Em defesa da arte “degenerada” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Cioran teve uma breve experiência como professor de filosofia, na segunda metade da década de 1930, na cidade de Brasov. Ele conta a anedota da ocasião em que, chegando à sala de aula, perguntou à classe: “Por que razão não devemos dizer fenômenos psicológicos, mas fenômenos psíquicos?” Um aluno respondeu: “Um fenômeno psíquico é instintivo,…

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Eduardo Marinho, filósofo essencial (2)

No entanto, a função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre. CIORAN, Breviário de decomposição

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“Ictiofídeos e liberais” (John Gray)

Em Da outra margem, coleção de ensaios e diálogos escrita por Alexander Herzen entre 1847 e 1851, o jornalista radical russo imagina um diálogo entre alguém que acredita na liberdade humana e um cético que julga os seres humanos por seu comportamento, e não pelos ideais professados. Para surpresa daquele que acredita, o cético cita…

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“O mundo tem de recomeçar” (Emil Cioran)

ALGUÉM terá de sair um dia sob o sol e gritar para seu esplendor e para as trevas dos homens: “O mundo tem de recomeçar, o mundo tem de recomeçar!” Será necessário encontrar um emissário de um mundo novo que assuma todos os riscos da grande nova, que se esgote gritando em todas as direções…

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Desespero, a maior vantagem humana: Kierkegaard & Cioran

“A superioridade do homem sobre o animal está pois em ser suscetível de desesperar. […] Assim há uma infinita vantagem em poder desesperar, e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como a nossa perdição.” (Kierkegaard, O Desespero humano) * “Não existem argumentos para viver. Quem chegou ao limite ainda pode recorrer…

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O Diabo, filantropo funesto (E.M. Cioran)

PLANEJAR uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos…

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“O tédio dos conquistadores” (E.M. Cioran)

PARIS PESAVA sobre Napoleão, segundo confissão do próprio, como um “manto de chumbo”: dez milhões de homens pereceram em consequência disso. É o balanço do “mal do século”, quando um René a cavalo torna-se seu agente. Esse mal, nascido na ociosidade dos salões do século XVIII, na languidez de uma aristocracia demasiado lúcida, fez estragos…

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“Retrato do civilizado” (E.M. Cioran)

“Portrait du civilisé” é o segundo ensaio de La chute dans le temps (1964),o primeiro sendo “L’arbre de vie” [A árvore da vida], no qual Cioran apresenta a sua exegese pouco ortodoxa do mito do pecado original. O ensaio aqui traduzido dialoga tanto com o livro anterior, História e Utopia (1960), quanto com o seguinte…

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“Povos indígenas. Os involuntários da Pátria” (Eduardo Viveiros de Castro)

“Partout où les Blancs firent leur apparition pour la première fois, ils furent considérés par les indigènes comme des êtres malfaisants, comme des revenants, comme des spectres. Jamais comme des vivants! Intuition inégalée, coup d’oeil prophétique s’il en fut.” [Onde quer que os brancos apareceram pela primeira vez, foram considerados pelos indígenas como malfeitores, assombrações,…

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HUMAN’s Musics – A film by Yann Arthus-Bertrand / Composed by Armand Amar

“MANIACS OF PROCREATION, bipeds with devalued faces, we have lost all appeal for each other. And it is only on a half-deserted earth, peopled at most by a few thousand inhabitants, that our physiognomies might recover their ancient glamour. The multiplication of our kind borders on the obscene; the duty to love them, on the…

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COMO IMAGINAR a vida dos outros, quando a sua própria mal parece concebível? Encontramos alguém, vemo-lo mergulhado em um mundo impenetrável e injustificável, em uma porção de convicções e desejos que se superpõem à realidade como um edifício mórbido. Tendo forjado para si um sistema de erros, sofre por motivos cuja nulidade aterroriza o espírito […]

via “Coalizão contra a morte” — Breviário de Decomposição 7.0 🇧🇷

“Não se varre o vazio para debaixo do tapete”: necessidade de estar só, insuficiência humana e autoestima (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Publicado originalmente em Itinerarivm Mentis in Nihilvm:
A psicanalista Maria Homem fala da necessidade de solidão, sobretudo nos tempos atuais em que são estimulados, de maneira maximizada, o gregarismo, o espírito de rebanho, a dependência e a heteronomia em todos os níveis e sentidos, em detrimento de todo ideal de emancipação e autonomia subjetiva. Não…

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“Trickster” (Paul Radin)

Few myths have so wide a distribution as the one, known by the name of the Trickster, which we are presenting here. For few can we so confidently assert that they belong to the oldest expressions of mankind. Few other myths have persisted with their fundamental content unchanged. The Trickster myth is found in clearly…

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“Devemos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão, qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião. … E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.” (Do inconveniente de […]

via Breviário de Decomposição 7.0

Um canal do YouTube, jovens estudantes de física. Interessante em termos de divulgação/vulgarização científica, sobretudo de temas tão complexos como física quântica. Porém, como é regra no YouTube, onde todo mundo é guru, professor, influenciador ou agitador, um dos vídeos do canal me broxou: “Porque acupuntura não é ciência…” Oi? Vê-se que se foi longe […]

via Itinerarivm Mentis in Nihilvm

Sofrimento e transfiguração (Emil Cioran)

SÓ O SOFRIMENTO muda o homem. Todas as outras experiências e fenômenos não conseguem modificar essencialmente o temperamento de ninguém nem aprofundar certas disposições suas a ponto de transformá-las completamente. De quantas mulheres equilibradas não fez o sofrimento umas santas? Absolutamente todas as santas sofreram muito mais do que se pode imaginar. Sua transfiguração não…

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Com que ternura e com que inveja se voltam meus pensamentos para os monges do deserto e para os cínicos! Abjeção de dispor do menor objeto: esta mesa, esta cama, estas roupas… O traje interpõe-se entre nós e o nada. Olhe seu corpo em um espelho: compreenderá que é mortal; passe seus dedos sobre as […]

via Breviário de Decomposição 7.0

“Working Notes of a Practising Neo-Generalist (#16) — On Montaigne and how to remember the books you read” (Mark Storm)

MEDIUM, April 3, 2018 On the ceiling beams of the Tower where he wrote his famous Essais, Montaigne had sayings carved into the wood; Latin and Greek quotes from the classical authors to inspire him. One of these is from Pliny the Elder (Naturalis Historia, ii. 7): “Solum certum nihil esse certi et homine nihil miserius aut superbius”…

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Pensar-ser-o-que-se-é-pensa #2 (Emil Cioran)

N’a de conviction que celui qui n’a rien approfondi. (De l’inconvenient d’être né) Só possui convicções quem nada aprofundou. (Do inconveniente de ter nascido) Cine a gîndit mult veşnicia, moartea, viaţa, timpul şi suferinţa este imposibil să aibă un sentiment definit, o viziune precisă” şi o convingere determinată despre ele. Nu există un sentiment definit…

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“A mentira imanente” (E.M. Cioran)

VIVER significa: crer e esperar, mentir e mentir-se. Por isso a imagem mais verídica que já se criou do homem continua sendo a do Cavaleiro da Triste Figura, esse cavaleiro que se encontra mesmo no sábio mais realizado. O episódio penoso em torno da Cruz ou esse outro mais majestoso coroado pelo Nirvana participam da…

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Cioran, o místico de uma era pós-Deus: entrevista com Mirko Integlia (1ª parte)

In memoriam: María Liliana Herrera Alzate (1960-2019) “Às vezes tenho a impressão de que a obra de Cioran é interpretada como uma espécie de bazar, onde cada um se serve daquilo que quer, inclusive dos aspectos místicos-religiosos.” (Mirko Integlia) * [Pdf] Acaba de ser publicado, em inglês, um novo livro de exegese crítica sobre Cioran,…

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O Não, Última Palavra? Elementos para a Possibilidade de Vencer o Pessimismo (Cioran)

REGRAS PARA VENCER O PESSIMISMO, MAS NÃO O SOFRIMENTO: acompanhar o mais delicado estremecimento da alma com uma tensão premeditada; estar lúcido na dissolução interior; vigiar a fascinação musical; estar triste com método; ler a Bíblia com interesse político e os poetas para testar a própria resistência. servir-se das nostalgias para os pensamentos ou fatos;…

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Realidade e Irrealidade, ou o “Ecletismo do Sorriso e da Destruição” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Je suis la plaie et le couteau ! Je suis le soufflet et la joue ! Je suis les membres et la roue, Et la victime et le bourreau ! BAUDELAIRE, L’Heautontimoroumenos Si Stavrogin croit, il ne croit pas qu’il croie. S’il ne croit pas, il ne croit pas qu’il ne croie pas. DOSTOIEVSKI, Frères…

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O Mau Demiurgo: Cúmulo do “Veneno Abstrato”, ou Porque Coringa Não É Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio se impõe. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau) “A única experiência profunda é…

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“Desejo e Horror da Glória” avant la lettre (E.M. Cioran)

“Désir et horreur de la gloire” é um dos ensaios que compõem La chute dans le temps (1964), livro que sucede diretamente a História e utopia (1960) no qual este tema (tão “adâmico”) já se encontra enunciado e problematizado, antecipando o que virá a seguir. Trata-se da dualidade-contradição — inconciliável — entre o desejo e…

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“Sede escassos!” (E.M. Cioran)

TÍMIDO, desprovido de dinamismo, o bem é inapto a se comunicar; o mal, pelo contrário, apressado, quer se transmitir e o consegue, já que possui o duplo privilégio de ser fascinante e contagioso. Assim, vê-se mais facilmente se estender, descolar de si, um deus malvado que um deus bom. Esta incapacidade de permanecer em si…

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Antinatalismo e Mistério (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“O que nos distingue de nossos antepassados é nossa petulância em face do Mistério. Nós até o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo…” (Silogismos da amargura) AFASTA-ME do antinatalismo a total carência do sentido do mistério, o misterioso, no caso, sendo uma categoria teológica ou — a fortiori — mística por excelência — e perfeitamente fora…

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“Bípedes de rostos desvalorizados” (E.M. Cioran)

SÓ NOS SUAVIZAMOS, só nos tornamos bons destruindo o melhor de nossa natureza, submetendo o corpo à disciplina da anemia, e o espírito à do esquecimento. Enquanto guardamos nem que seja uma sombra de memória, o perdão se reduz a uma luta com os instintos, a uma agressão contra o próprio eu. São nossas vilanias…

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