Fracasso

A atitude heróica é o privilégio e a condenação dos desintegrados, dos fracassados. (Pe culmile disperǎrii)

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«A idade da Inocência.» Quanto mais se contemplam os quadros de Reynolds, mais se persuade de que só existe um fracasso: deixar de ser criança. O paraíso projeta no passado esse estágio de nossa vida, nos consola de nossa infância desaparecida. Olha esta mão delicada que a criança repousa sobre o peito como que para defender timidamente sua felicidade… Reynolds compreendera tudo isso? Ou esses olhos pensativos expressam um vago espanto ante o que se deverá perder? Como os amantes, as crianças têm o pressentimento dos limites da felicidade. (Lacrimi şi Sfinţi)

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O fracasso é um paroxismo da lucidez. O mundo se torna transparente para o olho implacável daquele que, estéril e clarividente, já não se apega a nada. Mesmo inculto, o fracassado sabe de tudo, vê através das coisas, desmascara e anula toda a criação.
O fracassado é um La Rochefoucauld sem gênio (Lacrimi și Sfinți)

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Ter amado sempre as lágrimas, a inocência e o niilismo. Os seres que sabem de tudo e os que não sabem de nada. Os fracassados e as crianças. (Lacrimi şi Sfinţi)

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Sempre que um ser não encontra seu «acômodo» na existência, se encontra na presença do Mal. Deste deriva todo fracasso e, e ao ser imanente ao devir, todos os seres têm de lutar contra ele.
Na medida em que Deus não está acomodado em si mesmo, por esta deficiência de sua condição, participa do mal. Ademais, não é ele o Grande Fracassado?
Em relação ao  homem, que anda buscando seu destino desde Adão até hoje, fez-se credor da dignidade em sua luta contra o mal. Seu fracasso tem algo de reconfortante e heroico: não estando presente como ser, não tendo lugar algum na existência, criou para si uma condição a partir de sua falta de condição, de modo que ninguém pode dizer ainda se o homem é algo, nada ou tudo.
Todos sabemos, ou suspeitamos, que é um animal ou um Deus. Em todo caso, eles «estão». Mas o homem não está; pois, não é um agente de enlace entre os mundos? Ai! Oxalá o fosse! Mas no valor modal do verbo se encontra a definição mesma do Mal.
Em uma teologia «séria», que intentasse salvar Deus de forma absoluta, o mal não encontra uma explicação válida. As teodiceias se revelaram insuficientes frente a este obstáculo essencial.
A existência do mal converte o Todo-poderoso em um Absoluto decrépito. O devir engoliu seu mistério e seu poder.
O mal só é comparável a um Deus… laico. (Amurgul gândurilor)

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O experimento homem fracassou. Encontra-se em um beco sem saída, enquanto que um não‑homem é mais: uma possibilidade.
Olha fixamente nos olhos de um «semelhante»: que te leva a crer que não podes esperar mais nada? Todo homem é muito pouco…  (Amurgul gândurilor)

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Só somos nós mesmos pela soma de nossos fracassos. (Breviário de decomposição)

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“Para quê?”, adágio do Fracassado, de um simpatizante da morte… (Breviário de decomposição)

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Gênese da tristeza – Não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: nossos fracassos provêm de nossa incapacidade para conceber o Paraíso e aspirar a ele, como nossos mal-estares da fragilidade de nossas relações com o absoluto. “Sou um animal religioso incompleto, padeço duplamente todos os males” – adágio da Queda, que o homem se repete para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre à moral, decide seguir, expondo-se ao ridículo, seu conselho edificante. “Resolve-te a não estar mais triste”, lhe responde esta. E ele se esforça por entrar no universo do Bem e da Esperança… Mas seus esforços são ineficazes e antinaturais: a tristeza remonta à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original… (Breviário de decomposição)

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Fracassar na vida é ter acesso à poesia — sem o suporte do talento. (Silogismos da amargura)

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Na antiguidade, o filósofo que não escrevia mas pensava, não se expunha ao desprezo; desde que nos prostramos ante a eficácia, a obra se converteu no absoluto do vulgo; os que não produzem são considerados “fracassados”. No entanto, esses “fracassados” teriam sido os sábios de outros tempos; eles reabilitarão a nossa época por não haver deixado traços nela. (Silogismos da amargura)

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“Senhor, sem ti estou louco, mas mais louco ainda contigo!” Esse seria, na melhor das hipóteses, o resultado de um reatamento de contato entre o fracassado de baixo e o fracassado do alto. (Silogismos da amargura)

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Só os povos fracassados se aproxima de um ideal “humano”; os outros, os que triunfam, portam consigo os estigmas de sua glória, de sua atrocidade dourada. (Silogismos da amargura)

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A “experiência homem” fracassou? Já havia fracassado com Adão. Entretanto, é legítimo perguntar: teremos bastante imaginação para parecer ainda inovadores, para agravar tal fracasso?
Enquanto esperamos, perseveremos no erro de ser homens, comportemo-nos como farsantes da Queda, sejamos terrivelmente frívolos! (Silogismos da amargura)

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Toda forma de impotência e de fracassos comporta um caráter positivo em ordem metafísica. (Le mauvais demiurge)

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Nisto se reconhece aquele que tem disposições para a busca interior: colocará o fracasso por cima de qualquer êxito, inclusive buscará esse fracasso; inconscientemente, é claro. E é que o fracasso, sempre essencial, nos desmascara, nos permite ver-nos como Deus nos vê, enquanto que o êxito nos distancia do que há de mais íntimo em nós e em tudo. (De l’inconvenient d’être né)

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Uma existência constantemente transfigurada pelo fracasso. (De l’inconvenient d’être né)

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Não é o temor de empreender algo, mas o temor de consegui-lo o que explica mais de um fracasso. (De l’inconvenient d’être né)

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«Você errou em contar comigo.» Quem pode falar assim? Deus e o Fracassado. (De l’inconvenient d’être né)

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O fracasso, inclusive reiterado, parece sempre novo; enquanto que o êxito, ao multiplicar-se, perde todo interesse, todo atrativo. Não é a desgraça, mas la felicidade insolente o que conduz ao tom ágrio e ao sarcasmo. (De l’inconvenient d’être né)

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Para o ansioso não há diferença entre êxito e fracasso. Sua reação frente a ambos é a mesma. Os dois o molestam igualmente. (De l’inconvenient d’être né)

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O método mais eficaz para fazer amigos fiéis é felicitá-los por seus fracassos. (Aveux et anathèmes).

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Não existe maior obstáculo para conseguir a liberação que a necessidade de fracasso. (Aveux et anathèmes).

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Proceder de um país onde o fracasso constituía uma obrigação e onde «não pude me realizar» era o leitmotif de todas as confidências. (Aveux et anathèmes).

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Viver com o temor de entediar-me em todo lugar, inclusive em Deus… Na obsessão desse tedio extremo vejo eu a razão do meu fracasso espiritual. (Aveux et anathèmes).

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Salvação? Quem pretende salvar-se? Eu me escondi do tempo. Tenho o privilégio do desespero, admiro os insatisfeitos e os fracassados, que deixam fugir suas respostas. A história entronizou os atrozes. E n o que concerne ao tempo, não desejo usufrui-lo, nem no agora como os poderosos, nem no porvir como os encurralados por seus sonhos sonhos. (Entrevista a Gonzalo Márquez Cristo)

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