Livro: “O suicida ou a era do niilismo”, de Ciprian Vălcan

ciprianA Zazie Edições, editora independente e sem fins lucrativos, publicou em 2016 o ensaio filosófico O suicida ou a era do niilismo, de Ciprian Vălcan. A tradução é de Fernando Klabin, tradutor de diversos autores romenos ao português, incluindo Cioran (Nos cumes do desespero). O livro compõe a coleção Pequena Biblioteca de Ensaios da editora carioca, coordenada por Laura Erber.

O livro está disponível, em formato Pdf, para download gratuito no site da editora.

Sobre o autor: Ciprian Vălcan é doutor em Filosofia pela Sorbonne e um dos mais importantes estudiosos de Cioran no mundo. De seu doutorado, sob orientação de Jacques Le Rider, resultou o livro La concurrence des influences culturelles françaises et allemandes dans l’œuvre de Cioran (Institutul Cultural Român, Bucareste, 2008), recentemente publicado em espanhol, na Colômbia, com tradução de M. Liliana Herrera (professora de Filosofia na Universidad Tecnológica de Pereira e organizadora do Encuentro Internacional Emil Cioran). Vălcan é professor de Filosofia e pró-reitor da Universidade Tibiscus de Timişoara, Romênia.

Relacionados: “Cioran, un análisis de la locura” (vídeo da conferência realizada durante o Encuentro Internacional Emil Cioran de 2016); Aforismos inéditos traduzidos por Fernando Klabin para o Portal E.M.Cioran/Br [1 2 3 4 5 6] .

“Emil Cioran în contextul nihilismului european” (Roman Idjilov)

Materialele conferinței internaționale ”Integrarea europeană și tradițiile românești: de la Al. S. Sturza la Em. Cioran”, 20-21 mai 2011. – 2011. – P. 36-40

Autorul: Roman Idjilov, magistru în filosofie, Universitatea de Stat din Moldova

Problema nihilismului cioranian este o temă pe larg dezbătută în literatura dedicată moştenirii literare şi filosofice a lui Emil Cioran. În pofida acestui fapt, nihilismul cioranian conţine în sine multe contradicţii şi nepotriviri, fapt care condiţionează noi şi noi încercări de a conceptualiza gândirea dezorganizată şi nesistemică a lui Cioran din perspectiva nihilistă… [+]

Entrevista com Renzo Rubinelli: andanças, encontros, escrituras e a recepção de Cioran na Itália

Busco fazer uma exegese do pensamento de Cioran que evidencia como o tempo está na raiz de toda a sua reflexão. Para Cioran, Tempo é Destino. A maldição de nossa existência é a de sermos “encarcerados” na linearidade do tempo, que procede de um paradisíaco passado pré-temporal em direção a um destino de morte e decomposição. Trata-se de uma visão trágica, de matriz grega, inserida em uma concepção do tempo judaico-cristã, privada de éscathon. Mas, estamos absolutamente certos de que Cioran exclui toda e qualquer forma de salvação?

Renzo Rubinelli

Nesta entrevista, o filósofo italiano Renzo Rubinelli compartilha com os frequentadores do Portal EMCioranBR algumas de suas intuições e impressões sobre a obra e a vida de Cioran. Profundo e sensível conhecedor do pensamento cioraniano (sobre o qual dedicou sua tese de graduação em Filosofia), tendo ademais conhecido pessoalmente o autor romeno-francês, Rubinelli discorre sobre temas tão essenciais quanto a concepção de Cioran a respeito do Tempo como Destino, suas paixões e obsessões filosóficas, a dimensão trágica e o niilismo que caracterizam o pensamento, além de suas andanças e encontros com aquele que seria considerado, pela revista Time, como o “rei dos pessimistas”.

Tradução do italiano: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes
Agradecimentos especiais: Laurène Strzempa-Camara (França)

Renzo Rubinelli nasceu em Verona e graduou-se em Filosofia em Veneza, em 1988, com a tese Tempo e Destino nel pensiero di E.M. Cioran (“Tempo e destino no pensamento de E. M. Cioran”), sob orientação de Emanuele Severino (e que viria a ser publicada, com o mesmo título, pela editora italiana Aracne, em 2014).
Tem colaborado com a Nuova Italia Editrice, participado como conferencista de diversos congressos sobre Cioran e publicado artigos e entrevistas em periódicos como Il Sole 24 Ore, L’Arena di Verona, Il Giornale di Vicenza, Bresciaoggi, Il Gazzettino, Verona Fedele e a revista romena de filosofia, Alkemie.
Também atua como manager de Retail e Profumeria além de gerenciar a Azienda agricola Rubinelli Vajol, especializada na produção de Amarone (um vinho seco característico da região italiana de Valpolicella). Vive em Valpolicella, perto de Verona.

EMCioranBR: Senhor Rubinelli, primeiramente gostaria de agradecê-lo, em nome do Portal EMCioranBR e seus visitantes, por nos conceder esta entrevista. É um grande privilégio ouvi-lo falar sobre sua relação com Cioran – sua obra, seu pensamento, o próprio autor… Nossa primeira pergunta: como você descobriu Cioran?

Renzo Rubinelli: Caro Rodrigo, obrigado por esta entrevista. Não nos conhecemos pessoalmente, mas aprecio muito o trabalho que você faz por pura paixão, a favor do conhecimento do pensamento de Cioran no Brasil e no mundo. Não é importante, mas, já que você me pergunta, sou instado a descavar uma memória enterrada. A primeira vez que vi um livro de Cioran e soube de sua existência, foi na faculdade, em Veneza, em San Sebastiano, no grande salão do instituto de estudos filosóficos, era 1986, creio eu. Descia pela escada interna um pesquisador, acho que se chamava Moro, ele nos dava um curso sobre McLuhan. Ele tinha debaixo do braço Il demiurgo cattivo (Le mauvais démiurge, 1969), recém-publicado pela Adelphi. O título não me agradou e achei estranho que um especialista de McLuhan se interessasse por um livro com um título tão arcaico. Alguns meses depois eu preguntei ao Prof. Severino sobre a possibilidade de fazer, com ele, uma tese sobre o Destino. Ele aceitou e me apresentou uma lista de autores: Rensi, Untersteiner, Spengler, Nietzsche. Em seguida, numa revista da época, eu li uma resenha de Severino sobre Squartamento (Écartèlement, 1979) que continha esta citação de uma passagem do Mahabharata: “O nó do Destino não pode ser desfeito; nada neste mundo é o resultado de nossos atos”, retomava Cioran. “Eis aqui o meu autor”, pensei. Eu o propus a Severino que, entusiasmado, aprovou a escolha do autor, ligada ao tema do Destino. Assim começou um percurso de estudo e de vida, que me levou a conhecer o autor, sua família parisiense e romena, e sua terra de origem.

EMCioranBR: Como se deu a recepção italiana de Cioran? Sabe-se que o nosso autor conta com muitos leitores na Itália, onde ele é editado, como você mesmo apontou, pela editora Adelphi de Roberto Calasso. Franco Volpi, por exemplo, era um leitor de Cioran; há um comentário em seu livro Il nichilismo (“O niilismo”, publicado no Brasil pela Loyola, 1999), em que Volpi considera Cioran como o representante de um “niilismo gnóstico”. Pode-se dizer que há, na Itália, uma tradição – ainda que jovem, dada a atualidade do nosso autor – de estudos sobre Cioran? Quem são os principais comentadores italianos de Cioran, e os principais estudos dedicados ao pensamento e à escritura do autor do Sommario di decomposizione?

Renzo Rubinelli: O primeiro livro de Cioran publicado na Itália foi Écartèlement (“Squartamento”), lançado pela Adelphi em 1981, mas alguns títulos já haviam sido publicados, na década anterior, sem nenhuma ressonância, por editoras de direita. Foi precisamente pela Adelphi, e graças à bela introdução de Ceronetti, que o nome de Cioran se impôs à atenção dos leitores italianos. Roberto Calasso é um grandíssimo operador cultural, mas é uma pessoa arrogante, ouso dizer mal-educada. Minha frequentação de Cioran e Severino, dois gigantes do pensamento, me permitiu compreender como a verdadeira grandeza se faz acompanhar sempre de uma humildade e de uma gentileza autênticas, nos confrontos com quem quer que seja; virtudes das quais Calasso, na minha visão, carece, pela experiência direta que tive com ele em mais de uma ocasião. Franco Volpi, infelizmente, nos deixou cedo demais, devido a um acidente banal de bicicleta nas colinas do Vêneto (região no nordeste da Itália), não muito longe de onde eu moro. Sua inteligência pôde nos iluminar por muito tempo. Em 2002, ele escreveu um artigo sobre o livro de Friedgard Thoma, Per nulla al mondo, libertando-se de uma vez por todas do coro dos censores, que não tardaram a aparecer. Gosto de lembrar do final desta belíssima parte: “Cioran, sob a influência da paixão, se revela. Põe em jogo tudo de si mesmo para ganhar o jogo. Ele revela âmbitos recônditos de sua psique, aspectos surpreendentes do seu caráter… Atraído pelo desafio do eterno feminino, deixa que venham à torna as profundezas secretas do seu pensamento: um pensamento desnudo diante do olhar feminino que o penetra…”
Certamente, “niilismo gnóstico” é uma definição apropriada para Cioran. Mas que é, afinal, “niilismo”? A palavra se encaixa com Cioran sobretudo do ponto de vista teórico, como eu explicarei em seguida. A ênfase, ao meu ver, deve cair sobretudo sobre o adjetivo “gnóstico”. A ideia gnóstica de Caduta nel tempo (La chute dans le temps, 1964) informa toda a obra de Cioran, sem exceção.
Na Itália, há muitos jovens corajosos que se ocupam de Cioran: Rotiroti, Carloni, Pozzi, Bulboaca, Vanini, Di Gennaro, Cicortas, Scapolo, Chelariu. Seus estudos são todos muito válidos, mas, se você quer saber minha preferência, direi os estudos de Carloni, Rotiroti e Bulboaca.

EMCioranBR: Você tem um livro escrito sobre Cioran: Tempo e destino nel pensiero di E. M. Cioran (Aracne Editrice, 2004). Segundo Mihaela-Genţiana Stănişor, o seu livro transita entre a eternidade de Emanuele Severino e o niilismo de Cioran. É um belo título que, ademais, parece sintetizar a essência do pensamento cioraniano, além de ecoar o título de um de seus livros, a coletânea de artigos de juventude publicada postumamente sob o título de Solitude et destin. Que significa a existência para Cioran? Que é o homem, segundo ele, e sua relação com o tempo? Pensamento trágico ou niilismo metafísico?

Renzo Rubinelli: O meu livro empreende uma exegese teórica do pensamento de Cioran, evidenciando como o tempo está na raiz de toda a sua reflexão. O “e” da conjunção do título torna-se o verbo da tese que eu sustento: o tempo é o destino. A maldição de nossa existência é aquela de sermos “encarcerados” na linearidade do tempo, que procede de um paradisíaco passado pré-temporal, em direção a um destino de morte e decomposição. Trata-se, em síntese, de uma visão trágica, de matriz grega, inserida em uma concepção do tempo judaico-cristã, privada de éscathon. Mas, estamos absolutamente certos de que Cioran exclui toda e qualquer forma de salvação? No meu livro dialogam duas polaridades extremas: a absoluta eternidade de Severino e o niilismo explícito de Cioran. Do ponto de vista de Severino, pode-se definir o pensamento de Cioran como o tornar-se consciente do niilismo, inerente à concepção ocidental do Tempo. E na tentação mística de Cioran encontra-se, por outro lado, uma percepção emocional do Ser que parece indicar a necessidade, a urgência, dir-se-ia a esperança de uma superação da hermenêutica ocidental do devir e de uma palavra ulterior que não a Negação. O livro começa com um relato dos meus três encontros com Aurel Cioran (irmão de Emil), nos anos de 1987, 1991 e 1995, e dos meus dois encontros com Emil, em 1988 e 1989. Estão contidas aí todas as cartas que Cioran me escreveu e inúmeras fotografias. Após a primeira parte, uma investigação bio-bibliográfica sobre o período romeno, um trabalho pioneiro de escavação na ausência, à época, de fontes confiáveis.

EMCioranBr: Cioran tinha muitos amigos de diferentes nacionalidades. Talvez se poderia dizer que sua fascinação pela Itália não ficava atrás de sua fascinação pela Espanha. Leopardi é um dos autores mais estimados por Cioran. Você acha que se poderiam assinalar afinidades eletivas entre Cioran e a Itália?

O poema
O poema “L’infinito”, de Giacomo Leopardi (1798-1837)

Renzo Rubinelli: Não digo que a fascinação de Cioran pela Itália se equipare à que ele tinha pela Espanha. Cioran amava a Espanha de modo visceral, enquanto que a Itália lhe interessava menos. À parte Leopardi, obviamente, de quem Cioran emoldurou e pendurou, em sua mansarda, o manuscrito de “L’infinito”, e também Veneza.

EMCioranBr: Você conheceu Cioran pessoalmente. Poderia compartilhar conosco um pouco das suas lembranças?  Parece existir certo mito Cioran: o depressivo suicida, o misantropo furioso, o louco solitário ou Deus sabe lá o quê… Qual foi sua impressão da relação de identidade entre a obra e o autor, isto é, da obra e do homem de carne e osso?

Renzo Rubinelli: Caro Rodrigo, eu sempre refutei todos os lugares comuns, os clichês legados ao personagem Cioran. Nada disso é verdade: misantropo, louco, depressivo, suicida, furioso, funâmbulo – todas elas palavras insuportáveis, etiquetas vazias de jornal de província de péssima categoria, e que são empregadas, até hoje, para descrever Cioran. Lendo seus livros, eu tive a nítida sensação de um homem autêntico, um homem como nós, mas com um dom excepcional, qual seja, a extraordinária capacidade de apontar sempre em direção ao essencial, com um estilo cristalino. E, portanto, eu quis conhecê-lo pessoalmente, com a intuição de que estaria aberto e disponível a me receber, e assim aconteceu. Era um homem muito relacionável, envolvido, alguém que participava das pequenas e das grandes misérias alheias.

Renzo Rubinelli, Friedgard Thoma, Emil Cioran, Simonetta Buettner, Simone Boué
Renzo Rubinelli, Friedgard Thoma, Emil Cioran, Simonetta Büettner, Simone Boué

Tudo começou no verão de 1987. Eu queria visitar os países do Leste europeu, que eram realmente oltrecortina. Quase ninguém se aventurava por aqueles lados. Antes de partir para a Romênia, avisei o Prof. Rigoni, tradutor e amigo de Cioran, pedindo-lhe que o informasse sobre minha viagem e perguntando se ele tinha algum desejo. Imediatamente chegou de Paris a minha missão: levar dois quilos de café para o seu irmão. Então, eu passei três dias inesquecíveis com Aurel, que me mostrou todos os lugares da infância deles e me contou um montão de coisas. Também conheci Constantin Noica, que me escreveu à mão suas sugestões para minha tese sobre Cioran (pode-se ver no meu livro as duas páginas manuscritas). Então, meses depois, mostrei a Cioran os diapositivos de todos aqueles lugares de sua infância e os olhamos juntos, em sua mansarda na Rue de l’Odéon. Também estavam presentes Simone (Boué) e Friedgard Thoma. As reações de Cioran diante das imagens eram explosivas; ficou eufórico, emocionado como uma criança, diria mesmo extasiado. Aquela foi uma tarde alegre. Por outro lado, ele pareceu diferente no encontro seguinte. Era verão, Simone estava em Dieppe e Cioran sozinho em Paris. Eu queria lhes apresentar um amigo que, há pouco, havia defendido uma tese sobre ele, com um recorte histórico-político: I meccanismi dell’utopia in E. M. Cioran (“Os mecanismos da utopia em E. M. Cioran”). Evidentemente, ficou interessado, caso contrário, não o teria convidado. Ademais, Cioran lhe escreveu uma belíssima carta, o que atesta o seu interesse. Ele nos recebeu e nos ofereceu deliciosos sanduíches tostados que tinha providenciado para nós. Estava mais cansado e envelhecido em contraste com o ano anterior. O calor de julho e a ausência de sua senhora tornava a atmosfera um pouco menos animada do que da primeira vez. Conversamos em alemão e a minha namorada traduzia tudo.

EMCioran/Br: No Brasil Cioran é muito pouco trabalhado nas universidades. Os departamentos de Filosofia parecem, normalmente, avessos à sua inserção enquanto objeto de estudo, provavelmente em função do caráter nada tradicional, híbrido e marginal, do seu pensamento (a meio caminho entre o discurso filosófico e o discurso poético-literário). Como se a sua obra não possuísse nenhuma relevância filosófica, nenhum valor em termos de reflexão filosófica. O mesmo se passa na Itália?

Renzo Rubinelli: “Cioran é um filósofo que refuta a filosofia”, eu afirmo com força no meu livro, em sintonia com o que afirmou, numa carta enviada a mim, Constantin Noica (que eu encontrei em Paltiniş, nos Cárpatos, no verão de 1987, como eu te contei anteriormente). De fato, não é possível compreender Cioran a não ser tendo em mente a questão do Tempo e este é um conceito filosófico por excelência. Estes aspectos que eu apenas menciono aqui são explicados de forma muito mais analítica no meu livro.

EMCioranBR: Algum livro predileto de Cioran? Alguns aforismos prediletos, ou que venham à mente agora?

Renzo Rubinelli: Meu livro preferido é sem dúvida os Quaderni 1957-1972 (Cahiers, 1997), em segundo lugar, L’inconveniente di essere nati (De l’inconvenient d’être né, 1973), e, em terceiro, La caduta nel tempo (La chute dans le temps, 1964), pois todos os demais são um mais belo que o outro, e não dá para enjoar de relê-los todos. O aforismo preferido continua sendo aquele com o qual, há 27 anos, eu concluía minha tese e que se encontra em Squartamento (Écartèlement), ei-lo:

Subitamente, necessidade de demonstrar agradecimento, não só aos seres mas também aos objetos, a uma pedra porque é pedra… Tudo parece então animar-se como se fosse para a eternidade. De golpe, inexistir parece inconcebível. Que estes calafrios se produzam, que possam produzir-se, mostra que a última palavra talvez não esteja na Negação.

EMCioran/Br: Para terminar, por que ler Cioran?

Renzo Rubinelli: Como escola de síntese, de limpidez, de sobriedade, de autenticidade, de essencialidade. Mas também para sentir a proximidade de um amigo, de um amigo como nós, sincero e com o grande dom da ironia. Com Cioran você pode rir com gosto, sobretudo lendo os Quaderni.

EMCioranBR: Senhor Rubinelli, mais uma vez eu te agradeço por nos conceder esta entrevista tão enriquecedora. Eu espero e desejo que as trocas cioranianas entre Itália e Brasil possam se aprofundar no futuro. Por fim, deixo com você as últimas palavras.

Renzo Rubinelli: Como última palavra, sirvo-me de dois aforismos, que estão um perto do outro nos Quaderni (Cahiers, p. 322-323):

25 [de dezembro de 1965]. Natal. A felicidade como eu a entendo: andar no campo e olhar, sem mais, esgotar-me na pura percepção.

E um pouco antes:

“Perder-se em Deus” – não conheço expressão mais bela.

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Todos os direitos reservados:
Renzo Rubinelli / Portal EMCioranBR
05/05/2015

“Estilhaços digressivos: experiências de um leitor imerso nas ruínas narrativas de Shmuel Yosef Agnon”, por André Folador

A tentativa de definir um tema para este trabalho me parece um tipo de profanação da complexidade do romance Hóspede por uma noite e das insondáveis intenções estéticas e filosóficas de Sch. I. Agnon. Em vez de demarcar um tema, pretendo estabelecer uma soma de reflexões (conexas e possivelmente desconexas) e, seguindo a trilha que norteia o narrador do livro, registrar impressões acerca dos elementos que me parecem mais significativos na obra.

As dificuldades para o leitor se iniciam com a própria estrutura do romance que é cíclica, digressiva e não segue um fluxo temporal bem definido. Além disso, pelo fato de o foco narrativo ser estabelecido em primeira pessoa, o leitor está, de certo modo,  “vinculado” ao registro de um narrador — sobre o qual pouco se sabe — cujas impressões constituem uma contínua mescla de ironia e distanciamento. Além disso, as hesitações do autor, os estratagemas que encobrem suas verdadeiras percepções, acabam despistando as pretensões exegéticas do leitor, além de dificultarem uma visão sistêmica da obra.

Segundo Berta Waldman:

A inscrição de Schai Agnon no sistema literário judaico se faz sob o signo da ambivalência. Inserido historicamente no limiar entre a tradição e a modernidade, há nos textos desse autor ecos e ressonâncias dos contos religiosos judaicos, mas não há mais suas certezas. Questionada a tradição, abrem-se as frinchas para a modernidade. Entretanto, a modernidade não estende um solo capaz de abarcar o apego à tradição presente nos textos. Cria-se, assim, um impasse e a impressão viva de que alguma coisa das narrativas sempre nos escapa (2004: p.39).

Este estado de aporia a que se refere Waldman não se estende, a meu ver, apenas a essas características referidas por ela. Estende-se, também, à experiência do leitor, que se depara com inúmeras dificuldades criadas pelo narrador, entre as quais a linguagem “distante”, repleta de evasivas e digressões, que nos dá uma impressão de estagnação narrativa, implicando uma espécie de suspensão das categorias de espaço e tempo.

Por conta de tais características, não é fácil se situar nas sendas narrativas de Hóspede por uma noite. Parece-me — e não sei se esta é uma característica presente em algumas obras da cabala e nos relatos hassídicos —  que o texto de Agnon revela tanto quanto oculta.

Com relação ao estilo de Agnon, prossegue Berta Waldman:

Seu estilo distingue-se por uma conduta peculiar: ele faz uso de uma língua que quase não eleva a voz, eliminando dela os pontos enfáticos, os desabafos sentimentais, quaisquer vestígios de histeria neo-romântica ou expressionista, apoiando-se sempre na sobriedade da prosa rabínica, no estilo da Mishná e do Midrash, que tiveram profunda influência em seu modo de escrever. (2004, p. 42)

Esta sobriedade, o tom monocórdio e apolíneo (que se mantém até mesmo na descrição das tragédias que recaíram sobre Szibusz) do narrador-escritor estão presentes do início ao fim do livro.

Um aspecto significativo presente na obra é a atitude, por vezes parcial e contraditória, do narrador diante dos habitantes de Szibusz. Embora existam alguns lampejos de empatia e de solidariedade por tais seres, predomina um tom altivo, distante que se traduz em uma descrição pouco empática das agruras dos cidadãos. Tal como um etólogo, ele descreve com precisão — quase científica — os hábitos, a biografia, os traumas dos habitantes.

O olhar que recai sobre as pessoas mais novas da cidade não nos parece muito benevolente.  Na maior parte da obra, o narrador consegue ocultar do leitor (e até de si mesmo[1]) suas verdadeiras convicções. Entretanto, às vezes deixa escapar sua opinião sobre os moradores da cidade:

Não sou daqueles que comparam os dias de hoje com os do passado. Mas quando vejo pequenos ocupando o lugar de grandes e gente pobre em atos em lugar de homens de ação, sinto pena desta geração cujos olhos não viram a grandeza de Israel e que pensa que Israel jamais teve grandeza. (p.56).

É interessante perceber a magnitude do conflito ideológico entre os indivíduos mais velhos e os mais novos. A geração mais jovem, bem representada por Daniel Bach, não tem a mesma “segurança” metafísica dos antigos, que, mesmo depois das atrocidades da Primeira Guerra, ainda conseguem manter uma fé inabalável. Nesse sentido, é emblemática a discussão entre Daniel Bach e seu pai, Rabi Schlomo. Trata-se de mais uma aporia presente no romance:

Disse Rabi Schlomo: Minha partida me seria mais fácil, se você, meu filho, me prometesse que seguiria o bom caminho. Saltou Daniel da cadeira, pôs a mão direita no coração, estendeu para cima a sua sinistra e disse: Acaso fui eu quem tornou tortuoso o caminho? Pois foi Ele quem entortou o caminho! Disse-lhe o pai: Pare, meu filho, pare. Tudo o que o Santíssimo, Bendito Seja, realiza, Ele o faz para nos experimentar. Se resistirmos à prova, muito bem, e se não, Ele nos envia outra mais difícil do que a primeira. Disse Daniel: Porventura o Santíssimo não vê que não podemos resistir às primeiras provas, por que Ele se dá ao trabalho e nos coloca diante de novas experiências? Disse-lhe Rabi Schlomo: Pensamentos impuros são um grande obstáculo. (p.81).

Essa passagem, a meu ver, é uma das mais agônicas da obra. Enquanto para Rabi  Schlomo os desígnios do Senhor são imperscrutáveis e devem ser respeitados (afinal — podemos indagar — questioná-los seria duvidar de todos os alicerces que constituíram a sua vida), Daniel exige do “Criador das almas” uma prestação de contas, um sentido para tudo o que não parece ter mais sentido. Não sabemos, com certeza, quais foram os efeitos que as perguntas pungentes de Daniel provocaram em seu pai. A geração mais nova, que participou dessa guerra absurda (expressão pleonástica) poderia ser considerada porta-voz de uma crise

religiosa e espiritual que se precipita, na forma de uma obliteração de toda esperança, em decorrência desses acontecimentos trágicos e inexplicáveis, sobre aqueles que conseguiram sair vivos dessas catástrofes, mas que perdem para sempre seu lar espiritual e geográfico, é, portanto o tema central do romance (Krausz, A cidade em ruínas de Sch.Agnon, posfácio da obra, p.560).

Curiosamente, os mais velhos, como o Rabi Schlomo, preservam, aos olhos do narrador, certa nobreza, anterior aos tempos de decadência que “feriram” Szibusz. Já os indivíduos “comuns”, que não possuem um vínculo estreito com os propósitos da Casa de Estudos e se mantêm à margem das discussões religiosas, levam uma vida metabólica, maquinal, desprovida de grandes aspirações.

Os seres feridos em sua integralidade, repletos de mutilações físicas (Daniel Bach, Ignatz) e traumas psíquicos constituem um panorama significativo dos habitantes de Szibusz.  Eles representam as agruras da guerra e a instabilidade que o período posterior a ela lhes trouxe.

Segundo Luis Krausz:

O universo crepuscular que nas obras dos grandes expoentes da Guettoliterarur, rapidamente se dissolvia na sociedade secular e urbana do século XIX, deixava para trás velhas crenças, conceitos nacionais e costumes que abrangiam todas as esferas da existência, e buscava, com grande otimismo, a concretização das promessas do Iluminismo e da emancipação, do ingresso à sociedade burguesa, com a consequente delimitação da vida judaica à esfera estritamente religiosa, isto é, buscava a transformação e a reforma do judaísmo, que deixava de ser um conceito abrangente e que perpassava todas as esferas da existência, para tornar-se uma simples confissão no contexto de uma vida burguesa e urbana moderna. (id., p. 561).

Nesse cosmos agnoniano, prossegue Krausz, “não é mais possível vislumbrar as ambições otimistas de um processo civilizatório fundamentado na razão, no progresso e na evolução das ciências.” (ibid., p.561).

Na obra de Agnon, é possível detectar muitas ressonâncias com o universo kafkiano[2].  Dentre elas, pode-se citar a “naturalização” do horror, do “estranhamento” (unheimlich[3]), a aclimatação dos escombros.  Cenas terríveis são retratadas num misto de ironia e distanciamento. A descrição amena dos escombros humanos e geológicos que caracterizam Szibusz, de certa forma, acaba muitas vezes “anestesiando” a sensibilidade do leitor. Mas, ao mesmo tempo, essa naturalização convoca a necessidade do questionamento sobre aquilo que é “naturalizado”.

Em Hóspede por uma noite, os escombros e cicatrizes são relativamente naturalizados e, em alguns momentos, recebem uma abordagem que oscila entre a frieza e ironia.  Ironia que dificilmente provoca o riso lúdico, espontâneo. Com relação a esse aspecto, é importante ressaltar o papel simbólico das mutilações físicas de alguns personagens do romance.  Tais cicatrizes poderiam ser consideradas uma alusão à fragmentação dos judeus e, em um âmbito maior, àquela sofrida pelo homem europeu da época.

A hipertrofia das ruínas da cidade, sistematicamente descrita no livro, me parece simbolizar o enfraquecimento dos valores da tradição, que remetiam a um mundo edênico (e idealizado) anterior ao Iluminismo. O saudosismo desse paraíso perdido ainda norteia a conduta de alguns seres da cidade.

Para Adorno, a chave para a compreensão das obras de Kafka consiste em: “insistir nos aspectos que dificultam o enquadramento e que, por isso mesmo, requerem interpretação” (2008). Insistir nos elementos que, de acordo com Maeso (2013), nos obrigam a questionar as visões tradicionais do mundo e a desvelar seus infinitos paradoxos, escondidos por baixo de um manto de aparente coerência. É possível pensar que essa insistência, bem como a recusa em ser absorvido de maneira palatável, são características presentes em Kafka e Agnon.

O não-enquadramento, ao qual Adorno se refere, nos remete à necessidade de ruptura do sempre-igual para o resgate da autonomia da reflexão (MAESO, 2013: p.33). Ao colocar em prática essa recusa do palatável e não impor a sua visão sobre o leitor, Agnon nos convoca à reflexão autônoma, desprovida de dogmatismos.

Outro tema importante presente na obra, ao qual fizemos rápida referência ao abordarmos a discussão entre Daniel Bach e seu pai Rabi Schlomo,  é o estremecimento da fé, a possível erosão dos preceitos sagrados, principalmente nas gerações mais jovens.  Correndo o risco de incorrer em uma hiperinterpretação de alguns elementos citados no livro, me parece que a perda da chave da casa de estudos poderia ser compreendida como um indício da quebra da conexão com o transcendente.

Assim, perder a chave para uma casa que servia de abrigo para o numinoso parece ser um sinal que aponta para a dificuldade de, sobretudo depois de uma guerra que deixou cicatrizes múltiplas nos habitantes de Szibusz, encontrar um espaço físico e existencial para a recepção dos propósitos do “Criador de almas”.

Os acontecimentos da guerra instauraram, sobretudo nos mais jovens, certo ceticismo e um questionamento sistemático das autoridades religiosas. Contudo, me parece que, na obra de Agnon, tal não eclipsou completamente a tradição religiosa dos antigos. Como prova disso, podemos mencionar a ida do Rabi Schlomo à Israel.

O mundo desvelado pelo narrador-escritor é repleto de escombros, mas de prenúncios de uma possível reconstrução. Ali ainda há centelhas de solidariedade entre os moradores e uma tentativa de aplacar a miséria em comum.

Ao evitar adesões passionais, relativizar conceitos e crenças, Agnon põe em prática certa erosão do dogmatismo e da crença em um mundo apolíneo, totalmente regrado pela bondade e bom senso humanos.  Além disso, tal postura instaura perguntas espinhosas. Como diz Amóz Oz em um trecho incluído na contracapa de Hóspede por uma noite:

Todos os atos dos nossos antepassados possuem significado ou não? E, já que começamos, há significado em nossos atos ou não? Haverá sentido em qualquer ato? O que é o pecado, a culpa, e o que é a retidão? Em nenhum desses casos Agnon serve de guia e modelo, ele e seus heróis oscilam, de um extremo a outro, entre o medo e o desespero[4]. E (…) na escrita de Agnon (…) com todo comedimento, dissimulação, surdina, circunlóquios, ironia e, por vezes até mesmo de maneira sofística – com tudo isso o leitor ouvirá um grito abafado…uma ferida aberta. Pois existe um criador genuíno aqui.

Essa ausência de resposta a que se refere Amós Oz poderia nos levar à conclusão de que Agnon seria um niilista ou algum tipo de pirrônico contemporâneo. Mas, em se tratando de um autor sinuoso como ele, que se inspira em tradições que cultivaram um virtuosismo da arte de perguntar, é melhor evitar a rotulagem. Apesar dessas características do estilo da escrita do narrador, é possível ouvir esse grito abafado. O sofrimento pode ser percebido, apesar da ironia e dos recursos narrativos que perpassam a obra.

Considerando-se os aspectos que foram apontados neste breve trabalho digressivo, seria temerário incorrer em interpretações unívocas acerca de uma obra tão complexa, sinuosa, labiríntica (sem o fio de Ariadne), que confunde até mesmo o leitor mais atento e experiente. Tal confusão, por um lado, é benéfica na medida em que confere um frescor (talvez amargo) às questões fundamentais da existência e evita a cristalização dogmática.

Ao final da leitura de Hóspede por uma noite, tive a impressão de que uma das características principais da obra de Agnon é o sentimento de exílio: não apenas o exílio do povo judaico, mas também o exílio ontológico, experimentado por todos que estão lançados em um mundo no qual os valores e referenciais estão sempre em transição, um universo cujas oscilações absurdas, aleatórias, distorcem as chaves interpretativas e ameaçam sistematicamente o acesso às portas do numinoso.

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Referências

ADORNO: Anotações sobre Kafka, in Prismas, Crítica Cultural e sociedade. São Paulo: Editora Ática, 1998.

AGNON, Sch. I. Hóspede por uma noite. São Paulo: Perspectiva, 2014

MAESO, Benito Eduardo Araujo. Kafka: estética e política do estranhamento. São Paulo, 2013. 181 p. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Programa de Pós Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH). 2013.

WALDMAN, Berta. Linhas de força: escritos sobre literatura hebraica. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004.

[1] Nota-se, no narrador, uma atitude de suspeita com relação à própria percepção dos fenômenos. Não sabemos se tal suspeita seria apenas um recurso retórico ou opinião sincera: “Em minha infância costumava ver tudo o que desejava; quando cresci um pouco, a visão diminuiu e não via senão o que me mostravam. Agora não vejo nem o que desejo e tampouco o que me mostram”. (p.143). Diante de uma percepção duvidosa, fragmentária, surge o sonho como recurso indispensável para suprir tais deficiências. De acordo com Berta Waldman (apresentação da obra, p.21), “se o autor padece quando se confronta com a realidade e empenha-se em alterá-la, fazendo um esforço em trazê-la para aquilo que ela não é mais, é no sonho que se efetiva o desejo frustrado no dia a dia” (p.21). O sonho descrito no capítulo XV (poderíamos pensar no papel compensatório que Carl Gustav Jung atribuía aos fenômenos oníricos) poderia ser interpretado como essa tentativa de atingir algum tipo de completude impossível.

[2] Evidentemente, não devemos hipertrofiar tal influência, uma vez que há aspectos que particularizam a obra de Agnon. A respeito de algumas ressonâncias e dissonâncias entre a obra de Kafka e Agnon, afirma Guinsburg: “Não há dúvida de que o outro lado de seu estro, a face trágica de sua máscara artística bifronte, apresenta algumas similitudes na técnica de escrever e certo parentesco espiritual com Kafka (…) A mitologia do homem desterrado, alienado, cindido, ‘estrangeiro’, desabrigado, absurdo, que daí surge por contragolpe, também é encontradiça em Agnon. Mas a constelação é bem outra. (…) No seu universo, como em parte no de Bialik, o grande poeta hebreu, a Divina Presença foi expulsa, mas ainda o sobrepaira e lhe faz sentir a dor de seu desterro” (Tradição e modernidade em Sch.I.Agnon, prefácio da obra, p.38).

[3] Conceito de difícil tradução. O unheimlich remete a algo familiar (heim) e, ao mesmo tempo, assombroso e estranho. Talvez pudéssemos traduzir tal conceito por o “estranho familiar”.

[4] Poderíamos acrescentar que eles também oscilam entre o medo e o heroísmo. Este, na obra em análise, não aparece de forma tão explícita, mas sua existência pode ser intuída.

“Fe y escepticismo. La correspondencia entre E.M. Cioran & M.D. Molinié” (Sergio García Guillem)

Texto publicado en La Torre del Virrey – Revista de Estudios Culturales, serie 10, nº 361, 2012/1

“[…] ¿No han tenido nunca esta sensación, después de un gran susto o en un momento muy terrible, cuando el entendimiento conserva aún toda su lucidez, pero ha perdido ya todo su poder?”

F.M. DOSTOIEVSKI, El idiota.

“On est croyant ou on ne l’est pas, comme on est fou ou normal. Je ne peux croire ni désirer croire : la foi, forme de délire à quoi je ne suis point sujet… ”

EMIL CIORAN, Précis de décomposition.

En una conversación con Léo Gillet, Cioran, a propósito de sus influencias literarias, comenta lo siguiente: “[…] Dostoyevski fue hasta el límite de la razón, hasta el vértigo último. Fue hasta el hundimiento, mediante ese salto a lo divino, al éxtasis […]”. Ese mismo éxtasis lúcido, después de un gran susto o situación terrible, o propiamente tediosa, por calificarla con una de las máximas preocupaciones de la prosa cioraniana, de la que ya rindió cuentas Dostoievski con algunos de sus personajes más célebres: los escépticos, enfermos y atormentados Iván Karamázov, Nikolai Stavrogin, el príncipe Mishkin o el joven Ippolit, representación antropomórfica este último del suicidio en El idiota, es el mismo que acosa perpetuamente, entre comicidad, amargura, ironía y un ácido escepticismo, el pensamiento de Emil Cioran. Sus reflexiones arrancan de la carcoma del tiempo y del estatismo monolítico los ecos del pesimismo, el nihilismo (“obsesión de la nada o del vacío, más bien”, como él mismo dirá en una de sus entrevistas) la melancolía y ese tedio de lo propiamente humano, del cual ya hemos comprobado que adopta en muchas ocasiones ese vacío enfermizo y corrosivo del espíritu del “subsuelo” dostoievskiano. Un intento de sistematizar o inculcar orden en su pensamiento, acción que anularía la intrínseca destrucción poética, por decirlo con Molinié, de su lenguaje, es una tarea que, de antemano, debemos abocarla al fracaso, a pesar de ser esta extraña mezcla de caos y revelación lo que otorga una curiosa riqueza intelectual a todo su legado. ¿Resulta pues lícito, a partir de estas indicaciones introductorias, el intento de rescate de parte de una correspondencia, no publicada en vida del autor, que nos permita profundizar más en la reflexión –y profunda crisis– religiosa del joven Cioran? En esta ocasión, vamos a intentar rendir cuenta de cómo parte del epistolario de juventud, excluyendo algunas de sus conversaciones con otros literatos, pensadores y periodistas, no se encuentra totalmente disponible para los estudios cioranianos. Y, más concretamente, y gracias al descubrimiento de un intercambio epistolar, centraremos la atención en la relación epistolar que mantiene Cioran con el teólogo dominico Marie-Dominique Molinié desde 1944 hasta, aproximadamente, 1947. Aquí reside la problemática y el difícil acceso a la cuestión, por lo que antes de comenzar a rendir cuenta de dicha correspondencia serán oportunas unas notas históricas y biográficas complementarias… [+]

“A narrativa de Deus nas religiões não monoteístas: um olhar sobre a Escola de Kyoto” (Faustino Teixeira)

Publicado no livro eletrônico do Instituto Humanitas: X Simpósio Internacional IHU. Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica, pp. 916-937. Republicado no website da Monja Coen.

Artigo do Prof. Dr. Faustino Teixeira – PPCIR-UFJF

Introdução

Em instigante artigo, Scott Randall Paine desenvolve a complexa questão do desafio do Oriente para a filosofia ocidental. Argumenta em favor de novas perspectivas de abordagem que possam contemplar a “vasta paisagem do fenômeno religioso” que floresce em outras fronteiras, para além do domínio conhecido ocidental. Lança a proposta de um saber filosófico que seja “autenticamente global”, sensível e aberto às abordagens sapienciais do Oriente, distintas das fontes da racionalidade grega.

Não há como restringir o campo da reflexão teórica aos trabalhos de “micro-filosofia”. Há hoje desafios interdisciplinares que são essenciais, incluindo nesse campo o desafio da relação com a transcendência e o diálogo com as religiões mundiais. Na visão de Randal Paine, “os filósofos ocidentais, porém, pronunciam-se, tipicamente, sobre o mundo, o ser e o conhecimento humanos sem se orientar sobre o imenso fato que é a realidade étnica, cultural, religiosa e sapiencial do Oriente”.

Foi com base nessa provocação de Scott Randal Paine que nasceu a idéia de uma pesquisa sobre a Escola de Kyoto. Foi a porta de entrada escolhida para a reflexão sobre a narrativa de Deus nas religiões não monoteístas. Embora não muito estudada no Brasil, a Escola de Kyoto traduz um momento novo na história das idéias. Trata-se de um grupo de filósofos que fornece “a primeira contribuição firmada e original do Japão à filosofia ocidental”, e numa perspectiva especificamente oriental. Entre seus representantes, podem ser sublinhados: Nishida Kitaro (1870-1945), Tanabe Hajime (1885-1962), Nishitani Keiji (1900-1990) e Ueda Shizuteru (1926-). O pensador mais criativo e comentado dessa escola de pensamento foi Nishida Kitaro. Foi com ele que essa escola se firmou e ganhou notoriedade. Na dinâmica de sua reflexão, Nishida proporcionou um singular alargamento da perspectiva zen. Mesmo tendo deixado a prática do zen budismo aos trinta e cinco anos de idade, não deixou jamais de se apropriar criativamente desse caminho experiencial. Até suas últimas obras, manteve acesa a convicção de que sua filosofia era um “desdobramento do zen dentro de si mesmo, como uma manifestação nova do espírito zen”. Os outros filósofos da Escola de Kyoto mantiveram essa mesma relação de liberdade com o zen. Há que sublinhar também, no processo de delineamento da reflexão da Escola de Kyoto, a afinidade com o pensamento existencialista e com a tradição mística cristã, em particular Meister Eckhart.

Talvez o ingrediente decisivo para a afirmação e divulgação da Escola de Kyoto em âmbito mais amplo foi o destaque dado à questão de Deus e da religião, mas sempre em chave de grande singularidade e originalidade. Identifica-se aí o traço mais significativo da reflexão filosófica empreendida pelos seguidores dessa Escola. Mas também desconcertante, pelo fato de surgir de pensadores que estavam, de certa forma, mergulhados na perspectiva do budismo zen. Na verdade, o que se buscava não era simplesmente a criação de um corpo de pensamento budista ou japonês, mas a abordagem de “questões universais fundamentais no que eles viam como a linguagem universalmente acessível da filosofia”. Segundo James Heisig, “a idéia de Deus parece servir como um tipo de metáfora que aponta para a unidade essencial da experiência da consciência com a realidade tal como é, e isto é feito precisamente como uma idéia ou imagem que opera na mente daqueles que crêem em Deus”… [+]

“O amargo saber de Cioran” (José Thomaz Brum)

Texto publicado em O Globo, domingo, 10 de fevereiro de 1991

É uma ironia e um estranho acaso o fato de ser publicado um livro de Cioran (“Silogismos da amargura”, editora Rocco, 98 pags. Ainda sem preço) em um momento em que a humanidade — mais uma vez — põe em cena o único personagem imutável de sua história: a Guerra. Não é ele quem considera a História uma absurda sucessão de bancarrotas ridículas? Não é ele que, apaixonadamente, reflete sobre essa criatura fracassada que é o homem e pensa sua existência como “uma agonia sem desenlace”? Um cenário sombrio como o da Guerra do Golfo Pérsico faz um irônico à filosofia deste pessimista que maneja aforismos com a perfeição dos grandes moralistas.

Nascido em uma aldeia da Transilvânia em 1911, Cioran descende dos antigos Dácios, povo cujo grito existencial pode ser traduzido na voz do poeta Mihail Eminescu: “Tudo é apenas nada e assim somos nós, apenas pó”. O pessimismo de Cioran é temperado por um ceticismo que visa a conservar no homem uma angústia inconsolável, único meio, segundo ele, de não nos refugiarmos em qualquer abrigo idealista. Tendo escrito cinco livros em romeno (o primeiro, “Nos cumes do desespero”, só foi publicado em francês no ano passado), foi a partir do “Breviário de decomposição” (1949) que Cioran se tomou um prosador e pensador propriamente ocidental. O “Breviário” expõe da forma mais nítida a filosofia cioranesca: o homem é uma criatura decaída, presa na duração e na angústia que dela decorre. Sua dor maior não é apenas a morte, à qual está inevitavelmente destinado, mas o sufocamento na insignificância e no efêmero. Açoitado pela doença e pela precariedade corporal, o animal humano possui uma alma ávida de voos eternos, mas que recai sempre em um calabouço verbal onde reside com seus fantasmas e ilusões. Este paradoxo encarnado se engaja em campanhas em nome de ideais, procura impô-los aos outros, entusiasma-se em convencer e impor verdades. Daí a História, essa ânsia de primar e prevalecer, de fugir de nossa condição miserável, “esse dinamismo das vítimas”.

A filosofia existencial de Cioran não deve ser contundida com a “segunda geração existencial” (Heidegger, Sartre, Camus), mas sim com os “pensadores privados” (Nietzsche, Dostoievski, Chestov), que procuram conservar no homem a kierkegaardiana “síncope da liberdade”, a angústia que não deve ser resolvida por nenhum ideal sob pena de perdermos a grande riqueza humana: sua recusa a tudo o que busca aplacar o abismo interior por qualquer falso consolo ou transcendência. Reconhece-se aí o espaço cioranesco: se a História, com seu devaneio sanguinário, procura calar as “tagarelices do existente particular”, o indivíduo deve agarrar-se a seu irredutível nada, fazer valer o subterrâneo de Dostoievski e o abismo de Pascal contra qualquer conciliação ou apaziguamento existencial. Esta opção pela “inquietude incessante” marca a filosofia de Cioran assim como dois grandes temas que perpassam a sua obra: um, teológico, o Demiurgo perverso que, incapaz de permanecer na “beatitude da inação”, criou o mundo e ocasionou o Mal. Outro, histórico, a decadência inexorável da civilização ocidental.

Estes dois temas caracterizam o alcance do pensamento de Cioran que procura abarcar, com uma escrita aforística, o arco conceitual que vai do individuo irredutível ao “homem agente da História”. O tema do Demiurgo perverso, presente na tradição gnóstica como interpretação herética da origem do mal no Mundo, está desenvolvido no livro “Le mauvais demiurge” (1969). “Devemos”, diz Cioran, “admitir que o Mal governa o mundo e que o demônio tem grande familiaridade conosco, por seus paradoxos e contradições. A imagem teológica é utilizada para ilustrar a frase pessimista: “A injustiça governa o Universo”. A decadência do Ocidente, tema já abordado por Spengler, ganha em Cioran uma nova dimensão. Filho do esfacelado império austro-húngaro, o transilvano Cioran pode dizer com sinceridade: “Na Europa, a felicidade acabou em Viena. Depois disso, maldição atrás de maldição”. As duas guerras mundiais, a desagregação operada pelos totalitarismos, o recente “fim do comunismo”, os emergentes conflitos nacionalistas, tudo isso descreve um panorama histórico marcado pela desolação.

“Silogismos da amargura”, texto de 1952, na época de sua publicação na França, foi “um fracasso extraordinário”, segundo palavras do próprio autor. O editor da tradução alemã considerou-o “superficial” e indigno do autor do “Breviário de decomposição”. Vinte e cinco anos depois, os “Silogismos” foram reeditados em edição de bolso e tornaram-se “uma espécie de breviário” para os jovens europeus, sobretudo na Alemanha — que acaba de editar suas obras completas. Este livro compreende um conjunto de aforismos sobre temas diversos (literatura, filosofia, religião. história), e seu tom constante é o de um ceticismo desesperado, uma voz lúcida que extravasa amargor e ironia. Sintoma de uma crise, o livro pode ser lido com melhor proveito em épocas de crise, coletiva ou individual, onde a incerteza e a ansiedade parecem reinar sobre as esperanças humanas.

Vivemos em uma atmosfera propícia para compreender os ensaios refinados deste romeno apátrida. Se o fim do século passado teve o classicismo noturno do irritadiço Schopenhauer, nosso fin de siècle devastado por tanta miséria, guerras e idolatria tecnológica possui o seu “cético de plantão” na figura de Cioran. Na Romênia, só agora se planeja uma edição de suas obras completas. O regime de Ceausescu expurgara a produção de um dos três romenos mais influentes na cultura ocidental contemporânea (os outros dois são Mircea Eliade e Ionesco).

Se a guerra é o personagem inalterável da História, então o homem parece confirmar a definição da Cioran: criatura fracassada e ávida de mais fracasso. A “justiça” dos homens legitima o horror das carnificinas e lhes dá o verniz hipócrita do “direito de matar”. Talvez agora se entenda o “niilista” quando focaliza o olhar nas vitimas e não nos vencedores odiosos. Expressando a consciência dilacerada de sua época (assim como Beckett), Cioran manifesta em seus aforismos uma aversão à “idolatria do devir” e às superstições do progresso. Dirigindo sua atenção para o indivíduo particular, entregue a suas misérias e êxtases anônimos, ele não vê nenhuma grandeza na História, “essa ilusão sanguinária”. O homem, tantas vezes vilipendiado pela pretensa “seriedade da História”, é — paradoxalmente — celebrado por este “fanático sem credo”. Quando Cioran escolhe como tema a criatura humana e seu corpo-a-corpo com a finitude, com o nada e com a morte, ele a exalta em sua precariedade que nenhuma ficção histórica podara “resolver”.

Mariana Sora, romena, ex-aluna de Mircea Eliade, tem razão ao dizer que “há em Cioran um grande amor pelo ser humano” pela relatividade de seus “pobres valores”. Roland Jaccard, em recente livro sobre o niilismo, afirma que os aforismos de Cioran são “dedos apontados para o nosso mundo agonizante”. Estranha coincidência que faz com que a História forneça mais um exemplo desta agonia, desta negação do Bem e da Justiça. Em épocas de crise, corre-se a profetas e cartomantes. Nostradamus previu o que vivemos? É o fim do Mundo? Não, diz Cioran nos “Silogismos”. É a nossa ansiedade que, “ávida de desastres iminentes”, projeta o apocalipse em cada impasse histórico ou pessoal. O pensamento de Cioran, com sua lucidez feroz, nos faz ver em nossos impasses e crises fontes de autoconhecimento e reflexão.

José Thomaz Brum é professor de Filosofia na PUC e tradutor de três livros de E. M. Cioran.