PECORARO, Rossano

Cioran, a filosofia em chamas

de Rossano Pecoraro (Edipucrs, Porto Alegre, 2004)

O pensamento de Emil Cioran, escritor e filósofo romeno nascido na Transilvânia em 1911, radicado na França desde 1947 e falecido em 1995, influenciado por Schopenhauer, Kierkegaard, Bergson, Nietzsche, Simmel, Heidegger, e pelos representantes do Expressionismo alemão, permanece largamente desconhecido no Brasil. E, não obstante, trata-se de uma das mais vigorosas construções intelectuais do século XX. Cioran repassa e avalia de modo extremamente original, em seus muitos livros, de títulos tão sugestivos como O livro dos logros, Nos cumes do desespero – sua obra fulcral – O crepúsculo do pensamento, A queda no tempo, Lágrimas e Santos, Breviário de Decomposição, Silogismos da amargura, A tentação de existir, História e utopia, entre outros, a totalidade da cultura e da filosofia ocidental.  Esta cultura e esta filosofia são dissecadas – melhor seria dizer: esquartejadas – em seus componentes essenciais e crenças subreptícias, em uma combinação sui generis de lúcida erudição e irônica radicalidade existencial, a radicalidade de um grande “não” aos construtos racionais, às razões que não chegam aos abismos delas mesmas, às suas falácias bem-pensantes.

Neste livro, Rossano Pecoraro, jornalista e filósofo italiano, abre ao leitor um exuberante portal de entrada no mundo de Cioran, através da análise de várias de suas principais categorias de pensamento. O pensamento do “último dos metafísicos – exilado, nostálgico, raivoso, indomável, cósmico”, que é também “o mais radical dos niilistas – esquartejador, impiedoso, luciferino, com o dom da negação e do estilo”, ganha aqui um texto consistente, e nos prova haver sido, pela interpretação de Rossano Pecoraro, igualmente um pedagogo da condição humana, do ser humano que oscila entre o abismo e as alturas, e que faz dessa oscilação, linguagem – e linguagem do mais alto nível. (da orelha do livro)

Ricardo Timm de Souza (UFRGS)

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Prefácio, por Franco Volpi*
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Há pensadores que incendeiam as palavras. Iconoclastas do espírito que vivem de destruições efetuadas com fervor quase religioso como litanias de purificação. A sua inteligência é um fogo que queima tudo aquilo que encontra, e que por fim se alimenta da sua própria chama. Entre estes anjos exterminadores, que seguem sombras infernais, Cioran é soberano.

Inútil dizer quão difícil é aproximar-se dele. Quão arriscado, e no fundo vão, tentar falar sobre ele. Não seria talvez uma fadiga de Sísifo querer arrancar um sentido do absurdo?

Rossano Pecoraro enfrenta esta empresa ilustrando os motivos filosóficos que alimentam e articulam o niilismo de Cioran. O seu propósito é libertar da jaula do absurdo as questões de fundo que essa filosofia desesperada põe, enquadrando-a em uma luz que lhe confira ao menos um vislumbre de inteligibilidade.

Na realidade, ao ler a sério Cioran, conforme à letra e ao acreditar nele, estamos perdidos. A sua é uma obra que infecciona, envenena, mata. Página após página, ministra ao leitor um concentrado de pessimismo que intoxica mortalmente cada coisa: conceitos, ideais, esperanças, ímpetos metafísicos da filosofia. Sufoca no começo toda tentativa de ancorar a existência em um sentido que a tranqüilize ante o abismo da absurdidade que a ameaça; Em suma, obscurece com a sombra do Nada os recursos simbólicos aos quais a a finitude humana recorre para suavizar a sua condição.

No entanto, para quem – como Pecoraro – sabe ler, a escandalosa meditação de Cioran não produz só destruição e negação. A sua dúvida marteladora tem também o efeito de uma purificação. Emancipa de tantos fantasmas e simulacros artificiosamente criados para a nossa consolação. Contrasta a obstinação com a qual, seguindo uma insuprimível vontade de auto-enganar-nos, continuamos a inventá-los novamente a cada vez. Põe-nos alerta ante todo tranqüilizador antropomorfismo. Ensina-nos a cortante lucidez com que, em um perguntar tudo que é um tudo perguntar, podemos abrir o caminho até aquele ponto de soberana indiferença em que – conforme a blasfema expressão de Mestre Eckhart – “o anjo, a mosca e a alma são a mesma coisa”. Onde cada um de nós, despojado de tudo e a sós consigo mesmo, está nu perante o próprio destino.

No princípio de A queda no tempo (1964), Cioran sugere a tese de que a existência humana é um “nada cônscio de si”. Uma Nihilenz, como já propunha com uma variação do termo Existenz, o schopenhaueriano Julius Bahnsen. Isto significa: “Nós não somos realmente nós a não ser quando, pondo-nos defronte de nós mesmos, não coincidimos com nada, nem sequer com a nossa singularidade”. Basta isto para entender que a constelação de pensamenteo com a qual estamos lidando não é a de uma esperançosa filosofia da existência que acredita, de forma positiva, em um princípio segundo o qual “o homem é aquele ente em que a existência precede e determina a essência”. Decerto, lançado na sua insuperável historicidade e facticidade, o ser humano não pode ser compreendido dentro de uma “essência” que defina a priori o que ele é, e à qual, depois, ele deveria adequar a sua “existência”. Menos ainda, se a definição dessa essência está sob o protetorado de uma religião ou de uma visão de mundo. O homem não é uma realidade dada, mas uma possibilidade que deve dar-se. É aquilo que a cada vez (di volta in volta) decide ser nas suas efetivas escolhas de vida: anjo ou besta, livre para inventar a si mesmo.

Deste princípio, porém, podem derivar duas “antropologias” bem diferentes. Uma é a tracejada por Sartre na conferência do imediato após-guerra O existencialismo é um humanismo? (1945). Defendendo-se das acusações de desengajamento e derrotismo, que sobretudo marxistas e católicos lhe imputavam, ele mostra que a antropologia existencialista, mesmo com o seu fundo relativista e niilista, não se perde em um spleen langoroso, não se compraz com um cupio dissolvi, mas reflete sobre a existência individual, descaída naquele teatro do absurdo que é o mundo, para dar-lhe finalmente um sentido. Com a “morte de Deus” não decaem necessariamente também os valores, menos ainda os do humanismo. Mas eles podem ser regenerados somente se o homem, ao invés de ancorá-los no já decaído firmamento das estrelas fixas, reinventa-os unicamente por força de si mesmo, através do próprio engajamento.

Radicalmente outra é a perspectiva de Cioran. Aqui a declaração que o homem “é o animal ainda não definido” – para usar a expressão utilizada por Nietzsche em um fragmento da primavera de 1884 (25 [428] e retomada em Para além do bem e do mal (nº 62) – não é o ponto de partida para uma reinvenção do humanismo, mas o fundamento para uma antropologia  verdadeiramente negativa. Se fosse possível indicar uma referência especulativa que servindo como base subtraísse as reflexões de Cioran ao horizonte do absurdo, ela seria aquela do gnosticismo. Consciente de ter caído no tempo e na finitude, de ser livre mas ao mesmo tempo prisioneiro no acanhado calabouço do universo, o gnóstico nega desesperadamente cada valor positivo do mundo, abate todas as imagens, os simulacros eos deuses que o povoam, mesmo sabendo que aos altares abandonados subirão demônios.

Cioran evoca esse niilismo gnóstico mais com imagens e efeitos literários do que o desensolve e o exprime nos giros amplos e rigorosos do raciocínio filosófico. Produz desta forma uma aura tetra e pesada que se condensa, c omo uma obsessão, ao longo da seqüência dos seus cortantes aforismos e das suas peregrinações ensaísticas. Mas é justamente assim que vêm à luz de uma forma deslumbrante o desespero, e, junto, a lucidez que sistentam esse místico sem Deus, a melancolia e o encrudecimento do qual se nutre, a impiedade que o atrai para a fosforescência do mal e ao mesmo tempo a devoção com a qual se lança rumo àquela “versão mais pura de Deus” que para ele é o Nada.

Lido o livro de Pecoraro nos perguntamos por fim: o Nada, cantado e evocado em todas as suas variações, não é talvez o último dos simulacros inventados pela nossa vontade de autto-enganar-nos? O único que resiste também ao furor incendiário de Cioran?

* Franco Volpi (1952-2009), filósofo italiano, foi professor na Universidade de Pádua e colaborador habitual do jornal La Repubblica. Concentrando e aprofundando seus estudos na filosofia alemã, particularmente em Martin Heidegger e Arthur Schopenhauer, investigou a relação entre a filosofia e a psicologia. Seu livro Il nichilismo, de 1996 (“O niilismo”, publicado no Brasil pelas edições Loyola, em 1999), traz um capítulo intitulado “Niilismo, existencialismo, gnose”, em que Volpi interpreta o niilismo de Cioran à luz do antigo gnosticismo. Faleceu aos 57, após ser atropelado quando saía de bicicleta da sua casa.

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