“La vie en prose”: a prosa como gênero ideal para uma comunhão de almas dilaceradas

Au lecteur, C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière…

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Os escrúpulos de Schopenhauer

Une des dernières dispositions prises par Schopenhauer avant sa mort est la suivante : « Rempli d’indignation par la honteuse mutilation que des milliers d’écrivains sans jugement font subir à la langue allemande, je me vois contraint à la déclaration suivante : Maudit soit tout homme qui, dans les futures réimpressions de mes ouvrages, y…

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“Um estranho nos bastidores” (John Gray)

O santo padroeiro do humanismo é uma figura enigmática. Não temos como saber como era de fato Sócrates, já que a imagem que dele temos foi moldada por Platão. O fundador da filosofia ocidental pode ter sido um sofista que, em vez de aceitar que nada sabia, acreditava nada haver que valesse a pena saber;…

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Existe algo após a Música?

O verdadeiro mundo é a música. A música é o Inaudito. Quando a ouvimos, pertencemos ao Ser. Assim Nietzsche a vivenciava. Era tudo para ele. Não deveria cessar nunca. Mas ela cessa, e por isso temos o problema de como continuar vivendo quando a música acaba. A 18 de dezembro de 1871 Nietzsche viaja de…

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“Insatisfação total” (Emil Cioran)

Que espécie de maldição, paira sobre algumas pessoas que não conseguem se sentir bem em lugar nenhum? Faça chuva ou faça sol, sozinhas ou acompanhadas. Desconhecer o que significa boa disposição, eis algo impressionante. As pessoas mais infelizes são as que não têm direito à inconsciência. Ter um grau desenvolvido de consciência, estar consciente a…

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Do Anti-Sistema, Desprendimento, Idiotia do Real

Um dos meus aforismos-xodó; meu “projeto”, minha “proposta existencial”… “O pensamento que se liberta de todo preconceito se desagrega e imita a incoerência e a dispersão das coisas que quer apreender. Com ideias ‘fluidas’ podemos nos espalhar sobre a realidade, aderir a ela, mas não explicá-la. Assim, paga-se caro o ‘sistema’ que não se desejou.…

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Fracassar na vida – por “excesso de dialética”

Não existe ser mais ridículo (e prepotente, arrogante) do que o tipo que acaba de titular-se “doutor em filosofia”. Toda diplomação em Filosofia deveria ser seguida de uma surra, de uma humilhação inaudita… “Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida…” CIORAN,…

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O pensamento de Nishitani e o Budismo (Hisao Matsumaru)

Pretendo esclarecer o fundamento daquilo que penso ser o ponto de partida do pensamento presente nas duas obras centrais de Keiji Nishitani (1900-1990), a saber, Shukyo to wan nani ka (O que é a religião) (Nishitani, 1961) e Zen no tachiba (O ponto de vista do Zen) (Nishitani, 1986). A reflexão de Nishitani pode dar…

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“Se eu soubesse, teria abortado”: Exercícios de (Anti)Vaidade

Quando eu tinha vinte anos, minha mãe evidentemente ficava desesperada de ter um filho que, às três horas da manhã, saía de casa para andar pela cidade. […] Eu era um tipo que prometia muito, e que não cumpriu nada. Digo isso porque,  você vai entender… Eu tinha então vinte anos, e um dia estávamos…

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“Bergson, leitor de Lucrécio: As Implicações Existenciais do Determinismo” (Jonas Gonçalves Coelho)

Revista Trans/Form/Ação, São Paulo, 26(1): 129-140, 2003 RESUMO: Tomamos como objeto de análise a obra precoce de Bergson, os Extraits de Lucrèce, procurando mostrar que ao privilegiar as implicações existenciais negativas do determinismo, prefigura e justifica o fato de dedicar grande parte de seu pensamento filosófico posterior à crítica ao determinismo e à defesa da…

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“A Arte de Saborear O Gosto Amargo Das Coisas”: O Pessimismo nos Cahiers

— Le pessimisme, comme l’optimisme d’ailleurs, est un signe de déséquilibre mental. — O pessimismo, como de resto o otimismo, é um signo de desequilíbrio mental. § Il y a un « pessimisme roumain », ou plutôt une « peur de vivre » nationale dont j’ai hérité, indiscutablement. Há um “pessimismo romeno”, ou antes um…

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Monoteísmo e humor: Chutzpah judaica

Gerd Bergfleth pergunta a Cioran, numa das entrevistas do volume Entretiens, se ele não seria “um teólogo caché [oculto], um teólogo do desastre, um teólogo gnóstico”; a resposta: “Não careço de humor a ponto de erigir-me em teólogo.” (Entretiens) De todas as religiões monoteístas, os judeus são os que mais (se não os únicos que)…

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“Ser humano, animal peninsular” (Amós Oz)

No livro que escrevemos juntos, Os judeus e as palavras, minha filha, professora Fania Oz-Salzberger, e eu afirmamos: Existe uma teologia judaica da chutzpá. Ela reside na sutil junção de fé, tendência a discutir e fazer humor de si mesmo. E redunda numa reverência especialmente irreverente. Nada é tão sagrado que não mereça uma zombaria…

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“Deus é uma viagem”, ou a Música como antídoto contra o teísmo tóxico, e sua consequente positividade social igualmente tóxica

Em tempos de obscurantismo e recrudescimento do fanatismo religioso cristão, em que o presidente da Capes, reitor do Mackenzie, é um tipo contrário ao ensino de darwinismo nas escolas, e a favor do mito criacionista, duas belas canções de uma grande banda brasileira — Cidadão Instigado — sobre o  design (não tão) inteligente… “Deus é uma…

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Cioran, Chestov, Kierkegaard & a filiação-Jó

Quando penso quão pouco aprendi dos grandes filósofos! Nunca me fizeram falta nem Kant, nem Descartes nem Aristóteles; seu pensamento vale somente para nossos momentos de solidão, para nossas dúvidas consentidas. Mas me detive em Jó, com uma piedade filial. CIORAN, O Livro das ilusões “A covardia humana não pode suportar o que nos dizem…

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Nenorocirea unui om

Nous percevons tout d’abord l’anomalie do fait brut d’exister et ensuite seulement celle de notre situation spécifique : l’étonnement d’être précède l’étonnement d’être homme. Cependant le caractère insolite de notre état devrait constituer la donnée primordiale de nos perplexités : il est moins naturel d’être homme que d’être tout court. [Nós percebemos primeiro a anomalia…

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Razne: “Que significa ser cético? / Ce înseamnă a fi sceptic?” (Emil Cioran)

Que significa ser cético? Não crer-te o centro do universo. Basta, porém, um momento de distração, um instante de fragilidade na consciência, para que nos reinstalemos de imediato no mais antigo e vital dos erros. Todo homem — em seus momentos de não lucidez, o que equivale a dizer a quase totalidade da sucessão temporal…

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Revista Trágica: edições temáticas Clément Rosset (in memoriam) [3]

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3 (2019) “Clément Rosset, ainda” (André Martins, editor) Este terceiro e último número do volume 12 da Revista Trágica de Estudos de Filosofia da Imanência, de 2019, completa nosso dossiê em homenagem póstuma ao instigante filósofo francês Clément Rosset, falecido em 2018.…

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“Carta a propósito de certos impasses” (E.M. Cioran)

VOCÊ CENSUROU muitas vezes em mim aquilo a que chama o meu “apetite de destruição”. Saiba, porém, que eu nada destruo: registo, registo o iminente, a sede de um mundo que se anula, e que, através da ruína das suas evidências, corre em direcção ao insólito e ao incomensurável, em direcção a um estilo espasmódico.…

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“Misticismo ateu” (John Gray)

“Tentarei de novo dizer o indizível, expressar com palavras pobres o que tenho de dar aos devotos infiéis do misticismo nominalista, do misticismo cético […] O mundo não existe duas vezes. Nao existe um Deus separado do mundo, nem um mundo separado de Deus. Esta convicção tem sido chamada de panteísmo. […I Por que não?…

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“Eugène Ionesco: o útil é um peso inútil” (Nuccio Ordine)

E, ao contrário, para uma humanidade que perdeu o sentido da vida, Eugène Ionesco dedica reflexões extraordinárias, hoje mais atuais do que nunca. Numa conferência proferida em fevereiro de 1961, diante de outros escritores, o grande dramaturgo reafirma em que grau a insubstituível inutilidade é necessária: Observem o ritmo alucinado das pessoas pelas ruas. Não…

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Fanatismo e animosidade, ceticismo e urbanidade (Emil Cioran)

Só existe humanidade no clima benévolo e compreensivo das dúvidas. Envolvendo a alma e o mundo numa doce inanição interminável, elas nos defendem da brutalidade dos credos e da intolerância inerente a qualquer delírio. É verdade que o fanatismo é o motor da história, mas o ritmo que impõe aos acontecimentos e aos homens se…

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Em defesa da arte “degenerada” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Cioran teve uma breve experiência como professor de filosofia, na segunda metade da década de 1930, na cidade de Brasov. Ele conta a anedota da ocasião em que, chegando à sala de aula, perguntou à classe: “Por que razão não devemos dizer fenômenos psicológicos, mas fenômenos psíquicos?” Um aluno respondeu: “Um fenômeno psíquico é instintivo,…

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Razne, um dos últimos escritos romenos de Cioran, prefiguração de sua obra francesa

Razne, escrito entre 1945 e 1946, é um dos últimos escritos de Cioran ainda em romeno, já vivendo há anos na França. Foi traduzido ao francês como Divagations, em italiano como Divagazioni e em espanhol como Extravíos. Um texto importante pela posição que ocupa no conjunto da obra: livro de transição entre a escrita em…

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“A Romênia entre a História e a Europa” (Tony Judt)

A edição de fevereiro de 2000 da revista masculina Plai cu Boi de Bucareste apresenta uma certa princesa Brianna Caradja. Variando de adereços de couro a quase nada, ela aparece nas páginas centrais numa série de poses meio desfocadas, flagelando servos (masculinos) subservientes e semidespidos. Os rapazes submissos, envoltos em fumaça, cortam lenha, puxam trenós…

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