“Misticismo ateu” (John Gray)

“Tentarei de novo dizer o indizível, expressar com palavras pobres o que tenho de dar aos devotos infiéis do misticismo nominalista, do misticismo cético […] O mundo não existe duas vezes. Nao existe um Deus separado do mundo, nem um mundo separado de Deus. Esta convicção tem sido chamada de panteísmo. […I Por que não?…

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“Cioran e Guitton” (Gianfranco Ravasi)

Pubblicato col titolo: Cioran e Guitton nel cortile del dialogo, su IlSole24ORE, n. 157 (09/06/2019). Apud Pontificio Consiglio della Cultura. È ormai da un decennio che è in azione il “Cortile dei Gentili” allestito dal Pontificio Consiglio della Cultura (un dicastero vaticano che, quando fu fondato da Paolo VI, era denominato «per i non credenti»), dedicato al…

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“Não existem ateus na Bahia” (Cynara Menezes)

Carta Capital, 3 de abril 2012 Um ateu baiano é que nem uma pessoa que crê em Deus: ambos têm diante de si a dura missão de convencer o mundo. O crente é desafiado a provar a vida inteira, inclusive a si, que há um Deus. Já o ateu baiano, nascido numa terra cuja capital,…

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“Jesus veio nos libertar das religiões?” (Juan Arias)

El País, 17 de dezembro 2019 Logo depois surgiu uma Igreja misógina que continua tristemente viva dois mil anos mais tarde e pela qual o revolucionário papa Francisco luta para devolvê-la o sopro de liberdade Pode parecer um paradoxo, mas existe um consenso entre o biblistas mais abertos de hoje em defender que o profeta…

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Cioran, o místico de uma era pós-Deus: entrevista com Mirko Integlia (1ª parte)

In memoriam: María Liliana Herrera Alzate (1960-2019) “Às vezes tenho a impressão de que a obra de Cioran é interpretada como uma espécie de bazar, onde cada um se serve daquilo que quer, inclusive dos aspectos místicos-religiosos.” (Mirko Integlia) * [Pdf] Acaba de ser publicado, em inglês, um novo livro de exegese crítica sobre Cioran,…

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“Beatitude e sofrimento” (Clément Rosset)

Tomo emprestado ao comunicado de Henri Birault, no colóquio Royaumont sobre Nietzsche, em 1964, o termo “beatitude”, para definir o tema central da filosofia nietzschiana. Provavelmente, do mesmo modo, outros termos conviriam: alegria de viver, gáudio, júbilo, prazer de existir, adesão à realidade, e ainda muitos outros. Pouco importa a palavra, aqui é a ideia…

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“Cioran, a filosofia como desfascinação e a escrita como terapia”: entrevista com Vincenzo Fiore

“Numa época em que o fanatismo parece voltar à ribalta a nível mundial, o pensador romeno é um antídoto que imuniza.” Vincenzo Fiore Sobre o autor: Nascido em 1993 em Solofra, Italia, Vincenzo Fiore se formou em filosofia pela Università degli studi di Salerno, é membro do Projeto de Pesquisa Internacional dedicado a Emil Cioran.…

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“Racionalismo e mística” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Mede-se a carência de sentido místico de um indivíduo pela necessidade que tem de argumentos para convencer a si mesmo e os demais da existência de Deus. Não apenas essa carência como também o grau de racionalismo. Não apenas os filósofos sofrem desse mal; inclusive os indivíduos religiosos, qualquer que seja a sua crença, o…

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“Em que acreditam os ateus?” (Juan Arnau Navarro)

EL PAÍS, 27/04/2019 As pesquisas revelam que a religião perde influência, mas isso não significa o fim do monoteísmo A frase “Sou ateu, graças a Deus” é atribuída a Buñuel e tem as duas qualidades que Sócrates reivindicava para a filosofia: ironia e maiêutica. A primeira é evidente, faz rir; a segunda joga luz sobre uma…

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O Niilismo (Nietzsche)

1. O NIILISMO está à porta: de onde nos vem esse mais sinistro de todos os hóspedes? – Ponto de partida: é um erro remeter a “estados de indigência social” ou “degeneração filosófica” ou até mesmo à corrupção, como causa do niilismo. Estamos no mais decente, no mais compassivo dos tempos. Indigência, indigência psíquica, física,…

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G.K. Chesterton, por Gustavo Corção

O GLOBO, Rio de Janeiro, 06 de junho de 1974 Graças à vigilância de Antônio Olinto, na sua “Porta de Livraria” de O Globo, chego ainda a tempo para saudar o centenário de G. K. Chesterton, o incomparável escritor inglês que mais indelevelmente me marcou a alma nos dias em que andei perdido pelo mundo…

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via 🎼 Delìrivm Còrdia*

Uma bela e pesada faixa da banda portuguesa Moonspell. Metal simples, muito bem composto e tocado, sem virtuose nem afetações (do jeitinho que eu gosto). A propósito, o Moonspell tem um álbum intitulado 1755 (2017), em referência ao ano do terrível terremoto (seguido por um tsunami) que destruiu Lisboa quase por completo.

O terremoto de 1755 provocou dois tipos de reação opostas nos europeus, uma apavorada, reativa e reacionária, a outra lúcida, esclarecida e moderna. A primeira, por parte dos cristãos e particularmente da Igreja Católica, que não tardou a lançar pela Europa diversas Cruzadas para caçar os hereges cuja impiedade teria supostamente causado a ira injustificada de Deus.

A outra reação é bem exemplificada pela postura — não religiosa, menos ainda supersticiosa — do Marquês de Pombal, que teria respondido a um voluntário que lhe perguntou: “E agora, o que fazemos?” A resposta pragmática: “Enterremos os mortos e cuidemos dos vivos.”

O irônico é que, enquanto igrejas, santuários e monumentos foram reduzidos a pó, um dos poucos espaços que permaneceram intactos foi um bairro do baixo meretrício de Lisboa.

Que não se subestime o impacto — não apenas sísmico — que aquele terremoto teve sobre a mentalidade dos europeus. Em função dessa tragédia — totalmente inesperada, tendo pegado de surpresa os lisboetas enquanto cuidavam de seus afazeres cotidianos — toda uma cosmovisão mudaria como que da noite para o dia. A filósofa Susan Neiman identifica naquele fatídico dia o início da Modernidade:

Uma razão central para localizar o início do moderno em Lisboa é justamente sua tentativa de dividir claramente a responsabilidade. Um exame atento dessa tentativa revelará toda sua ironia. Embora os philosophes sempre tenham acusado Rousseau de nostalgia, a discussão de Voltaire sobre o terremoto deixava ainda mais coisas na mão de Deus do que a de Rousseau. E, quando Rousseau inventou as ciências modernas da história e da psicologia para lidar com questões que o terremoto trazia à tona, foi em defesa da ordem de Deus. Sem levar em conta as ironias, a consciência que emergiu depois de Lisboa foi uma tentativa de maturidade. Se o Iluminismo é a coragem de pensar por si mesmo, é também a coragem de assumir responsabilidade pelo mundo no qual se é lançado. Separar radicalmente o que épocas anteriores chamavam de males naturais dos males morais fazia, portanto, parte do significado da modernidade.

Uma das ideias tradicionais da cultura ocidental que mais seria abalada pelo Terremoto de Lisboa é a ideia de uma Providência divina a conduzir o rumo dos acontecimentos (isso que Kant chama de “fio condutor da História”). Pode-se dizer que, se o ateísmo já era uma tendência em ascensão na mentalidade europeia, o terremoto só contribuiu para acentuá-la. Assim como, segundo Neiman, os horrores e a barbárie das guerras mundiais que o século XX testemunhou, e especialmente os campos de concentração nazistas. Dois marcos históricos, dois tipos distintos de mal, um natural, o outro humano e moral: a aurora e o crepúsculo da Modernidade…

Em nome do medo, do medo sem fim
Na ira dos deuses, caímos enfim
A vida cruel, tormenta assim
O céu que nos esmaga n’ausência de ti
Em nome do medo, do medo sem fim
Em nome do medo, medo
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo
Negro alfabeto do chão te levanta
Tua confiança jamais se aquebranta
Comemos os frutos de tão triste jardim
Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim
Em nome do medo, medo
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo
Mas nem o vento por terra me deita
E nem o fogo por dentro me queima
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Sou sangue
Sou Medo
Medo! Medo!

“A Maioridade de poucos e a Menoridade de muitos: Esclarecimento, Emancipação e Pessimismo Antropológico em Kant” (Rodrigo Menezes)

Introdução O célebre texto de Immanuel Kant (1724-1804) Resposta à questão: o que é o Esclarecimento?, publicado na revista Berlinischen Monatsschrift em 1784, fora motivado pela publicação prévia, na mesma revista, de um artigo cujo (Johann Friedrich Zöllner, um pastor berlinense) condenava o casamento civil em favor do religioso, polemizando contra a confusão geral que,…

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“O pessimismo dos mamíferos inteligentes” (Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes)

Observou-se justamente que, na Índia, um Schopenhauer ou um Rousseau jamais seriam levados a sério, pois viveram em desacordo com as doutrinas que professavam. para nós, eis aí precisamente a razão do interesse que nos suscitam. O sucesso de Nietzsche é devido em grande parte ao fato de que ele defendeu teorias às quais, em…

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Resenha: “Schopenhauer, niilismo e redenção”, de Eli Vagner Francisco Rodrigues (por Cláudia Franco Souza)

VOLUNTAS – Estudos sobre Schopenhauer, vol. no. 1, 2017 Livro: RODRIGUES, Eli Vagner Francisco. Schopenhauer, niilismo e redenção. Campinas: Editora Phi, 2017. 143 p. Resenha: Cláudia Franco Souza, pós-doutoranda em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), bolsista FAPESP. A partir do século XIX o niilismo se torna um tema central da histo ria da…

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A música de Bach, “geradora de divindade” (Cioran)

Cioran amava Bach acima de tudo. Se a Música era para ele a quintessência da “cultura”, e a única justificativa da Humanidade, Bach era a quintessência da Música: um Deus musical. A sua obra como um todo está cheia de elogios à Música em geral e a Bach em particular. Nos Silogismos da amargura (1952), este…

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Nietzsche sobre Schopenhauer, Mainländer e o Pessimismus alemão

Schopenhauer foi, como filósofo, o primeiro ateísta confesso e inabalável que nós, alemães, tivemos: esse era o pano de fundo de sua hostilidade a Hegel. A profanidade da existência era para ele algo dado, tangível, indiscutível; ele perdia a sua compostura de filósofo e se encolerizava toda vez que alguém mostrava hesitação e fazia rodeios…

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“Salvar” Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Em meio à incipiente tradição exegética da obra de Cioran, chamam-me a atenção duas tendências hermenêuticas, opostas entre si, mas com algo em comum. Uma delas é a tentativa de cooptar Cioran a um nietzschianismo puramente trágico, cético, materialista e ateu. A outra é a tentativa (talvez mais ridícula que a anterior) de “salvar” ou…

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Um místico sem absoluto: “Cioran, l’hérétique”, de Patrice Bollon (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

A biografia crítica de Patrice Bollon, Cioran, l’hérétique (1997) não acrescenta muita coisa, no que concerne ao tema da religião e da mística, em relação ao ensaio de Jaudeau (1990) – antes reitera o que já havia sido intuído e apontado pela antecessora (por exemplo, que se trata de um gnóstico sem deus e sem…

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“A categoria do religioso nos Cahiers de Cioran” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Cioran não é um crente. Ele não possui o “órgão da fé”, como faz questão de deixar claro. É um douteur incurable (“duvidador incurável”) e, mais do que isso, um negador incurável. Não é, decididamente, um pensador cristão como Kierkegaard, Unamuno, ou mesmo Dostoiévski, muito embora se sinta familiarizado a eles. Ao mesmo tempo, não…

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“Considerações sobre escrita e existência a partir de Emil Cioran” (Cassiano Clemente Russo do Amaral)

Factótum – Revista de Filosofia, 19, 2018, pp. 90-95 Cassiano Clemente Russo do Amaral é mestre em Filosofia pela São Paulo State University (Brasil). E-mail: cassiano.russo155@gmail.com Resumo: Pretende-se, neste artigo, mostrar uma possível aproximação entre escrita e existência com base em alguns comentários de Emil Cioran (1911-1995) e na experiência de pura negatividade enquanto manifestação…

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“Cioran, a obsessão de um ateu por Deus” (Roberto Righetto)

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 7 de agosto de 2018 “Ajuda-me, Senhor, a esgotar o desgosto e a piedade por mim mesmo, a não sentir mais o infinito horror!” “Em mim tudo termina em oração e em blasfêmia, tudo se torna invocação e rejeição.” “No cúmulo das minhas dúvidas, preciso de uma sombra de absoluto, um pouco…

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O budismo e o “silêncio sobre Deus”: entrevista de Faustino Teixeira à monja Coen Roshi

Blog da monja Coen Roshi NEM ATEU, NEM NIILISTA. Esses adjetivos são incorretos para se entender o budismo, que advoga o “silêncio sobre Deus” como uma maneira de questionar as “tentativas ilusórias e problemáticas que acompanham as tradicionais perguntas sobre Deus: muitas vezes são perguntas incorretas, indevidas e lesivas da “transcendência da realidade à qual…

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“O teísmo como solução ao problema cosmológico” (Emil Cioran)

Estudante de filosofia na Universidade de Bucareste, o jovem Cioran apresenta esta  dissertação (sem data determinada) sobre um problema filosófico que ecoará através de toda a sua obra posterior: a existência do mal no mundo tendo em vista a tese universalmente aceita do bem como elemento fundador e norteador do ser. Como conciliar a existência…

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“Mystique et sagesse” (Sylvie Jaudeau)

UNE THÉOLOGIE NEGATIVE “Celui qui ne pense pas li Dieu demeure étranger à lui-même.” (Des larmes et des saints, p. 93) “Peut-on parler honnêtement d’autre chose que de Dieu ou soi ?” (Syllogismes de l’amertume) Se vivre dans l’exil entraîne inevitablement un questionnement sur une dimension interdite : Dieu ou le divin. Malgré des apparences qui la…

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“Paroxismo de un ateo. Teresa en Cioran” (Pedro Paricio Aucejo)

Publicado originalmente em Teresa, de la rueca a la pluma:
Pedro Paricio Aucejo A principios de la década de los años 70 del siglo pasado, Fernando Savater introdujo en el mundo académico español la obra del escritor y filósofo rumano Emil Cioran (1911-1995). Este intelectual provocador, de pensamiento controvertido y a contracorriente de lo establecido fue,…

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“Cioran ateo credente che spiava dio” (Gianfranco Ravasi)

Avvenire.it, 19 giugno 2015 ​Vent’anni fa, il 20 giugno 1995, moriva a Parigi lo scrittore Emil Cioran. Sulle rive della Senna era approdato a 26 anni, nel 1937, dopo aver lasciato alle spalle la sua patria, la Romania, e la sua cittadina, Rasinari, un delizioso villaggio della Transilvania. Posto su un colle circondato da monti coperti…

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“Fé e razão: entrevista com o cardeal Gianfranco Ravasi” (Lisa Palmieri Billig)

Os agnósticos que buscam respostas muitas vezes estão mais próximos de Deus do que aqueles para os quais a fé é simplesmente um hábito mecânico”. Entrevista com Gianfranco Ravasi. O “Átrio dos Gentios”, expressão que se refere ao espaço aberto do antigo Templo de Jerusalém reservado aos não crentes e separados por um muro dos…

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“A filosofia irritada: última entrevista com Cioran” (Reynaldo Damazio)

Pouco antes de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert Jocks, publicada no nº 5 da revista Kulturchronik, editada em Bonn pela InterNationes. Apresentamos os trechos mais importantes desta conversa em que o autor de “Silogismos da Amargura”, “Breviário da Decomposição” e…

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