“Morre o filósofo considerado o maior dos pessimistas” (Jornal do Brasil, 21 de junho de 1995)

“A arte de amar? É saber unir a um temperamento de vampiro a discrição de uma anêmona.”

cioran

Publicado em Jornal do Brasil, “Caderno B”, 21 de junho de 1995

Emil Michel Cioran, o exilado filósofo romeno que escreveu em francês uma das mais representativas obras do Ocidente, morreu ontem, aos 84 anos, de complicações decorrentes do Mal de Alzheimer, em Paris, onde vivia desde 1937. Pessimista, incisivo, sem piedade de si mesmo ou dos outros, Cioran foi tardiamente descoberto no Brasil e só três de seus livros foram publicados em português, todos com tradução do filósofo José Thomaz Brum, da PUC-Rio, pela editora Rocco: Breviário de decomposição, Silogismos da amargura e História e utopia.

Nascido em Rasinari, na Romênia, Cioran formou-se em filosofia na Universidade de Bucareste com uma tratado sobre a obra de Bergson. Vivendo em Paris desde 1937, passou a escrever cm francês em 1949, com Breviário de decomposição e formou na França, ao lado de Ionesco e Mircea Eliade, a trinca romena da intelectualidade moderna. Sua obra, perturbadora até os últimos escritos e entrevistas, provocava a ira de uns a adoração de outros, mas Cioran foi sempre reconhecido pela crítica internacional como um dos pensadores mais importantes — talvez o mais cáustico — da literatura ocidental.

Freqüentemente comparado, pelo anti-sistematismo, a Nietzsche e Kierkegaard, Cioran fez a opção pela crueza, mas os aforismos que o tornaram referência, às vezes masoquista, para os intelectuais, não deixaram de trazer o prazer proporcionado pelo que ele chamava de megalomania do saber filosófico. “Falar de Deus é olhá-lo do alto”, diz um deles.

Filho de um sacerdote ortodoxo, não poupou a religião. Num dos aforismos mais famosos, resumiu seu pensamento anti-religioso: “Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Sua vida sempre simples em Paris foi coerente com o desprezo que nutria pelo sucesso e a aceitação intelectual. “A consagração é a pior punição”, dizia. Mas mesmo considerado o rei dos pessimistas, Cioran não era um homem amargo. Os amigos o descreviam como introspectivo, mas, por vezes, alegre. Mas era justamente o cinismo que tornava respiráveis algumas passagens. “Podemos discutir Hitler, mas temos que admitir que foi a última iniciativa do Ocidente”, lançou certa vez.

Em 1987, decidiu parar de escrever por acreditar que imprecar contra Deus e o mundo  não valia a pena. Perfilados e teóricos estudados sempre foram pretexto para as idéias do filósofo, que foi buscar na psicologia dostoievskiana o pessimismo em torno do qual circularia toda a sua obra. Absolutamente particular e determinante na História do Pensamento Mundial, a morte de Emil Cioran encerra menos desespero e mais inquietação que qualquer outra. Sobre a morte, ele disse, “só vivo porque está em meu poder morrer quando me for conveniente”.

Feita para ser desagradável, sua obra é mais apavorante a cada dia, ao se tornar menos estapafúrdia. Agora mais perto do único a quem chamou Deus, o compositor Johann Sebastian Bach, Cioran parece mais o filósofo-poeta que reuniu a beleza e o amargor para dizer que “a música é uma ilusão que compensa todas as outras”.

“Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.”

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“Filósofo romeno Emile Cioran morre na França aos 84 anos” (Folha de S. Paulo, 21 de junho de 1995)

DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Publicado no caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo, quarta-feira, 21 de junho de 1995

O filósofo romeno Emile Cioran morreu ontem aos 84 anos em um hospital de Paris, segundo informou sua editora francesa, a Gallimard. O filósofo sofria do mal de Alzheimer e já não escrevia há alguns anos.

Cioran vivia na França desde 1937, para onde se mudou como bolsista do Instituto Francês de Bucareste, mas o filósofo nunca quis trocar sua nacionalidade.

Suas idéias, expressas quase sempre como aforismos ou reflexões breves, revelavam um profundo pessimismo sobre a existência e o destino humanos.

Emile Cioran nasceu em 8 de abril de 1911, em Rasinari, na Romênia. Filho de um sacerdote ortodoxo, Cioran se dizia “obcecado pelo pior”. Formou-se em filosofia em 1932, em Bucareste. Publicou no ano seguinte seu primeiro livro, “No Cume do Desespero”. Seguiram-se “Livro dos Enganos” (1935) e “Sobre Lágrimas e Santos” (1937).

Suas obras publicadas no Brasil, todas pela editora Rocco, são “Breviário de Decomposição”, “Silogismos da Amargura”, “História e Utopia” e “O Livro dos Logros”(1).

Em 1989, Cioran e o dramaturgo Eugène Ionesco, que haviam sido banidos da Romênia, foram nomeados membros de honra da União dos Escritores daquele país.

Em maio último, a Gallimard publicou um volume com seus aforismos sobre “depressão, fracasso, suicídio, lucidez e o nada”.

(1) Nota-se o desconhecimento do autor deste obituário, refletindo o desconhecimento, à época, do leitor brasileiro em relação à obra de Cioran. O assim chamado “Livro dos logros” (Cartea amargirilor em romeno, Le livre des leurres) é o mesmo livro citado logo acima como “Livro dos enganos (1935)”, e que seria traduzido apenas em 2014, como O livro das ilusões, por José Thomaz Brum. Ou seja, o jornalista não apenas não sabia que “Livro dos enganos” e “O livro dos logros” são o mesmo livro (Cartea amargirilor), como não se sabe de onde tirou a informação de que este era um dos livros de Cioran publicados no Brasil em 1995.

“Aos foliões” (Caio Túlio Costa)

Publicado em Folha de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1995

Uma das experiências mais reveladoras é a tentativa de pensar contra si mesmo. No limite, você vai se entender um pouco melhor. Quem sabe sentir-se mais confortável dentro de sua pele —mesmo continuando sem se entender.

Existe um poderoso pensador, nascido em 1911, romeno, radicado em Paris, preocupado em não fazer outra coisa do que pensar contra si próprio, perseguir o bom gosto espiritual, destruir a vulgaridade intelectual, desvendar a substância da existência sob as aparências do cotidiano medíocre —um Nietzsche do século 20. Cheguei a ele via Susan Sontag (ensaísta norte-americana fora de moda) e me deparei então com o verdadeiro aristocrata, o do espírito.

Seu nome é Emil Michel Cioran. Ficou conhecido só por Cioran. Vive dos caraminguás que lhe rendem seus livros e habita um pequeno apartamento em Paris. Deixou a Romênia no final dos anos 30 criando problemas para o pai, padre ortodoxo, porque revelou-se sem fé e reclamou, em livro, que há dois mil anos Jesus de Nazaré desconta em nós “o fato de não ter morrido num sofá”.

Cioran vive, pode-se dizer, miseravelmente. Sempre recusou-se a trabalhar de forma “normal”. Aceitaria, o disse, apenas trabalho físico, como o de varrer ruas. De toda forma, ganhou a vida escrevendo. Seu livro de maior sucesso, “Silogismos da Amargura”, editado em 1952 na França, foi descoberto depois e chegou ao Brasil só em 1991, quando seu êxito entre os fatigados da vida estava garantido. Em 1987 ele havia resolvido parar de escrever e se autodecretou em estado de silêncio. Rompeu a mudez algumas vezes para dar entrevistas e uma delas saiu no Mais! semana passada.

Pois sugiro que se leia e releia esta entrevista. Pode ser lida sem contra-indicação nos momentos de tédio, angústia ou euforia. Ninguém, atento, vai passar reto por uma conversa na qual se sintetiza toda uma vida dedicada à negação da mediocridade, do lugar-comum, das aparências enganadoras. Vida cética, principalmente em relação às formas de governo: “O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos mais graves eles estão perdidos”. Ou então em afirmação feita há muito tempo, em livro: “A aspiração de ‘salvar’ o mundo é um fenômeno mórbido da juventude de um povo”.

Mas, nesta entrevista, Cioran despeja com generosidade detalhes de uma vivência destinada à negação reveladora. O que se segue, sem aspas, enfeixa conceitos seus. O único mundo verdadeiro é o primitivo, onde tudo é possível e nada está atualizado. O segredo da vida está no sono. A insônia mostra que o sono, um breque no cotidiano, é que torna a vida possível. Ela só é suportável por causa da descontinuidade. Se alguém passar a noite toda acordado, quando chega a manhã não começa nada. Dorme-se menos para descansar do que para esquecer e quem levanta de manhã para começar um novo dia tem a ilusão de que alguma coisa começa. A vida só é suportável porque não se vai às últimas consequências. Quem não tem consciência do tempo não se entedia. Suporta-se a vida somente quando inexiste a consciência de cada momento que passa. A experiência do tédio é a consciência de tempo exasperada.

O excesso de lucidez, como se vê, torna a vida insuportável e a experiência da vida é o fracasso. Cioran conclui a entrevista dizendo que, talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos as coisas às quais aderimos sem acreditar.

Num outro recado sutil, dado lá nos anos 50, Cioran atirava: “Ser moderno é remendar no Incurável”.

Cioran agota su propia especie (25/06/1995)

La muerte es lo sublime al alcance de cualquiera , había escrito Emile Cioran, pensador rumano que murió el pasado martes en París, a los 84 años.

EL TIEMPO, 25 de junio de 1995, 05:00 am

La desaparición de Cioran vuelve a poner de relieve una de las obras más enigmáticas y personales del siglo XX. Una obra que, sin embargo, llegó tarde al mundo hispánico concretamente a principios de los años 70, cuando el joven filósofo español Fernando Savater empezó a escribir sobre ella y a divulgarla. EL TIEMPO habló con Fernando Savater desde París, acerca del pensador rumano.

 Qué nos deja Cioran tras su muerte? Nos deja un puñado de libros que cuentan con una de las prosas más espléndidas y conmovedoras de nuestro siglo. Una obra sólo comparable a la de creadores como Elias Canetti, y cuatro o cinco privilegiados más. Cioran es uno de los más grandes escritores del siglo.
Usted lo clasifica como escritor, filósofo, pensador…? Filósofo no, porque filósofo tiene un toque académico, premioso e indagatorio que no le corresponde a Cioran. El fue más bien un escritor en el sentido amplio del término. Un moralista y un pensador. Un espíritu del estilo de Montaigne, de Chanford, de Lichtenberg y… en nuestro siglo, repito, Elias Canetti.

Por qué Cioran llegó tan tarde a España? En los años 70, cuando yo empecé a escribir sobre Cioran, la verdad es que en España faltaban muchos autores. No sólo él, muchos. Cioran fue siempre un escritor singular y, en aquella época, los intelectuales progresistas sólo se interesaban en los escritores que tenían un contenido político. Por eso, de parte incluso de quienes se salían de las normas del régimen de Franco, era difícil que Cioran llegara a conocerse. Y del otro lado, del de la cultura oficial, pues ahí sí que menos, porque la dictadura evitaba con mucha asepsia cualquier pensamiento como el de él, es decir negativo y de poco consuelo religioso. Así que, por los dos lados, Cioran era considerado un intempestivo, de ahí el retraso con que llegó, si se tiene en cuenta que él comenzó a escribir en los años 40, poco después de que fijara su residencia en París.

El pensamiento de Cioran es negativo, pesimista, cómo veía él su propia muerte? Hay muchas reflexiones sobre la muerte en su obra, y siempre que uno reflexiona sobre la muerte, reflexiona sobre la propia muerte. Cioran es un pensador de la fragilidad, de la transitoriedad de lo humano y, obvio, era muy consciente de su muerte… Quizá no como algo fatal.

Qué libros de Cioran daría usted a alguien que comienza a leerlo ahora? Lo característico de un pensador como Cioran es que sus libros, su mensaje, es algo sencillo. Esa fragilidad, ese inconveniente de haber nacido , tal como tituló uno de sus libros, está en toda su obra. No es un autor acumulativo, que va cambiando de pensamiento, sino que más bien va modulando siempre un mismo tema. De cualquier modo, libros como El inconveniente de haber nacido, La tentación de existir e Historia y utopía, son sin duda sus grandes obras.

Se considera usted discípulo de Cioran? Antes que nada yo me considero un buen amigo de Cioran. Un amigo al que admiré mucho. Admiré su estilo, su fuerza, su humor, la ternura especial y acogedora de su carácter. Soy su discípulo en la medida en que le debo muchas reflexiones, muchos momentos de iluminación.

En lo personal, cómo era el trato con Cioran? Yo subrayaría, sobre todo, algo que va a sorprender a sus lectores superficiales o accidentales. Estos sin duda lo imaginaban como una persona de talante lúgubre, negativo, huraño, hostil… Y en realidad, Cioran era una persona sumamente acogedora, amable, preocupada por sus amigos hasta extremos verdaderamente ridículos, tiernamente ridículos. Era un hombre que, además, daba muy buenos consejos prácticos, o sea que su forma de ser chocaba un poco con la imagen nihilista, pesimista que se desprendía de su obra.

Tiene Cioran algún contacto con la religión? No. El se preocupó por temas por los que también se preocupó la religión. Es decir las postrimerías, la muerte, el sentido de la vida y del dolor, etc. Temas que la religión también trata. Pero no, Cioran no era un hombre religioso.

El misterio de Cioran, de su vida, se extiende también a su obra, una obra tan personal que no puede agruparse con otra en el siglo XX. Por qué? Porque Cioran es un caso verdaderamente singular del pensamiento… Puede decirse que es un pensador sin sistema filosófico en la medida en que cada aforismo suyo penetra hasta el fondo, no necesita un sostén teórico. Sus ideas nacen de una observación profunda, aguda y solitaria de la realidad y de la vida, no del estudio y la interpretación de la filosofía pasada. Por eso no encaja en ninguna escuela o corriente de pensamiento. Tiene conexiones, claro. Fue amigo de Samuel Beckett, de Henri Micheaux, de Paul Celán, de Ionesco y Mircea Eliade. En fin, tiene conexiones con pensadores, pero él pertenece a una estirpe única. Como los ángeles, Cioran agota su propia especie.

“Morre Emil Cioran, o arauto do pessimismo” (Folha de S. Paulo, 21/06/1995)

DA REDAÇÃO; COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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Folha de São Paulo, “caderno Ilustrada”, 21 de junho de 1995

O filósofo romeno, autor de `Silogismos da Amargura’ e `Breviário de Decomposição’, estava com 84 anos

O filósofo romeno Emil Cioran morreu ontem aos 84 anos em um hospital de Paris, segundo informou sua editora francesa, a Gallimard. O filósofo sofria do mal de Alzheimer e já não escrevia há alguns anos.

Cioran vivia na França desde 1937, para onde se mudou como bolsista do Instituto Francês de Bucareste. Embora nunca tenha voltado a viver na Romênia, o filósofo nunca quis trocar sua nacionalidade.

Suas idéias, expressas quase sempre como aforismos ou reflexões breves, revelavam um profundo pessimismo sobre a existência e o destino humanos.

Emil Cioran nasceu em 8 de abril de 1911, em Rasinari, uma aldeia nas montanhas dos Cárpatos, na Romênia. Filho de um sacerdote ortodoxo, o filósofo se dizia “obcecado pelo pior”.

Formou-se em filosofia em 1932, em Bucareste. Publicou no ano seguinte seu primeiro livro, “No Cume do Desespero”. Escrita aos 22 anos, a obra é, segundo Cioran, “uma espécie de testamento”, porque o filósofo pensava em se suicidar durante suas noites de insônia.

Seguiram-se “Livro dos Enganos” (1935) e “Sobre Lágrimas e Santos” (1937).
Cioran se considerava um discípulo do argentino Jorge Luis Borges e dizia que o aforismo (uma máxima, uma sentença moral breve) era um “fogo sem chama”.

“Desconfiem do rancor dos solitários que dão as costas ao amor, à ambição, à solidão. Um dia se vingarão por terem renunciado a tudo isso”, diz um de seus famosos aforismos.

Suas obras publicadas no Brasil, todas pela editora Rocco, são “Breviário de Decomposição” (1949, seu primeiro livro escrito em francês), “Silogismos da Amargura” (1952, que se tornou best seller na França em sua edição de bolso de 1987) e “História e Utopia” (1960). “O Livro dos Logros” está sendo traduzido e deve ser lançado no fim deste ano.

Em 1989, Cioran e o dramaturgo Eugène Ionesco, que haviam sido banidos da Romênia, foram nomeados membros de honra da União dos Escritores daquele país.
Em maio último, a editora Gallimard publicou um volume que reúne temas de suas obras relativos à “depressão, ao fracasso, ao suicídio, à lucidez e ao nada”.

Seus livros mais importantes foram escritos em francês, língua que considerava de um rigor “inumano e infernal”. Era considerado pelos críticos como o mais importante escritor de língua francesa deste século, junto a Paul Valéry.

Entre seus mais de quinze livros estão também “O Inconveniente de Ter Nascido” (1973), “A Tentativa de Existir” (1956), “Exercícios de Admiração” e “O Ocaso do Pensamento”, sua última obra escrita em romeno.

Em livros como “A Queda no Tempo” (1964), “O Demiurgo Aziago” (1969) e “Desgarramento” (1979), o filósofo empenha-se em demonstrar que a criação é uma “sabotagem definitiva”.

“As espécies animais teriam durado milhões de anos se o homem não tivesse acabado com elas, mas a aventura humana não pode ser indefinida. O homem já deu o melhor de si. Todos sentimos que as grandes civilizações ficaram para trás. O que não sabemos é como será o fim”, escreveu Cioran.

“Un refugiado en casa: desaparece el gran teórico del escepticismo” (Félix de Azúa)

Félix de Azúa, El País, 21 de junio de 1995

Nada de lo que he ido leyendo de Cioran me ha ilustrado tanto sobre la compleja y delicada trama de su espíritu como aquella visita, hace más de 20 años, en compañía de Fernando Savater. Fuimos a verle a su buhardilla del Barrio Latino -una chambre de bonne de un ascetismo parejo al de Dreyer, pintada de blanco hasta por el suelo y con una estufa de hierro colado en medio de la habitación, cierta tarde de febrero o marzo, ya no recuerdo, con un frío que pelaba. La estufa, que parecía una deidad primitiva y malévola en aquel refugio evidentemente santo, estaba apagada.Savater andaba por entonces traduciendo a Cioran para aquella editorial Taurus dirigida por quien no había alcanzado todavía a ennoblecer su sangre, y nadie conocía al rumano. Recuerdo que en aquellas fechas no muy alejadas de 1970 se había producido una tremenda huelga de basureros en París y la ciudad estaba cubierta de basura. Las ratas se cruzaban por entre las piernas de los paseantes y un humo excrementicio manaba de las montañas de materia descompuesta. Cada día, mientras duró la huelga, Beckett llamó por teléfono a Cioran para dar un paseíto juntos. “Nunca París ha estado más hermoso”, comentaba Beckett con exaltación juvenil.

Cioran nos recibió con una cortesía dieciochesca. Era un caballero entrado en años (es decir, mi actual edad), de mediana estatura y mirada inquisitiva. Nos sentamos a conversar, y Fernando me presentó como un español que vivía provisionalmente en París. Cioran ya no atendió a nada más. Me miró intensamente y comenzó a interesarse por mí. “¿Come usted con regularidad?”me preguntó. “¡Los inviernos de París son temibles, pero aún lo son más sus prirnaveras!”. Me observó de arriba abajo, deteniéndose con interés en los zapatos, y añadió: “¡El frío húmedo y pegajoso del Sena produce más muertes que la sífilis!”. Se levantó presuroso y nos conminó a seguirle… [+]

“Tentaciones para ir a E. M. Cioran” (Rafael Pérez Gay)

NEXOS, 1 Julio, 1995

El fracaso.

Buena parte de la obra del gran escritor rumano-francés Emile M. Cioran (1911-1995) está construida alrededor de un tema que se volvió con el tiempo una pasión: el fracaso, personal, de los pueblos, del comunismo, de la filosofía, de la historia. Los dos libros donde esa pasión se expande con inmensa sabiduría y asombrosa fuerza estilística son Los silogismos de la amargura (Gallimard, 1952) y La tentación de existir (Gallimard, 1972). En este último escribió: “Fracasar en la vida, esto se olvida a veces demasiado pronto, no es tan fácil: se precisa una larga tradición, un largo entrenamiento, el trabajo de varias generaciones. Una vez realizado este trabajo, todo va de maravilla”. Por lo demás y como es notable que en estos tiempos ya nadie fracasa —sólo hay sucesiones de circunstancias adversas y éxitos mal entendidos—, Cioran es una rara especie de actualidad mexicana.

Pascal.

El más grande artista de la prosa francesa, Pascal, es una presencia sutil pero al mismo tiempo capital en la evolución literaria de E. M. Cioran. Es posible que Cioran haya amado en Pascal la disputa entre la ciencia y las letras, la controversia religiosa, el modelo de su sátira demoledora y, sobre todo, el hecho de que bien a bien Pascal nunca escribió un libro: publicó varios folletos que llegaron hasta nosotros como Les lettres provinciales y Les pensées, conjunto aforístico salido de una gran cantidad de notas recuperadas del enorme desorden que Pascal dejó cuando murió. Ese destino fragmentario y esa vocación por lo inacabado quedaron puestos en este aforismo: “Las obras mueren: los fragmentos no pueden morir, porque nunca han existido”. Se puede llegar a Pascal por el camino de Cioran.

El escepticismo.

Es un lugar común, pero es correcto: el escepticismo es el gran centro nervioso de la obra de Cioran, en La tentación de existir, seguramente la mejor prosa ensayística francesa de los últimos cuarenta o cincuenta años, así como en toda su producción posterior a 1956, Historia y utopía (Gallimard, 1960), La caída en el tiempo (Gallimard, 1964), El aciago demiurgo (Gallimard, 1969), e incluso los aforismos de El inconveniente de haber nacido (Gallimard, 1973), el escepticismo, un escepticismo trepidante, no sólo es el tema común sino, además, un método de trabajo, un conjunto de actitudes, como él mismo llamó a la obra de Nietszche, para explicarse las tres grandes zonas de su obra: la literatura, la filosofía y la historia. “La historia es indefendible. Hay que reaccionar respecto a ella con la inflexible abulia del cínico; o si no, ponerse del lado de todo el mundo, marchar con la turba de los rebeldes, de los asesinos y de los creyentes”. “La ingenuidad, el optimismo, la generosidad -suelen encontrarse en los botánicos, los especialistas de ciencias puras o los exploradores, nunca en los políticos, los historiadores o los curas… [+]