O Mau Demiurgo: Cúmulo do “Veneno Abstrato”, ou Porque Coringa Não É Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio se impõe. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau) “A única experiência profunda é…

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“Sede escassos!” (E.M. Cioran)

TÍMIDO, desprovido de dinamismo, o bem é inapto a se comunicar; o mal, pelo contrário, apressado, quer se transmitir e o consegue, já que possui o duplo privilégio de ser fascinante e contagioso. Assim, vê-se mais facilmente se estender, descolar de si, um deus malvado que um deus bom. Esta incapacidade de permanecer em si…

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Ceticismo, fragmento e lucidez: “Emil Cioran. A Filosofia como Desfascinação e a Escritura como Terapia”, de Vincenzo Fiore [pt. 2] (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Na primeira parte do livro, “Uma juventude entre desespero e fervor político”, Fiore perfaz o itinerário de formação do jovem Cioran na Romênia da década de 30, explorando a dualidade de uma juventude dividida entre o desespero existencial e o fervor político. Não se faz política nos cumes do desespero. Schimbarea la faţă a României…

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Deus, Jó & Cioran

Deus (dirigindo-se a Jó): Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam? Jó: (silêncio) Deus (dirigindo-se a Cioran): E tu, onde estavas? Cioran: Primeiramente, faço questão de responder, muito embora não acredite em Ti e não reconheça a Tua existência…

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“El demiurgo en el hombre” (Nicolai Hartmann)

La ética no enseña directamente qué debe ocurrir aquí y ahora, en el estado de cosas dado, sino en términos generales cómo está constituido lo que debe ocurrir. Quizás sea mucho y diverso lo que en general deba ocurrir. Sin embargo, no puede ocurrir en cada estado de cosas todo lo que en general deba…

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“Signos gnósticos nos cumes do desespero” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

O título, inspirado em manchetes sensacionalistas sobre casos de óbito por suicídio, não deixa de aludir também ao Desespero humano (1849) de Kierkegaard, avidamente estudado pelo jovem Cioran. Seria uma questão ociosa debater se Cioran é um kierkegaardiano que leu Nietzsche ou um nietzschiano que leu Kierkegaard. Muito embora tenha frequentado a escola de ambos,…

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Sobre los gnósticos (Arthur Schopenhauer)

La filosofía cabalista y la gnóstica, en cuyos autores, en cuanto judíos y cristianos, es de antemano seguro el monoteísmo, son intentos de suprimir la manifiesta contradicción que se da entre la creación del mundo por un ser omnipotente, sumamente bueno y omnisciente, y la condición lamentable y deficiente de ese mismo mundo. Por eso…

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“Do conhecimento religioso: sobre um texto de juventude e sua repercussão na obra de Cioran” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Além de um sentimento fundamental da existência, a categoria do religioso designa também um tipo especial de conhecimento, aquele que mais importa para Cioran. Num artigo publicado na Revista Teologică (1932), “A estrutura do conhecimento religioso“, o jovem estudante de filosofia na Universidade de Bucareste faz a crítica do racionalismo e afirma a “preeminência do…

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Sobre a doença (E.M. Cioran)

Devemos desconfiar dos doentes: eles têm “caráter”, sabem explorar e aguçar seus rancores. Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas? Evidentemente, ele era mais…

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“Chestov e a exceção monoteísta, ou peixes morrem afogados” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Satã, anjo decaído transformado em demiurgo, encarregado da Criação, insurge-se contra Deus e revela-se, neste mundo, mais à vontade e até mais poderoso do que Ele; longe de ser um usurpador, é nosso mestre, soberano legítimo que sobrepujaria o Altíssimo se o universo estivesse reduzido ao homem. Tenhamos, pois, a coragem de reconhecer de quem…

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“As duas modalidades do Brahman e o mistério do âtman ‘cativo’ na matéria” (Mircea Eliade)

A identidade âtman-Brahman, percebida experimentalmente na “luz interior”, ajuda o rishi a decifrar o mistério da Criação e, ao mesmo tempo, o do seu próprio modo de ser. Como sabe que o homem é cativo do karman e, no entanto, possuidor de um “Eu” imortal, ele descobre em Brahman uma situação comparável. Em outras palavras,…

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“Um pensamento religioso heterodoxo” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Eu não gostaria de viver em um mundo esvaziado de todo sentimento religioso. Eu não penso na fé, mas nessa vibração interior que, independente de qualquer crença, vos projeta em Deus, e às vezes acima. (Écartèlement) Clément Rosset e Fernando Savater estão de acordo sobre Cioran em ao menos um ponto. Segundo Rosset, o amigo…

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Novos aforismos temáticos: o Mal

O Zohar ensina-nos que todos os que praticam o mal na terra nem por sombras eram melhores no céu, de onde estavam impacientes por sair, e que, ao precipitarem-se na entrada do abismo, “anteciparam o tempo em que deveriam descer a este mundo”. Percebe-se facilmente o que há de profundo nesta visão da pré-existência das…

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“Odisseia do rancor” (E.M. Cioran)

Devemos desconfiar dos doentes: eles têm “caráter”, sabem explorar e aguçar seus rancores. Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas? Evidentemente, ele era mais…

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“Ensaio sobre o pensamento reacionário” (E.M. Cioran)

O problema do mal só perturba realmente alguns delicados, alguns céticos, revoltados pela maneira como o crente se conforma com ele ou o escamoteia. É para esses então que, em primeiro lugar, se dirigem as teodiceias, tentativas de humanizar Deus, acrobacias desesperadas que fracassam e se comprometem no seu próprio terreno, desmentidas a cada instante…

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“Cioran e la genealogia del demiurgo. Note al «Cahier de Talamanca»” (Umberto Cardinale)

ORIZZONTI CULTURALI ITALO-ROMENI, n. 1, gennaio 2015, anno V Nel Cahier de Talamanca (Mercure de France, Paris, 2000, ediz. it. Taccuino di Talamanca, Adelphi, Milano, 2011), si legge che, nell’estate del 1966, Cioran progetta un saggio sulla redenzione: «Non mi è ben chiaro quale piega debba prendere il mio saggio sulla redenzione. (Bisogna che legga Mainländer, rilegga E. von Hartmann…

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“O deus maldito e outros deuses” (Fernando Savater)

Um deus ameaça sempre no horizonte. (BD) Após as contundentes e entusiásticas declarações sobre a morte de Deus que nos propiciaram o século passado e este, as exaustivas descrições de sua agonia, os recenseamentos minuciosos do seu estertor, pouco ainda parece possível dizer sobre um tema tão decrépito. Deus é um recurso literário já em…

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“Sobre humanos, marionetes e liberdade: Cioran em diálogo com John Gray” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

A marionete – objeto artificial, aqui humanizado, dotado de “alma” – como metáfora do homem. O homem – animal autoconsciente, doravante maquinizado, desumanizado – como metáfora da marionete. A alma da marionete: o título deste breve ensaio sobre a liberdade humana dá margem para uma interpretação em mão dupla. GRAY, John, A alma da marionete:…

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“Liberdade para as Über-marionetes” (John Gray)

Existe um tipo de brinquedo que vem se multiplicando há algum tempo,e sobre o qual nada tenho de bom ou ruim a dizer. Refiro-me ao brinquedo científico. Charles Baudelaire, “A filosofia dos brinquedos” O QUE A CIÊNCIA NÃO NOS DIZ Em seu romance antiutópico sobre um país fictício, Erewhon (anagrama do inglês “nowhere“, lugar nenhum),…

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“Sinais do demiurgo cego em ‘Todos os que caem’, de Samuel Beckett” (Armando Nascimento Rosa)

Uma versão inicial deste estudo foi apresentada como conferência em 15 de Novembro de 2002 no Teatro Garcia de Resende, em Évora, numa sessão promovida pelo Cendrev (Centro Dramático de Évora). «MRS. ROONEY (Aflita): Cuidado com a galinha! (Guinchar de travões. Cacarejo) Oh, céus, esborrachou-a! Continue! Continue, não páre! (O carro acelera. Pausa) Que maneira…

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“O animal enfermo como hipótese de uma antropologia negativa segundo Cioran” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

César Batista da Silva, Nilo; Venturini, Andrei (orgs.), O que é o homem? Ensaios de antropologia filosófica. Editora CRV: Curitiba, 2018, p.  61-96. [+] A guisa de introdução Emil Cioran nos legou uma obra impactante como poucas no século XX. Seu pensamento visceral e abismal, no limite inclassificável, configura-se como uma soma de atitudes em…

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“Emil Cioran: del escepticismo a la enfermedad” (Leobardo Villegas Mariscal)

In: El pensamiento fragmentado y otros textos, Taberna libraria, México, 2017. “Sobre las ruinas del Conocimiento, una letargia sepulcral hará espectros de todos nosotros, héroes lunarios de la Indiferencia…”. E.M. Cioran[1] 1. La lucidez o el oscuro subsuelo del escepticismo Una estrategia para acceder al pensamiento de Cioran es abordar en su obra dos cuestiones…

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“Le Mauvais Démiurge, de Emil Cioran” (Rodrigo I. R. Sá Menezes)

A liberdade é, para mim, o direito de ser herético. Eu não poderia viver num estado no qual vigora uma filosofia oficial; porque sou, por temperamento, um herético, e por isso mesmo um apóstata. A liberdade representa para mim não apenas a possibilidade de pensar diferentemente em relação aos outros, mas também de viver as…

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“Os novos deuses” (Emil Cioran)

O politeísmo corresponde melhor à diversidade das nossas tendências e dos nossos impulsos, aos quais oferece a possibilidade de se exercerem, de se manifestarem, cada qual livre para pender, segundo sua natureza, ao deus que mais lhe convém no momento. Mas, que fazer com um só deus? Como encará-lo, como utilizá-lo? Com ele presente, vive-se…

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“Coda: nem pela fé, nem pelos anjos (um sermão gnóstico)” (Harold Bloom)

In: Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade (Rio de Janeiro, Objetiva, 1996) “O que nos liberta é a Gnose de quem éramos do que nos tornamos de onde estávamos de onde fomos lançados de para onde corremos do que estamos sendo libertados do que é de fato o nascimento do que é de fato o renascimento”…

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Emil Cioran : “Sommes-nous voués au mal ?” (émission radiophonique)

Les chemins de la philosophie, FranceCulture, 22/12/2016 Comment comprendre cette présence fondamentale, motrice, du mal dans l’histoire ? De la critique de l’utopie à la figure du mauvais démiurge, réponse avec Nicolas Cavaillès. “Notre mal étant le mal de l’histoire, de l’éclipse de l’histoire, force nous est de renchérir sur le mot de Valéry, d’en aggraver…

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“Todo tiempo pasado fue peor”, por Maryury García

Nadie ha amado este mundo tanto como yo, y, no obstante, aunque me lo hubiesen ofrecido en una bandeja de plata, de niño incluso, hubiera exclamado: «Demasiado tarde, demasiado tarde.»                                                                                                               Emil Cioran ¿Cuándo empezó la catástrofe? ¿Cuál es el verdadero origen de la tragedia de la existencia humana? Dichas preguntas marcaron la vida del…

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