“Carta a propósito de certos impasses” (E.M. Cioran)

VOCÊ CENSUROU muitas vezes em mim aquilo a que chama o meu “apetite de destruição”. Saiba, porém, que eu nada destruo: registo, registo o iminente, a sede de um mundo que se anula, e que, através da ruína das suas evidências, corre em direcção ao insólito e ao incomensurável, em direcção a um estilo espasmódico.…

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“Misticismo ateu” (John Gray)

“Tentarei de novo dizer o indizível, expressar com palavras pobres o que tenho de dar aos devotos infiéis do misticismo nominalista, do misticismo cético […] O mundo não existe duas vezes. Nao existe um Deus separado do mundo, nem um mundo separado de Deus. Esta convicção tem sido chamada de panteísmo. […I Por que não?…

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“Eugène Ionesco: o útil é um peso inútil” (Nuccio Ordine)

E, ao contrário, para uma humanidade que perdeu o sentido da vida, Eugène Ionesco dedica reflexões extraordinárias, hoje mais atuais do que nunca. Numa conferência proferida em fevereiro de 1961, diante de outros escritores, o grande dramaturgo reafirma em que grau a insubstituível inutilidade é necessária: Observem o ritmo alucinado das pessoas pelas ruas. Não…

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Fanatismo e animosidade, ceticismo e urbanidade (Emil Cioran)

Só existe humanidade no clima benévolo e compreensivo das dúvidas. Envolvendo a alma e o mundo numa doce inanição interminável, elas nos defendem da brutalidade dos credos e da intolerância inerente a qualquer delírio. É verdade que o fanatismo é o motor da história, mas o ritmo que impõe aos acontecimentos e aos homens se…

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Razne, um dos últimos escritos romenos de Cioran, prefiguração de sua obra francesa

Razne, escrito entre 1945 e 1946, é um dos últimos escritos de Cioran ainda em romeno, já vivendo há anos na França. Foi traduzido ao francês como Divagations, em italiano como Divagazioni e em espanhol como Extravíos. Um texto importante pela posição que ocupa no conjunto da obra: livro de transição entre a escrita em…

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“A Romênia entre a História e a Europa” (Tony Judt)

A edição de fevereiro de 2000 da revista masculina Plai cu Boi de Bucareste apresenta uma certa princesa Brianna Caradja. Variando de adereços de couro a quase nada, ela aparece nas páginas centrais numa série de poses meio desfocadas, flagelando servos (masculinos) subservientes e semidespidos. Os rapazes submissos, envoltos em fumaça, cortam lenha, puxam trenós…

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Chestov e a razão

Folha de São Paulo, 14 março 1978 Já tive ocasião de apontar que em Plotino encontramos a melhor, ou antes, a mais completa definição de filosofia. A pergunta – que é filosofia? – ele responde: – “To timiotaton” (o que mais importa). Essa definição destrói, logo de início e, ao que parece, não intencionalmente, as…

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“A vida como in-eternidade, ou as revelações da dilaceração” (Emil Cioran)

Retumbam em ti as épocas geológicas? Se não, por que então falas do tempo? Foste o mar onde se derramaram os rios do tempo? Se não, por que se orgulhar da História? Reuniste todas as lágrimas que não secaram e as derramaste de novo para devolvê-las à terra e consolar os olhos e o coração?…

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Alguns aforismos de Razne: um dos últimos escritos de Cioran em romeno

Li todos os livros da tristeza humana. E não me convenceram Convenceu-me o sangue, não obstante, sussurrando às ideias o cansaço de seu próprio calor. § A nostalgia é a forma mais doce da alienação mental, de nossa tendência a conceber outros mundos. § Estar no tempo, com menos proveito do que Deus antes da…

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“E. M. Cioran, Nihilist and Ecstatic” (Robert Wicks)

Life and works In a brief autobiographical sketch, Emile Mihai Cioran described himself as follows: I was born on the 8th April 1911 in Rasinari, a village in the Carpathians, where my father was a Greek Orthodox priest. From 1920 to 1928 I attended the Sibiu grammar school. From 1929 to 1931 I studied at…

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“Ictiofídeos e liberais” (John Gray)

Em Da outra margem, coleção de ensaios e diálogos escrita por Alexander Herzen entre 1847 e 1851, o jornalista radical russo imagina um diálogo entre alguém que acredita na liberdade humana e um cético que julga os seres humanos por seu comportamento, e não pelos ideais professados. Para surpresa daquele que acredita, o cético cita…

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“La prophétie du pire” (Sylvain David)

Fonte: Chapitre VI. La prophétie du pire – Presses de l’Université de Montréal DAVID, Sylvain, Cioran. Un héroïsme à rebours. Montréal: Presses Universitaires Montréal, 2006. L’homme, bien qu’il soit lui-même mortel, ne peut se représenter ni la fin de l’espace, ni la fin du temps, ni la fin de l’Histoire, ni la fin d’un peuple,…

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“O mundo tem de recomeçar” (Emil Cioran)

ALGUÉM terá de sair um dia sob o sol e gritar para seu esplendor e para as trevas dos homens: “O mundo tem de recomeçar, o mundo tem de recomeçar!” Será necessário encontrar um emissário de um mundo novo que assuma todos os riscos da grande nova, que se esgote gritando em todas as direções…

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“Não resistência à noite” (E.M. Cioran)

No começo, acreditamos avançar para a luz; depois, fatigados por uma marcha sem fim, deixamo-nos deslizar: a terra, cada vez menos firme, não nos suporta mais: abre-se. Em vão buscaríamos perseguir um trajeto para um fim ensolarado, as trevas se dilatam ao redor e dentro de nós. Nenhuma luz para iluminar-nos em nosso deslizamento: o…

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Existentialism, Gnosticism, Nihilism: Culianu on Cioran

Existentialism We will not insist on analyzing the relations between existentialism and Gnosticism established by Hans Jonas. I have already done this elsewhere, in detail (Gnosticismo, pp. 119 sq.). Gnosticism and existentialism resemble the phenomenology of the being-in-the-world, which is “pro-iectation” (Geworfenheit), abandonment, forgetfulness, inauthenticity. But while this condition forms, for the Gnostic, only the…

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Desespero, a maior vantagem humana: Kierkegaard & Cioran

“A superioridade do homem sobre o animal está pois em ser suscetível de desesperar. […] Assim há uma infinita vantagem em poder desesperar, e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como a nossa perdição.” (Kierkegaard, O Desespero humano) * “Não existem argumentos para viver. Quem chegou ao limite ainda pode recorrer…

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O Diabo, filantropo funesto (E.M. Cioran)

PLANEJAR uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos…

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“O tédio dos conquistadores” (E.M. Cioran)

PARIS PESAVA sobre Napoleão, segundo confissão do próprio, como um “manto de chumbo”: dez milhões de homens pereceram em consequência disso. É o balanço do “mal do século”, quando um René a cavalo torna-se seu agente. Esse mal, nascido na ociosidade dos salões do século XVIII, na languidez de uma aristocracia demasiado lúcida, fez estragos…

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L’avant-garde ? Ça depend (Cioran)

J’aime l’avant-garde, à condition qu’elle ne soit pas ennuyeuse. Elle l’est, le plus souvent. Est-ce que Nietzsche, est-ce que Pascal se réclamaient d’une avant-garde quelconque? Le pire est de vouloir être d’avant-garde. [Eu gosto do avant-garde, desde que não seja entediante. Ele o é, amiúde. Será que Nietzsche ou Pascal se reclamam de uma vanguarda…

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“Retrato do civilizado” (E.M. Cioran)

“Portrait du civilisé” é o segundo ensaio de La chute dans le temps (1964),o primeiro sendo “L’arbre de vie” [A árvore da vida], no qual Cioran apresenta a sua exegese pouco ortodoxa do mito do pecado original. O ensaio aqui traduzido dialoga tanto com o livro anterior, História e Utopia (1960), quanto com o seguinte…

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“Sobre a gênese da burrice” (Adorno & Horkheimer)

O SÍMBOLO DA INTELIGÊNCIA é a antena do caracol “com a visão tacteante”, graças à qual, a acreditar em Méfistófeles, ele é também capaz de cheirar. Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protector do corpo, ela se identifica de novo com o todo e só muito hesitantemente ousará sair…

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Absurdo, Horror da História e a “Nulidade do Futuro” (E.M. Cioran)

Já que uma voz tão autorizada nos instruiu sobre a fragilidade da antiga idade de ouro e sobre a nulidade do futuro, somos obrigados a tirar as consequências disso e não nos deixar mais iludir pelas divagações de Hesíodo nem pelas de Prometeu, e menos ainda pelas sínteses delas que tentaram as utopias. A harmonia,…

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COMO IMAGINAR a vida dos outros, quando a sua própria mal parece concebível? Encontramos alguém, vemo-lo mergulhado em um mundo impenetrável e injustificável, em uma porção de convicções e desejos que se superpõem à realidade como um edifício mórbido. Tendo forjado para si um sistema de erros, sofre por motivos cuja nulidade aterroriza o espírito […]

via “Coalizão contra a morte” — Breviário de Decomposição 7.0 🇧🇷

A santidade: fruto supremo da enfermidade; quando se está saudável, parece monstruosa, ininteligível e malsã ao mais alto grau. Mas basta que esse hamletismo automático chamado Neurose reclame seus direitos para que os céus tomem forma e constituam a moldura da inquietude. Defende-se da santidade se tratando: ela provém de uma sujeira particular do corpo […]

via Breviário de Decomposição 7.0 🇧🇷

“Trickster” (Paul Radin)

Few myths have so wide a distribution as the one, known by the name of the Trickster, which we are presenting here. For few can we so confidently assert that they belong to the oldest expressions of mankind. Few other myths have persisted with their fundamental content unchanged. The Trickster myth is found in clearly…

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Sofrimento e transfiguração (Emil Cioran)

SÓ O SOFRIMENTO muda o homem. Todas as outras experiências e fenômenos não conseguem modificar essencialmente o temperamento de ninguém nem aprofundar certas disposições suas a ponto de transformá-las completamente. De quantas mulheres equilibradas não fez o sofrimento umas santas? Absolutamente todas as santas sofreram muito mais do que se pode imaginar. Sua transfiguração não…

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Com que ternura e com que inveja se voltam meus pensamentos para os monges do deserto e para os cínicos! Abjeção de dispor do menor objeto: esta mesa, esta cama, estas roupas… O traje interpõe-se entre nós e o nada. Olhe seu corpo em um espelho: compreenderá que é mortal; passe seus dedos sobre as […]

via Breviário de Decomposição 7.0

Ele abarca tudo, e tem êxito em tudo; não há nada de que não seja contemporâneo. Tanto vigor nos artifícios do intelecto, tanto desembaraço em abordar todos os setores do espírito e da moda – desde a metafísica até o cinema – deslumbra, deve deslumbrar. Nenhum problema lhe resiste, não há fenômeno que lhe seja […]

via Breviário de Decomposição 7.0

Tal como foi publicado pela editora Gallimard em 1949, o primeiro livro escrito em francês pelo romeno Emil Cioran, Breviário de Decomposição, tem por autor E.M. Cioran, como, de resto, os livros escritos em francês que se seguirão; hoje em dia, porém, após o sucesso de Exercícios de admiração, de 1986, lê-se em muitas das […]

via “Quem escreveu o Breviário de Decomposição?” (Nicolas Cavaillès) — Breviário de Decomposição 7.0