Desejo

A morte é nauseante, é a única obsessão que não pode se tornar voluptuosa. Mesmo quando queremos morrer, queremos morrer com um remorso implícito no nosso desejo. Quero morrer, mas lamento querer morrer. Essa é a sensação de todos os que se abandonam ao Nada. (“Esgotamento e agonia”, Nos cumes do desespero)

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A maior besteira que a mente humana já concebeu foi a ideia de libertação por meio da morte do desejo. Por que frear a vida, por que destruí-la em nome de um ganho tão pouco fecundo como aquele de uma indiferença total, de uma libertação que nada significa? Com que atrevimento ainda podemos falar da vida, depois de tê-la aniquilado completamente dentro de nós? Tenho mais estimo pelo homem de desejos contrariados, desgraçado no amor e desesperançoso, do que pelo sábio gélido, de uma impassibilidade orgulhosa e repugnante. Não consigo conceber um mundo mais antipático do que um mundo de sábios. Todos os sábios deste planeta deveriam ser irremediavelmente destruídos para que a vida continuasse a existir assim como é: cega e irracional. (“Verdade – que palavra!”, Nos cumes do desespero)

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Há uma vulgaridade [vulgarité] que nos faz admitir qualquer coisa deste mundo, mas que não é bastante poderosa para nos fazer admitir o mundo mesmo. Assim, podemos suportar os males da vida repudiando a Vida, deixar-nos arrastar pelas efusões do desejo rejeitando o Desejo. No assentimento à existência existe uma espécie de baixeza, à qual escapamos graças a nossos orgulhos e a nossos pesares [regrets], mas sobretudo graças à melancolia que nos preserva de um deslize para uma afirmação final, arrancada de nossa covardia. Há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo? E, no entanto, multiplicamos sem cessar esse consentimento, essa trivial repetição, esse juramento de fidelidade à vida, negado somente por tudo o que em nós recusa a vulgaridade. (“Dualidade”, Breviário de decomposição)

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Tendo vivido e verificado todos os argumentos contra a vida, despojei-a de seus sabores e, mergulhado em sua vileza, senti sua nudez. Conheci a metafísica pós-sexual, o vazio do universo inutilmente procriado e essa dissipação de suor que nos mergulha em um frio imemorial, anterior aos furores da matéria. E quis ser fiel a meu saber, forçar os instintos a adormecer, e constatei que não serve de nada manejar as armas do Nada se não se pode dirigi-las contra nós mesmos. Pois a irrupção dos desejos, no meio de nossos conhecimentos que os invalidam, cria um conflito temível entre nosso espírito inimigo da Criação e o fundo irracional que nos une a ela.
Cada desejo humilha a soma de nossas verdades e obriga-nos a reconsiderar nossas negações. Sofremos uma derrota na prática; no entanto, nossos princípios permanecem inalteráveis. Esperávamos não ser mais filhos deste mundo e eis-nos aqui submetidos aos apetitas como ascetas equívocos, donos do tempo e escravos das glândulas. Mas este jogo não tem limites: cada um de nossos desejos recria o mundo e cada um dos nossos pensamentos o aniquila…
Na vida de todos os dias alternam-se a cosmogonia e o apocalipse: criadores e demolidores cotidianos, praticamos a uma escala infinitesimal os mitos eternos; e cada um de nossos instantes reproduz e prefigura o destino de sêmen e de cinza reservado ao Infinito. (“Cosmogonia do desejo”, Breviário de decomposição)

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Abandono-me ao espaço como a lágrima de um cego. De quem sou a vontade, quem quer em mim? Gostaria que um demônio planejasse uma conspiração contra o homem: me aliaria a ele. Cansado de debater-me com os funerais de meus desejos, teria enfim um pretexto ideal, pois o tédio é o martírio dos quem nem vivem e nem morrem por nenhuma crença. (“Nos funerais do desejo”, Breviário de decomposição)

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 Existe uma relação entre as deficiências de nosso sangue e nosso estranhamento no tempo: tantos glóbulos brancos, tantos instantes vazios… Nossos estados conscientes
não procedem da descoloração de nossos desejos? (Silogismos da amargura)

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Cedo ou tarde, cada desejo deve encontrar seu cansaço: sua verdade… (Silogismos da amargura)

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O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até a morte.  (Silogismos da amargura)

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A menor submissão, nem que seja ao desejo de morrer, desmascara nossa fidelidade à impostura do “eu”. (Silogismos da amargura)

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Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo. (Silogismos da amargura)

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Tinham razão aqueles filósofos antigos que assimilavam o Fogo ao princípio do universo e do desejo. Pois o desejo arde, devora, aniquila: ao mesmo tempo agente e destruidor dos seres, é sombrio e infernal em sua essência. (Le mauvais démiurge)

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Que o desejo seja inextirpável, não há nada de mais certo; ainda assim, que paz só de imaginar estar isento dele! Uma paz tão insólita que um prazer perverso desliza por ela: por acaso uma sensação tão suspeitosa não se converterá em uma vingança da natureza contra aquele que é culpável de aspirar a um estado tão pouco natural? (Le mauvais démiurge)

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Fora do nirvana em vida – façanha rara, extremo praticamente impossível – a supressão do desejo é uma quimera; não se o suprime, se o suspende, e essa suspensão vem acompanhada, muito estranhamente, de um sentimento de poder, de uma certeza nova, desconhecida. Por acaso a voga do monacato, em outros séculos, não se explicaria por essa dilatação que se segue ao refluxo dos apetites? Faz falta a força para lutar contra o desejo; esta força aumenta quando o desejo se retira; detido este, o medo também se detém. Para que a ansiedade, por sua vez, se submeta a semelhante trégua, é preciso ir mais longe, alcançar um espaço muito mais rarefeito, aproximar-se, com uma alegria abstrata, com uma exaltação igualmente concertada, o ser e a ausência de ser. (Le mauvais démiurge)

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Nada mais profundo e incompreensível do que o Desejo. Por isso só nos sentimos viver quando nos desesperamos para destruí-lo. (Le mauvais démiurge)

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Limitar-se ao vazio não é igualmente uma forma de busca? Sem dúvida, mas é buscar a ausência de busca, aspirar a uma meta que suprima de uma vez todas as outras. Vivemos na inquietude porque nenhuma meta saberia satisfazer-nos, porque por cima de todos os nossos desejos, por cima do ser enquanto ser, plana uma fatalidade que afeta forçosamente esses acidentes que são os indivíduos. Nada do que se atualiza escapa à decadência. O vazio – salto para fora dessa fatalidade – é, como todo produto do quietismo, de essência anti-trágica. Graças a ele deveríamos aprender a nos encontrar, remontando-nos às nossas origens, à nossa eterna virtualidade. Por acaso ele não põe um fim a todos os nossos desejos? E o que são estes, em seu conjunto, perto de um instantes apenas em que não perseguimos nem experimentamos nenhum! A felicidade não está no desejo, mas na ausência de desejo, mais exatamente no entusiasmo por essa ausência, na qual gostaríamos de chafurdar, nos abismar, desaparecer, exclamar… (Le mauvais démiurge)

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 Incurável: adjetivo honorífico do qual só se deveria beneficiar uma única doença, a mais terrível de todas: o Desejo. (Le mauvais démiurge)

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O ceticismo é um exercício de desfascinação. Tudo se reduz, em suma, ao desejo ou à ausência de desejo. O resto é matiz. (Le mauvais démiurge)

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“Que eu ainda possa desejar prova que ainda não tenho uma percepção exata da realidade, que divago, que estou a mil léguas do Verdadeiro. ‘O homem’, diz o Dhammapada, ‘é presa do desejo porque não vê as coisas tal como elas são’.” (De l’inconvenient d’être né)

 

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Estar cansado não apenas do que se desejou mas também do que se teria podido desejar.  De todo desejo possível, na verdade. (Écartèlement)

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Epicteto: “A felicidade não consiste em adquirir e gozar, mas em não desejar”. Se a sabedoria se define por oposição ao Desejo, é porque pretende tornar-nos superiores tanto às decepções correentes quanto às decepções dramáticas, inseparáveis, umas e outras, do fato de desejar, de esperar. Especializada na arte de fazer frente aos “golpes da fortuna”, a sabedoria tenta preservar-nos, sobretudo, das decepções capitais. Foram os estoicos que mais longe levaram essa arte. Segundo eles, o sábio ocupa uma posição excepcional no universo: os deuses estão ao abrigo do infortúnio, o sábio está por cima dele, investido de uma força que lhe permite vencer todos os seus desejos, enquanto que os deuses permanecem submetidos aos seus, vivendo ainda na servidão. Como o sábio alcança o insólito, como consegue ser superior aos demais seres? À primeira vista, não parece notar sua situação: está muito acima dos homens e dos deuses, mas deve esperar algum tempo para dar-se conta disso. É compreensível que não lhe seja fácil entender a sua posição, assim também que não nos perguntemos onde e quanto vimos uma anomalia tão prodigiosa, uma semelhante espécie de virtude e orgulho. Para Sêneca, o sábio possui, em relação a Júpiter, o privilégio de poder desprezar as vantagens deste mundo, enquanto que Júpiter não tem nem a oportunidade nem o mérito de desdenhá-las, pois não as necessita e as rejeita desde o princípio.
Nunca o homem foi tão bem considerado. Onde buscar a origem de uma visão tão exagerada? Nascido no Chipre, Zenão, patrono do estoicismo, era um fenício helenizado que, até o fim de sua vida, conservou sua qualidade de meteco. Antístenes, fundador da escola cínica (cuja versão melhorada ou deformada, como se preferir, é o estoicismo), nasceu em Atenas, de mãe trácia. É evidente que há algo de não grego nessas doutrinas, um estilo de pensamento e de vida oriundo de outros horizontes. Poderíamos sustentar que tudo o que atrai e repele numa civilização avançada é produto dos recém-chegados, dos imigrantes, dos marginais ávidos por deslumbrar…, de um bando refinado. Com a chegada do cristianismo, o sábio deixou de ser um exemplo; em seu lugar começou-se a venerar o santo, variedade convulsiva daquele e, por isso, mais acessível às massas. Apesar de sua difusão e de seu prestígio, o estoicismo continuou sendo o privilégio dos refinados, a ética dos patrícios. Desaparecidos estes, devia desaparecer também aquele. O culto à sabedoria seria eclipsado por muito tempo, quase poderíamos dizer que para sempre. Em todo caso, não se encontra em nenhum dos sistemas modernos, todos eles concebidos não tanto por anti-sábios como por não-sábios(Écartèlement)

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Tento imaginar o instante em que vencerei meu último desejo. (Écartèlement)

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“Este mundo não foi criado segundo o desejo da Vida”, diz o Ginza, texto gnóstico de uma seita da Mesopotâmia.
A lembrar sempre que não se disponha de um argumento melhor para neutralizar um desencanto. (Aveux et anathèmes)

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Todo desejo suscita em mim um contra-desejo, de modo que, faça o que eu faça, só conta para mim o que não fiz. (Aveux et anathèmes)

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O que eu sei arruína o que eu desejo. (Aveux et anathèmes)

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