“El insomnio de Cioran” (Willis G. Regier)

鈥淐ioran鈥檚 Insomnia鈥, en MLN, Volume 119, Number 5, December 2004 (Comparative Literature Issue), Johns Hopkins University. Versi贸n de Rodrigo Garc铆a Bonilla. Descargables [ensayo], 4, en Fundaci贸n. Revista en L铆nea, n煤m. 6, abril – mayo 2013.

Insomne de carrera, Cioran hizo del insomnio un laboratorio 鈥攍ugar poco c贸modo para trabajar a gusto. En 1970 le confes贸 a Fran莽ois Bondy: 鈥渟贸lo he podido escribir en la melancol铆a de las noches de insomnio鈥. En 1994 le dijo a Michael Jakob que consideraba el insomnio como la 鈥渕ayor experiencia鈥 de su vida. Cioran describ铆a 鈥渦n drama que dur贸 muchos a帽os y que me ha marcado por el resto de mis d铆as. Todo lo que he escrito, todo lo que he pensado, todo lo que he elaborado, todas mis divagaciones tienen su origen en ese drama. Fue m谩s o menos a los veinte a帽os cuando perd铆 el sue帽o y lo considero el mayor drama que pudo ocurrir鈥 Erraba por horas en las calles, como una especie de fantasma, y todo lo que escrib铆 m谩s tarde fue elaborado durante aquellas noches鈥. Adam Gopnik dijo que Cioran consideraba no haber dormido durante cincuenta a帽os: 鈥淓sta afirmaci贸n, concuerdan los doctores y el sentido com煤n, era una exageraci贸n po茅tica; s贸lo se preocupaba demasiado por tener un buen descanso en la noche. Pero la insistencia en vestir sus piyamas como cilicios, en hacer absoluto su insomnio 鈥攗n tipo de estado mental simb贸lico鈥, era, en un pa铆s tan afecto a los absolutos como Francia, irresistible鈥. El insomnio se convirti贸 en su r煤brica, un tema trascendental que lo vincul贸 con otros insomnes; durante el curso de su carrera nombr贸 a Hitler, Ner贸n y Mallam茅. 鈥淧ara Mallarm茅, condenado 鈥攃re铆a 茅l鈥 a velar las veinticuatro horas, el sue帽o no era una 鈥榲erdadera necesidad鈥 sino un 鈥榝avor鈥. S贸lo un gran poeta puede permitirse el lujo de tal insania鈥… [+]

 

“O animal enfermo: para uma antropologia negativa cioraniana” (Rodrigo In谩cio R. S. Menezes)

脌 guisa de introdu莽茫o

Emil Cioran nos legou uma obra impactante como poucas no s茅culo XX. Seu pensamento visceral e abismal, no limite inclassific谩vel, configura-se como uma soma de atitudes em que concorrem, sem nenhuma preocupa莽茫o dial茅tica de unidade, as mais diversas tend锚ncias de pensamento. Nascido na Transilv芒nia romena (脿 茅poca, pertencente ao Imp茅rio Austro-h煤ngaro), filho de um sacerdote crist茫o ortodoxo, Cioran se formaria em Filosofia pela Universidade de Bucareste, capital da Rom锚nia, e, ainda jovem, se expatriaria na Fran莽a, onde se tornaria conhecido, ao final de sua vida, como um distinto escritor de l铆ngua francesa.

Contextualizar 茅 preciso, o que nos remete uma vez mais 脿 constela莽茫o de autores, cen谩rios e tend锚ncias de pensamento que concorrem na forma莽茫o do pensamento de Cioran. De Her谩clito a Nietzsche, da antiga gnose 脿 m铆stica cat贸lica, do hindu铆smo ao tao铆smo e ao budismo; do cirenaico Eg茅sia (ou Hegesias) a Schopenhauer e Mainl盲nder, de Pascal a Baudelaire, do Romantismo ingl锚s a Dostoi茅vski e os 鈥渆spiritualistas鈥 russos (Chestov, Merejkovski, Berdiaev), de Pirro a Wittgenstein, do cinismo de Di贸genes ao niilismo moderno 鈥 ou, nas palavras do pr贸prio Cioran, 鈥渄e Te贸gnis a Beckett鈥.[1] Tendo dedicado sua tese de licenciatura em Filosofia ao tema do intuicionismo em Bergson, Cioran tornar-se-ia um pensador que, paradoxalmente, 鈥減aga tributo鈥 a Bergson com uma esp茅cie de anti-bergsonismo: um intuicionismo negativo e, em certo sentido tr谩gico, um intuicionismo do paradoxo e da aporia (poder-se-ia dizer uma 鈥渓贸gica do pior鈥, para falar como Cl茅ment Rosset[2]), em todo caso, n茫o a dura莽茫o como plena positividade ontol贸gica. Enquanto para Bergson o Nada (le n茅ant) 茅 uma impossibilidade, uma 鈥減seudo-ideia鈥[3] (algo sempre subsiste, sendo o niilismo um pseudoproblema), Cioran diria: o Ser 茅 n茫o apenas uma impossibilidade, como ademais, caso poss铆vel, um inconveniente, um contratempo, um fardo, uma pris茫o.[4]

Se pud茅ssemos eleger um 煤nico tema, dentre tantos, como o principal sobre o qual se debru莽am as reflex玫es de Cioran, seria o homem: o ser humano, a condi莽茫o humana, a exist锚ncia autoconsciente no mundo e no tempo. O que importa, pois, 茅 pensar o humano, aquilo que se 茅, espantoso e admir谩vel ser. Que 茅 o homem? Como 茅 poss铆vel? 脡 poss铆vel? Seria, ademais, necess谩rio na economia dos seres? Concebido sem pretextos, em sua (ir)realidade nua e crua, o homem apareceria como um paradoxo terrestre, um problema ambulante, algo de profundamente estranho, se n茫o uma anomalia. O paradoxo evocado por Montesquieu em suas Cartas persas 鈥 鈥淐omo se pode ser persa?鈥 鈥 ser谩 recolhido pelo jovem Cioran 鈥 鈥渃omo se pode ser romeno?鈥 鈥 at茅 culminar, tardiamente, numa reformula莽茫o derradeira, perpassada pela cr铆tica implac谩vel de uma consci锚ncia em vig铆lia: 鈥渃omo se pode ser humano?鈥 Afinal, 茅 menos natural ser humano que simplesmente ser, ainda que nossas perplexidades filos贸ficas sigam normalmente a ordem contr谩ria. O homem 茅, pois, o animal antinatural por excel锚ncia, sendo a hist贸ria uma confirma莽茫o desta intui莽茫o antropol贸gica negativa. Um animal que, por sua problematicidade constitutiva, e historicamente progressiva, evocaria as no莽玫es de impossibilidade e de n茫o-ser, nada, nadidade (nimicnicie em romeno).

A forma莽茫o pela ins么nia e a lucidez luciferina

鈥淓u sou um descrente que s贸 l锚 pensadores religiosos. A raz茫o profunda disto 茅 que apenas eles tocaram certos abismos. Os 鈥榣aicos鈥 s茫o refrat谩rios ou inaptos a eles.鈥[5] Dentre estes pensadores religiosos, destacam-se Pascal, Dostoi茅vski, Chestov, Kierkegaard e Unamuno, entre outros (mesmo Nietzsche poderia, 脿 sua maneira dionis铆aca, ser inclu铆do). Mesmo descrente, como se declara, Cioran 茅 c煤mplice desses 鈥渁bismos鈥 que s贸 os pensadores religiosos teriam chegado a tocar; sua experi锚ncia de vida e de conhecimento o conduziria 脿s mesmas intui莽玫es fundamentais compartilhadas com aqueles.

Cumpre destacar a estreita 鈥 e visceral 鈥 rela莽茫o entre a vida e a obra do autor, rela莽茫o sobre a qual ele sempre insistiu: 鈥淣茫o inventei nada, tenho sido apenas o secret谩rio de minhas sensa莽玫es.鈥[6] Nenhuma proposi莽茫o mais adequada para definir o pensador privado[7] cuja obra 茅 o produto de exig锚ncias 鈥 metaf铆sicas, 茅ticas, est茅ticas 鈥撀 muito particulares. Neste sentido, destaca-se uma experi锚ncia biogr谩fica crucial que incidir谩 diretamente sobre a obra 鈥 romena e francesa 鈥 de Cioran: a ins么nia enfrentada desde a juventude at茅 os primeiros anos na Fran莽a, e da qual se depreender谩 sua inabitual concep莽茫o de lucidez. Se Kierkegaard fala da forma莽茫o pela ang煤stia, Cioran falar谩 da forma莽茫o pelo desespero,[8] consequ锚ncia direta da ins么nia. Em vez de conduzir a Deus mediante um 鈥渟alto da f茅鈥, o desespero produzir谩 uma segunda queda, ainda mais grave que a primeira: desta vez ele cair谩 do tempo, em dire莽茫o a uma 鈥渆ternidade negativa鈥, a uma 鈥渇unesta eternidade鈥.[9] Enfim, a lucidez 鈥渆squartejadora鈥, fomentada pela ins么nia, 茅 a experi锚ncia-limite que singulariza o indiv铆duo e que o permite compreender aquilo que a maioria dos mortais apenas vislumbra vagamente, a consci锚ncia que, incapaz de dormir, apreende a fragilidade, a inconsist锚ncia, a irrealidade, a nulidade de tudo o que permite ao ser humano, carente de alento tanto quanto de comida, perseverar na vida.

O mais importante, e o mais grave, a prop贸sito da lucidez cioraniana talvez seja que ela 茅, no limite, incompat铆vel com a vida, tornando a exist锚ncia uma fa莽anha impratic谩vel, se n茫o uma impossibilidade. 鈥淓xist锚ncia = Tormento. A equa莽茫o me parece evidente. Ela n茫o o 茅 para um de meus amigos. Como convenc锚-lo? N茫o posso lhe emprestar minhas sensa莽玫es; ora, apenas elas poderiam persuadi-lo, dar-lhe esse suplemento de mal-estar que ele reivindica com insist锚ncia h谩 tanto tempo.鈥[10] A lucidez assim interpretada solapa os instintos, arru铆na toda espontaneidade, dir-se-ia toda naturalidade, mina as raz玫es para agir: torna o indiv铆duo um 鈥減贸s-homem鈥,[11] figura que combina tra莽os do c铆nico antigo e do niilista moderno.[12] Dito isso, se h谩 uma quest茫o a partir da qual se desenvolver谩 o discurso cioraniano, notadamente em sua express茫o francesa, 茅 a seguinte: como suportar a vida?, como viver sabendo o que se sabe, em meio a evid锚ncias t茫o alarmantes? E, sobretudo, como suportar-se a si mesmo? Eis, segundo ele, a pergunta 脿 qual ningu茅m est谩 habilitado a nos dar uma resposta.[13]

A lucidez cioraniana pode ser dita luciferina,[14] pois a experi锚ncia de conhecimento que Cioran formula a partir da ins么nia culminar谩, de nega莽茫o em nega莽茫o, numa 鈥渞ejei莽茫o cont铆nua do pensamento pelo pensamento鈥,[15] em 鈥渧erdades negativas鈥 e 鈥渋rrespir谩veis鈥:[16] as 煤nicas que merecem o t铆tulo de verdades, pois n茫o condescendem com nossos anseios demasiado humanos, n茫o se prestam ao papel de c煤mplices nossas. O pensamento l煤cido 茅, neste sentido, todo o contr谩rio de um wishful thinking[17] (鈥減ensamento desejoso鈥 em ingl锚s); trata-se mesmo de penser contre soi (鈥減ensar contra si鈥[18]), tendo como regra de ouro o esfor莽o radical de rejeitar todo sentimento de reconforto baseado em certezas quaisquer, de repousar na falsa solidez de uma verdade 煤ltima, e agrad谩vel. 脡 a recusa de toda autocomplac锚ncia na atividade do pensar, autocomplac锚ncia que o autor identifica como uma tend锚ncia inerente 脿 atividade racional mesma. Ali谩s, provoca Cioran, 鈥渟empre se 茅 fil贸sofo impunemente鈥, e 鈥渁 filosofia 鈥 inquietude impessoal, ref煤gio nas ideias an锚micas 鈥 茅 o recurso de todos os que se esquivam 脿 exuber芒ncia corruptora da vida.鈥[19] Seria preciso, pois, pensar contra os pr贸prios 鈥渄ogmas inconscientes鈥.[20] O conhecimento luciferino 茅 um conhecimento negativo, destrutivo, o pensamento como separa莽茫o, disjun莽茫o, dissolu莽茫o, fragmenta莽茫o e separa莽茫o em rela莽茫o ao mundo, a afirma莽茫o diab贸lica do esp铆rito em detrimento da vida; o pensamento como queda, decl铆nio, decomposi莽茫o, gerador de intervalos, dualidades, solid茫o.

A Queda no tempo e o pecado original como hip贸tese antropol贸gica

Este ensaio de exposi莽茫o de uma antropologia cioraniana parte de um texto-chave sobre o tema (recorrendo tamb茅m a outros escritos do autor): La chute dans le temps [A queda no tempo], publicado em 1964. A Queda 鈥 no tempo e na consci锚ncia, na consci锚ncia da individua莽茫o 鈥 茅 a intui莽茫o antropol贸gica fundamental a se depreender dos escritos de Cioran. Seu pensamento existencial 茅 t茫o pouco 鈥渆xistencialista鈥 que poderia ser justamente definido como uma metaf铆sica existencial, de car谩ter negativo e antifenomenol贸gico.[21] Trata-se de pensar, mais que a exist锚ncia no tempo, historicamente localizada e determinada, a coincid锚ncia paradoxal entre o existencial e o essencial, a banalidade do inessencial e a negatividade fenomenol贸gica de todo absoluto, a queda no tempo e a cotidianidade da queda, a exist锚ncia e a inexist锚ncia igualmente imposs铆veis. Cioran est谩 preocupado em pensar a condi莽茫o humana profunda, o que haveria de imut谩vel e essencial no ser humano. E o essencial, segundo o autor, 茅 a intui莽茫o da Queda: fonte de desassossego, emblema dessa 鈥unidade de desastre que 茅 o homem鈥,[22] mas tamb茅m 鈥渁bertura a uma maneira de ser e a um modo de rela莽茫o com os seres e 脿s coisas que n茫o mais se funda na distin莽茫o sujeito/objeto, mas deriva de uma experi锚ncia sens铆vel.鈥[23] A Queda ecoa na consci锚ncia, ao modo de uma elegia nost谩lgica, a g锚nese de uma insatisfa莽茫o profunda, em virtude da qual a tristeza ser谩 percebida a 鈥減oesia do pecado original鈥.[24]

Eu n茫o creio no pecado original 脿 maneira crist茫, mas, sem ele, n茫o se pode compreender a hist贸ria universal. A natureza humana estava corrompida desde a raiz. E n茫o, eu n茫o falo como um crente, mas sem essa ideia, encontro-me na impossibilidade de explicar o que aconteceu. Minha atitude 茅 a de um te贸logo non-croyant, a de um te贸logo ateu.[25]

Cioran preserva da tradi莽茫o ortodoxa em que nasceu a no莽茫o de pecado original, o que s贸 aparentemente contradiz o sentido gn贸stico do seu pensamento[26]. Sem a hip贸tese do pecado ou corrup莽茫o original (de onde a Queda), o car谩ter de r茅probo do ser humano permaneceria um mist茅rio, uma inc贸gnita absoluta. Trata-se, com efeito, da hip贸tese 鈥 puramente antropol贸gica, sem nenhuma conota莽茫o escatol贸gica 鈥 de um princ铆pio negativo, de um mal radical e inerradic谩vel inerente 脿 exist锚ncia humana, e que tende a perturbar, em 煤ltima an谩lise, a ordem do cosmos como um todo. 脡 no m铆nimo uma concep莽茫o heterodoxa da quest茫o, n茫o mantendo afinidade com a vis茫o comum do epis贸dio do G锚nese sen茫o em termos gerais: as premissas e os meandros de sua concep莽茫o n茫o poderiam ser mais escandalosos do ponto de vista ortodoxo: a Queda se d谩 no interior da divindade, arrastada, por sua pr贸pria Cria莽茫o, ao devir (falaremos mais adiante dessa cumplicidade negativa entre criatura e Criador).

O homem, 鈥渁nimal metaf铆sico鈥 (intui莽茫o compartilhada por Cioran com Schopenhauer), 茅 um ser paradoxal por natureza. Faz sentido falar de uma natureza humana 脿 medida que esta natureza implica imperman锚ncia ontol贸gica e uma perp茅tua metamorfose do humano, no sentido de que, segundo Nietzsche citado por Cioran a partir de Al茅m do bem e do mal (III 搂62), o homem 茅 鈥das noch nicht festgestellte Tier, o animal cujo tipo n茫o est谩 ainda determinado, fixado鈥.[27] Um ser que se apercebe da exist锚ncia do mundo ao seu redor e de sua pr贸pria exist锚ncia, que se espanta e se maravilha com t茫o ins贸lita descoberta, e 鈥渢rope莽a鈥 por isso; um ser que pensa, reflete, julga, valora, mas que tamb茅m deseja, carece, busca, ama e odeia, vive e morre, com plena consci锚ncia de sua inevitabilidade. 脡 uma esp茅cie de crise de identidade essencial que est谩 na raiz de sua exist锚ncia: ser humano 茅 uma quest茫o sempre em aberto, um problema em si, e toda interroga莽茫o n茫o 茅 sen茫o uma interroga莽茫o humana. Estamos encerrados em uma aventura 鈥 um drama 鈥 que os demais seres parecem simplesmente ignorar, para sua felicidade maior.

O essencial 茅 o n茫o de toda coisa, o avesso de todo , o outro do ser, do pensar, do dizer. Mas, como afirmou Beckett, a nega莽茫o n茫o 茅 poss铆vel鈥,[28] de modo que toda nega莽茫o deixa em suspenso algo que n茫o poderia deixar de afirmar-se. O homem aparecer谩 ent茫o como a pr贸pria nega莽茫o encarnada, o n茫o do cosmos, operando, ao longo de sua aventura hist贸rica, uma dupla nega莽茫o: por um lado, nega莽茫o da plenitude, da unidade, da harmonia, do bem-aventurado anonimato no interior de sua condi莽茫o primeira; em seguida, nega莽茫o da finitude, da conting锚ncia, do acaso, daquilo que o pr贸prio ser humano parece naturalmente inclinado a buscar, a despeito de toda perfei莽茫o poss铆vel. Combinadas, essas duas nega莽玫es parecem conduzir, em longo prazo, a um cen谩rio humano de ansiedade e decad锚ncia, em franco contraste com o otimismo new age contempor芒neo. Nunca se tende a negar t茫o ostensivamente, em termos caracterol贸gicos, a pr贸pria insignific芒ncia, a pr贸pria mis茅ria (no sentido do Eclesiastes, de n茫o ser nada al茅m de p贸), como quando se tem plena ci锚ncia dela.[29]

O ensaio que abre La chute dans le tempsL鈥檃rbre de vie [A 谩rvore da vida]. A intui莽茫o subjacente que nortear谩 o texto, sendo v谩lida para o pensamento do autor de modo geral, 茅 a de que a Vida[30] 茅 uma coisa estranha ao animal racional: o homem vive na consci锚ncia, na teoria da vida, n茫o mantendo com a Vida, a rigor, sen茫o uma rela莽茫o indireta, dir-se-ia abstrata, artificial[31] 鈥 茅 o 鈥渁nimal indireto鈥. Justapostas, as alegorias da 鈥淨ueda no tempo鈥 e da 鈥溍乺vore da vida鈥 (L鈥檃rbre de vie, t铆tulo do ensaio com que se inicia o livro) se oferecem como hip贸teses de trabalho para p么r em quest茫o o problema da exist锚ncia, articulando tr锚s elementos fundamentais: a (cons)ci锚ncia, o tempo, e o efeito combinado de ambos (tr锚s eventos contempor芒neos, concomitantes): o mal que entra no mundo atrav茅s da criatura deca铆da. N茫o se trata, pois, de um pessimismo meramente existencial, tampouco meramente hist贸rico: esse pessimismo metaf铆sico ter谩 na alegoria b铆blica, enviesada por uma perspectiva criptogn贸stica (ou n茫o t茫o 鈥渃ripto鈥 assim), seu paradigma mitopo茅tico. O autor de La chute dans le temps e de Le mauvais d茅miurge [O mau demiurgo] n茫o poderia estar mais afinado com Harold Bloom em sua intui莽茫o eminentemente gn贸stica acerca deste mundo, na desconfian莽a em rela莽茫o ao 鈥渢empo, que degrada, […] ele pr贸prio produto de uma degrada莽茫o divina, um fracasso dentro de Deus鈥,[32] em rela莽茫o 脿 鈥渢otalidade da hist贸ria, como pertencente 脿 esfera das realidades falsas鈥, condenada 脿 autodestrui莽茫o por ser, em sua origem, 鈥渙 efeito de uma anomalia鈥: o tempo, o movimento.[33]

Da unidade 脿 fragmenta莽茫o, da ingenuidade pr茅-hist贸rica ao cinismo p贸s-humano, da inconsci锚ncia 脿 lucidez luciferina, do para铆so ao inferno: eis o itiner谩rio espiritual de Cioran, e que ele parece reconhecer na hist贸ria do homem ocidental. Para esse meteco bogomilo exilado em Paris, a imagem da Queda pretende comunicar a intui莽茫o de uma condi莽茫o antropol贸gica e ontologicamente problem谩tica, dir-se-ia negativa: condi莽茫o intu铆da subjetivamente pela pura possibilidade do ser humano de pensar-se e de problematizar-se mediante o pensamento reflexivo. Assim come莽a L鈥檃rbre de vie, ensaio inaugural de La chute dans le temps:

N茫o 茅 bom para o homem se lembrar a cada instante que 茅 homem. Debru莽ar-se sobre si j谩 茅 mau; debru莽ar-se sobre a esp茅cie, com o zelo de um obsedado, 茅 ainda pior: 茅 prestar 脿s mis茅rias arbitr谩rias da introspec莽茫o um fundamento objetivo e uma justifica莽茫o filos贸fica. Quanto mais se tritura o seu eu, mais se tem o recurso de pensar que se cede a um capricho; quando todos os eus se tornam o centro de uma intermin谩vel rumina莽茫o, seu pr贸prio acidente se erige em caso universal.[34]

Na exegese heterodoxa de Cioran, o mal-estar que se experimenta quando se debru莽a sobre a pr贸pria condi莽茫o humana 茅 o mesmo experimentado por 鈥渘osso primeiro ancestral鈥, em seu gesto temer谩rio. 脡 uma vertigem interior cont铆nua o que nos confirma em nossa queda comum e cotidiana: 鈥淎 maldi莽茫o que pesa sobre n贸s j谩 pesava sobre o nosso primeiro ancestral, muito antes de ele se voltar 脿 谩rvore do conhecimento鈥.[35] Esta maldi莽茫o n茫o 茅 outra que a maldi莽茫o do ser consciente, da consci锚ncia reflexiva e geradora de dualidades: a consci锚ncia como fatalidade e cat谩strofe da individua莽茫o, 谩vida de interroga莽玫es arbitr谩rias e de tormentos gratuitos. Como escreveu Camus, 鈥減ensar 茅 come莽ar a ser atormentado鈥.[36]

Ad茫o n茫o p么de agir de outro modo; estava fadado, como que por um magnetismo inato, a sucumbir 脿 tenta莽茫o do desconhecido-proibido, e t锚-lo-ia feito, provavelmente, mesmo sem a sugest茫o da serpente: 鈥渕elhor psic贸loga鈥,[37] ela ganhou a disputa que resultaria na Queda. E por mais que, em meio a crises existenciais e metaf铆sicas, possamos lamentar o gesto do homem arquet铆pico, por mais que seu drama seja o nosso, n茫o podemos deixar de reconhecer que, em seu lugar, n茫o ter铆amos agido diferentemente 鈥 como, ademais, n茫o parecemos quase nunca agir. Instigado pelos 鈥渕茅ritos e sobretudo pelos perigos鈥[38] assinalados pelo Criador em rela莽茫o 脿 谩rvore mortal, em compara莽茫o com a banalidade da 谩rvore da vida, 鈥渄emasiado acess铆vel, demasiado banal鈥,[39] Ad茫o se precipitaria com vol煤pia sobre a primeira.

Seria formular mal a quest茫o se diss茅ssemos que Ad茫o preferiu o saber 脿 Vida; seria mais justo dizer que a preteriu em nome da morte mesma, n茫o sendo o saber sen茫o um pretexto, o meio que justifica o fim: fazer-se expulsar para conhecer, enfim, um destino fora de todo para铆so poss铆vel, pois 鈥渟贸 h谩 destino fora do para铆so.鈥[40] 鈥淥 que o homem s贸 queria, de resto, era morrer; querendo igualar-se ao seu Criador pelo saber, n茫o pela imortalidade, n茫o tinha nenhum desejo de se aproximar da 谩rvore da vida, n茫o tinha nela nenhum interesse.鈥[41] Na teologia c铆nica de Cioran, o 鈥減romotor de nossa ra莽a鈥[42] devia sentir, em meio 脿 monotonia do lugar, um profundo 鈥inc么modo, sem o qual n茫o se saberia explicar a facilidade com que cedeu 脿 tenta莽茫o. Cedeu? Chamou-a, mais do que tudo.鈥[43] O que ele queria era morrer, como nenhum outro ser 茅 capaz de morrer, ter a distin莽茫o da sua morte. Trata-se de uma 鈥渜ueda鈥 (desejada) para fora da vida, de um movimento centr铆fugo para longe do n煤cleo vital, indiferenciado e irrefletido, da exist锚ncia, um atentado 脿 bem-aventurada inconsci锚ncia no interior da condi莽茫o primeira 鈥 essa inconsci锚ncia que n茫o 茅 sen茫o o 鈥渄om da ignor芒ncia鈥,[44] uma 鈥渃i锚ncia inata da vida鈥,[45] indiferente 脿s sedu莽玫es do saber-poder.

O homem abdica da vida para ganhar o saber, e morrer, fenomenologicamente, 茅 saber-se mortal, 茅 saber morrer. Neste sentido, Ad茫o descobre como morrer, que era o que, no fundo, ele mais desejava sem sab锚-lo, sem imaginar que fosse morrer tanto, t茫o perfeitamente, por excesso de imperfei莽茫o.

O conhecimento mals茫o e a 鈥渃i锚ncia inata da vida鈥

Uma das proposi莽玫es cioranianas mais controversas 茅 a de que o conhecimento, a ci锚ncia n茫o nos ajudou a viver: 鈥渕as era essa, mesmo, a sua fun莽茫o?鈥[46] A proposi莽茫o n茫o pode ser devidamente compreendida se n茫o se tem em mente a especificidade do que representa, para Cioran, a Vida, e o significado profundo de 鈥ajudar a viver鈥. Trata-se de uma disposi莽茫o de esp铆rito com vistas ao desprendimento ou liberta莽茫o[47] hic et nunc: condi莽茫o de possibilidade de toda felicidade, e os meios pr谩ticos que conduzem a este fim. A busca do saber tende a engendrar novos problemas 脿 medida que se descobre uma solu莽茫o para os de outrora; a civiliza莽茫o, que n茫o passa de um 鈥渆sfor莽o para encontrar rem茅dios para um estado incur谩vel 鈥 e desej谩vel鈥[48] 鈥, se revela ent茫o o resultado de uma 鈥渋ronia em marcha[49] (de onde o antihegelianismo de Cioran). A busca do saber, que degenera logo em sede tit芒nica de poder, 茅 o que p玫e a hist贸ria em movimento, e em fun莽茫o disso a ansiedade do animal vertical se projeta no futuro, indefinidamente. Muitos dos povos ditos 鈥減rimitivos鈥, ou mesmo a gente simples do campo, vivem sem grande parte de nosso 鈥渆sclarecimento鈥, de nossa ci锚ncia, de nossa tecnologia, e n茫o parecem sentir falta disso. Afinal, questiona Cioran, 茅 prefer铆vel morrer de nossos rem茅dios ou de nossas doen莽as? Respirar o odor de estrume e de lama ou dos escapamentos dos autom贸veis e dos aromatizadores artificiais das salas de espera?

N茫o se trata de anti-intelectualismo, mas de um vitalismo sui generis que Cioran recolhe de fil贸sofos como Bergson e Georg Simmel, e tamb茅m de Nietzsche. N茫o 茅 脿 ci锚ncia positiva que se aspira; o que importa, tendo em vista a preocupa莽茫o sapiencial do autor, 茅 um tipo de conhecimento outro: um saber essencial, sem conhecimentos, 鈥減uro a ponto de abominar a ideia mesma de objeto鈥.[50] Uma via de aproxima莽茫o ao saber preconizado pelo autor de La chute dans le temps 茅 (diverg锚ncias 脿 parte) a no莽茫o de conhecimento intuitivo proposta por Bergson em termos de uma 鈥渁usculta莽茫o espiritual鈥.[51] Neste sentido, a metaf铆sica existencial de Cioran possuiria uma significativa analogia com a metaf铆sica emp铆rica de Bergson. Para al茅m do horizonte do pensamento ocidental, a posi莽茫o de Cioran tamb茅m nos remete ao budismo, notadamente a no莽茫o de tathata[52] ou 鈥渢alidade鈥 (t茅lleit茅 ou ainseit茅 em franc锚s, suchness em ingl锚s). Trata-se, enfim, de um conhecimento intuitivo que se pretende simples, completo, absoluto, para al茅m dos expedientes l贸gicos e categoriais da raz茫o anal铆tica, beirando o inef谩vel:

S贸 existem as coisas que descobrimos por n贸s mesmos; s茫o tamb茅m as 煤nicas que conhecemos. Todo o resto 茅 tagarelice.
脡 preciso desconfiar da paix茫o de se instruir. Ela sempre se volta contra n贸s, nos desserve em todo caso. 脡 preciso saber poucas coisas, mas sab锚-lo de modo absoluto.[53]

Para entender devidamente a ressalva de Cioran 脿 鈥減aix茫o de se instruir鈥, para n茫o interpret谩-la como rude misologia, 茅 preciso discernir entre dois tipos de verdades, distin莽茫o que ele recolhe, uma vez mais, de suas leituras de textos budistas. 脌s 鈥渧erdades de erro鈥, 鈥渧erdades veladas鈥[54] (samvriti), corresponderia um saber instrumental e superficial, pragm谩tico, compreendendo teorias, ideologias e credos diversos: dom铆nios de saber envoltos, segundo o filtro da lucidez luciferina, em camadas e mais camadas de ilus茫o, equ铆vocos e preconceitos at谩vicos. 脌 鈥渧erdade verdadeira鈥 (paramartha), corresponderia, por outro lado, certo saber essencial que 茅 da al莽ada da inefabilidade apof谩tica, mais propriamente um n茫o-saber: 茅 a consci锚ncia do vazio (sunyata), da interdepend锚ncia universal, da imperman锚ncia e da transitoriedade, da absoluta aus锚ncia de fundamento, e de sentido, de todas as coisas.[55] O n茫o-saber parte da constata莽茫o da supremacia existencial das 鈥渧erdade negativas鈥, 鈥渋rrespir谩veis鈥, 鈥渋numanas鈥,[56] libertadoras por for莽a de desilus茫o. 鈥淎 eternidade 茅 o privil茅gio do n茫o-saber. Ela se perdeu para o homem, que n茫o mais poder谩 alcan莽谩-la e vivenci谩-la, mas que far谩 tanto mais dela o objeto de seus pensamentos鈥.[57]

Como em Nietzsche, a ci锚ncia historicamente constitu铆da n茫o 茅, para Cioran, sen茫o a moral convencional travestida de curiosidade natural.[58] Dois esp铆ritos iconoclastas 脿 sua maneira, ainda que a teoria da verdade subjacente ao pensar-dizer de Cioran n茫o coincida com aquela que se pode depreender de Nietzsche. Como afirmara o autor de De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅 [Do inconveniente de ter nascido] em uma entrevista (cf. nota 30 supra), 鈥渁 ci锚ncia 茅 a escamotea莽茫o da sabedoria em nome do conhecimento do mundo鈥, sendo a busca do conhecimento, desde seus princ铆pios, uma express茫o da necessidade de ilus茫o e, ademais, uma busca essencialmente ut贸pica 鈥 鈥減ara recorrer 脿 terminologia b铆blica, refazer o 脡den com os meios da queda, permitindo assim ao novo Ad茫o conhecer as vantagens do antigo. N茫o se pretende com isso corrigir a Cria莽茫o?鈥[59]

O mundo 茅 e ser谩, para o homem, o que ele sempre foi: um 鈥渘茫o-lugar universal鈥.[60] Nenhum novo mundo 脿 vista no horizonte, sonhado ou cogitado, que n茫o sucumba sob a vigil芒ncia de nossas d煤vidas; nem tudo que se quer, se pode, e a lucidez termina desmascarando a fic莽茫o de todo valor, de todo ideal, de toda utopia. Nossa exist锚ncia no mundo, cen谩rio de decad锚ncia e decomposi莽茫o, 茅 o presente envenenado que recebemos ao nascermos, a pena que experimentamos, alegres e desgostosos, por n茫o podermos escolher o que n茫o nos cabe escolher. Acaso somos livres para n茫o nascer e para n茫o morrer? A conclus茫o da lucidez 茅 de que o saber 鈥 no fundo, sempre 鈥渓uciferino鈥 鈥 indisp玫e o ser, de que a busca do saber tende, no limite, a perturbar a harmonia c贸smica 脿 medida que a natureza 茅 subjugada aos interesses e necessidades do animal sem limites.

Nascemos para existir, n茫o para conhecer; para ser, n茫o para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzir谩 inexoravelmente a nossa perda. O G锚nese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condi莽茫o humana.[61]

O saber suscita, fatalmente, o apetite de poder. Partindo de uma interface entre 茅tica e metaf铆sica, o que est谩 em quest茫o 茅 o mist茅rio da iniquidade (鈥渁 felicidade do malvado鈥), o esc芒ndalo[62] do mal, no esp铆rito de Schopenhauer, quando afirma que 鈥渙 car谩ter mais espec铆fico do espanto que nos impele a filosofar vem obviamente da vis茫o do mal e da maldade no mundo. Se nossa vida fosse sem fim e livre da dor, possivelmente n茫o ocorreria a ningu茅m perguntar por que o mundo existe.鈥[63] O homem 茅 a pe莽a mais sofisticada, e a mais problem谩tica, no conjunto dos seres; nele, a vontade de Vida se descontrola, desvirtua, degringola, volta-se 鈥 insaci谩vel 鈥 contra ela mesma, contra a ordem natural dos seres e das coisas. N茫o apenas a nossa vida 茅 ef锚mera e repleta de sofrimento, como n贸s impomos aos demais seres as consequ锚ncias de nossos excessos, de nossas car锚ncias, de nossos caprichos. Uma vez mais, n茫o se trata aqui de um mal hist贸rico, relativo, mas de um mal que pertence 脿 hist贸ria ao mesmo tempo em que parece transcend锚-la, n茫o sendo redut铆vel a suas conting锚ncias; um princ铆pio negativo inerente 脿 exist锚ncia humana enquanto tal, e inerradic谩vel, t茫o fenomenologicamente evidente, t茫o concretamente sens铆vel, que sequer mereceria esfor莽o argumentativo: 鈥淐omo o mal preside tudo o que 茅 corrupt铆vel, o que 茅 o mesmo que dizer tudo o que vive, 茅 uma tentativa rid铆cula querer demonstrar que ele encerra menos ser que o bem, ou mesmo que n茫o cont茅m nenhum.鈥[64]

O demiurgo como indispens谩vel hip贸tese de trabalho

O pensamento da Queda lan莽a uma suspeita de 鈥渃umplicidade鈥 entre o homem e a divindade que se sup玫e t锚-lo criado 脿 sua imagem e semelhan莽a, o erro (hamart铆a) sendo coextensivo 脿 criatura e ao Criador 鈥 pejorativamente, o 鈥渄emiurgo鈥. 脡 ao demiurgo que se chega quando se contempla, sem reservas mentais, este mundo de carnificina e decomposi莽茫o, um mundo em que nada est谩 em seu lugar, a come莽ar pelo pr贸prio mundo鈥, em que o ser humano 鈥 agente de destrui莽茫o em escala exponencial 鈥 causa estragos nos n铆veis microsc贸pico e macrosc贸pico. O demiurgo gn贸stico n茫o 茅 sen茫o uma figura m铆tico-aleg贸rica do princ铆pio de realidade (a rela莽茫o entre identidade e alteridade, a divis茫o sujeito-objeto, e as antinomias que dela decorrem),[65] da necessidade pela qual as coisas s茫o como n贸s a conhecemos habitualmente. 鈥淣ecessito do demiurgo como de uma indispens谩vel hip贸tese de trabalho鈥, anota Cioran em seus Cahiers; 鈥減rescindir dele equivaleria a nada compreender do mundo vis铆vel鈥.[66]

Pensar Deus 茅 uma forma indireta de meditar sobre o humano e o mundano. N茫o se trata tanto de fazer teologia, mas antes antropologia po茅tica e cosmomitologia. Mais do que ser racional ou motivado por uma estrutura volitiva complexa, o homem 鈥 homo faber 鈥 茅 antes de tudo criador, fabricador, inventor, e, raz茫o e vontade 脿 parte, muito do que ele empreende se volta contra ele. O homem est谩 condenado a criar, e 鈥渃riar 茅 legar seus sofrimentos, 茅 querer que os outros mergulhem neles e os assumam, impregnem-se deles e os revivam. Isso 茅 verdade para um poema e pode ser verdade para o cosmos鈥.[67] Mas o que o homem 鈥 animal dual 鈥 tem de 鈥渄ivino鈥 茅 o mesmo que o faz ter, em contrapartida, de 鈥渄iab贸lico鈥, sem que se possa separar os dois princ铆pios O homem, por sua simples-complexa presen莽a, criador-destruidor, compromete a integridade (j谩 comprometida desde a origem) da Cria莽茫o, este 鈥減rimeiro ato de sabotagem鈥.[68] Contudo, n茫o se trata tanto de pensar o humano a partir do divino, mas opostamente; a suspeita suscitada pelo homem acaba recaindo tamb茅m sobre aquele que se sup玫e ser seu modelo, sua imagem suprema: 鈥淥 odor da criatura nos p玫e na pista de uma divindade f茅tida.鈥[69] 脡 pelo homem que o mal entra na economia do cosmos, 茅 por esse animal enfermo de consci锚ncia que o mundo agoniza, que o cosmos se acosmiza. 鈥溍 exce莽茫o de alguns casos aberrantes, o homem n茫o se inclina ao bem: que deus o impulsionaria a isso? Deve vencer-se, fazer-se viol锚ncia, para poder executar o menor ato n茫o manchado de mal. Toda vez que o consegue, provoca e humilha seu criador.鈥[70]

O mauvais d茅miurge presta-se bem ao papel de uma divindade pr贸pria a uma espiritualidade tr谩gica, se n茫o pessimista, no interior da tradi莽茫o b铆blica. Al茅m de n茫o ser, por uma perspectiva gn贸stica, nenhum exemplo de amor ou de sabedoria, tampouco deve ser entendido como um poder transcendente ao mundo, separado da cria莽茫o: 茅, pelo contr谩rio, imanente ao mundo existente, 脿 realidade cotidiana, a face oculta deste universo fracassado (rat茅), e pode-se muito bem compreend锚-lo, talvez mesmo absolv锚-lo, 鈥減or tudo o que em n贸s 茅 fragment谩rio, inacabado, malfeito.鈥[71] 鈥淓sta terra, pecado do Criador!鈥, exclama o autor do Brevi谩rio de decomposi莽茫o, lembrando-nos de que o ser humano 茅 t茫o mais tem铆vel quanto mais cede 脿 paix茫o do dogma, 脿 tenta莽茫o de possuir uma verdade, a sua verdade. Numa entrevista, ele dir谩:

Eu me reconhe莽o pr贸ximo da cren莽a profunda do povo romeno, segundo a qual a cria莽茫o e o pecado s茫o uma e a mesma coisa. Em grande parte da cultura balc芒nica, a cria莽茫o n茫o cessa de ser acusada. O que 茅 a trag茅dia grega sen茫o a queixa constante do coro, ou seja, do povo, a prop贸sito do destino? Dion铆sio, de resto, veio da Tr谩cia.[72]

Enfim, a hip贸tese de um mal anterior 脿 exist锚ncia mesma, e que se agrava com o advento da consci锚ncia, a intui莽茫o de uma fatalidade da qual o homem seria tanto v铆tima quanto (co)autor 鈥 essas ideias t茫o antigas quanto mirabolantes se imp玫em a Cioran como hip贸tese de trabalho indispens谩vel caso se queira fazer um m铆nimo de sentido da exist锚ncia, da condi莽茫o e da hist贸ria humanas. Aqui, a imago dei nos reenviaria a uma imago hominis ignominiosa: como poderia um deus bom criar um ser que 茅, 鈥渕oralmente, mais disforme do que o eram, fisicamente, os dinossauros?鈥[73] O homem, afinal, 茅 o representante do demiurgo na terra, de onde sua natureza h铆brida, temer谩ria, 鈥渢it芒nica鈥. E errante. E o mundo n茫o apenas n茫o conspira ao nosso favor, como n茫o parecemos estar inclu铆dos em seus planos, se planos h谩. O questionamento, de fundo pessimista, subjacente ao simbolismo gn贸stico proposto por Cioran 茅: n茫o seria o Anthropos uma 鈥渕谩 ideia鈥 de Deus?, sua presen莽a no cosmos suscitando a suspeita de que as coisas talvez n茫o venham a ser para o melhor (optimum), para nenhum tipo de Bem 煤ltimo. Melhor para quem, afinal?, como eludir que sofrem, em nossas m茫os, ao m铆nimo contato conosco, os seres que n茫o nos acompanharam em nossa corrida adiante, corrida para fora da Vida, para dentro do inferno da consci锚ncia? N茫o apenas n茫o sentiriam nossa falta como, se pudessem, a celebrariam. A isso, Cioran contrap玫e a hip贸tese de uma fatalidade[74] secreta que tudo governa, uma necessidade c贸smica opressora, um 鈥渆l茫 em dire莽茫o ao pior鈥.

N茫o se trata de crer na realidade de al茅m-mundos e de aspirar 脿 salva莽茫o post-mortem, mas de reconhecer, pondo-as em quest茫o, as raz玫es profundas do anelo espiritual, da necessidade metaf铆sica de algo que simplesmente n茫o parece dispon铆vel, que n茫o parece ser o caso. O que importa, pois, n茫o 茅 buscar o repouso num absoluto transcendente, mas pensar sem reservas 鈥 lucidamente 鈥 sua necessidade e sua impossibilidade. De onde a nostalgia 鈥 sempre reticente, sempre amb铆gua 鈥 de uma plenitude anterior 脿 Queda; de onde tamb茅m a intui莽茫o persistente da consci锚ncia como doen莽a, e a urg锚ncia de uma 鈥渃ura鈥 sempre ineficaz, no limite invi谩vel, pois vol煤vel, como todas as coisas que se encontram submetidas ao devir… Por fim, 茅 preciso ter em mente que a salva莽茫o (ou 鈥渞essurrei莽茫o鈥), no gnosticismo, est谩 dada 鈥 ou n茫o est谩 鈥 ainda em vida, n茫o ap贸s a morte; morrer a salvo, serenamente, implica o esfor莽o 鈥 sempre incerto, sempre insuficiente 鈥 de desiludir-se, desfascinar-se em rela莽茫o 脿 vida e 脿 morte.

A consci锚ncia como enfermidade: paralelos filos贸ficos

Um dos textos que integram La chute dans le tempsSur la maladie [Sobre a doen莽a], no qual se disserta sobre a rela莽茫o de cumplicidade, cheia de vantagens e desvantagens, entre a experi锚ncia primordial da dor e o advento da consci锚ncia no animal vertical. Todo padecimento 茅 gerador de autoconsci锚ncia, logo o esp铆rito, logo a lucidez. Anarquia das c茅lulas, 鈥渁postasia dos 贸rg茫os鈥,[75] a doen莽a 茅 desagrega莽茫o, deteriora莽茫o, aniquila莽茫o, e por isso mesmo revela莽茫o, aridez espiritual que se converte em m铆stica sem absoluto.[76] O que se depreende de Sur la maladie 茅 que a rela莽茫o causal entre males naturais e males morais, se causalidade h谩, segue uma ordem inversa 脿quela tradicionalmente postulada.[77] A perspectiva de Cioran 茅 somatops铆quica, de modo que 茅 o sofrimento da carne o que suscita a consci锚ncia, esta n茫o sendo sen茫o carne emancipada da gravita莽茫o, desperta 鈥 鈥渓煤cida e l铆rica鈥 鈥 鈥渟ob o aguilh茫o da dor鈥.[78] Noutras palavras, n茫o s茫o os males morais (cometidos e sofridos por for莽a da livre a莽茫o humana) que suscitam os males naturais (a doen莽a, a morte), mas o inverso. Enfim, o ser humano, segundo Cioran, se apartou da companhia dos animais porque estava 鈥渟em d煤vida mais exposto e mais receptivo 脿s doen莽as que eles鈥[79] 鈥 n茫o 茅 outra a amarga intui莽茫o do homem do subsolo, n茫o 茅 outra a causa de seu lamento por n茫o ser inseto. Ali谩s, n茫o 茅 por acaso que o livro de Dostoi茅vski (uma das variantes francesas do t铆tulo) seja evocado em Sur la maladie:

Sem a dor, bem o viu o autor da Voix souterraine [Voz subterr芒nea], n茫o haveria consci锚ncia. E a dor, que afeta todos os viventes, 茅 o 煤nico ind铆cio que permite supor que a consci锚ncia n茫o 茅 o apan谩gio do homem. Inflija qualquer tormento a uma besta, contemple a express茫o de seu olhar, e perceber谩 nele um lampejo que a projeta por um instante para al茅m de seu estado. Qualquer uma delas, quando sofre, d谩 um passo em nossa dire莽茫o, esfor莽a-se para se unir a n贸s. E 茅 imposs铆vel, enquanto dura o seu mal, recusar-lhe um grau, m铆nimo que seja, de consci锚ncia.[80]

O sofrimento singulariza (de onde a consci锚ncia), a dor 茅 o que 茅 mais moi-m锚me, e, como onde h谩 fuma莽a h谩 fogo, onde h谩 muita dor e suscetibilidade ao sofrimento h谩 muita consci锚ncia (inverta-se a causalidade): logo a lucidez, essa consci锚ncia hipertrofiada (Dostoi茅vski), 鈥渃ulmina莽茫o do processo de ruptura entre o esp铆rito e o mundo.鈥[81] 鈥淐onsci锚ncia n茫o 茅 lucidez鈥, esta 煤ltima se distinguindo da primeira por ser 鈥渘ecessariamente consci锚ncia da consci锚ncia, e se n贸s nos distinguimos das bestas, 茅 a ela apenas que cabe o m茅rito ou a culpa.鈥[82] Nem os animais s茫o absolutamente isentos de consci锚ncia, dir-se-ia de alma, como a lucidez n茫o 茅 um infort煤nio destinado 脿 maioria, imersa nas ilus玫es e mentiras caracterol贸gicas que ajudam a viver. Tudo isso para dizer que o ser humano se mostra, em meio aos seres, como a Doen莽a mesma encarnada, hipostasiada:

Depois de haver peregrinado atrav茅s das esp茅cies, e lutado com maior ou menor 锚xito para nelas imprimir sua marca, a Doen莽a, cansada de sua carreira, quis sem d煤vida aspirar ao descanso, buscar algu茅m em quem afirmar sua supremacia em paz, algu茅m que n茫o se mostrasse rebelde a seus caprichos e a seu despotismo, algu茅m com quem realmente pudesse contar. Hesitou, procurou 脿 direita e 脿 esquerda, fracassou muitas vezes. Finalmente encontrou o homem, se 茅 que n茫o foi ela que o criou.[83]

A consci锚ncia como fatalidade, tormento, doen莽a e, a fortiori, enfermidade: intui莽茫o que aproxima Cioran de Unamuno (O sentimento tr谩gico da vida) e Dostoi茅vski (Mem贸rias do subsolo), dentre outros autores. Essa intui莽茫o antropol贸gica negativa n茫o saberia remontar 脿 matriz filos贸fica vinculada a Atenas, mas antes a um universo de pensamento e espiritualidade que se associaria ao Oriente, notadamente Jerusal茅m, de modo que a distin莽茫o entre doen莽a e enfermidade seria mais bem elucidada n茫o tanto a partir das ci锚ncias biol贸gicas, mas a partir da espiritualidade judaico-crist茫 e de suas ramifica莽玫es diversas. O Novo Testamento distingue 聽entre doen莽a e enfermidade,[84] a primeira sendo uma afec莽茫o de cunho meramente f铆sico (os males determinados que afligem o corpo), enquanto que a segunda evoca um sentido mais espiritual, associado 脿 condi莽茫o humana vertical, dotada de uma consci锚ncia e de uma vontade pr贸pria. Atenas e Jerusal茅m: antropovis玫es distintas, e seria dif铆cil, se n茫o imposs铆vel, identificar uma vis茫o tal (o homem, animal enfermo) no universo grego pr茅-crist茫o. Mais do que 脿s doen莽as, o ser humano estaria destinado 脿 enfermidade, cuja presen莽a na exist锚ncia humana n茫o saberia ser reduzida a uma l贸gica natural de causa e efeito: trata-se de um mal indeterminado, sem causa evidente. A consci锚ncia como enfermidade seria, no limite, um mist茅rio da exist锚ncia e da natureza mesma, em cujo seio surge o animal vertical, esse 鈥渆xemplo de antinatureza鈥.[85] N茫o por acaso o ser humano ser谩 representado como uma esp茅cie de paradoxo ambulante, um 鈥渆straga-prazeres鈥[86] (trouble-f锚te) da harmonia universal, um 鈥渆xtraviado鈥[87] (fourvoy茅), um 鈥渢r芒nsfuga do ser鈥[88] (transfuge de l鈥櫭猼re), se n茫o o 鈥減onto negro da Cria莽茫o鈥.[89] De resto, a diferen莽a entre ortodoxia e heterodoxia, no que concerne 脿 consci锚ncia como enfermidade, 茅 que, para a segunda, a Queda se d谩 no interior de Deus: a doen莽a estava contida desde o princ铆pio, no primeiro ato da Cria莽茫o, antes mesmo de se instalar no homem (segundo ato da Queda).

A consci锚ncia da Queda n茫o pode ser sen茫o uma consci锚ncia enferma, sendo o esp铆rito a culmina莽茫o desse princ铆pio negativo que funda a condi莽茫o humana. Trata-se, nas palavras de Dostoi茅vski, de uma 鈥渃onsci锚ncia hipertrofiada鈥,[90] e n茫o seria fortuita a similitude do sentido descensional entre a 鈥渜ueda鈥 e o 鈥渟ubsolo鈥 do personagem an么nimo de Mem贸rias do subsolo. O homem do subsolo 茅 uma exist锚ncia afundada, interiormente cindida, dissolvida na mais completa anomia, irreconcili谩vel consigo mesmo e com o mundo, irremedi谩vel, e sua doen莽a se confunde com o seu eu, com sua identidade mesma. 脡 o homem da Queda por excel锚ncia. Resultado? Vive na contradi莽茫o, em perp茅tua tens茫o consigo e com o pr贸prio real, exasperado pela impossibilidade de resolver-se, de decidir(-se), de sair do subterr芒neo em que se encontra. Sua condi莽茫o instaura a impossibilidade de aderir definitivamente ao mundo e a si mesmo, 脿 vida e 脿 morte, noutras palavras: a dupla impossibilidade de amar e de odiar, de viver e de morrer. Eis o hamletismo luciferino do personagem dostoievskiano, sua eterna indecis茫o, sua hesita莽茫o abismal.

O que o homem do subsolo chama de 鈥渃onsci锚ncia hipertrofiada鈥 se aproxima daquilo que Cioran designa de 鈥渓ucidez鈥, paroxismo catastr贸fico da consci锚ncia como enfermidade: 鈥淐onsci锚ncia n茫o 茅 lucidez. A lucidez, monop贸lio do homem, representa a culmina莽茫o do processo de ruptura entre o esp铆rito e o mundo; 茅 necessariamente consci锚ncia da consci锚ncia e, se n贸s nos distinguimos das bestas, 茅 a ela apenas que se deve o m茅rito ou a culpa.鈥[91] O desejo do personagem de tornar-se um inseto 茅 menos a express茫o de um sofrimento por car锚ncia de lucidez que por excesso de consci锚ncia, menos o signo de baixa autoestima que de um orgulho luciferino, resultante da 煤ltima das ilus玫es, qual seja, a de ser o 煤nico desiludido.

Mas, senhores, quem 茅 que pode vangloriar-se das pr贸prias doen莽as, e ainda procurar causar com elas um efeito?
Ali谩s, que digo? Todos fazem isto; 茅 justamente das doen莽as que se vangloriam, e eu talvez mais que ningu茅m. […] Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que n茫o s贸 uma dose muito grande de consci锚ncia, mas qualquer consci锚ncia, 茅 uma doen莽a.[92]

O mesmo pesar por uma consci锚ncia reflexiva que se volta contra ela mesma tamb茅m se expressa ao longo dos escritos de Cioran, desde seu primeiro livro, Nos cumes do desespero, escrito em meio 脿 atmosfera infernal da ins么nia. Em franc锚s, ele escrever谩: 鈥淢elhor ser animal que homem, inseto que animal, planta que inseto, e assim por diante. A salva莽茫o? Tudo o que diminui o reino da consci锚ncia e compromete sua supremacia.鈥[93] O que caracteriza a lucidez em Cioran, assim como a consci锚ncia hipertrofiada do homem do subsolo, 茅 o paradoxo tr谩gico, uma condi莽茫o antropol贸gica de contradi莽茫o e confus茫o, ang煤stia, incerteza, vertigem 鈥 no limite, irrealiza莽茫o, fracasso existencial: a lucidez faz do indiv铆duo um 鈥渞茅probo volunt谩rio鈥[94] (r茅prouv茅 volontaire), um 鈥渘茫o-liberto鈥[95] (indelivr茅) por antonom谩sia. Para o autor de La chute dans le temps, o paradoxo 茅 a marca maior do ser humano, a figura antropol贸gica por excel锚ncia. Cada indiv铆duo 茅 um paradoxo s贸lido, e uma contradi莽茫o ambulante: no homem encontra-se todo tipo de contr谩rios, ele vive contradizendo seus desejos e esperan莽as, contradizendo a si mesmo em sua paradoxal 鈥渉umanidade鈥. Dito isso, a lucidez cioraniana tem por caracter铆stica ser uma lucidez desatinada, uma louca lucidez que a tudo desvirtua e dissolve, constatando a 鈥渋ncoer锚ncia e a dispers茫o das coisas鈥,[96] registrando 鈥渙 iminente, a sede de um mundo que se anula e que, sobre a ru铆na de suas evid锚ncias, corre em dire莽茫o ao ins贸lito e ao incomensur谩vel, a um estilo espasm贸dico.鈥[97] 脡 a consci锚ncia 谩rida de uma embriaguez constitutiva que s贸 se dissipa quando termina a vida, a descoberta da impossibilidade 煤ltima da desilus茫o, de que mesmo o nada 茅 ainda uma esperan莽a, um recurso, pois 鈥渆quivocar-se, viver e morrer enganados, isto 茅 o que fazem os homens.鈥[98] Tal disposi莽茫o subjetiva se assemelharia a um estado de d煤vida hiperb贸lica intermin谩vel, de tal modo que essa d煤vida mal se distinguiria de uma certeza negativa, a certeza do pior. A lucidez n茫o sonha, vive um pesadelo acordado. Sobretudo, lucidez e sa煤de n茫o s茫o correlatas, situando-se nas ant铆podas uma da outra: 鈥淎 decad锚ncia n茫o 茅 outra coisa sen茫o o instinto tornado impuro pela a莽茫o da consci锚ncia鈥.[99] Princ铆pio de ruptura e disjun莽茫o, fragmenta莽茫o e aniquilamento, a lucidez 茅 um atentado 脿 dura莽茫o e 脿 vida mesma, um 鈥渆stado de n茫o-suic铆dio鈥.[100]

A lucidez cioraniana (como tamb茅m a consci锚ncia hipertrofiada do homem do subsolo) p玫e em quest茫o o problema, t茫o intensivamente trabalhado por Nietzsche, do ressentimento e de sua express茫o mais acentuada, o rancor,[101] com os desdobramentos e redobramentos poss铆veis desta experi锚ncia psicol贸gica debilitante. A diferen莽a 茅 que Cioran, quanto a isso equidistante de Dostoi茅vski e de Nietzsche, radicalizar谩 a problem谩tica antropol贸gica da enfermidade, sublinhando a aporia de uma condi莽茫o humana irremediavelmente entregue aos caprichos da consci锚ncia, entendida aqui como uma enfermidade per se.[102] Nem amor fati, nem amor dei: se h谩 uma sa铆da, ou supera莽茫o, do ressentimento apontados pelo autor de Le mauvais d茅miurge, n茫o 茅 nem pela afirma莽茫o da exist锚ncia tal como se realiza no devir, e tampouco pela reconcilia莽茫o, a partir da f茅 na Revela莽茫o b铆blica, com aquele que se sup玫e ser o Deus criador de todas as coisas, contra o qual a raz茫o humana, na aus锚ncia de toda f茅, n茫o pode sen茫o trope莽ar. Em todo caso, o que aproxima Cioran tanto de Dostoi茅vski quanto de Nietzsche (autores cuja leitura marcaria fortemente seu pensamento) 茅 a intui莽茫o dessa condi莽茫o antropol贸gica problem谩tica, fonte de sofrimento e err芒ncia, decad锚ncia e absurdo, causa eficiente de um afeto destrutivo que, no risco de tornar-se uma necessidade inapel谩vel, precisar谩 ser enfrentando e superado: a vontade de vingan莽a. Vingan莽a contra quem, contra o qu锚? Mais que contra os seres vivos, humanos ou outros, contra o Ser e contra Deus, contra a exist锚ncia, sublimados e convertidos, por uma manobra prudente da intelig锚ncia, de 鈥渧enenos imediatos鈥 em 鈥渧enenos abstratos鈥.[103] 脡 o Criador, representado na figura do 鈥渇unesto demiurgo鈥, quem sofrer谩 com o rancor da criatura. 鈥淥 deus mau 茅 o deus mais 煤til que j谩 existiu. N茫o o tiv茅ssemos 脿 m茫o, aonde escorreria nossa b铆lis? Qualquer forma de 贸dio se dirige, em 煤ltima inst芒ncia, contra ele.鈥[104] A sua confus茫o 茅 a proje莽茫o, no infinito, de nossa pr贸pria condi莽茫o terrestre, e 茅 razo谩vel que nos voltemos 脿 sua incerta figura sempre que nos debru莽amos sobre nossas imperfei莽玫es e nossos impasses. 鈥淧ensamos nele com tudo o que em n贸s 茅 contr谩rio 脿 forma ou ao bom senso, com nossas confus玫es e nosso del铆rio鈥,[105] e 鈥渁 instaura莽茫o de um equ铆voco universal 茅 a proeza mais calamitosa que teremos realizado, e que nos torna rivais do demiurgo.鈥[106]

A partir de pressupostos t茫o divergentes, Cioran e Dostoi茅vski parecem chegar 脿s mesmas conclus玫es a respeito da condi莽茫o humana, da consci锚ncia como enfermidade. Para ambos, a 鈥渃onsci锚ncia 茅 a maior infelicidade para o homem鈥, que ama sua condi莽茫o e 鈥渘茫o a trocar谩 por nenhuma outra satisfa莽茫o鈥 (Dostoi茅vski[107]); pois 鈥渙 homem ama a tens茫o, o perp茅tuo avan莽o: para onde iria no interior da perfei莽茫o? Incapaz para o eterno presente, teme ainda mais sua monotonia, armadilha do para铆so sob sua dupla forma: religiosa e ut贸pica.鈥[108] Consciente, no fundo, de sua condi莽茫o ins贸lita, do abismo que o habita, que ele mesmo, o homem n茫o pode sen茫o fugir de si, sendo a hist贸ria essa fuga adiante, em dire莽茫o ao futuro: 鈥渘ega莽茫o imemorial e cotidiana do Para铆so鈥…[109] Intui莽茫o maior da antropologia da enfermidade que, postulando o car谩ter tragicamente paradoxal da criatura l煤cida, aproxima 鈥 por caminhos distintos 鈥 Cioran de Dostoi茅vski: o ser humano ama a queda, a ru铆na, a decomposi莽茫o, e 鈥渟e a morte s贸 tivesse aspectos negativos, morrer seria um ato impratic谩vel.鈥[110]

As vossas vantagens s茫o o bem-estar, a riqueza, a liberdade, a tranquilidade, etc., etc.; de modo que o homem que se declarasse, por exemplo, consciente e claramente, contra todo esse cadastro, seria, na vossa opini茫o 鈥 e naturalmente na minha tamb茅m 鈥, um obscurantista ou um demente completo, n茫o 茅 verdade? Mas eis o que 茅 surpreendente: por que sucede que todos esses estat铆sticos, mestres de sabedoria e amantes da humanidade, ao computar as vantagens humanas, deixam de mencionar uma delas? Nem sequer a incluem no c么mputo, na forma em que deve ser tomada, mas 茅 disso que depende todo o c谩lculo. N茫o seria grande desgra莽a tomar essa vantagem tamb茅m e inclu铆-la na lista. Mas a ru铆na est谩 justamente em que esta vantagem complicada n茫o cabe em nenhuma classifica莽茫o e n茫o se enquadra em nenhuma lista! Tenho, por exemplo, um amigo… […] Devo prevenir-vos de que meu amigo 茅 uma pessoa coletiva e, por isso, torna-se de certo modo dif铆cil lan莽ar sobre ele toda a culpa. Eis onde quero chegar, senhores! N茫o existir谩, de fato (e eu digo isto para n茫o transgredir a l贸gica), algo que seja a quase todos mais caro que as maiores vantagens (justamente a vantagem omitida, aquela de que se falou ainda h谩 pouco), mais importante e preciosa que todas as demais e pela qual o homem, se necess谩rio, esteja pronto a ir contra todas as leis, isto 茅, contra a raz茫o, a honra, a tranquilidade, o bem-estar, numa palavra, contra todas estas coisas belas e 煤teis, s贸 para atingir aquela vantagem primeira, a mais preciosa, e que lhe 茅 mais cara que tudo?[111]

O animal enfermo, heresia da natureza

O homem, concebido nos termos dostoievskianos desse universal concreto (鈥減essoa coletiva鈥), n茫o parece ter sido feito para a plenitude, para a felicidade, para a harmonia. Quanto mais se prolonga, mais a hist贸ria parece confirm谩-lo em sua convuls玫es. N茫o seria a hist贸ria a nega莽茫o mesma de todos esses valores, 鈥渙 resultado de nosso medo do t茅dio, desse medo que sempre nos far谩 amar o sabor e a novidade do desastre, e preferir qualquer desgra莽a 脿 estagna莽茫o?鈥[112] E por que, afinal? Ora, respond锚-lo definitivamente, possuir uma explica莽茫o racionalmente satisfat贸ria para este estado de coisas que, ligando o ser humano 脿 totalidade dos seres, funda esta condi莽茫o tragicamente temer谩ria, seria encontrar o sentido para aquilo que parece recusar todo sentido, toda inteligibilidade suficiente, um estado de coisas 鈥 ao mesmo subjetivo e objetivo 鈥 que pode ser propriamente caracterizado como absurdo ou, numa linguagem menos secular, um 鈥渕ist茅rio鈥.[113] Cioran n茫o racionaliza, n茫o conceitualiza, sendo sua abordagem subjetiva e intuitiva; tudo o que pensa e afirma, o faz a partir de dados vividos (donn茅es v茅cues), de sua experi锚ncia pessoal e 铆ntima. De onde sua metaf铆sica existencial (an谩loga 脿 metaf铆sica emp铆rica-intuitiva de Bergson), segundo a qual 鈥渁s mais profundas experi锚ncias subjetivas s茫o tamb茅m as mais universais, pois por meio delas chega-se 脿 profundeza primordial da vida鈥,[114] e 鈥渁 煤nica maneira de ir ao encontro de outrem em profundidade 茅 indo em dire莽茫o ao que h谩 de mais profundo em si mesmo.鈥[115] A resposta 脿 pergunta dirigida a si mesmo 鈥撀 鈥減or que n茫o me mato?鈥 鈥 poderia muito bem se aplicar 脿 quest茫o mais geral sobre o ser humano, a causa e o sentido de sua exist锚ncia: 鈥渟e soubesse exatamente [o que me impede], eu n茫o teria mais perguntas a fazer-me, pois teria respondido a todas.鈥[116]

Uma vez tendo sido acossado pela consci锚ncia luciferina (tal como o personagem do subsolo), essa consci锚ncia debilitante e mals茫, que perturba a vida e as fontes mesmas da Vida, percebe-se ent茫o, maravilhado e aterrorizado, 鈥渁 anomalia do fato bruto de existir鈥 e, sobretudo, a anomalia de 鈥渘ossa situa莽茫o espec铆fica: […] 茅 menos natural ser homem do que simplesmente ser.鈥[117] Tomar consci锚ncia, culminando nessa nefasta lucidez que Cioran teve a sorte ou o azar de experimentar, 茅 despertar para o drama da exist锚ncia, e a fortiori da exist锚ncia humana. A natureza paradoxal do humano instaura uma condi莽茫o existencial de aporia que n茫o pode ser remediada, apenas suportada ou esquecida: o homem, considerado no que possui de profundo (a alma, o esp铆rito, sua 鈥渧ida interior鈥), parece feito para viver na antinomia, dividido entre tend锚ncias contradit贸rias e necessidades que se excluem, fazendo dele um eterno 鈥渃onvalescente que aspira 脿 doen莽a鈥. Outro texto chave para compreender a vis茫o cioraniana do ser humano 茅 鈥淥 animal indireto鈥, no Brevi谩rio de decomposi莽茫o:

Fica-se realmente desconcertado quando se pensa continuamente, com uma obsess茫o radical, que o homem existe, que 茅 o que 茅 鈥 e que n茫o pode ser diferente. Mas o que 茅, mil defini莽玫es o denunciam e nenhuma se imp玫e: quanto mais arbitr谩rias s茫o, mais v谩lidas parecem. O absurdo mais et茅reo e a banalidade mais pesada igualmente lhe conv锚m. A infinidade de seus atributos comp玫e o ser mais impreciso que possamos conceber. Enquanto que os animais v茫o diretamente a seu alvo, ele se perde em rodeios; 茅 o animal indireto por excel锚ncia. Seus reflexos improv谩veis 鈥 de cujo relaxamento resulta a consci锚ncia 鈥 o transformam em um convalescente que aspira 脿 doen莽a. Nada nele 茅 saud谩vel, salvo o fato de t锚-lo sido. Seja anjo que perdeu suas asas ou macaco que perdeu seu p锚lo, s贸 p么de emergir do anonimato das criaturas gra莽as aos eclipses de sua sa煤de. Seu sangue mal composto permitiu a infiltra莽茫o de incertezas, de esbo莽os de problemas, sua vitalidade maldisposta, a intrus茫o de pontos de interroga莽茫o e de sinais de admira莽茫o. Como definir o v铆rus que, corroendo sua sonol锚ncia, sobrecarregou-o de vig铆lias em meio 脿 sesta dos seres? […] O esp铆rito murcha ao se aproximar da sa煤de: o homem 茅 inv谩lido 鈥 ou n茫o 茅. Quando, depois de ter pensado em tudo, pensa em si mesmo 鈥 pois s贸 chega a este ponto pelo desvio do universo e como 煤ltimo problema que se coloca 鈥, fica surpreso e confuso. Mas continua preferindo seu pr贸prio fracasso 脿 natureza que fracassa eternamente na sa煤de.[118]

Este aforismo dialoga com L鈥檃rbre de vie, onde se l锚 que 鈥渙 car谩ter ins贸lito de nossas perplexidades deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades鈥, e onde se sublinha 鈥渆ssa vol煤pia toda vez que nos desviamos de n贸s mesmos para nos identificar com o bem-aventurado sono dos objetos.鈥[119] O que caracteriza o homem 茅 a indefini莽茫o, a indetermina莽茫o e a n茫o-fixidez (das noch nicht festgestellte Tier), a incerteza, a flutua莽茫o, mais n茫o-ser que ser. De onde sua magistral imperfei莽茫o, sendo que 鈥済ra莽as 脿 imperfei莽茫o somos superiores a Deus鈥, pois enquanto Ele est谩 preso a sua identidade e condenado a n茫o ser outra coisa que n茫o Ele mesmo (鈥渆u sou aquele sou鈥), a criatura est谩 (condenada a ser) livre para inventar-se, metamorfosear-se, dando-se o luxo de poder dizer: 鈥渆u sou aquele que n茫o sou鈥, 鈥渘茫o sou aquele que sou鈥, 鈥渟ou e n茫o sou鈥. A despeito de sua condi莽茫o fr谩gil e prec谩ria (e por isso mesmo grandiosa), o homem se inventa defini莽玫es, ess锚ncias, causas e finalidades determinadas, atravessando os dias 鈥 por uma quest茫o de sobreviv锚ncia na complexidade 鈥 na ilus茫o de certezas, seguran莽a, perman锚ncia, necessidade. Mas tais valores n茫o poderiam ser mais fr谩geis, se 茅 que n茫o constituem puras fic莽玫es, quimeras: 鈥渕etaf铆sica para uso de macacos鈥︹[120] O que impera na din芒mica da exist锚ncia humana, hiperconsciente e submetida ao devir n茫o 茅 sen茫o a mais radical conting锚ncia, o acidental, o transit贸rio, o ef锚mero. De onde o dado primordial do medo na antropologia po茅tica de Cioran, mas um medo em estado puro, 鈥渃ome莽o, esbo莽o de 鈥榓lma鈥欌.[121] Mediante essa consci锚ncia progressiva que 茅 o princ铆pio de sua penosa individua莽茫o, o homem descobre-se, incerto, entre a exist锚ncia e a inexist锚ncia, meio vivo, meio morto, na consci锚ncia dilacerante de sua constante decomposi莽茫o: estremece, sincopa, desespera, tornando-se agressivo por excesso de inseguran莽a, por 鈥渄茅ficit de exist锚ncia鈥.[122] Entende-se o porqu锚 da afinidade eletiva de Cioran com os pensadores religiosos (especialistas em abismos), como o autor de Temor e Tremor:

Nenhum meio de viver ao mesmo tempo na inoc锚ncia e no medo, sobretudo quando este 煤ltimo 茅 fonte de tormentos, abertura ao funesto, cobi莽a de desconhecido. N贸s cultivamos o frisson em si, antecipamos o nocivo, o perigo puro, 脿 diferen莽a dos animais que s贸 amam tremer diante de um perigo preciso, 煤nico momento em que, de resto, deslizando em dire莽茫o ao humano e sucumbindo a ele, assemelham-se a n贸s; pois o medo 鈥 esp茅cie de corrente ps铆quica que atravessa subitamente a mat茅ria para desorganiz谩-la 鈥 aparece como uma prefigura莽茫o, como uma possibilidade de consci锚ncia, inclusive como a consci锚ncia dos seres que carecem dela… A tal ponto ele nos define que n茫o podemos mais perceber sua presen莽a, a n茫o ser quando ele relaxa ou se retira, nesses intervalos serenos que n茫o obstante ela impregna, e que reduzem a felicidade a uma doce, agrad谩vel ansiedade.[123]

A consci锚ncia, e com mais raz茫o o esp铆rito, 茅 um catalisador de medo, aprofundando-o, agravando-o, tornando-o o motor inconfesso de grande parte de nossas a莽玫es. Medo de si mesmo e do outro, do que 茅 mais familiar e do que 茅 mais estranho, medo de ter medo, medo da morte e medo da vida, esta se tornando, mediante a Queda, 鈥渁 grande Desconhecida鈥, ao passo que aquela, 鈥渄emasiado exata鈥, tem todas as raz玫es a seu favor; 鈥渕isteriosa para nossos instintos鈥, e apenas para eles, 鈥渄elineia-se, ante nossa reflex茫o, l铆mpida, sem prest铆gios e sem os falsos atrativos do desconhecido.鈥[124] 脌 diferen莽a dos animais, o homem 茅 um ser encurralado, amea莽ado desde dentro, vulner谩vel e exposto a males reais e virtuais; gra莽as 脿 sua capacidade de reflex茫o, a morte 茅 para ele o acontecimento de toda uma vida, confundindo-se com a dura莽茫o mesma: o homem n茫o morre apenas quando morre, ele morre o tempo todo, n茫o para de morrer, vive morrendo e morre vivendo 鈥 para sua infelicidade e seu orgulho de 鈥渃riatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, ins贸lita na Cria莽茫o鈥.[125] Consci锚ncia e medo coincidindo, o animal metaf铆sico vive dividido entre a nostalgia e a ansiedade, nessa inaptid茫o a coincidir consigo mesmo e a instalar-se, sereno, no eterno presente do instante, fadado a ser perdido e reconquistado continuamente.

N茫o podendo ser definido, hostil a toda conceitualiza莽茫o, o homem permanece um enigma, um ponto de interroga莽茫o, uma quest茫o obsedante e… inesgot谩vel. Pode-se, na melhor das hip贸teses, esbo莽ar interpreta莽玫es e caracteriza莽玫es aproximativas, e sempre insuficientes, para inteligir sobre ele, sua condi莽茫o, sua origem e seu destino. A conclus茫o a que chega Cioran ao meditar sobre o caso do animal enfermo, sobre si mesmo, 茅 de que o homem 茅 a 鈥渉eresia da natureza鈥 (f贸rmula recorrente em seus escritos[126]), um ser que parece historicamente destinado a romper com toda identidade, ordem, harmonia, levando a cabo sua tarefa de 鈥falso vivente鈥.[127] Romper com toda ortodoxia, tanto no plano ontol贸gico quanto no plano teol贸gico e pol铆tico: eis o 鈥渄estino鈥 hist贸rico do homem. 脡 a铆 que se deve buscar a raz茫o da desconfian莽a de Cioran em rela莽茫o 脿s modernas utopias (de onde as tiranias, as revolu莽玫es, as 鈥渇arsas sangrentas鈥[128]), segundo ele, v茫s tentativas de restabelecer o para铆so na terra com os instrumentos do diabo, esse 鈥渇ilantropo funesto鈥:

A铆 as trevas est茫o proibidas, s贸 a luz 茅 admitida. Nenhum vest铆gio de dualismo: a utopia 茅, por ess锚ncia, antimanique铆sta. Hostil 脿 anomalia, ao disforme, ao irregular, tende para o fortalecimento do homog锚neo, do modelo, da repeti莽茫o e da ortodoxia. Mas a vida 茅 ruptura, heresia, aboli莽茫o das normas da mat茅ria. E o homem, em rela莽茫o 脿 vida, 茅 heresia em segundo grau, vit贸ria do individual, do capricho, apari莽茫o aberrante, animal cism谩tico que a sociedade 鈥 soma de monstros adormecidos 鈥 pretende reconduzir ao caminho reto.[129]

N茫o 茅 irrefletidamente que Cioran transporta uma categoria teol贸gica para o dom铆nio da biologia e da ontologia. E o faz porque concebe o ser humano como um animal naturalmente religioso: a 鈥渞eligiosidade鈥 aqui entendida em sentido lato, dir-se-ia extra-institucional (o homem 茅 um forjador de 铆dolos, dogmatiza tudo), de modo que 鈥減ode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviver谩 脿 destrui莽茫o dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religi茫o sobre a terra鈥.[130] O homem n茫o deseja conhecer simplesmente por conhecer, por uma curiosidade natural e desinteressada, mas antes porque tem necessidade de alento (souffle), de fundamento (seu 鈥渃h茫o鈥 metaf铆sico), de algo t茫o intang铆vel quanto s贸lido (um sentido) a que se possa apegar, de alguma Verdade com a qual possa contar definitivamente. 脡 como se, para respirar, fosse preciso ademais crer no ar que se respira (e 鈥渟贸 o idiota est谩 equipado para respirar鈥[131]). Querer n茫o 茅 poder, mas conhecer pode ser 鈥 como 茅, via de regra 鈥 poder. Assim tamb茅m,

se a humanidade se apegou por tanto tempo ao absoluto, era porque n茫o podia encontrar nela mesma um princ铆pio de sa煤de. A transcend锚ncia possui virtudes curativas; sob qualquer disfarce com que se apresente, um deus significa um passo em dire莽茫o 脿 cura. Mesmo o diabo representa para n贸s um recurso mais eficaz que nossos semelhantes.[132]

O destino, ou a 鈥渢arefa鈥 hist贸rica do homem, 茅 levar 脿s 煤ltimas consequ锚ncias essa condi莽茫o apor茅tica, consumar o potencial de esp铆rito que reside em cada um de n贸s: da ingenuidade primitiva 脿 lucidez do 煤ltimo homem, do del铆rio ao t茅dio, j谩 que a vida se cria no primeiro e se desfaz no segundo.[133] A hist贸ria tem, portanto, para Cioran (cr铆tico feroz do progresso e das utopias), um sentido descensional, ou nenhum sentido. Ambas as hip贸teses parecem se alternam em seus escritos: por um lado, uma ateleologia irredut铆vel; por outro, a intui莽茫o de um telos (finalidade, prop贸sito) negativo: um 茅lan vers le pire (鈥渆l茫 em dire莽茫o ao pior鈥), de onde o seu fatalismo. Trata-se, neste caso, da dura莽茫o e do prolongamento, em 芒mbito civilizacional, de uma mesma queda: a Queda no tempo. Sendo o homem um animal religioso, natural e metafisicamente enfermo, a hist贸ria transcorre como se fosse sua via crucis, um longo mart铆rio sem nenhum sentido, nenhuma significa莽茫o aparente, ao longo do qual a humanidade est谩 condenada a esgotar-se at茅 suas 煤ltimas reservas de energia, at茅 o limite do nada. O homem parece buscar, historicamente, aquilo que mais teme, que mais o amea莽a, pois ama o perigo no desconhecido; foge, numa deser莽茫o ao futuro, daquilo que n茫o poderia (mais) suportar sem arrebentar (pois perdeu, optando pela Ci锚ncia em detrimento da Vida, a capacidade de repousar nele): o eterno presente, a plenitude no interior de sua condi莽茫o primeira, a harmonia pr茅-consciente em meio 脿 monotonia dos seres. Doravante, o t茅dio, que poderia (e deveria) ser experimentado positivamente, como uma disposi莽茫o beat铆fica, transforma-se em motivo de ang煤stia, horror, desespero.[134]

脡 digno de nota que, muito embora possa ser alinhado 脿 tradi莽茫o do pessimismo filos贸fico inaugurada por Schopenhauer (e que inclui outros autores menos conhecidos, todos eles p贸s-schopenhauerianos, como Philipp Mainl盲nder, Julius Banhsen, von Hartmann, entre outros), depreende-se dos escritos do autor de La chute dans le temps um profundo interesse filos贸fico pela hist贸ria, interesse efetivamente inexistente na filosofia do autor do Mundo como vontade e representa莽茫o. Muito embora corrobore, 脿 sua maneira, o pessimismo metaf铆sico de Schopenhauer, que parece n茫o dar ensejo a nenhuma reflex茫o sobre o devir hist贸rico (para Schopenhauer, diferentemente de Maquiavel, a hist贸ria nada teria a ensinar), o pessimismo metaf铆sico de Cioran conjuga-se surpreendentemente com uma refinada filosofia da hist贸ria. Metaf铆sico e existencial a uma s贸 vez, o pensamento cioraniano mergulha na hist贸ria para, uma vez analisado e esmiu莽ado seus mecanismos, espantar-se com ela e evadi-la, em dire莽茫o 脿quilo que, de algum modo, a transcende. Toda metaf铆sica (sistem谩tica ou intuitiva, positiva ou negativa) implica, afinal, 鈥渦ma reflex茫o trans-hist贸rica. Ocupa-se da ess锚ncia, do imut谩vel. Transcende o temporal, n茫o avan莽a.鈥[135]

Nada de bom pode vir da hist贸ria: anomalia da anomalia, degrada莽茫o de uma degrada莽茫o (o tempo), a hist贸ria 茅 鈥渙 homem presa do tempo, portadora dos estigmas que definem a uma s贸 vez o tempo e o homem鈥.[136] A hist贸ria 茅 o homem em a莽茫o, em movimento de nenhum lugar a lugar nenhum (menos pior das hip贸teses), se n茫o da idade de ouro ao… apocalipse (pior das hip贸teses, por mais que nada nos autorize a sermos t茫o otimistas, a ponto de poder contar com o al铆vio de um tal desfecho). O desenrolar hist贸rico s贸 inspira desconfian莽a e desilus茫o, suscitando 脿 consci锚ncia uma 煤nica palavrinha, t茫o em desuso nos discursos seculares: o mal. Enquanto protagonistas mais ou menos ativos do devir hist贸rico, 鈥渆stamos afogados no mal鈥,[137] e, meditando sobre esta longa crise, 鈥渟贸 concebemos um desejo: promover a agrura 脿 dignidade de uma gnose.鈥[138]

Hist贸ria universal: hist贸ria do Mal. Suprimir os desastres do devir humano 茅 o mesmo que conceber a natureza sem esta莽玫es. Se voc锚 n茫o contribuiu para uma cat谩strofe, desaparecer谩 sem deixar vest铆gio. Interessamos aos outros pela desgra莽a que semeamos 脿 nossa volta. 鈥淣unca fiz ningu茅m sofrer!鈥 鈥 exclama莽茫o para sempre estranha a uma criatura de carne e osso. Quando nos entusiasmamos por um personagem do presente ou do passado, fazemos inconscientemente a pergunta: 鈥淧ara quantos seres foi causa de infort煤nio?鈥 Quem sabe se cada um de n贸s n茫o aspira ao privil茅gio de matar todos os nossos semelhantes? Mas este privil茅gio 茅 concedido a um pequeno grupo de pessoas e nunca por inteiro: s贸 esta restri莽茫o explica por que a Terra ainda est谩 povoada. Assassinos indiretos, constitu铆mos uma massa inerte, uma multid茫o de objetos frente aos verdadeiros sujeitos do Tempo, frente aos grandes criminosos que tiveram 锚xito.[139]

O elemento de liga莽茫o, na metaf铆sica existencial de Cioran, entre a dimens茫o hist贸rica e a dimens茫o trans-hist贸rica de sua reflex茫o 茅 justamente o problema 鈥 originalmente teol贸gico, herdado pelo pensamento moderno de forma secularizada 鈥 do mal, que pertence 脿 exist锚ncia hist贸rica do ser humano sem, no entanto, reduzir-se a ela. Com efeito, n茫o 茅 outra a quest茫o (que, como bem apontou Susan Neiman,[140] estabelece uma interface te贸rica entre 茅tica e metaf铆sica) que permite fazer sentido (da coer锚ncia de) um pensamento que aparenta ser, no limite, inclassific谩vel: nem (apenas) metaf铆sico, nem (apenas) existencial, tampouco definitivamente c茅tico, ou pessimista, ou niilista, ou m铆stico 鈥 uma 鈥渟oma de atitudes鈥 em que se combinam, e se con-fundem, todas estas tend锚ncias, entre outras. Em todo caso, se pudermos assinalar, dentre elas, aquelas que seriam mais filosoficamente relevantes, apontar铆amos o pessimismo (o qual n茫o implica necessariamente, como pretendeu Nietzsche, niilismo) e certo misticismo que, em sua configura莽茫o heterodoxa, e apesar de uma aparente contradi莽茫o, n茫o impediria a coexist锚ncia do ceticismo e tampouco do ate铆smo – um ate铆smo de colora莽茫o religiosa, com efeito, em contraste com o ate铆smo franc锚s, por exemplo, que seria, segundo Cioran, 鈥渄esastrosamente laico鈥.[141] Um ate铆smo religioso, ou, a fortiori, m铆stico, com efeito, com o qual muitos ateus de carteirinha dificilmente se identificariam.[142] De onde a m铆stica sem absoluto preconizada pelo autor de La chute dans le temps: uma m铆stica 鈥渄a exist锚ncia pura, das ra铆zes imanentes da exist锚ncia.鈥[143]

A cura pela ortodoxia do vazio

A experi锚ncia homem fracassou. Ele se tornou um impasse, enquanto que um n茫o-homem 茅 mais: uma possibilidade. Olha um de teus 鈥榮emelhantes鈥 profundamente nos olhos; que te faz crer que n茫o se pode esperar nada mais? Um homem 茅 muito pouco…[144]

Um dos tra莽os mais marcantes do pensar-dizer cioraniano 茅 a nega莽茫o, uma nega莽茫o visceral e n茫o dial茅tica que busca, mais que um objetivo te贸rico, um resultado pr谩tico e concreto 鈥 existencial, sapiencial. 脡 a negatividade do seu pensamento, o modus operandi de uma nega莽茫o que se pretende, afinal, pessimismo 脿 parte, salutar, dir-se-ia salv铆fica (ou mais precisamente, liberadora, no sentido do franc锚s d茅livrance). Como assinala Michel Jarrety, 鈥渙 pensamento de Cioran n茫o parece construir-se, com efeito 鈥 ou talvez simplesmente n茫o ter existido 鈥 sen茫o numa oposi莽茫o constantemente reconduzida: ao homem e 脿 Hist贸ria, ao conhecimento mesmo e ao progresso, ao real e a Deus.鈥[145]

Tanta obstina莽茫o na via negationis 鈥 nega莽茫o do homem, da hist贸ria, de Deus, etc. 鈥 n茫o poderia deixar de suscitar a quest茫o sobre aquilo que, n茫o sendo (e n茫o podendo ser) negado, permanece inc贸lume, alheio 脿 nega莽茫o. O que 茅 que subsiste, enquanto sa铆da, abertura (poros, em oposi莽茫o 脿 aporia), possibilidade de salva莽茫o, para al茅m de toda a pars destruens que caracteriza o pensamento demolidor de Cioran? Noutras palavras, o que haveria de pars construens para al茅m do pessimismo, e mesmo do niilismo, do autor de Le mauvais d茅miurge, para quem tudo o que , tudo o que pode ser pensado e dito, est谩 amea莽ado, se n茫o fundamentalmente contaminado 鈥 ao menos para efeito fenomenol贸gico, em se tratando do ser humano 鈥 pela imensa realidade da enfermidade (no limite, mais do que antropol贸gica, ontol贸gica)? Deus mesmo, admitindo-se sua realidade, n茫o escaparia a ela.

A 煤nica coisa que parece subsistir, pois, para al茅m da enfermidade, permanecendo efetivamente isenta dela, 茅 o nada (le n茅ant), ou, mais precisamente, o vazio (le vide), e 茅 preciso distinguir entre uma coisa e outra. A diferen莽a 茅 que, enquanto o nada possui uma conota莽茫o for莽osamente sinistra, negativa, inscrevendo-se no registro de uma experi锚ncia europeia mais do que qualquer outra (o 鈥渘iilismo europeu鈥 diagnosticado por Nietzsche), o vazio, e com maior raz茫o ainda a vacuidade (sunyata em s芒nscrito), denota algo de fundamentalmente positivo e salutar (liberador); buscando-o, subtrai-se toda propriedade do ser e, em vez de um sentimento de falta, tem-se o sentimento de uma plenitude pela aus锚ncia de toda coisa.[146] A experi锚ncia oriental do vazio seria, com efeito, n茫o uma experi锚ncia tenebrosa, mas luminosa. Oriundo dos confins da Europa, do umbral entre Ocidente e Oriente, Cioran transita entre o niilismo europeu e a espiritualidade oriental (notadamente o budismo madhyamika de Nagarjuna, Chandrakirti e Shantideva). N茫o se pode compreender o coment谩rio abaixo sem que se tenha este dado biogr谩fico em mente:

16 de dezembro [1967] A doen莽a 茅 uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida 鈥 n茫o apenas tudo o que vive, mas tamb茅m tudo o que 茅, est谩 exposto a ela: a pedra mesma lhe est谩 sujeita. O vazio apenas n茫o est谩 doente; mas para ter acesso a ele, 茅 preciso est谩-lo. Pois ningu茅m s茫o saberia esper谩-lo. A sa煤de espera a doen莽a; a doen莽a apenas pode conduzir 脿 nega莽茫o salutar dela mesma.[147]

A met谩fora da ortodoxia, instrumento proped锚utico em dire莽茫o 脿s no莽玫es de 鈥減ureza鈥 e, sobretudo, de 鈥渟a煤de鈥 (ambas em sentido ontol贸gico, mais do que moral e biol贸gico), n茫o poderia deixar de apontar para a intui莽茫o de que o car谩ter heterodoxo (her茅tico) da exist锚ncia se estende at茅 o absoluto, 鈥渁o primeiro dos seres, 脿 sua posi莽茫o e 脿 ideia que representa e simboliza鈥.[148] A experi锚ncia existencial de Cioran leva-o 脿 conclus茫o de que nem os deuses nem a hist贸ria podem oferecer salva莽茫o (d茅livrance) alguma, ao menos n茫o na aus锚ncia da f茅. E o humanismo, no sentido forte do termo, n茫o deixa de implicar certa f茅, n茫o deixa de ser uma religi茫o, a religi茫o do Homem, sendo o seu altar a Hist贸ria, sua liturgia a Ci锚ncia.[149] A hist贸ria representa uma possibilidade, ao menos aparente, de transcend锚ncia em rela莽茫o 脿 condi莽茫o enferma da exist锚ncia nos limites de um tempo de vida individual, assim como Deus representaria, em rela莽茫o 脿 hist贸ria, uma possibilidade de transcend锚ncia curativa mais eficaz (cf. nota 131 supra), pois menos antropom贸rfica, n茫o antropoc锚ntrica. Mas, no limite, permanece-se, em ambos os casos, sujeito ao mesmo princ铆pio de decad锚ncia e de decomposi莽茫o, enquanto r茅probo de cadeias mais ou menos evidentes. Tanto o cristianismo quanto o humanismo teriam por efeito manter o indiv铆duo submetido 脿 consci锚ncia, que 茅 fonte de ansiedade e de tormento (uma enfermidade), e que tende mais ao dogma e aos credos diversos, do que ao verdadeiro conhecimento, negativo por princ铆pio (paramartha; cf. notas 54 e 55 supra). 鈥淥 budismo鈥, por sua vez, 鈥溍 uma religi茫o que s贸 preconiza o conhecimento. Ele vos ensina que n贸s somos compostos, que esses compostos se dissolvem, que n茫o possuem realidade, vos demonstra nossa n茫o-realidade. E em seguida, diz-se: agora, tirai as consequ锚ncias.鈥[150]

Por tudo isso 茅 que, muito embora a lucidez descrita por Cioran flerte com o niilismo, atravessando-o inclusive, nem por isso este autor pode ser dito, afinal de contas, um niilista. Pelo menos n茫o sem uma radical equivocidade, equivocidade esta que instaura um princ铆pio de instabilidade sem芒ntica no respectivo conceito, conforme predicado a ele, fazendo-o oscilar em dire莽茫o a outros operadores te贸rico-sem芒nticos que n茫o aquele t茫o exaustivamente trabalhado por Nietzsche. Como bem afirmou Philippe Tiffreau, 鈥淐ioran 茅 anarquista nas bordas, niilista no meio e m铆stico no centro鈥.[151] Neste mesmo sentido 茅 relevante o coment谩rio de outra comentadora, quando afirma que ver em Cioran 鈥渦m simples c铆nico a sobrevoar a realidade com um olhar desabusado de tanto-faz, ou um c茅tico de soberana indiferen莽a, seria negar a puls茫o profunda, e sempre ativa, de uma inquietude metaf铆sica que nenhum niilismo poderia suprimir.鈥[152] A oposi莽茫o 鈥 nega莽茫o 鈥 constantemente reconduzida ao homem e 脿 hist贸ria, 脿 鈥淒eus e sua 茅poca鈥, s贸 parecer谩 niilismo 脿queles que assumem que uns e outros s茫o os 煤nicos valores conceb铆veis, dignos de serem afirmados. Mas o pensamento de Cioran se desenvolve segundo uma l贸gica do terceiro inclu铆do, l贸gica nascida e desenvolvida em paragens outras que n茫o coincidem com os territ贸rios habituais a partir dos quais germina nossa forma莽茫o intelectual.

Para concluir, n茫o poder铆amos deixar de dar a palavra ao pr贸prio autor, no caso, a uma das passagens mais surpreendentes para o leitor acostumado a ver em Cioran apenas cinismo, pessimismo, niilismo, negatividade, pars destruens. Trata-se das linhas finais de Hist贸ria e utopia, em que, ap贸s refletir implacavelmente sobre o car谩ter diab贸lico da hist贸ria (鈥渙 n茫o de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo鈥), como tamb茅m de Deus (sobre o qual recai inevitavelmente nosso rancor de 鈥減equenos demiurgos鈥), ele n茫o poderia deixar mais claro, como em nenhuma outra parte, aquilo que considera uma possibilidade de realiza莽茫o, de plenitude, a sa铆da, a solu莽茫o, o rem茅dio para nossa condi莽茫o demasiado humana:

O rem茅dio para nossos males 茅 em n贸s mesmos que devemos busc谩-lo, no princ铆pio intemporal de nossa natureza. Se a irrealidade de tal princ铆pio fosse demonstrada, provada, estar铆amos irremediavelmente perdidos. Que demonstra莽茫o, que prova contudo poderiam prevalecer contra a convic莽茫o 铆ntima, apaixonada, de que uma parte de n贸s escapa 脿 dura莽茫o, contra a irrup莽茫o desses instantes em que Deus 茅 sup茅rfluo ante uma claridade surgida subitamente de nossos confins, beatitude que nos projeta para longe de n贸s mesmos, como莽茫o exterior ao universo? N茫o h谩 mais passado, nem futuro; os s茅culos se desvanecem, a mat茅ria abdica, as trevas se esgotam; a morte parece rid铆cula, e tamb茅m a pr贸pria vida. E essa como莽茫o, mesmo que s贸 a tiv茅ssemos sentido uma vez, bastaria para nos reconciliar com nossas vergonhas e com nossas mis茅rias, das quais ela 茅 sem d煤vida a recompensa. 脡 como se o tempo em sua totalidade tivesse vindo nos visitar, uma 煤ltima vez, antes de desaparecer… 脡 in煤til remontar depois ao antigo para铆so ou correr em dire莽茫o ao futuro: um 茅 inacess铆vel; o outro, irrealiz谩vel. O que importa, ao contr谩rio, 茅 interiorizar a nostalgia ou a espera, necessariamente frustradas quando se voltam para o exterior, e obrig谩-las a descobrir ou a criar em n贸s a felicidade da qual, respectivamente, sentimos nostalgia ou esperan莽a. S贸 h谩 para铆so no mais profundo de nosso ser, e como que no eu do eu; ainda 茅 preciso, para encontr谩-lo a铆, ter recorrido a todos os para铆sos, desaparecidos e poss铆veis, t锚-los amado e detestado com a rudeza do fanatismo, t锚-los escrutado e rejeitado depois com a compet锚ncia da decep莽茫o.
V茫o dizer que substitu铆mos um fantasma por outro, que as f谩bulas da idade de ouro s茫o t茫o v谩lidas quanto o eterno presente com o qual sonhamos, e que o eu original, fundamento de nossas esperan莽as, evoca o vazio e, no final das contas, se reduz a ele? Pode ser. Mas um vazio que concede a plenitude n茫o cont茅m mais realidade do que a que possui a hist贸ria em seu conjunto?[153]

 

 

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[1] 鈥淪ofri muitas [influ锚ncias], porque, n茫o tendo praticado nenhum of铆cio, pude, atrav茅s dos anos, ler um n煤mero consider谩vel de autores. Quais citar? Todos aqueles 鈥 e s茫o legi茫o 鈥 que, de Te贸gnis a Beckett, formularam suas reservas sobre a legitimidade da exist锚ncia.鈥 CIORAN, Emil. Carta-pref谩cio a Fernando Savater, 22 de outubro de 1973, apud: SAVATER, Fernando. Ensayo sobre Cioran, p. 17 (tradu莽茫o nossa).

[2] Tomamos a f贸rmula de empr茅stimo do fil贸sofo franc锚s contempor芒neo Cl茅ment Rosset, que foi amigo de Cioran. Cf. ROSSET, Cl茅ment. L贸gica do pior. Tradu莽茫o de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espa莽o e Tempo, 1989.

[3] 鈥淪e pud茅ssemos estabelecer que a ideia de nada, no sentido em que a tomamos quando a opomos 脿 de exist锚ncia, 茅 uma pseudo-ideia, os problemas que levanta em torno de si tornar-se-iam pseudoproblemas.鈥 BERGSON, Henri. A evolu莽茫o criadora, p. 299-300.

[4] Na tradi莽茫o de metaf铆sica negativa (meontologia) em que se insere Cioran, o nada n茫o possui a conota莽茫o sinistra e deprimente que se convencionou vincular-lhe no Ocidente, mas uma significa莽茫o outra pela qual, aproximando-se sutilmente da no莽茫o b煤dica de vazio (sunyata), designa o 鈥渇undamento鈥 insond谩vel e sem fundo (grundlos) de todo vir-a-ser, sendo tamb茅m o princ铆pio de uma liberdade radical e abismal do existente (liberdade como conting锚ncia, em contraposi莽茫o 脿 necessidade ontol贸gica de Parm锚nides); ademais, 茅 percebido como uma possibilidade salutar, como um dispositivo terap锚utico (d茅livrance, ou Erl枚sung em alem茫o; 鈥渓iberta莽茫o鈥 ou 鈥渞eden莽茫o鈥 hic et nunc) gerador de desprendimento e de uma plenitude impessoal e vazia. De onde a l贸gica cioraniana 鈥渄o terceiro inclu铆do鈥, apontada por Simona Modreanu (MODREANU 2003: 15): se o nada funda a liberdade meontol贸gica radical de ser ou n茫o ser, inclusive de ser e n茫o ser ao mesmo tempo, para Cioran, no registro de uma discursividade diaf贸rica (em contraste com a adiaforia de Nietzsche), tendo em vista sua 鈥渓贸gica do terceiro inclu铆do鈥, as coisas podem ser ditas boas, m谩s, ou boas e m谩s ao mesmo tempo 鈥 indistin莽茫o tr谩gica prevalente na esfera do essencial (cf. 鈥淥bsess茫o do essencial鈥, in: Brevi谩rio de decomposi莽茫o): tudo o que se referir 脿 vida e 脿 morte, ao tempo e 脿 eternidade, ao homem e ao absoluto.

[5] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 858 (tradu莽茫o nossa).

[6] Idem. 脡cart猫lement, in: 艗uvres, p. 1486 (tradu莽茫o nossa).

[7] 鈥淣茫o sou nada al茅m de um Privat Denker 鈥 um pensador privado 鈥, tento falar daquilo que eu vivi, de minhas experi锚ncias pessoais, e renunciei a fazer uma obra.鈥 Idem. Entretien avec Luis Jorge Jalfen, in: Entretiens, p. 103 (tradu莽茫o nossa).

[8] De onde Nos cumes do desespero, seu primeiro livro ainda em romeno, publicado em 1934.

[9] CIORAN, Emil. 鈥淭omber du temps…鈥, La chute dans le temps, Op. cit., p. 1152 (tradu莽茫o nossa).

[10] Idem. Le mauvais d茅miurge, 艗uvres, p. 1170 (tradu莽茫o nossa).

[11] 鈥淥s c铆nicos n茫o s茫o nem 鈥榮ub鈥 nem 鈥榮uper-homens鈥, mas 鈥榩贸s-homens鈥 Chega-se a compreend锚-los e inclusive a am谩-los quando, do tormento de nosso vazio, escapa uma confiss茫o dirigida a n贸s mesmos ou a ningu茅m: outrora fui homem, e agora j谩 n茫o sou. Quando j谩 n茫o houver mais ningu茅m em ti, nem mesmo Di贸genes, quanto estiveres vacante de vazio e tuas orelhas j谩 n茫o mais ressoem o nada…鈥 Idem. Le cr茅puscule des pens茅es, Op. cit., p. 435 (tradu莽茫o nossa).

[12] 脡 preciso assinalar a diferen莽a fundamental entre o cinismo antigo e o niilismo moderno (rela莽茫o hipot茅tica mediada por um terceiro conceito, o de pessimismo), bem como suas respectivas personifica莽玫es hist贸ricas: 鈥淭amb茅m em Di贸genes h谩 pessimismo em sua valora莽茫o do mundo dos homens, como quando concluiu que a maior parte das pessoas ou 茅 completamente doida ou est谩 a um dedinho apenas da doidice, ou quando buscava, em v茫o, por um ser humano de verdade. Todavia, h谩 tamb茅m um sentido ineg谩vel de que o rem茅dio est谩 l谩, esperando por n贸s, desde que apenas tenhamos a vontade e a intelig锚ncia necess谩rias para fazer uso dele. Assim, contrariamente ao que t锚m argumentado alguns historiadores e estudiosos, o cinismo n茫o 茅 uma filosofia do desespero, um mergulho existencial em abandono (ou Verlassensein, para usar um termo heideggeriano) que nenhuma reden莽茫o, nenhuma escapat贸ria promete.鈥 NAVIA, Luis E. Di贸genes, o c铆nico, p. 109.

[13] CIORAN, Emil. 脡cart猫lement, in: 艗uvres, p. 1483 (tradu莽茫o nossa).

[14] Termo herdado do fil贸sofo romeno Lucian Blaga (1895-1961), que distingue, em Eonul dogmatic [O 茅on dogm谩tico], entre o 鈥渃onhecimento paradis铆aco鈥 鈥 intuitivo, dir-se-ia ing锚nuo, perpassado de afetividade, no qual dificilmente se pode falar em termos de sujeito e objeto, estando ambos integrados numa harmonia pr茅-consciente 鈥 e o 鈥渃onhecimento luciferino鈥 鈥 vinculado 脿 raz茫o cient铆fica, anal铆tica (lembre-se que analisar e decompor s茫o correlatos), instaurando o princ铆pio da separa莽茫o progressiva entre sujeito e objeto, homem e natureza, homem e cosmos.

[15] CIORAN, Emil. 鈥淧ref谩cio鈥, Nos cumes do desespero, p. 16.

[16] 鈥淪贸 temos escolha entre verdades irrespir谩veis e supersti莽玫es salutares. Apenas as verdades que n茫o permitem viver merecem o nome de verdades. Superiores 脿s exig锚ncias do vivente, n茫o condescendem em ser nossas c煤mplices. S茫o verdades 鈥榠numanas鈥, verdades de vertigem, que recusamos porque ningu茅m pode prescindir de apoios disfar莽ados de slogans ou de deuses.鈥 Idem. 脡cart猫lement, Op. cit., p. 1415-6 (tradu莽茫o nossa).

[17] Algumas afirma莽玫es diametralmente opostas 脿 maneira de pensar de Cioran seriam: 鈥渘o final, tudo d谩 certo鈥, ou 鈥渢udo tem um sentido鈥, 鈥渜uerer 茅 poder鈥, ou ainda a proposi莽茫o hegeliana de que 鈥渙 real 茅 racional e o racional 茅 real鈥. A ordem do pensamento n茫o possui alcance metaf铆sico para Cioran, diferindo, qualitativamente, da ordem do 鈥渞eal鈥 (irracional), ou seja, do que 茅, do 鈥渟er鈥.

[18] CIORAN, Emil. 鈥淧enser contre soi鈥, La tentation d鈥檈xister, in: 艗uvres, p. 821.

[19] Idem. 鈥淎deus 脿 filosofia鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 54-55.

[20] 鈥淭odos n贸s cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intoler芒ncias, cultivamos preven莽玫es sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefrag谩veis. Cada um 茅 para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como n贸s protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com d煤vidas e o colocamos em quest茫o, 茅 apenas por uma falsa eleg芒ncia de nosso orgulho: a causa est谩 ganha de antem茫o.鈥 Idem. 鈥淥s dogmas inconscientes鈥, Ibid., p. 66.

[21] 鈥淎 lucidez deriva de uma pot锚ncia de intui莽茫o que n茫o se confunde nunca com o 鈥樏硆g茫o do sonho鈥, ou seja, com uma aptid茫o a sonhar (extra-l煤cido). A fronteira entre os dois 茅 o despertar (r茅veil) da consci锚ncia despida do sonho, e o acordar (茅veil) da consci锚ncia despida de ilus茫o, e que tem em vista uma intui莽茫o direta, imediata e corrosiva. A lucidez cioraniana se revela assim uma antifenomenologia: a intui莽茫o desrealiza a manifesta莽茫o do ser que cobre o pouco de ser das coisas por uma representa莽茫o abstrata. Essa lucidez s贸 v锚 no desvelamento (d茅voilement) heideggeriano uma dobra suplementar do v茅u de Maya. N茫o h谩 outra realidade al茅m da representa莽茫o de seu mundo, alguns dir茫o do mundo. A ontologia heideggeriana n茫o tem nada de mais nem de menos a enviar 脿 inautencidade dos conceitos do mundo: do ponto de vista cioraniano, s贸 existe a铆 uma diferen莽a de grau, n茫o de natureza.鈥 DEMARS, Aurelien, 鈥淟a com茅die du monde ou l鈥檃nti-ph茅nomenologie cioranienne鈥, in: Le pessimisme jubilatoire de Cioran: enquete sur um paradigme m茅taphysique n茅gatif (tese de doutorado), p. 46-48 (tradu莽茫o nossa).

[22] CIORAN, Emil. 鈥淥 animal indireto鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 34.

[23] LA脺GT, Elodie. L鈥橭rient du signe: r锚ves et d茅rives chez Victor Segalen, Henri Michaux et Emile Cioran, p. 124 (tradu莽茫o nossa).

[24] CIORAN, Emil. 鈥淕锚nese da tristeza鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 139.

[25] Idem. Entretien avec Esther Seligson, in: Entretiens, p. 164 (tradu莽茫o nossa).

[26] O 鈥減ecado鈥, pela 贸tica gn贸stica, n茫o seria outro que a ignor芒ncia. Cioran tende a atribuir 脿 f茅 ou cren莽a (pistis), em detrimento de toda atividade cognitiva, o 煤nico meio de acesso ao absoluto, ou, em linguagem convencional, a Deus: 鈥淨ue l谩stima que para chegar a Deus tenha que se passar pela f茅!鈥 (Silogismos da amargura). A sua parece ser o caso de uma gnose ineficaz, degradada em pesadelo acordado, e in煤til; a gnose como revela莽茫o da impossibilidade de toda salva莽茫o e do inferno deste mundo, que n茫o parece aberto a nenhuma transcend锚ncia redentora. N茫o obstante, historicamente o gnosticismo n茫o se define exclusivamente pela postula莽茫o da gnose como instrumento de salva莽茫o. O alexandrino Basilides seria um exemplo dessa exce莽茫o, ele que teria 鈥渃ompreendido, no come莽o de nossa era, o que agora constitui um lugar-comum, a saber, que a humanidade, caso queira se salvar, deve reintegrar seus limites naturais pelo retorno 脿 ignor芒ncia, verdadeiro sinal de reden莽茫o鈥 (Le mauvais d茅miurge, Op. cit., p. 1240). Os historiadores t锚m reconhecido, conforme as exuma莽玫es arqueol贸gicas trazem 脿 superf铆cie da hist贸ria um grande n煤mero de textos gn贸sticos perdidos, uma variedade de doutrinas gn贸sticas que dificilmente encontrariam um denominador comum de defini莽茫o. Outros crit茅rios acabam concorrendo com a etimologia (gnosis, conhecimento interior pela experi锚ncia, no qual o conhecedor e o conhecido se confundem), sobrepondo-se por vezes a ela: por exemplo, o dualismo teol贸gico, o anarquismo espiritual, o pessimismo acosmista (o mundo como cria莽茫o fracassada de um mau demiurgo, etc.), a impertin锚ncia, a imagina莽茫o mitopo茅tica (confeccionando uma infinidade de esferas e seres celestes, uma verdadeira arquitet么nica espiritual da Queda), etc.

[27] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1078 (tradu莽茫o nossa).

[28] BECKETT, Samuel, apud: JULIET, Charles. Rencontres avec Samuel Beckett, p. 68 (tradu莽茫o nossa).

[29] Tal 茅 a intui莽茫o de Cioran acerca do progresso cient铆fico, que ele admite, muito embora n茫o o julgue determinante do ponto de vista da vida do esp铆rito. O apelo do seu discurso n茫o 茅 o saber (no sentido de ci锚ncia positiva), mas a sabedoria. 鈥淎 ci锚ncia 茅 a escamotea莽茫o da sabedoria em nome do conhecimento do mundo鈥. CIORAN, Emil. Entrevista com Luis Jorge Alfen, in: Entretiens, p. 112 (tradu莽茫o nossa).

[30] A mai煤scula aleg贸rica, neste caso, 茅 por nossa conta, justificada pelo uso recorrente do mesmo recurso po茅tico pelo autor, fortemente inspirado em Baudelaire.

[31] 鈥淣enhuma a莽茫o, nenhum 锚xito 茅 poss铆vel sem uma aten莽茫o total 脿s causas secund谩rias. A 鈥榲ida鈥 茅 uma ocupa莽茫o de inseto.鈥 CIORAN, Emil. Silogismos da amargura, p. 66.

[32] Cioran est谩 em sintonia com Bloom quando este afirma que 鈥渙 tempo, segundo o juda铆smo, o cristianismo e o Isl茫, 茅 a miseric贸rdia da Eternidade: redentor. Esse passa por ser outro idealismo, e no entanto 茅 uma mentira, uma mentira que atua profundamente contra a centelha que pode ajudar a atrapalhar nossa corrida para uma niil铆stica consuma莽茫o.鈥 BLOOM, Harold. Press谩gios do mil锚nio: anjos, sonhos e imortalidade, p. 179; Cioran, por sua vez, dir谩 que 鈥渢odo fen么meno 茅 uma vers茫o degradada de outro fen么meno mais vasto: o tempo, uma tara da eternidade; a hist贸ria, uma tara do tempo; a vida, ela mesma uma tara, da mat茅ria. O que 茅, ent茫o, normal, o que 茅 s茫o? A eternidade? Ela mesma n茫o passa de uma enfermidade de Deus.鈥 CIORAN, Emil. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres,聽 p. 1346 (tradu莽茫o nossa).

[33] Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 21.

[34] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1071 (tradu莽茫o nossa).

[35] Idem. Ibid., p. 1071 (tradu莽茫o nossa).

[36] CAMUS, Albert. O mito de S铆sifo, p. 18.

[37] CIORAN, Emil. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[38] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[39] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[40] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[41] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[42] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[43] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[44] Idem. Ibid., p. 1072 (tradu莽茫o nossa).

[45] Idem. Ibid., p. 1075 (tradu莽茫o nossa).

[46] Nascidos por um ato de insubordina莽茫o e de recusa, n贸s est谩vamos mal preparados para a indiferen莽a. Veio ent茫o o saber para nos tornar completamente impr贸prios a ela. A principal ressalva contra ele 茅 que n茫o nos ajudou a viver. Mas era mesmo esta a sua fun莽茫o?鈥 Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1077 (tradu莽茫o nossa).

[47] D茅livrance em franc锚s; Erl枚sung em alem茫o.

[48] CIORAN, Emil. 鈥淥 animal indireto鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 33.

[49] Idem. 鈥淥 cen谩rio do saber鈥, Ibid., p. 145.

[50] Idem. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres, p. 1271 (tradu莽茫o nossa).

[51] 鈥淸…] um empirismo verdadeiro 茅 aquele que se prop玫e apegar-se o mais poss铆vel ao original mesmo, aprofundar-lhe a vida e, por uma esp茅cie de ausculta莽茫o espiritual, sentir palpitar sua alma: e este empirismo verdadeiro 茅 a verdadeira metaf铆sica. O trabalho 茅 de uma dificuldade extrema, pois nenhuma das concep莽玫es j谩 feitas de que se serve o pensamento em suas opera莽玫es cotidianas se presta a isto.鈥 BERGSON, Henri. Introdu莽茫o 脿 metaf铆sica, in: Col. 鈥淥s Pensadores鈥, p. 23.

[52] Conceito central na tradi莽茫o do budismo Mahayana, designa a realidade absoluta como vacuidade. 鈥淎 talidade ou Dharmakaya 茅, para os Mahayanistas, 鈥榝onte, realidade 煤ltima de que se derivam a raz茫o da exist锚ncia, a moralidade e a religi茫o. […] Nesta concep莽茫o da talidade ou Dharmakaya, os Mahayanistas encontram a mais alta afirma莽茫o poss铆vel alcan莽ada ao cabo de uma s茅rie de nega莽玫es, unificando todas as formas de contradi莽茫o, psicol贸gicas, 茅ticas ou ontol贸gicas.鈥 (D.T. Suzuki, Les chemins du Zen, p. 30). A no莽茫o de talidade 茅 a conclus茫o l贸gica de uma s茅rie de nega莽玫es, uma vez que 鈥榓 nega莽茫o n茫o 茅 sen茫o o caminho que leva a uma forma mais alta de afirma莽茫o鈥, e que 鈥榌…] ap贸s a s茅rie de nega莽玫es oferecidas pelos pensadores Mahayana existe realmente a afirma莽茫o de uma verdade superior, que, dados os limites do esp铆rito humano, n茫o pode ser apresentada por outro meio que a nega莽茫o.鈥 LA脺GT, Elodie. L鈥橭rient du signe: r锚ves et d茅rives chez Victor Segalen, Henri Michaux et Emile Cioran, p. 123 (tradu莽茫o nossa).

[53] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 133 (tradu莽茫o nossa).

[54] 脡 a no莽茫o de v茅u de Maya que est谩 em quest茫o aqui.

[55] CIORAN, Emil. 鈥淟es deux v茅rit茅s鈥, 脡cart猫lement, in: 艗uvres, p. 1409-1410 (tradu莽茫o nossa).

[56] Idem. Ibid., p. 1415 (tradu莽茫o nossa).

[57] Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 871 (tradu莽茫o nossa).

[58] Lembrando que, segundo Arist贸teles, o homem, zoon logikon, tende naturalmente ao conhecimento.

[59] CIORAN, Emil. 鈥淎 idade de ouro鈥, Hist贸ria e utopia, p. 126-127.

[60] Idem. Le cr茅puscule des pens茅es, in: 艗uvres, p. 338 (tradu莽茫o nossa).

[61] Idem. 鈥淓scola dos tiranos鈥, Hist贸ria e utopia, p. 57.

[62] Do grego, skandalon, 鈥減edra que faz trope莽ar鈥.

[63] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representa莽茫o, apud: Susan NEIMAN. O mal no pensamento moderno: uma hist贸ria alternativa da filosofia, p. 225.

[64] CIORAN, Emil. Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1170 (tradu莽茫o nossa).

[65] Termo tomado de empr茅stimo da psican谩lise freudiana.

[66] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 549 (tradu莽茫o nossa).

[67] Idem. 鈥淥disseia do rancor鈥, Hist贸ria e utopia, p. 92.

[68] Idem. Silogismos da amargura, p. 75.

[69] Idem. Ibid., p. 64.

[70] Idem. Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1169 (tradu莽茫o nossa).

[71] Idem. 鈥淥disseia do rancor鈥, Hist贸ria e utopia, p. 93.

[72] Idem. Entretien avec Fran莽ois Bondy, in: Entretiens, p. 10 (tradu莽茫o nossa).

[73] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1077 (tradu莽茫o nossa).

[74] Trata-se do conceito de heimarmene, ao modo gn贸stico, n茫o estoico: 鈥淥 problema da liberdade 茅 muito simples de um ponto de vista filos贸fico: somos livres, temos a ilus茫o da liberdade nos gestos aparentes. Mas, no fundo, n茫o somos livres. Tudo o que 茅 profundo nega a liberdade. H谩 uma esp茅cie de fatalidade secreta que dirige tudo.鈥 Idem. Entretien avec L茅o Gillet, Entretiens, p. 65 (tradu莽茫o nossa).

[75] Idem. 鈥淪ur la maladie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1123 (tradu莽茫o nossa).

[76] 鈥淥 deserto interior n茫o est谩 fadado 脿 esterilidade. A lucidez, gra莽as ao vazio que deixa entrever, converte-se em conhecimento. 脡 ent茫o m铆stica sem absoluto. A lucidez extrema 茅 o 煤ltimo grau da consci锚ncia e d谩 ao ser a sensa莽茫o de ter esgotado o universo, de ter sobrevivido a ele. Quem n茫o passou por essa etapa, ignora uma variedade especial de decep莽茫o, portanto o conhecimento.鈥 Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 18.

[77] 鈥淧ascal tinha raz茫o em n茫o se estender sobre as doen莽as, mas sobre o uso que se deve fazer delas. 脡, entretanto, imposs铆vel segui-lo quando nos assegura que 鈥榦s males do corpo n茫o s茫o outra coisa que a puni莽茫o e tamb茅m a figura dos males da alma鈥. A afirma莽茫o 茅 t茫o gratuita que, para desmenti-la, basta olhar ao redor de si: com toda evid锚ncia, a doen莽a ataca indistintamente o inocente e o culpado, inclusive demonstra uma predile莽茫o vis铆vel pelo inocente; o que de resto 茅 贸bvio, j谩 que a inoc锚ncia e a pureza interior pressup玫em quase sempre uma complei莽茫o fr谩gil. Decididamente, a Provid锚ncia n茫o faz muito pelos delicados. Causas, antes que reflexos de nossos males espirituais, nossos males f铆sicos determinam nossa vis茫o das coisas e decide o rumo que tomar茫o nossas ideias. A f贸rmula de Pascal 茅 verdadeira, desde que se a inverta.鈥 Idem. 鈥淪ur la maladie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1129 (tradu莽茫o nossa).

[78] Idem. 鈥淎 preocupa莽茫o com a dec锚ncia鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 48.

[79] Idem. 鈥淪ur la maladie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1127 (tradu莽茫o nossa).

[80] Idem. Ibid., p. 1127 (tradu莽茫o nossa).

[81] Idem. Ibid., p. 1127 (tradu莽茫o nossa).

[82] Idem. Ibid., p. 1127 (tradu莽茫o nossa).

[83] Idem. 鈥淥disseia do rancor鈥, Hist贸ria e utopia, p. 90.

[84] Assim, por exemplo, no Evangelho de Mateus (4:23): 鈥淛esus percorria toda a Galil茅ia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doen莽as e enfermidades entre o povo.鈥 E Lucas (7:21): 鈥淥ra, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de enfermidades, de doen莽as e de esp铆ritos malignos, e dado a vista a muitos cegos.鈥

[85] CIORAN, Emil. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1076.

[86] Idem. Ibid., p. 1075.

[87] Idem. Ibid., p. 1075.

[88] Idem. Ibid., p. 1076.

[89] Idem. Le mauvais d茅miurge, Op. cit., p. 1176 (tradu莽茫o nossa).

[90] DOSTOI脡VSKI, Fi贸dor. Mem贸rias do subsolo, p. 20.

[91] CIORAN, Emil. 鈥淪ur la maladie鈥, La chute dans le temps, Op. Cit., p. 1127 (tradu莽茫o nossa).

[92] DOSTOI脡VSKI, Fi贸dor. Mem贸rias do subsolo, p. 18-19.

[93] CIORAN, Emil. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres, p. 1289 (tradu莽茫o nossa).

[94] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1074.

[95] Idem. Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1218.

[96] Idem. Silogismos da amargura, p. 32.

[97] Idem. 鈥淟ettres sur quelques impasses鈥, La tentation d鈥檈xister, in: 艗uvres, p. 885 (tradu莽茫o nossa).

[98] Idem. 鈥淒esaparecer em Deus鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 18.

[99] Idem. 鈥淩ostos da decad锚ncia鈥, Ibid., p. 116.

[100] Idem. 鈥淐oaliza莽茫o contra a morte鈥, Ibid., p. 27.

[101] Cf. 鈥淥disseia do rancor鈥, in: Idem, Hist贸ria e utopia.

[102] Para Nietzsche (Genealogia da moral), a causa da doen莽a antropol贸gico-cultural do homem parece recair mais sobre o segundo elemento (cultural) do bin么mio, sendo portanto uma situa莽茫o circunstancial (mais que uma condi莽茫o antropol贸gica) historicamente determinada: a moral plat么nico-crist茫 seria a fortiori a causa do adoecimento, de modo que o homem arcaico, pr茅-socr谩tico, seria dotado de uma virilidade mais saud谩vel do que o homem moderno, profundamente marcado pela moralidade plat么nica e, em seguida crist茫. Ao passo que, para Dostoi茅vski, a causa da enfermidade n茫o seria sen茫o a condi莽茫o deca铆da do homem por uma perspectiva tradicional-ortodoxa: Ad茫o era perfeitamente livre para pecar ou n茫o pecar.

[103] 鈥淢esmo nossos males vagos, nossas inquietudes difusas, quando degeneram em fisiologia, conv茅m, por um processo inverso, reconduzi-los 脿s manobras da intelig锚ncia. […] Converter os venenos imediatos em valor de troca intelectual, elevar 脿 fun莽茫o de instrumento a corrup莽茫o sens铆vel, ou cobrir por meio de normas a impureza de todo sentimento e de toda sensa莽茫o, 茅 uma busca de eleg芒ncia necess谩ria ao esp铆rito, comparada 脿 qual a alma 鈥 essa hiena pat茅tica 鈥 茅 apenas profunda e sinistra. […] A teoria espreita e capta nossos venenos: e os faz menos nocivos. 脡 uma degrada莽茫o para o alto, pois o esp铆rito, amante das vertigens puras, 茅 inimigo das intensidades.鈥 CIORAN, Emil. 鈥淥 veneno abstrato鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 36.

[104] Idem. Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1171 (tradu莽茫o nossa).

[105] Idem. 鈥淥disseia do rancor鈥, Hist贸ria e utopia, p. 92.

[106] Idem. Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1177 (tradu莽茫o nossa).

[107] DOSTOI脡VSKI, Fi贸dor. Mem贸rias do subsolo, p. 48.

[108] CIORAN, Emil. 鈥淎 idade de ouro鈥, Hist贸ria e utopia, p. 133.

[109] Idem. 鈥淓xegese da decad锚ncia鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 25.

[110] Idem. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres, p. 1275 (tradu莽茫o nossa).

[111] DOSTOI脡VSKI, Fi贸dor. Mem贸rias do subsolo, p. 34-35.

[112] CIORAN, Emil. 鈥淎 idade de ouro鈥, Hist贸ria e utopia, p. 132.

[113] 鈥淥 que nos distingue de nossos antepassados 茅 nossa petul芒ncia em face do Mist茅rio. N贸s at茅 o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo鈥︹ Idem. Silogismos da amargura, p. 20.

[114] Idem. 鈥淪er l铆rico鈥, Nos cumes do desespero, p. 18.

[115] Idem. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres, p. 1318 (tradu莽茫o nossa).

[116] Idem. 鈥淩encontres avec le suicide鈥, Le mauvais d茅miurge, in: 艗uvres, p. 1214 (tradu莽茫o nossa).

[117] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1214 (tradu莽茫o nossa).

[118] Idem. 鈥淥 animal indireto鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 32-33.

[119] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1071 (tradu莽茫o nossa).

[120] Idem. 鈥淕enealogia do fanatismo鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 13.

[121] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1075 (tradu莽茫o nossa).

[122] Idem. Ibid., p. 1076 (tradu莽茫o nossa).

[123] Idem. Ibid., p. 1075 (tradu莽茫o nossa).

[124] Idem. 鈥淰aria莽玫es sobre a morte I鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 18.

[125] Idem. 鈥淥 animal indireto鈥, Ibid., p. 33.

[126] Assim, por exemplo: 鈥淧or que truque o que parece ser escapou ao controle do que n茫o 茅? Bastou um momento de desaten莽茫o, de fraqueza no seio do Nada: as larvas se aproveitaram; uma lacuna em sua vigil芒ncia: e aqui estamos. E assim como a vida suplantou o nada, foi suplantada, por sua vez, pela hist贸ria: assim, a exist锚ncia embrenhou-se em um ciclo de heresias que minaram a ortodoxia do nada.鈥 Idem. 鈥淥 cen谩rio do saber鈥, Ibid., p. 146.

[127] Idem. 鈥淥 aut么mato鈥, Ibid., p. 110.

[128] Idem. 鈥淕enealogia do fanatismo鈥, Ibid., p. 11.

[129] Idem. 鈥淢ecanismos da utopia鈥, Hist贸ria e utopia, p. 107.

[130] Idem. 鈥淎 R煤ssia e o v铆rus da liberdade鈥, Ibid., p. 37.

[131] Idem. Silogismos da amargura, p. 67.

[132] Idem. 鈥淟鈥檃rbre de vie鈥, La chute dans le temps, in: 艗uvres, p. 1077 (tradu莽茫o nossa); assim tamb茅m, 鈥渘茫o se pode pronunciar a palavra ser, com ou sem mai煤scula, sem provar com isso que se 茅, 脿 sua maneira, um crente. Pois 茅 preciso ter disposi莽玫es religiosas para poder proferir com convic莽茫o, com seguran莽a, um voc谩bulo tal. Talvez seja mesmo necess谩rio crer para simplesmente dizer de algu茅m ou de um objeto que ele 茅 isto ou aquilo, pois este particular remete automaticamente a .鈥 Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 911 (tradu莽茫o nossa).

[133] 鈥淥 t茅dio nos revela uma eternidade que n茫o 茅 a supera莽茫o do tempo, mas sua ru铆na; 茅 o infinito das almas corrompidas por falta de supersti莽玫es: um absoluto insosso onde nada mais impede as coisas de girar em c铆rculos em busca de sua pr贸pria queda. A vida se cria no del铆rio e se desfaz no t茅dio.鈥 Idem. 鈥淒esarticula莽茫o do tempo鈥, Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 22.

[134] 鈥淯m zo贸logo que, na 脕frica, observou de perto os gorilas, se espanta com a uniformidade de sua vida e com sua grande desocupa莽茫o. Horas e horas sem fazer nada… N茫o conhecem, portanto, o t茅dio?

Essa 茅 a t铆pica pergunta de um homem, de um macaco ocupado. Longe de fugir da monotonia, os animais a buscam, e o que eles mais temem 茅 v锚-la cessar. Pois ela s贸 cessa para ser substitu铆da pelo medo, causa de todo atarefamento.

A ina莽茫o 茅 divina. Contudo, 茅 contra ela que se insurge o homem. Apenas ele, na natureza, 茅 incapaz de suportar a monotonia, apenas ele quer, a todo custo, que algo aconte莽a, n茫o importa o qu锚. Por isso, ele se mostra indigno de seu ancestral: a necessidade de novidade 茅 a caracter铆stica de um gorila extraviado.鈥 Idem. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 艗uvres, p. 1388 (tradu莽茫o nossa).

[135] Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 22.

[136] Idem. 鈥淎pr猫s l鈥檋istoire鈥, 脡cart猫lement, in: 艗uvres, p. 1426 (tradu莽茫o nossa).

[137] Idem. 鈥淢ecanismos da utopia鈥, Hist贸ria e utopia, p. 108.

[138] Idem. 鈥淓scola de tiranos鈥, Ibid., p. 58.

[139] Idem. 鈥淥 t茅dio dos conquistadores鈥, Ibid., p. 108-109.

[140] Cf. NEIMAN, Susan. O mal no pensamento moderno: uma hist贸ria alternativa da filosofia. Rio de Janeiro: Difel, 2003.

[141] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 643 (tradu莽茫o nossa).

[142] 鈥淣茫o 茅 f谩cil falar de Deus quando n茫o se 茅 nem crente nem ateu: e esse 茅 sem d煤vida o drama de todos n贸s, incluindo-se os te贸logos, o de n茫o poder mais ser nem um nem outro.鈥 Idem. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: uvres, p. 1315 (tradu莽茫o nossa).

[143] Idem. 鈥溍妜tase鈥, Nos cumes do desespero, p. 51.

[144] Idem. Le cr茅puscule des pens茅es, in: 艗uvres, p. 434 (tradu莽茫o nossa).

[145] JARRETY, Michel. La morale dans l鈥櫭ヽriture: Camus, Char, Cioran, p. 114 (tradu莽茫o nossa).

[146] CIORAN, Emil. Entretien avec L茅o Gillet, in: Entretiens, p. 71-72 (tradu莽茫o nossa).

[147] Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 536 (tradu莽茫o nossa).

[148] Idem. 鈥淩elendo…鈥, Exerc铆cios de admira莽茫o: ensaios e perfis, p. 126.

[149] Cf. EHRENFELD, David. A arrog芒ncia do humanismo. Trad. de 脕lvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

[150] CIORAN, Emil. Entretien avec L茅o Gillet, in: Entretiens, p. 82 (tradu莽茫o nossa).

[151] TIFFREAU, Philippe. Cioran ou la dissection du gouffre, p. 28, apud: MODREANU, Simona. Le Dieu paradoxal de Cioran, p. 19 (tradu莽茫o nossa).

[152] JAUDEAU, Sylvie. Cioran ou le dernier homme, p. 116 (tradu莽茫o nossa).

[153] CIORAN, Emil. 鈥淎 idade de ouro鈥, Hist贸ria e utopia, p. 141-142.

Les nuits blanches de Cioran (R. Jaccard)

La fadeur du suicide

Au cours de ces nuits blanches 脿 Sibiu, Cioran se fit le g茅ographe de ses propres effondrements, il apprit 脿 saisir en lui-m锚me le d茅mon. Sa philosophie, ” infest茅e ” par son moi, se devait d茅sormais d’锚tre une exploration des trois grandes hantises de l’homme : la maladie, la solitude et la folie (” Le pressentiment de la folie se double de la peur de la lucidit茅 dans la folie, la peur des moments de retour 脿 soi, o霉 l’intuition du d茅sastre risque d’engendrer une folie encore plus grande. C’est pourquoi il n’y a pas de salut par la folie. On aimerait le chaos, mais on a peur de ses lumi猫res. “)

Apr猫s un tel rugissement de d茅sespoir, m锚me le suicide para卯t plein de fadeur. Exacerb茅e, la lucidit茅 va plus loin que le suicide : elle crucifie celui qui se donne 脿 elle, mais elle lui laisse la vie sauve et des nuits blanches pour laver ses blessures.

Cioran voulait 锚tre le cobaye de sa philosophie. C’est cette h芒te de s’茅corcher, cette impatience de d茅couvrir le pire, qui donnent 脿 son premier livre une “sinc茅rit茅 infernale “. Sur les cimes du d茅sespoir est 脿 l’oeuvre de Cioran ce que les M茅moires 茅crits dans un souterrain sont 脿 celle de Dosto茂evski : le r茅cit d’un ratage qui sauve. La formule de l’homme souterrain : ” Une conscience clairvoyante, je vous assure, messieurs, c’est une maladie, une maladie tr猫s r茅elle “, on croit entendre Cioran la prononcer avec l’accent des Carpates.

Commencer une oeuvre par l’affirmation : je suis perdu pour la vie et j’ai perdu foi en la philosophie, tel est le paradoxe de Cioran. C’est pourtant ce reniement de soi, ce geste d’autodestruction, qui permet l’oeuvre 脿 venir. Le sentiment de rupture totale, la n茅gativit茅 forcen茅e, le d茅sir inou茂 de d茅vastation, ouvrent la voie au d茅tachement.

Plus tard, quand il commen莽a d’茅crire en fran莽ais, Cioran loua, chez le moraliste id茅al, l’homme capable de lyrisme et de cynisme, d’exaltation et de froideur, habile 脿 rassembler sous les m锚mes cieux Rousseau et Laclos, Vauvenargues et Sade.

Aux nuits blanches de Sibiu devaient succ茅der les nuits blanches du Luxembourg. Cioran abandonna le roumain. Sur les cimes du d茅sespoir, ce suicide hallucin茅, lui avait permis de faire la connaissance des gouffres. Si, tel un fauve qui se camoufle, il adopta la langue fran莽aise, ce fut, de son propre aveu, dans le souci de concilier l’enfer et le tact.

ROLAND JACCARD
漏 Le Monde 1999
Le 30 Mars 1990

Une effrayante insomnie (a propos de Levinas)

Par Olivier Abel

Emmanuel L茅vinas parle de l’insomnie 脿 plusieurs reprises, mais comme en passant, et il ne s’agit certes pas d’un th猫me central de son oeuvre. De la m锚me mani猫re cependant qu’un regard lat茅ral et flottant per莽oit des choses qu’un regard directement focalis茅, sur un visage par exemple, ne voit pas, il m’est apparu que ce th猫me secondaire manifestait bien la fulgurance de l’intuition philosophique qui caract茅rise L茅vinas. La question n’est d’ailleurs pas si anodine, de nos jours. Pourquoi tant d’insomnies? Quand avons-nous perdu le secret du sommeil? L’int茅r锚t de la m茅ditation de L茅vinas sur l’insomnie est de nous montrer qu’avant de la soigner par la chimie*, il n’est pas inutile de l’entendre un peu, de la prendre au s茅rieux sur ce qu’elle dit de nous tous, et de notre rapport 脿 l’existence.

Pourquoi tant d’insomnies? Mais aussi: pourquoi tant de lassitude? Et quand avons-nous perdu le secret de l’action? Pourquoi avons-nous 脿 ce point besoin de drogues pour le moindre repos, comme pour la moindre activit茅? Il est probable que la seule mani猫re de bien traiter cette question de l’insomnie consiste 脿 lier son sort 脿 celui de l’action, la capacit茅 脿 agir vivement supposant la capacit茅 脿 dormir tranquillement. Celui qui jamais n’agit, qui jamais ne se fatigue ni ne s’oublie dans le poids d’actes qui soient proprement ses actes et augmentent sa capacit茅 脿 agir, celui qui n’a jamais la chance de “faire” quelque chose, comment voulez-vous qu’il puisse dormir? Et celui qui se mobilise sans cesse pour la moindre chose, dans une vigilance constante o霉 il ne s’abandonne jamais au sommeil, sera-t-il encore 茅veill茅 quand le moment viendra d’intervenir? Nous avons peur du sommeil, et nous sommes lass茅s de l’action, et c’est ainsi que nous sommes pris dans le cercle vicieux entre l’activisme anxieux qui multiplie les oeuvres et les performances*, et le d茅couragement de plus en plus g茅n茅ral d’锚tre d茅soeuvr茅, inemploy茅 et inutile… [+]

A farm谩cia dos venenos que curam: escritura fragment谩ria e terap锚utica na obra de Emil Cioran

Rodrigo I. R. S谩 Menezes

(doutorando PUC-SP/Capes)

Ainda que eu tenha jurado nunca pecar contra a santa concis茫o,
sigo sendo c煤mplice das palavras e, apesar de que o sil锚ncio me seduz,
n茫o me atrevo a adentr谩-lo, apenas perambulo por suas periferias.
Emil Cioran

“Su 茅tica no era el pesimismo, sino un estado de alerta contra el
enga帽o; no el nihilismo, sino la reverencia de lo real. (…)
Su mundo, una s铆ntesis de los contrasentidos de la raz贸n… ”
Marcelo Cohen, a prop贸sito de Samuel Beckett.

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de algu茅m,
provavelmente a minha pr贸pria.
Clarice Lispector

Desde sempre, a filosofia se constituiu em intera莽茫o com outras disciplinas, em rela莽茫o com as quais ela define sua identidade. O discurso filos贸fico sempre esteve perpassado de historicidade (toda filosofia 茅 fruto de sua 茅poca) e, por isso, n茫o s茫o nada evidentes as fronteiras que o separam dos discursos po茅tico e ret贸rico. Talentoso poeta, al茅m de fil贸sofo, Plat茫o teria sido o maior proponente de certa vis茫o de que filosofia e poesia s茫o irredutivelmente opostas聽e que a primeira possuiria o privil茅gio de falar em nome da 鈥渧erdade鈥, enquanto que segunda estaria limitada a comunicar fic莽玫es, priorizando o bem-dizer em detrimento de toda objetividade real; a poesia, para Plat茫o, n茫o passaria de uma imita莽茫o (m铆mesis) em terceiro grau daquela que seria a verdadeira realidade intelig铆vel. N茫o por menos, no livro X da Rep煤blica testemunhamos a condena莽茫o e a expuls茫o, por Plat茫o, dos poetas, por representarem uma m谩 influ锚ncia aos atenienses; na p贸lis ideal, os poetas n茫o poderiam ter nenhum papel pedag贸gico, j谩 que a poesia faz as pessoas tomarem o que n茫o 茅 pelo que 茅, as apar锚ncias pela verdadeira realidade, intelig铆vel e invis铆vel.

Considerando o panorama hist贸rico desta problem谩tica 鈥 a saber, dos questionamentos rec铆procos entre filosofia e literatura, bem como seus poss铆veis pontos de intersec莽茫o 鈥 proponho analisar, em termos de uma est茅tica filos贸fica, a obra do pensador romeno radicado na Fran莽a, Emil Cioran. O objetivo 茅 iluminar a natureza espec铆fica da obra de Cioran e o seu sentido, para entender o que ele tem a dizer, e o modo como o diz (seu discurso enquanto escritor). Para tanto, pretendo analisar sua obra (nenhum livro em particular) tendo em mente uma interface discursiva entre filosofia e literatura, conceito e met谩fora.

Cioran escreveu e publicou mais de uma dezena de livros, em romeno e em franc锚s. Bastante para quem viveu pondo em xeque o sentido e o valor da escrita. J谩 no final da vida, ele diria: 鈥淯m 煤nico livro teria bastado.鈥 Pelo visto, n茫o bastou. Ap贸s o primeiro deles, o jovem universit谩rio em Bucareste prometeria a si mesmo: 鈥渆ste ser谩 o 煤ltimo鈥. Promessa feita, promessa descumprida. Por que tanta contradi莽茫o? Escrever por qu锚? Para dizer o qu锚? Numa entrevista, ele explica:

脡 uma quest茫o de obsess茫o. Minha obra 鈥 como essa palavra me d谩 n谩useas 鈥 nasceu de raz玫es m茅dicas, terap锚uticas. Se o que eu fa莽o 茅 apenas escrever o mesmo livro, 脿 margem das mesmas obsess玫es, 茅 por ter constatado que isso me libertava de algum modo. Eu realmente escrevi por necessidade. A literatura, a filosofia, sei l谩 eu, n茫o passaram de um pretexto para mim. O ato de escrever como terap锚utica, isso 茅 o essencial.[1]

A escritura, para Cioran, consiste em um exerc铆cio do esp铆rito, uma atividade da alma, interior e solit谩ria, motivada por necessidades existenciais prementes. Exerc铆cio que possuiria, alegadamente, um efeito 鈥渓ibertador鈥: trata-se, com efeito, de uma 鈥渢erap锚utica鈥 sui generis, adotada por 鈥渞az玫es m茅dicas鈥, e cuja natureza discursiva se inscreve em um espa莽o, indeterminado e incerto, a meio caminho entre a filosofia e a literatura (鈥渟ei l谩 eu鈥). Pouco importa, em realidade, ser fil贸sofo ou literato, fazer filosofia ou literatura; isso 茅 secund谩rio, um 鈥減retexto鈥 para dedicar-se a uma escritura de si, despreocupada com padr玫es discursivos, mediante a qual Cioran verte no papel suas obsess玫es e suas ideias. A 鈥渙bra鈥 de Cioran (como ele odeia essa palavra) seria n茫o tanto uma obra, propriamente falando, quanto um subproduto, um epifen么meno secund谩rio dessa atividade terap锚utico-libertadora. O que interessa, o que importa para ele s茫o as experi锚ncias pessoais vividas, a Erlebnis do indiv铆duo vivente e existente, de onde o car谩ter autobiogr谩fico e subjetivo de seus escritos. Suas ideias (para n茫o dizer 鈥渙bsess玫es鈥) n茫o constituem uma teoria l贸gica, um sistema de pensamento; seu pensamento n茫o 茅 dial茅tico nem conceitual e nem, por assim dizer, “progressivo”, no sentido de uma teoria elaborada com vistas a um聽telos eid茅tico. Como o pr贸prio Cioran afirma, tudo o que ele fez, do come莽o ao fim, foi escrever o mesmo livro, 鈥溍 margem das mesmas obsess玫es鈥, como varia莽玫es sobre os mesmos temas revisitados do primeiro ao 煤ltimo livro (e 脿s vezes em um mesmo livro) por diferentes 芒ngulos. Neste sentido, a 鈥渙bra鈥 cioraniana, enquanto produto dessa din芒mica padecimento-cura, 茅 necess谩ria n茫o em si mesma, mas porque a terap锚utica que Cioran descobre no ato de escrever, isso sim 茅 necess谩rio 鈥 em fun莽茫o do fardo, da melancolia, do t茅dio da exist锚ncia. 鈥淣a vida do esp铆rito chega um momento em que a escritura, erigindo-se em princ铆pio aut么nomo, se converte em destino鈥.[2] Al茅m disso, 鈥渟贸 merece indulg锚ncia o literato necessitado, o escravo, o for莽ado da pena. Em todo caso, j谩 n茫o h谩 mais nada a se聽construir,聽nem em literatura nem em filosofia鈥.[3]. A fal锚ncia da no莽茫o de verdade absoluta, de uma inst芒ncia 煤ltima e unificadora da realidade, o Ser, a Ess锚ncia, a Subst芒ncia, Deus, etc. (a assim chamada “crise da metaf铆sica”, de onde o niilismo moderno diagnosticado por Nietzsche), implica uma redefini莽茫o das quest玫es fundamentais a ocupar o pensamento: 鈥溾楺ue 茅 a verdade?鈥 茅 uma pergunta fundamental, mas 铆nfima se comparada com: 鈥楥omo suportar a vida?鈥, a qual empalidece ao lado desta: 鈥楥omo suportar-se a si mesmo?鈥欌.[4] Ali谩s, 鈥渟贸 podemos escolher entre verdades irrespir谩veis e supersti莽玫es saud谩veis鈥, e 鈥渁penas as verdades que nos impedem de viver merecem o nome de verdades, pois, superiores 脿s exig锚ncias do vivente, n茫o condescendem a ser nossas c煤mplices鈥.[5]

Por que tudo isso? De que padecimento se trata, na origem da escritura cioraniana? Seu primeiro livro, Nos cumes do desespero (1934), foi gestado em meio a intermin谩veis crises de ins么nia. O sentimento de inadaptabilidade 脿 exist锚ncia se consuma, ent茫o, nessa experi锚ncia cujos ecos se far茫o ouvir no sempiterno mal-estar experimentado pelo insone Cioran. Desde a ins么nia, o desespero dos momentos de suprema agonia deve ser conjurado mediante varia莽玫es escritas sobre o desespero, enquanto se tenta enxerg谩-lo pelas mais variadas perspectivas. 鈥淥 segredo de minha adapta莽茫o 脿 vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa鈥.[6] A experi锚ncia da ins么nia, marcada por uma ambival锚ncia que a torna ao mesmo tempo uma ben莽茫o e uma maldi莽茫o, transfigura Cioran, sendo, como ele mesmo insiste, determinante para moldar sua vis茫o das coisas. Se ele j谩 possu铆a, previamente, uma propens茫o ao pessimismo 鈥 n茫o apenas por donn茅s vecus como a perda do 鈥減ara铆so de inf芒ncia鈥,[7] mas tamb茅m por raz玫es puramente filos贸ficas 鈥, a ins么nia s贸 faz confirmar este pessimismo. Mas Cioran se recusa a etiqueta de pessimista, preferindo o termo 鈥渓煤cido鈥. A lucidez 茅 uma no莽茫o, dir-se-ia mesmo um conceito fundamental em sua obra, a partir da qual se desdobra todo seu pensamento, do primeiro ao 煤ltimo livro. Vejamos.

A lucidez 茅, por princ铆pio, negativa, pois revela o sem-sentido da vida, a falta de finalidade da exist锚ncia, o absurdo do mundo, a transitoriedade e a efemeridade de todas as coisas. 脡 uma vis茫o aniquiladora que desilude, desfascina, decepciona (e, por isso mesmo, liberta), por revelar o vazio essencial que cerca o ser humano e o habita. Ela n茫o pressup玫e uma disposi莽茫o subjetiva em que predomine a raz茫o suficiente, mas um estado de esp铆rito extremo, lim铆trofe, dir-se-ia mesmo patol贸gico, uma consci锚ncia exasperada por si mesma, por sua pr贸pria hipertrofia, uma raz茫o alucinada, nas cercanias do desespero e da loucura 鈥 ainda assim, uma loucura l煤cida, uma embriaguez consciente de si, no mais alto grau. 鈥淣este 鈥榞rande dormit贸rio鈥, como um texto tao铆sta chama o universo, o pesadelo 茅 煤nica forma de lucidez鈥. Pela mesma ambival锚ncia que caracteriza a ins么nia, a lucidez liberta e condena ao mesmo tempo, ela 茅 鈥渙 煤nico v铆cio que nos torna livres 鈥 livres聽em um deserto鈥.[8]

Por fim, a ins么nia, geradora de uma lucidez infernal 鈥 ponto de chegada do homem que leva o conhecimento 脿s 煤ltimas consequ锚ncias 鈥 implica tamb茅m uma decep莽茫o e uma ruptura com a filosofia, suas teorias e sua linguagem conceitual, por ela ser demasiadamente l贸gica, demasiadamente sensata, suport谩vel e otimista, ademais, em rela莽茫o ao poder da raz茫o de alcan莽ar o absoluto. A lucidez 茅 a raz茫o que se volta contra si mesma e afunda, caindo em parafusos. Nos cumes do desespero 茅 escrito quando o 鈥淎deus 脿 filosofia鈥 (t铆tulo de um aforismo do Brevi谩rio de decomposi莽茫o, de 1949) j谩 havia se consumado, ap贸s um per铆odo de intenso entusiasmo pela filosofia com sua linguagem t茅cnica e conceitual (sobretudo a de Heidegger, mas tamb茅m Kant e Hegel). Cioran d谩 adeus 脿 filosofia 鈥渘o momento em que ser tornou imposs铆vel para mim descobrir em Kant alguma fraqueza humana, algum acento de verdadeira tristeza. Comparada 脿 m煤sica, 脿 m铆stica e 脿 poesia, a atividade filos贸fica prov茅m de uma seiva diminu铆da e de uma profundidade suspeita, que guardam prest铆gios somente para os t铆midos e os t铆bios鈥.[9] As revela莽玫es da ins么nia denunciam a 鈥渋nanidade da filosofia鈥:

O fen么meno capital, o desastre por excel锚ncia, 茅 a vig铆lia ininterrupta, esse nada sem tr茅gua. […] A ins么nia 茅 uma lucidez vertiginosa que converteria o para铆so em um lugar de tortura. Tudo 茅 prefer铆vel a este estado permanentemente desperto, a esta aus锚ncia criminal de esquecimento. Foi durante estas noites infernais que compreendi a inanidade da filosofia. As horas de vig铆lia s茫o, no fundo, uma intermin谩vel rejei莽茫o do pensamento pelo pensamento, 茅 a consci锚ncia exasperada por ela mesma, uma declara莽茫o de guerra, um ultimato infernal que o esp铆rito lan莽a sobre si. A caminhada impede que fiquemos retornando sempre 脿s interroga莽玫es sem resposta, enquanto que na cama remoemos o insol煤vel at茅 a vertigem.[10]

A ins么nia 茅 uma inicia莽茫o ao que Cioran designa como o 鈥淓ssencial鈥 (a mai煤scula 茅 dele): uma zona profunda do ser em que 鈥渢oda interroga莽茫o parece acidental e perif茅rica鈥, onde 鈥渙 esp铆rito busca problemas sempre mais vastos鈥 e 鈥渏谩 n茫o trope莽a em nenhum objeto, apenas no obst谩culo difuso do Vazio鈥.[11] Gra莽as 脿 ins么nia, ou por sua culpa, Cioran descobre outra esp茅cie de 鈥減rofundidade鈥 (uma profundidade aut锚ntica, pois 鈥渋nfinita鈥) que n茫o aquela da filosofia (鈥減rofundidade suspeita鈥); trata-se da profundidade do lirismo, caracter铆stica do 鈥減ensador org芒nico existencial鈥 (para quem 鈥渁s verdades s茫o vivas, derivadas 鈥渄e uma tortura 铆ntima e de uma afec莽茫o org芒nica鈥), em oposi莽茫o ao 鈥減ensador abstrato鈥 (鈥渜ue pensa pelo prazer de pensar e para quem as verdades resultam de 鈥渦ma especula莽茫o in煤til e gratuita鈥[12]). 脌 oposi莽茫o entre o pensador org芒nico e o pensador abstrato, entre a profundidade org芒nica, l铆rica e infinita (vizinha da poesia), e a profundidade te贸rico-especulativa da filosofia, corresponde a oposi莽茫o entre dois tipos distintos de 鈥渟eriedade鈥: uma org芒nica, l铆rica, 聽po茅tica, subjetiva; a outra, abstrata, conceitual, especulativa, objetiva. 聽S贸 o pensador org芒nico seria capaz dessa seriedade infinita, para quem 鈥溍 infinitamente mais importante a quest茫o do sofrimento do que a do silogismo鈥, e que prefere, 鈥渕il vezes, 脿 abstra莽茫o vazia, a reflex茫o gerada por uma efervesc锚ncia sexual ou por uma depress茫o nervosa鈥.[13] O lirismo 鈥 tra莽o marcante na obra romena de Cioran, mas que ser谩 modulado e filtrado em sua fase francesa 鈥 茅 uma disposi莽茫o subjetiva voltada 脿 vida interior do esp铆rito, com toda sua profundidade an铆mica, uma atitude cultivada mediante a introspec莽茫o em dire莽茫o 脿s zonas profundas do pr贸prio ser. Dito isso, ele conceber谩, em Nos cumes do desespero, o ideal de uma 鈥渇ilosofia l铆rica鈥, uma modalidade de filosofia 鈥渆m que a ideia tem ra铆zes org芒nicas, t茫o org芒nicas quanto a poesia鈥. 脡 aqui que o subjetivismo l铆rico toca a quest茫o do 鈥淓ssencial鈥, que ser谩 problematizada anos depois, no Brevi谩rio: 鈥淥 paroxismo da interioridade e da viv锚ncia nos leva a uma regi茫o onde o perigo 茅 extremo, pois a exist锚ncia, ao atualizar suas pr贸prias ra铆zes na vivencia como uma consci锚ncia tensionada, s贸 pode negar a si pr贸pria鈥[14] (Nos cumes do desespero). O caminho em dire莽茫o ao Essencial nos conduz ao Vazio, a um 鈥渆spa莽o sem horizonte鈥 em que as perguntas e as respostas se equivalem em sua nulidade, onde impera a aus锚ncia de formas, objetos, sentidos, finalidades 鈥 uma indetermina莽茫o infinita. Este vazio essencial, irrealidade paradoxal, 茅, segundo Cioran, o ponto final do pensamento que se entrega 脿 interroga莽茫o infinita e ao infinito da interroga莽茫o. 鈥淚nfeliz daquele que, chegado a um certo momento do essencial, n茫o se deteve!鈥,[15] exclama o autor, pois 鈥渢odo problema, quando se toca seu fundo, leva 脿 bancarrota e deixa o intelecto a descoberto鈥. Enfim, o Essencial, e o caminho que a ele conduz, n茫o leva a lugar nenhum, mas ao Vazio. Uma busca infrut铆fera, fadada ao fracasso e ao desastre. Se subimos o 煤ltimo degrau em dire莽茫o ao essencial, 鈥渁qui o fil贸sofo nos abandona: inimigo do desastre, ele 茅 sensato como a raz茫o, e t茫o prudente quanto ela鈥.[16]

Pensador antirracionalista, herdeiro do romantismo alem茫o, de Schopenhauer e de Nietzsche, Cioran 茅 um cr铆tico da raz茫o; a verdade, o absoluto s贸 pode ser alcan莽ado 鈥 se puder ser alcan莽ado 鈥 pela sensa莽茫o, ou, antes, por um conhecimento intuitivo e experiencial 鈥 quase m铆stico 鈥 do fundo irracional, sem fundamento (grundlos), do ser humano e do ser enquanto tal (as 鈥渞a铆zes da vida鈥). A experi锚ncia da lucidez lhe ensina que conhecer e compreender n茫o s茫o a mesma coisa: compreender 茅 da al莽ada da sensa莽茫o, da emo莽茫o, n茫o da raz茫o: 鈥淪贸 h谩 um sinal de que se compreendeu tudo: chorar sem motivo鈥.[17] Ademais, a lucidez 茅 determinante para definir a concep莽茫o cioraniana da escritura: uma ocupa莽茫o que exige, para al茅m da faculdade intelectiva ordenadora, o concurso da pot锚ncia an铆mica como um todo, com suas paix玫es, del铆rios, medos, fraquezas, etc. 鈥 tudo aquilo que haveria de 鈥減rofundo鈥, e alheio 脿 raz茫o, na alma.

N茫o se trata apenas de buscar a verdade, mas tamb茅m de cultivar as ilus玫es, as apar锚ncias, as sombras, o engano, o equ铆voco. A escritura s贸 vale a pena se puder exprimir a totalidade e a complexidade da experi锚ncia humana, como um exerc铆cio que se serve da raz茫o ordenadora mas que n茫o se prende a ela; al茅m disso, a escritura s贸 茅 poss铆vel gra莽as a nossos conflitos internos, 脿s contradi莽玫es que nos individualizam; deve ser, necessariamente, um exerc铆cio pessoal聽 e intimista, e ao mesmo tempo superficial, fr铆volo, um fazer intelectual marcado pela altern芒ncia entre a sinceridade e a ironia, entre a profundidade e a superficialidade. Pela recusa de definir-se, em 煤ltima inst芒ncia, como um discurso filos贸fico ou um discurso po茅tico, pela nega莽茫o 鈥 em nome do imperativo de um diletantismo fr铆volo 鈥 de aderir definitivamente 脿 filosofia ou 脿 literatura, Cioran cultiva a indefini莽茫o, a hibridez, a mistura, a ambiguidade, a confus茫o. 脡 no paradoxo, ponto final do da busca do conhecimento, que o ser humano se reconhece. E isso, para Cioran, n茫o 茅 uma fraqueza ou defici锚ncia, mas, ao contr谩rio, sinal de vigor e de probidade intelectual.

O pensador org芒nico, 鈥減ensador de ocasi茫o鈥,[18] n茫o se especializa em nenhum tema espec铆fico, em nenhum setor determinado do saber, em nenhuma doutrina filos贸fica ou outra; 茅 todo o contr谩rio do pensador 鈥減rofissional鈥, seja ele fil贸sofo ou cientista; o lema cioraniano 茅 ser 鈥渦m militante do vago, um entusiasta do talvez鈥, realizar o ideal de um diletante perfeito que milita na causa da d煤vida (principalmente quando voltada a si mesmo[19]) e da indefini莽茫o, um diletante que cultiva o ceticismo, a frivolidade e a ironia. 鈥淪e eu tivesse de renunciar ao meu diletantismo, me especializaria no uivo鈥, diz ele em Silogismos da Amargura.[20]

Quanto a seus temas prediletos (dir-se-ia suas 鈥渙bsess玫es鈥, suas 鈥渋deias fixas鈥), sobre os quais ele varia o olhar a cada livro, a cada aforismo, eles consistem em tudo aquilo que lhe concerne enquanto indiv铆duo existente, enquanto 鈥渉omem de carne e osso鈥 (para emprestar a express茫o do fil贸sofo existencialista-crist茫o e tr谩gico, Miguel de Unamuno), indiv铆duo concreto que nasce, vive, envelhece, morre, e que tamb茅m quer, necessita, ama, odeia, sofre, conquista, perde, enfim, que experimenta a felicidade e a tristeza, a sa煤de e a doen莽a, o prazer e a dor, a presen莽a e a aus锚ncia, os altos e baixos, as vicissitudes e reviravoltas da exist锚ncia. Segundo o fil贸sofo alem茫o Peter Sloterdijk, Cioran 鈥渄esenvolve precocemente uma grade relativamente simples de seis ou oito temas a partir dos quais ele analisa minuciosamente seus estados 脿 deriva para chegar a cada vez, desde um ponto de experi锚ncia, a um n贸 tem谩tico que lhe corresponde鈥. S茫o basicamente os mesmos temas abordados do primeiro ao 煤ltimo livro. Entre os privilegiados, o t茅dio e a melancolia, a doen莽a e a sa煤de, o mal, o sofrimento e a morte, Deus, a religi茫o, a m铆stica, o suic铆dio, o tempo, a hist贸ria e a eternidade, a m煤sica, o 锚xtase, o amor.

Essa grade de temas seria, na verdade, um pretexto para pensar e escrever sobre si mesmo, ou, antes, para observar a regra de ouro filos贸fica em que consiste 鈥減ensar contra si鈥: uma disposi莽茫o intelectual que nega a indulg锚ncia para com o ego, que recusa as demandas e expectativas do eu, voltando a d煤vida contra si mesmo e pondo-a a servi莽o da inseguran莽a e da vertigem. Um ceticismo de princ铆pio que se oferece como m茅todo de autoquestionamento contra as falsas certezas, confiantes em si mesmas, do eu. Este pensar sobre-contra si nos leva 脿 quest茫o do elemento autobiogr谩fico da escritura de Cioran: escrever sobre-contra si mesmo, expor sua alma, exibir suas chagas, sem nenhum prurido de vergonha. Sloterdijk diz que, em Cioran, 鈥渁 sinceridade se torna um modo de escritura da aus锚ncia de cuidado para consigo mesmo. Doravante n茫o se pode tornar-se autobi贸grafo sem ser autopat贸grafo 鈥 isto 茅, sem tornar p煤blico seu registro de doen莽as.鈥 Ser sincero at茅 a indec锚ncia, eis o que importa; expor demais, sim, mas nunca tudo, e, sobretudo, nunca de maneira un铆voca ou objetiva: 鈥淩egra de ouro: deixar uma imagem incompleta de si鈥.[21] Enfim, para Sloterdijk, Cioran realiza aquilo Nietzsche teria definido como um 鈥減rograma que consiste em fundar a 煤ltima possibilidade de respeito a si no desprezo a si鈥 鈥 uma atitude program谩tica e um imperativo 茅tico com vistas a uma probidade intelectual radical, e por isso mesmo aut锚ntica, muito al茅m daquela que seria uma probidade convencional, consequente e sensata, normal, e por isso mesmo falsa.

A probidade radical, a honestidade brutal, a sinceridade elevada ao limite de uma indec锚ncia autoexibicionista, 茅 um imperativo irrevog谩vel na din芒mica escritural de Cioran. Um princ铆pio de parrhesia no sentido de Di贸genes, o C铆nico, poder-se-ia dizer: a verdade (via de regra, negativa, hostis ao existente), custe o que custar 鈥 apesar do outro e, sobretudo, apesar de si mesmo. A quest茫o 茅 que, frequentemente, Cioran recorre a fic莽玫es para comunicar ditas verdades de maneira mais eficiente. Esta atitude, combinada com o m茅todo purgativo em que consiste escrever sobre as pr贸prias obsess玫es, sobre os pr贸prios tormentos, 茅 um elemento fundamental e imprescind铆vel na economia da escritura terap锚utica exercida por Cioran. O signo do ph谩rmakon, met谩fora presente em v谩rios dos di谩logos de Plat茫o, e particularmente no Fedro, para referir-se ao fazer e 脿 coisa escrita, se atravessa toda sua obra. No莽茫o etimologicamente poliss锚mica, signo mais do que amb铆guo uma vez que designa todo um espectro de significa莽玫es, esse ph谩rmakon poderia ser entendido, para preservar sua ambival锚ncia, no sentido de uma droga: rem茅dio e veneno a uma s贸 vez, subst芒ncia que pode curar ou matar, libertar ou viciar, apaziguar ou irritar, sen茫o ambas as coisas ao mesmo tempo, e que encerra seu agente-paciente num c铆rculo vicioso cuja necessidade e gratuidade, beneficio e preju铆zo, vantagem e desvantagem, ganho e perda, s茫o, em 煤ltima inst芒ncia, dif铆ceis de precisar, discernir.

A quest茫o da escritura como um ph谩rmakon 茅 o tema do ensaio de Jacques Derrida intitulado A Farm谩cia de Plat茫o. Ali, Derrida analisa, a partir do texto plat么nico (em especial o Fedro) a ambival锚ncia essencial da escritura enquanto ph谩rmakon 鈥 ambival锚ncia esta que, por implicar perigos que poderiam amea莽ar a sa煤de e o equil铆brio da alma (por conta de seu potencial mal茅fico, pois vicioso), do mesmo jeito que um alimento do corpo o seria para corpo 鈥 teria sido normatizada por Plat茫o em nome de seu ideal filos贸fico, que est谩 na base de sua proposta pedag贸gica, a qual, por sua vez, fundamenta sua politeia ideal. Para tanto, cumpriria expurgar da coisa escrita todo elemento m铆tico de natureza n茫o filos贸fica, n茫o dial茅tica, pela mesma raz茫o que seria preciso expulsar, da rep煤blica perfeita, sofistas e os poetas (sobretudo os tr谩gicos). Ao mesmo tempo, n茫o podemos esquecer que o pr贸prio Plat茫o, al茅m de fil贸sofo, foi um genial poeta, e nunca deixou de recorrer a elementos, artif铆cios, expedientes m铆tico-po茅ticos e extra-filos贸ficos, para garantir a efic谩cia de seu discurso pedag贸gico mediante a devida persuas茫o do ouvinte ou leitor. Enfim, segundo Derrida, Plat茫o teria tido total consci锚ncia do perigo implicado nessa polival锚ncia inerente 脿 coisa escrita enquanto ph谩rmakon, e se aproveitado disso para definir e estabelecer sua concep莽茫o de uma boa escrita, de uma escrita ideal (necessariamente de natureza dial茅tica).

Esse ph谩rmakon, essa 鈥渕edicina鈥, esse filtro, ao mesmo tempo rem茅dio e veneno, j谩 se introduz no corpo do discurso com toda sua ambival锚ncia. Esse encanto, essa virtude de fascina莽茫o, essa pot锚ncia de feiti莽o podem ser 鈥 alternada ou simultaneamente 鈥 ben茅ficas e mal茅ficas. O ph谩rmakon seria uma subst芒ncia, com tudo o que esta palavra possa conotar, no que diz respeito a sua mat茅ria, de virtudes ocultas, de profundidade cr铆ptica recusando sua ambival锚ncia 脿 an谩lise, preparando, desde ent茫o, o espa莽o da alquimia, caso n茫o devamos seguir mais longe reconhecendo-a como a pr贸pria anti-subst芒ncia: o que resiste a todo filosofema, excedendo-o indefinidamente como n茫o-identidade, n茫o-ess锚ncia, n茫o subst芒ncia, e fornecendo-lhe, por isso mesmo, a inesgot谩vel adversidade de seu fundo e de sua aus锚ncia de fundo.[22]

Um fio condutor do ensaio de Derrida 茅 uma pergunta cujas implica莽玫es 茅tico-filos贸ficas teriam levado S贸crates a n茫o escrever nada, a n茫o se envolver com a coisa escrita, a n茫o deixar nenhum registro escrito: qual a necessidade da escrita, tanto mais quanto ela pode ter s茅rias consequ锚ncias, desdobramentos indesejados e adversos, que seriam, afinal, contr谩rios 脿 virtude e ao bem? N茫o necessariamente suscitada pelas mesmas raz玫es, a pergunta que estaria no 芒mago da recusa socr谩tica de escrever tamb茅m se faz presente no discurso cioraniano, flagrando-o em ato no questionamento de si mesmo, de seu sentido e necessidade. A escritura e sua necessidade s茫o question谩veis, segundo ele, uma vez que trai certa necessidade extr铆nseca, heteron么mica, sup茅rflua, mais ou menos an谩loga 脿 ideia nada ortodoxa de que Deus criou o mundo n茫o por livre e espont芒nea vontade, por uma superabund芒ncia de amor, mas porque precisou faz锚-lo, n茫o importa se o motivo tenha sido solid茫o, t茅dio ou mesmo a fraqueza de desejar a adora莽茫o e o louvor de sua criatura principal. Al茅m disso, a coisa escrita seria, tanto para Derrida quanto para Cioran, algo como um 鈥渟uplemento鈥 acess贸rio e, por que n茫o, contr谩rio 脿 vida, ao 鈥logos vivo鈥 em que consiste o discurso oral, que por sua vez seria a voz presente e autorizada a falar em nome do pensamento.

Para Cioran (a exemplo da ep铆grafe assinada por Clarice Lispector), escrevemos, ou ao menos dever铆amos escrever, por uma necessidade vital (uma quest茫o de vida ou morte), para suportarmos o fardo da exist锚ncia enquanto escrevemos sobre a exist锚ncia 鈥 exagero 脿 parte, simplesmente para podermos respirar, j谩 que a realidade imediata, a realidade nua e crua, 茅 sufocante: 鈥淥 Real me d谩 asma鈥, escreve Cioran.[23] Mas ele n茫o ignora que, a essa necessidade imediata de escrever, sobrep玫e-se certo desejo, certa aspira莽茫o ao reconhecimento, 脿 gl贸ria, 脿 fama. Ele mesmo n茫o nega que, consciente ou inconscientemente, este desejo inconfess谩vel tamb茅m impulsione, em alguma medida, seu fazer liter谩rio, por mais que o julgue uma motiva莽茫o deplor谩vel, vergonhosa, cujo foco estaria em coisas sup茅rfluas e inessenciais, objetos outros que n茫o no pr贸prio eu, o qual, por sua vez, deveria ser a preocupa莽茫o e o destino 煤ltimo de toda atividade intelectual sincera.

Por detr谩s dessa quest茫o se esconde toda uma problem谩tica a envolver a dicotomia sucesso-fracasso, problem谩tica esta que se mostra especialmente relevante no registro da modernidade, no qual vigora, em 茅tica como em tudo, o princ铆pio 鈥 demasiado vulgar para Cioran 鈥 do utilitarismo, a come莽ar por aquele em que consiste a efic谩cia do sucesso pessoal. Mas, por certa perspectiva espiritualizante, quase m铆stica todo a fracasso no mundo, a todo fracasso no exterior equivale um ganho no interior, um 锚xito solit谩rio e silencioso, alheio ao mundo e 脿 hist贸ria. N茫o por acaso Cioran admira os m铆sticos crist茫os, que viram as costas 脿 gloria dos homens para cultivar a pretens茫o de aspirar 脿 gl贸ria de Deus. Descrente e her茅tico, na indisponibilidade desta, ou pelo dever de neg谩-la tanto quanto a dos homens (n茫o s茫o t茫o diferentes quanto possa parecer), Cioran aspirou ao papel do Advers谩rio, do Acusador, medindo-se com ele, no plano puramente simb贸lico, em mat茅ria de destrui莽茫o. Em todo caso, heresia 脿 parte, 鈥渜uando cedemos 脿 tenta莽茫o de escrever um livro, pensamos com admira莽茫o naquele rabino hass铆dico que abandonou o projeto de escrever por duvidar de que podia faz锚-lo exclusivamente para seu Criador鈥.[24]O 鈥渇racasso鈥 de viver sem produzir pode ser um sinal (mas n茫o necessariamente) de sabedoria, de clarivid锚ncia, de certa compreens茫o essencial de que produzir, sendo algo f煤til, sup茅rfluo, acess贸rio, denota certa necessidade, certa car锚ncia, certa fraqueza (n茫o apenas no plano moral, como tamb茅m no ontol贸gico). Enfim, os grandes s谩bios da Antiguidade, que nada escreveram, seriam os grandes 鈥渇racassados鈥 de hoje, indiv铆duos sem obras nem realiza莽玫es:

Na antiguidade, o fil贸sofo que n茫o escrevia mas pensava, n茫o se expunha ao聽desprezo; desde que nos prostramos ante a efic谩cia, a obra se converteu no absoluto do聽vulgo; os que n茫o produzem s茫o considerados 鈥渇racassados鈥. No entanto, esses聽鈥渇racassados鈥 teriam sido os s谩bios de outros tempos; eles reabilitar茫o a nossa 茅poca por聽n茫o haver deixado tra莽os nela.[25]

Ademais, s贸 se produz, seja em filosofia ou poesia ou em arte em geral, gra莽as 脿 soma de enganos e ilus玫es que se tem sobre si mesmo e sobre todas as coisas. Lucidez e fecundidade n茫o andam juntas, pois indiv铆duo idealmente l煤cido, logo idealmente 鈥渇racassado鈥, chega a compreender, em meio ao deserto de seu esp铆rito, a gratuidade e a futilidade universais.

S贸 est谩 inclinado a produzir quem se equivoca sobre si mesmo, quem ignora os motivos secretos de seus atos. O criador que chegou a ser transparente para si mesmo deixa de criar. O conhecimento de si indisp玫e o聽dem么nio. 脡 a铆 que se tem de buscar a raz茫o de S贸crates n茫o ter escrito nada.[26]

O fracasso 茅 uma das maiores obsess玫es de Cioran, um tema central e recorrente ao longo de sua obra. A quest茫o enunciada no plano te贸rico n茫o deixa de ter rela莽茫o com alguns fracassos determinados que o autor confessa ter experimentado ao longo da vida: primeiramente, o fracasso de ser romeno (pol铆tico-existencial), de ter nascido em um pa铆s fadado ao fracasso hist贸rico, de pertencer a um povo tr谩gico e inapto 脿 realiza莽茫o; em segundo lugar, o fracasso fisiol贸gico implicado na ins么nia, um fracasso org芒nico e concreto. Ademais, 茅 no fracasso (como na solid茫o) que nos conhecemos verdadeiramente. O fracasso nos revela a n贸s mesmos, nos d谩 acesso ao mais 铆ntimo do nosso ser, 脿 medida que projeta, numa escala menor, o fracasso geral em que consiste ser, sobretudo ser humano. Ao contr谩rio do sucesso, que nos faz equivocar sobre n贸s mesmos, sobre nossos m茅ritos e nossos talentos, na medida em que falseia a percep莽茫o das coisas e, particularmente, de n贸s mesmos. Fracasso e conhecimento costumam caminhar juntos:

Enquanto um ser ascende, prospera, avan莽a, n茫o se sabe quem ele 茅, pois sua ascens茫o o afasta de si mesmo, rouba-lhe realidade, e assim ele n茫o 茅. Do mesmo modo, s贸 nos conhecemos a partir do momento em que come莽amos a decair, quando o 锚xito, ao n铆vel dos interesses humanos, se revela imposs铆vel: derrota clarividente gra莽as 脿 qual, tomando posse de nosso pr贸prio ser, nos separamos do torpor universal.[27]

Se 茅 para entrar no jogo das apar锚ncias, na feira de vaidades do mundo liter谩rio em que as moedas de troca s茫o o elogio e o envaidecimento cheio de si, que seja 脿 nossa pr贸pria maneira, rompendo com todo protocolo, com toda conven莽茫o oficial a constranger nossas idiossincrasias e nossa aspira莽茫o megaloman铆aca a uma gl贸ria inaudita. Cioran escreve da posi莽茫o de um exclu铆do da humanidade, um r茅probo, um troglodita, um monstro que n茫o encontrou seu lugar neste mundo nem em nenhum outro mundo. Seu 锚xito n茫o poderia ser normal, igual 脿quele dos viventes saud谩veis. Escrever para dizer o que, e de que modo? Aqui, chegamos 脿 quest茫o central sobre a qual se debru莽a este paper, a saber, o(s) sentido(s) da obra de Cioran tendo em vista a natureza espec铆fica de sua linguagem. Tenho em mente, como fundo tem谩tico, a problem谩tica das rela莽玫es entre discurso filos贸fico e discurso po茅tico-liter谩rio, bem como as poss铆veis intersec莽玫es entre ambos.

O que Cioran tem a dizer, ou quer dizer, de que maneira o diz? Seus temas A quest茫o nos leva a analisar o modus scrivendi mediante o qual ele se expressa, a anatomia de sua linguagem (modus scrivendi que 茅, por sinal, indissoci谩vel de um modus vivendi). O que nos faz voltar nossa aten莽茫o 脿 quest茫o do estilo em Cioran 鈥 estilo de escrita, estilo de vida. Eis um pensador que, muito embora fil贸sofo de forma莽茫o, ainda jovem rompe com a filosofia e vira as costas ao mundo acad锚mico, para seguir solitariamente seu pr贸prio caminho intelectual. Tardiamente, j谩 na Fran莽a, ele seria reconhecido e apreciado n茫o exatamente como um fil贸sofo, mas como um escritor tout court (aforista, ensa铆sta, prosador, o que quer que seja), percep莽茫o generalizada, ainda que n茫o un芒nime, e que tende a perder de vista a profunda relev芒ncia filos贸fica de sua obra. Com efeito, Cioran viria a ser reconhecido como um ex铆mio estilista da l铆ngua francesa (conquista t茫o mais admir谩vel quanto se trata de um estrangeiro, um meteco balc芒nico, um b谩rbaro transilvano civilizado em contato com a refinada cultura francesa), um monstro da eleg芒ncia estil铆stica, e isso muito por conta de seus textos ensa铆sticos (muitos deles marcados por uma prosa po茅tica ao mesmo tempo simples e deslumbrante) paralelos 脿 sua produ莽茫o afor铆stica. Em todo caso, que ele seja considerado (tamb茅m) como escritor, e n茫o tanto como um fil贸sofo, 茅 algo que diz muito sobre sua d茅marche est茅tico-filos贸fica, e n茫o o reflexo de uma suposta fraqueza ou defici锚ncia em mat茅ria de pensamento e intelec莽茫o filos贸fica. Muito pelo contr谩rio.

Como pensar a rela莽茫o, no interior de sua obra, entre o conte煤do, o teor de seu discurso, e a forma como ele 茅 constru铆do (o qu锚 e o como de sua escritura)? O fator-estilo desempenha um papel de primeira ordem na escritura cioraniana, sendo, ademais, indissoci谩vel de seu conte煤do. Neste sentido, cumpre examinar a maneira como se d谩, na tessitura do texto cioraniano, a concorr锚ncia de elementos po茅ticos e/ou ret贸ricos, figuras de linguagem e outros recursos liter谩rios que seriam, supostamente, estranhos ao fazer filos贸fico com sua discursividade espec铆fica.

A concep莽茫o de escritura apresentada por Cioran est谩 em perfeita conformidade com sua vis茫o das coisas, do mundo, da exist锚ncia. A julgar por uma perspectiva que se pretende 鈥渓煤cida鈥, a anatomia do texto cioraniano n茫o poderia ser diferente: fragment谩ria, multifacetada, descont铆nua, intermitente. A lucidez revela a exist锚ncia destitu铆da de sentido e finalidade, contradit贸ria e fragment谩ria, transit贸ria e ef锚mera, conflitiva; o mundo como um lugar in贸spito e absurdo (no qual parece se infiltrar uma parcela consider谩vel de caos), uma (ir)realidade muda e opaca, uma alteridade hostil por princ铆pio 鈥 enfim, um universo que se mostra completamente indiferente a nossas esperan莽as, expectativas, desejos, demandas. A felicidade humana, para Cioran, n茫o parece estar inclu铆da nos des铆gnios supremos; apesar do fasc铆nio que inspira, o mundo n茫o parece ter sido feito para nos acomodar. Niilismo, ceticismo, pessimismo: essa tr铆ade resume as tend锚ncias filos贸ficas fundamentais do pensamento de Cioran. Ele se insere em uma tradi莽茫o de pensamento tr谩gico cujos ep铆gonos mais ilustres seriam Schopenhauer e Nietzsche, dois dos fil贸sofos modernos que mais influenciaram Cioran. A posi莽茫o de fala, contexto hist贸rico do qual parte seu discurso, 茅 um s茅culo XX p贸s-iluminista e p贸s-metaf铆sico, no qual se esvaziou de sentido toda no莽茫o de verdade absoluta (Ser, Ess锚ncia, Subst芒ncia, Deus) e toda no莽茫o de valores universais, imut谩veis, eternos. Cioran fala de um mundo cientificista, materialista, utilitarista, desencantado e desespiritualizado,聽 um mundo absurdo e inabit谩vel.

Cioran 茅 um cultor de aforismos. A express茫o aforism谩tica, pontual e concisa, lac么nica e fulgurante, 茅 o modo de pensar-dizer espec铆fico, a forma discursiva por excel锚ncia a configurar sua escritura. A forma ensa铆stica tamb茅m participa, em menor medida, da anatomia de seu discurso. Ambos, aforismo e ensaio, teriam em comum o fato de serem formas discursivas alheias, se n茫o contr谩rias, a toda pretens茫o de totalidade sistem谩tica e objetiva. Discursividades em alguma medida subjetivas que acolhem, se 茅 que n茫o cultivam, a parcialidade, o perspectivismo, em detrimento de toda neutralidade objetiva, de toda pretensa vis茫o do todo. Afor铆stica e ensa铆stica, a linguagem cioraniana 茅 fragment谩ria descont铆nua, assistem谩tica, uma linguagem na qual os intervalos, os sil锚ncios, as rupturas, as retic锚ncias, os pontos de suspens茫o falam tanto quanto as palavras. Seu pensar-dizer (logos) n茫o 茅 dial茅tico, n茫o 茅 apod铆tico, mas que se desdobra em forma de explos玫es, transbordamentos, fulgura莽玫es, rel芒mpagos de ideias que se transmutam em palavras que buscam exprimir a intui莽茫o fugaz de um instante 煤nico e irrepet铆vel.

O que h谩 em um aforismo? A etimologia do termo nos remete ao latim aphorismus, que 茅 por sua vez a transcri莽茫o do voc谩bulo grego aphorism贸s. Este substantivo deriva do verbo aphor铆zo, que significa 鈥渓imitar鈥, 鈥渄elimitar鈥, determinar鈥, e que deriva do verbo hor谩o, designando 鈥渇ixar a mirada鈥, 鈥渂uscar com os olhos鈥. O sentido do aforismo est谩 intimamente ligado 脿quele de horizonte, do grego hor铆zontos: 鈥渃onfim鈥, 鈥渓imite鈥, mas 鈥渓imite fixado pelo olhar, de onde 鈥榟orizonte鈥, aberto desde um ponto de vista perspectivo鈥.[28] Em seu Averiguaciones sobre el aforismo, o fil贸sofo argentino Jorge Lovisolo considera um poss铆vel 鈥 e frut铆fero 鈥 potencial heur铆stico do aforismo, levantando a quest茫o de suas poss铆veis virtudes cognitivas: a f贸rmula breve no lugar da argumenta莽茫o apod铆tica, a explos茫o fulgurante em detrimento de toda rigidez met贸dica, l贸gico-racional. Ele indaga: 鈥淗谩 algum v铆nculo poss铆vel entre a fulgura莽茫o liter谩ria do aforista e o rigor argumentativo do cientista?鈥[29] A possibilidade de uma pedagogia (ou uma anti-pedagogia, diria Cioran) afor铆stica, fundamentada em uma hermen锚utica da escritura fragment谩ria, 茅 um t贸pico bastante pertinente 鈥 tendo em vista uma inicia莽茫o 脿 lucidez, ao paradoxo, ao Insol煤vel essencial 鈥 em se tratando do pensamento cioraniano, al茅m de revelar muito sobre sua concep莽茫o ideal do fazer filos贸fico-liter谩rio. Comentando o car谩ter paradoxal e as implica莽玫es pedag贸gicas da escritura fragment谩ria de Cioran, Fernando Savater escreve:

Existe um ponto de vista filos贸fico desde o qual o discurso pedag贸gico 茅 imposs铆vel. O que se alcan莽a a partir deste ponto cego do esp铆rito 鈥 que chamaremos aqui de lucidez 鈥 mais do que dizer, apaga o dito; nega inclusive quando afirma 鈥 sua forma de afirmar 茅 negar; s贸 fala para calar ou desmentir as palavras vigentes; n茫o busca nem a persuas茫o nem o doutrinamento, nem a transmiss茫o de nenhum conhecimento positivo: sua 煤nica tarefa, se podemos cham谩-la assim, 茅 o desengano. S贸 ensina a descrer em tudo aquilo que se pretende poder ensinar.[30]

A experi锚ncia da lucidez, que n茫o 茅 e nem poderia ser permanente, sob o risco de nos aniquilar, 茅 determinante para a ades茫o a um estilo discursivo fragment谩rio. O fragmento 茅 o g锚nero liter谩rio mais 鈥渄emocr谩tico鈥 que existe: permite que todos os pontos de vista, todas as experi锚ncias, todas as opini玫es, com toda a contradi莽茫o possivelmente contida entre elas, sejam igualmente manifestadas; o fragmento d谩 voz 脿 polifonia irredut铆vel do esp铆rito, expressando seu car谩ter plural e multifacetado. O discurso fragment谩rio, diz Cioran, tem a virtude de refletir 鈥渢odos os aspectos da experi锚ncia humana鈥 enquanto que o discurso sistem谩tico, totalizante e sem fissuras, 鈥渟贸 expressa um, o aspecto controlado 鈥 e por isso mesmo, empobrecido. […] No sistema, s贸 fala o controlador, o chefe[31] (Entretiens). Mas o controlador, o chefe, 茅 uma inst芒ncia artificial e arbitr谩ria que n茫o resiste aos efeitos corrosivos da lucidez; trata-se, com efeito, de um falso porta-voz, uma voz n茫o autorizada a falar em nome das outras, a ela subordinadas, mas que o faz com uma impertin锚ncia totalit谩ria. A linguagem fragment谩ria 茅 a express茫o de uma anarquia do esp铆rito. Por fim, a verdade, o absoluto, s贸 pode ser apreendido, se puder, por uma intui莽茫o subjetiva do corpo (a exemplo de Schopenhauer), jamais pela raz茫o. A verdade reside na diferen莽a, na multiplicidade, no devir, na imperman锚ncia e na efemeridade. Contradi莽茫o, paradoxo: sinais de veracidade.

Cioran escreve para comunicar n茫o apenas o paradoxo que envolve o ser, o pensar e o dizer, como tamb茅m para exprimir o absurdo e o sem-sentido da exist锚ncia, a loucura e o frenesi da hist贸ria, a condi莽茫o tragicamente apor茅tica da experi锚ncia humana, a realidade positiva do mal, um mal absoluto, metaf铆sico, que n茫o 茅, como em Plat茫o, e posteriormente no cristianismo, equivalente ao n茫o-ser, a uma irrealidade resultante de nossa ignor芒ncia ou de nosso pecado original. Para Cioran, o mal (como a impureza), princ铆pio de dinamismo indispens谩vel para a manuten莽茫o da vida, est谩 em p茅 de igualdade com o bem, se 茅 que n茫o o ultrapassa. O mal precede o surgimento do homem na superf铆cie do globo e se agrava com sua presen莽a. A injusti莽a, mal radical, 茅 a lei que preside as rela莽玫es sociais. Na perspectiva pessimista de Cioran, que alcan莽a um n铆vel metaf铆sico, a doen莽a e o sofrimento n茫o poderiam deixar de figurar como experi锚ncias t茫o inevit谩veis quanto essenciais na economia da exist锚ncia. O homem 茅 um ser tr谩gico, paradoxal, pois um 鈥渁nimal metaf铆sico鈥 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o) que, dividido entre 鈥渕undos鈥 opostos, n茫o pode fixar-se em nenhum. Cioran diria que a impossibilidade de viver, uma vez a vida sendo injustific谩vel, indefens谩vel, absurda, em-sentido, irracional, 茅 o que torna a vida excitante e lhe confere um sabor a mais, suscitando em n贸s a 鈥渢enta莽茫o de existir鈥 (t铆tulo de um de seus livros). Em uma de suas varia莽玫es sobre o tema da morte, ele diz que:

脡 porque ela n茫o repousa sobre nada, porque carece at茅 mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte 茅 demasiado exata; todas as raz玫es encontram-se do seu lado. […] N贸s nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer 茅 demasiado l贸gico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um s贸 argumento a seu favor 鈥 distinto, de uma evid锚ncia indiscut铆vel 鈥 se aniquilaria. […] D锚 um objetivo preciso 脿 vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatid茫o de seus fins a torna superior 脿 morte 鈥 uma gota de precis茫o a rebaixaria 脿 trivialidade dos t煤mulos.[32]

A escritura afor铆stica de Cioran n茫o 茅 apod铆tica, argumentativa. O seu n茫o 茅 um pensamento dial茅tico no sentido plat么nico. Seus aforismos n茫o demonstram o caminho percorrido at茅 chegar 脿s conclus玫es que eles enunciam, como que por decreto, em sua brevidade impertinente (de apar锚ncia dogm谩tica e arbitr谩ria). Porque 鈥渘茫o se pode eludir a exist锚ncia com explica莽玫es […] O universo n茫o se discute; se exprime. E a filosofia n茫o o exprime鈥.[33] A poesia, sim, seria capaz dessa express茫o, como a m煤sica, com sua linguagem n茫o verbal. 脡 por isso que Cioran busca ao m谩ximo ter em mente tanto uma quanto a outra ao lan莽ar-se 脿 atividade escritural, para n茫o cometer o equ铆voco e cair no engodo de querer 鈥渆ludir a exist锚ncia com explica莽玫es鈥. Al茅m disso, Cioran acredita que quanto maior a preocupa莽茫o de se explicar, de se justificar, de argumentar e demonstrar as pr贸prias raz玫es, as pr贸prias premissas, mais o esp铆rito revela sua inseguran莽a e sua debilidade, sua falta de um vigor que s贸 a senten莽a fulgurante do aforismo, mais ainda que a poesia, poderia atestar.

A necessidade de provar uma afirma莽茫o, de ca莽ar argumentos a torto e a direito, pressup玫e uma anemia do esp铆rito, uma inseguran莽a da intelig锚ncia, mas tamb茅m da pessoa em geral. Quando um pensamento nos invade poderosa e violentamente, surge da subst芒ncia de nossa exist锚ncia; prova-lo, cerca-lo com argumentos, significa debilit谩-lo e duvidar de n贸s mesmos. Um poeta ou um profeta n茫o demonstram nada porque seu pensamento 茅 seu ser; a ideia n茫o se diferencia de sua exist锚ncia. O m茅todo e o sistema s茫o a morte da raz茫o. Inclusive Deus pensa de maneira fragment谩ria; em fragmentos absolutos.[34]

Outros fatores da maior relev芒ncia na linguagem cioraniana, para al茅m de sua forma afor铆stica, s茫o os elementos po茅tico-ret贸ricos empregados pelo autor para comunicar suas ideias: as met谩foras, figuras de linguagem, alegorias m铆ticas, a ironia, o exagero, entre outros expedientes. Seu m茅todo de persuas茫o, se pudermos chama-lo assim, n茫o 茅 puramente racional, dial茅tico, mas compreende a esfera emocional, dos afetos. Um discurso comprometido com o bem-dizer que, como diz Arist贸teles, 鈥減roduz mais efeito pelo estilo do que pelo pensamento鈥.[35] N茫o por acaso h谩 sempre o risco de recair sobre Cioran a acusa莽茫o de ser um sofista dos mais perniciosos. Seja como for, um primeiro tra莽o da linguagem de Cioran que salta aos olhos tem a ver com cera espontaneidade prosaica livre de formalismos conceituais, o que lhe confere uma sonoridade an谩loga 脿quela da m煤sica. Uma prosa intimista, personalista, conversacional, em que a palavra escrita parece falada, parece provir diretamente da voz, do logos vivo do escritor. Cioran faz quest茫o de ser subjetivo, pois 鈥渟er objetivo 茅 tratar o outro como objeto, como um cad谩ver, 茅 se comportar como um coveiro鈥.[36] Subjetivismo n茫o implica necessariamente obscuridade, uma linguagem herm茅tica e inintelig铆vel, at茅 porque, em Cioran, particularmente, 茅 not谩vel a transpar锚ncia cristalina de seus enunciados; Cioran 茅 muito claro no que quer dizer e, se seus escritos carregam a marca da ambiguidade, da vagueza, da indefini莽茫o, em todo caso estas mesmas caracter铆sticas s茫o dotadas de uma nitidez marcante. Na aus锚ncia de certezas, sem poder falar em nome de nenhuma verdade, estando limitado a variar sobre os mesmos temas, contemplar o mesmo horizonte por perspectivas sempre diferentes, o autor se encontra 脿 deriva em um oceano de possibilidades discursivas sem poder se apegar a nenhuma delas. Assim, n茫o importa tanto o que se diz, pois se pode dizer qualquer coisa e seu contr谩rio; mais importa como se diz as coisas que se pode, que se deve dizer. Neste oceano de incertezas, em cujo fundo n茫o h谩 nada al茅m de abismos, a 煤nica boia de salva莽茫o 茅 o estilo:

Com certezas, o estilo 茅 imposs铆vel: a preocupa莽茫o com a express茫o 茅 pr贸pria dos que n茫o podem adormecer em uma f茅. Por falta de um apoio s贸lido, agarram-se 脿s palavras 鈥 sombras de realidade 鈥, enquanto os outros, seguros de suas convic莽玫es, desprezam sua apar锚ncia e descansam comodamente no conforto da improvisa莽茫o.[37]

A preocupa莽茫o com o estilo seria ent茫o uma consequ锚ncia da revela莽茫o do vazio das palavras, do fato de que estamos encerrados em um 鈥渦niverso verbal鈥 e de n茫o haver nenhuma realidade substancial por detr谩s ou por debaixo das palavras. Uma concep莽茫o da linguagem bastante aparentada 脿quela de G贸rgias, que dizia que se algo existe, n茫o pode ser conhecido e, se puder ser conhecido, n茫o pode ser dito e, portanto, n茫o pode ser comunicado. 鈥淣茫o 茅 poss铆vel dizer nada de nada. Por isso 茅 ilimitada a quantidade de livros鈥;[38] pois 鈥渁s coisas que tocamos e as que concebemos s茫o t茫o improv谩veis quanto nossos sentidos e nossa raz茫o; s贸 estamos seguros em nosso universo verbal, manobr谩vel a nosso bel-prazer, e ineficaz鈥.[39] Dito isso, 鈥渟贸 cultivam o aforismo os que conheceram o medo no meio das palavras, esse medo de desmoronar com todas as palavras鈥,[40] pois, 鈥渕ais que no poema, 茅 no aforismo que a palavra 茅 Deus鈥.[41]

Em Cioran, o modo de apreens茫o do mundo 茅 est茅tico, n茫o dial茅tico, pois, para ele, n茫o se pode contar com um absoluto intelig铆vel sobre o qual fundar nosso discurso. Por mais que divague diletantemente sobre as realidades metaf铆sicas 煤ltimas, Cioran fala de uma perspectiva inexoravelmente, demasiadamente humana, de um mundo das apar锚ncias em que n茫o unidade e identidade s茫o termos esvaziados de sentido. A d茅marche liter谩ria de Cioran procede por aquilo que Plat茫o definiu como m铆mesis, e que, mais do que uma mera 鈥渋mita莽茫o鈥 do mundo, 茅 mais bem entendida como uma 鈥渞epresenta莽茫o art铆stica鈥 de modo geral. Segundo Jeanne-Marie Gagnebin, 鈥渙s gregos cl谩ssicos pensam sempre a arte como uma figura莽茫o enraizada na m铆mesis, na representa莽茫o, ou, melhor, na 鈥榓presenta莽茫o鈥 da beleza do mundo (mais Darstellung que Vorstellung[42]); a m煤sica 茅 o exemplo privilegiado da m铆mesis, sem que seja imitativa no nosso sentido restrito鈥.[43] Numa perspectiva plat么nica, seria o caso de perguntar: por que o poeta n茫o 茅 fil贸sofo, e vice-versa? A diferen莽a n茫o 茅 apenas uma quest茫o de m茅todo, como tamb茅m envolve o modelo, o paradigma a ser seguido e representado (ou figurado). Para o fil贸sofo, o paradigma 茅 a ideia, a ess锚ncia, enfim, qualquer realidade absoluta e transcendental que seja 鈥 permanente, imut谩vel, sempre id锚ntica a si mesma, etc. Para o poeta, o paradigma 茅 o mundo sens铆vel e imanente, mundo do devir, da mudan莽a, da diferen莽a, da imperman锚ncia, da transitoriedade. Plat茫o diria que os poetas falam sobre coisas das quais n茫o sabem, criando obras que descrevem falsas realidades, pois dizem o que n茫o 茅 como sendo, o que prova que os poetas nada sabem sobre aquilo que , verdadeira e realmente. De acordo com Arist贸teles, 鈥渁 trag茅dia 茅 essencialmente uma imita莽茫o n茫o de pessoas, mas da a莽茫o e da vida, da felicidade e da mis茅ria鈥.[44] 脡 o mundo que se apresenta imediatamente para n贸s atrav茅s dos sentidos, o mundo dos acontecimentos e das a莽玫es, dos fen么menos, do que aparece, o objeto da poesia, tr谩gica ou outra. Ademais, cumpre lembrar que Dichtung, em alem茫o, significa poesia e muito mais, resguardando do grego a profundidade sem芒ntica do termo p贸eisis: produ莽茫o, cria莽茫o, fabrica莽茫o que adensa a realidade, multiplicando suas camadas de significa莽茫o. Neste sentido, a poesia pressuporia reinventar, reformular, representar o mundo de modo n茫o cient铆fico, portanto, fict铆cio, o que n茫o implica falsidade, mentira, ou coisa que o valha. E a linguagem fragment谩ria do aforismo proporcionaria, como nenhuma outra (鈥渕ais que no poema, 茅 no aforismo que a palavra 茅 Deus鈥), o sucesso desse adensamento, mediante a express茫o intermitente e descont铆nua de diferentes experi锚ncias, intui莽玫es, perspectivas sobre um mesmo tema.

No registro da figura莽茫o mim茅tica em que consiste particularmente a arte po茅tica, o expediente ret贸rico da met谩fora 茅 um elemento central. A met谩fora n茫o 茅 uma mera c贸pia ou imita莽茫o, destitu铆da de valor heur铆stico e cognitivo; trata-se, pois, de uma dimens茫o imag茅tica e figurativa, uma fic莽茫o que busca comunicar uma determinada realidade, reformul谩-la, reinvent谩-la, descrev锚-la por meio de um signo que 茅 alheio ao seu setor ontol贸gico. Segundo Paul Ricoeur, que se dedicou 脿 quest茫o, 鈥渁 met谩fora 茅 o processo ret贸rico pelo qual o discurso libera o poder que algumas fic莽玫es t锚m de redescrever a realidade鈥.[45] Fundamentada na m铆mesis, a met谩fora procede, pois, de acordo com um princ铆pio de semelhan莽a, que 茅 uma categoria mais flex铆vel e menos r铆gida do que aquela de identidade, pr贸pria do logos dial茅tico e eidotr贸pico. Operando de maneira n茫o literal, ela pressup玫e a ideia de transfer锚ncia, de mudan莽a de um determinado termo de seu locus sem芒ntico habitual a uma realidade que seria alheia a este mesmo termo. Neste sentido, poder铆amos interpretar o famoso urinol (ready-made) de Marcel Duchamp como uma met谩fora da obra de arte, a fun莽茫o e o valor que ela supostamente possui no contexto da modernidade. Mais do que buscar uma intelec莽茫o abstrata, a met谩fora faz parte de um registro ret贸rico-po茅tico que trabalha com a dimens茫o performativa da palavra, isto 茅, da linguagem que age, que causa algum tipo de efeito emocional, uma catarse. Poesia e ret贸rica compartilham, no que diz respeito 脿 met谩fora, a 锚nfase no efeito produzido pela palavra (mythos, n茫o apenas logos), em detrimento do valor de verdade objetiva do conte煤do veiculado.

Por que o 鈥淪er鈥 ou qualquer outra palavra com mai煤scula? 鈥淒eus鈥 soava melhor. Dev铆amos t锚-lo conservado. Pois n茫o s茫o unicamente as raz玫es de eufonia que deveriam comandar o jogo das verdades?[46]

Al茅m disso,

N茫o queremos mais suportar os pesos das 鈥渧erdades鈥, continuar sendo suas v铆timas ou seus c煤mplices. Sonho com um mundo em que se morreria por uma v铆rgula.[47]

A linguagem de Cioran 茅 dotada de um frescor, de um arejamento que 茅 sinal patente de sua preocupa莽茫o com a dimens茫o performativa da palavra, para al茅m daquilo que ela pretende significar em mat茅ria de objeto. A fluidez, a musicalidade do estilo (que tem a ver com o tom de express茫o pr贸prio de um escritor), em detrimento da rigidez, do rigor epist锚mico do conceito enquanto tal. A altivez do seu discurso, sua leveza jovial, deriva da liberdade ret贸rico-po茅tica com que Cioran se disp玫e a enunciar suas ideias: a f贸rmula inspirada, as interjei莽玫es, a hip茅rbole, a ironia, o paradoxo, o oximoro, o emprego de mai煤sculas para magnificar a significa莽茫o de um termo (em geral, substantivos adjetivados como o 鈥淓ssencial鈥, o 鈥淚nsol煤vel鈥, o 鈥淚rremedi谩vel鈥, o 鈥淔racassado鈥, entre outros), as alegorias e narrativas m铆ticas (por exemplo, o mito de Ad茫o e o mito de Prometeu), a escolha de termos e figuras cuja combina莽茫o se nos mostra inusitada, espantosa, desconcertante, entre outros ex. Afinal, a julgar pela 鈥渟upremacia do adjetivo鈥,

O que o esp铆rito inventa n茫o 茅 mais do que uma s茅rie de qualifica莽玫es novas; rebatiza os elementos ou busca em seus l茅xicos ep铆tetos menos gastos para uma mesma e imut谩vel dor. […] Os qualificativos mudam: essa mudan莽a chama-se progresso. Suprima-os todos: o que restaria da civiliza莽茫o? A diferen莽a entre a intelig锚ncia e a tolice reside no manejo do adjetivo, cujo uso n茫o diversificado constitui a banalidade.[48]

Lendo Cioran, 茅 f谩cil perceber como sua escritura se desenvolve no sentido daquilo que Plat茫o condenava no discurso po茅tico ou ret贸rico: causar um efeito, emocionar; no seu caso, abalar, estremecer, fustigar: 鈥淯m livro deve cutucar as feridas, provoc谩-las inclusive. Um livro deve ser um perigo鈥.[49] Por mais que ele expresse ideias nada ortodoxas, postulando seu pessimismo em mat茅ria de 茅tica, pol铆tica, exist锚ncia, metaf铆sica, e soando por vezes um niilista pernicioso ou um c铆nico na pior acep莽茫o (vulgar, atual) do termo. Lembremos que a raz茫o de ser de seu fazer liter谩rio 茅 comunicar uma lucidez que perfura todas as capas de apar锚ncia da exist锚ncia, revelando o vazio no qual elas est茫o apoiadas; uma lucidez que desengana, desilude, desfascina, libertando o indiv铆duo das correntes de seus enganos, ilus玫es e esperan莽as, 脿 medida mesma que contribui para aumentar sua inseguran莽a, sua sensa莽茫o de instabilidade e n谩usea em terra firme. 鈥溍 loucura crer que caminhamos sobre terra firme. Nos convencemos do contr谩rio 脿 medida que a hist贸ria se torna manifesta. Acredit谩vamos que nossos passos aderiam e bruscamente descobrimos que n茫o existe nada que se pare莽a a um solo e tampouco nada que se pare莽a a passos鈥.[50]

A obra de Cioran 茅 uma obra que engendra imagens com uma frequ锚ncia not谩vel, suscitando no leitor uma compreens茫o imag茅tica, figurativa, metaf贸rica, dir-se-ia intuitiva (n茫o conceitual, abstrata, l贸gica) daquilo que ele quer dizer. Mais que intelec莽茫o, intui莽茫o; em vez de identidade, semelhan莽a; antes que met谩fora, conceito; mais do que raz茫o, emo莽茫o. A imagina莽茫o, pot锚ncia muitas vezes excomungada da filosofia, como em Descartes, desempenha um papel de primeira ordem na cria莽茫o liter谩ria de Cioran. O que n茫o significa que ele tenha alguma preocupa莽茫o (em realidade, tem desprezo) em ser original, inovar em mat茅ria de linguagem for莽ando seus limites convencionais, criando neologismos, enfim. Sem deixar de recorrer a conceitos filos贸ficos tradicionais, empregando-os a seu modo, sempre que julgar necess谩rio, Cioran de modo algum pretende depender do vocabul谩rio t茅cnico da filosofia; antes, ele prefere manter-se a meio caminho entre uma linguagem prosaica e despretensiosa, em termos de rebuscamento filos贸fico, e uma linguagem minimamente filos贸fica que n茫o deixa de ser necess谩ria quanto mais se pretende aprofundar na complexidade das coisas e exprimi-las verbalmente. Uma simplicidade elegante, ou uma eleg芒ncia simples, eis o princ铆pio estil铆stico de Cioran; toda afeta莽茫o verbal, toda experimenta莽茫o impertinente com a linguagem, al茅m de ser um sinal de falta de subst芒ncia, resulta em verborragia pedante e, muitas vezes, inintelig铆vel.

Cioran 茅 um pensador existencial que fala em nome de si mesmo, do pr贸prio eu, sobre suas experi锚ncias de vida, que escreve sobre os assuntos humanos e sobre as coisas de que 茅 testemunha no mundo em que se insere. O que n茫o significa ser um existencialista no sentido em que Heidegger e Sartre, entre outros, o s茫o. Cioran 茅 um pensador tr谩gico, n茫o um fil贸sofo especulativo que levanta quest玫es filos贸ficas e busca dar-lhes respostas. Na dimens茫o essencial a que a lucidez o conduz, n茫o existem mais perguntas nem respostas, e o esp铆rito flutua sobre os abismos do indeterminado e do insol煤vel. Ele busca dar voz ao paradoxo, ao absurdo da exist锚ncia com todo o tr谩gico que a constitui; seu intuito 茅 exprimir a trag茅dia da exist锚ncia humana e o acidente sem significado que representa. A vida irracional, sem sentido nem finalidade, e que por isso mesmo vale a pena ser vivida, por sua impossibilidade pr谩tica e te贸rica, pelo fato de que nenhum argumento se encontra a seu favor. O mundo opaco e mudo, indiferente a nossas pretens玫es de felicidade, se n茫o contr谩rio a elas 鈥 exclu铆da a hip贸tese da indiferen莽a, s贸 se poderia inverter a frase de Paulo Coelho: o mundo conspira contra n贸s. De onde a postula莽茫o de um deus mau ou no m铆nimo incompetente (o demiurgo gn贸stico) que teria criado este 鈥渦niverso fracassado鈥[51] (De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅) em que imperam a injusti莽a e o sofrimento inocente, e 鈥渁 decomposi莽茫o preside as leis da vida鈥.[52] O homem como um ser tr谩gico, cuja condi莽茫o verticalmente metaf铆sica o eleva por cima ao mesmo tempo em que o rebaixa a um n铆vel inferior daquele ao qual pertencem os animais normais, leia-se, os animais n茫o condenados pela consci锚ncia reflexiva, pela raz茫o. Enfim, a hist贸ria como um devir sem finalidade, um processo que n茫o leva a lugar algum, e do qual os indiv铆duos e as coletividades s茫o mais o objeto do que o sujeito, o paciente do que o agente.

Estes s茫o alguns dos t贸picos mais relevantes no pensamento de Cioran, e para os quais ele emprega uma variedade de recursos ret贸rico-po茅ticos no intuito de comunicar suas ideias da maneira mais impactante poss铆vel, 脿 medida que causam, em virtude de sua figura莽茫o po茅tica, algum efeito emocional no leitor. Vejamos alguns exemplos.

Em Nos cumes do desespero, o autor recorre a met谩foras l铆quidas e auditivas, muito mais do que visuais, para exprimir a sensa莽茫o do lirismo extremo implicado na experi锚ncia da lucidez: uma 鈥渆leva莽茫o das ondas鈥, um 鈥減aroxismo musical鈥.[53] Pois, no extremo desesperador da lucidez, 鈥渄ilatamo-nos interiormente at茅 a loucura, para al茅m das fronteiras, na periferia da luz, onde ela 茅 roubada pela noite e, daquela pletora, somos atirados diretamente ao Nada como num turbilh茫o bestial鈥.[54] Sendo a luz um signo do conhecimento positivo e racional, o 鈥渓ugar鈥 obscuro ao qual a lucidez paradoxalmente nos lan莽a, os abismos de trevas luminosas em que ela nos faz mergulhar, 茅 figurado, pois, como 鈥渁 periferia da luz鈥 鈥 formula莽茫o semanticamente original e inusitada, que encontra uma forma n茫o convencional de exprimir a falta de compreens茫o,聽 a irracionalidade das ra铆zes do ser e de seus confins, sem que precise recorrer a termos rebuscados ou a neologismos (o m茅rito se d谩 t茫o somente pela criatividade na ressignifica莽茫o de uma ideia, mediante uma combina莽茫o inventiva de termos heter贸clitos para caracterizar esta mesma ideia). A irracionalidade da vida e os mist茅rios que fazem dela 鈥渁 grande Desconhecida鈥,[55] misteriosa e sedutora, irracional e tentadora, raz茫o pela qual vale a pena ser vivida, constituem um dos eixos tem谩ticos principais da escritura cioraniana. Em Nos cumes do desespero, Cioran exprime com especial plasticidade, de maneira admiravelmente inspirada, a ideia de que a 鈥減aix茫o do absurdo鈥 茅 a 煤nica raz茫o para que nos mantenhamos vivos: 鈥淰ivo porque as montanhas n茫o sabem rir e os vermes n茫o sabem cantar鈥.[56]

No Brevi谩rio de decomposi莽茫o, um de seus livros mais aleg贸ricos, em que denuncia a tara finalista dos homens, sua obsess茫o teleol贸gica cuja express茫o mais vulgar seria o hodierno utilitarismo (que os fil贸sofos elevam a um n铆vel c贸smico e metaf铆sico), Cioran questiona: 鈥淥nde est谩 o ato puro de toda utilidade: sol que abomine a incandesc锚ncia, anjo em um universo sem f茅, ou verme ocioso em um mundo abandonado 脿 imortalidade?鈥[57] 鈥 express茫o de um emprego perspicaz e imaginativo do oximoro, a partir da combina莽茫o de termos heter贸clitos para suscitar no leitor um efeito desconcertante, na medida em que o faz apreender determinada coisa por uma perspectiva inaudita. Neste caso, o apreendido seria o car谩ter tr谩gico da condi莽茫o humana 鈥 sofredora, finita, mortal 鈥 e o absurdo que seria caso essa condi莽茫o n茫o fosse do jeito que 茅, e que, sendo assim, n茫o deveria ser de nenhum outro jeito. Um mundo esvaziado de todo finalismo, em que o sol mesmo abominasse sua finalidade de iluminar para possibilitar a manuten莽茫o da vida; inclusive em mat茅ria de religi茫o, que n茫o escapa 脿 mania teleol贸gica e ao utilitarismo dos fins (basta considerar a soteriologia e todo tipo de doutrina da salva莽茫o), seria necess谩rio imaginar um 鈥渁njo em um universo sem f茅鈥. Porque a religi茫o, a f茅 religiosa, se apresenta como um conforto, uma consola莽茫o 脿 nossa condi莽茫o corrupt铆vel e mortal. Neste sentido, a imagem de um 鈥渧erme ocioso em um mundo abandonado 脿 imortalidade鈥 n茫o poderia ser mais eficaz, por conta de sua riqueza po茅tica, para significar o absurdo de um mundo em que as coisas contradizem suas pr贸prias naturezas e suas pr贸prias finalidades. Tudo isso, enfim, para exprimir o inconveniente que 茅 viver em um mundo no qual se espera que tudo tenha uma finalidade, no qual tudo precisa fazer sentido se encaixar, em que a monotonia da regularidade finalista 茅 inexor谩vel.

A 鈥渓iberta莽茫o鈥 do homem? Vir谩 no dia em que, desembara莽ado de sua mania finalista, tenha compreendido o acidente de sua apari莽茫o e a gratuidade de seus infort煤nios, no dia em que todos nos agitemos como atormentados saltitantes e s谩bios, e em que, mesmo para o populacho, a 鈥渧ida鈥 se reduza a suas justas propor莽玫es, a uma hip贸tese de trabalho.[58]

A Vida, abstra莽茫o humana, seria um falseamento da vida, em sua nudez destitu铆da de toda l贸gica, de toda finalidade. A vida pode ser sempiterna, mas sua individua莽茫o neste ou naquele ser, desta ou daquela forma, neste ou naquele momento, isso sim 茅 acidental, gratuito, tanto quanto nossa exist锚ncia. Superior 脿 morte gra莽as a sua aus锚ncia de sentido e finalidade, ao fato de que 茅 indefens谩vel, a vida 鈥 da qual o homem seria a forma mais acabada e complexa (pois consciente de si enquanto vida consciente), e por isso mesmo a mais falsa, a mais d煤bia 鈥 tamb茅m recebe, no discurso de Cioran, uma s茅rie de qualifica莽玫es impactantes e poeticamente perspicazes, um expediente que n茫o tem como n茫o produzir fasc铆nio e espanto no leitor 鈥 pretendendo produzir-lhe determinado efeito de desilus茫o libertadora, ainda que amarga. A vida, escreve Cioran,

茅 apenas um torpor no claro-escuro, uma in茅rcia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excel锚ncia sobre o resto da mat茅ria […] A vida 茅 o que se decomp玫e a todo momento; 茅 uma perda mon贸tona de luz, uma dissolu莽茫o ins铆pida na noite, sem cetros, sem aur茅olas, sem nimbos.[59]

A julgar pelo que nos diz respeito enquanto seres finitos e conscientes desta mesma finitude, vida significa decomposi莽茫o; tudo o que vive tende ao apodrecimento e 脿 morte, e o homem, consciente disso no fundo de si mesmo, inventa os mais variados artif铆cios para eludir este fato 鈥 de onde sua cultura, diz Cioran, 鈥渇ogo de artif铆cio em um cen谩rio de nada鈥.[60] Por motivos de adapta莽茫o e sobreviv锚ncia, o homem desenvolveu mecanismos simb贸licos para eludir sua condi莽茫o tragicamente mortal. Para n茫o sucumbir ao insustent谩vel peso da vida, inventou a Vida e passou a habit谩-La confortavelmente.

Sobre o homem. Muitos dos aforismos e ensaios de Cioran s茫o dedicados a este tema: a condi莽茫o humana sofredora, mortalmente consciente de sua mortalidade, o car谩ter tr谩gico e concupiscente do homem, sua pleonexia inata, o paradoxo de sua natureza dual (meio anjo, meio besta), enfim, a mescla de bem e de mal, virtude e v铆cio, for莽a e fragilidade, nobreza e pequenez, que entra em sua constitui莽茫o. Em La chute dans le temps, ele desenvolve uma reflex茫o antropol贸gica sobre o ser humano a partir de uma exegese bastante heterodoxa do mito do pecado original, afirmando que o surgimento do homem enquanto animal hist贸rico foi devido ao t茅dio experimentado por Ad茫o pela incapacidade de suportar a monotonia do para铆so. Em Hist贸ria e Utopia, por sua vez, Cioran recorre ao mito hesi贸dico das idades e 脿 trag茅dia de 脡squilo sobre Prometeu (鈥渙 filantropo funesto鈥) para ilustrar o car谩ter temer谩rio do ser humano, do qual deriva sua hist贸ria, e empreender uma cr铆tica desta temeridade tr谩gica a partir do contraste entre a precariedade atual da condi莽茫o humana e o car谩ter supostamente mais favor谩vel de um estado outro em que sua condi莽茫o fosse menos carente e menos sofredora do que no presente. J谩 em Le mauvais demiurge, ele reflete sobre a concupisc锚ncia humana, sobre a inclina莽茫o humana ao mal a partir do mito gn贸stico do demiurgo, um deus ignominioso cujo universo (鈥渦ma geometria que sofre de epilepsia鈥[61]), d谩 provas de sua maldade ou de sua impot锚ncia. No Brevi谩rio, Cioran retorna a uma quest茫o que j谩 havia sido tratada em seu primeiro livro, a saber, o car谩ter indeterminado, em aberto, da natureza humana, se 茅 que podemos falar de natureza no caso de um animal em constante metamorfose, 鈥渦ma criatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, ins贸lita na Cria莽茫o鈥.[62] O homem 茅 um 鈥渁nimal indireto鈥, pelo fato de que, 鈥渆nquanto os animais v茫o diretamente a seu alvo, ele se perde em rodeios鈥. [63] Enquanto 鈥渁nimal metaf铆sico鈥, seus fins 煤ltimos, elevados acima da mera biologia, n茫o est茫o nunca predeterminados, cabendo a ele criar e escolher seus caminhos de acordo com os mais variados fins aos quais pode aspirar.

O animal enfermo. O car谩ter 鈥渋ndireto鈥 do ser humano 茅 consequ锚ncia de sua natureza metaf铆sica, de sua verticalidade racional, da consci锚ncia reflexiva que o distingue e o eleva por cima dos seres. Cioran enxerga a consci锚ncia como uma enfermidade, ou seu resultado, a acometer o homem em algum momento primordial de sua evolu莽茫o. Com o advento da consci锚ncia reflexiva, fundamento da racionalidade humana, o homem se debilita, adoece, pois a consci锚ncia e a raz茫o comprometem seus instintos, seu vigor animal, sua naturalidade, roubando-lhe realidade. A consci锚ncia desnatura a animalidade original. Dito isso, como explicar o car谩ter excepcional e espantoso dessa 鈥渃riatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, ins贸lita na Cria莽茫o鈥? Contamos apenas com hip贸teses, que a religi茫o e o mito, al茅m da filosofia e da ci锚ncia, entret锚m, cada uma a sua maneira, no sentido de explicar as origens dessa condi莽茫o (pecado, temeridade, sele莽茫o natural, etc.). Quanto a Cioran, ele prefere interpretar o advento do homem e sua consci锚ncia em termos de uma enfermidade essencial que teria se apoderado dele nos prim贸rdios de sua exist锚ncia.

Como definir o v铆rus que, corroendo sua sonol锚ncia, sobrecarregou-o de vig铆lias em meio 脿 sesta dos seres? Que verme apoderou-se de seu repouso, que agente primitivo do conhecimento obrigou-o ao atraso dos atos, ao refreamento dos desejos? Quem introduziu a primeira languidez em sua ferocidade? Sa铆do do fervilhar informe dos outros seres vivos, criou uma confus茫o mais sutil, explorou com min煤cia os males de uma vida arrancada de si mesma.[64]

A vida inconsciente e instintiva, sin么nimo de sa煤de ontol贸gica, 茅 associada aqui 脿 ideia de sono (a 鈥渟esta dos seres鈥); a especificidade humana, por sua vez, caracterizada pela verticalidade racional e pela consci锚ncia reflexiva, 茅 associada 脿 ideia de 鈥渧ig铆lia鈥, da vida que 鈥渄esperta鈥 para si mesma 鈥 para a autoconsci锚ncia de ser uma forma de vida consciente de si mesma. Em todo caso, a autoconsci锚ncia s贸 茅 poss铆vel mediante um relaxamento dos instintos, uma 鈥渓anguidez da ferocidade鈥, debilita莽茫o esta que faz do homem um 鈥渁nimal indireto鈥. Ali谩s, a doen莽a 茅 uma das grandes obsess玫es de Cioran, ao lado do sofrimento e da morte. N茫o apenas as doen莽as localizadas, espec铆ficos, determinados, mas principalmente o mal essencial em que consiste a doen莽a da consci锚ncia enquanto tal. Mas essa enfermidade essencial da qual padece o ser humano n茫o poderia ser apenas um mal; 茅 gra莽as a ela, e 脿 diversidade de males que dela derivam, que nos individualizamos, que nos tornamos n贸s mesmos, que desempenhamos algum papel nesse mundo: 鈥淣茫o podemos nos exaltar nem desempenhar um papel nesse mundo sem o aux铆lio de alguma doen莽a, e n茫o existe dinamismo que n茫o seja sinal de mis茅ria fisiol贸gica ou de devasta莽茫o interior鈥.[65] Enfim, tudo o que o ser humano tem de bom e de ruim, de admir谩vel e de lament谩vel, sua atividade e inatividade, tudo isso ele deve 脿 Doen莽a:

Depois de haver peregrinado atrav茅s das esp茅cies, e lutado com maior ou menor 锚xito para nelas imprimir sua marca, a Doen莽a, cansada de sua carreira, quis sem d煤vida aspirar ao descanso, buscar algu茅m em quem afirmar sua supremacia em paz, algu茅m que n茫o se mostrasse rebelde a seus caprichos e a seu despotismo, algu茅m com quem realmente pudesse contar. Hesitou, procurou 脿 direita e 脿 esquerda, fracassou muitas vezes. Finalmente encontrou o homem, se 茅 que n茫o foi ela que o criou.[66]

De uma plasticidade pungente, a alegoria pretende ilustrar a condi莽茫o do ser humano enquanto animal racional, por meio de uma fic莽茫o 鈥 uma narrativa mitol贸gica que, muito embora fict铆cia, fant谩stica, busca expressar e significar algo de real no que concerne 脿 experi锚ncia humana. O protagonista 茅 a Doen莽a: incubada no mundo antes mesmo do surgimento do homem, ela perambulava em meio aos seres, em busca de algum que se mostrasse receptivo a sua atua莽茫o. A Doen莽a como sujeito e agente; o homem como objeto e paciente: o relato p玫e em relevo a condi莽茫o de v铆tima 鈥 de algu茅m que padece de determinada condi莽茫o 鈥 do homem ao longo de sua hist贸ria. Em meio 脿 normalidade 鈥渟onolenta鈥 (a 鈥渟esta鈥) dos seres destitu铆dos de uma consci锚ncia reflexiva, o homem 鈥渄esperta鈥 para desenvolver a racionalidade que possu铆a em estado de lat锚ncia, como uma pot锚ncia adormecida a ser ativada pela Doen莽a. Al茅m de suas pr贸prias alegorias inventadas, Cioran recorre tamb茅m a mitos tradicionais, como o relato b铆blico do G锚nese e a narrativa grega sobre Prometeu, para expressar aquela que seria, em sua vis茫o, a condi莽茫o hist贸rica do homem e suas poss铆veis causas (pecado original, titanismo temer谩rio, etc.): ele 茅 uma 鈥渇ratura na natureza鈥[67], um 鈥渁nimal indireto鈥,[68] 鈥減贸 apaixonado por fantasmas鈥,[69] um 鈥渘ada l煤cido que engloba tudo e n茫o 茅 englobado por nada鈥,[70] um 鈥済orila com luvas, forjador de deuses鈥[71], 鈥渢r芒nsfuga do ser鈥,[72] 鈥渆xemplo de anti-natureza鈥,[73] 鈥渉eresia da natureza鈥,[74] 鈥渁nimal descarrilado鈥[75] 鈥 entre outros qualificativos que expressam bem o que est谩 em quest茫o, para Cioran, na causa do ser humano, em sua exist锚ncia e sua hist贸ria.

Muito embora n茫o seja um metaf铆sico de of铆cio, algu茅m que especula sobre o fundamento do ser, que teoriza a realidade, Cioran esbo莽a diletantemente, em seus textos, uma profunda reflex茫o acerca do ser do homem, levantando, de modo po茅tico-liter谩rio, diversas quest玫es antropol贸gicas importantes. Aquilo que ele diz de forma aleg贸rica tem s茅rias implica莽玫es filos贸ficas; por detr谩s de sua cria莽茫o liter谩ria, est谩 uma concep莽茫o metaf铆sica muito peculiar do ser humano e do mundo 鈥 uma ontologia negativa, com efeito, que atribui o ser ao resultado de uma queda, de uma perda, de uma priva莽茫o. Mas fazer metaf铆sica, construir teorias para explicar a realidade, 茅, para Cioran, querer sistematizar o inef谩vel, confiar demais nas palavras, dar-lhes demasiada import芒ncia, quando no fundo elas s茫o t茫o vazias quanto as realidades que se sup玫e designarem. 鈥淨ueremos, 脿 for莽a, ver o fundo das palavras? N茫o se v锚 nada, pois este, separado da alma expansiva e f茅rtil, 茅 vazio e nulo. O poder da intelig锚ncia exercita-se em projetar sobre ele um brilho, em poli-lo e torn谩-lo deslumbrante; este poder, erigido em sistema, chama-se cultura鈥.[76]

O modus operandi da escritura cioraniana 茅 predominantemente po茅tico, n茫o filos贸fico-argumentativo. Suas opini玫es, sua vis茫o das coisas (seu pensamento, enfim), Cioran n茫o se preocupa em demonstrar apoditicamente, justificar, argumentar, mas expressa-as de maneira aleg贸rica, figurativa, com toda a ret贸rica que esse procedimento pressup玫e. Seu prop贸sito n茫o transmitir e fazer compreender, dianoeticamente, algum conte煤do positivo, mas causar determinados efeitos 鈥 notadamente abalar, estremecer, complicar, fustigar, de modo a proporcionar, a partir de uma po茅tica do paradoxo e do absurdo, uma intui莽茫o imag茅tica das ideias e teses que, afinal de contas, n茫o deixam de existir e fundamentar a cria莽茫o filos贸fico-liter谩ria de Cioran. Que ideias? Que teses? O car谩ter tr谩gico da exist锚ncia, a impot锚ncia do homem perante o destino, a realidade da enfermidade e do mal, em sentido metafisico muito mais que como uma quest茫o meramente social, enfim, a supremacia do Insol煤vel e do Irrepar谩vel 鈥 a irracionalidade e falta de sentido da vida, a finitude humana. 脡 de se considerar, ademais, que apenas as conclus玫es de seus pensamentos s茫o demonstradas, como a ponta de um iceberg, sendo que as premissas (via de regra, controversas e paradoxais, no sentido de confrontarem a opini茫o estabelecida) equivaleriam ao fundo impl铆cito do iceberg. Em sua escritura terap锚utica, a imagina莽茫o, a paix茫o, os sentimentos, contam muito. Cioran escreve com o cora莽茫o, n茫o (apenas) com a raz茫o. E o cora莽茫o n茫o argumenta, ele espasma e explode. Talvez seja esse o maior obst谩culo no sentido de compreend锚-lo como um fil贸sofo; em todo caso, o fato 茅 que sua obra, muito embora 鈥渓iter谩ria鈥, cont茅m um profundo valor filos贸fico, que n茫o se baseia em uma eventual virtude l贸gico-dial茅tica, mas em um intelecto que formula e problematiza, de modo po茅tico, como um 鈥渁rtista do verbo鈥, quest玫es filos贸ficas das mais relevantes.

A julgar por determinada perspectiva historicamente predominante, Cioran n茫o 茅 fil贸sofo, e, em todo caso, recusa o qualificativo; apesar de ter se formado em filosofia na universidade de Bucareste, ele n茫o se considera como tal, e prefere n茫o s锚-lo. Poeta? Tampouco. Como poeta, Cioran 茅 um ex铆mio fil贸sofo, e, como fil贸sofo, um brilhante poeta. O que h谩 entre esses dois extremos, que se poderia imaginar como alternativa? Talvez a prosa po茅tica, o aforismo, o ensaio, a autobiografia, e uma diversidade de formas discursivas sem filia莽茫o hist贸rica determinada. Um pensador, com efeito, que 茅 ao mesmo tempo um escritor, a julgar pela relev芒ncia po茅tico-liter谩ria de sua obra. Cioran escreve a partir de um contexto hist贸rico em que as fronteiras entre filosofia e literatura foram borradas. Ap贸s a crise da metaf铆sica, a filosofia parece ter caminhado para se tornar apenas um g锚nero 鈥渓iter谩rio鈥 como qualquer outro, e seus conceitos, destitu铆dos de todo valor universal absoluto, n茫o valeriam mais do que as met谩foras da linguagem po茅tica. A escritura cioraniana se constitui no contexto dessa crise e da subsequente interpenetra莽茫o dos discursos filos贸fico e liter谩rio. Para Cioran, n茫o importa se o que se escreve 茅 filosofia, literatura ou o que quer que seja; escrever, escrever-se 鈥 eis o que importa. Escrever sobre o que, e como? Sobre suas obsess玫es de sempre (a morte, o sofrimento, a doen莽a, o homem, a hist贸ria, a m铆stica, a m煤sica), enfim, sobre coisas que lhe interessam e preocupam intimamente, e sobre as quais ele n茫o poderia ser imparcial ou indiferente. Mais do que um escritor, Cioran 茅 um pensador, um intelectual preocupado em expressar suas ideias 脿 sua pr贸pria maneira, sem se preocupar com defini莽玫es e classifica莽玫es estabelecidas.

Como escrever? Com a totalidade de seu ser, escrever de corpo e alma, com suas paix玫es e loucuras, n茫o apenas com a raz茫o. 脡 preciso dar voz a todas as experi锚ncias poss铆veis, mesmo 鈥 ou principalmente 鈥 se estiverem em desacordo consigo mesmas, de onde a exig锚ncia de uma escritura fragment谩ria, que d锚 conta de n茫o deixar nada de fora. De onde, tamb茅m, o car谩ter poi茅tico (no sentido de um fazer art铆stico), da escritura, para al茅m da mera especula莽茫o filos贸fica, de toda reflex茫o abstrata: 鈥淣茫o fazer distin莽茫o entre o drama do intelecto e o drama da carne; haver introduzido o sangue na l贸gica鈥.[77] Escritura e vida est茫o intimamente ligados em Cioran; a seu modus scrivendi corresponde um modus vivendi, sendo a escritura para ele um estilo de vida, um programa de exerc铆cios variados para a manuten莽茫o do esp铆rito, muito mais do que uma atividade profissional e impessoal, sem nenhuma implica莽茫o existencial direta sobre aquele que escreve. A julgar por Nos cumes do desespero, escrever 茅, desde o in铆cio, uma quest茫o de sobreviv锚ncia, vida ou morte. A partir da ins么nia que o transfigura ainda adolescente, s贸 lhe resta escrever sobre a recorda莽茫o daqueles instantes de lucidez desesperadora 鈥 eis 茅 a 煤nica atividade ocupa莽茫o vi谩vel; escrever sobre os extremos da vida, sobre os confins do ser, sobre os limites de si mesmo. A escritura (juntamente com a leitura) como a 煤nica ocupa莽茫o ao alcance daquele para quem toda outra ocupa莽茫o parece irris贸ria e sem-sentido. Que digo? Ela mesma 茅 uma atividade v茫 como qualquer outra, mas a 煤nica que n茫o trai, ou n茫o deveria trair (em suas inten莽玫es e prop贸sitos) a vanitas inerente 脿 exist锚ncia. A escritura, a fim de contas, como a busca da express茫o cujo destino, caso se esteja disposto a lev谩-la 脿s 煤ltimas consequ锚ncias, 茅 o sil锚ncio. Segundo Fernando Savater,

A palavra em Cioran d谩 voz 脿 lucidez, ou melhor, 脿 recorda莽茫o da lucidez: 茅 mem贸ria desse acesso de cordura desimpedida que, por um momento, dissipa as brumas do del铆rio. O momento mesmo da vis茫o, da revela莽茫o essencial, 茅 silencioso e im贸vel. Escrever para qu锚? Como comunicar uma aus锚ncia de conte煤do, no caso improv谩vel de que se quisesse faz锚-lo? Como ser entendido por quem n茫o est谩 sofrendo a mesma experi锚ncia iluminadora? Mas, sobretudo, para que falar ou escrever?[78]

H谩 algo de m铆stico nesta experi锚ncia da lucidez (ainda que se trata de uma m铆stica imanente, das ra铆zes irracionais da vida), que Cioran se esfor莽a para exprimir, tentando traduzir em palavras algo que seria alheio, dir-se-ia mesmo hostil, 脿s palavras, a todo conte煤do positivo. A escritura, neste sentido, seria a transmiss茫o de uma experi锚ncia iluminadora e transfiguradora inef谩vel, transmiss茫o esta que n茫o poderia ser bem-sucedida, tanto em fun莽茫o da 鈥渋ndig锚ncia das palavras鈥 quanto da alteridade irredut铆vel do leitor, que n茫o necessariamente possui uma experi锚ncia id锚ntica 脿quela que o escritor busca transmitir. A lucidez 茅 uma inicia莽茫o ao vazio da exist锚ncia, e o indiv铆duo idealmente l煤cido, tendo transcendido, por instantes que seja, os limites da exist锚ncia, compreende a futilidade de toda empreitada, inclusive da escritura, e o fracasso a que est谩 condenada. Tendo conhecido os cumes, a queda 茅 inevit谩vel, e, com efeito, 鈥渟贸 se cria a partir da queda鈥. O pensador-escritor, neste sentido, seria como um 鈥渁rtes茫o do verbo鈥 que entreviu a superabund芒ncia e, paradoxalmente, a mis茅ria de sua mat茅ria-prima, a linguagem, e a partir de ent茫o se decepciona com os limites naturais impostos a todo ser e a todo criar. Enfim, a intui莽茫o da irrealidade e do vazio inerente 脿s coisas produz uma esp茅cie de ang煤stia metaf铆sica, que 茅 o ponto de partida da cria莽茫o de Cioran.

A ang煤stia metaf铆sica prov茅m da condi莽茫o de um artes茫o sumamente escrupuloso, cujo objeto n茫o seria outro sen茫o o ser. De tanto analisar, chega 脿 impossibilidade de compor, de terminar uma miniatura do universo. […] A incapacidade de alinhar os elementos 鈥 t茫o desprovidos de sentido e de sabor como as palavras que os expressam 鈥 leva 脿 revela莽茫o do vazio. Por isso o versificador se retira ao sil锚ncio ou aos artif铆cios impenetr谩veis. […] Os que n茫o permanecem no interior da realidade que cultivam, os que transcendem o of铆cio de existir devem ou pactuar com o inessencial, voltar atr谩s e integrar-se na eterna farsa, ou aceitar todas as consequ锚ncias de uma condi莽茫o separada, e que 茅 superabund芒ncia ou trag茅dia, conforme a olhemos ou a soframos.[79]

Fulminado pela revela莽茫o do Essencial, pela luz ofuscante das 鈥渧erdades negativas鈥 que est茫o sempre contra n贸s e contra nossos anseios, o artes茫o Cioran recua de volta ao inessencial, ao mundo das apar锚ncias e das falsas realidades, resignando-se a ser um 鈥渧ersificador munido de artif铆cios impenetr谩veis鈥 鈥 a frivolidade, o histrionismo, a ironia, o ceticismo, o paradoxo. A verdade, ali谩s, 茅 demasiado insuport谩vel para que a busquemos sempre e vivamos constantemente com a vis茫o precisa de seus contornos. O escritor, portanto, s贸 produz e s贸 prospera na medida em que se det茅m a tempo ante o Essencial, a um passo do abismo; compreende ent茫o que o Essencial, como a Verdade, culmina no Insol煤vel, no Irrepar谩vel, no Inef谩vel 鈥 e, em mat茅ria de express茫o, no sil锚ncio. Enfim, n茫o 茅 humanamente vi谩vel manter a lucidez indefinidamente, e por isso Cioran constata, por experi锚ncia de causa, o valor das ilus玫es e do engano 鈥 condi莽茫o de possibilidade de toda cria莽茫o do esp铆rito.

Do del铆rio 脿 lucidez, da express茫o ao sil锚ncio. Eis o destino do escritor, que 茅 afinal de contas um exilado nas palavras: 鈥淣a vida do esp铆rito chega um momento em que a escritura, erigindo-se em princ铆pio aut么nomo, se converte em destino. 脡 ent茫o que o Verbo, tanto nas especula莽玫es filos贸ficas como nas produ莽玫es liter谩rias, revela seu vigor e seu nada鈥[80] A busca da express茫o 茅, segundo Cioran, lastim谩vel, pois 鈥渁 mis茅ria da express茫o, que 茅 a mis茅ria do esp铆rito, manifesta-se na indig锚ncia das palavras, em seu esgotamento e sua degrada莽茫o: os atributos gra莽as aos quais determinamos as coisas e as sensa莽玫es jazem finalmente de diante de n贸s como carca莽as verbais鈥.[81] O escritor romeno precisou exilar-se longe de casa, desenraizar-se, mudar de p谩tria e de idioma,[82] para desenvolver tal concep莽茫o de linguagem que culmina no sil锚ncio, para distanciar-se, ademais, de seus del铆rios sangu铆neos de juventude (o furor violento de suas paix玫es desenfreadas) cujo resultado fora uma verborragia inconsequente e quase criminosa; distanciar-se deles e conjur谩-los mediante uma conten莽茫o das palavras 鈥 algo especialmente proporcionado pelo c芒mbio de idioma: 鈥淣茫o se habita pa铆s, habita-se uma l铆ngua: uma p谩tria 茅 isso e nada mais鈥.[83]聽 脡 em territ贸rio franc锚s que Cioran pode tomar consci锚ncia de seus excessos e descaminhos passados e caminhar em dire莽茫o 脿 eleg芒ncia do laconismo, a um classicismo estil铆stico que pretende dar outro trato 脿s palavras que n茫o aquele de outrora 鈥 profusivo, caoticamente transbordante, caracter铆stico de sua produ莽茫o romena. Uma eleg芒ncia classicista que pretende ser ao mesmo tempo um princ铆pio de exist锚ncia, pois 茅 preciso 鈥渄ar uma fachada ao nada鈥, respeitar as apar锚ncias, jogar o jogo. Pois,

Quem, emancipado de todos os princ铆pios do costume, n茫o dispusesse de nenhum dom de comediante, seria o arqu茅tipo do infort煤nio, o ser idealmente desgra莽ado. 脡 in煤til construir tal modelo de franqueza: […] 脡 porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem n茫o aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus p茅s: estamos biologicamente obrigados ao falso […] Como s贸 o respeito das apar锚ncias nos separa dos cad谩veres, precisar o fundo das coisas e dos seres 茅 perecer; conformemo-nos a um nada mais agrad谩vel: nossa constitui莽茫o s贸 tolera certa dose de verdade.[84]

Seria imposs铆vel, enquanto perdur谩ssemos nossa condi莽茫o de vivente, instalar-nos definitivamente na verdade ou no sil锚ncio. Muito embora um esp铆rito inclinado ao sil锚ncio exigido pela lucidez, e seduzido por esse sil锚ncio, Cioran pode no m谩ximo 鈥減erambular por suas periferias鈥 sem nunca adentr谩-lo efetivamente, sem nunca mergulhar em seus abismos. Nem s贸 da verdade necessitamos para viver; faz falta um m铆nimo de ilus茫o, de agita莽茫o, de insist锚ncia nos equ铆vocos da express茫o, fanfarronice. Afinal de contas, 鈥渆screver 茅 o ato menos asc茅tico que existe鈥;[85] ademais, n茫o se poderia faz锚-lo, n茫o se teria o que dizer, se n茫o se entretivesse o inessencial, o acess贸rio, o superficial. Pois 鈥渙 acess贸rio 茅 a ess锚ncia da comunica莽茫o (logo, do pensamento), 茅 a carne e o sangue da comunica莽茫o. Querer renunciar a ele 茅 como fornicar com um esqueleto鈥.[86]

As met谩foras empregadas por Cioran s茫o tomadas da m煤sica, do mito e da religi茫o; apenas estes discursos 鈥 e n茫o a filosofia 鈥 conseguem ro莽ar, se n茫o adentrar, o absoluto que se sup玫e existir por detr谩s das capas das apar锚ncias cotidianas. 鈥淒eus鈥, por sinal, parece ser a met谩fora maior na economia de sua escritura, 脿 qual ele sempre retorna, a cada livro, a cada p谩gina de um mesmo livro, para exprimir 鈥渙 limite 煤ltimo鈥[87] da experi锚ncia humana, do ser, do pensar e do dizer, para al茅m do qual encontra-se o vazio quanto mais se avan莽a. Ali谩s, atravessa sua obra de cabo a rabo a met谩fora do escritor como um demiurgo, como uma criatura cuja tarefa 茅 levar adiante o erro original em que consiste a Cria莽茫o. Se, a julgar pela etimologia do termo alem茫o Dichtung, a poesia pressup玫e um adensamento da realidade, para Cioran este adensamento pressup玫e uma acentua莽茫o, um aprofundamento um agravamento, por meio da escritura, do estado de coisas em que se encontra o mundo desde que 茅 mundo 鈥 ou, ao menos, desde que o homem apareceu sobre a face da Terra. Escrever 茅 assumir o papel de um deus 脿s avessas, de um demiurgo em pequena escala cuja cria莽茫o equivale 脿 nega莽茫o do Criador, a favor de sua pr贸pria afirma莽茫o enquanto criatura, e 脿 den煤ncia de sua 鈥淐ria莽茫o sabotada鈥. O escritor 茅 a culmina莽茫o do 鈥渉omem antigo鈥, a personifica莽茫o art铆stica de Ad茫o que se aproveita dos defeitos at谩vicos da humanidade 鈥 脿 qual, feliz ou infelizmente, ele pertence 鈥 como a mat茅ria-prima de sua cria莽茫o. 鈥溍 a humanidade tarada o que constitui a mat茅ria da literatura. O escritor se felicita com a perversidade de Ad茫o, e prospera unicamente 脿 medida que cada um de n贸s a assume e renova鈥.[88]聽Assim,

O escritor 茅 o triunfo do homem antigo, das velhas taras da Humanidade; 茅 o homem聽antes聽da Reden莽茫o. Para o escritor, o Redentor ainda n茫o chegou efetivamente, ou ent茫o sua a莽茫o redentora n茫o surtiu nenhum resultado. O escritor se felicita do erro de Ad茫o e s贸 prospera na medida em que cada um de n贸s a renova e a toma para si. A Humanidade tarada em sua ess锚ncia 茅 o que constitui a mat茅ria de toda聽obra. S贸 se cria a partir da Queda.[89]

Para o escritor, 茅 necess谩rio que n茫o tenha havido nenhuma reden莽茫o, nenhuma regenera莽茫o de nossa condi莽茫o pecaminosa, nenhuma solu莽茫o do tr谩gico 鈥 ele exige a perman锚ncia do estado ad芒mico original para o bem de sua cria莽茫o. Por isso mesmo, trata-se de um r茅probo, em mais de um sentido: tanto na acep莽茫o tradicional (um indiv铆duo solit谩rio, exclu铆do do mundo sociedade e odiado por seus cong锚neres, condenado por Deus 脿s penas eternas), quanto na acep莽茫o peculiar que lhe d谩 Cioran 鈥 aquele que permanece como um 鈥渘茫o-liberto鈥 (l鈥檌ndelivr茅[90]), que persiste em seus erros e cultiva suas imperfei莽玫es como condi莽茫o de possibilidade do fazer liter谩rio. Escrever adamicamente 茅 contestar o Criador, provoc谩-lo, suscitar sua ira e tamb茅m sua inveja, escancarar o fracasso de sua obra e provar que se pode igual谩-lo, dir-se-ia mesmo super谩-lo, em mat茅ria de loucura e caos.

Escrever 茅 uma provoca莽茫o, uma vis茫o felizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapass谩-lo mesmo apenas pela for莽a da linguagem, esta 茅 a proeza do escritor, esp茅cime amb铆guo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condi莽茫o natural, se entregou a uma vertigem magn铆fica, sempre desconcertante, 脿s vezes odiosa. […] O escritor 茅 um desequilibrado que utiliza essas fic莽玫es que s茫o as palavras para se curar. […] A escrita 茅 a desforra da criatura e sua resposta a uma Cria莽茫o sabotada.[91]

Cioran escreve para denunciar o esc芒ndalo de uma 鈥淐ria莽茫o sabotada鈥, exprimindo em palavras o absurdo, o sem-sentido, a precariedade, enfim, a realidade manifesta do mal que se mostra operante no mundo, o agravamento deste mal por conta do advento do 鈥渁nimal enfermo鈥, sendo a consci锚ncia a enfermidade de que ele padece e que o eleva por cima dos seres, ao mesmo tempo em que o condenada ao conhecimento de sua pr贸pria condi莽茫o finita, mortal, miser谩vel 鈥 e, por isso mesmo, digna de interesse, excitante; escrever para exprimir a impossibilidade da vida consciente de si mesma, e que por isso mesmo a faz valer a pena, para sublinhar a trag茅dia da exist锚ncia. Tratar-se-ia, pois de uma po茅tica do Irremedi谩vel, de uma ret贸rica do Pior, com o prop贸sito de despertar o leitor para a gravidade da condi莽茫o humana. N茫o por menos, o mito do pecado original, que Cioran formula em termos de uma 鈥渜ueda no tempo鈥 (e na hist贸ria), lhe 茅 imprescind铆vel para ilustrar a condi莽茫o humana e fazer dela algum sentido.[92] Gra莽as a sua condi莽茫o deca铆da, 脿 sua expuls茫o de um estado de natureza paradis铆aco anterior ao advento da consci锚ncia, o homem, al茅m de enfermo, 茅 um animal que carrega no fundo de si mesmo uma tristeza original, acompanhada de um sentimento eleg铆aco de nostalgia. 鈥淎 tristeza remonta 脿 raiz de nossa perdi莽茫o…, a tristeza 茅 a poesia do pecado original….鈥[93]

Para levar adiante sua escritura terap锚utica, Cioran n茫o encontrou outro meio que com o discurso fil贸sofo e aproximar-se da poesia, do mito e da m煤sica, pois apenas assim poderia dar express茫o a conte煤dos que v茫o al茅m do conceito e de toda especula莽茫o abstrata. Em vez de conceitos, met谩foras; em vez de teorias, cantos eleg铆acos: apenas essa linguagem poderia alcan莽ar, tanto quanto poss铆vel, a intui莽茫o essencial que Cioran teria tido a respeito de Deus, do mundo e do ser humano. N茫o surpreende, pois, que ele seja acusado de ser um sofista, um versificador pernicioso, um c铆nico no sentido rasteiro do termo; afinal, seu discurso n茫o fala em nome do Bem e n茫o o exalta, pois em sua opini茫o esta seria uma maneira de eludir e escamotear o Mal que, por sua vez, parece lutar contra o Bem em p茅 de igualdade. 鈥淒esconfie dos quem aderem a uma filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em 铆dolo; n茫o teriam chegado a isso se, debru莽ados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas鈥.[94] Mas defini莽茫o de Cioran como um sofista ou um c铆nico n茫o se sustenta, na medida em que se fundamenta na cl谩ssica distin莽茫o entre logos filos贸fico e logos po茅tico, distin莽茫o cuja pertin锚ncia ele n茫o reconhece, e para al茅m da qual se estrutura seu discurso. Al茅m disso, 茅 importante ter em mente a distin莽茫o feita por ele entre dois tipos de cinismo, sendo que um deles sequer merecia dita defini莽茫o:

脡 f谩cil fazer o mal: todo mundo o consegue; assumi-lo explicitamente, reconhecer sua inexor谩vel realidade 茅, por outro lado, uma proeza ins贸lita. Na pr谩tica, qualquer um pode rivalizar com o diabo; na teoria, n茫o ocorre o mesmo. Cometer horrores e conceber o horror s茫o dois atos irredut铆veis um ao outro: n茫o h谩 nada em comum entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato.[95]

Por fim, retornamos 脿 quest茫o inicial da escritura como terap锚utica, como ph谩rmakon. A julgar pelo cinismo abstrato que consiste em conceber o horror em vez de (para n茫o) pratic谩-lo, a terap锚utica cioraniana da escritura poderia ser interpretada como um exerc铆cio espiritual com o prop贸sito de conjurar e expelir esse mesmo horror, o mal que Cioran descobre no fundo de si mesmo e na raiz do ser enquanto tal. Por茅m, 茅 de se indagar: n茫o se corre o risco de cair no c铆rculo vicioso em que o ph谩rmakon da escritura, ao mesmo tempo que alivia e cura, irrita os males da alma e a envenenam. Em Cioran, a fortiori, a escritura mant茅m essa ambival锚ncia de que fala Derrida:

Esta dolorosa frui莽茫o, ligada tanto 脿 doen莽a quanto ao apaziguamento, 茅 um ph谩rmakon em si. Ela participa ao mesmo tempo do bem e do mal, do agrad谩vel e do desagrad谩vel. […] Depois, mais profundamente, para al茅m da dor, o rem茅dio farmac锚utico 茅 essencialmente nocivo porque artificial. […] Desviando o curso normal e natural da doen莽a, o ph谩rmakon 茅, portanto, o inimigo do vivo em geral. […] Contr谩ria 脿 vida, a escritura […] apenas desloca e at茅 mesmo irrita o mal.[96]

Disso Cioran parece ter tido plena consci锚ncia. Sua rela莽茫o ambivalente com a escritura, que se pretende um rem茅dio e que, n茫o obstante, n茫o poderia deixar de atuar como um veneno, corresponde de certa forma a sua rela莽茫o com o niilismo. Combater um e outro implica agrav谩-los, lev谩-los 脿s 煤ltimas consequ锚ncias, esgot谩-los para que, enfim, seja poss铆vel alcan莽ar algum fundamento e alguma sa煤de s贸lida na exist锚ncia. Comunicar a enfermidade e o niilismo mediante a escritura seria, em vez de um mal, um ato de excepcional honestidade, apesar do car谩ter aparentemente nocivo de tal empreitada. Pois o niilismo 鈥溍 a forma limite da benevol锚ncia鈥;[97] e quanto 脿 doen莽a,

茅 uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida; n茫o apenas tudo o que vive, como tamb茅m tudo o que , a ela est谩 exposto: a pr贸pria pedra est谩 sujeita a ela. Apenas o vazio n茫o est谩 enfermo, mas, para ter acesso a ele, 茅 preciso est谩-lo. Pois nenhuma pessoa s茫 poderia alcan莽谩-lo. A sa煤de espera a enfermidade; apenas a enfermidade pode propiciar a nega莽茫o saud谩vel de si mesma.[98]

Eis que a sa煤de se encontra na doen莽a, ou antes, atrav茅s da doen莽a, ap贸s hav锚-la atravessado e superado; n茫o poderia ser diferente em rela莽茫o ao niilismo, estado terminal de nossa condi莽茫o hist贸rica enquanto animais metafisicamente enfermos. Quanto mais se aprofunda nas quest玫es do ser, mais se d谩 conta de que 茅 uma linha t锚nue, uma fronteira mal definida, entre a sa煤de e a doen莽a, e que n茫o se busca uma sem encontrar a outra; o mesmo se d谩 em rela莽茫o ao ser e ao nada. A escritura deve aprofundar a doen莽a para melhor detect谩-la e combate-la desde o interior; deve mergulhar no niilismo para, uma vez tendo-o esgotado, encontrar algum terreno, mesmo que inst谩vel, no qual se apoiar. O paradoxo 茅 o destino da escritura cioraniana, eis onde ele busca se instalar em meio 脿s palavras. 脡 por isso que sua obra n茫o 茅 um rem茅dio positivo, no sentido convencional do conceito, mas um veneno que cura.

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[1] LIICEANU, G. Itin茅raires d鈥檜ne vie聽: E. M. Cioran, p. 117.

[2] CIORAN, E. La tentation d鈥櫭﹛ister, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 895

[3] IDEM, Ibid., in: 芦 Oeuvres 禄, p. 884.

[4] IDEM, 脡cart猫lement, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1483.

[5] IDEM, Ibid., p. 1415,

[6] IDEM, Silogismos da amargura, p. 102.

[7] Aos dez anos, Emil 茅 for莽ado a se mudar, por decis茫o do pai, para outra cidade, onde dever谩 ingressar em um liceu para ter uma educa莽茫o de qualidade. A mudan莽a 茅 traum谩tica; ele sente-se desenraizado, arrancado de seu solo natal. Em uma entrevista, recorda: 鈥淓u tinha 10 anos quando a abandonei [Rasinari, sua cidade natal] para ir ao Liceu de Sibiu, e jamais esquecerei o dia, ou mesmo a hora, em que meu pai me levou embora. Ele alugou uma carruagem, e eu chorava o tempo todo, pois tinha o pressentimento de que o para铆so havia terminado鈥. CIORAN, E. Entretiens, p. 285.

[8] IDEM, De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1277.

[9] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 54.

[10] IDEM. Nos cumes do desespero, p. 15-16.

[11] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 86.

[12] IDEM. Nos cumes do desespero, p. 34.

[13] IDEM. Ibid., p. 34.

[14] CIORAN, E. Nos cumes do desespero, p. 22.

[15] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 87.

[16] IDEM. Ibid., p. 55.

[17] IDEM. Le mauvais d茅miurge, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1254.

[18] T铆tulo de um cap铆tulo do Brevi谩rio: 鈥淎ntifil贸sofo, abomino toda ideia indiferente: nem sempre estou triste, logo n茫o penso sempre. Quando olho as ideias, elas me parecem ainda mais in煤teis que as coisas; desse modo, s贸 adorei as elucubra莽玫es dos grandes enfermos, as rumina莽玫es da ins么nia, os rel芒mpagos de um pavor incur谩vel e as d煤vidas atravessas de suspiros.鈥 CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 101.

[19] 鈥淪em nossas d煤vidas sobre n贸s mesmos, nosso ceticismo seria letra morta, inquietude convencional, doutrina filos贸fica鈥. CIORAN, E. Silogismos da amargura, p. 11.

[20] IDEM. Ibid., p. 57.

[21] CIORAN, E. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1379.

[22] DERRIDA, J. A farm谩cia de Plat茫o, p. 14.

[23] CIORAN, E. Silogismos da amargura, p. 33

[24] CIORAN, E. Aveux et anath猫mes, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1671.

[25] IDEM. Silogismos da amargura, p. 36.

[26] IDEM. Aveux et anath猫mes, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1713.

[27] CIORAN, E. Hist贸ria e utopia, p. 106.

[28] LOVISOLO, J. Averiguaciones sobre el aforismo, p. 25.

[29] IDEM. Ibid., p. 10

[30] SAVATER, F. Ensayo sobre Cioran, p. 28.

[31] CIORAN, E. 鈥淓ntretien avec Fernando Savater鈥, in: Entretiens, p. 23.

[32] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 18-19.

[33] IDEM. Ibid., p. 55.

[34] IDEM. Le cr茅puscule des pens茅es (鈥淎murgul G芒ndurilor鈥), in: 芦 Oeuvres 禄, p. 425-426.

[35] ARIST脫TELES. Ret贸rica, III, 1, 1404, a18-19, in: RICOEUR, P. A met谩fora viva, p. 57.

[36] CIORAN, E. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1294.

[37] IDEM. Silogismos da amargura, p. 12.

[38] IDEM. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1319.

[39] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 56.

[40] IDEM. Silogismos da amargura, p. 15.

[41] IDEM. 脡cart猫lement, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1495.

[42] N茫o tanto uma representa莽茫o em sentido eid茅tico e conceitual (no sentido schopenhaueriano de um sujeito do conhecimento que representa um objeto, por sua vez, por ele representado), quanto uma figura莽茫o est茅tica, art铆stica, quase pict贸rica.

[43] GAGNEBIN, J.-M. 鈥淒o conceito de m铆mesis no pensamento de Adorno e Benjamin鈥, p.聽 68.

[44] ARIST脫TELES, in: CORBETT, Edward P. J. Introduction to the Poetics of Aristotles, xxv.

[45] RICOEUR, P. A met谩fora viva, p. 14.

[46] CIORAN, E. Silogismos da amargura, p. 102.

[47] IDEM. Ibid., p. 12.

[48] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 27.

[49] IDEM. 脡cart猫lement, in: 芦 Oeuvres 禄, p.聽1444.

[50] IDEM. Ibid., p. 1451

[51] CIORAN, E. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in: 芦 Oeuvres 禄, p.聽1347.

[52] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 47.

[53] CIORAN. E. Nos cumes do desespero, p. 16.

[54] IDEM. Ibid., p. 21.

[55] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 18.

[56] IDEM. Nos cumes do desespero, p. 22.

[57] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 49.

[58] CIORAN, E. Silogismos da amargura, p. 97.

[59] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 60.

[60] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 28.

[61] IDEM. Ibid., p. 25.

[62] IDEM. Ibid., p. 33.

[63] IDEM. Ibid., p. 32.

[64] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 33.

[65] CIORAN, E. Hist贸ria e utopia, p. 91.

[66] IDEM. Ibid., p. 89-90.

[67] IDEM. Le cr茅puscule des pens茅es (鈥淎murgul G芒ndurilor鈥), in: 芦 Oeuvres 禄, p. 341.

[68] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 32.

[69] IDEM. Ibid., p. 92.

[70] IDEM. Ibid., p. 93

[71] IDEM. Ibid., p. 93

[72] IDEM. La chute dans le temps, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1076.

[73] IDEM. Ibid., p. 1076.

[74] IDEM. Ibid., p. 1075.

[75] IDEM. Ibid., p. 1075.

[76] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 28.

[77] CIORAN, E. Le cr茅puscule des pens茅es (鈥淎murgul G芒ndurilor鈥), in: 芦 Oeuvres 禄, p. 496.

[78] SAVATER, F. Ensayo sobre Cioran, p. 157

[79] CIORAN, E. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 87-88.

[80] IDEM. La tentation d鈥櫭﹛ister, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 895.

[81] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 28.

[82] 鈥淪imone Weil escreveu em sua Lettre a um religieux que 鈥榤udar de religi茫o 茅 algo t茫o grave e perigoso quanto o 茅, para um escritor, mudar de l铆ngua. Para mim, que adotei o estatuto de ap谩trida, a l铆ngua 茅 uma amarra, u fundamento, uma certeza. N茫o se 茅 uma nacionalidade, se 茅 uma l铆ngua. Fora dela, tudo se torna abstrato e irreal. Ent茫o, sim, uma l铆ngua 茅 uma p谩tria, e eu me desnacionalizei鈥. IDEM. 鈥淓ntretien avec Esther Seligson鈥, in: Entretiens, p. 162.

[83] CIORAN, E. Aveux et anath猫mes, in聽: 芦 Oeuvres 禄, p. 1651.

[84] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 111.

[85] IDEM. De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅, in聽: 芦 Oeuvres 禄, p. 1325.

[86] IDEM. Ibid., p. 1372.

[87] IDEM. 鈥淓ntretien avec Fritz J. Raddatz鈥, in聽: Entretiens, p. 174.

[88] CIORAN, E. Aveux et anath猫mes, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1702.

[89] IDEM. Cahiers, p. 580.

[90] IDEM. Le mauvais demiurge, in: 芦 Oeuvres 禄, p. 1218.

[91] IDEM. Exerc铆cios de admira莽茫o, p. 123-124.

[92] 鈥淓u n茫o creio no pecado original ao modo crist茫o mas, sem ele, n茫o se pode compreender a hist贸ria universal. A natureza humana 茅 corrompida desde a raiz.鈥 CIORAN, E. 鈥淓ntretien avec Esther Seligson鈥, in: Entretiens, p. 164.

[93] IDEM. Brevi谩rio de decomposi莽茫o, p. 139.

[94] IDEM. Hist贸ria e utopia, p. 78.

[95] CIORAN, E. Hist贸ria e utopia, p. 78.

[96] DERRIDA, J. A Farm谩cia de Plat茫o, p. 46-47.

[97] CIORAN, E. Le cr茅puscule des pens茅es (鈥淎murgul G芒ndurilor鈥), in: 芦 Oeuvres 禄, p. 493.

[98] IDEM. Cahiers, p. 536.

The Philosophy of Insomnia

By Willis G. Regier — The Chronicle, April 10, 2011

Hegel wrote in his聽Elements of the Philosophy of Right聽that the owl of Minerva flies only at night. It hoots at insomniacs. I know. I’m one.

Bruises, red eyes, and research remind me that insomnia breaks down body and soul. Noisy neighbors, crying kids, overwork, bad food, sickness, pain, allergies, and rude visitors drive sleep away. So do naked thoughts and the words they wear: insomnias of insult, dread, worry, remorse, faux pas, frustration, revenge, and raw anxiety. Philosophy, in its immense universals, omits nothing (not even nothing). Thus there have always been tired philosophers of insomnia.

Insomnia has intrigued thinkers since the ancients, an interest that continues today, especially in Europe. What light does philosophy’s exploration of the dark of night shine on insomnia, particularly for that quintessential insomniac, the scholar?

Philosophy is no friend of sleep. In his聽Laws聽(circa 350 BC), Plato platonized, “When a man is asleep, he is no better than if he were dead; and he who loves life and wisdom will take no more sleep than is necessary for health.” Clement of Alexandria echoed, “There is no use of a sleeping man, as there is not of a dead man. … But whoever of us is most solicitous for living the true life, and for entertaining noble sentiments, will keep awake for as long time as possible.”

“The need of sleep is not in the soul,” he wrote, “for it is ceaselessly active.” In聽Beyond Good and Evil聽(1886), Nietzsche preached that the high goal of good Europeans “is wakefulness itself.”

Aristotle said all animals sleep. In the 20th century, the Romanian philosopher Emil Cioran added in聽On the Heights of Despair聽(first published in 1934): “Only humanity has insomnia.” Emmanuel Levinas, author of the erotic and metaphysical聽Totality and Infinity聽(1961), imagined philosophy, all of it, to be a call to “infinite responsibility, to an untiring wakefulness, to a total insomnia.” What scholar has not heard that call, sacrificing sleep, straining eyes, and risking health in pursuit of some bit of truth or transcendence?

The first thing you learn about insomnia is that it sees in the dark. The second is that it sees nothing.聽Nada, nichts, n茅ant.聽TheFrench philosopher Maurice Blanchot said in聽The Writing of the Disaster聽(1980), “In the night, insomnia is discussion, not the work of arguments bumping against other arguments, but the extreme shuddering of no thoughts, percussive stillness.”

Ever since Sartre’s 1949 novel,聽Troubled Sleep, assorted philosophies of insomnia have mostly spoken French. Paris became a refuge for philosophers like Levinas, fleeing Nazis or Soviets, or like Cioran, seeking fame. World War II and its aftermath gave French philosophy plenty to think about, and plenty to lose sleep over.

Philosophers of insomnia come in three alluring types: the dutiful, the austere, and the cynical, which, faithful to its traditions, often poses as an antiphilosophy. Plato was the paragon of the dutiful, who deprive and discipline the body to the brink of death, or to it, for the sake of truth. Anne Dufourmantelle assumes the burden in聽Blind Date: Sexe et philosophie聽(2003), saying that “philosophy was born with anxiety, with questioning, with insomnia. It takes upon itself the ills of the world, and thus it cannot sleep.” This is executive philosophy, whose duty it is to convert worry into analysis.

Writing for the austere was Levinas, the philosopher-king of insomnia. Take a running start and try this passage from “God and Philosophy” (1975): “Insomnia, wakefulness or vigilance, far from being definable as the simple negation of the natural phenomenon of sleep, belongs to the categorial, antecedent to all anthropological attention and stupor.” Or more plainly: “Insomnia is wakefulness, but a wakefulness without intentionality.” Levinas saw insomnia as the site of insight. In “In Praise of Insomnia” (1976), he explained, “The entire opening of consciousness would already be a turning toward the something over which wakefulness watches. It is necessary, however, to think an opening that is prior to intentionality, a primordial opening that is an impossibility of hiding: one that is an assignation, and impossibility of hiding in oneself; this opening is an聽insomnia.” A conscientious philosopher could toss and turn over that for weeks.

Cioran, snickering like Diogenes, found Levinas’s jargon unappealing but understood the notion. “Every problem, if we get to the bottom of it,” he believed, “leads to bankruptcy and leaves the intellect exposed: no more questions and no more answers in a space without horizon.”

Cioran was the outspoken cynic of the philosophy of insomnia, chiefly I suppose because he was an insomniac, morose, disillusioned, and weary. When he was about 20, Cioran had a life-changing experience: “I stopped sleeping and I consider that the grandest tragedy that could occur. At all hours I walked the streets like some kind of phantom. All that I have written much later has been worked out during those nights.”

Levinas’s insomnia was a chaste metaphor for disembodied, disinterested thought. Cioran’s insomnia dragged along the body, that suffering beast hard driven by the mind. Levinas exalted insomnia as a clear scene, bare consciousness aware of bare being, a state of mind ideal for selfless philosophic reflection. Cioran put insomnia’s selfishness front and center. “You will suffer from everything, and to excess: the winds will seem gales; every touch a dagger; smiles, slaps; trifles, cataclysms. Waking may come to an end, but its light survives within you; one does not see in the dark with impunity, one does not gather its lessons without danger; there are eyes which can no longer learn anything from the sun, and souls afflicted by nights from which they will never recover,” he wrote. The insomniac is bound to think about insomnia, and about what it does to thinking. In the wink of an eye, insomnia slips from thought to obsession, from earnest doubt to pitiless masochism and misanthropy. Insomnia has moments of extraordinary lucidity, but it also has traps and delusions of grandeur. “The tyrant lies awake鈥攖hat is what defines him,” Cioran told us.

Insomnia incubates megalomania. The mighty caliph Harun al-Rashid walked through聽One Thousand and One Nights聽as an insomniac. Nero was insomniac. Hitler was insomniac. Cioran understood the connection: “You enter into a conflict with the whole world, with sleeping humanity. You no longer feel like one person among others, because others live unconsciously. One develops a demented pride. One tells oneself, ‘My destiny is different, I know the experience of the uninterrupted vigil.’ Only pride, the pride of a catastrophe, gives you courage then. One cultivates the extraordinarily flattering feeling of no longer being part of ordinary humanity.”

No philosophy would last a night without its contradictions. Insomnia has these: It tears your body down and inflates your ego. It magnifies and belittles. Insomnia flatters, and so does philosophy.

That sense of superiority is not Cioran’s alone, but a symptom of all insomnias. Insomnia’s intellectual pride has been supported by medical experts (the drug industry thrives on insomnia), who flatter the sleepless. At the turn of the last century, Sir James Sawyer supposed that insomnia mainly afflicted “high mental endowments” (also “neurotic temperaments,” but never mind). Dr. Foster Watson, a neurologist and early British educational psychologist, believed insomnia was confined to “brain workers,” rarely in his experience troubling the “labouring classes.” Recent research on sleep disorders among working people has blown the supposition of superiority to smithereens, but insomniacs cling to it. Insomniacs’ Web sites cover themselves in the glory of insomniacs like Churchill, Edison, Kafka, and Newton.

Nowadays insomnia is everybody’s business, a common denominator. It is a symptom of depression, melancholy if you like, as common as colds. It leads to irritability, irrationality, and irascibility.

Sleepless duty, pure thought, or bitter truth? Several decades ago, the philosopher Cl茅ment Rosset wrote, “Of all the questions known to philosophy, that posed by Cioran is without doubt the most grave and most serious: Is an alliance between lucidity and joy possible?” A philosophy in love with truth confronts cruel facts: Lies abound, innocents suffer, everyone dies, and the universe doesn’t care. There are thoughts that won’t be denied, thoughts that won’t let you sleep. Cioran wrote, “To keep the mind vigilant, there is only coffee, disease, insomnia, or the obsession of death!”

Chased by regrets, Cioran strove to put philosophy behind him, like a growing shadow. In hisShort History of Decay聽(1949), he inserted an “Invocation to Insomnia,” which personifies and praises it. “Insomnia, you … in a single night grant more knowledge than days spent in repose, and, to reddened eyelids, reveal yourself a more important event than the nameless diseases or the disasters of time! … I appealed to philosophy, but there is no idea which comforts in the dark, no system which resists those vigils. The analyses of insomnia undo all certainties.”

Cioran concluded, “We begin to live authentically only where philosophy ends, at its wreck, when we have understood its terrible nullity, when we have understood that it was futile to resort to it, that it is no help.” Helplessly he vanished into Alzheimer’s and died in 1995.

Willis G. Regier is director of the University of Illinois Press.

Counting the 鈥楤lessings鈥 of Insomnia

By聽GORDON MARINO – The New York Times, March 29, 2010

Drip, drip, drip 鈥 that鈥檚 what insomniac thoughts feel like, a leaky faucet behind the eyes. Last night the ideas were plinking; forehead-pounding regrets over past deeds, horrid fantasies, car crashes of expectations, unrealizable longings. It鈥檚 sheer torture. I don鈥檛 deserve it! Drip: Or maybe I do.

For decades, I have been spending my nights flopping around the bed and finally stomping to the medicine cabinet for anything that will put me under the waves. The story I recite to myself, often in the grips of sleep deprivation and to the rumble of garbage trucks, is that it all goes back to being awoken constantly as a kid by parents battling like Vikings in the living room.

I have done my share of meditation in that frayed state of wired exhaustion, but unlike the Romanian writer聽E.M. Cioran聽, I never learned to take serious instruction from sleeplessness. Born in Transylvania in 1911, Cioran hardly ever shut his eyes. In fact, at his death in 1995, there was exaggerated talk that he had not slept in half a century.聽Whatever his hours of slumber, the night watchman鈥檚 systematic reflections on the existential meaning of insomnia warrant the attention of our nation, which outpaces every country on earth in the consumption of sleeping medication.

The precocious son of an Orthodox priest, Cioran went to study philosophy in Bucharest in 1929. He published his first book, the lyrical 鈥淥n the Heights of Despair,鈥 at 23. Though he would come to publicly regret it, in the 1930s Cioran supported the fascist Iron Guard in Romania. He won a scholarship to study in Paris in 1937 and moved there permanently in 1941.

Cioran published a good deal in his native Romanian, but it was in his second language of French that the religiously atheistic writer found his peculiar voice. His highly aphoristic style recalls that of another insomniac philosopher, Friedrich Nietzsche. The titles of Cioran鈥檚 books ring like an acoustic necklace of despair. Take, for instance, these pearls: 鈥淭he Trouble with Being Born,鈥 鈥淭he Fall Into Time,鈥 鈥淎 Short History of Decay,鈥 鈥淎nathemas and Admirations,鈥 鈥淭he Temptation to Exist,鈥 鈥淭ears and Saints.鈥 But from the beginning to the end of his days, Cioran鈥檚 thought gyred around the subject of sleepless nights.

Cioran, who was a friend of Samuel Beckett鈥檚, is too relentlessly dark for most tastes. Writing in the New Yorker, Adam Gopnik observed, 鈥淎 love of Cioran creates an urge to press his writing into someone鈥檚 hand, and is followed by an equal urge to pull it away as poison.鈥 I鈥檒l take the poison any day. I find a brother in the beetle-browed philosopher critic of philosophy, and feel less lonely for the fact that there is, at least, someone who can acknowledge that we are tromping through a vale of tears. And while there will hopefully be much tenderness and joy on the path to our disappearance, there will also be much ugliness, agony, and cause to weep.

Indeed, Cioran once wrote that he would not need to write, if only he could weep at will. And then he moans, 鈥淏ut a negative reticence, aggravated by education, or a defective functioning of the lachrymal glands, dooms us to the martyrdom of dry eyes 鈥 It follows that we are all sick, and that each of us would require a Sahara in order to scream our lungs out 鈥︹ (鈥淎 Short History of Decay,鈥 p.43). Too much? Cioran uniquely connects the Muse with the capacity for exaggeration and the capacity for exaggeration with insomnia.

There are many poets who bow before the divinities of languor, however, scarcely anyone, save Cioran, pays homage to insomnolence. In a superb article, 鈥淐ioran鈥檚 Insomnia,鈥 Willis Regier remarks, 鈥淐ioran treated insomnia as his defining experience and insignia. He lifted insomnia to the level of a love, a passion play, and heroic battlefield.鈥 Regier registers this Cioranian paean:

鈥hen you came, Insomnia, to shake my flesh and my pride, you who transform the childish brute, give nuance to the instincts, focus to dreams, you who in a single night grant more knowledge than days spent in repose, and, to reddened eyelids, reveal yourself a more important event than the nameless diseases or the disaster of time!鈥 (鈥淎 Short History of Decay,鈥 p.169)

And to take a page from on 鈥淥n the Heights of Despair鈥 (p.83) Cioran offers this blessing:

Just as ecstasy purifies you of the particular and the contingent, leaving nothing except light and darkness, so insomnia kills off the multiplicity and diversity of the world, leaving you prey to your private obsessions.
What strangely enchanted tunes gush forth during those sleepless nights!

Hordes of artists throw their arms around their melancholy as though it were the very taproot of their creativity. Kierkegaard, for instance, referred to his melancholy as his best and most loyal friend. Cioran felt a similar attachment to his insomnia. While he cursed his nocturnal suffering and used morphine, among other things, to try and knock himself out, he ultimately understood his long journeys into the sickly morning light as both crushing him and yet shaping his sensibilities. After all, isn鈥檛 wakefulness good? And sleeplessness a sort of wakefulness? 鈥淲hat rich or strange idea,鈥 asks Cioran, 鈥渨as ever the work of a sleeper?鈥 (鈥淎 Short History of Decay,鈥 p.147)

Unlike most scribblers on sleep and its absence today, Cioran did not ponder the biochemistry of shuteye. Instead, he fiercely focused on the subjective experience of, as Regier so elegantly puts it, 鈥渢he sleep that would not come to bed.鈥 Cioran also explores the significance of the fact that there is but one creature who cannot clock out for a break from the groaning of creation.

We have traditionally defined ourselves in terms of our capacity for reason. Cioran disagrees. We are, he thought, unique for our insomnia. He writes:

The importance of insomnia is so colossal that I am tempted to define man as the animal who cannot sleep. Why call him a rational animal when other animals are equally reasonable? But there is not another animal in the entire creation that wants to sleep yet cannot. (鈥淥n the Heights of Despair,鈥 p.85)

A kindred spirit whom Cioran carefully studied, Dostoevsky hinted that the understanding of ultimate truths requires psychological conditions that can only be described as pathological. Of course, like his mage Nietzsche, Cioran did not find much to favor in the concept of truth. However, let us suppose that Cioran is correct, and the raw truth is that existence is a mad cycle of happiness and horror that ends with either getting it in the neck or in a noisome nursing home. If so, then what better state could there be in which to appropriate this truth than that 4 a.m. dread of sunlight, creeping in the window of the bedroom you鈥檝e been padding around for hours?


NOTES: Editions referenced in this article: 鈥淎 Short History of Decay鈥 transl. R. Howard (Oxford: Basil Blackwell, 1975) and 鈥淥n the Heights of Despair鈥 transl. Ilinca Zarifopol-Johnston (Chicago: The University of Chicago Press, 1992)

Gordon Marino is professor of philosophy and director of the Hong/Kierkegaard Library at St. Olaf College in Northfield, Minn. He is author of 鈥淜ierkegaard in the Present Age,鈥 and co-editor of 鈥淭he Cambridge Companion to Kierkegaard.鈥 His new book, 鈥淓thics: The Essential Writings鈥 will be published by Random House this summer. He is currently working a book on the distinction between despair and depression.