“The sceptic-on-duty” (Rüdiger Punzet)

The Hindu, 04 December 2010

Profoundly influenced by Buddhism and Hinduism, the Romanian philosopher E.M. Cioran saw life as a quest for the void

The American literary critic Susan Sontag called him the French Nietzsche, John Updike dubbed him a frustrated monk, and Bernhard-Henri Lévy described him as a “Dandy of the void beside whom even the stoics appear as zealous bon vivants”. The Romanian philosopher and essayist E.M. Cioran (1911-1995) is considered one of the most critical thinkers and radical nihilists of the 20th century. In spite of his intense engagement with the Indian and Eastern philosophies and his deep admiration for them, Cioran is hardly known in this part of the world. To many who come in contact with his works he appears as an “aristocrat of doubt”, an “ungodly mystique”, a “reactionary” and a “cynic”. Cioran’s prose confronts the reader with an author who imposes an unmatched climate of cold apocalypse and scathing scepticism. In his book Anathemas and Admirations Cioran calls himself “The sceptic-on-duty of a decaying world”. He chose the essay and aphorism in particular to express himself as he was convinced that they perfectly captured the epigrammatic intensity of his thoughts: “The aphorism is cultivated only by those who have known fear in the midst of words, that fear of collapsing with all the words”… [+]

Cioran : “Le scepticisme est le désespoir du diable” (Michel Jarrety)

“Il est courant de considérer Cioran comme un penseur sceptique. Ce portrait de l’écrivain en sceptique est pourtant loin d’aller de soi. Son œuvre formule un certain nombre de certitudes ou de vérités qui s’accommodent mal avec le scepticisme…”

Michel Jarrety, École Normale Supérieure, 1er juin 2013

Source : Franceculture / Conférences [ + ]

O neopirronismo de Oswaldo Porchat: interpretações e debate

O neopirronismo de Oswaldo Porchat: interpretações e debate

do site da Alameda Editorial

Porchat, um dos mais eminentes filósofos brasileiros, nasceu em Santos, no dia 11 de janeiro de 1933. Por ocasião dos seus 80 anos, diversos amigos, colegas e discípulos reuniram-se para discutir aquela que seria a sua principal contribuição: o neopirronismo, uma atualização bastante original de uma forma antiga de ceticismo, fundada por Pirro, um jovem contemporâneo de Aristóteles.

Sempre vivo e atuante na Grécia antiga, o pirronismo foi um dos elementos constitutivos da filosofia moderna, graças à redescoberta no século XV dos textos de Sexto Empírico, e permanece até hoje como uma das principais preocupações da filosofia com seu desafio ao dogmatismo.

Além de ter proposto três filosofias diferentes durante sua trajetória acadêmica, da qual o neopirronismo é a última e mais importante, Porchat foi responsável pela criação do Centro de Lógica e Epistemologia (CLE) da Unicamp e desempenhou um papel fundamental na construção de uma comunidade filosófica brasileira.

A partir de suas atividades docentes e intelectuais, Porchat foi capaz de criar um grupo de estudiosos da história do ceticismo, bem como de inaugurar uma discussão especificamente brasileira sobre a filosofia cética. Poucos conseguiram unir a capacidade empreendedora, o rigor histórico e a fertilidade sistemática. Este livro, uma homenagem a Porchat, não somente apresenta algumas interpretações de seu neopirronismo, contribuindo para entendê-lo melhor, como também pretende discuti-lo criticamente, ajudando a criar uma tradição filosófica entre nós.

Sobre o autor: Plínio Junqueira Smith é professor livre-docente na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador do CNPq, nível 1C. As áreas de sua especialidade são História da Filosofia Moderna, Teoria do Conhecimento e Ceticismo. Ele á autor e organizador de vários livros, entre os quais: O ceticismo de Hume (1995), Ceticismo filosófico (2000), Do começo da filosofia e outros ensaios (2005), Ensaios sobre o ceticismo (2007) e As consequências do ceticismo (os dois últimos pela Alameda Casa Editorial, com Waldomiro José da Silva Filho).

Fonte:http://www.alamedaeditorial.com.br/o-neopirronismo-de-oswaldo-porchat/

“Fe y escepticismo. La correspondencia entre E.M. Cioran & M.D. Molinié” (Sergio García Guillem)

Texto publicado en La Torre del Virrey – Revista de Estudios Culturales, serie 10, nº 361, 2012/1

“[…] ¿No han tenido nunca esta sensación, después de un gran susto o en un momento muy terrible, cuando el entendimiento conserva aún toda su lucidez, pero ha perdido ya todo su poder?”

F.M. DOSTOIEVSKI, El idiota.

“On est croyant ou on ne l’est pas, comme on est fou ou normal. Je ne peux croire ni désirer croire : la foi, forme de délire à quoi je ne suis point sujet… ”

EMIL CIORAN, Précis de décomposition.

En una conversación con Léo Gillet, Cioran, a propósito de sus influencias literarias, comenta lo siguiente: “[…] Dostoyevski fue hasta el límite de la razón, hasta el vértigo último. Fue hasta el hundimiento, mediante ese salto a lo divino, al éxtasis […]”. Ese mismo éxtasis lúcido, después de un gran susto o situación terrible, o propiamente tediosa, por calificarla con una de las máximas preocupaciones de la prosa cioraniana, de la que ya rindió cuentas Dostoievski con algunos de sus personajes más célebres: los escépticos, enfermos y atormentados Iván Karamázov, Nikolai Stavrogin, el príncipe Mishkin o el joven Ippolit, representación antropomórfica este último del suicidio en El idiota, es el mismo que acosa perpetuamente, entre comicidad, amargura, ironía y un ácido escepticismo, el pensamiento de Emil Cioran. Sus reflexiones arrancan de la carcoma del tiempo y del estatismo monolítico los ecos del pesimismo, el nihilismo (“obsesión de la nada o del vacío, más bien”, como él mismo dirá en una de sus entrevistas) la melancolía y ese tedio de lo propiamente humano, del cual ya hemos comprobado que adopta en muchas ocasiones ese vacío enfermizo y corrosivo del espíritu del “subsuelo” dostoievskiano. Un intento de sistematizar o inculcar orden en su pensamiento, acción que anularía la intrínseca destrucción poética, por decirlo con Molinié, de su lenguaje, es una tarea que, de antemano, debemos abocarla al fracaso, a pesar de ser esta extraña mezcla de caos y revelación lo que otorga una curiosa riqueza intelectual a todo su legado. ¿Resulta pues lícito, a partir de estas indicaciones introductorias, el intento de rescate de parte de una correspondencia, no publicada en vida del autor, que nos permita profundizar más en la reflexión –y profunda crisis– religiosa del joven Cioran? En esta ocasión, vamos a intentar rendir cuenta de cómo parte del epistolario de juventud, excluyendo algunas de sus conversaciones con otros literatos, pensadores y periodistas, no se encuentra totalmente disponible para los estudios cioranianos. Y, más concretamente, y gracias al descubrimiento de un intercambio epistolar, centraremos la atención en la relación epistolar que mantiene Cioran con el teólogo dominico Marie-Dominique Molinié desde 1944 hasta, aproximadamente, 1947. Aquí reside la problemática y el difícil acceso a la cuestión, por lo que antes de comenzar a rendir cuenta de dicha correspondencia serán oportunas unas notas históricas y biográficas complementarias… [+]

“O homem e sua inconsistência: traços de uma leitura antropológica na filosofia de Nicolás Gómez Dávila” (Pablo Andrés Villegas Giraldo)

Nicolás Gómez Dávila

Sobre Nicolas Gómez Dávila (1913-1994): Wikipedia (Esp) | Wikipedia (Ing)

Sobre Pablo Andrés Villegas Giraldo: Filósofo, ensaísta e poeta, nascido em Santa Rosa de Risaralda, na Colômbia. Graduou-se em Filosofia pena Universidad Tecnológica de Pereira (UTP) e, desde 2010, pertence ao grupo de investigação “Filosofia e ceticismo” da mesma instituição. Participou de congressos nacionais e internacionais com conferências sobre estética e teoria da arte. Publicou trabalhos sobre Nietzsche, Bataille, Oscar Wilde, Cioran e Nicolás Gámez Dávila. Sobre o pensador bogotano foi dedicada seu trabalho de conclusão de curso em Filosofia. É autor, entre outros trabalhos, de “Nietzsche y la voluntad de poder como arte”, publicado na coletânea Em torno a Cioran – nuevos ensayos y perspectivas (Pereira, 2014). Em 2015 serão publicados “El Ruiseñor y la Rosa de Óscar Wilde y el sentido del sacrificio”, na revista argentina Realidad y Ficciones, “La educación y el escepticismo:contrastes de un filósofo auténtico”, no volumen de memorias do V Congreso Colombiano de Filosofia, e “El escepticismo y la fe en el pensamiento de Gómez Dávila”, nas Memórias do V Encuentro Internacional Emil Cioran. Trabalha como revisor em diversas revistas eletrônicas nacionais e internacionais e redige uma coluna para o jornal El Faro sobre temas como poesia, literatura, arte, teatro, realidade social e violência de gênero enfocada desde a dignidade da mulher.

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A filosofia do pensador colombiano Nicolas Gómez Dávila parece estar em uma constante tensão entre o ceticismo e a fé. Pode-se ver, ao longo de sua obra e em grande parte de suas anotações, essa atitude descrente que provoca a dúvida filosófica; do mesmo modo ratifica, em outros, sua total confiança em Deus e na Igreja pré-conciliar,[1] vista não apenas como exemplo de governo hierárquico perfeitamente organizado, mas também como educadora: mãe e mestra (mater et maestra). Tanto para defender seus próprios argumentos como para atacar e criticar seus adversários, o autor colombiano se vale de sua fé através do descrédito nos ideais da razão, da ciência, da técnica, da democracia, da modernidade e do progresso, entre outros. Mas não creia o leitor que o autor deste ensaio tenha a intenção de reduzir o pensamento de Don Nicolás à tensão expressada no começo. Não, de modo algum, e seria um erro pretendê-lo, já que a obra de Gómez Dávila é irredutível, tem mil matizes aqui e lá que não podem ser contidos todos em uma só linha de leitura, e que estão deste modo estruturados, enriquecendo seu pensamento.

Não obstante, se tivéssemos que resgatar um traço, se fosse necessário determinar: “o que é que unifica a filosofía gomezdaviliana?”, concluiríamos sem equívoco que é essa tensão entre o ceticismo e a fé. Os inimigos de Gómez Dávila são os inimigos da fé católica que se alçam como estandarte na modernidade e que são tomados como protótipo nos anos seguintes, entre outros: o progresso, a técnica, a democracia, a moda, a razão divinizada, o homem emancipado de Deus, etc. E para lutar contra esses inimigos, reveste seu pensamento de ceticismo, para atacá-los com as armas da dúvida, da ironia, da indeterminação, mas também com a máxima, com a sentença, com a conclusão irrefutável, com a expressão dogmática amparada na tradição. Para este combate, Gómez Dávila recorrerá a um estilo arcaico no qual se contam os mais antigos e clássicos fragmentos assim como os mais recentes aforismos.

Don Colacho, como o chamavam carinhosamente seus amigos mais próximos, prefere não chamar suas anotações de “aforismos” mas tão somente como escólios. O aforismo é – de acordo com a definição mais aceita – uma sentença breve e doutrinal que se propõe como regra em alguma ciência ou arte, e neste sentido as anotações de Gómez Dávila não têm nada em comum com estas aspirações, ainda que algumas de suas frases são tão breves que cabem em seis ou sete palavras, enquanto outros ocupam várias linhas; por outro lado, suas frases não mostram nenhuma intenção de doutrinar, sendo ocorrências que se acrisolam com o passar dos dias, que se alimentam com as leituras do autor e que finalmente caem sobre o papel como gotas de chuva, condensadas pela paciência e pela espera. De modo que suas anotações não passam disso: notas à margem, ou seja, escólios. Talvez se possa tampouco reduzir a obra do pensador bogotano a uma forma específica, de modo que tenhamos de nos contentar com analisar cada fragmento em si mesmo e/ou recorrendo a algumas relações com o resto de sua obra, mas sem chegar a definir de maneira estrita qual é a forma ou o esstilo de sua escritura.

Por outro lado, um escólio é uma nota marginal que se escreve sobre um texto. Trata-se de uma prática muito antiga que remonta aos copistas alexandrinos, e que foi amplamente praticada pelos monges medievais, que tinham a difícil tarefa de transcrever símbolo por símbolo, letra por letra, tratando de nada alterar nos textos clássicos, quer se tratem de obras filosóficas ou literárias. Esse exercício que se pode comparar a uma difícil pintura foi o que permitiu que muitas obras antigas fossem conservadas até os nossos dias, anteriormente ao surgimento da imprensa. Além disso, havia, entre esses amanuenses, homens mais dotados intelectualmente que, tendo compreendido o obscuro sentido de um texto, se aventuravam a comentá-lo, às vezes de forma breve (escólio), às vezes extensa (glosa). Don Nicolás não é um amanuense mas pode ser considerado, isso sim, um escoliasta, de modo que o texto comentado é o grande miolo da sua obra – oculto entre suas linhas nos sai um Texto Implícito que alguns ousaram definir. Um texto implícito que pode ser sua obra, sua vida, sua biblioteca, a democracia, o reacionarismo, a tradição ocidental, o homem, Deus, entre muitos outros, um texto implícito que não é apenas um, mas o conjunto de todos os textos implícitos que habitam o pensamento de Don Colacho. Pensamento que se estende desde Textos I e Notas até o último de seus escólios. Tampouco se pode, e nisso é preciso ser radical, reduzir o que este texto contém, não se pode determinar de maneira nenhuma o que o implícito em sua obra nem mesmo se ele nos contasse em meio a risadas. Porque, como fora dito, não é apenas um texto a ser comentado senão muitos, todos e qualquer dos mundos que habitam sua biblioteca.

Sua obra é comparável a uma pintura, como ele mesmo diz, a um autorretrato. Suas frases, assim breves, “são os toques cromáticos de uma composição pointiliste.”[2] Este termo faz referência ao estilo com que alguns artistas de finais do século XIX pintavam seus quadros, o procedimento desta  técnica consistindo em pôr pontos de cor pura sobre a tela em vez de pinceladas; disso resulta uma uma “combinação” de tons que deixa a sensação desejada ao serem contemplados a uma certa distância. O leitor da obra de Gómez Dávila deve ter isso em mente para que saiba distanciar-se ou aproximar-se em busca da combinação harmônica de que resulta o retrato pintado pelo pensador bogotano: “Filosofia pointilliste: pede-se ao leitor que gentilmente faça a fusão dos tons puros.”[3] Pode-se afirmar sem dúvida de que da obra gomezdaviliana brota o retrato do homem, desse homem que é, no fundo, o sentido de toda investigação filosófica e que, em Gómez Dávila, é o sentido e o fim do seu reacionarismo, pois, mais que um reacionarismo político ou religioso, o filósofo bogotano é um reacionário moralista. Isto se pode afirmar com base no fato de que seu propósito, como fora afirmado parágrafos acima, é descrever o homem que vive entre fragmentos, seu ceticismo antropológico ainda que soe um jogo de palavras não é mais do que uma antropologia  reacionária.

Esta posição parte de deixar claro que no se trata pensar um homem idealizado, irreal, ou, neste caso, irrealizável, senão um homem frágil, que avança a pé – como diríamos coloquialmente –, esse homem que nasce rebelde, inapreensível, esquivo, cuja natureza repugna,[4] cuja condição deplorável se quis embelezar com uma ideia falsa de dignidade humana baseada na divinização da razão. Mas este homem tornado Deus não é o homem real, não é o homem concreto, é um ideal inalcançável produzido por sua mentalidade confundida pela não aceitação da condição humana tal como ela se manifesta na cotidianidade. Alguns fragmentos extraídos da obra do bogotano mostram isso que foi dito: “O homem afirma que a vida o envilece, para esconder que ela o revela”[5]; O amor que têm pelo homem futuro está constituído pelo seu ódio ao homem de carne e osso.”[6] O primeiro se refere ao não acatamento  da condição humana, a essa tendência a embelezar e deslumbrar a partir de uma “razão triunfante”, do engano que revela Pascal quando afirma que o homem não é mais do que mentira, falsidade, capaz de ocultar-se a si mesmo; na verdade é a vida que desmascara o homem e permite vê-lo como é na realidade, não como o homem embelezado e “mistificado”, mas como um homem de carne e osso. Desse homem sem máscara diria Miguel de Unamuno: “este homem concreto, de carne e osso, é o sujeito e ao mesmo tempo o supremo objeto de toda filosofia, queiram ou não certos falsos filósofos,”[7] este homem concreto é o que pretende pintar Don Nicolás, é aquele que podemos ver quando juntamos os tons puros de sua composição.

O retorno ao homem é uma solicitude permanente na obra gomezdaviliana.[8] Para além da crítica do autor à máquina moderna e toda sua parafernália progressista, o pensador dos Andes propõe voltar a mirada ao homem e apartá-la da máquina; por exemplo, pensa que o moderno deveria humanizar a r técnica antes de tecnicizar o homem – e esta preocupação se deve ao fato de que cresce cada vez mais a ausência de humanidade no homem, de que o homem se torna cada vez mais frágil, mais perdido em meio a um mundo tecnicizado, de que quanto mais elemental e néscio é o homem, mais a máquina parece tornar-se mais complexa a cada dia. Também descobre que o homem moderno parece não se importa com sua decadência, ao ponto de não prestar atenção ao próprio conhecimento, de abandonar-se à própria sorte em meio à sua ignorância, chegando ao ponto de conhecer mais o mundo do que a si mesmo.

Aqui só se mostra uma maneira de ler esse retorno ao homem que parece a Don Colacho não apenas urgente, como necessário. Desde que traçou seu itinerário em Notas (seu primeiro livro publicado), se questionou sobre uma solução frente à barbárie da existência: “Me é impossível viver sem lucidez, impossível renunciar à plena consciência da minha vida”,[9] em referência ao princípio socrático segundo o qual uma vida sem reflexão não merece ser vivida. Neste propósito que se assume Don Colacho, e que ele tenta cumprir até o último dia da sua vida, pode-se ver o princípio délfico antigo gnóthi seautón (conhece-te a ti mesmo) que deriva nas técnicas do cuidado de si. Nesta ordem de ideias, viver uma vida lúcida implica estar consciente de si mesmo, dos limites de sua condição, de sua incapacidade; mas também de seu alcance e sobretudo de estar disposto a cuidar de sua alma. Noutras palavras, e se estendermos esta confissão do pensador bogotano, é impossível que o homem viva realmente se não fazendo-se consciência de sua condição de criatura: frágil, fragmentado e, de fato, inconsistente, pois, pela perspectiva cética de Gómez Dávila, só há duas maneiras pelas quais o homem pode assumir sua condição, ou vive a si mesmo como angústia[10] ou o faz como criatura.[11]

A alternativa proposta por Gòmez Dávila ante o sem-sentido da vida é, por um lado, a religião, por outro, a arte. Tanto as expressões artísticas quanto o espírito religioso são insubstituíveis, inevitáveis, e, de fato, fundamentais para se compreender essa terrível tragédia que é a existência mesma do homem, essa manifestação da alma humana através dos sentidos: nas cores, nas superfícies, nos sons, etc.; por outro lado, a religião abre o horizonte ao homem que finalmente compreende que sua vida não termina com a morte e que ao dar esse último passo na existência outro futuro o aguarda. Tanto o espírito religioso quanto a arte brindam essa confiança de transcendência ao ser humano, essa possibilidade de prolongar-se indefinidamente. Posto que a religião, assim como a arte, reponde a esse caráter humano de fascinação pelo efêmero em que se dão de maneira simultânea o presente e o passado, o presente como esse fluir que se nos esvai como água entre os dedos, o passado como essa possibilidade de prolongar-nos, de conservar e reter o fugidio, e é a arte, enquanto esforço criativo, que nos permite permanecer, que perpetua os instantes através de sua linguagem. Assim mesmo o espírito religioso busca prolongar os instantes, servindo de indício ao crente de sua transitoriedade quando se deixa fascinar, quando se deixa atrair por sua linguagem misteriosa y simbólica, quando compreende que também compartilha a mesma condição frágil, vacilante, inquieta, etc., e que através dela (a religião) ele pode ser transfigurado.

E, não obstante, isso não significa que o homem encontre as respostas a suas inquietudes na religião, antes o contrário: encontrará na religião outro edifício de problemas, por ser essencialmente humana. A religião católica – voltando ao nosso autor – não é solução porque a razão de ser do cristianismo é servir de caminho,[12] de ser uma ponte entre o homem e Deus. É neste que o homem encontra todas as respostas e onde sua vida adquire sentido: à medida que Nicolás Gómez Dávila nos mostra o Criador próximo de sua criatura, sempre que o homem saiba buscá-lo com humildade. Deus brinda-o com sua proteção a pesar de sua debilidade, acolhe-o apesar de sua soberba, se – e apenas se – o homem esteja disposto a reconhecê-lo como seu criador. Pois, à medida que o homem se sente criatura, Deus o faz sentir misteriosamente albergado, protegido, nunca abandonado. O Criador faz com que o homem não seja mais um instrumento vazio levado pelas águas do progresso e da técnica, que não seja apenas uma peça mecânica de toda a engrenagem moderna,[13] mas que, apesar de tudo, o homem siga sendo um fim em si mesmo: “A Igreja [como Vicária de Deus no mundo], com efeito, não vê o homem como peça inerte sobre o tabuleiro do destino, mas como um agente insubmisso de desígnios que o tem como fim.”[14]

Apenas a fé, na filosofia gomezdaviliana, aproxima o homem do seu próprio conhecimento,[15] para que tenha consciência de sua condição, e apenas a fé o salva da angústia, apenas ela – como vimos no parágrafo anterior – resgata-o de ser apenas um instrumento e um meio, e o revela, tal como é, como um fim em si mesmo. Essa religião filosófica é regida por dois princípios que vivem em total cumplicidade: o ceticismo e a fé,[16] sem os quais não se poderia pensar, pois apenas o ceticismo nos empurra para uma total incredulidade, a um agnosticismo, à irresolução; apenas a fé nos submete a um fideísmo irracional, a uma teologia sincrética e absurda. Para que estes princípios convivam é necessário que se assente como base filosófica do Credo in Deum a tese que ditara o pensador bogotano com o escólio: “Do importante não há provas, apenas testemunhos.”[17]
(Nota: agradeço o convite de Rodrigo Inácio Ribeiro para publicar este humilde texto. Escrevi-0 sem mais pretensões que corresponder à sua sincera amizade filosófica.)

Alguns aforismos de Nicolás Gómez Dávila:

“Só vive a sua vida aquele que a observa, a pensa e a diz; os demais são vividos por sua vida.” (Escolios a un texto implicito)

“Entre poucas palavras é tão difícil esconder-se como entre poucas árvores.” (Escolios a un texto implicito)

“As almas que não são teatro de conflitos são palcos vazios.” (Escolios a un texto implicito)

“O mistério é o único infinito que não parece prisão.” (Escolios a un texto implicito)

“O cristianismo não inventou a noção de pecado, mas a de perdão.” (Escolios a un texto implicito)

“Só há epifanias no silêncio dos bosques. Ou no silêncio da alma.” (Escolios a un texto implicito)

“O fragmento inclui mais que o sistema.” (Escolios a un texto implicito)

“Não pertenço a um mundo que perece. Prolongo e transmito uma verdade que não morre.” (Escolios a un texto implicito)

“Entre o ceticismo e a fé não há conflito, mas pacto contra a impostura.” (Nuevos Escolios a un texto implícito)

“O moderno conhece cada dia mais o mundo e menos o homem.” (Sucesivos Escolios a un texto implícito)

“O fragmento é o meio de expressão daquele que aprendeu que o homem vive entre fragmentos.” (Nuevos Escolios a un texto implícito)

“O mais notório das conquistas do homem é sua trivialidade.” (Sucesivos Escolios a un texto implícito)

Tradução do espanhol: Rodrigo Menezes

Notas:

[1]     Catolicismo pré-conciliar faz referência aqui à série de mudanças na Igreja que começaram a gestar-se do século XIII em diante, a abertura ao mundo universitário, a chegada dos Conciliaristas (que afirmavam que o Papa devia submeter-se ao que era decidido pelos Concílios), eventos que abriam uma brecha com repercussões importantes nos Concílios Vaticano I e II. Começa uma dessacralização da Igreja devido à descristianização da ciência e o apogeu da Escolástica que introduz ideias muito questionáveis e até heréticas baseadas no pensamento de Guilherme de Occam. E o que Gómez Dávila vai mais combater é a cristianização dos princípios aristotélicos empreendida por Tomás de Aquino, esse ato do Aquinate desembocaria – como não há dúvida – nas futuras Reformas e nas novas heresias da Igreja que não poderão ser enfrentadas como antes e que vão deteriorar tanto sua estrutura sócio-política quanto espiritual. O claro reflexo dessa crise da Igreja chega a um ato conclusivo e lamentável que conhecemos como Concílio Vaticano II, convocado po Jõao XXIII e concluído por Paulo VI, e cuja aplicação permanece em nossos dias.

[2]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo I, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 15.

[3]     Gómez Dávila, Nicolás, Notas 2a ed, Bogotá, edición digital autorizada por Villegas editores, 2007, p. 401.

[4]     O itálico pertence ao fragmento: “O homem nasce rebelde. Sua natureza o repugna.” Gómez Dávila, Nicolás,Textos I, Bogotá, edición digital autorizada por Villegas editores, p. 2.

[5]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo II, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 102.

[6]     Gómez Dávila, Notas, óp. Cit., p.75.

[7]     Unamuno, Miguel de, Del sentimiento trágico de la vida, Edición digital publicada por Medellín ciudad digital, p. 1.

[8]     Leia-se, por exemplo, o escólio: “A filosofía precisa retornar ao homem a cada tantos séculos.” Gómez Dávila, Nicolás, Nuevos escolios a un texto implícito, Tomo II, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 111.

[9]     Notas, p. 39.

[10]   O teólogo alemão Hans Urs Von Balthasar afirma, logo depois de fazer una extensa referência ao problema da angústia em Kierkegaard, que a angústia não debe ser considerada um problema do homem moderno, mas que sempre existiu no homem de todas as épocas; acontece que a modernidade possui certas características que fizeram com que essa angústia – própria da natureza do homem – aumentasse: “(…) um mundo mecanizado, cuyo mecanismo inaudito absorve inexoravelmente o mole corpo e a alma do homem, transformando-o numa roda do mecanismo – de um mecanismo que, absorvendo tudo, chega a não ter sentido – : a angústia do homem numa civilização que faz saltar a medida humana e cujos espíritos ele não pode voltar a sujeitar.” Von Balthasar, Hans Urs, El cristiano y la angustia, Madrid, Ediciones Guadarrama, 1964, p. 27-28.

[11]   “O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.” Gómez Dávila, óp. Cit. Escolios… Tomo I, p. 138.

[12]   Isto se vê de maneira excepcional no cristianismo primitivo e original; com efeito, antes de se chamarem cristãos, eran chamados de Discípulos do Camino aos Seguidos de Cristo. O esclarecimento se deve ao fato de que ese cristianismo se degenerou, sobretudo no Ocidente, ao longo dos séculos, convertendo-se no sincretismo religioso de que somos testemunhas na atualidade, e que tanto critica, com firmeza, Don Colacho em sua obra.

[13]   Infra nota de rodapé 9.

[14]  Textos, p. 87.

[15] “Entre o ceticismo e a fé há certas conivências: ambos minam a presunção humana”. Gómez Dávila, Nicolás, Sucesivos escolios a un texto implícito, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 36.

[16] Talvez se possam encontrar razões para esta certeza na leitura que Gómez Dávila faz de Pascal, já que o filósofo francês afirmara: “É necessário, para que uma religião seja verdadeira, que tenha conhecido nossa natureza. Ela deve ter conhecido a grandeza e a pequenez, e a razão de uma e de outra. Quem as conheceu, senão a religião cristã?” Pascal, Blaise,Pensamientos II, edición digital de El Aleph, 2001, p. 13, § 433.

[17]   Gómez Dávila, óp. Cit., Nuevos…, Tomo I, p. 50.

“Para que ler?”, por Nicolas Cavaillès (Dossiê Cioran/Magazine Littéraire)

Cioran na Magazine LittéraireGrande leitor, Cioran parecia assim desmentir seu pessimismo: se ele ainda buscava, devia muito bem permanecer uma sombra de esperança. Mas ele não estava à procura de argumentos salvadores, e sim de irmãos de fatalismo.

Por Nicolas Cavaillès

Texto publicado no dossiê “Cioran: désespoir, mode d’emploi”, Magazine Littéraire no. 508, Maio de 2011

A absurdidade de uma vida passada a vasculhar bibliotecas em busca de novas expressões para antigas verdades sem dúvida ultrapassa aquela de sua proclamação lancinante, por vezes explosiva e nuançada, sempre mais decepcionada, distante e cinzelada. Filho do pessimismo germânico fim de século, de Schopenhauer e sua sucessão (Cioran segue os cursos de Nicolai Hartmann em Berlim, entre 1933 e 1935), discípulo entusiasta dos profetas da decadência que Nietzsche queria derrotar, o escritor em seguida tomaria cuidado, na França, de colocar entre aspas essa palavra que se lançava outrora como um insulto: “pessimista” equivalia a “canalha”. Não obstante ele conheceu todas as hipóstases que os raros aristarcos do pessimismo inventariaram: pessimismo especulativo ou espontâneo (James Sully, 1877), cultural, metafísico ou existencial (J. F. Dienstag, 2006), ou ainda pessimismo hexaédrico (Georges Palante, 1914), de cujo detalhe poupamos o leitor para melhor nos inspirar nele na frase seguinte. Assim, ao pessimismo nevropático e niilista da juventude de Cioran, resultante tanto de um drama existencial pessoal quanto de uma reflexão antropológica sobre a história e seu “sentido trágico”, se seguirá  um pessimismo da maturidade, não menos fatalista (à romena), fruto de uma misantropia desabrochada (aquela de um Chamfort, de um Swift), confortada por suas visões obscuras sobre a história (por Valéry, por Maquiavel), e avivado por uma atenção especial em relação às sabedorias orientais, inclusive em relação à ciência e suas últimas lições: “Tendo aberto uma antologia de textos religiosos, caí logo de cara nessas palavras do Buda: ‘Nenhum objeto merece ser desejado.’ – Fechei o livro imediatamente, pois, depois disso, o que ler ainda?”; “O dia que li que em quinhentos mil anos a Inglaterra será completamente recoberta de água, me joguei na cama em sinal de abdicação e de luto.” Que demônio Cioran, leitor insaciável, satisfazia com essa resistência inveterada ao ceticismo, ao qual, por outro lado, ele se atinha? “O pessimismo – essa crueldade dos vencidos que não saberiam perdoar a vida por haver enganado sua espera.”

Também as horas solitárias e melancólicas dedicadas a atravessar as obras dos outros poderiam acarretar a escrita, homenagem tácita à leitura e prolongamento catártico de sua sede de desilusão. Tudo é duvidoso, tudo é insuportável, mas de tal maneira que deveríamos ser agradecidos àqueles que puderam exprimir sua complexidade, por mais que sejam, sempre, estéreis, essa complexidade revelada e suas diversas expressões. Não existe um cenáculo dos pessimistas, mas por vezes correspondências, instantes de reconhecimento, de sinais compartilhados aos quais se enviam certos espíritos sem saber a quem, do seu obscuro isolamento. O pensador, o poeta, qualquer que seja seu nome, permanece à margem, extenuado, perdido, sozinho, excluído de uma sociedade nociva aos caminhos que levam ao essencial.

Curiosidade nascida da intranquilidade

Flanêur curioso sobre a maneira com que cada pessoa suporta o seu quinhão, Cioran frequentou bastante os tribunais e os asilos de loucos (Em Sibiu, em Bucareste, em Berlim, em Sainte-Anne), ou seja, os teatros mais cruéis da vida moderna; desde seus primeiros anos em Paris, anos de extrema solidão, errando pelos bulevares do Quartier Latin, lhe ocorria de interrogar os passantes, de preferência os desajustados e os mendigos, simplesmente para conhece-los, para escutá-los falar, para saber como eles (não) davam um jeito de (sobre)viver. É uma curiosidade similar, nascida da intranquilidade, que o levaria a esgotar as bibliotecas, por algumas dessas correspondências raras, fugidias, reticentes, a partir das quais cérebros mais necessitados ou menos confusos seriam tentados a reconstituir uma tradição daqueles que não possuem uma. Em seu último livro, Aveux et Anathèmes (“Confissões e Anátemas”), como nos precedentes, Cioran registra diversos desses encontros com irmãos desconhecidos, de que apenas um dizer seria suficiente para uni-los a ele. Ele exuma: “’Deus não criou nada que odeie tanto quanto odeia este mundo, e tanto o odeia que, desde o dia em que o criou, nunca olhou para ele.’ Não sei que foi o místico muçulmano que escreveu isso, ignorarei para sempre o nome desse amigo.” Que ele cite aqui uma carta do asceta al-Hassan al-Basrî ao califa Omar II, datada do século VIII, é importante e não é. Mais ainda: “Segundo um chinês, uma única hora de felicidade é o que um centenário poderia confessar após ter refletido bem sobre as vicissitudes de sua existência. […] Já que todo mundo exagera, por que os sábios seriam exceção?” Yang Tchou, o chinês em questão, viveu durante o último milênio a.C., devendo a Lao-Tsé por ter sido privado, até os dias de hoje, de um supremo esquecimento que, não obstante, não o teria incomodado. Similarmente, o grego Hegesias considerava a vida e a morte “igualmente desejáveis”; similarmente, Hegesias encontra em Cioran um novo eco: “’A vida só parece um bem ao insensato’, costumava dizer, há vinte e três séculos, Hegesias, filósofo cirenaico, do qual praticamente resta apenas este comentário… Se há uma obra que eu amaria reinventar, é a sua” (De l’inconvenient d’être né). Hegesias, o “Pisithanatos” (aquele que aconselha a morte) só nos é conhecido por dez linhas de Diógenes Laércio (e pela onda de suicídios que sua filosofia teria produzido, ao ponto de ser proibida por Ptolomeu II); alguns fragmentos bastam, àqueles que não buscam nem auréola nem transcendência, mais apenas “alguma coisa que se possa murmurar à orelha de um ébrio ou de um moribundo”. Como queria Chestov, a essência dos livros como dos olhares que se cruzam se dá num instante por toda a eternidade eventual, e não se explica nem se argumenta. De seus laços com outro homem honesto, Leopardi, cuja infeliz lucidez no que concerne à mediocridade humana o fez ser qualificado de pessimista, Cioran escreve: “São menos os autores que mais lemos os que mais importam para nós, quanto aqueles sobre os quais não cessamos de pensar, que têm estado presentes em nossos momentos essenciais e que, para o seu martírio, nos têm ajudado a suportar o nosso.”

Escapatórias da erudição

Assim, apesar da pose ociosa que ele assumia com frequência, e apesar da lassidão que o corroía sempre, não é sem zelo que Cioran se entregou à leitura. A ilimitação dessa curiosidade mórbida e subjetiva, dessa busca obsessiva pelos cantos mais sombrios – os mais justos – de todos os tempos e de todos os lugares, não deixou de lhe valer a crítica de superficialidade e diletantismo, por exemplo sob a pluma possessiva e maldizente de [René] Étiemble em seu prefácio aos Philosophes taoïstes da Pléiade (1980). Cioran tinha se adiantado, escrevendo em 1952: “Aprofundar uma idéia é atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e até a vida…” Refratário às escapatórias [faux-fuyants] ronronantes daqueles que preferem a história dos problemas aos problemas mesmos, ou ainda o estudo dos sutras à pratica do zazen, Cioran os reencaminha à ligeireza que mascara sua erudição: “Apenas os espíritos superficiais abordam as ideias com delicadeza.” Não se trata, ao ler, nem de se divertir nem de fomentar cultura, mas de recolher algum novo elemento suscetível de nos confortar em nosso esforço de lucidez e de ceticismo, duplo esforço de hostilidade ao mundo tal qual se o vive e ao eu tal qual se o suporta – tantas ilusões, tantos disfarces do pior. Mesmo que dificilmente se acreditaria nisso, é preciso retornar aí, não ser um “pessimista sem entusiasmos”, e cultivar a percepção da vacuidade geral sem elevar essa percepção sobre seu objeto: “O homem debruçado sobre sua inutilidade já não pertence ao desejo de ter uma vida […] já não se embaraça com um si mesmo ideal” (Breviário de Decomposição). É à medida que nos ajudam que os livros, mesmo os dos filósofos, sustêm sua inanidade.

Traduzido do francês por Rodrigo Menezes

01/01/2014

Paulo Piva: “A evolução do pensamento cético”

Desde a Grécia Antiga, com a escola pirrônica, as idéias do ceticismo foram debatidas e combatidas, com importante papel nas transformações da Filosofia moderna

POR PAULO JONAS DE LIMA PIVA – Artigo publicado no portal Ciência e Vida

Passamos a entender um pouco melhor o ceticismo filosófico e a perceber o quanto Sócrates, o patrono da filosofia e mestre de Platão, era dogmático e pretensioso quando nos deparamos com a seguinte frase de Metrodoro de Quiós, um discípulo do atomista Demócrito: “Nem sei se nada sei”. Contra a certeza e, portanto, contra a falsa modéstia do “Só sei que nada sei” socrático, a dúvida e a desconfiança cética de Metrodoro de que é possível que saibamos algo. Assim sendo, o ceticismo não é um pessimismo ou um negativismo epistemológico como muitos o definiram. Cético não é aquele que afirma que a verdade não existe, mas sim aquele que confessa não conhecê-la, sem com isso desistir de procurá-la.

Em 1562, surgiu na Europa uma tradução latina das Hipotiposes pirrônicas, do médico grego Sexto Empírico, por assim dizer, a “bíblia” do ceticismo originado com Pirro de Élis, no século IV a.C. Era a época do Renascimento, momento em que, no caso específico da Filosofia, o pensamento passou a intensificar sua luta contra a ideologia da Igreja de que a Filosofia deveria ser serva da Teologia. Estimuladas em grande medida pelo método e pelas objeções céticas difundidas por essa tradução. As discussões filosóficas do período, cujo tom era dado pelo conflito entre fé e razão, deram origem a uma forma curiosa de ceticismo: o ceticismo cristão, também classificado paradoxalmente de “ceticismo fideísta ou fideísmo cético”. Filósofos cristãos como Michel de Montaigne (1533- 1592), por exemplo, usaram todo o arsenal cético de argumentação para demonstrar que a razão era limitada e insuficiente para estabelecer critérios seguros e definitivos sobre os quais pudesse se erigir verdades indubitáveis, e que os sentidos eram enganadores, enfim, para persuadirem que o saber das ciências era de fato precário. Portanto, de acordo com esses religiosos céticos, o mais adequado aos homens seria mesmo se apegar à fé, ou seja, orientar-se na vida, sobretudo, pelos dogmas da Bíblia e da religião católica, pois seria mais seguro… [+]