Escrito de juventude: “A sensibilidade trágica na Romênia” (Emil Cioran)

CIORAN, Emil. “La sensibilité tragique em Roumanie”, in Solitude et destin. Trad. de Alain Paruit. Paris : Arcades/Gallimard, 2004, p. 254-256. Do original: „Sensibilitatea tragică în Romania”, in Abecedar, an I, nr. 13 – 14, 3 – 10 august 1933, p. 1 – 2.

Um dos elementos da minha tristeza é só poder determinar negativamente as realidades romenas. O entusiasmo e a facilidade só encontram justificação, que é de resto aproximativa, na ordem social e política; em contrapartida, na ordem espiritual, um vazio total autoriza o pior dos pessimismos e a mais séria desconfiança. É evidente, por conseguinte, que eu não saberia falar de uma sensibilidade trágica generalizada entre os romenos, expandida numa vasta esfera e criadora de uma atmosfera, mas apenas a de alguns indivíduos. Esse estado de coisas compromete gravemente todos os impulsos e todo o atrativo que poderiam suscitar as realidades romenas. A fecundidade e a produtividade de um fenômeno dependem de zonas irracionais, profundas e anônimas da qual ele surge, e não da efervescência e do dinamismo de indivíduos isolados, educados em outras culturas, que os assimilaram. O fosso que se abriu entre os camponeses e as pessoas instruídas não é apenas a consequência de uma superioridade qualquer destes últimos, o que só podemos lamentar vivamente; muito pelo contrário, as insuficiências do camponês se encontram na passividade e na lassidão superficial do intelectual romeno. Na Espanha, o mesmo fenômeno de separação, de dissociação das camadas sociais, teve consequências bem menos desfavoráveis, a despeito das afirmações de Ortega y Gasset, que fala, de modo totalmente errôneo, de uma decadência ininterrupta do seu país, desde as origens até os nossos dias. Quem quer que seja dotado do sentido da história admitirá que é mil vezes mais legítimo declarar que os romenos viveram numa inexistência permanente do que pretender que os espanhóis teriam vegetado numa esclerose imanente ao seu ser histórico.

Minha convicção – da qual nada me demoverá – é a seguinte: as diferenças de evolução histórica encontram sua explicação em disposições constitutivas e estruturais específicas. Em condições e configurações sociais análogas, em arranjos políticos similares em forma, a Espanha proporcionou São João da Cruz e Santa Teresa, enquanto que a Romênia não produziu nenhum santo.

A opacidade de que dá provas o romeno quando se trata de compreender a vida como tragédia tem por causa principal, portanto, uma deficiência constitutiva, um defeito de sua essência e de sua conformação psíquica. Assim, o título deste artigo é de uma ironia evidente, diretamente apreensível.

O nosso drama, nesta situação, é que nós não podemos falar de uma corrente espiritual ou de uma atitude moral sem contar a nós mesmos, sem adicionar pessoas e valores. O que prova que o fenômeno é vivido por intermédio de indivíduos isolados, que ele é descontínuo, que não há participação total, significativa, reveladora. Para o bem ou para o mal, somos obrigados a enunciar alguns nomes: Blaga, Eliade, Manoliu e Holban. Sendo assim, não se pode determinar o trágico como essência; vê-se aí apenas uma diversidade de formas particulares de realização.

Enquanto que, na geração de antes da guerra, o trágico era engendrado pela angústia e pelo complexo de antinomias ligadas à vida histórica do homem, aos antagonismos sociais e à inadaptabilidade, na nossa geração ele tem sua origem em conflitos mais profundos, sua coloração metafísica é pronunciada e sua estrutura está ligada à universidade do destino humano. A tragédia da velha geração era de algum modo exterior, pois repousava apenas sobre o dualismo do indivíduo e da sociedade, sendo que o segundo termo dominava incontestavelmente, pois atribuía-se a ele mais realidade e consistência que ao primeiro, enquanto que, na nossa concepção, a essência interior da tragédia, resultante da tensão e da intensidade paradoxais do dualismo do homem e da existência, se explica pelo dramatismo da vida do indivíduo. Os únicos que vivem a tragédia são os que sentem a presença do irremediável na dialética da vida e que, mesmo tendo consciência disso, não renunciam a ela.

A vida pode ser vivida como uma tragédia apensa por aqueles para os quais seus elementos negativos não são redibitórios, para os quais a fatalidade não é a morte, mas o caminho que a ela conduz.

Tradução do francês: Rodrigo I. R. Sá Menezes

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Escrito de juventude: “Indivíduo e cultura” (Emil Cioran)

“Quase ninguém mais fala de sua própria experiência, de suas penas e de suas angústias pessoais, todo mundo fala das complicações de uma cultura que não lhes fornece um sentido preciso nem uma fórmula de equilíbrio.”

Cioran, “Indivíduo e cultura” (1932)

Este texto, escrito por um jovem Cioran aos 21 anos de idade, e publicado num periódico romeno, antecipa e ilumina muitas das posições ulteriores do autor de expressão francesa, dialogando com muitas das proposições-chave presentes ao longo de sua obra. O ideal de uma “filosofia lírica” (Nos cumes do desespero), o “Adeus à filosofia” (Breviário) e o imperativo de pensar e escrever a partir da própria experiência, sobre as próprias dores, a necessidade poética da solidão, a irracionalidade da história e o determinismo cego do devir frente à exigência de autonomia do indivíduo. Um jovem Cioran preocupado com o destino do homem moderno e o caráter trágico da existência humana na história, colocando em questão as potencialidades criadoras do indivíduo inserido numa cultura cujo otimismo ingênuo dá lugar a um diagnóstico pessimista sobre o destino das individualidades e das coletividades.

CIORAN, Emil. “Individu et culture”, in Solitude et destin. Paris: Arcades/Gallimard, 2004, p. 62-65. Original romeno: „Individ şi cultură” in Floarea de foc, an I, nr. 11, 19 martie 1932, p. 2.

Hoje em dia se produz um fenômeno que passou totalmente despercebido, por mais que ele traga à tona uma certa estrutura psíquica do homem atual: suas vivências subjetivas não são aceitas enquanto tais, buscando-se uma ilustração e uma justificação para elas na cultura contemporânea. Este fenômeno – e é aqui que ele se torna realmente interessante – é realizado precisamente pelo homem que o experimenta e é determinado, entre outras coisas, pela impossibilidade de viver só, pela ausência de uma interioridade consistente, por uma deficiência do sentido da unicidade de cada indivíduo. Ele se sobressai nas estruturas da cultura em que vivemos. Numa cultura dominada por uma única tendência, chega um momento histórico em que, uma vez a cristalização de um estilo tendo imposto uma forma determinada e suprimido as divergências e as heterogeneidades, as individualidades que escapam aos moldes e se distanciam deles só podem justificar o seu desvio alegando disposições originais particulares que especificam necessariamente um conteúdo e uma forma de vida. A referência ao momento cultural dado não pode mostrar ao indivíduo senão o seu isolamento: é uma ilusão crer numa correspondência entre as próprias tendências e aquelas do meio-ambiente.

O indivíduo dotado sente a solidão mais intensamente nas formas culturais homogêneas do que nas formas complexas, pois a especificidade de um fundo de vida subjetivo o impede de descobrir uma direção particular que poderia conduzi-lo à integração. O indivíduo transcende a solidão estabelecendo relações e correspondências graças às quais ele deixa de constituir uma irredutibilidade para tornar-se uma expressão simbólica de uma totalidade supra-individual. A inserção nas objetividades ideais do espírito objetivo é o resultado da necessidade de se integrar na cultura. Hoje em dia a multiplicidade de tendências oferece a cada um a possibilidade de uma incorporação, de uma inclusão em uma forma e uma categoria gerais. Quase ninguém mais fala de sua própria experiência, de suas penas e de suas angústias pessoais, todo mundo fala das complicações de uma cultura que não lhes fornece um sentido preciso nem uma fórmula de equilíbrio. Esse processo de objetivação é bastante vivaz. Lembra o fenômeno que, no mito, objetiva nos meios de expressão extraídos do mundo natural as realidades e os problemas mais profundos da vida espiritual.

A necessidade de encontrar no plano cultural equivalências e afinidades com as próprias experiências pessoais, de considerar historicamente os seus dados íntimos, de transpor a sua vivência subjetiva em objetividade, deve-se ao fato de que a maioria dos homens tem consciência, hoje, da evolução inelutável da cultura, da necessidade de se submeter a um curso fatal e a um devir irracional. A única concepção da relação entre indivíduo e cultura que me parece aceitável e suficientemente profunda é aquela que situa a ideia de destino no centro das considerações sobre a evolução das culturas. Há um destino e uma necessidade interiores face aos quais o homem fica desarmado. O sentido e a conclusão do filosofar é a compreensão da necessidade. O núcleo da existência em geral e o da cultura em particular revelam uma necessidade e uma realidade do destino que só a variação das formas e das aparências pode nos ocultar. A ilusão do homem moderno, que perdeu o sentido da eternidade, consiste em crer que o esforço individual muda a direção essencial de um processo, que a ação modifica a estrutura irracional da existência, que o ato moral tem uma significação metafísica. A modernidade possui como próprios os sistemas de filosofia moral que falam de uma moralização progressiva do mundo, o que não significaria senão subtrai-lo a seus quadros irracionais e assimilá-lo à esfera de valores éticos por um processo de transcendência cósmica. Essa grande ilusão provocou de início a perplexidade dos nossos contemporâneos. Mas a renúncia às ilusões finalmente realizou-se ao meio de um ato que se aparenta ao cinismo.

Para uma cultura, o indivíduo não possui outra função ou outro valor que o de agir no seio de suas categorias. Pouco a pouco, os valores que ele produz perdem a marca de sua subjetividade e se integram na estrutura autônoma da cultura. Onde aparece a tragédia do homem encerrado no processo fatal da cultura? Aí onde o esgotamento e a decadência desta última provocam fenômenos similares no homem. Ele segue a curva de evolução da cultura. O que significa ser prisioneiro da história. Ser incorporado na necessidade, ser prisioneiro do destino imanente da cultura, eis o que exclui toda concepção do fenomenalismo da história, pois o destino e a necessidade conduzem ao existencial e à essência. A perspectiva idealista da história conduz, ao contrário, a uma ilusão inadmissível que atribui ao homem valores e capacidades positivamente inexistentes.

Uma das causas da visão pessimista da história e da cultura é que o homem se dá conta, em determinado momento, da independência da evolução delas em relação a suas exigências. O indivíduo se torna consciente, então, da nulidade dos seus esforços, da vaidade de todos os esforços que visam modificar o sentido da história. Substituindo um ativismo gerador de todo tipo de ilusões, a contemplação serena situa as coisas na sua ambiência normal.

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

“Cioran e a arte da provocação” (Pedro Maciel)

Digestivo Cultural, segunda-feira, 12/8/2002. Texto originalmente publicado no caderno “Idéias”, Jornal do Brasil, 3 de março de 2001

O tédio alimenta o pessimismo. Segundo Cioran “o pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir: é uma vítima do sentidoda vida”. Entedia-se diante da vida aquele que busca revelar o tempo. “Entediar-se é mascar tempo”. A experiência do tédio nos leva a perambular através do tempo exasperado. A vida só é possível porque não temos consciência dos momentos que passam.

E.M. Cioran (1911-1995), o filósofo do tédio e do êxtase, mestre da desesperação, apresenta em Exercícios de Admiração, ensaios e perfis de escritores, filósofos e poetas. As divagações são “exercícios de aprofundamento do conhecimento de si”, um auto-retrato, como no ensaio dedicado a Michaux: “Não tendo nem a sorte nem o azar de se fixar no absoluto, se inventa abismos, suscita sempre novos, mergulha neles e os descreve.”

E prossegue: “Assim conseguiu, com suas inquietações metafísicas, com suas inquietações simplesmente, permanecer – pela obsessão do conhecimento – exterior a si mesmo. Enquanto nossas contradições e nossas incompatibilidades nos escravizam e nos paralisam com o tempo, ele conseguiu se tornar senhor das suas, sem escorregar para a sabedoria, sem se afundar nela.”

Cioran herdou a descrença de Nietzsche e a forma de narrar de La Rochefoucauld e Pascal, inspirou-se nos filósofos místicos e foi guiado pelos poetas: “Embora freqüentasse os místicos, no meu foro íntimo estive sempre do lado do demônio: não podendo me igualar a ele pela força, tentei ser equivalente ao menos pela insolência, pela aspereza, pelo arbítrio e pelo capricho.”

Em Exercícios de Admiração, o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo literário de Samuel Becket, autor de Malone Morre: “Muitas de suas páginas me soam como um monólogo após o fim de algum período cósmico. Sensação de entrar num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio, livre de tudo, até mesmo de sua maldição”. Uma das falas do protagonista Malone sintetiza o pensamento de Becket: “O tempo que temos para passar na terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos”.

Já no perfil de Jorge Luis Borges, Cioran descreve o autor argentino como um intelectual sem pátria, um aventureiro, um “monstro magnífico e condenado”, alguém que poderia “tornar-se um símbolo de uma humanidade sem dogmas nem sistemas e, se existe uma utopia que subscreveria de bom grado, seria aquela em que cada um o tomasse como o modelo, um dos espíritos menos pesados que já existiram, o último dos delicados”.

Há outros ensaios, exercícios, evocações que ajudam a traçar o percurso existencial de Cioran. O filósofo retrata o seu ídolo de juventude, Otto Weininger, analisa a obra de Joseph de Maistre, o reacionário que defendia a Inquisição, relembra a amizade com Benjamin Fiondane, o judeu romeno discípulo de Léon Chestov, entre outros retratos literários.

Cioran revela-se por inteiro através dos retratos dos seus interlocutores. O filósofo se revela ao desvendar os outros. Segundo Saint-Beuve, o portrait littéraire é uma forma utilizada “para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta.”

A arte da provocação de Cioran encontra-se também em Baudelaire, poeta da “franqueza absoluta”, dos Fusées e de Meu coração desnudado: “O que consideramos verdadeiro devemos dizê-lo e dizê-lo corajosamente. Gostaria de descobrir, mesmo se me custasse caro, uma verdade que chocasse todo o gênero humano. Eu a diria à queima-roupa”.

Escrevo para me aliviar (trecho)

“Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes.(…) Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavrascontra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruina todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal.(…) Escrever é uma provocação, uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra, e no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase invertido… Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti-lo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas, me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!”

“Morre o filósofo considerado o maior dos pessimistas” (Jornal do Brasil, 21 de junho de 1995)

“A arte de amar? É saber unir a um temperamento de vampiro a discrição de uma anêmona.”

cioran

Publicado em Jornal do Brasil, “Caderno B”, 21 de junho de 1995

Emil Michel Cioran, o exilado filósofo romeno que escreveu em francês uma das mais representativas obras do Ocidente, morreu ontem, aos 84 anos, de complicações decorrentes do Mal de Alzheimer, em Paris, onde vivia desde 1937. Pessimista, incisivo, sem piedade de si mesmo ou dos outros, Cioran foi tardiamente descoberto no Brasil e só três de seus livros foram publicados em português, todos com tradução do filósofo José Thomaz Brum, da PUC-Rio, pela editora Rocco: Breviário de decomposição, Silogismos da amargura e História e utopia.

Nascido em Rasinari, na Romênia, Cioran formou-se em filosofia na Universidade de Bucareste com uma tratado sobre a obra de Bergson. Vivendo em Paris desde 1937, passou a escrever cm francês em 1949, com Breviário de decomposição e formou na França, ao lado de Ionesco e Mircea Eliade, a trinca romena da intelectualidade moderna. Sua obra, perturbadora até os últimos escritos e entrevistas, provocava a ira de uns a adoração de outros, mas Cioran foi sempre reconhecido pela crítica internacional como um dos pensadores mais importantes — talvez o mais cáustico — da literatura ocidental.

Freqüentemente comparado, pelo anti-sistematismo, a Nietzsche e Kierkegaard, Cioran fez a opção pela crueza, mas os aforismos que o tornaram referência, às vezes masoquista, para os intelectuais, não deixaram de trazer o prazer proporcionado pelo que ele chamava de megalomania do saber filosófico. “Falar de Deus é olhá-lo do alto”, diz um deles.

Filho de um sacerdote ortodoxo, não poupou a religião. Num dos aforismos mais famosos, resumiu seu pensamento anti-religioso: “Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Sua vida sempre simples em Paris foi coerente com o desprezo que nutria pelo sucesso e a aceitação intelectual. “A consagração é a pior punição”, dizia. Mas mesmo considerado o rei dos pessimistas, Cioran não era um homem amargo. Os amigos o descreviam como introspectivo, mas, por vezes, alegre. Mas era justamente o cinismo que tornava respiráveis algumas passagens. “Podemos discutir Hitler, mas temos que admitir que foi a última iniciativa do Ocidente”, lançou certa vez.

Em 1987, decidiu parar de escrever por acreditar que imprecar contra Deus e o mundo  não valia a pena. Perfilados e teóricos estudados sempre foram pretexto para as idéias do filósofo, que foi buscar na psicologia dostoievskiana o pessimismo em torno do qual circularia toda a sua obra. Absolutamente particular e determinante na História do Pensamento Mundial, a morte de Emil Cioran encerra menos desespero e mais inquietação que qualquer outra. Sobre a morte, ele disse, “só vivo porque está em meu poder morrer quando me for conveniente”.

Feita para ser desagradável, sua obra é mais apavorante a cada dia, ao se tornar menos estapafúrdia. Agora mais perto do único a quem chamou Deus, o compositor Johann Sebastian Bach, Cioran parece mais o filósofo-poeta que reuniu a beleza e o amargor para dizer que “a música é uma ilusão que compensa todas as outras”.

“Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.”

“Filósofo romeno Emile Cioran morre na França aos 84 anos” (Folha de S. Paulo, 21 de junho de 1995)

DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Publicado no caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo, quarta-feira, 21 de junho de 1995

O filósofo romeno Emile Cioran morreu ontem aos 84 anos em um hospital de Paris, segundo informou sua editora francesa, a Gallimard. O filósofo sofria do mal de Alzheimer e já não escrevia há alguns anos.

Cioran vivia na França desde 1937, para onde se mudou como bolsista do Instituto Francês de Bucareste, mas o filósofo nunca quis trocar sua nacionalidade.

Suas idéias, expressas quase sempre como aforismos ou reflexões breves, revelavam um profundo pessimismo sobre a existência e o destino humanos.

Emile Cioran nasceu em 8 de abril de 1911, em Rasinari, na Romênia. Filho de um sacerdote ortodoxo, Cioran se dizia “obcecado pelo pior”. Formou-se em filosofia em 1932, em Bucareste. Publicou no ano seguinte seu primeiro livro, “No Cume do Desespero”. Seguiram-se “Livro dos Enganos” (1935) e “Sobre Lágrimas e Santos” (1937).

Suas obras publicadas no Brasil, todas pela editora Rocco, são “Breviário de Decomposição”, “Silogismos da Amargura”, “História e Utopia” e “O Livro dos Logros”(1).

Em 1989, Cioran e o dramaturgo Eugène Ionesco, que haviam sido banidos da Romênia, foram nomeados membros de honra da União dos Escritores daquele país.

Em maio último, a Gallimard publicou um volume com seus aforismos sobre “depressão, fracasso, suicídio, lucidez e o nada”.

(1) Nota-se o desconhecimento do autor deste obituário, refletindo o desconhecimento, à época, do leitor brasileiro em relação à obra de Cioran. O assim chamado “Livro dos logros” (Cartea amargirilor em romeno, Le livre des leurres) é o mesmo livro citado logo acima como “Livro dos enganos (1935)”, e que seria traduzido apenas em 2014, como O livro das ilusões, por José Thomaz Brum. Ou seja, o jornalista não apenas não sabia que “Livro dos enganos” e “O livro dos logros” são o mesmo livro (Cartea amargirilor), como não se sabe de onde tirou a informação de que este era um dos livros de Cioran publicados no Brasil em 1995.

“Aos foliões” (Caio Túlio Costa)

Publicado em Folha de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1995

Uma das experiências mais reveladoras é a tentativa de pensar contra si mesmo. No limite, você vai se entender um pouco melhor. Quem sabe sentir-se mais confortável dentro de sua pele —mesmo continuando sem se entender.

Existe um poderoso pensador, nascido em 1911, romeno, radicado em Paris, preocupado em não fazer outra coisa do que pensar contra si próprio, perseguir o bom gosto espiritual, destruir a vulgaridade intelectual, desvendar a substância da existência sob as aparências do cotidiano medíocre —um Nietzsche do século 20. Cheguei a ele via Susan Sontag (ensaísta norte-americana fora de moda) e me deparei então com o verdadeiro aristocrata, o do espírito.

Seu nome é Emil Michel Cioran. Ficou conhecido só por Cioran. Vive dos caraminguás que lhe rendem seus livros e habita um pequeno apartamento em Paris. Deixou a Romênia no final dos anos 30 criando problemas para o pai, padre ortodoxo, porque revelou-se sem fé e reclamou, em livro, que há dois mil anos Jesus de Nazaré desconta em nós “o fato de não ter morrido num sofá”.

Cioran vive, pode-se dizer, miseravelmente. Sempre recusou-se a trabalhar de forma “normal”. Aceitaria, o disse, apenas trabalho físico, como o de varrer ruas. De toda forma, ganhou a vida escrevendo. Seu livro de maior sucesso, “Silogismos da Amargura”, editado em 1952 na França, foi descoberto depois e chegou ao Brasil só em 1991, quando seu êxito entre os fatigados da vida estava garantido. Em 1987 ele havia resolvido parar de escrever e se autodecretou em estado de silêncio. Rompeu a mudez algumas vezes para dar entrevistas e uma delas saiu no Mais! semana passada.

Pois sugiro que se leia e releia esta entrevista. Pode ser lida sem contra-indicação nos momentos de tédio, angústia ou euforia. Ninguém, atento, vai passar reto por uma conversa na qual se sintetiza toda uma vida dedicada à negação da mediocridade, do lugar-comum, das aparências enganadoras. Vida cética, principalmente em relação às formas de governo: “O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos mais graves eles estão perdidos”. Ou então em afirmação feita há muito tempo, em livro: “A aspiração de ‘salvar’ o mundo é um fenômeno mórbido da juventude de um povo”.

Mas, nesta entrevista, Cioran despeja com generosidade detalhes de uma vivência destinada à negação reveladora. O que se segue, sem aspas, enfeixa conceitos seus. O único mundo verdadeiro é o primitivo, onde tudo é possível e nada está atualizado. O segredo da vida está no sono. A insônia mostra que o sono, um breque no cotidiano, é que torna a vida possível. Ela só é suportável por causa da descontinuidade. Se alguém passar a noite toda acordado, quando chega a manhã não começa nada. Dorme-se menos para descansar do que para esquecer e quem levanta de manhã para começar um novo dia tem a ilusão de que alguma coisa começa. A vida só é suportável porque não se vai às últimas consequências. Quem não tem consciência do tempo não se entedia. Suporta-se a vida somente quando inexiste a consciência de cada momento que passa. A experiência do tédio é a consciência de tempo exasperada.

O excesso de lucidez, como se vê, torna a vida insuportável e a experiência da vida é o fracasso. Cioran conclui a entrevista dizendo que, talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos as coisas às quais aderimos sem acreditar.

Num outro recado sutil, dado lá nos anos 50, Cioran atirava: “Ser moderno é remendar no Incurável”.

“Heidegger e Cioran leitores de Nietzsche: repercussões da questão do niilismo nos pensamentos do ser e do nada” (Filipe Caldas Oliveira Passos)

Artigo publicado na Revista Lampejo, nº 6 – 02/2014

FILIPE CALDAS OLIVEIRA PASSOS – Professor do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Resumo: O presente artigo aborda a influência da filosofia de Nietzsche, mais especificamente, da questão do niilismo, nos pensamentos de Heidegger e Cioran, salientando o modo como essa influência contribuiu para a divergência de ambos no que diz respeito a questões fundamentais como a do ser e do pensar. Portanto, tratamos neste artigo do modo como o tema do niilismo, abordado por Nietzsche, influenciou tanto o pensamento do ser, no sentido de uma ontologia fundamental, pós-metafísica, defendido por Heidegger, quanto o pensamento do nada ou do vazio, no sentido de uma mística desprovida de absoluto, sustentado por Cioran.
Palavras-chave: Niilismo; metafísica; ontologia; mística; vontade de poder; ser; nada.

Abstract: This article explains the influence of Nietzsche’s philosophy, more specifically, of the question of nihilism in philosophical thoughts of Heidegger and Cioran, emphasizing the manner how this influence has contributed to the divergence of both about the fundamental questions of being and thought. So we explain in this article the manner how the theme of nihilism, according to Nietzsche, has influenced the thought of being, in the sense of a fundamental, post-metaphysician ontology, defended by Heidegger, and the thought of nothing or empty, in the sense of a mystic without absolute, sustained by Cioran.
Keywords: Nihilism; metaphysics; ontology; mystic; will to power; being; nothing.

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