“The Philosopher of Failure: Emil Cioran’s Heights of Despair”, by Costica Bradatan

The Los Angeles Book Review, November 28, 2016

FOR SOME, he was one of the most subversive thinkers of his time — a 20th-century Nietzsche, only darker and with a better sense of humor. Many, especially in his youth, thought him to be a dangerous lunatic. According to others, however, he was just a charmingly irresponsible young man, who posed no dangers to others — only to himself perhaps. When his book on mysticism went to the printers, the typesetter — a good, God-fearing man — realizing how blasphemous its contents were, refused to touch it; the publisher washed his hands of the matter and the author had to publish the blasphemy elsewhere, at his own expense. Who was this man?

Emil Cioran (1911–1995) was a Romanian-born French philosopher and author of some two dozen books of savage, unsettling beauty. He is an essayist in the best French tradition, and even though French was not his native tongue, many think him among the finest writers in that language. His writing style is whimsical, unsystematic, fragmentary; he is celebrated as one of the great masters of aphorism. But the “fragment” was for Cioran more than a writing style: it was a vocation and a way of life; he called himself “un homme de fragment.” [+]

Entrevista: Fernando Klabin e a tradução do romeno

EMCioranbr – Você é um brasileiro fluente em romeno, tradutor juramentado e tudo mais. Isso não é muito comum. Permita-me perguntar: como “chegou” à Romênia, à língua romena. Como se deu esse encontro?

FK – Na verdade, mais correto seria dizer que a Romênia “chegou” até mim, abraçando-me numa espécie de acidente de percurso. Devido a minhas próprias raízes, sempre tive uma curiosidade acentuada pelo Leste Europeu, mas jamais imaginei que um dia despencaria e, mais, permaneceria na Romênia – país que, até minha primeira visita em 1996, só conhecia através da minha coleção de selos. Em seguida, devido a um de certa forma misterioso “parentesco” difícil de explicar entre as mentalidades brasileira e romena, absorver a língua e adentrar na cultura local foi e tem sido um processo tão prazeroso quanto irreprimível.

EMCioranbr – Quanto a Cioran, especificamente, como surgiu a ideia de traduzir “Nos cumes do desespero”? Foi sua a iniciativa? Você tem algum trabalho voltado especificamente à obra de Cioran?

FK – Ainda em São Paulo, minha primeira leitura de Cioran – o “Breviário de Decomposição”, traduzido pelo filósofo José Thomaz Brum e publicado pela Rocco – impressionou-me profundamente. De modo que, tão logo me vi em sua terra natal, apressei-me em ler, no ano 2000, no original romeno, seu primeiro livro, “Nos cumes do desespero”. Meu interesse pelo filósofo aumentou e, à medida em que o conhecimento da língua me permitia, passei à leitura do resto de suas obras escritas em romeno, almejando um dia poder traduzi-las para o português, tendo em vista ademais que, no Brasil, só suas obras francesas têm sido promovidas. Foi há pouco tempo que encontrei na editora Hedra acolhida generosa para publicar “Nos cumes do desespero”, aonde quase literalmente chegamos durante uma difícílima negociação relacionada aos direitos de autor. Tenho muita vontade de traduzir as outras obras romenas de Cioran, embora não haja ainda um sinal concreto de qualquer editora interessada.

EMCioranbr – Paulo Bezerra, que traduziu Dostoievski, disse que o ofício do tradutor envolve muita inventividade, tanto quanto para criar. Você traduziu As seis doenças do espírito contemporâneo, do filósofo e amigo de Cioran, Constantin Noica. “Nos cumes…” parece um livro muito diferente, em forma e conteúdo, daquele de Noica. Como foi traduzir Cioran do romeno para o português? O estilo, o tom, o ritmo, tudo isso é difícil de ser preservado no nosso idioma?

FK – A tradução é sempre, mais ou menos, uma doce traição. E, desde o início, é necessário assumir uma determinada abordagem, que inevitavelmente vai sempre favorecer algo em detrimento de outra coisa. A minha abordagem, no caso de textos filosóficos, é a de procurar interferir o mínimo possível. Quero acreditar que as surpreendentes semelhanças entre o romeno e o português permitam, até certo ponto, essa transposição quase direta em certos trechos. Noica me parece mais apolíneo diante do dionisíaco Cioran, traduzi-los foram experiências muito diferentes entre si, mesmo porque meu domínio da língua e da cultura romenas se aprofundaram nos mais de 10 anos que separam ambas as traduções. Acredito que manter o fraseado e o estilo de Cioran quase que por meio de uma transposição, como se  um espelho brasileiro refletisse o livro romeno, favoreça a manutenção das idéias do autor, ajudando o leitor a apreendê-las – talvez mais cruas e rígidas, porém mais autênticas.

EMCioranbr – O que haveria de especificamente romeno, em termos de linguagem (estilo, construções semânticas, etc.), em “Nos Cumes…”, em contraste com a escritura francesa de Cioran?

FK – O francês é uma língua de elegância e sonoridade tais, que até as imprecações soam como um elogio. Ao meu ver, Cioran fez extremo bom uso da plasticidade da língua francesa, nela revestindo, com ainda mais charme e sedução, sua torrente de idéias. É necessário lembrar que justamente suas primeiras obras foram escritas em romeno e que, mesmo que Cioran continuasse filosofando em romeno, haveria um inevitável contraste entre sua escrita de juventude e sua escrita madura. Suas obras juvenis, de qualquer modo, chamam a atenção, para além dos temas incandescentemente abordados, pelo estilo distinto que a língua romena imprime ao discurso e pela identificação das idéias embrionárias que, mais tarde, Cioran revisitará e desenvolverá, com reconhecida maestria, favorecido pela dimensão artística e mesmo histriônica do idioma francês.

EMCioranbr: Por mais que o livro não permita adivinhar por si só, pelo seu teor introspectivo, “Nos cumes do desespero” é contemporâneo de um drama coletivo e político, a saber, a agonia de uma Romênia entre guerras lutando por sua independência. Mais ou menos na mesma época, o autor de “Nos Cumes…” publicaria um libelo político, Schimbarea la faţǎ a României (“Transfiguração da Romênia”), que se tornaria, para a posteridade, o registro inglório dos excessos e delírios totalitários de um jovem Cioran. É possível traçar paralelos entre Pe Culmile Disperǎrii e Schimbarea la faţǎ a României?

FK – Acredito que o próprio Cioran possa nos oferecer elementos para uma resposta. Num breve prefácio de 1990 à edição romena de “A Transfiguração da Romênia”, o autor diz ter escrito “estas divagações em 1935-36, aos 24 anos, com paixão e orgulho. De tudo o que publiquei em romeno e francês, este texto é talvez o mais apaixonado e ao mesmo tempo o que me é mais alheio. Não me reencontro nele, embora pareça-me evidente a presença da minha histeria de então. Julguei ser minha obrigação suprimir algumas páginas pretensiosas e estúpidas.” Num prefácio à edição francesa de “Nos cumes do desespero”, Cioran confessa ter escapado do suicídio ao escrever aquele livro durante suas noites insones. Pode-se dizer que, embora abordem temas diferentes, ambas as obras se valem do mesmo motor: aquela rebeldia, aquele excesso juvenis que, com o tempo, Cioran contemporiza na elegância da língua francesa e na lucidez de uma ironia impossivelmente ácida – onde a mera provocação transcende para acusar Deus e a humanidade de uma culpa da qual não conseguimos nos livrar.

EMCioranbr –  Uma anotação extraída dos Cahiers traz uma lembrança de vocábulos romenos que teriam guardado, para Cioran, depois de anos, um significado pessoal profundo. Diz ele: “Do meu país eu herdei o niilismo inato, seu traço fundamental, sua única originalidade. Zădărnicie, nimicnicie – essas palavras extraordinárias, não, essas não são palavras, são a realidade do nosso sangue, do meu sangue.” Cioran costuma se referir aos romenos como um povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, cético em relação ao destino… Poderia nos dizer o que significam zădărnicie e nimicnicie? Qual é, de fato, a relevância destes termos no imaginário coletivo romeno? De resto, em que medida essa representação que Cioran faz dos romenos não é uma idealização subjetiva e caricatural que revela mais sobre ele que sobre os romenos de modo geral?

FK – Quero acreditar que, ao evocar esses dois termos, de certo modo eruditos no idioma romeno, e que significam vaidade – no sentido do Eclesiastes – e  insignificância, Cioran faz menção a uma profunda sabedoria que o povo romeno desenvolveu ao longo dos séculos, e que o transformou, como bem diz, num povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, cético em relação ao destino. Essa experiência secular foi a de ser invadido ou subjugado pelos mais variados povos. E a reação romena foi resumida num provérbio freqüentemente repetido: cabeça baixa, espada não corta.

EMCioranbr – Por fim, podemos esperar, no futuro, novas traduções de livros romenos de Cioran?

FK – A depender dos meus esforços, sem dúvida que sim. E espero que um mais aprofundado conhecimento de Cioran por parte do leitor brasileiro abra as portas na direção de outros autores romenos tão importantes quanto ele, mas que não gozaram da mesma projeção internacional, sobretudo por terem permanecido na Romênia.

“Veias carregadas de noites: morte, agonia e pensamento orgânico em Emil Cioran” (Antônio Carlos Lemos Garcia Júnior)

Trabalho de conclusão de graduação (licenciatura em Filosofia)

Centro Universitário Claretiano, Batatais, SP, 2014

Orientador: Prof. Dr. Edson Renato Nardi

Resumo: Emil Cioran (1911-1995) legou obras dotadas de uma linguagem poética e altamente cáustica que dá forma ao seu pensamento trágico e corrosivamente pessimista. Contrário aos academicismos, sistemas filosóficos tradicionais e adepto da reflexão enquanto auxiliada por sentimentos arrebatadores, concebe a morte enquanto questão última da filosofia e a qual exige uma seriedade abissal de quem sobre a mesma se põe a refletir; para Cioran, tamanha seriedade só se faz presente no pensador orgânico. Realizou-se esta pesquisa por meio de uma investigação acerca das temáticas da morte, agonia e pensamento orgânico presentes nas obras de Emil Cioran, tendo sua obra estreante Nos cumes do desespero (1933) enquanto referência-mor.

Palavras-Chave: Morte. Agonia. Lirismo. Reflexão.

Introdução

A presente pesquisa tem por objetivo investigar as questões da morte, pensamento orgânico e vivência agônica segundo o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), através de revisão bibliográfica de algumas de suas obras, tendo como referencia principal sua obra estreante Nos cumes do desespero (1933).

Cioran, enquanto “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) não desassocia a reflexão filosófica das aflições físicas e mentais que possam vir a acometer os pensadores: tais aflições, contrariamente ao usualmente concebido pela filosofia tradicional, não são barreiras ao pensar filosófico; mas sim requisitos para a formulação de questões e reflexões filosóficas verdadeiramente sérias. O filósofo romeno aponta a morte como a questão última da filosofia, a qual o desalento e o desespero que gera no homem pelo seu triunfo indômito são exaltados pelo autor enquanto bases primordiais ao pensador que se propõe refletir sobre a morte. A consciência da morte e a impossibilidade de abordá-la sem a experiência agônica norteiam a reflexão do filósofo romeno em sua obra inicial, referência-mor a esta pesquisa.

Segundo Franco Volpi (VOLPI, 2012, p.104), a obra de Cioran

destila, por todas as páginas, um concentrado de péssimo que envenena de morte todos os ideais, esperanças e impulsos metafísicos da filosofia, ou seja, todas as tentativas de dar à existência algum sentido e segurança, em face do abismo de absurdo que a todo instante a ameaça. As reflexões de Cioran empurram-nos até o ponto de nos sentir nus perante um destino também nu.

Contrário aos academicismos e sistemas filosóficos tradicionais, Emil Cioran traz em seu pensamento trágico e cáustico não somente uma contribuição ao meio acadêmico; mas ao homem contemporâneo, que exala sonolência espiritual.

Lirismo e Pensamento Orgânico

Adotando a forma lírica em suas obras, Cioran associa o lirismo ao sofrimento e às psicoses, sendo o estado lírico “um estado que transcende formas e sistemas.” (CIORAN, 2012, p.12). Em Nos cumes do desespero (1933), Cioran (2012, p.16) questiona:

Por que não podemos permanecer encerrados em nós mesmos? Por que insistimos em correr atrás da expressão e da forma no intuito de nos esvaziar de conteúdo e sistematizar um processo caótico e rebelde? Não seria mais fecundo entregarmo-nos à nossa fluidez interior, sem desejo de objetivar, apenas sorvendo voluptuosos, todas as ebulições e agitações íntimas?

A resposta reside, segundo o autor, no acúmulo de tormentos que aflige o homem dadas suas “vivências múltiplas e diferenciadas [que] se fundiram para engendrar as mais fecundas efervescências” (id., ibid., p. 16)”. Ao atingir tal estado, segundo Cioran, o indivíduo encontra-se “cheio de si” (id., ibid., p.16) e a tensão do viver acarreta uma espécie torpeza agônica, de proximidade para com a morte gerada pela ebulição do acúmulo interno:

Ser cheio de si, não no sentido de orgulho, mas no de riqueza, ser atormentado por uma infinidade interna e por uma tensão extrema significa viver com tanta intensidade, que acabamos morrendo por causa da vida. É tão raro e estranho esse sentimento, que devemos vivenciá-lo aos berros. Sinto como se devesse morrer por causa da vida e me pergunto se teria algum sentido buscar uma explicação. Quando todo o passado da alma palpita dentro de nós num momento de imensa tensão, quando uma presença total atualiza as experiências aprisionadas e quando um ritmo perde seu equilíbrio e uniformidade, a morte nos arranca dos cumes da vida sem que conheçamos diante dela o horror que acompanha a atordoadora obsessão da morte. (CIORAN, 2012, p.17)

O pensador romeno afirma que se torna impossível conviver com tais sentimentos supracitados ao encarcerá-los em si, portanto, aponta a necessidade de confessá-los enquanto a possível salvação dessas aflições às quais denomina “obsessão pela morte” (CIORAN, 2012, p.17). O lirismo, para Cioran, não é apenas a pela qual um escritor dá vazão ao desespero agônico que o atormenta, mas um estado de espírito: não se passa somente a expressar-se liricamente, torna-se lírico. Ser lírico é apresentar-se interiormente tão caótico e visceral que a expressão passa a ser uma necessidade vital:

O lirismo representa uma força de dispersão da subjetividade por indicar, no indivíduo, uma efervescência incoercível da vida, que sem cessar exige expressão. Ser lírico significa não podermos permanecer fechados em nós mesmos. Quanto mais interior, profundo e concentrado for o lirismo, mais intensa será essa necessidade de exteriorização. (CIORAN, 2012, p.17)

O filósofo romeno atribui à expressão lírica a qualidade da barbárie, cuja sua apreciação reside no fato de “ser bárbaro, ou seja, de ser só sangue, sinceridade e chamas (id., ibid., p.12), em detrimento da linguagem usualmente utilizada na filosofia, envolta em sistemas e jargões e a qual exige o afastamento imediato de quaisquer impulsos emocionais em sua utilização. Cioran menospreza a seriedade presente em questões meramente formais, questões essas que são formuladas unicamente por “incertezas da inteligência” (CIORAN, 2012, p.34) , não advindas de nossas aflições orgânicas. Enquanto pensadores abstratos põem-se a refletir, segundo Cioran, por prazer ou vaidade intelectual, o “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) enuncia verdades pulsantes; provenientes e constituintes dele mesmo e exalta “pensamentos que mantém o aroma de sangue e de carne” (id., ibid., p.34).

Para o pensador romeno “Há questões que, uma vez abordadas, nos isolam em vida e até nos destroem” (CIORAN, 2012, p.33). Sendo a questão da Morte o exemplo-mor e a que exige, enquanto “questão perigosa” (CIORAN, 2012, p.33), uma seriedade infinita: “Ter uma seriedade infinita quer dizer estar perdido. Não se trata aqui do espírito calmo, nem da gravidade sem conteúdo das pessoas consideradas sérias, mas de uma tensão doida, que a cada momento da vida somos alçados ao plano da eternidade.” (CIORAN, 2012, p.34). E conclui:

Só o pensador orgânico e existencial é capaz desse tipo de seriedade, pois só para ele as verdades são vivas, frutos mais de uma tortura íntima e de uma afecção orgânica que de uma especulação inútil e gratuita. (CIORAN, 2012, p.34)

Experiência Agônica, Consciência da Morte e o Triunfo Indómito do Nada

A questão da morte permeia a obra de Emil Cioran enquanto questão última de sua filosofia, essencialmente em sua obra estreante Nos cumes do desespero, a qual foi escrita por um jovem, insone e desesperado Cioran: “Se não a houvesse escrito, eu com certeza teria posto um fim em minhas noites.” (CIORAN, 2012, p. 16). A seriedade culminante, proveniente apenas do “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) é, portanto, exigida por Cioran quando se propõe refletir sobre a morte: somente se faz possível refletir sobre a morte de forma realmente séria com a experiência agônica1. Para o pensador romeno, não há possibilidade de se compreender a morte sem que se perceba a vida em si como agonia:

É possível falar da morte sem a experiência de agonia em vida? A morte não pode ser compreendida sem que a vida seja sentida como uma longa agonia, em que a morte se confunde com a vida. A morte não é algo exterior, ontologicamente diferente da vida, pois morte como realidade autônoma de vida não existe. Entrar na morte não significa, assim como crê a mentalidade vigente e em geral o Cristianismo , dar o último suspiro e passar para uma região de estrutura elevada e positividade diferente da vida, mas descobrir, na progressão da vida, um caminho para a morte e encontrar nas pulsações do vital uma profundidade imanente a ela. (CIORAN, 2012, p.35)

Cioran afirma que, principalmente no Cristianismo e em outras “metafísicas que reconhecem a imortalidade da alma” (CIORAN, 2012, p. 35), à morte e à sensação de agonia dá-se a característica de um “triunfo”, um plano no qual adentramos e nos separamos definitivamente da vida, tal como uma libertação, Cioran (2012, p.35) possui uma concepção distinta:

O verdadeiro sentido da agonia parece-me ser a revelação da imanência da morte durante a vida. Por que tão poucos têm a sensação de imanência da morte em vida, a experiência da agonia é tão rara? Não seria falsa a nossa suposição, tornando-se inverossímil o esboço de uma metafísica da morte apenas por meio da concepção de uma transcendência dela?

Para Emil Cioran, o homem comum e saudável é isento da sensação da morte em vida e experimenta uma espécie de estado de inconsciência, comportando-se de forma indiferente e crendo no distanciamento ilusório de sua existência em relação à morte, sendo incapaz de vivenciar a experiência agônica e adquirir a consciência da morte; faz-se necessário a doença e o desequilíbrio existencial para compreendê-la: “Com tuas veias carregadas de noites, te encontras entre os homens como um epitáfio no meio de um circo.” (CIORAN, 2011, p.38).

Cioran (2012, p. 38) aponta as doenças e estados depressivos enquanto causas principais da revelação “da imanência da morte na vida” (id., ibid., p.38), mesmo considerando a possibilidade de outras causas, as quais nomeia “acidentais”, a revelação do “caráter demoníaco da vida” (id, ibid, p. 37) é mais intensa nas enfermidades

Se a doença tem uma missão filosófica neste mundo, ela não pode ser outra senão demonstrar quão ilusória é a sensação de eternidade da vida e quão frágil é a ilusão de uma definição e de um triunfo da vida. Pois, na doença, a morte está sempre presente na vida. Os estados genuinamente doentios nos conectam a realidades metafísicas que um homem normal e saudável é incapaz de entender. (…) Todo o complexo de estados doentios revela uma tortura do vital e uma desintegração da vida de suas funções naturais. (CIORAN, 2012, p. 38)

A consciência da morte e a experiência agônica levam o homem a uma lucidez excruciante, na qual o indivíduo depara-se com o absurdo e o aniquilamento de quaisquer finalidades para a vida e existir passa a ser, tal como coloca o título de outra de suas obras (Do inconveniente de ter nascido, 1973), uma inconveniência:

Com a autonomia em relação à vida com que a consciência nos dota, a revelação da morte se torna tão intensa, que sua presença destrói toda espécie de ingenuidade, todo elã de alegria e toda volúpia natural. Há uma perversão, uma degradação infinita na consciência da morte. Toda a poesia ingênua da vida, todas as suas seduções e fascínios parecem desprovidos de conteúdo, assim como vazias parecem todas as projeções finalistas e ilusões teológicas do homem. (CIORAN, 2012, p.36)

Dada a presença da sensação da morte, o Nada introduz-se na existência. O medo da morte comprova, para o pensador romeno, o triunfo final do Nada. Para Cioran, temer a morte é o mesmo que temer o Nada, e isso demonstra que “o único sentido da presença da morte é atualizar progressivamente o caminho na direção do Nada.” (Cioran, 2012, p. 40). Todas as chagas existenciais, para o autor de Nos cumes do desespero, se resumem ao medo da morte: as angústias e múltiplas formas do medo não passam “de aspectos variados diante da mesma realidade fundamental.” (id., ibid., p.41). Segundo o autor, o triunfo da morte e, portanto, do Nada sobre a existência é indômito: quaisquer tentativas de se racionalizar o problema, qualquer forma de fé ou demais empreitadas; tudo recai no abismo da inutilidade:

O fato da agonia se desenrolar no tempo demonstra que a temporalidade não é apenas um caráter ou uma condição para a criação, mas para a morte, para o fenômeno dramático do morrer. É aqui que se manifesta o caráter demoníaco do tempo, em que se desenrola tanto o nascimento quanto a morte, tanto a criação quanto a destruição, sem que se evidencie, nesse complexo, qualquer convergência para um plano transcendente. O demonismo do tempo favorece a sensação do irremediável que se impõe como uma necessidade inelutável contra as nossas mais íntimas tendências. Estamos absolutamente convencidos de que não podemos escapar da sorte amarga que desejaríamos a outrem, de que estamos submetidos a uma fatalidade implacável e de que o tempo não fará outra coisa senão atualizar o processo dramático da destruição – eis as expressões do irremediável e da agonia. (CIORAN, 2012, p. 43)

Após a afirmação da inutilidade do existir e do triunfo implacável do Nada, Cioran (2012, p.43) questiona: “Não seria, portanto, o Nada a salvação?” e prossegue: “se a salvação na existência é quase impossível, como seria possível na ausência completa de qualquer tipo de existência? (id., ibid., p.43), e, por fim, conclui com uma causticidade escabrosa: “Posto que não há salvação no Nada nem na existência, mando este mundo aos diabos, junto com todas as suas leis eternas!” (id., ibid., p.43).

Em sua obra posterior Breviário de decomposição (1949) (primogênita de suas vazões líricas em francês), Cioran retoma a refletir sobre a morte, denunciando a vida enquanto fonte-mor de nosso horror existencial. A morte, ao cínico insone, apresenta-se demasiadamente exata, logicamente estabelecida. Enquanto a vida nos recai enquanto monopolizadora dos mistérios, fonte de nosso pavor, a “grande Desconhecida” (CIORAN, 2011, p. 23) e, por seu absurdo, superior à morte:

Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiadamente lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível -, se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato… Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. (CIORAN, 2011, p. 23)

No tocante à experiência agônica, Cioran considera abismal a divisão entre os indivíduos que a não a sofrem e os que a vivenciam; “um morre apenas um instante, o outro não para de morrer”. Apesar de partilharem do mesmo rumo ao Nada, o filósofo afirma que nada além da “insinuação progressiva das forças que nos anulam” (CIORAN, 2011, p.24) é capaz de provocar uma real transformação na vida humana: “Tudo o que prefigura a morte acrescenta uma qualidade de novidade à vida, a modifica e a amplia.” (id., ibid., p.24). Ao autor de Breviário de decomposição, pode-se almejar classificar um indivíduo através de diversos critérios, os quais o mesmo considera acidentais, exteriores, mas há algo que se faz verdadeiramente inerente ao sujeito: a morte.

Podem-se classificar os homens segundo os critérios mais caprichosos: segundo seus humores, suas inclinações, seus sonhos ou suas glândulas. Troca-se de idéias como de gravatas; pois toda idéia, todo critério vem do exterior, das configurações e dos acidentes do tempo. Mas há algo que vem de nós mesmos, que é nós mesmos, uma realidade invisível, mas interiormente verificável, uma presença insólita e imutável, que se pode conceber a todo instante e que nunca nos atrevemos a admitir, e que só tem atualidade antes de sua consumação: é a morte, o verdadeiro critério… E é ela, a dimensão mais íntima de todos os seres vivos, que separa a humanidade em duas ordens tão irredutíveis, tão afastadas uma da outra, que há mais distância entre elas que entre um abutre e uma toupeira, uma estrela e um cuspe. (CIORAN, 2011, p.23)

Suicídio

Um livro é um suicídio adiado.” (Cioran, 2013, p.91)

Em Nos cumes do desespero, Cioran inicia seu ensaio sobre o suicídio (“O sentido do suicídio”) com um ataque aos que proclamam haver motivações racionais ou vontade no ato do suicídio. Todo impulso suicida, segundo o autor, provem de fatores patológicos, orgânicos e hermeticamente individuais:

Não há suicídios baseados em decisões em decisões racionais, resultantes de reflexões sobre a inutilidade do mundo ou sobre o Vazio da vida. Se me forem apresentados os casos dos sábios da antiguidade que se suicidavam na solidão, responderei que o suicídio deles era possível apenas porque haviam aniquilado a vida dentro de si, destruído toda pulsação da vida, mas não é menos verdadeiro o fato de que a mesma vida, o mesmo corpo em que tais problemas fervilhavam tem de ter sido previamente afetado para permitir pensamentos dessa natureza. Ninguém se suicida por causa de acontecimentos exteriores, mas devido ao seu próprio desequilíbrio interior e orgânico. (CIORAN, 2012, p.68)

A Cioran (2012, p.69), é inconcebível que o suicídio seja uma afirmação da vida enaltecendo a importância da impossibilidade de se permanecer vivo no percurso à auto-nulificação, sendo tal impossibilidade não um “capricho” (id., ibid., p.69) mas fruto de uma escabrosa “tragédia interior” (id., ibid., p.69). O pensador romeno enaltece sua surpresa e indignação pelo juízo fundamentado em uma hierarquização de motivações suicidas (id., ibid., p.69), o qual procura-se estabelecer que causa para cometer suicídio seja nobre ou vulgar (id., ibid., p.69): para Cioran (2012, p.69) “ Todo suicídio, a partir do momento que seja suicídio, é impressionante”. Aos que depreciam os suicidas com motivações amorosas, Cioran (2012, p. 69) demonstra total repúdio:

Nutro o maior desprezo por aqueles que ridicularizam os suicídios por amor, pois eles são incapazes de compreender que um amor realizável representa, para quem ama, uma anulação do próprio ser, uma perda total de sentido, uma impossibilidade de existir. Quando amamos com todo o conteúdo do nosso ser, com a totalidade de nossa existência subjetiva, uma irrealização desse amor só levará ao desabamento completo do nosso ser. As grandes paixões, quando não podem ser realizadas, levam à morte mais rapidamente que as grandes doenças.

Ao final de suas considerações sobre o suicídio, Cioran lança a questão “Por que não me suicido?” (2012, p.70) e dá-nos sua motivação: tanto a vida quando a morte o enauseiam (id., ibid., p.70):

Não tenho a mínima ideia do que estou fazendo no universo. Sinto neste momento uma necessidade de gritar, de dar um berro, que horripile o mundo todo, que faça todos tremerem, estremecerem num desvario assustador (…) Em mim todas as cintilações se apagam para renascerem em raio e relâmpago. Não estaria a própria escuridão pegando fogo dentro de mim? (CIORAN, 2012, p.70)

Cioran, posteriormente, legou-nos um aforisma que expressa de forma concisa sua desmotivação para tal ato: “Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?” (CIORAN, 2011, p.35)

Considerações Finais

Não há possibilidade de redenção no pensamento trágico e corrosivo de Emil Cioran, que enuncia o triunfo indômito do Nada; mas, o ser que se encontra a exalar torpor existencial talvez nele encontre a lucidez amarga necessária para remediar seu estado de inércia.

Bibliografia

CIORAN, E. Breviário de decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.

­­­CIORAN, E. Do inconveniente de ter nascido. Lisboa: Letra Livre, 2013.

CIORAN, E. Nos cumes do desespero. São Paulo: Hedra, 2012.

CIORAN, E. Silogismos da amargura. São Paulo: Rocco, 2011.

VOLPI, F. O niilismo. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2012.

ANTÔNIO CARLOS LEMOS GARCIA JÚNIOR – 1091816

Graduação em Filosofia – Licenciatur

Resenha: “Fracasso e mística – a propósito de Cioran” (Roberto Câmara Zarco)

PROMETEUS – Filosofia em revista (Universidade Federal de Sergipe)
Ano 6, no. 12, julho-dezembro de 2013
Texto integral em PDF: [link]

RESENHA CRÍTICA:

FRACASSO E MÍSTICA – A PROPÓSITO DE CIORAN
(CIORAN, E. M. Lacrimi și sfinți. Bucareste: Editura Humanitas, 1992).

Dr. Roberto Câmara Zarco
(Universidade Federal Fluminense)

Metodologicamente, o estudo filosófico da obra do controverso pensador romeno Emil Cioran apresenta-se exercício custoso, hercúleo. Cioran furta-se a escrever nas racionais formas típicas de tratados dos escritos sistemáticos e filosóficos em geral, pois, próximo a Nietzsche e aos “Moralistas Franceses” (Michel de Montaigne, Blaise Pascal, La Rochefoucauld etc.), cultiva o aforismo. Seu pensamento assemelha-se a uma construção literário-artística fragmentária, oriunda, como todo fruir aforismático, duma “apaixonada estufa” onde vulcânicos, paradoxais e emotivos estados de espírito intrínsecos ao aforista mesclam-se a um clamor em vão pela clareza e alívio destes estados per se. A dificuldade metodológica amplia-se conforme Cioran foi um escritor prolífico, autor de mais duma quinzena de livros.

Todavia, diversos temas recorrentes parecem dominar as obras de Cioran, brotando destituídos de qualquer progressão em termos perspécticos ou, em jargão mais filosófico, conceituais, ainda que, deva-se notar, com variegado tratamento no tom e estilo ou ênfase numa dada problemática. Desta maneira, a escolha de uma determinada “obra-chave” no extenso conjunto ciorânico de obras arranja-se importante como, antes de mais nada, um vacilante guia no abordar filosófico da cioranis opera. A despeito das indicações do próprio “filósofo romeno” que seu primeiro livro, Pe culmile disperarii [Nos cimos do desespero], tratar-se-ia desta “obra-chave” já que “contém virtualmente tudo o que disse depois, um estudo mais detido de seus escritos prova o contrário. Ainda dentro da dita “fase inicial” de Cioran, dominada exclusivamente por obras compostas à guisa do original em romeno e antes do filósofo fixar residência na França, encontrar-se-á uma específica brochura apta a, mais do que Pe culmile disperarii, desfraldar um grande leque de temas/problemas que sempre se farão presentes nas reflexões ulteriores do autor na sua “fase madura”: Lacrimi și sfinți [Lágrimas e santos]… [+]

Les nuits blanches de Cioran (R. Jaccard)

La fadeur du suicide

Au cours de ces nuits blanches à Sibiu, Cioran se fit le géographe de ses propres effondrements, il apprit à saisir en lui-même le démon. Sa philosophie, ” infestée ” par son moi, se devait désormais d’être une exploration des trois grandes hantises de l’homme : la maladie, la solitude et la folie (” Le pressentiment de la folie se double de la peur de la lucidité dans la folie, la peur des moments de retour à soi, où l’intuition du désastre risque d’engendrer une folie encore plus grande. C’est pourquoi il n’y a pas de salut par la folie. On aimerait le chaos, mais on a peur de ses lumières. “)

Après un tel rugissement de désespoir, même le suicide paraît plein de fadeur. Exacerbée, la lucidité va plus loin que le suicide : elle crucifie celui qui se donne à elle, mais elle lui laisse la vie sauve et des nuits blanches pour laver ses blessures.

Cioran voulait être le cobaye de sa philosophie. C’est cette hâte de s’écorcher, cette impatience de découvrir le pire, qui donnent à son premier livre une “sincérité infernale “. Sur les cimes du désespoir est à l’oeuvre de Cioran ce que les Mémoires écrits dans un souterrain sont à celle de Dostoïevski : le récit d’un ratage qui sauve. La formule de l’homme souterrain : ” Une conscience clairvoyante, je vous assure, messieurs, c’est une maladie, une maladie très réelle “, on croit entendre Cioran la prononcer avec l’accent des Carpates.

Commencer une oeuvre par l’affirmation : je suis perdu pour la vie et j’ai perdu foi en la philosophie, tel est le paradoxe de Cioran. C’est pourtant ce reniement de soi, ce geste d’autodestruction, qui permet l’oeuvre à venir. Le sentiment de rupture totale, la négativité forcenée, le désir inouï de dévastation, ouvrent la voie au détachement.

Plus tard, quand il commença d’écrire en français, Cioran loua, chez le moraliste idéal, l’homme capable de lyrisme et de cynisme, d’exaltation et de froideur, habile à rassembler sous les mêmes cieux Rousseau et Laclos, Vauvenargues et Sade.

Aux nuits blanches de Sibiu devaient succéder les nuits blanches du Luxembourg. Cioran abandonna le roumain. Sur les cimes du désespoir, ce suicide halluciné, lui avait permis de faire la connaissance des gouffres. Si, tel un fauve qui se camoufle, il adopta la langue française, ce fut, de son propre aveu, dans le souci de concilier l’enfer et le tact.

ROLAND JACCARD
© Le Monde 1999
Le 30 Mars 1990

As delícias do absurdo

Primeiro livro de Cioran ganha tradução feita diretamente do romeno

Manoel da Costa Pinto, Folha São Paulo, 08/04/2012

Em 2011, o centenário de nascimento de Emil Cioran foi comemorado com relançamentos pela editora Rocco: “Breviário de Decomposição” (1949), “Silogismos da Amargura” (1952), “História e Utopia” (1960) e “Exercícios de Admiração” (1986). 

Tais livros cobrem a fase madura do pensador romeno, quando ele adota o francês como idioma filosófico, deixando de lado os escritos de juventude. Essa lacuna começa a ser preenchida com o lançamento do livro de estreia, “Nos Cumes do Desespero”, publicado em 1934 e agora traduzido do romeno por Fernando Klabin.

Trata-se de livro fundamental para compreender as tensões internas da obra de Cioran. Afinal, sua “conversão linguística”, com “Breviário de Decomposição”, significou também o abandono dos ímpetos irracionalistas de “Nos Cumes do Desespero”, em nome de uma perspectiva cética, inclemente com utopias e dogmas.

Com sua escrita nervosa, oscilando entre o “spleen” romântico e o apelo às “forças irracionais da existência”, “Nos Cumes do Desespero” se inscreve no pensamento vitalista, que percebe a cisão entre o sujeito e uma totalidade perdida (de fundo mítico-religioso) e acusa toda a tradição filosófica de se refugiar na abstração.

Essa retórica do “caos primordial”, do êxtase vivido por uma elite espiritual apartada das massas e dos intelectuais de salão, explica as simpatias de Cioran por ideologias de extrema direita nos anos 1930.

A ironia trágica de “Nos Cumes do Desespero”, porém, já anuncia sua posterior renúncia a doutrinas de reforma social e sua entrega às “delícias do absurdo”. No prefácio à tradução francesa do livro (reproduzido na edição brasileira), Cioran diz ter encontrado na escrita a salvação para a insônia que o fazia vagar pelas noites de Sibiu, na Transilvânia: tinha início aí uma mitologia pessoal em que a “lucidez vertiginosa” e a “vigília ininterrupta” engendram o cético, triunfando sobre as “vertigens do apocalipse” do jovem que sonhava acordado com a agonia do mundo.

Conexões

LIVRO
NOS CUMES DO DESESPERO ****
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: Fernando Klabin
EDITORA: Hedra (154 págs., R$ 38)

LIVROS SILOGISMOS DA AMARGURA ***
Os pensamentos concentrados em frases breves e lapidares servem de contraponto ao jorro retórico da fase romena de Cioran.
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: José Thomaz Brum
EDITORA: Rocco (2011, 112 págs., R$ 19)

AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO **
Interlocutor de Cioran, o pensador romeno se manteve fiel à perspectiva antimoderna de uma sabedoria antiga.
AUTOR: Constantin Noica
TRADUÇÃO: Fernando Klabin e Elena Sburlea
EDITORA: BestBolso (2011, 192 págs., R$ 14,90)

Emil Cioran e a escritura de si

por Rodrigo Menezes[1]

Em seu artigo “O ensaio como forma”, Adorno diz que “ainda hoje, elogiar alguém como écrivain é o suficiente para excluir do âmbito acadêmico aquele que está sendo elogiado”.[2] Este parece ser o caso de Emil Cioran, tão frequentemente classificado como um escritor, pura e simplesmente, o que tende a perder de vista o valor propriamente filosófico de sua obra. Que ele mereça (também) o título de escritor indica nada mais, nada menos, que o componente estético (o estilo) desempenha um papel de primeira ordem em seu exercício intelectual. Não pretendo provar que Cioran é filósofo, até porque ele mesmo rechaça o título. Minha intenção é mostrar que, não apenas escritor, ele é também (sobretudo) um pensador. E mesmo a sua recusa de ser definido como um filósofo parece ter em vista determinada concepção da filosofia que é, afinal de contas, historicamente construída.

Romeno exilado em Paris, onde faleceu em 1995, Cioran se tornou conhecido tardiamente graças à sua produção francesa, após ter escrito seis livros em idioma nativo. Composta de aforismos e ensaios, sua obra borra os contornos tradicionais que distinguem a racionalidade filosófica da racionalidade poética. Seus livros abordam temas diversos, mas todos eles seriam como que “pretextos” para se voltar sobre si mesmo, para refletir e escrever (sobre) a própria existência. Neste sentido, a obra cioraniana teria como objeto privilegiado o homem que vive, pensa e escreve. Nascido em 1911 no vilarejo de Rǎșinari, na Transilvânia, Cioran é um exemplar do bilinguismo, um autor em trânsito cuja obra está marcada por um divisor de águas: o exílio em Paris e o câmbio de idioma a que se submeteria. Apresentarei a obra cioraniana como a expressão daquilo que denomino uma escritura de si: um fazer que tem no próprio sujeito sua matéria e finalidade. A exemplo da escritura barthesiana, escrever como “um verbo intransitivo”,[3] como uma atividade realizadora em si mesma. Enfim, a escritura como uma póiesis cujo fim encontrar-se-ia nela mesma: escrever porque é necessário para aquele que escreve, pois o cultivo da escritura é também um cultivo de si. A função primária da escritura seria, portanto, uma “terapêutica”[4] sui generis.

Cioran se formou em filosofia em 1932 pela Universidade de Bucareste, mas o seu livro de estreia, Pe Culmile Disperǎrii, publicado 2 anos mais tarde, já contem os germes do “Adeus à Filosofia” que ele anunciará posteriormente no Breviário de Decomposição,[5] seu primeiro livro em francês (1949). A insônia iniciada anos antes chega a seu ápice e ele escreve este primeiro livro “nos cumes do desespero”. A partir de então se revela o sentido terapêutico­ da escritura, ao mesmo tempo em que ele se distancia da filosofia acadêmica, ou antes, de toda filosofia abstrata que não esteja intimamente ligada à experiência pessoal (Erlebnis) do “homem de carne e osso”.[6] Devastado pelas noites em branco, Cioran transmuta toda a tensão acumulada em potência criadora do espírito. No aforismo intitulado “Não mais poder viver”, ele diz: “Há experiências às quais não podemos sobreviver. […] Se continuamos vivos, é graças à escrita, que, por meio da objetivação, ameniza essa tensão infinita. Criar significa salvar-se provisoriamente das garras da morte”.[7] Tendo em vista sua implicação artística, o verbo “criar” é bastante significativo, ainda que Cioran não conceba aquilo que faz como poesia. E o que é que ele tem em mente com essa “criação”? Mergulhado na “profundeza primordial da vida”, o jovem pensador idealiza uma filosofia lírica, “em que a ideia tem raízes orgânicas, tão orgânicas quanto a poesia”;[8] uma reflexão intimista e apaixonada que se pauta na concretude existencial daquele que escreve.

Ainda segundo Adorno, “a composição lírica tem esperança de extrair, da mais completa individuação, o universal”, sendo que “essa universalidade do teor lírico”, de acordo com ele, “é essencialmente social”.[9] Em sua oposição mesma “ao coletivo e à objetividade”,[10] o eu lírico permitiria, assim, apreender as relações que o constituem em sua interação com o mundo no qual está inserido. Nesta perspectiva, o individualismo implicado no mergulho lírico em direção à interioridade seria um índice do estado de coisas da Romênia de Cioran. Com efeito, o que Nos cumes do desespero oculta – ou antes, o que ele revela pelo seu lirismo introspectivo – é a agonia de um povo cuja história é puro conflito, pura tensão. O drama subjetivo de Cioran é indissociável daquele outro, “objetivo”, a saber, o drama de ser romeno, de viver na pele a tragédia dos povos sem história, aqueles que até hoje só participaram dela enquanto vítimas.

Cumpre notar que a formação intelectual do jovem Cioran, moldada em grande medida pelo pensamento alemão do século XIX (a Transilvânia estava circunscrita na esfera de poder e influência austro-húngara), está marcada pelo teor antirracionalista dos autores que mais o influenciaram, entre eles Schopenhauer e Nietzsche. Na Romênia, que assimilaria apenas tardiamente o Iluminismo europeu, os intelectuais da geração de Cioran estavam mais sintonizados com o pensamento alemão do que com o francês. Não obstante, uma de suas grandes influências de juventude é Henri Bergson, sobre o qual ele escreveria sua tese de conclusão em Filosofia (e, ademais, planejaria fazer um doutorado em Paris, projeto jamais concluído). Além destes, cumpre mencionar Kierkegaard, Heidegger, Unamuno e Chestov, como filósofos que desempenharam um papel crucial na formação intelectual do jovem Cioran.

Em Nos Cumes do Desespero, delineia-se uma divisa filosófico-existencial que permanecerá irredutível até o fim, paralelamente ao imperativo lírico-subjetivo que pauta o livro: a oposição entre o “pensador orgânico” e o “pensador abstrato”. A este último, é associado o sentido convencional de “seriedade”, a qual seria, não obstante, uma categoria equívoca. À seriedade formal do filósofo, aparentado com o cientista, Cioran opõe a “seriedade infinita” do pensador orgânico, aparentado com o poeta. Um se ocupa com questões objetivas e impessoais, o outro interpreta seus calafrios e tremores como um convite para conhecer a vida por dentro, a partir de sua própria experiência subjetiva.

É evidente que, diante de questões puramente formais, por mais difíceis que sejam, não se pode exigir uma seriedade infinita, pois elas são exclusivamente produzidas por incertezas da inteligência, sem despontar da estrutura orgânica total do nosso ser. Só o pensador orgânico e existencial é capaz desse tipo de seriedade, pois só para ele as verdades são vivas, frutos mais de uma tortura íntima e de uma afecção orgânica que de uma especulação inútil e gratuita. Diante do homem abstrato, que pensa pelo prazer de pensar, surge o homem orgânico, que pensa sob a determinação de um desequilíbrio vital que está além da ciência e além da arte.

Pode-se dizer que, não obstante o lirismo, o autor de Nos cumes do desespero é mais “filósofo”, e menos “escritor”, que o autor Breviário de decomposição. Explico: uma parte substancial de sua obra romenarevela um Cioran imerso na filosofia vitalista, que não rompeu totalmente com a Academia e que busca argumentar, articular suas ideias, demonstrar seus raciocínios, tanto quanto possível, de maneira clara e distinta. Em francês, o laconismo dá o tom da escritura, que se limita a expor as conclusões sem demonstrar o caminho percorrido até elas. Ao mesmo tempo, enquanto expressão de um desespero existencial, o lirismo de Nos cumes do desespero toma por vezes uma forma “grotesca”, e “o grotesco nega essencialmente o clássico, assim como nega toda ideia de estilo, de harmonia ou de perfeição”.[11] Totalmente outro é o caso de sua produção francesa, na qual o classicismo estilístico assume o valor de um imperativo categórico. É total a contradição entre o lírico-grotesco do Cioran romeno e os princípios de medida, harmonia e beleza que definem o classicismo próprio da civilização ocidental, princípios estes que ele mesmo viria a subscrever: “Diante do refinamento de uma cultura aprisionada em formas e limites que mascaram tudo, o lirismo é uma expressão bárbara. Eis de fato o seu valor, o de ser bárbaro, ou seja, de ser só sangue, sinceridade e chamas”.[12]

Muito embora o exílio e o câmbio de idioma sejam determinantes para selar o rompimento de Cioran em relação à filosofia acadêmica, nem por isso devemos supor que sua produção francesa se reduz a um mero exercício literário da palavra pela palavra. A renúncia à objetividade conceitual em nome do estilo não significa uma renúncia à verdade; o concurso do estilo não significa uma entrega à pura ficção, apenas que o discurso leva a marca íntima de quem fala, que ele é um discurso pessoal. O autor às vezes considerado cético, às vezes niilista, às vezes ateu, às vezes místico, sempre esteve preocupado em pensar e dizer aquilo que é, pensar a verdade e dizer o que ele entende por ela – ou, pelo menos, o que não é a verdade. Afinal, quid est veritas? Eis uma questão fundamental, mas que pode justificadamente ser preterida em nome de problemas mais urgentes. Neste sentido: “‘Que é a verdade?’ é uma pergunta fundamental. Mas ínfima comparada com: ‘Como suportar a vida?’ A qual por sua vez empalidece ao lado desta: ‘Como suportar-se a si mesmo?’ — Eis a pergunta capital à qual ninguém tem uma resposta”.[13] Segundo Cioran, o inferno somos nós mesmos. O inconveniente de ter nascido romeno torna-se, na França, o inconveniente de ter nascido, pura e simplesmente. Em todo caso, para Cioran a verdade “reside no drama individual. Se sofro realmente, sofro mais que um indivíduo, ultrapasso a esfera do meu eu e me aproximo da essência dos outros. A única maneira de alcançarmos o universal é  nos ocupando unicamente daquilo que nos concerne”;[14] “as mais profundas experiências subjetivas são também as mais universais, pois por meio delas chega-se à profundeza primordial da vida”.[15] A exemplo de Schopenhauer, o pensador romeno entende que o absoluto só pode ser apreendido intuitivamente, através da experiência subjetiva do corpo.

O aforismo sobre a hierarquia dos problemas, extraído de uma fase tardia, ilustra muito bem a maneira como o pensamento de Cioran muda, de uma língua para outra, sem, no entanto, deixar de ser essencialmente o mesmo. A função terapêutica da escritura segue atual em função do perpétuo impasse entre certo dever de verdade e a necessidade de ilusão, ficção, esquecimento (antinomias que Cioran aprendeu mais por sua experiência concreta de vida do que pela erudição livresca). A diferença entre Nos cumes do desespero e o Breviário de decomposição e os demais livros franceses, é mais do que estilística; doravante o como é fundamental, confundindo-se com o quê – são interdependentes, indissociáveis, concomitantes. Tendo abandonado o idioma materno, Cioran descobre-se, em território linguístico francês, vazio de todo ideal, de toda crença, de toda convicção. O lirismo vitalista e dogmático dá lugar a uma mistura de ceticismo, cinismo e estoicismo, na roupagem de um classicismo estilístico digno dos grandes moralistas franceses do século XVII. Ademais, sendo uma reação contra o fanatismo político que marcou a sua juventude, podemos dizer que a escritura francesa de Cioran é na verdade uma des-escritura de si, um meio de voltar-se contra si mesmo mediante um labor infinito em direção a “graus cada vez mais altos de insegurança”.[16]

“Tudo o que sei aos sessenta, já sabia aos vinte. Um longo e inútil trabalho de verificação”.[17] O espírito e a essência do pensamento permanecem os mesmos, mas as lições, as conclusões práticas mudam sensivelmente. O grotesco do desespero, antes formulado sem nenhum prurido de civilidade, é agora conjurado em nome da superficialidade, da frivolidade, da elegância respeitosa em relação às aparências. Estas, antes desprezadas em nome da sinceridade nua e crua (ao extremo do “grotesco”), são agora “elevadas ao nível de um estilo”. Comparado ao lirismo de Nos cumes do desespero, é um “outro” Cioran que escreve “Civilização e frivolidade”:

Ninguém alcança logo de saída a frivolidade. É um privilégio e uma arte; é a busca do superficial por aqueles que, tendo descoberto a impossibilidade de toda certeza, adquiriram nojo dela; é a fuga para longe desses abismos naturalmente sem fundo que não podem levar a parte alguma. Permanecem, entretanto, as aparências: por que não alçá-las ao nível de um estilo? […] O ser entregue a si mesmo, sem nenhum preconceito de elegância, é um monstro; só encontra em si zonas obscuras, onde rondam, iminentes, o terror e a negação. […] Assim, a frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades. Sem seus artifícios, como não envergonhar-se por ter uma alma?[18]

Um elogio, como em Baudelaire, da maquiagem, do disfarce, da dissimulação – pois a existência reduzida ao puro estado de natureza é grotesca, um horror. Cioran se civiliza por dever de probidade, intelectual e moral, sendo que a adesão ao francês significa adesão a todo um conjunto de valores e princípios, a um estilo de vida que ele antes abominara, quando, em sua juventude, estava na posição do Outro balcânico de um Ocidente soberano e protagonista. Na transfiguradora experiência de insônia que marca o início de suas ruminações noturnas, coincidem o nascimento e a morte de todas suas ambições, de todos seus ideais políticos. Essa morte só se fez sentir aos poucos, consumando-se após o exílio e o câmbio de idioma – os quais representam, por sua vez, um “segundo nascimento de Cioran”[19]. Ele renunciaria a todo engajamento, a toda convicção, a todo ideal, em nome de um perpétuo perder-se e buscar-se mediante a des-escritura de si.

No Breviário de Decomposição, Cioran escreve seu “Adeus à Filosofia”. Em vez de dedicar-se à filosofia “pura”, ele prefere ocupar-se de si mesmo, como um “pensador privado” [Privat Denker].[20] Por fim, a concepção cioraniana de uma escritura de si não é carente de uma história, de uma genealogia que se mistura com aquela da própria filosofia: por um lado, de Montaigne a Camus, passando por Rousseau; por outro, o romantismo alemão. Deste, Cioran herda o sentimento de que vida e obra se confundem, assim como filosofia e arte de viver, e que o pensador deve ser poeta e vice-versa. Neste sentido, a forma fragmentária e assistemática do texto cioraniano está diretamente ligada a sua démarche subjetiva em detrimento de toda abstração, de toda objetividade. Pois, enquanto pensamento da totalidade, todo sistema é, por princípio, totalitário, pretendendo-se absoluto pela subordinação do todo à sua lógica – sem permitir fissuras, contradições, imprevistos. “Aristóteles, Tomás de Aquino, Hegel – três escravizadores do espírito. A pior forma de despotismo é o sistema, em filosofia e em tudo”, sentencia Cioran em De l’inconvenient dêtre né.[21] Em entrevista a Fernando Savater, ele comenta:

Um pensamento fragmentário reflete todos os aspectos da sua experiência; um pensamento sistemático só expressa um, o aspecto controlado – e, por isso mesmo, empobrecido. Em Nietzsche, em Dostoiévski, se expressam todos os tipos de humanidade possível, todas as experiências. No sistema, só fala o controlador, o chefe. O sistema é sempre a voz do chefe: é por isso que todo sistema é totalitário, enquanto que o pensamento fragmentário permanece livre.[22]

Em fragmentos, Cioran buscou contar a sua história, na qual está contida a história da Romênia. Essa história necessitava ser contada. Cioran não pôde deixar de dedicar-se à escritura de si, e escrever era para ele, narrar a sua história de romeno exilado na linguagem: “Não se habita um país, habita-se uma língua. Uma pátria é isso e nada mais”,[23] escreve Cioran em seu último livro. Somente voltando-se ao próprio passado e atualizando a sua memória no eu narrativo presente é que seria possível, segundo Nicole Parfait, “moldar-se um rosto, criar-se a si mesmo e participar, assim, da vida”.[24] Mas, pelas circunstâncias históricas, uma tal narrativa não poderia deixar de ser fragmentada, dilacerada, problemática mesmo. A propósito do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, Paul Ricoeur comenta que, no registro da modernidade, “a decomposição da forma narrativa, paralela à perda de identidade do personagem, faz transpor os limites da narrativa e lança a obra literária nas vizinhanças do ensaio”.[25] O ensaio, cuja essência é assistemática e anti-totalitária como no aforismo, parece ser o gênero discursivo moderno por excelência no qual se articulam as racionalidades filosófica e poética.Além de aforista, Cioran foi um mestre do ensaio, como provam livros tais quais La tentation d’éxister (1956) e História e utopia (1960). Na ótica de Ricoeur, o processo de “decomposição da narrativa literária” em direção ao ensaio filosófico, parece complementar, por uma perspectiva distinta, a reabilitação adorniana da forma-ensaio n’“O ensaio como forma”.

O estatuto marginal do ensaio — e com maior razão do aforismo — em relação à Academia, sua condição meio bastarda na nossa história tem a ver com o fato de que ele está a meio caminho entre a literatura e a filosofia, sem se reduzir à mera ficção e tampouco se submeter à objetividade universalizante dos discursos sistemáticos com seus rígidos conceitos; ambos evocam certa “liberdade de espírito”[26] e de linguagem cujas obras não se encaixam na clássica divisão de disciplinas; ambos parecem exigir outro tratamento, outra abordagem. Após o fracasso da Razão universal iluminista, o estômago passou a desempenhar um papel fundamental na economia do pensamento: órgão com o qual, segundo Nietzsche, ruminamos um aforismo ou um ensaio, exercitando-nos na arte de perder tempo.[27] Para concluir, atenho-me ao que diz Adorno no final do referido artigo, a saber, que, contra a ortodoxia do pensamento, “a lei formal mais profunda do ensaio é a heresia”.[28] Neste sentido, nada mais acertado do que o título da biografia de Patrice Bollon, Cioran l’hérétique. Afinal, de que outra forma interpretar um autor que aspirou a “não fazer distinção entre o drama da carne e o drama do intelecto”, a “haver introduzido o sangue na lógica”[29]?


[1] Texto apresentado na Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduandos em Filosofia), Curitiba, Brasil, 24/10/2012.

[2] Theodor W. ADORNO, “O ensaio como forma”, in: Notas de literatura I, p. 15.

[3] Roland  BARTHES, Éssais critiques, p. 149.

[4] Emil CIORAN, Entrevista com Gabriel Liiceanu, in: LIICEANU, Itinéraires d’une vie: E.M. Cioran, p. 117.

[5] Précis de Decomposition, publicado em 1949.

[6] Miguel de UNAMUNO, Del sentimiento trágico de la vida, p. 7.

[7] Emil CIORAN, Nos cumes do desespero, p. 21.

[8] IDEM, Ibid., p. 53.

[9] Theodor W. Adorno, “Palestra sobre lírica e sociedade”, in: Notas de literatura I, p. 66-67.

[10] IDEM, Ibid., p. 70.

[11] Emil CIORAN, Nos cumes do desespero, p. 31.

[12] IDEM, Ibid., p. 19.

[13] IDEM, Écartèlement, in: Œuvres, p. 1483 .

[14] Emil CIORAN, De l’inconvenient d’être né, in Œuvres, p. 1337.

[15] IDEM, Nos cumes do desespero, 18.

[16] IDEM, “Carta-prefácio a Fernando Savater”, in: Fernando SAVATER, Ensayo sobre Cioran, p. 19.

[17] IDEM, De l’inconvenient d’être né, in : Œuvres, p. 1274.

[18] Emil CIORAN, Breviário de decomposição, p. 16-17.

[19] Patrice Bollon, Cioran l’hérétique, p. 122.

[20] Emil CIORAN, Entretiens, p. 103.

[21] Emil CIORAN, De L’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1343.

[22] IDEM, “Entrevista com Fernando Savater”, in: Entretiens, p. 23.

[23] Emil CIORAN, Aveux et anathèmes, in: Œuvres, p. 1651.

[24] Nicole PARFAIT, Cioran ou le défi de l’être, p. 118.

[25] Paul RICOEUR, “L’identité narrative”, p.

[26] Theodor ADORNO, “O Ensaio como forma”, in: Notas de literatura I, p. 16.

[27] Friedrich NIETZSCHE, Genealogia da moral, p. 14-15.

[28] Theodor ADORNO, “O Ensaio como forma”, in: Notas de literatura I, p. 45.

[29] Emil CIORAN, Amurgul Gândurilor, in: «Œuvres», p. 496.