“O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard”, por Wilson Ferreira

Revista Fórum, 1º de outubro de 2011

Falecido em 2007 aos 77 anos, intelectual iconoclasta e provocador, influenciou o cinema (homenageado no filme “Matrix” na sequência do livro oco cuja capa é o título de uma obra de Baudrillard), televisão, web art e duas gerações na sociologia. Mas, o que é pouco conhecida, é a matriz gnóstica do pensamento no qual se baseia suas obras das três últimas décadas. Para ele a realidade do mundo fora seduzida pelo Mal e acreditava na impossibilidade do conhecimento através de algum princípio racional ou materialista.

Sempre o pensamento de Baudrillard esteve associado a uma crítica materialista da sociedade de consumo e da cultura midiática. Se nos primeiros livros encontramos um pesquisador sóbrio e cuidadoso com os conceitos envolvidos nos estudos sobre signos e a semiologia, nas três últimas décadas encontramos livros de um pensador com insólitos paradoxos, provocações, aforismas hiperbólicos, paroxismos.

De repente Baudrillard parece ter sido tomado por um “terrorismo metafísico”:“Para mim a realidade do mundo foi seduzida, e isso é o que é fundamentalmente maniqueísta em meu trabalho. Tal como os Maniqueos, não acredito na possibilidade de conhecer o mundo através de algum princípio racional ou materialista  – daí a diferença entre o meu trabalho e o processo de evocar a dúvida radical em Descartes”.

Desde a década de 1980 Baudrillard empreendeu uma rigorosa demolição, através de um ceticismo radical, de todo e qualquer referencial empírico ou real seja no pensamento científico ou na própria sociedade: a Economia se converte em ritual Potlach; a escala de necessidades humanas que justificaria a sociedade de consumo jamais existiu; Guerra do Golfo ou o atentado aéreo ao WTC em 11 de setembro de 2001 foi um “não-acontecimento”, simulacro midiático; o real foi assassinado através de um “crime perfeito”: a hegemonia do imaginário da presunção da catástrofe, mais mobilizador do que o imaginário do progresso.

Baudrillard viu por todos os lados a “sedução da realidade do mundo” pelo Mal. É evidente nessa lógica a influência do pensamento gnóstico, principalmente de Mani como demonstra essa outra declaração: “O mundo não é dialético, ele tende para extremos, não para equilíbrio, tende para o antagonismo radical. Esse é também o princípio do Mal”… [+]