Fanatismo e hostilidade, ceticismo e urbanidade (Emil Cioran)

Só existe humanidade no clima benévolo e compreensivo das dúvidas. Envolvendo a alma e o mundo numa doce inanição interminável, elas nos defendem da brutalidade dos credos e da intolerância inerente a qualquer delírio. É verdade que o fanatismo é o motor da história, mas o ritmo que impõe aos acontecimentos e aos homens se…

Leia mais

Razne, um dos últimos escritos romenos de Cioran, prefiguração de sua obra francesa

Razne, escrito entre 1945 e 1946, é um dos últimos escritos de Cioran ainda em romeno, já vivendo há anos na França. Foi traduzido ao francês como Divagations, em italiano como Divagazioni e em espanhol como Extravíos. Um texto importante pela posição que ocupa no conjunto da obra: livro de transição entre a escrita em…

Leia mais

“A vida como in-eternidade, ou as revelações da dilaceração” (Emil Cioran)

Retumbam em ti as épocas geológicas? Se não, por que então falas do tempo? Foste o mar onde se derramaram os rios do tempo? Se não, por que se orgulhar da História? Reuniste todas as lágrimas que não secaram e as derramaste de novo para devolvê-las à terra e consolar os olhos e o coração?…

Leia mais

Alguns aforismos de Razne: um dos últimos escritos de Cioran em romeno

Li todos os livros da tristeza humana. E não me convenceram Convenceu-me o sangue, não obstante, sussurrando às ideias o cansaço de seu próprio calor. § A nostalgia é a forma mais doce da alienação mental, de nossa tendência a conceber outros mundos. § Estar no tempo, com menos proveito do que Deus antes da…

Leia mais

“Não resistência à noite” (E.M. Cioran)

No começo, acreditamos avançar para a luz; depois, fatigados por uma marcha sem fim, deixamo-nos deslizar: a terra, cada vez menos firme, não nos suporta mais: abre-se. Em vão buscaríamos perseguir um trajeto para um fim ensolarado, as trevas se dilatam ao redor e dentro de nós. Nenhuma luz para iluminar-nos em nosso deslizamento: o…

Leia mais

L’avant-garde ? Ça depend (Cioran)

J’aime l’avant-garde, à condition qu’elle ne soit pas ennuyeuse. Elle l’est, le plus souvent. Est-ce que Nietzsche, est-ce que Pascal se réclamaient d’une avant-garde quelconque? Le pire est de vouloir être d’avant-garde. [Eu gosto do avant-garde, desde que não seja entediante. Ele o é, amiúde. Será que Nietzsche ou Pascal se reclamam de uma vanguarda…

Leia mais

COMO IMAGINAR a vida dos outros, quando a sua própria mal parece concebível? Encontramos alguém, vemo-lo mergulhado em um mundo impenetrável e injustificável, em uma porção de convicções e desejos que se superpõem à realidade como um edifício mórbido. Tendo forjado para si um sistema de erros, sofre por motivos cuja nulidade aterroriza o espírito […]

via “Coalizão contra a morte” — Breviário de Decomposição 7.0 🇧🇷

A santidade: fruto supremo da enfermidade; quando se está saudável, parece monstruosa, ininteligível e malsã ao mais alto grau. Mas basta que esse hamletismo automático chamado Neurose reclame seus direitos para que os céus tomem forma e constituam a moldura da inquietude. Defende-se da santidade se tratando: ela provém de uma sujeira particular do corpo […]

via Breviário de Decomposição 7.0 🇧🇷

Com que ternura e com que inveja se voltam meus pensamentos para os monges do deserto e para os cínicos! Abjeção de dispor do menor objeto: esta mesa, esta cama, estas roupas… O traje interpõe-se entre nós e o nada. Olhe seu corpo em um espelho: compreenderá que é mortal; passe seus dedos sobre as […]

via Breviário de Decomposição 7.0

Ele abarca tudo, e tem êxito em tudo; não há nada de que não seja contemporâneo. Tanto vigor nos artifícios do intelecto, tanto desembaraço em abordar todos os setores do espírito e da moda – desde a metafísica até o cinema – deslumbra, deve deslumbrar. Nenhum problema lhe resiste, não há fenômeno que lhe seja […]

via Breviário de Decomposição 7.0

Pensar-ser-o-que-se-é-pensa #2 (Emil Cioran)

N’a de conviction que celui qui n’a rien approfondi. (De l’inconvenient d’être né) Só possui convicções quem nada aprofundou. (Do inconveniente de ter nascido) Cine a gîndit mult veşnicia, moartea, viaţa, timpul şi suferinţa este imposibil să aibă un sentiment definit, o viziune precisă” şi o convingere determinată despre ele. Nu există un sentiment definit…

Leia mais

Pensar-ser-o-que-se-é-pensa (Emil Cioran)

Nevoia de a dovedi o afirmaţie, de-a vîna argumente în dreapta şi-n stînga presupune o anemie a spiritului, o nesiguranţă a inteligenţei şi a persoanei în genere. Cînd un gînd te năpădeşte cu putere şi violenţă, el izvorăşte din substanţa existenţei tale; a-l dovedi, a-l împresura în argumente înseamnă a-l slăbi şi a te îndoi…

Leia mais

“A mentira imanente” (E.M. Cioran)

VIVER significa: crer e esperar, mentir e mentir-se. Por isso a imagem mais verídica que já se criou do homem continua sendo a do Cavaleiro da Triste Figura, esse cavaleiro que se encontra mesmo no sábio mais realizado. O episódio penoso em torno da Cruz ou esse outro mais majestoso coroado pelo Nirvana participam da…

Leia mais

O Não, Última Palavra? Elementos para a Possibilidade de Vencer o Pessimismo (Cioran)

REGRAS PARA VENCER O PESSIMISMO, MAS NÃO O SOFRIMENTO: acompanhar o mais delicado estremecimento da alma com uma tensão premeditada; estar lúcido na dissolução interior; vigiar a fascinação musical; estar triste com método; ler a Bíblia com interesse político e os poetas para testar a própria resistência. servir-se das nostalgias para os pensamentos ou fatos;…

Leia mais

Seleção de aforismos retirados de “Dictionnaire du parfait cynique“, obra compilada por Roland Jaccard e nunca publicada em português, numa tradução original. * AMIZADE – A amizade é um contrato mediante o qual nos comprometemos a prestar pequenos serviços afim de que nos prestem grandes. (Montesquieu) AMOR – O amor é a troca de duas […]

via Dicionário do perfeito cínico — Desaforisticamente

O Mau Demiurgo: Cúmulo do “Veneno Abstrato”, ou Porque Coringa Não É Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio se impõe. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau) “A única experiência profunda é…

Leia mais

“Tristesse automatique, robot elegiaque” (Cioran)

Chegamos num ponto da história da tecnociência, particularmente da inteligência artificial, em que é necessário atualizar e substituir o Teste de Turing: doravante seria o Teste de Cioran, para medir a capacidade de um robô de se comportar como um ser humano, sem que o observador perceba a diferença (ou seja, que é um robô…

Leia mais

“O veneno abstrato” (E.M. Cioran)

Um importante aforismo do Breviário de decomposição, no tocante ao que muda, na economia do pensamento de Cioran, conforme ele muda de idioma: do nativo, o romeno, ao francês, idioma estrangeiro para um estrangeiro. No fundo (ele mesmo o afirma), seu pensamento, suas “ideias” ou intuições originais (vide Nos cumes do desespero) nunca mudaram, permaneceram sempre os…

Leia mais

“Os Anjos Reacionários” (E. M. Cioran)

É DIFÍCIL formular um juízo sobre a rebelião do menos filósofo dos anjos, sem misturar nele simpatia, assombro e reprovação. A injustiça governa o universo. Tudo o que se constrói, tudo o que se desfaz, leva a marca de uma fragilidade imunda, como se a matéria fosse o fruto de um escândalo no seio do…

Leia mais

Ghosteen (Nick Cave & The Bad Seeds)

La musique n’existe qu’aussi longtemps que dure l’audition, comme Dieu qu’autant que dure l’extase. L’art suprême et l’être suprême ont ceci de commun qu’ils dépendent entièrement de nous. [A música só existe enquanto dura a audição, como Deus enquanto dura o êxtase. A arte suprema e o ser supremo possuem isto em comum, o fato…

Leia mais

Estilo e ceticismo (Cioran)

COM CERTEZAS, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras – sombras de realidade –, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação. Avec des certitudes,…

Leia mais

Perfeccionismo, “Obsessão do Essencial” e a condição fragmentária (Cioran)

Nos Cahiers (p. 73), estas 2 anotações, uma seguida da outra: Chercher l’être avec des mots!- Tel est notre donquichottisme, tel est le délire de notre entreprise essentielle. [Buscar o ser com palavras! — tal é o nosso donquixotismo, tal é o delírio de nossa empresa essencial.] Si jamais mortel a été tourmenté, supplicié par…

Leia mais

“Exegese da decadência” (E.M. Cioran)

O aforismo “Exegese da decadência” retoma — sob uma outra luz, pelo filtro de um novo idioma e da forma mentis peculiar que ele modela — a temática e a problemática de um importante texto periodístico de juventude do autor romeno do Breviário de decomposição: trata-se de Nihilism şi natura [Niilismo e natureza], publicado originalmente na revista…

Leia mais

“O pensamento da morte” (Nietzsche)

EM MIM me produz uma melancólica felicidade viver nessa profusão de vielas, de necessidades, de vozes: quanta fruição, quanta impaciência e cobiça, quanta sede e embriaguez de vida não se manifestam aí a cada instante! Mas logo haverá tanto silêncio para todos esses viventes ruidosos e sequiosos de vida! Como atrás de cada um está…

Leia mais

“É preciso aprender a amar” (Nietzsche)

EIS O QUE SUCEDE conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com seu olhar e sua expressão, de brandura c om o que nela é…

Leia mais

“O que significa conhecer” (Nietzsche)

Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere! [Não rir, não lamentar nem detestar, mas compreender!] disse Spinoza, da maneira simples e sublime que é sua. No entanto, que é intelligere, em última instância, senão a forma na qual justamente aquelas três coisas tornam-se de uma vez sensíveis para nós? Um resultado dos diferentes e contraditórios…

Leia mais

“La perduta gente” (E.M. Cioran)

QUE IDEIA RIDÍCULA construir círculos no inferno, variar por compartimentos a intensidade das chamas e hierarquizar os tormentos! O importante é estar ali: o resto – simples floreios ou… queimaduras. Na cidade de cima – prefiguração mais doce da de baixo, ambas originárias do mesmo modelo –, o essencial, igualmente, não é ser algo concreto…

Leia mais