Resenha: “O mundo segundo o jovem Cioran” (Fernando Klabin)

download (1)O Globo (caderno “Prosa”), 01 de março de 2014

Alvíssaras para o crescente, fiel e tenaz grupo dos amantes do pensador Emil Cioran no Brasil. Vertido pela primeira vez para o português pelo professor e filósofo José Thomaz Brum, maior especialista e promotor brasileiro da obra cioraniana, chega a nós, 78 anos depois de sua primeira publicação na Romênia, “O livro das ilusões”.

Esse raro evento editorial vem contribuir com mais uma pérola à realização que muito esperamos testemunhar: a tradução para o português da obra integral do “Diógenes transilvano”. Nos últimos anos a Rocco publicou outras obras do autor, como “Breviário de decomposição” e “Silogismos da amargura”. Juntamente com “Nos cumes do desespero” (Hedra, 2012), “O livro das ilusões” começa a preencher entre nós a lacuna da criação juvenil de Cioran, composta por meia dúzia de volumes em língua romena daquele que mais tarde viria a ser considerado um dos maiores estilistas da língua francesa no século XX.

A empresa de traduzir Cioran, concluída de maneira exímia pelo professor Brum, é difícil e arriscada em grande parte devido à sutileza e à intensidade dos conceitos desenvolvidos pelo autor, febril e literalmente insone quando jovem, em seu romeno materno. Cabe lembrar que a língua romena é tão neolatina quanto a pretensa “última flor do Lácio”, porém marcada por um enriquecedor acréscimo de léxico eslavo, húngaro e turco. Esse aporte reflete boa parte das vicissitudes históricas de seu povo. Os romenos costumam declarar, no seu enraizado estilo de “rir para não chorar” (a face haz de necaz, em romeno), que, nos mais de três mil quilômetros de fronteira estabelecida só em 1878 pelo país, cercado hoje por Hungria, Sérvia, Bulgária e Ucrânia, o seu mais leal vizinho é o Mar Negro.

A dificuldade de tradução já se torna patente no título da obra em questão. “Cartea amăgirilor” foi traduzido, por exemplo, como “The Book of Delusions” e “El libro de las quimeras”. O substantivo romeno amăgire (que pode significar engano, sedução, ilusão, quimera, mentira) está ligado também por sua raiz comum ao verbo a amăgi (enganar, induzir ao mal, atrair com promessas mentirosas). A origem está na raiz latina ammagire, que por sua vez teria bebido nos termos gregos μαγεύω, encantar, e μάγος, mago, feiticeiro… [+]

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Audiovisual: A santidade em Schopenhauer, Nietzsche e Cioran

Conferência do Prof. Dr. José Thomaz Brum (PUC-Rio)

In: VI Colóquio Internacional Schopenhauer/
V Encontro Nietzsche-Schopenhauer: Metafísica e Significação Moral do Mundo
Local: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza, 25/11/2013
Organização: APOENA – Grupo de Estudos Schopenhauer-Nietzsche & Seção Brasileira da Schopenhauer-Gesellschaft

“Notas sobre Cioran e Nietzsche” (José Thomaz Brum)

Fonte: O que nos faz pensar (revista do departamento de Filosofia da PUC-Rio), nº 35, dezembro de 2014 [Pdf]

Resumo: Este artigo procura estudar algumas observações da obra francesa do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) que se referem a Nietzsche, particularmente as relativas à ideia de além-do-homem (Uebermensch).
Palavras-Chave: Cioran; Nietzsche; além-do-homem (Uebermensch); aforismo; ceticismo.

Abstract: This paper aims to study some remarks of Emil Cioran’s French work concerning Nietzsche, particularly the idea of Overman (Uebermensch).
Key-words: Cioran; Nietzsche; overman (Uebermensch); aphorism; skepticism.

Nietzsche foi um ídolo para Emil Cioran, segundo suas próprias palavras . Tendo praticado o filósofo alemão na juventude, Cioran deixou-se impregnar por esse pensamento orgânico, assistemático, fragmentário que consegue abarcar todas as nuances da experiência humana. Se, por vezes, Cioran é considerado um “Nietzsche contemporâneo” (como afirma o seu biógrafo Gabriel Liiceanu), pode-se igualmente afirmar que o seu “ídolo de juventude” foi criticado várias vezes em sua obra. Nosso trabalho procurará expor algumas reflexões cioranianas sobre Nietzsche que estão dispersas em sua obra francesa, do Breviário de decomposição (1949) aos Cahiers (1997).

No célebre Breviário de decomposição, o livro de Cioran “mais famoso e mais representativo”, Nietzsche é citado como aquele que produziu “verdades de temperamento” . Em Nietzsche, assim como em Kierkegaard, a filosofia se mistura à “confissão”, um “grito da carne” se torna pensamento, e o filósofo revela o temperamento que o constitui. Segundo Cioran, Nietzsche não é propriamente um “filósofo”, mas um “pensador”, no sentido da frase de Ecartèlement (1979): “os filósofos escrevem para os professores, os pensadores para os escritores”. Mas Nietzsche é descrito também como aquele que “nos cativa por suas incompatibilidades”. E Cioran sublinha o que considera “o divórcio de suas opiniões e suas tendências”: “Nietzsche, cuja obra inteira não passa de uma ode à força, arrasta uma existência raquítica, de pungente monotonia”. Aliás, devemos observar que Cioran aprecia realmente em Nietzsche esse “desacordo entre sua vida e seu pensamento”. É essa contradição que torna Nietzsche interessante, moderno… [+]

“Música e ceticismo em Cioran” (José Thomaz Brum)

Artigo publicado em Revista de Arte, Rio de Janeiro, v. 1, n.2, 1995.

“Oh, você também ama esta música? Então muitos pecados lhe serão perdoados!” — Nietzsche —”Conversação sobre a Música”, Aurora, 255.

Existe um pensador contemporâneo, de textos corrosivos e embebidos de um ceticismo exaltado, que vê na música a ocasião para uma temporária “clareira” em seus anátemas de beleza sombria. Refiro-me ao romeno E. M. Cioran em cujos aforismos encontramos, de maneira dispersa mas insistente, a relação entre música e filosofia que o aproxima de Schopenhauer e Nietzsche.

Na verdade, ninguém mais indicado para nos introduzir na encruzilhada música/filosofia do que Nietzsche que, numa carta a Peter Gast, dizia: “a vida sem música é apenas um erro, um trabalho fatigante, um exílio”. Na carta, referia-se também aos efeitos salutares de uma certa música, Carmen de Bizet, sobre sua alma ávida de “limpidez” e “alegria serena”. Carmen, como diria depois em O Caso Wagner, tornava-o “mais filósofo, melhor filósofo”. Isto quer dizer que a música, ou uma certa música, pode constituir uma via para a sabedoria, para uma experiência de encontro entre o instante e a plenitude.

O prestígio da música entre os filósofos tem uma história antiga. O neo-pitagórico Jâmblico (250-330) definia a purificação como “uma medicina que se exerce pela música”. Na República, Platão, embora temeroso em relação aos efeitos desmoralizantes da “embriaguez musical”, reconhece que ela “penetra no interior da alma” e procura uma música de valor moral e edificante para a Pólis. Encontra-a nos modos chamados dórico e frígio, escalas austeras pelas quais a música se torna um exercício de exaltação cívica e moral. O grande perigo da música, para Platão, seria o de se tornar “a voz das Sereias” que desvia Ulisses, retardando a odisséia do homem com um canto enganador, uma sedução que leve ao desregramento e ao extravio. Ela deve, ao contrário, imitar uma ordem anterior ao sensível; ser uma transposição da ordem cósmica ao nível da sensibilidade.

Plotino acreditava que a música é de um outro mundo, que seu encantamento fala da harmonia inefável, indício de um paradigma transcendente. S. Agostinho a considerava expressão de um “canto interior”, de uma vibração íntima exprimindo a nostalgia de nossa origem divina. Sua obra De Musica, um diálogo no estilo platônico, é esta visão da arte musical como reveladora da divindade em nós.

Entre os modernos, Hegel, na sua Estética, transforma a música numa aparição do Espírito, numa abstração onde algo fala, algo se expressa, mas nunca a própria música, esta “música inocente (unschuldige Musik) que pensa exclusivamente em si, só acredita em si, e esqueceu o mundo em benefício de si”.[1] É com Schopenhauer, e sua paródia da fórmula leibniziana da música como “exercício aritmético oculto”, que a música encontra uma função vital. Metafísica se quiserem, mas vital. Com ele, esta linguagem à parte torna-se demonstração da vida, exibição da existência: “O que é a vida? — Para esta questão (…) a música também fornece sua resposta, e mais profunda mesmo que todas as outras, pois, numa língua imediatamente inteligível, embora intraduzível na linguagem da razão, exprime a essência íntima de toda a vida e de toda a existência”.[2]

A música não expressa nenhum outro mundo, ela encanta e, enquanto dura, revela — como um oásis — a voz que põe em surdina o que Vladimir Jankélévitch chama de “tagarelices vãs”.[3] Mescla de sons e silêncios penetra no tempo da realidade cotidiana, impõe seu tempo próprio, sua duração soberana e, inocentemente, como um “silêncio audível”, “esquece o mundo em benefício de si”.

Em Lacrimi şi SfinÅ£i, texto de Cioran publicado em 1937, a temática da música está misturada a uma crise religiosa da qual o autor só saiu, nas obras seguintes, para abraçar uma “espiritualidade ateísta” ou uma espécie de budismo laico onde o Nada seria a razão de suas preces: “só os êxtases sonoros me dão uma sensação de imortalidade”. A música (Bach) lhe parece “geradora de divindade” e o som do órgão “uma cosmogonia”. Esta associação intrínseca entre música e mística é melhor expressa quando afirma: “a música é a emanação final do universo, assim como Deus a emanação última da música”. Ironia nostálgica a de Cioran quando, nos Silogismos da Amargura, diz que “sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto… o nada peremptório” ou “se existe alguém que deve tudo a Bach, este alguém é Deus”. Último reduto do sagrado, ou do supremo como gosta de dizer, a música permanece humana, alojada neste mundo e “só existe enquanto dura a audição, assim como Deus enquanto dura o êxtase”.[4]

Mas ela é estado particular, e mesmo um cético que pretende viver sem se deixar imobilizar pelas crenças que sustentam a vida, reconhece-lhe o poder: “fora da música, tudo é mentira, mesmo a solidão, mesmo o êxtase”.[5] Tal é o privilégio do “fantasma sonoro”, cujo caráter impalpável e inefável só faz aumentar-lhe a influência, a potência encantatória.

Em sua primeira obra escrita em francês, Breviário de Decomposição (1949), Cioran demarcou sua destrutiva atividade de cético de sua aceitação da ilusão musical, “a fusão que faz esquecer todas as outras”.[6]

Em um texto esclarecedor intitulado “Música e Ceticismo”, escreve: “renunciei a buscar a Dúvida na música; ela não poderia florescer lá. Ignorando a ironia, ela não procede das malícias do intelecto, mas das nuanças suaves ou veementes da Ingenuidade — tolice do sublime, irreflexão do infinito…”.

Cioran sempre considerou sua atividade intelectual como “um exercício de desfascinação”. O ceticismo de seus livros quer revelar a incurável “pobreza” e “insignificância” da existência. Sabe que o fanatismo habita toda idéia animada pelo homem, este “idólatra por instinto”. A existência e sua “imunda fragilidade” é recoberta por crenças cujo fundo inconsistente um espírito lúcido deve denunciar. Apaixonado pelos místicos mas incapaz de fé, Cioran encontra na música, “ficção infinitamente real”, um absoluto onde vê transcrita “a arquitetura de nossas fragilidades”.

Sua adoração por Bach, compositor que traduz “a vibração interior de Deus”, revela como, dispensando a crença em Deus, não dispensou o desejo de se perder no tempo incólume da música, a qual admira como “disciplina da dissolução”, última (e única) forma de experimentar o vazio pleno da ausência de divindade.

Já que “a arte suprema e o ser supremo dependem inteiramente de nós”,[7] Cioran parece amar na música esta positividade temporal exaustiva que contrasta com a negatividade limitada do pensamento e da filosofia: “só a música nos dá respostas definitivas”,[8] só ela nos permite “apalpar o tempo” e, diríamos, sugerir o estado considerado perfeito para Cioran: a “pura possibilidade”, “a época em que não tínhamos nome”, o “êxtase anônimo”.[9] Assim como Nietzsche, ele sabe que a música é “imprópria ao diálogo” mas que, por isso mesmo, proporciona uma comunhão imediata: “Só a música é capaz de criar uma cumplicidade indestrutível entre dois seres”.[10]

Seu último livro, Aveux et Anathèmes (1987), traz revelações importantes no tocante à relação entre filosofia e música. Se o pensador cético busca a desfascinação, a música pode contestá-lo: “Em Saint-Séverin escutando, ao órgão, A Arte da Fuga, eu me dizia e redizia: ‘Eis a refutação de todos os meus anátemas’.” Refutação não discursiva bem entendido, no que apresenta uma via de acesso àquela “plenitude sem conteúdo”, o que nos restou do Deus desaparecido.

Para este nostálgico de um “paraíso anônimo”, a música certa não poderia ser a alegria límpida de um Offenbach ou a sensualidade da Carmen louvada por Nietzsche. Sua aspiração ao Nada, ao “encanto estéril da monotonia” iriam conduzi-lo a Brahms, ao que chamou, nos Silogismos da Amargura, de “geometria de outonos, álcool de conceitos, embriaguez metafísica”. Este espírito noturno, mas nem por isso menos arrebatado, considera que “só o que incita ao desfalecimento merece ser ouvido”.[11]

Se, para Nietzsche, a vida sem música seria “apenas um erro”, para Cioran a música não significa a verdade do Cosmos ou a expressão de uma harmonia matemática ou íntima entre o mundo e o homem. “Charlatanismo inefável”, ela não aponta para nenhum além misterioso. Dominadora, impositiva, “inocente” como queria Nietzsche, a música parece ser aquele contraponto ao ceticismo em que “não há nada a compreender, nada a concluir, e que, sem palavras, nos fala de nosso destino”.[12]

[1] Friedrich Nietzsche – Morgenroete, 255

[2] Arthur Schopenhauer; Die Welt ais Wille und Vorstellung, “Ergaenzungen zum Dritten Buch“, capítulo 34.

[3] Vladimir Jankélévitch – La Musique et l’Ineffable, capítulo 4.

[4] E. M. Cioran РAveux et Anath̬mes.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] E. M. Cioran – Des larmes et des Saints (tradução francesa do original romeno Lacrimi şi SfinÅ£i)

[9] E. M. Cioran – De l’Inconvénient d’Être Né.

[10] E. M. Cioran РAveux et Anath̬mes.

[11] Idem.

[12] Vladimir Jankélévitch – La Musique et l’Ineffable.

“O amargo saber de Cioran” (José Thomaz Brum)

Texto publicado em O Globo, domingo, 10 de fevereiro de 1991

É uma ironia e um estranho acaso o fato de ser publicado um livro de Cioran (“Silogismos da amargura”, editora Rocco, 98 pags. Ainda sem preço) em um momento em que a humanidade — mais uma vez — põe em cena o único personagem imutável de sua história: a Guerra. Não é ele quem considera a História uma absurda sucessão de bancarrotas ridículas? Não é ele que, apaixonadamente, reflete sobre essa criatura fracassada que é o homem e pensa sua existência como “uma agonia sem desenlace”? Um cenário sombrio como o da Guerra do Golfo Pérsico faz um irônico à filosofia deste pessimista que maneja aforismos com a perfeição dos grandes moralistas.

Nascido em uma aldeia da Transilvânia em 1911, Cioran descende dos antigos Dácios, povo cujo grito existencial pode ser traduzido na voz do poeta Mihail Eminescu: “Tudo é apenas nada e assim somos nós, apenas pó”. O pessimismo de Cioran é temperado por um ceticismo que visa a conservar no homem uma angústia inconsolável, único meio, segundo ele, de não nos refugiarmos em qualquer abrigo idealista. Tendo escrito cinco livros em romeno (o primeiro, “Nos cumes do desespero”, só foi publicado em francês no ano passado), foi a partir do “Breviário de decomposição” (1949) que Cioran se tomou um prosador e pensador propriamente ocidental. O “Breviário” expõe da forma mais nítida a filosofia cioranesca: o homem é uma criatura decaída, presa na duração e na angústia que dela decorre. Sua dor maior não é apenas a morte, à qual está inevitavelmente destinado, mas o sufocamento na insignificância e no efêmero. Açoitado pela doença e pela precariedade corporal, o animal humano possui uma alma ávida de voos eternos, mas que recai sempre em um calabouço verbal onde reside com seus fantasmas e ilusões. Este paradoxo encarnado se engaja em campanhas em nome de ideais, procura impô-los aos outros, entusiasma-se em convencer e impor verdades. Daí a História, essa ânsia de primar e prevalecer, de fugir de nossa condição miserável, “esse dinamismo das vítimas”.

A filosofia existencial de Cioran não deve ser contundida com a “segunda geração existencial” (Heidegger, Sartre, Camus), mas sim com os “pensadores privados” (Nietzsche, Dostoievski, Chestov), que procuram conservar no homem a kierkegaardiana “síncope da liberdade”, a angústia que não deve ser resolvida por nenhum ideal sob pena de perdermos a grande riqueza humana: sua recusa a tudo o que busca aplacar o abismo interior por qualquer falso consolo ou transcendência. Reconhece-se aí o espaço cioranesco: se a História, com seu devaneio sanguinário, procura calar as “tagarelices do existente particular”, o indivíduo deve agarrar-se a seu irredutível nada, fazer valer o subterrâneo de Dostoievski e o abismo de Pascal contra qualquer conciliação ou apaziguamento existencial. Esta opção pela “inquietude incessante” marca a filosofia de Cioran assim como dois grandes temas que perpassam a sua obra: um, teológico, o Demiurgo perverso que, incapaz de permanecer na “beatitude da inação”, criou o mundo e ocasionou o Mal. Outro, histórico, a decadência inexorável da civilização ocidental.

Estes dois temas caracterizam o alcance do pensamento de Cioran que procura abarcar, com uma escrita aforística, o arco conceitual que vai do individuo irredutível ao “homem agente da História”. O tema do Demiurgo perverso, presente na tradição gnóstica como interpretação herética da origem do mal no Mundo, está desenvolvido no livro “Le mauvais demiurge” (1969). “Devemos”, diz Cioran, “admitir que o Mal governa o mundo e que o demônio tem grande familiaridade conosco, por seus paradoxos e contradições. A imagem teológica é utilizada para ilustrar a frase pessimista: “A injustiça governa o Universo”. A decadência do Ocidente, tema já abordado por Spengler, ganha em Cioran uma nova dimensão. Filho do esfacelado império austro-húngaro, o transilvano Cioran pode dizer com sinceridade: “Na Europa, a felicidade acabou em Viena. Depois disso, maldição atrás de maldição”. As duas guerras mundiais, a desagregação operada pelos totalitarismos, o recente “fim do comunismo”, os emergentes conflitos nacionalistas, tudo isso descreve um panorama histórico marcado pela desolação.

“Silogismos da amargura”, texto de 1952, na época de sua publicação na França, foi “um fracasso extraordinário”, segundo palavras do próprio autor. O editor da tradução alemã considerou-o “superficial” e indigno do autor do “Breviário de decomposição”. Vinte e cinco anos depois, os “Silogismos” foram reeditados em edição de bolso e tornaram-se “uma espécie de breviário” para os jovens europeus, sobretudo na Alemanha — que acaba de editar suas obras completas. Este livro compreende um conjunto de aforismos sobre temas diversos (literatura, filosofia, religião. história), e seu tom constante é o de um ceticismo desesperado, uma voz lúcida que extravasa amargor e ironia. Sintoma de uma crise, o livro pode ser lido com melhor proveito em épocas de crise, coletiva ou individual, onde a incerteza e a ansiedade parecem reinar sobre as esperanças humanas.

Vivemos em uma atmosfera propícia para compreender os ensaios refinados deste romeno apátrida. Se o fim do século passado teve o classicismo noturno do irritadiço Schopenhauer, nosso fin de siècle devastado por tanta miséria, guerras e idolatria tecnológica possui o seu “cético de plantão” na figura de Cioran. Na Romênia, só agora se planeja uma edição de suas obras completas. O regime de Ceausescu expurgara a produção de um dos três romenos mais influentes na cultura ocidental contemporânea (os outros dois são Mircea Eliade e Ionesco).

Se a guerra é o personagem inalterável da História, então o homem parece confirmar a definição da Cioran: criatura fracassada e ávida de mais fracasso. A “justiça” dos homens legitima o horror das carnificinas e lhes dá o verniz hipócrita do “direito de matar”. Talvez agora se entenda o “niilista” quando focaliza o olhar nas vitimas e não nos vencedores odiosos. Expressando a consciência dilacerada de sua época (assim como Beckett), Cioran manifesta em seus aforismos uma aversão à “idolatria do devir” e às superstições do progresso. Dirigindo sua atenção para o indivíduo particular, entregue a suas misérias e êxtases anônimos, ele não vê nenhuma grandeza na História, “essa ilusão sanguinária”. O homem, tantas vezes vilipendiado pela pretensa “seriedade da História”, é — paradoxalmente — celebrado por este “fanático sem credo”. Quando Cioran escolhe como tema a criatura humana e seu corpo-a-corpo com a finitude, com o nada e com a morte, ele a exalta em sua precariedade que nenhuma ficção histórica podara “resolver”.

Mariana Sora, romena, ex-aluna de Mircea Eliade, tem razão ao dizer que “há em Cioran um grande amor pelo ser humano” pela relatividade de seus “pobres valores”. Roland Jaccard, em recente livro sobre o niilismo, afirma que os aforismos de Cioran são “dedos apontados para o nosso mundo agonizante”. Estranha coincidência que faz com que a História forneça mais um exemplo desta agonia, desta negação do Bem e da Justiça. Em épocas de crise, corre-se a profetas e cartomantes. Nostradamus previu o que vivemos? É o fim do Mundo? Não, diz Cioran nos “Silogismos”. É a nossa ansiedade que, “ávida de desastres iminentes”, projeta o apocalipse em cada impasse histórico ou pessoal. O pensamento de Cioran, com sua lucidez feroz, nos faz ver em nossos impasses e crises fontes de autoconhecimento e reflexão.

José Thomaz Brum é professor de Filosofia na PUC e tradutor de três livros de E. M. Cioran.

Os terrores e delícias de uma alma demasiado musical: “O Livro das Ilusões”, de Emil Cioran

O Livro das Ilusões deixa transparecer uma experiência densa e dolorosa, temperada por elãs líricos e transes místicos. Um caminhar fragmentário e extático revela um jovem leitor de Nietzsche fascinado ora por Barrès, ora por Gide.

José Thomaz BRUM (do prefácio do livro)

Se leio tanto, é na esperança de um dia encontrar uma solidão maior do que a minha.

CIORAN, Cahiers: 1957-1972

Saiu no Brasil, em 2014, mais um título de Emil Cioran. O livro das ilusões (“Cartea Amărgirilor” no original em romeno, “Le Livre des Leurres” em francês) é, cronologicamente, o segundo escrito no conjunto da obra do pensador romeno, e também o segundo título de sua produção romena a ser publicado por aqui, apenas dois anos após o lançamento de Nos cumes do desespero (Hedra, 2012). A tradução, rigorosamente atenta ao espírito da letra cioraniana, mais uma vez fica por conta de José Thomaz Brum, maior conhecedor brasileiro da obra deste autor romeno.

À parte as correspondências temáticas com o livro de estréia (o desespero, a melancolia, a tristeza, a solidão, o êxtase, o sofrimento, a loucura, o demoníaco, a transfiguração), este Livro das ilusões, escrito em 1935 e publicado em 1936 na Romênia, se destaca pela acentuação de um lirismo discursivo já presente no texto anterior, e pela pungência de um pensamento que se pretende, mais do que nunca, musical, em detrimento de todo conceitualismo fenomenológico e abstrato (característica sensível de Nos cumes…). Enfim, um livro inspirado, cantado, chorado, rido, uivado; a expressão de uma alma transbordante de paixão, sofredora e jubilosa, frenética, extática – uma alma que não cabe em si mesma de tanta volúpia, de tanta sensualidade, tamanha sua sede de experiências limítrofes e transfiguradoras.

Um jovem romântico “possuído” pelo espírito da música (seu paradigma de existência) e animado pela verve poética, portador de uma linguagem lírica, pulsante, vibrante, melódica, viva… Não há aqui, como encontraremos em seus livros franceses (os Silogismos da amargura, por exemplo), nenhum princípio de laconismo, nenhuma vontade de concisão, muito pouca ironia; em vez disso, uma profusão de sentimentos — uma melancolia exaltada, um dilaceramento jubiloso, uma agonia torrencial, enfim, um estado de espírito em que tristeza e alegria se encontram e se con-fundem. Cumpre lembrar que, assim como o anterior, este segundo livro foi gestado sob os efeitos transfiguradores de uma insônia que consumiu o jovem romeno, a partir da adolescência, até “os cumes do desespero”, e à qual ele atribuiria sua visão lúcida das coisas, isto é, uma forma peculiar de lucidez (ou clarividência) que ele reivindicará para si para o resto de sua vida.

Uma questão – filosófica entre todas – a atravessar o texto é a que concerne ao princípio de individuação, tão sofrível para este jovem pensador insone, em contraposição ao que seria para ele certa indiferenciação primordial no seio do ser puro, anterior à existência individual a que aspira nostalgicamente o autor. Cioran medita sobre “o maior dos pesares”, ou seja, “o pesar de não se ter realizado em mim a vida pura, […] que a vida não seja cântico, entusiasmo e vibração […].” (p. 14-15) A individualidade e a corporeidade são aqui problematizadas, postas em questão por um espírito que se sente prestes a arrebentar de tanto dinamismo, de tanta intensidade, de tanta superabundância. A insônia aporta a Cioran a sensação de não poder mais viver dentro dos limites da própria individualidade, a sensação de que é necessário absorver a totalidade do ser e por ele ser absorvido. Nada mais análogo ao “sentimento oceânico” de que fala Sigmund Freud em Mal-estar na civilização, e que estaria, segundo o austríaco, na base de toda religiosidade humana (o desejo de tornar-se um com o todo). Assim, na primeira parte do livro, “Êxtase musical”, lemos:

O estado musical associa, no indivíduo, o egoísmo absoluto com a maior das generosidades. Queres ser só tu, mas não por um orgulho mesquinho, mas por uma suprema vontade de unidade, pela ruptura das barreiras da individuação, não no sentido de desaparição do indivíduo, mas de desaparição das condições limitativas impostas pela existência deste mundo. Quem não tenha tido a sensação da desaparição do mundo, como realidade limitativa, objetiva e separada, quem não tenha tido a sensação de absorver o mundo durante seus êxtases musicais, suas trepidações e vibrações, nunca entenderá o significado dessa vivência na qual tudo se reduz a uma universalidade sonora, contínua, ascensional, que evolui para o alto em um agradável caos. (p. 8)

Assim como no caso dos demais livros romenos de Cioran, este Livro das Ilusões tem o mérito de apresentar ao leitor os precedentes intelectuais daquele que se tornaria conhecido como um dos grandes estilistas de língua francesa do século XX, conhecido também como um “cético a serviço de um mundo agonizante” (Aveux et Anathèmes, 1987). Um pensador até então nem um pouco cético: eis o Cioran antes de E.M. Cioran, o jovem pensador romeno em pleno processo de formação intelectual, o discípulo apaixonado de Nietzsche anterior àquele que se tornaria um pensador cansado e desiludido – o cético-niilista autor de breves aforismos em francês. O Livro das ilusões fornece diversas chaves para compreendermos tanto o que permanece quanto o que muda, no pensamento de Cioran, na transição do romeno para o francês que marca sua trajetória intelectual.

A começar pelo papel da insônia, da qual este livro proporciona uma nova perspectiva, mais poética e menos fenomenológica do que aquela apresentada em Nos Cumes…. As febres da insônia, durante as quais a escrita se faz uma questão de vida ou morte, não poderiam deixar de tingir suas páginas com as marcas do calor, tal como, em seu crepúsculo, Cioran recordaria: “Não escrevi uma linha na minha temperatura normal” (“Confissão resumida”, em Exercícios de admiração, p. 123). Um princípio de criação que já está manifesto no Livro das Ilusões: “E, se não quereis ver no entusiasmo vossa única riqueza, aprendei então a pensar na febre, a ter pensamentos ardentes, a extrair vapor das ideias. Que a febre seja a condição natural de vossos pensamentos.” (CIORAN 2014: 76). De onde a recorrência sensível de metáforas relacionadas ao elemento fogo: chamas, brasas, incandescência, ardor… com efeito, pode-se sentir o calor que emana do pathos de amor e de sofrimento com que o livro foi escrito. Na França, por sua vez, uma vez tendo descido e se afastado dos cumes do desespero, aos quais a insônia o lançara, Cioran adota como que uma “camisa-de força”, um dispositivo de contenção das paixões (que a própria língua francesa lhe proporciona) que se traduz, estilisticamente, na forma de um laconismo, de uma secura, de uma frieza, por assim dizer, discursivas. A propósito, o que distingue, em matéria de estilo, este jovem autor daquele mais velho, radicado na França, é o paroxismo verbal, a embriaguez lírica, a expressão apaixonada e efusiva, aquilo que Nicolas Cavaillès descreve como um “jorro textual intuitivo” e, num certo sentido, “bárbaro” (Le Corrupteur Corrompu: barbarie et méthode dans l’écriture de Cioran[1]), em contraste com o classicismo formal e com a brevidade discursiva que predominam em sua escritura francesa.

Do sofrimento – este é um tópico interessante para acompanharmos a evolução do estilo e do pensamento de Cioran entre suas fases de juventude e de maturidade. No Livro das Ilusões, ele anota: “Só o sofrimento muda o homem. Todas as outras experiências e fenômenos não conseguem modificar essencialmente o temperamento de ninguém nem aprofundar certas disposições suas a ponto de transformá-las completamente. (p. 25) E em Aveux et Anathèmes (1987): “É o sofrimento, e não o gênio, unicamente o sofrimento, o que nos permite deixar de ser marionetes.”

Outro ponto de reflexão que também estará presente nos livros posteriores, como um tema que Cioran revisitará por perspectivas variadas, é a oposição entre espírito (ou consciência) e vida, correspondendo à cisão irremediável entre o homem e o mundo, entre o eu subjetivo e a alteridade que o transcende objetivamente. Trata-se de um dualismo – trágico – intimamente ligado à problemática da individuação que tanto preocupa o autor. A insônia é responsável por acentuar a consciência desta oposição/cisão/dualidade, produzindo uma hiperconsciência da morte em vida que é, por sua vez, geradora de angústia, sofrimento e, por fim, de uma solidão infinita. Espírito (locus do conhecimento) e vida (locus da existência) não caminham juntos, não se identificam, de onde o drama fundamental do ser humano: encontrar-se dividido entre a vida e o conhecimento, princípio de morte (intui-se quanto o jovem Cioran apaixonado por Nietzsche é ao mesmo tempo tão diferente de Nietzsche). O tema é revisitado em História e Utopia (1960): “Nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente à nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.” E também em La Chute dans le Temps (1964), o livro seguinte, desta vez revisitado pela perspectiva teológica (bíblica) do pecado original: o erro originário do homem (do qual não podia escapar, pois é o seu fatum) é haver preterido a vida a favor do conhecimento do bem e do mal. O que interessa a Cioran antes de tudo é a Vida, e esta se encontra em oposição irredutível ao ato de conhecer que é característico do homem. Seu lamento por saber-se um herdeiro dessa escolha maldita feita por nosso “primeiro ancestral” já se faz manifestar neste Livro das Ilusões.

Tudo gira em torno da música neste livro. E da tristeza de não poder ser “a vida pura“, de não poder ser música, enfim, de ser indivíduo. A música como possível escapatória ao sofrimento causado pela solidão de ser indivíduo, de estar apartado do todo em função da autoconsciência separadora. A música é o paradigma estético a que Cioran recorre para moldar seu pensamento e sua escritura; na ausência da fé religiosa, na incapacidade de salvar-se em Deus, ele busca a salvação na música, a mais pura das expressões artísticas. Pois “a música, ao tornar sutil a matéria, ao anular-nos como presença física, nos torna etéreos.” A divisa cioraniana de sempre: “como suportar a si mesmo”, como existir estando consciente de sua limitação, de sua relatividade, de sua insuficiência essencial? Uma vez mais: consciência e vida compõem um casamento fadado ao fracasso, à morte. Por isso, “os raros momentos em que lamentamos estar distantes da música só fazem despertar em nossa consciência a fatalidade de nossa limitação espacial e temporal, de nossa distância com relação ao mundo. (p. 38)

O ideal é poder se repetir, como Bach.” (Aveux et Anathèmes)

De onde a importância absoluta da música para o autor romeno. Sem ela, é possível que se tivesse suicidado bastante cedo. Mas eis que a música é o seu suporte, o seu alimento, o seu modelo de ser e de escrever. Pois para ele o que importa não é produzir, não é criar uma obra, mas desenvolver, criar o ritmo próprio, recorrendo para isso à escrita: oportunidade de conciliar e harmonizar, na medida do possível, vida e pensamento. Por isso é que a obra cioraniana não tem nenhuma pretensão de novidade ou mesmo de utilidade teórica, pedagógica, humanística, já que é o produto de sua luta pessoal com e pela a existência, com o ser e o não-ser, com a vida e a morte – ele, que se sente condenado desde jovem a uma “lucidez vertiginosa que converteria o paraíso num centro de tortura.” (Nos cumes do desespero, p. 15) Já que não podemos não pensar, já que estamos condenados a isso, e que “os pensamentos mais profundos e mais preciosos para nós são aqueles pelos quais lamentamos carecer de lágrimas” (p. 46), a solução encontrada por Cioran foi transmutar os pensamentos em melodias, em notas musicais, desenvolvendo uma escritura musical que lhe permite expressar-se na forma de canto. Um canto elegíaco, com efeito, sublime e triste, já que a “tristeza é a poesia do pecado original…” (Breviário de decomposição)

Não podendo ser música, Cioran se resignou a imitá-la em sua escritura elegíaca, nessa “filosofia lírica”, “filosofia dos momentos únicos” (La Tentation d’éxister) que é uma meditação sobre o próprio destino, a criação do próprio destino. A escritura cioraniana pode ser lida como um conjunto de variações sobre o mesmo tema: os êxtases musicais experimentados, e dos quais seus escritos buscam registrar os ecos, as lembranças. Não é um livro que tenho diante de mim, mas a alma mesma do pensador que seguro em minhas mãos, pulsante, oscilante, vibrante, melodiosa, rítmica –  segundo um ideal de escritura que busca reduzir a zero o intervalo entre ser e pensar. Os livros de Cioran estão mais para artefatos materializados a partir de suas lágrimas nostálgicas. Como anotou numa entrevista sua companheira, Simone Boué, nenhuma expressão melhor para resumir o essencial do pensamento de Cioran do que o título de uma coletânea de artigos de sua fase de juventude que seria publicada postumamente, na França: “Solidão e destino”. Uma alma louca de paixão, de amor pela vida, uma alma dilacerada por desejar, por necessitar mesmo, mais do que a vida poderia lhe dar. Cioran, doente de um amor impossível, eternamente irrealizável. E termino com esta confissão extraída de uma entrevista ao filósofo espanhol (e grande amigo de Cioran), Fernando Savater: “Meus livros não são nem depressivos nem deprimentes. Eu os escrevo com furor e com paixão. Se meus livros pudessem ser escritos a sangue frio, seria perigoso. Mas não posso escrever a sangue frio, sou como um enfermo que, em todo caso, supera febrilmente sua enfermidade.”

Rodrigo I. R. Sá Menezes, 06/04/2014

[1] http://www.fabula.org/actualites/nicolas-cavailles-le-corrupteur-corrompu-barbarie-et-methode-dans-l-ecriture-de-cioran_12840.php

As delícias do absurdo

Primeiro livro de Cioran ganha tradução feita diretamente do romeno

Manoel da Costa Pinto, Folha São Paulo, 08/04/2012

Em 2011, o centenário de nascimento de Emil Cioran foi comemorado com relançamentos pela editora Rocco: “Breviário de Decomposição” (1949), “Silogismos da Amargura” (1952), “História e Utopia” (1960) e “Exercícios de Admiração” (1986). 

Tais livros cobrem a fase madura do pensador romeno, quando ele adota o francês como idioma filosófico, deixando de lado os escritos de juventude. Essa lacuna começa a ser preenchida com o lançamento do livro de estreia, “Nos Cumes do Desespero”, publicado em 1934 e agora traduzido do romeno por Fernando Klabin.

Trata-se de livro fundamental para compreender as tensões internas da obra de Cioran. Afinal, sua “conversão linguística”, com “Breviário de Decomposição”, significou também o abandono dos ímpetos irracionalistas de “Nos Cumes do Desespero”, em nome de uma perspectiva cética, inclemente com utopias e dogmas.

Com sua escrita nervosa, oscilando entre o “spleen” romântico e o apelo às “forças irracionais da existência”, “Nos Cumes do Desespero” se inscreve no pensamento vitalista, que percebe a cisão entre o sujeito e uma totalidade perdida (de fundo mítico-religioso) e acusa toda a tradição filosófica de se refugiar na abstração.

Essa retórica do “caos primordial”, do êxtase vivido por uma elite espiritual apartada das massas e dos intelectuais de salão, explica as simpatias de Cioran por ideologias de extrema direita nos anos 1930.

A ironia trágica de “Nos Cumes do Desespero”, porém, já anuncia sua posterior renúncia a doutrinas de reforma social e sua entrega às “delícias do absurdo”. No prefácio à tradução francesa do livro (reproduzido na edição brasileira), Cioran diz ter encontrado na escrita a salvação para a insônia que o fazia vagar pelas noites de Sibiu, na Transilvânia: tinha início aí uma mitologia pessoal em que a “lucidez vertiginosa” e a “vigília ininterrupta” engendram o cético, triunfando sobre as “vertigens do apocalipse” do jovem que sonhava acordado com a agonia do mundo.

Conexões

LIVRO
NOS CUMES DO DESESPERO ****
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: Fernando Klabin
EDITORA: Hedra (154 págs., R$ 38)

LIVROS SILOGISMOS DA AMARGURA ***
Os pensamentos concentrados em frases breves e lapidares servem de contraponto ao jorro retórico da fase romena de Cioran.
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: José Thomaz Brum
EDITORA: Rocco (2011, 112 págs., R$ 19)

AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO **
Interlocutor de Cioran, o pensador romeno se manteve fiel à perspectiva antimoderna de uma sabedoria antiga.
AUTOR: Constantin Noica
TRADUÇÃO: Fernando Klabin e Elena Sburlea
EDITORA: BestBolso (2011, 192 págs., R$ 14,90)