Infames”, baseada na obra de Michel Foucault. Jean-Claude Bernardet, crítico, professor e ator, faz uma participação especial em vídeos que interagem com o protagonista.

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Nesta entrevista, o ator, diretor e dramaturgo Henrique nos conta um pouco sobre o e sobre a trajetória que o levou à ideia de produzir um monólogo sobre o autor romeno. O potencial dramatúrgico de Cioran, a virtude catártica de sua obra, a infâmia como ética de vida, o humor e a poeticidade da prosa cioraniana como ingredientes de uma mise-en-scène explosiva , entre outros assuntos – eis o que o leitor encontrará a seguir. 

EMCioran/Br: Primeiramente, Henrique, muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Para começar, que tal se você se apresentasse, falando um pouco de sua formação e de sua carreira artística?

H.Z.: Em primeiro lugar, sou eu que gostaria de agradecer! O blog mantido por você foi uma das grandes fontes de pesquisa para o projeto! Então, registro aqui publicamente minha admiração por esse trabalho e a importância para a difusão e potencialização da obra de Cioran.
Em relação à minha formação, tenho um passado que condena – sou economista! Depois dessa fase vergonhosa, estudei e me formei como ator no INDAC. Lá se vão quase dez anos! Nesse período, trabalhei com algumas companhias de teatro, passando por textos clássicos como Shakespeare, Tchekhov, Arrabal, e também por autores brasileiros contemporâneos (Mario Bortolotto, Samir Yazbek, Marcos Barbosa).
Em 2012, me tornei sócio da produtora de cinema Bela Filmes, ao lado de Cristiano Burlan. Na produtora, realizamos inúmeros longas metragens (ficção e documentário), tais como “Sinfonia de um Homem Só”, “Amador”, “Mataram Meu Irmão”, “Hamlet”, “Em Busca de Borges”, entre outros. Trabalhei também com outros diretores, tais como Marcelo Caetano e Cláudio Gonçalves. Em 2015, dirigi meu primeiro curta-metragem, “Brutalidade”, que passou em alguns festivais nacionais (Juiz de Fora, Ouro Preto) e internacionais (Itália, México).
A partir dessa pesquisa que eu e o Cristiano desenvolvemos no cinema, decidimos, em 2013, fundar nossa Companhia de Teatro, a Cia dos Infames. Nosso primeiro projeto foi “A Vida dos Homens Infames”, baseado em dois diários resgatados por Michel Foucault – “Eu, Pierre Riviere, que degolei minha mãe, meu irmão e minha irmã…” e “Herculine Barbin: Diário de uma Hermafrodita”. A peça tinha direção do Cristiano Burlan e dramaturgia minha e da Marcela Vieira. Além da peça, que cumpriu 2 temporadas em São Paulo e rodou por alguns festivais nacionais, o projeto contou com o ciclo de debates “Por um Teatro Não-Fascista”, onde debatemos temas como escrita, atuação, encenação e crítica teatral, e contou com nomes como Luiz Fuganti, Roberto Alvim, Samir Yazbek, Salma Tannus, Maria Eugênia de Menezes, entre outros.
Bom, e chegamos agora com o projeto “Música Perfeita para o Suicídio”, que foi contemplado no 2o Edital Zé Renato de teatro da prefeitura de São Paulo.

EMCioran/Br: Como você chegou a Cioran, ou, pela perspectiva oposta, como Cioran chegou até você? Qual foi sua primeira leitura do autor e o que o atraiu a ele?

H.Z.: Há 3 anos atrás, o Cristiano me deu o livro “Breviário de Decomposição”. Confesso que não fui arrebatado de imediato pela obra, mas desde o início, o cinismo e humor de Cioran, aliado a sua escrita altamente poética e pessoal me pareceram um material muito interessante para trabalhar dramaturgicamente. Fui atrás das outras obras. Foi então que entrei em contato com “Nos Cumes do Desespero”. Quando li a abertura do livro (“Escrevi esse livro aos 22 anos de idade… se não o houvesse escrito com certeza teria posto fim às minhas noites”), fui imediatamente capturado. A partir daí, devorei todos os livros (em português) de Cioran e a leitura realmente teve um efeito devastador sobre minha visão e ética com a vida. Comecei a separar os temas que me interessavam, as mudanças e contradições ao longo de sua obra, as histórias que contava, etc.. De certa maneira, encaro sua obra sob uma certa perspectiva trágica: fico sempre imaginando o que esse franco-romeno teve que passar para produzir sua obra, o que ele se dispôs a enfrentar, uma lucidez e consciência ininterruptas, e, ao dar forma a esses pensamentos duros e difíceis, quando lemos, sentimos uma certa catarse, pois todos sentimos aquilo, mas nos falta coragem para enfrentar as questões de frente; mas através da leitura, da expressão, a vida torna-se um pouco menos insuportável.

EMCioran/Br: Você acaba de estrear um monólogo inspirado na obra de Cioran, e intitulado “Música perfeita para o suicídio”. Anteriormente, você havia produzido outra peça, inspirada na obra de Foucault. O que o levou a escolher estes dois autores? Como surgiu a ideia de dramatizar a obra de Cioran, que, diferentemente de outros pensadores do mesmo contexto histórico-cultural (vêm a mente Sartre, Camus e Beckett, entre tantos outros), nunca se arriscou a produzir para o teatro? Enfim, que tipo de apelo dramatúrgico você enxerga na obra de Cioran? Aliás, não é a primeira vez que a obra do autor do Breviário de decomposição é adaptada ao teatro, no Brasil ou em outros países, como a França…

H.Z.: O que, talvez, me interessa nas obras de Foucault e Cioran é uma certa infâmia com a vida, com os temas escolhidos e a própria escrita que produziram (as escolhas artísticas não são exatamente planejadas e conscientes; por vezes tomamos contato com obras que nos arrebatam e você simplesmente não consegue se livrar delas; talvez as peças sirvam a esse propósito de libertação). A nossa companhia de teatro tem esse interesse, de lidar com autores infames, de unir o pensamento com a encenação, unir ética e estética. Mas também estamos interessados agora em autores brasileiros contemporâneos.
Devo dizer que o humor de Cioran foi o que me arrebatou profundamente. Ainda que um sorriso estranho, desconfortável (a imagem da hiena, tão cara a ele, me vem a mente de imediato) sempre que penso em Cioran, quase não consigo parar de rir! Além disso, a própria escritura/estilística de Cioran me estimulava muito: capaz de criar imagens que flertam com uma certa “paixão do absurdo”, de uma poética fabulosa e intrincada, e, principalmente por escrever tudo em primeira pessoa! Como ele mesmo diz, “tudo o que escrevi, é inseparável do que vivi. Não inventei nada, fui apenas o secretário de minhas sensações”. Juntando todos esses elementos – escritura profundamente pessoal, altamente poética e imagética e dotada de humor pra lá de instigante – me pareceram ingredientes com um potencial dramatúrgico muito rico e explosivo.
Mas a grande dificuldade foi: o que o teatro, e somente o teatro, pode trazer para a obra de Cioran? Caso contrário, acho muito mais interessante ler os livros! Além disso, o tempo todo, queria fugir de dois problemas que enxergo numa leitura superficial de Cioran: como não “construir” um personagem que fosse uma caricatura de um louco (o que Cioran definitivamente não era) e como não fazer uma “palestra” sobre seus escritos. E sempre achei que o humor/cinismo de Cioran deveria dar o tom da peça (como não cair num “stand-up comedy” banalizado e boçal era outro desafio). Finalmente, tanto os temas como a própria escrita de Cioran são muito complexos, quase labirínticos, então o desafio seria como “incluir” (no bom sentido) o público nessa viagem do pensamento. Se o teatro é ação, como fazer do pensamento, ação? Enfim, foram 3 anos de um longo, difícil e prazeroso caminho para chegarmos aqui.

EMCioran/Br: Por que o título “Música perfeita para o suicídio”?

H.Z.: Nomear as obras é sempre uma grande luta! E nomear uma obra baseada em Cioran, mestre nos títulos, trouxeram ainda mais dificuldade para isso!
Em termos mais concretos, posso citar alguns, digamos, disparadores (não há nenhuma “hierarquia” aqui): a música tem uma importância muito grande para Cioran e também para mim (cada trabalho que faço, utilizo um conjunto de músicas para estimular a criação). Além disso, a música tem um poder muito forte para mim e o Cristiano em termos de encenação. Teve também o fato de entrar em contato com a música “Domingo Sombrio”, de Rezso Seres (que ficou conhecida como música húngara do suicídio), que acho que dialoga muito com a obra cioraniana. Por fim, tanto na dramaturgia como interpretação e encenação, buscamos transformar os escritos em música; uma música feita de palavras, de entonações, pausas, velocidades, que fosse perfeita para o suicídio; transformar o “falar” do ator numa partitura musical. Em suma, tentar dar conta do que considero talvez o mais importante para uma obra de arte: a criação de uma atmosfera.

EMCioran/Br: Como alguém dedicado às artes cênicas e à dramaturgia, você encontra alguma dificuldade especial em adaptar a obra de um autor como Cioran para o teatro, algum desafio específico em se tratando de uma discursividade tão complexa como a do autor do Breviário, tão fragmentária e assistemática como a dele?

H.Z.: Cada vez mais tenho a percepção de que mais importante para o artista é saber o que não queremos! Então, desde o início não queria transformar Cioran num louco vulgar e também não queria fazer uma palestra a partir dos escritos de Cioran. Queria também incluir o humor cioraniano, sem simplificar suas ideias, sem fazer algo mastigado e bobinho para a plateia (acredito piamente que os espectadores, quando criadas as condições, topam a viagem teatral e embarcam junto com você). O desafio era fazer uma biografia de Cioran, mas não uma biografia “histórica”, e sim uma biografia através de seu pensamento (que, no fim das contas, é o que interessa). Então, precisava de certa maneira unir o subtexto do ator com o subtexto do pensamento de Cioran. Enfim, todo o trabalho talvez tenha sido deixar me permear pelo pensamento de Cioran, sentir esse pensamento na minha pele, transformar esse pensamento em ação.

EMCioran/Br: Um livro favorito de Cioran? Algum aforismo, ou alguns?

H.Z.: Difícil…. muito difícil… Vou citar apenas o que talvez tenha sido o livro mais importante para a escritura da peça (e que inclusive o próprio Cioran disse que todos seus temas estão ali, somente foram retrabalhados nos livros posteriores): “Nos Cumes do Desespero”.
E, mais difícil que um livro, talvez seja um aforismo. Vou escolher um em função do próprio ofício do ator. Ainda que essencialmente coletivo, existe uma solidão essencial do trabalho de criação: “É na solidão que as lágrimas são ardentes”.

EMCioran/Br: Há um teaser da peça que, aliás, acompanha esta entrevista. Para além dele, o que você poderia adiantar a respeito da peça, sem estragar a surpresa? É para deixar os leitores do portal, e potencial público do espetáculo, ainda mais instigado para vê-lo…

H.Z.: Qualquer coisa que eu diga, será diferente da experiência que buscamos criar com a peça. Então, a única coisa que diria: VENHAM VER A PEÇA! São 50 minutos viajando pelos pensamentos (e atmosfera) de Cioran!
Antes de ser uma palestra pedante sobre como lidar com sua vida, embarcamos numa viagem vertiginosa por temas difíceis e delicados, mas dotados de um humor e um cinismo ímpar, contagiantes! (“se fosse eleito Deus, imediatamente pediria demissão”; ou “durante todo minha vida nutri a pretensão extraordinária de ser o homem mais lúcido que já existiu. Cada um com sua loucura; a minha foi me julgar normal”; ou “um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática; é melhor que ir no médico”). Enfim… venham!

EMCioran/Br: Para terminar, deixo com você as últimas palavras: gostaria de dizer algo mais, sobre Cioran, sobre o teatro, sobre sua peça inspirada em Cioran?

H.Z.: Já falei muito! Hehe… Mas gostaria novamente de agradecer imensamente a você (e seu blog!). Devo agradecer também a Fernando Klabin, Flamarion Caldeira Ramos e José Thomaz Brum. Vocês são os verdadeiros multiplicadores desse kamikaze chamado Cioran. E para os leitores, diria: o teatro é por definição efêmero. Então, venham experienciar essa atmosfera cioraniana materializada na cena.

EMCioran/Br: Caro Henrique, muito obrigado, uma vez mais, pela entrevista. Sinto-me tentado a desejar o seguinte para você e todos os envolvidos no espetáculo que você protagoniza: “Merda!”, o que vem a ser ainda mais oportuno em se tratando de uma peça sobre Cioran…

SERVIÇO

“Música perfeita para o suicídio”, espetáculo teatral

Local: Cemitério de Automóveis – Rua Frei Caneca, 384 – São Paulo.
Classificação etária: 14 anos

Duração: 60 minutos*
(*todas as quintas haverá debates após a apresentação)

Datas e horários: somente às quintas, às 22h, dias 26 de maio, 02, 09 e 16 de junho.

PROGRAMAÇÃO DEBATES

(Mediação: Fábio Zanoni)

26 de maio – Cioran no Século XXI: Nos Cumes do Desespero
Fernando Klabin e Marcelo Mirisola

02 de junho – Escrita: Solidão e Êxtase
Dione Carlos e Rodrigo Menezes

09 de junho – O Ator e a Lucidez
Chico Carvalho e Flamarion Caldeira Ramos

16 de junho – O que Resta ao Teatro?
Mario Bortolotto e convidado à confirmar

Realização:
Prefeitura de Ṣo Paulo РPr̻mio Z̩ Renato

Produção:
Bela Filmes & Cia. dos Infames

VENDA ON-LINE (Ingresse.com)
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Euler Santi assina o texto, dirige e atua em ‘Palestra sobre o Nada’

O monólogo se propõe a desconstruir valores e conceitos vigentes

Por Globo Teatro

Publicado originalmente em 23/04/2013

No tempo das palestras motivacionais, o ator e diretor Euler Santi decide falar sobre o nada. Inspirado na obra de um dos maiores pensadores do século XX, o franco-romeno Emil Michel Cioran, ele promove uma quebra de valores estabelecidos na sociedade e tenta mostrar que o homem vive inserido em uma dormência intelectual, resultado de uma visão antropocêntrica. Este é o mote do espetáculo “Palestra Sobre Nada”.

Cioran nasceu na Transilvânia, mas foi em Paris que escreveu a maior parte de suas obras. Pouco conhecido no Brasil, é integrante de um grupo de autores tachados de malditos, como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e o brasileiro Augusto dos Anjos. Em seus textos, buscava lidar com um lado humano mais oculto, o que chocava a comunidade.

– Na verdade, Cioran se considerava um “anti-filósofo”, pois depois de toda a reflexão feita, ele não conseguiu achar sentido em nada. Ele viu que tudo era uma mentira, uma ilusão humana. É a partir daí que nasce a obra dele, na qual ele desconstrói todos os nossos valores. Segundo ele, nossos conceitos vêm de uma visão antropocêntrica, que coloca o homem como centro do mundo. Então ele mostra que é por causa disso que nos enganamos o tempo todo, pois não enxergamos a realidade como ela realmente é – explica Euler Santi, que se baseou em seis livros da obra de Cioran para montar o roteiro do espetáculo.

Durante o espetáculo, Santi assume o papel de Cioran e promove uma espécie de palestra para a plateia. O monólogo é pontuado por algumas inserções cênicas que representam o interior da mente do pensador, representadas em cena pelos atores Leonni Moreno, Mislene Abreu e Michele Costela.

– É como se fosse uma palestra “desmotivacional” – diverte-se. – É ele destruindo as pessoas e tudo o que elas acreditam. Isso faz com que o público saia do teatro muito chocado. As verdades e os valores estabelecidos são quebrados e apontados como ilusão. Por isso é uma palestra sobre nada. Ao entenderem as reflexões de Cioran, as pessoas se conscientizam sobre a sua própria insignificância.

É essa acidez presente no texto que leva o leitor a uma reflexão sobre a atualidade. Após tanto tempo imerso na obra de Cioran, Euler explica que isso mudou a sua forma de ver as coisas. E diz que a mesma coisa acontece com todos que assistem ao espetáculo:

– A minha vida mudou. É impossível passar pela obra de Cioran de maneira impune. É algo muito contundente e isso mexe muito com você. É difícil argumentar com o que ele diz, pois todas as suas reflexões tem um embasamento profundo. Isso tem tudo a ver com a época em que vivemos, na medida em que tudo já foi experimentado e estamos vivendo um fracasso geral. Então, se chocar com esse pensamento significa ser atingido por ele e, consequentemente, modificado. É o que ocorre com todos que assistem à peça. O público sai do teatro e se pergunta: “Quem sou eu?” – conclui Santi.

“Palestra sobre nada” + História da Romênia na PUC-SP

"Palestra sobre nada", de Euler Santi
“Palestra sobre nada”, de Euler Santi

No dia 25 de outubro de 2013, foi realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) um evento consistindo na apresentação do monólogo “Palestra sobre nada” de Euler Santi e numa conversa informal com Fernando Klabin (tradutor do romeno, tendo sido o responsável pela publicação, no Brasil, de autores romenos como Emil Cioran, Mircea Eliade, Constantin Noica, Nicolae Steinhardt, entre outros) sobre a Romênia: sua história, cultura, língua.

100_1900A apresentação teatral sobre Cioran se destacou, desta vez, por ser feita especialmente para um público acadêmico (estudantes de Filosofia e outras áreas), dentro de um espaço acadêmico, levando a filosofia marginal de Cioran para dentro da universidade. Como não poderia deixar de ser, cada membro do público reage à sua maneira, porém, é impossível que fiquem indiferentes.

Após o espetáculo, teve-se a oportunidade de aprender um pouco sobre a história da Romênia, sua cultura, sua língua, etc. Fernando Klabin, que morou em Bucareste há mais de 10 anos, tendo traduzido de lá para cá importantes nomes da cultura romena (dentre eles, o próprio Cioran, com seu primeiro livro em romeno, Nos Cumes do Desespero). Euler Santi, o ator que interpreta Cioran, também esteve presente para participar da conversa e responder perguntas sobre o espetáculo.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Fernando Klabin falou sobre a configuração geopolítica da Romênia, a especificidade geográfica e cultural da região da Transilvânia, em que Cioran nasceu, em relação aos outros grandes territórios que compõe o espaço nacional da Romênia, a Valáquia e a Moldávia. Sua proximidade com a Europa central e sua inserção no espectro de domínio do Império Austro-Húngaro, que fez com que o transilvano tivesse uma formação mais européia do que os outros romenos. Explicou a origem da expressão popular romena “cabeça baixa, espada não corta” (Capul plecat sabia nu-l taie) na estratégia de sobrevivência face às sucessivas invasões de outros povos, bárbaros ou não, que consistia em certo “jogo de cintura”, e uma perspicácia psicológica, para lidar com os inimigos, sobretudo os turcos (de onde a alusão à espada), e conseguir reduzir os danos causados por suas investidas. É notável que, muito embora tenha sofrido a invasão otomana, a Romênia, diferentemente da Hungria, pôde manter intacta sua religião, o cristianismo ortodoxo, sem proibição de culto, fechamento de igrejas, perseguição religiosa, tanto que é que os otomanos não estabeleceram nenhuma mesquita em território romeno.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Euler Santi respondeu a perguntas sobre a peça e pôde falar sobre o processo de criação da mesma, suas motivações artísticas, as influências adjacentes que compõe, além de Cioran, o seu horizonte referencial em termos de arte e pensamento: Jacques Rigaut, Samuel Beckett, Os Dadaístas… Enfim, as pessoas presentes tiveram a oportunidade de assistir a uma apresentação especial, ironicamente instalada no interior de uma instituição que Cioran tanto desprezava como sendo “a morte do espírito” (Entrevistas), da “Palestra sobre nada” dedicada a Emil Cioran, que é incorporado com naturalidade e verossimilhança, profundidade e intensidade, por Euler Santi. Uma palestra de tirar o fôlego e que “abre sob nossos olhos”, como diz Jacques Lacarrière sobre Cioran, “os apocalipses e abismos do ser” (apud BRUM, José Thomas, prefácio ao Breviário de Decomposição). Também tiveram a chance de conhecer um pouco mais sobre este obscuro pensador e o seu país, que ainda têm muito a ser conhecidos pelo público brasileiro. Por fim, houve o sorteio de livros de autores romenos publicados pela É Realizações, como Matéi Visniéc (“Desvãos Cioran”), Nicolae Steinhardt (“O Diário da Felicidade”), Constantin Noica (“Diário Filosófico”) e Lucian Blaga (“A Barca de Caronte”).

Rodrigo Menezes, 27/10/2013

Quando a memória sai de cena: Cioran por Matéi Visniec

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Resenha:
Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte (de Matéi Visniec, É Realizações, 2012)

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

Um passeio por Cioran

Diz-se que certo dia, no início da década de 90, Cioran saiu da editora Gallimard e, pretendendo voltar parar casa, se esqueceu de onde morava. Era o Alzheimer que chegava para precipitar seu crepúsculo em direção ao fim – ele morreria meia década mais tarde, num hospital em Paris. Eis o ponto de partida de Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte, peça teatral escrita por Matéi Visniec, dramaturgo romeno nascido em 1956 e exilado em Paris em 1987, onde vive até hoje.

Desvãos… é uma “homenagem subjetiva” a este pensador da dúvida e do desengano conhecido por seu pessimismo corrosivo e por sua ironia implacável. Marcado por uma atmosfera onírica que beira o surreal, a peça é um conjunto de cenas-fragmentos que passeiam através de momentos e situações entre a vida parisiense de Cioran e seus anos iniciais na Romênia. Dos personagens aos lugares emblemáticos em que se passam as situações, a estória é perpassada de elementos simbólicos cuja função é colocar em cena diversos aspectos do pensamento e da vida do nosso protagonista. O espaço exterior, no qual se desenrolam os acontecimentos (os encontros, os desencontros, as caminhadas, os devaneios), parece ser uma figuração concreta do universo simbólico de Cioran, um mundo labiríntico onde coabitam memórias do passado, fantasmas do presente e diversos elementos que tecem a relação entre a trajetória biográfica do autor e o seu pensamento.

Em busca da memória perdida

Na primeira cena, um Cioran perdido, com sintomas de senilidade já avançada, pede informações a um cego com um telescópio no meio de uma praça em Paris: o romeno se esforça para se lembrar do local e do horário exatos em que deve encontrar Ionesco e Eliade, com os quais será fotografado (trata-se de uma foto famosa, em preto e branco, em que os três aparecem, de pé, conversando). A impressão é de que, nos diálogos com este e outros personagens (há um segundo cego), o romeno está o tempo todo dialogando consigo mesmo, como se locutor e interlocutores fossem as personificações das diversas vozes que compõem a polifonia do pensamento cioraniano. Digno de nota é o personagem da “mulher que faz migalhas”: recurso poético com o objetivo de dar corpo à memória do protagonista, com a qual ele conversa enquanto ela alimenta os pombos no Jardim do Luxemburgo. A projeção exterior da memória como forma de simbolizar a perda progressiva da mesma, até que ela o abandone por completo para tornar-se uma completa estranha. “Está claro, minha memória, que começo a me perder da senhora… mas o estranho é que é na desordem que essa perda se dá. E esse jardim, lhe agrada? […] (Enquanto continuam a falar sem se mexer, as duas personagens começam a se afundar devagarzinho na terra. É como se estivessem sendo engolidas, de uma maneira extremamente lenta, por uma areia movediça.)”

Em outra cena, Cioran irrompe – perdido, como sempre – numa sala da Sorbonne onde um professor de filosofia cego está dando uma aula sobre ele.  “(A porta se abre. Um vento forte invade a cena e derruba uma cadeira; dezenas de páginas voam no ar. Humilde, olhar vago, Cioran entra) – Bom dia, desculpe, não quero incomodar… Procuro o restaurante, o restaurante universitário…”, o mesmo onde ele comeria de graça até os quarenta anos quando belo dia um funcionário poria fim a sua mordomia. Ao final da aula, em que é feito um resumo inspirado, mas não pouco caricatural, do pensamento de Cioran, o professor cego saca um revólver e mira contra a própria cabeça. Crítica ou ironia direcionada a um pensador que, com frequência, é acusado de ser um niilista suicida? Fica em aberto a questão.

Sempre se mata cedo ou tarde demais

A propósito, o tema do suicídio, questão central do pensamento cioraniano, entra no enredo por meio de um jovem que invade, no meio da noite, o quarto de Cioran, em sua mansarda na Rue l’Odeon, para pedir-lhe autorização para se matar. Uma alusão aos leitores que lhe escreviam para agradecer pelo fato de que seus livros lhes deram força para atravessar momentos de extremo sofrimento, muitas vezes dissuadindo-os, por um aparente paradoxo, de consumar o ato capital, quando a isto estavam pré-dispostos. Aplicando sua psicologia do desengano no caso do jovem suicida, o Cioran da peça nos faz lembrar de um aforismo dos Silogismos da amargura: “Só se suicidam os otimistas. Os pessimistas, não tendo razões para viver, por que as teria para morrer?” Partindo da premissa de que pessimismo e lucidez andam juntos, Cioran descobre que trata-se de um jovem (estudante de Letras) cujo otimismo perante a vida fora abalado por alguma amarga decepção. E recusa-lhe a autorização para o derradeiro ato: “Você não é lúcido o suficiente para morrer”, diz ele ao rapaz, que responde:

Senhor Cioran, lúcido ou não, exijo que o senhor me dê permissão para eu me suicidar. Li todos os seus livros. Sei todos de cor, estudei durante dez anos o seu pensamento, fiz um doutorado sobre o senhor. E agora, acabou, exijo do senhor um último gesto. Mê dê permissão para eu me suicidar!

Uma paixão impossível

É no escritório aonde vai para renovar sua papelada de estrangeiro que Cioran encontra novamente a “mulher das migalhas”, desta vez interpretando a balconista do serviço de imigração. Visniec aí faz o romeno confessar sua paixão secreta por Friedgard Thoma, alemã que ele teria conhecido através de correspondências, e com a qual teria supostamente vivido um amor platônico. Tema delicado, uma vez que o romeno sempre se recusou a falar de sua vida conjugal. A confissão é singela, beirando o patético:

A senhora sabe que estou apaixonado? Apaixonado há dez anos? Apaixonado por uma alemã que vi na Alemanha? E que telefono para ela todos os dias, escondido, de uma cabine telefônica? Que eu sofro como o mais puro dos adolescentes cheio de espinhas na cara? […] Apaixonar-se na minha idade… Ter fantasias eróticas, na minha idade… Hoje de manhã, quis telefonar, mas me dei conta de que tinha esquecido seu nome… E, no entanto, eu a amo… eu a amo… […] Mas ela me magoou… A senhora sabe o que ela me disse, numa carta, há dez anos? Ela me disse que nossa relação não poderia ser de ordem física

O mesmo escritório do serviço a estrangeiros torna-se um tribunal digno de um romance kafkiano, onde o nosso personagem se depara com um verdadeiro julgamento sobre seu passado. Para sua surpresa, o chefe do serviço a estrangeiros apresenta-lhe um dossiê contendo todos os comentários depreciativos que fizera, quando jovem, sobre seu próprio povo e país. Acusado de “traidor da pátria” e daí para baixo, o romeno é intimado a prestar contas de tudo o que dissera e escrevera no passado.

Cioran passou seus últimos dias na ala geriátrica do hospital Broca, em Paris. Ali ele faleceria em 20 de junho de 1995, tendo perdido completamente a memória e a consciência de si. Mas antes de desaparecer para sempre no esquecimento, ele ainda resgata algumas memórias que, por aquilo que possuem de original (no sentido da origem), não poderiam deixar de figurar também como destino, como o ponto final de uma existência tão empenhada em romper com suas origens, mas que acabou a elas retornando (e ficando mais preso ainda) ao cabo de toda uma vida.

Quanto a isso, Ion Vartic, em seu Cioran, naif și sentimental, diz que o pensamento de Cioran se caracteriza por uma espécie de “metafísica da regressão” que apontaria para o passado (para a beatitude pré-consciente da vida primitiva, anterior à corrupção), e não para o futuro, como telos por excelência do ser temporal e finito que é o homem.

Regressões

Em seu esforço para não desaparecer, a memória refaz seu trajeto de vida do presente ao passado. O déjà-vu dá o tom das cenas, em que os mesmos personagens reaparecem interpretando diferentes pessoas que Cioran conheceu e com as quais conviveu ao longo da vida. Dentre elas, como não poderia deixar de ser, Simone Boué, a professora de liceu que lhe faria companhia até o fim de sua vida. A cena em que os dois se encontram talvez seja a mais comovente de toda a peça: o velho Cioran cruza, enquanto caminha pela praia de Dieppe (onde costumava passar o verão com Simone), com uma jovem desconhecida saída do mar. Ele pergunta: “Menina, me diga a verdade… Você faz parte de minha memória fragmentada? É o mar que brinca com minha memória e que me remete a alguns vislumbres do passado?” Antes de voltar para o mar, a jovem beija-o na boca e diz: “Vivemos cinquenta anos juntos. E, nas suas cadernetas, meu nome não aparece nem mesmo uma só vez.”

Viajamos no tempo e no espaço em direção a Sibiu, segunda cidade em que viveu Cioran, e onde ele começou a sofrer o grande drama de sua vida: a insônia. O velho Cioran, cada vez mais próximo do completo esquecimento, visita a si mesmo enquanto ainda é um jovem estudante de filosofia e um intelectual apaixonado, exaltado, cheio de aspirações. Ao mesmo tempo em que o autor já conhecido, na França e fora dela, por livros como Écartèlement (“Esquartejamento”) e Exercícios de admiração, regressa à sua juventude, é como se descobrisse, por detrás da névoa do esquecimento cada vez mais espessa, a presença indelével do jovem Emil Cioran sempre presente, até o final de sua vida. Todo um conflito que atravessa a trajetória biográfica do escritor romeno, marcando-a com uma ruptura radical simbolizada pelo exílio em Paris e pela adoção do francês como língua de expressão, é aqui representado de modo especialmente dramático, a ideia da divisão sendo reforçada pelo encontro cara a cara, e pelo acerto de contas, entre um jovem e um velho Cioran.

De Sibiu a Rasinari, seu vilarejo natal: eis o ponto final da estória, no qual se despede de nós a memória de Cioran. Chegado no seu destino de origem, Cioran se dá conta de que viveu quase sua vida inteira sem uma sombra. No rodapé das colinas de Coasta Boacii, onde nascera e vivera os primeiros anos de sua vida, ele reencontra seu “paraíso terrestre” da infância. Sua avó o espera de braços abertos (ela, que fora a única adulta responsável por Emil e seus irmãos, enquanto seus pais haviam sido deportados durante a I Guerra). O velho Cioran pergunta à avó, que é ao mesmo tempo uma carpideira, por quem ela chora. Ela chora por um senhor que morreu no estrangeiro.

A julgar por um pensador que, arrogando-se uma lucidez desesperada, sempre exaltou a inconsciência como o paraíso, a salvação (“a consciência é um exílio; a inconsciência, uma pátria”), não deixa de ser pertinente perguntar-se sobre a relação entre a morte de Cioran (suas causas e circunstâncias) e o modo como a questão da morte foi por ele tratada em seus escritos. Segundo Gabriel Liiceanu, a questão pressupõe que “entre o exercício do pensamento da morte e a morte em si mesma estabelecer-se-ia um vínculo, e que a morte deveria levar a marca da forma com que ele não cessou de falar dela.” (Itinéraires d’une vie: E.M. Cioran).

Cioran não poderia ter tido uma morte mais coerente com seu pensamento sobre a morte. Para o homem, animal angustiado com o absurdo da existência, atormentado pelo fundo irracional da vida e pelo nada que a habita, a memória, a consciência, o espírito, tudo isso é um fardo, potências antagônicas à vida mesma. Só os animais e as plantas conhecem o repouso, só eles estão à salvos do tremor do ser que se descobre sendo em direção ao nada. Àquele que sempre amaldiçoou a consciência, foi reservada uma morte inconsciente, esquecida. Sua tão estimada lucidez há tempos lhe havia abandonado quando ele finalmente se dissipou, demente, com o suspiro do esquecimento final. Bênção ou castigo? Não sabemos e provavelmente nem Cioran pôde ter esta certeza. Sua morte foi o único acontecimento importante em que não lhe fora possível ser o espectador de si mesmo. O exilado metafisico reencontrou enfim sua pátria.

Uma aula de Cioran: Palestra sobre nada, por Euler Santi

Palestra sobre Nada
Palestra sobre Nada

Entro no espetáculo. Uma sala escura. Uma Tocata de Bach tocando ao fundo. No palco, uma mesa e uma cadeira apenas. Cioran está sentado, com expressão consternada, olhando para o chão, certo ar de gravidade. Junto com o público, entro e sento numa das poucas cadeiras dispostas no hall de entrada da Casa das Rosas.  Cioran (que ainda fumava) pega um cigarro no maço em cima da mesa, mas não o acende. Levanta a cabeça, encarando o público. Vai começar uma palestra sobre nada (ou seria sobre o Nada?).

Enquanto leitor e estudioso da obra de Emil Cioran, fui assistir à peça concebida e encenada por Euler Santi com a expectativa nas nuvens. E não me decepcionei, muito pelo contrário. Para quem não conhece Cioran, uma excelente introdução ao pensador romeno. Para quem já o conhece, uma oportunidade única de ver Cioran interpretado por um talentoso ator.

Tarefa ousada e difícil, ao que me parece, realizar um monólogo baseado na obra deste pessimista jovial de modo que se transporte para o palco o tom, o timbre próprio do pensamento de Cioran, impactando o espectador do começo ao fim com suas sinfonias apocalípticas. Durante o espetáculo, não pude evitar a tentação de olhar para os lados para ver as expressões e as reações das pessoas a cada impropério, a cada blasfêmia, a cada invectiva contra Deus e o mundo, o Ser e o Nada, o homem e a história. Seus olhos pregados em Cioran, rostos abismados, perplexos, corpos tensos, nervosos.

O pessimismo corrosivo dá o tom do monólogo de um Cioran que parece se levar muito a sério, e que parece dar muito crédito às próprias ideias, o que talvez deixe escapar o lado cômico, frívolo, diletante do romeno, aspecto que, em todo caso, é muitas vezes difícil de ser apreendido mesmo nos escritos de Cioran. Os desavisados podem pensar que Cioran nunca ria. Ou talvez seja uma expectativa subjetiva da minha parte. Mesmo assim, inevitável ouvir risadas na plateia após um ou outro aforismo bombástico, transformado em comentário no meio do discurso.

Só a musica nunca é posta em dúvida, e em especial a de Bach. Ao término da trilha sonora inicial, Cioran começa: “Eu tive algumas paixões durante minha vida, mas de todas, a única que nunca diminuiu foi a minha paixão em relação ao compositor Bach. Sem Bach a teologia seria completamente desprovida de sentido e o nada seria decisivo; por isso eu acho que se alguém deve tudo a Bach, esse alguém é… Deus.”  Euler foi capaz de montar um texto com aforismos de Cioran e trechos de seus ensaios, como História e utopia, de modo que o classicismo da escrita cioraniana não soa artificial ou pedante no registro oral das artes cênicas; muito pelo contrário, o texto-base que estrutura a palestra é articulado por Euler de modo que se mostra dotado de uma espontaneidade, de uma organicidade admiráveis, como uma fala que poderia ter sido do próprio Cioran, externando seus pensamentos.

Enfim, Palestra sobre Nada, de Euler Santi, é uma excelente introdução aos textos de Cioran para os que ainda não o conhecem, e uma experiência cênica singular, pois perturbadora, que tem o mérito de Euler ter traduzido para a linguagem própria do teatro (no caso, um monólogo) passagens emblemáticas da obra de Cioran. Aliás, nenhuma palestra mais difícil do que Palestra sobre Nada, mas isso porque trata-se, antes de tudo, de uma obra difícil. Como deveria ser. Na atuação de Euler, Cioran convence.

Rodrigo Menezes, 07/02/2013